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:ESTÚDIO 4

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o espaço em que se insere, é também uma narrativa acerca do próprio espaço e do modo subjectivo como ele se transforma perante os nossos olhos à medida que é habitado, atravessado e desabitado por esse corpo. 2. O vidente e o visível: ver, ver mais, ver através de Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (4): 12-18.

A ideia perspéctica e ficcionalmente moderna, nascida no Renascimento, do observador como aquele que vê através de (isto é, da superfície de representação) e a consequente ideia da superfície como janela aberta, segundo Alberti (1435-1436: I, 19: 83, 227), ou vidro transparente, segundo Leonardo da Vinci (c.1478-1518: I, n.º 53), é aqui duplamente explorada: as representações de Francisco Afonso Chaves são efectivamente em vidro (tanto em negativo como positivo) e é através dele que, com um dispositivo estereoscópico, o observador é levado a ver um outro mundo que, sendo ficcional, é perceptivamente verídico e sensorialmente convincente. Assim, o sujeito vidente não é apenas aquele que é dotado da capacidade de ver – no sentido em que, como afirmou Merleau-Ponty, «imerso no visível graças ao seu corpo, também ele visível» o corpo do observador é «ao mesmo tempo vidente e visível» (Merleau-Ponty, 1961: 20) – mas aquele que é dotado da capacidade de ver mais (mesmo que para isso seja necessário encontrar numa máquina a necessária extensão das faculdades visuais do seu corpo). Ver mais tanto significa ver o que, estando presente no mundo visual, é habitualmente invisível, como ver o que é invisível porque, simplesmente, está ausente do mundo visível. Nesse sentido, contrariamente ao que afirma Richard Wollheim (1923-2003), a imagem, na sua capacidade de representar objectos, lugares e acontecimentos, não se refere essencialmente ao que é visível mas antes a tudo aquilo que por via da representação pode ser tornado visível, isto é, «ser visto face a face» (Wollheim, 1987: 64) – não no mundo real mas no mundo ficcional da representação. Enquanto invenções ou ficções, as representações, pictóricas ou fotográficas, não são puras transcrições do mundo mas criações imaginárias que integram informação obtida através desta para que o que é representado permaneça reconhecível (Arnheim, 1986: 159). Também não se referem a algo necessariamente visível no nosso mundo imediato, mas relacionam-se com o conteúdo e o significado mais vasto do conceito de mundo, entendido como tudo aquilo que tem existência na esfera cognitiva do sujeito ou constitui uma experiência colectivamente partilhada. Por isso, a representação, na sua complexa relação com o real, a ficção e a ilusão, está centrada tanto no mundo invisível quanto no visível, procurando mostrar o que não pode ser visto, tornar concreto ou representável o que é irrepresentável e, em última análise, o que é espiritual (cf. Kubovy, 1986). A imagem como representação baseia-se, portanto, no estabelecimento de uma relação de comunicação, ao mesmo tempo intensa e particular, entre o artista e o seu observador, despoletada e reforçada pelo facto do primeiro ser,


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