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:ESTÚDIO 4

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170 Taveira, Rogério (2011) “O Corpo como Vazio na obra de Alberto Carneiro.”

em oposição rígida, estagnado. O Vazio conferia dinamismo a estas relações provocando um devir recíproco das diversas entidades. Era através deste vazio médio que os pintores taoistas conseguiam criar a sensação de que a Montanha podia fundir-se com o Vazio diluindo-se em ondas e que a Água, inversamente, passando pelo Vazio poderia erigir-se em Montanha. Este devir recíproco verifica-se a diversos níveis: para além dos elementos representados, é o próprio homem que devém em conjunto com a natureza, tal como espectador e obra. Contrário ao princípio do ponto-de-vista perspéctico ou da separação homem-objecto da filosofia ocidental, este devir conjunto deve-se precisamente à não existência de centralidade. Como disse Fang Shih-shu (Cheng, 1989: 41), as montanhas, águas, ervas e árvores, procedem da criação natural, encarnam o Cheio. O artista que apreende o universo pelo espírito, encarna, ele próprio, o Vazio. Trabalhando no Cheio, o artista deve fazer aparecer o Vazio na qualidade de ser e não-ser. Através desta abordagem o artista consegue atrair o Vazio original e captar as imagens invisíveis. Neste entendimento da arte como parábola da criação existe uma representação além da representação, uma paisagem além da paisagem. Tal como a vida, a obra de arte traduz inacabamento. A obra, tal como todos os fenómenos cósmicos, está em perpétua mutação entre a forma e o informe. O tempo histórico altera as percepções do fruidor que assim encontrará novos significados e questões na obra. Na visão taoista, quanto mais a obra se fundar no Princípio (Vazio Supremo), mais capacidade terá de responder, já que o princípio é imutável. O artista deveria posicionar-se nesse constante fluir, não temporal e não espacial, a partir do qual lhe seria possível aceder à fórmula de todas as mutações. A componente ternária que intervém em todos os pares complementares, o vazio é, nesta macrovisão, o próprio homem, as outras duas o Céu e a Terra. O corpo subtil

Alberto Carneiro após a leitura de Laozi aquando da sua estada em Londres em 1968, começou a questionar a sua obra, já reconhecida com o prémio nacional de escultura no ano anterior. As anameneses surgiram como ponte para a re-experiência dos elementos naturais da sua infância rural. Na criação de O canavial: memória-metamorfose de um corpo ausente, “o escultor encontrou uma forma de veicular um conjunto de ideias que determinou como sendo o seu universo autoral” (Rosendo, 2007: 93) e de um modo mais amplo, estas ideias tiveram um enorme impacto na arte portuguesa, seguindo já o caminho daquilo a que Rosalind Krauss cunhou como expanded field (Krauss, 1998: 277290). Alberto Carneiro sempre sublinhou que a importância de O canavial… se encontrava mais no corpo ausente do que na articulação dos diversos elementos (canas) que constituem a instalação. À semelhança de outras obras deste autor, a movimentação do fruidor reconstruirá uma experiência, já não a do autor, mas


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