Gamito, Maria João (2011) "Pedro Saraiva: o corpo em pessoa: Cinco desenhos à procura de um artista."
o equívoco da compreensão recíproca fundado irremediavelmente na abstracção vazia das palavras; a múltipla personalidade de cada um consoante as possibilidades de ser que se encontram em todos nós; e, por fim, o trágico conflito imanente entre a vida, que incessantemente se move e muda, e a forma imutável, que a fixa (Pirandello, 2009: 93). Um segundo princípio de separação é enunciado por Daniel Arasse quando, convocando Louis Marin e citando os preceitos de Alberti para quem a primeira operação do pintor é traçar ‘uma janela aberta’, lembra que essa janela não abre para o mundo mas para a historia, sendo “um limite a partir do qual se pode contemplar a história, um limite no qual se funda a autonomia da representação” (Arasse, 2005: 415) e a sua inscrição no espaço como coisa para ver. No mesmo texto, Arasse considera que as práticas de controlo do corpo – a anatomia e as regras de comportamento a que ele se submete – contemporâneas da sua glorificação na representação clássica, constroem novas possibilidades de representação, uma a operar sobre o corpo invisível, a outra sobre as suas manifestações visíveis, no que define como a “consciência ‘moderna’ do corpo” que mais não é do que “a [sua] ‘modernidade’ antropológica” (Arasse, 2005: 435). No contexto desta hipótese, instaurada sobre um terceiro princípio de separação (o que separa o interior do exterior ou a revelação da dissimulação), o corpo teatraliza-se, no duplo sentido de se dar a ver, encenado nos teatros anatómicos e nos tratados de anatomia, até muito tardiamente indissociáveis da representação artística, ou encenado, na arte como na vida, de acordo com a retórica da civilidade. Por isso, um corpo é muitos corpos, cada um deles aberto a múltiplas narrativas colectivamente produzidas. Num diálogo com Pierre Restany, publicado no catálogo da exposição Le corps mutant, Nicolas Bourriaud detecta um fenómeno na produção do corpo, desde a década de noventa do século XX, redutível a quatro figuras – o monstro, o clone, o andróide e o transexual – que têm em comum (com excepção do androide) o facto de o seu corpo “[se tornar] cenário, [ser] o produto ou o início de uma história” (Bourriaud; Restany, 2000: 21), mas agora de uma história individualmente produzida. Aí se instala um quarto e último princípio de separação:
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chegam as personagens abandonadas pelo seu autor, para viverem, num drama que não era o seu, a imortalidade da cena que lhes coube perante os actores que de improviso são chamados a representá-las. Comparando o ‘mistério da criação artística’ ao ‘mistério do nascimento natural’, Pirandello alega que tanto a mulher como o artista acolhem em si princípios de vida a realizar, uns nascendo como pessoas para o mundo dos vivos, outros vivendo como personagens no mundo da arte. Em ambos os casos trata-se sempre da separação de corpos que se autonomizam para viver, como pessoas ou como personagens,