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:ESTÚDIO 4

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Seguro de suas perspectivas, o diretor determinou colocar na entrada da mostra um desenho de Ismael Nery (1900), artista responsável por criar, no início do século XX, desafios para a crítica de arte, ao representar entre suas pinturas e desenhos, um corpo que buscava alémtranscender seus limites, se unir intensamente a outras subjetividades e, na saída, para finalizar a apresentação das obras e sinalizar o fim do espaço expositivo, uma série de desenhos de Tunga (1952) - artista que naquele momento representava a melhor síntese de referênciais que transitavam do corpo ao transcendental. No espaço entre Ismael Nery e Tunga, a exposição Panorama 97- A experiência do Artista como Parâmetro, através de diferenciadas produções, buscou proporcionar um circuito delimitado da arte produzida naquela década, evidenciando que distintas dimensões da arte se mesclavam e arte e vida quase sempre se confundiam. No total, trinta e seis artistas participaram da exposição ente os quais salientaremos as artistas Nazareth Pacheco e Rosana Paulino por considerarmos suas obras exemplares da temática proposta. Observa-se que a Panorama 97 revelou, de certa forma, a saída de Nazareth

Revista :Estúdio. ISSN 1647-6158. Vol.2 (4): 113-120.

Impossível pensar nessa problemática da arte dos anos 90 e não rememorar a existência subterrânea de uma espécie de tradição no campo da arte brasileira deste século, que ampara as produções atuais, as quais trafegam dentro do território que quer ser exibido nesse Panorama. No Brasil os artistas que mais evidenciaram tais questões em suas obras foram Hélio Oiticica e Lygia Clark. Porém, muito antes deles e em paralelo às suas trajetórias, existiram outros artistas que devem ser lembrados pelo fato de terem concentrado suas respectivas obras igualmente nos limites do corpo e da memória, investigando-os em sua totalidade e buscando romper com as suas amarras. Flávio de Carvalho, Ismael Nery, Maria Martins e muitos outros aguardam análises que façam aflorar perspectivas insuspeitas de suas obras, perspectivas que redimensionem sem dúvida, o discurso sobre a arte produzida no Brasil, nesse século (Chiarelli, 1997, p. 15).

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à audiência o esfacelamento das linguagens estéticas tradicionais em detrimento do surgimento de poéticas que se manifestavam por meio de técnicas e linguagens das mais diversas como a pintura, vídeo, objetos, obras de tendência pós-minimalista e até figurativas. Deflagrado o novo cenário foi compreendido que a produção artística contemporânea partia cada vez mais de outras referências (que não aquelas postuladas pela arte moderna) e, assim percebido, para a realização Panorama 97 coube à curadoria de Chiarelli reorientar o sentido da mostra. Desta forma, foram mapeados artistas que trabalhavam com o corpo, sua imagem e seus resíduos como atestados de sua ação no mundo ou ainda aqueles que sugeriam uma memória afetiva, cultural ou étnica. O curador justifica:


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