172 Taveira, Rogério (2011) “O Corpo como Vazio na obra de Alberto Carneiro.”
Uma entidade que põe em marcha todas as mutações e que contém, simultaneamente, os segredos do código primordial já que se encontra ligado ao Vazio absoluto. E é precisamente neste entre que o escultor se ausenta. Um entre, aqui também centro, num posicionamento claro sobre o papel do artista. O corpo do escultor é, assim, centro, modelo dimensional e energia actuante nesta escultura. Nela, apenas existem os extremos da mandala, delimitadores de um espaço que permanece vazio sendo este, no entanto, o centro da significação. Existe um deliberado devir do escultor e escultura. Ambos são um só e o seu devir é conjunto, tal como Vazio não é exterior nem oposto ao Cheio na cosmologia chinesa. A escultura não é constituída apenas por quatro troncos de mogno esculpidos, mas pelo conjunto destes com o vazio que os medeia. Vazio que é o elemento dinâmico desta obra, para além de ser o seu centro. Visível e invisível fazem parte de uma mesma realidade que torna sensível o invisível. Unidos numa mesma sensação na presente escultura, visível e invisível, cheio e vazio, apresentam-se como complementares imprescindíveis ao entendimento da obra. De um modo mais amplo, extrapolamos este princípio para o conjunto da obra de Alberto Carneiro, onde o artista tem tentado encontrar a união indissociável do ser com o ser-arte, descobrindo nesta abordagem uma forma singular de representação além da representação. As questões formais são, na sua escultura, consequentes do próprio acto de esculpir e da forma íntima de se relacionar com as matérias. Por isso Alberto Carneiro diz “O meu corpo subtil é o princípio e o fim da minha arte: ela é nele e por ela é” (Carneiro, 2007: 39). Conclusão
Este é o corpo subtil presente na ausência. União de espírito e matéria, do “ser e do estar” como nos diz Alberto Carneiro (Carneiro, 2007: 49). Este é o caminho procurado pelo escultor ao longo de toda a sua carreira, a união simbiótica entre matéria e corpo, Cheio e Vazio. Visão taoista expressa no Zhuangzi e reiterada or Shitao: “Ma naissance est solidaire de celle de l’Univers; je ne fais qu’un avec l’infinité des êtres” (Ryckmans, 2007: 80). O corpo, elemento central no discurso e obra de Alberto Carneiro, ausente na representação mas presente na acção transformadora da matéria, seja ela espacial ou temporal. Corpo, desmaterializado e incorporado na obra através da acção ou do vazio, é também o receptáculo e centro de mutações da experimentação dos elementos, os quais através da intencionalidade poética se materializam no esculpir da floresta (madeira) ou da montanha (pedra). Esta é a liberdade de habitar o mundo poeticamente.