118 Araújo, Viviane Gil (2011) “Corpo e curadoria: duas propostas brasileiras.”
de discussão foram delineados: Corpo como identidade cultural; Corpo social; Corpo mídia; e Corpo e representação. Acompanhando a publicação um DVD continha o registro de dois documentários: um sobre a exposição de artes visuais, onde imagens das obras, declarações dos curadores e depoimentos dos artistas completavam, de certa forma, a exposição e outro confirmando a multidisciplinaridade do evento, intitulado Trilogia do Corpo Segundo um Cidadão Qualquer. Somando quase 90 artistas, a exposição O corpo na Arte contemporânea Brasileira se destacou não só por inventariar a produção nacional e suas reflexões sobre o tema, mas pelas já citadas modalidades criadas que buscaram abarcar o assunto em sua totalidade. Entre elas destacamos Corpo em ação, por ser apresentada em formato exemplar de arquivo documental, que inventariou a memória histórica das intervenções públicas brasileiras, desde Flávio de Carvalho (n. 1899), na década de 50, até a não presença ou presença indireta dos artistas que atribuiam uma mudança no próprio conceito de corpo. Os curadores justificam: Aqueles que começaram a trabalhar com performance na década de 80 já não operam na conjuntura de repressão política e da contracultura. No caso brasileiro, com a redemocratização do país, a questão torna-se difusa, não mais atrelada a uma ideologia ou foco de reação à ditadura. Ao contrário das ações da década de 70 , a performance dos anos 80 apresenta maior complexidade não só na preparação , que inclui várias etapas, mas porque comumente se relaciona a uma instalação. Isso significa uma autonomia do meio que se distancia de um evento naturalístico contestatório com um desenrolar temporal , como nas intervenções e happenings para se constituir em um processo mais abstrato e intelectualizado. A performance daí em diante legitima-se buscando sentido em si mesma e materializando conceitos da arte através de investigações como o corpo com dor, as relações com o espaço, ou com o social, ou ainda analisando a relação entre o artista e o público (Cocchiarali & Matesco, 2005, p. 41). Dessa forma selecionamos duas obras imporantes, não apenas como intervenção artística, mas por constituírem documentação de extrema relevância para a pesquisa de uma ação que não poderia ser recuperada de outra forma e, incontestavelvente, realizada de maneira própria a conjuntura política e cenário cultural do país. A ação Tiradentes: Totem-Monumento ao preso político (figura 5), de Cildo Meireles (1948), foi realizada em abril de 1970, quando o mesmo participou da mostra Do Corpo à Terra, em Belo Horizonte. Naquela semana, o regime militar havia organizado uma grande comemoração para o dia de Tiradentes, cujo mito de herói nacional estava sendo usado de maneira escusa. Na mostra que durou três dias, o artista construiu primeiro uma instalação, com tecidos brancos, em torno de uma estaca de madeira, onde prendeu dez galinhas vivas. O feriado de Tiradentes, correspondeu ao último dia do evento quando o artista ateou fogo às galinhas,