O corpo em pessoa
Espanta-me a vossa incredulidade! Não estão habituados, porventura, a ver surgir vivas, aqui em cima, umas atrás das outras, as personagens criadas por um autor? Será por não haver (...) um guião que nos contenha? Pirandello (2009: 113). Cinco homens, desenhados a pincel com tinta da china preta, sentados em cadeiras vagamente sugeridas ou mesmo inexistentes, nascem do arquivo de imagens de Pedro Saraiva. Criadas a partir de fotografias e ilustrações anónimas, de auto-citações ou de citações de outros autores, entre os quais supomos identificar Rembrandt, Dürer, Antonio López García e Paula Rego, estas figuras resultam de sucessivas operações anatómicas, já não sobre o corpo, mas sobre a imagem e a sua encenação, reforçada por incoerências formais e pelos enigmáticos atributos de cada uma delas: uma vaca sem cabeça (Figura 1), um cálice (Figura 2), nove abelhas (Figura 3), uma vara (Figura 4) ou um rato (Figura 5). Metodicamente construídos, estes corpos compósitos, a salvo de qualquer vínculo de semelhança, existem à imagem do homem, como a figura geral de que fala Pierre Restany, no diálogo com Bourriaud, a propósito do monstro, nele encontrando a possibilidade de ser a chave de todas as histórias. Mas se esse é o seu destino, a sua origem reside sempre no desvio de uma forma (num disforme) ou na demora em chegar a ela (um informe), aí residindo também a sua liberdade de poder ser qualquer forma, de decidir a emenda ou o remendo que ininterruptamente o reescreve, a partir do antepositivo latino mendum que tanto significa defeito físico como erro ou incorrecção num texto. Neste sentido, o monstro é por excelência a figura da espera, a personagem que procura o seu autor, i.e., a personagem que aguarda o guião que a contenha e que a faça existir pluralmente, no seu drama e na cena em que ele for representado, como escreve Pirandello: “O drama, para mim, está todo aqui [...]: na consciência que tenho de que cada um de nós [...] se julga «um» mas não é verdade: são «muitos» [...], «muitos, segundo todas as possibilidades de ser que estão em nós; «um» com este, «um» com aquele [...]” (Pirandello, 2009: 127). Considerando que a figura do monstro é geradora e produto de um imaginário que se normaliza e dos jogos de identidade que ela comporta, Restany di-lo-á de outro modo, de novo no contexto do corpo: “O corpo liberta-se na condição
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (4): 23-30.
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o que garante que o corpo ‘se [individualize] através da narrativa’, a fim de poder conter todas as histórias e de poder existir de todas as maneiras. Este é o argumento de análise de cinco figuras desenhadas por Pedro Saraiva. O objectivo é verificar como, vindas de fragmentos de corpos e histórias anteriores, elas são, como as personagens de Pirandello, o texto a escrever e a sua representação.