100 van Langendonck, Aline (2011) “Corpo, objeto e espaço: passagem e sustentáculo”
Agora contarei como é feita Otávia, cidade-teia-de-aranha. Existe um precipício no meio de duas montanhas escarpadas: a cidade fica no vazio, ligada aos dois cumes por fios, correntes e passarelas. Caminha-se em trilhos de madeira, atentando para não enfiar os pés nos intervalos, ou agarra-se aos fios de cânhamo. Essa é a base da cidade: uma rede que serve de passagem e sustentáculo — Calvino, "As Cidades Delgadas" in Cidades Invisíveis Do que toca mais do que somente os olhos
De maneira análoga à estrutura de Otávia cidade-teia-de-aranha descrita pelo viajante Marcopolo em Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino o artista brasileiro Nino Cais se arrisca em busca de novos domínios espaciais, tateando o entorno por meio construções que articulam rupturas formais e limites simbólicos. A construção dos trabalhos do artista tem o corpo e os objetos que ocupam sua casa-ateliê como constante referencia, configurando uma atmosfera propria, situação que o rodeia e por ele é rodeada. As imagens, o corpo e a casa, parecem colocar incessantemente em questão a relação entre os objetos e o espaço, na investigação de possibilidades que revelam ambigüidade, contundência e delicadeza; assim como força e leveza; organização e construção. São dispostas em equilíbrio silencioso. As imagens propõe armações e por vezes blagues (*blague. nf do Francês. piada. faire une blague à quelqu’un fazer uma brincadeira com alguém. Fonte: dicionário UOL Michaellis) onde o observador se vê surpreendido, envolvido, maravilhado, curioso e incomodado diante das inesperadas composições. Nino nos transporta por meio das fotografias, vídeos e desenhos a instantes da sua vivencia espaço corporal, ligadas pelas extensões objetuais que formam redes, tramas, funcionando como ramificações e apoios fundacionais de um reino em delicada expansão. Cotidiano dos objetos
O artista aporta aos objetos mais corriqueiros novas funções que o auxiliam na ocupação do espaço, por meio da pesquisa cotidiana de formas, cores, texturas, visualidades e nos quais encontra caminhos para tecer extensões para o seu corpo, que tensionados de diferentes maneiras e conforme a ocasião vencem vãos, tateando, auscultando limites espaciais interiores e exteriores. Suas proposições ao mesmo tempo em que sugerem uma espécie de medição do lugar, dos pesos, das massas e das forças em equilíbrio, engendram relações com o tempo, simbologia, subjetividade, afetividade e memórias dos usos utilitários. Prefiro entender a casa não só como esse momento de relação com os objetos, mas como um lugar onde estou inteiro e as coisas estão aqui, acontecem aqui! Se eu estivesse dentro de uma fabrica de tecido, talvez os tecidos pudessem me interessar mais, como quando eu morava com a minha mãe, que é costureira (Cais, 2010: 63).