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:ESTÚDIO 10

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142 França, Cláudia (2014) “Escuta e voz: sobre o ato de confissão no trabalho ‘Escuto Histórias de Amor’ de Ana Teixeira.”

Considerações iniciais “Escuto Histórias de Amor” é uma ação realizada pela artista brasileira Ana Teixeira, residente em São Paulo (SP). O trabalho ocorre em espaços públicos de cidades brasileiras e no exterior, entre 2005 e 2012 (Ana Teixeira, 2014). A artista se vale de duas cadeiras, um estandarte com o enunciado “Escuto histórias de amor”, que nomeia a ação. Porta ainda um manto vermelho em tricô, em processo de execução. Ao escolher um trecho de rua ou praça, a artista delimita um espaço virtual pela disposição das cadeiras e do estandarte e põe-se à espera de um interlocutor que queira lhe contar alguma história de amor. Enquanto espera pelo outro, o manto é tecido. No entanto, não interrompe o tricô se alguém chega e se senta. Ana Teixeira se dispõe como um ser de escuta: ouve, faz perguntas, demonstra empatia, atenção, sem deixar de lado a fatura do trabalho manual (Figua 1, Figura 2). Embora o verbo do enunciado do título e da ação seja “escutar”, acreditamos que o concernente ao outro seja narrar e confessar. Se narrar é contar histórias de certo modo atemporais, demonstrar sabedoria e fornecer conselhos a quem ouve (Benjamin, [1936], 1994), na confissão, além da coincidência de sujeitos — o que enuncia o discurso é o mesmo objeto desse discurso — ocorre também uma relação de poder (Foucault, [1976]1999). Nesta relação, o parceiro que requer a confissão “impõe-na, avalia-a e intervém para julgar, punir, perdoar, consolar, reconciliar...” (Foucault, 1999: 61). Desse modo, “a enunciação em si, independentemente de suas conseqüências externas, produz em quem a articula modificações intrínsecas: inocenta-o, promete-lhe a salvação” (Ibidem). No entanto, a artista, em sua postura, não julga, pune, retém ou transmite o conteúdo da fala do outro. Em depoimentos informais em seu site, ela diz mesmo não se lembrar das histórias que lhe foram contadas. Trata-se, de qualquer modo, de uma enunciação ao outro que beneficia o próprio enunciador, já que para dizer, é necessário articular ideias e desejos, reconstruir os fatos acontecidos e os segredos. Três elementos pertinentes à ação nos importam: o ato confessional do outro, o esquecimento do teor dessa confissão pela artista, e ainda o manto vermelho em elaboração. O presente texto é o tecido formado por esses três aspectos de “Escuto Histórias de Amor”. 1. A confissão e a perda da capacidade de narrar Walter Benjamin ([1936]1994) percebe a força da narração de grandes fatos, em que o narrador se esmera em aconselhar e demonstrar sua sabedoria na prática da oralidade. Presente em culturas não marcadas pelo individualismo, a narração permite a transmissão de experiências e a explicação dos fatos para a


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