94 Nascimento, Cinthya Marques do & Maneschy, Orlando Franco (2014) “Sinval Garcia e os fluxos incessantes em Samsara.”
1. Sobre o corpo pictórico como local do espírito Sinval Garcia oferece o corpo das suas fotografias para o mundo de Samsara, um universo repleto de imagens e imaginação. Para construir este ambiente o artista contextualiza através das fotografias os ciclos de vida e morte em matéria do visível, construindo possibilidades de visualidades para os corpos que fotografa. Ao intervir pictoricamente sobre os retratos, o artista rompe com o dado de real, destaca expressões para que seus personagens estejam em um lugar além do humano. Merleau-Ponty afirma no texto O Olho e o Espírito que “... o pintor, qualquer que seja, enquanto pinta, pratica uma teoria mágica da visão.” (Merleau-Ponty, 1964) A busca pelo que está imerso nos sentimentos é articulada pela pintura, destes corpos em preto e branco que ganham, cor pela pintura na série Samsara, parece-nos dar pistas de que a fotografia em película preto e branco pertence ao mundo do imaginário apesar de sua aparência real (Figura 2). Com cores se constrói o mundo e a natureza, e ao inserir tinta colorida nas imagens impressas Sinval Garcia constrói outro mundo, um lugar em que a espiritualidade se torna cognitiva, no sentido de permanecer além do que é vivo e aquém do que os olhos conseguem ver. Dessa forma evidencia se que o gesto de olhar é um ato físico, mas a possibilidade de ver exige cognição dos atos do sensitivo. Talvez agora se perceba melhor todo o alcance dessa pequena palavra: ver. A visão não é um certo modo do pensamento ou presença a si: é o meio que me é dado de estar ausente de mim mesmo, de assistir por dentro á fissão do ser, término da qual somente me fecho sobre mim. (Merleau-Ponty, 1964)
Para construir a realidade fantasiosa de Samsara, Garcia precisou observar o mundo além da sua visibilidade, e ao construir suas fotografias manipula a realidade em prol da construção de um universo complexo que rege. Para poder reconhecer que a visão é um espelho, mas não do real, e sim reflexo de seu universo imaginário. Para tal é paradoxal perceber que o visível no sentido profano cria suas premissas para recriar uma visibilidade e liberar os rostos e corpos presentes em Samsara. A construção de fotografias com figuras humanas oferece a Sinval Garcia uma possiblidade de autonomia maior sobre o ato criador, no que tange o sentido de revelação desses corpos e rostos, permanentes na matéria do sensível. O visível no sentido profano esquece suas premissas, repousa sobre uma visibilidade inteira a ser recriada, e que libera os fantasmas nele cativos. Os modernos, como se sabe, liberaram muitos outros, acrescentaram muitas notas surdas à gama oficial de nossos meios de ver. Mas a interrogação da pintura visa, em todo caso, essa gênese secreta e febril das coisas em nosso corpo. (Merleau-Ponty, 1964)