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:ESTÚDIO 10

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Se o sono é o ponto mais alto da distensão física, o tédio é o ponto mais alto da distensão psíquica. O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência. O menor sussurro nas folhagens o assusta. Seus ninhos — as atividades intimamente associadas ao tédio — já se extinguiram na cidade e estão em vias de extinção no campo. Com isso, desaparece o dom de ouvir, e desaparece a comunidade dos ouvintes. Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a história. (Benjamin, 1994: 205)

A partir do exposto, nos perguntamos sobre o esquecimento da artista. Isto porque, em se tecendo enquanto escuta e experimentando o “tédio” necessário à assimilação das diversas histórias, Ana Teixeira teria construído a situação ideal para converter-se na ouvinte que transmitiria os conteúdos apercebidos. A extensão do manto supostamente confirmaria o quanto ouviu, interagiu e se lembrou de cada uma das histórias contadas. O manto vermelho seria a contraprova do esquecimento. Seria ele, e não a artista, o real anteparo das palavras ditas pelo outro e que, em sua materialidade, consubstanciaria o “tecido” de tantos segredos de amor. Considerações finais “Escuto Histórias de Amor” pode ser um jogo de lembranças, falas, esquecimentos e silenciamentos. A cena pública e as eventuais dificuldades de compreensão da língua dificultariam a concentração dos interlocutores, contribuindo para o esquecimento da história confessada. Mas pensando com Foucault no homem como “animal confidente”, a necessidade de confessar e dizer de si suplanta diversos obstáculos e se instaura, em quaisquer lugares, com qualquer um, para além dos consultórios e dos templos religiosos. Diversos “não-lugares” estão repletos de “confessionários” informais e efêmeros, em que pequenos jogos de poder são instaurados a céu aberto. Podemos pensar que Ana Teixeira “esquece” o teor da confissão, (con)fiando um tecido vermelho

147 Revista :Estúdio, Artistas sobre Outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 5 (10): 141-148.

escuta é paralela a inúmeros outros fatos, os quais podem distrair os interlocutores. Acreditamos que a cena pública e as dificuldades eventuais com o idioma tenham sido promotores do deliberado esquecimento, pela artista. Ao fim do período de “reapresentações” da ação, Teixeira portava um manto de quase cinco metros de extensão. Qual o sentido dessa materialização de uma ação contínua, paralela ao ato de escutar histórias de amor? Para Walter Benjamin, é a capacidade do narrador em elaborar sínteses que permite a memorização do ouvinte. No entanto, a “distensão psíquica” é necessária ao processo de assimilação do conteúdo.


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