1. A série: entre aparição e desaparição, o rasto luminoso de um corpo no espaço
Em 1920, apenas dois anos após o final da Grande Guerra, Francisco Afonso Chaves esteve mais uma vez em França. Tratou-se de uma das suas muitas viagens internacionais e, como era habitual desde, pelo menos, 1901, usou recorrentemente a sua máquina fotográfica estereoscópica Vérascope. Em Laon, a 12 de Junho (com a precisão que ele tanto gostava de cultivar nos seus registos), relativamente perto da fronteira com a Bélgica, visitou um amigo e, na intimidade do seu gabinete, fotografou-o em três imagens sucessivas que juntas formam um retrato ao longo de três momentos temporais consecutivos. No entanto, além de ser um peculiar retrato, esta pequena série é também a representação – feita de registo e de ficção visual – da relação dinâmica de um corpo com o espaço. Na primeira imagem vemos o corpo imóvel, veridicamente tridimensional e perceptivamente reconhecível, do amigo Berthrant sentado à secretária (Figura 1); na segunda, com o enquadramento da anterior, intuímos (mais do que vemos) o corpo em movimento, transformado num dinâmico rasto luminoso, imaterial e indeterminado (Figura 2); na terceira e última, na ordem estabelecida e registada pelo próprio autor nas chapas de vidro, o gabinete está desabitado, a cadeira afastada e a ligeira alteração no enquadramento, por rotação horizontal da câmara, permite-nos inferir, pela porta aberta que vemos do lado esquerdo da imagem, que o corpo antes presente se ausentou do espaço visível (Figura 3). Sendo devedora das investigações de Eadweard J. Muybridge (1830-1904) e de Étienne-Jules Marey (1830-1904), indissociável da nova arte do cinema e estabelecendo curiosas relações com a obra do futurista Anton Giulio Bragaglia (1890-1960), esta série tem, no entanto, uma natureza própria. Além de ser o retrato de alguém e a representação da relação dinâmica de um corpo com
Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (4): 12-18.
série, um exemplo entre muitos na obra fotográfica de Afonso Chaves, que assim demonstra a sua descrença fotográfica na completude, autonomia e auto-suficiência da imagem única. Esta série em particular, pela sua coerência temporal e narrativa, tem uma inegável qualidade cinemática: apresenta-nos três momentos sucessivos da relação de um corpo com o espaço. Mais importante, tem uma qualidade que se poderá designar por videncial: ao apresentar três momentos de transformação da nossa percepção visual, desde a percepção do visível até à mera memória dele, dota-nos, no decorrer deste processo, da capacidade de ver o que sem a fotografia nunca seríamos capazes de ver: a metamorfose do visível em invisível, do material em imaterial, do aparentemente sólido em pura luz. Neste sentido, Francisco Afonso Chaves transforma o sujeito visual em sujeito vidente: aquele que vê para além do visível e, nesse acto, é capaz de ver o que de outro modo seria invisível.