A ciência supõe a fé perceptiva e não a esclarece.
Introdução Quando a arte propõe uma reflexão do mundo é possível perceber quais os limites entre vida, percepção e relações de transcendência, a partir do momento em que se adentra o estado de percepção sobre o outro e seu universo simbólico. O artista paulistano Sinval Garcia (1966-2011) desenvolveu rica obra artística que discute essas percepções entre arte e transcendência durante a construção da série Samsara (1997), tendo parte significativa de sua produção autoral produzida durante a década de 1990 e os anos 2000, período em que viveu em Belém do Pará, no norte do Brasil. Este projeto artístico constitui-se no interstício entre a fotografia e pintura, destacando reflexões acerca da representação, dos limites entre linguagens, bem como deflagra questionamentos sobre o lugar da imagem na cultura visual, amplificando discussões sobre corpo e imagem ao longo da história da arte. As reflexões sobre os limites entre fotografia e pintura são os temas norteadores para um estudo sobre a obra de Sinval Garcia. Entre os seus conteúdos de observação estão composições que transitam entre o exercício do artista sobre um suporte fotográfico manipulável e direcionado para um resultado pré-estabelecido, que transformava suas experiências em expressivas realizações foto-pictóricas. e propõem relacionar uma reflexão do mundo sobre o termo que cede nome à exposição, em que os limites das percepções humanas estão sendo descobertos em experiências sensíveis, e as fotografias discutem o percurso da vida em imagens em que o corpo, com suas tensões e desejos são trabalhados de forma intensa. Sinval Garcia expõe pela primeira vez em Belém na Galeria Theodoro Braga, no subsolo da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves (CENTUR, Belém/PA). A proposta busca desenvolver um trabalho fotográfico que revele as múltiplas instâncias das experiências humanas, a partir do estudo de “deuses” e “demônios” que influenciam os ciclos do Samsara, re-significado, por meio da imagem o conceito que cede nome à exposição, cuja origem vem do sânscrito e significa o ciclo contínuo da vida e da morte para várias filosofias presentes na índia, como o Hinduísmo, o Budismo, etc. O desenvolvimento do Samsara acontece durante os sucessivos renascimentos da alma humana, englobando todos os ciclos do renascimento do “indivíduo” e sua alma, que dependendo de como o sujeito constitui seu percurso, pode torna-se uma “prisão”, um Karma, após os ciclos incessantes de renascimento. Na obra de Sinval Garcia a leitura da alma é proposta com a presença da figura
Revista :Estúdio, Artistas sobre Outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 5 (10): 90-96.
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— Maurice Merleau-Ponty