Skip to main content

:ESTÚDIO 4

Page 103

102 van Langendonck, Aline (2011) “Corpo, objeto e espaço: passagem e sustentáculo”

Alem de trabalhos de amigos nas paredes e nos ambientes da sua casa, Nino coleciona objetos cotidianos que marcam épocas, formas, cores, desenhos e histórias. São tampas de panelas decoradas com motivos florais, malas, baldes, bacias, xícaras atadas e penduradas por suas asas, vasos de plantas no quintal e toalhas rendadas sobre os objetos. O que parece interessar, em especial, são as formas e cores como possibilidades de composição, reorganização do sentido do corpo e do espaço. Os utensílios são igualmente díspares, singulares e integram o espaço em uma organização própria, valorizando o imaginário cotidiano. Para alem disso, parecem dispostos no espaço de maneira não somente funcional como também afetiva, em um ato de ordenação e acumulo recorrentes que, conferem ao ambiente uma atmosfera em permanentemente ordem e desordem, produzindo questionamentos conflituosos nos campos objetivo e sensível. Os objetos ordinários experimentam espaços, transmutam significados, operam deslocamentos que causam estranhamento e logo em seguida parecem se acomodar em novos contextos.Isso ocorre por exemplo em Sem titulo (figura 1) no qual uma toalha de renda, mais acostumada a cumprir a função de cobrir uma mesa ou a ficar sob fruteiras, passa a ornar a cabeça do artista, proteger sua figura e sustentar um vaso com plantas. Sobre o fato de velar o rosto, em uma entrevista o artista comentou: Tem varias coisas na questão de cobrir o rosto. Há algo imediato: o semblante, o olho, a boca e o nariz são muito fortes. Nos trabalhos, busco um “nino corpo”, um corpo que não tem rosto ou expressão, que pode ser qualquer corpo. Acredito que tanto no desenho como na fotografia, quando não há uma feição, os objetos começam a criar suas feições, o rosto é transformado. Pensando em termos escultóricos, é como se esse corpo funcionasse com uma base. Gosto como Constatin Brancusi trabalha isso, ele é a referencia do trabalho em que me equilibro sobre as taças (Cais, 2010: 69). Num outro trabalho, Sem titulo (figura 2), o ato de empilhar de panelas, sustentando-as em cima da cabeça, faz com que o corpo ganhe mais tronco, uma coluna de vértebras metálicas, acrescentando-lhe uma extensão vertical que encontra limites arquitetônicos. Articulações no espaço: construindo redes

Ocupação, articulação, composição, vivência, extensão, amparo, apoio, contato, material e limite parecem ser algumas das experiências que estão em jogo nas ocupações espaciais propostas pelo artista. Em Maiastra (figura 3), o artista pesquisa a relação de equilíbrio do corpo com os objetos e o chão. Ele escolhe os utensílios de vidro, estuda os pontos de apoio e contato, o corpo delgado e em tensão executa uma postura regida pela relação


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
:ESTÚDIO 4 by belas-artes ulisboa - Issuu