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:ESTÚDIO 10

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92 Nascimento, Cinthya Marques do & Maneschy, Orlando Franco (2014) “Sinval Garcia e os fluxos incessantes em Samsara.”

humana em diversas perspectivas e posições, revelando emoções e angústias ressaltadas ao longo do processo, em cada escolha do modelo que irá fotografar, na construção da luz para a fotografia, na direção das poses e expressões, bem como no trabalho posterior, em que o artista desencadeava um processo de intervenções que destaca as noções de luz e sombra, dentro e fora do laboratório fotográfico, para, a partir daí, utilizar-se da pintura, evidenciando detalhes, sombreando áreas e modificando essas imagens, dialogando com referências da história da arte e pensando o corpo humano e seu lugar no mundo (Figura 1). A fenomenologia pode ser uma abordagem para este estudo da obra do artista Sinval Garcia ao discutir a série Samsara. Ao mergulharmos nos processos constitutivos das escolhas de modelos e das “representações” com as quais o artista desejava dialogar, observamos que este instaura um campo sutil de referências articuladas que atravessam desde a escolha dos tipos, com suas características físicas, passando pela iconografia da história da arte e da fotografia, estabelecendo um território pulsante entre o pensamento e a forma, rico em suas complexidades. Sinval Garcia transformava seus personagens em criaturas que extrapolavam sua imaginação. O criador proporcionava vida a densos personagens, gerando imagens para aludir sensações, emoções e passagens presentes na vida e também na morte, e que se manifestam no hinduístmo e no budismo, dentro de sua interpretação do Samsara. Dessa forma o artista amplia a discussão sobre transcendência, por meio da imagem, constituindo um discurso com o qual articula das noções de um pensamento que vai do existencial ao transcendente, elaborando relações por meio da presença da figura humana para falar de estados d’alma, aquela que está sempre à procura do sentido de seu lugar no mundo e em busca de sua própria existência. As manipulações que Sinval Garcia propõe na busca do resultado fotográfico em seu trabalho estão diretamente relacionadas com a Pintura, seja no uso dos químicos no laboratório, seja quando intervém pictoricamente sobre suas cópias após o processo de manipulação laboratorial das cópias fotográficas. Essas relações são evidenciadas nas exposições que o artista realiza ao desenvolver as duas técnicas, naturalmente atravessando possíveis limites entre Fotografia e Pintura. Dessa forma constrói imagens através de desconstruções, em um processo contínuo de experimentação. Em seus processos o artista trabalha cada imagem fazendo com que o observador não consiga distinguir os limites entre a Fotografia e a Pintura, revelando um campo presente no interstício das linguagens, que ultrapassa o lugar da técnica, reportando-se a uma história da imagem na cultura.


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