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:ESTÚDIO 10

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Conclusão A obra de Peters nos revela o aspecto místico da joalheria para além da produção de objetos de culto e signos de uma religião, encontrando-se arraigado na origem do nosso desejo de mediação entre a dimensão física e espiritual. Sem temer associar a joalheria ao místico e ao religioso seu trabalho carrega muito das inquietações do que se pode chamar de crise do homem contemporâneo com a fé. Imbuído do desejo de acessar o espiritual a partir de sua paixão pela materialidade, ele faz uma alquimia pessoal ao criar procedimentos, desconstruindo, destruindo e descobrindo materiais enquanto busca acessar sua preciosidade interior. Assim reconstrói o mundo do mesmo modo como faz sua própria religião. Quando afirma “a joalheria é meu laboratório” (Besten, 2007) Peters dá pistas da conexão que busca estabelecer entre materialidade, invenção e vida, alcançada em transformações externas e internas. Sua vontade de

125 Revista :Estúdio, Artistas sobre Outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 5 (10): 118-126.

2.2 Alquimia e Oriente Após 10 anos da investida na Alquimia Ocidental, Peters retorna trazendo elementos extraídos da Alquimia Oriental. Não foi necessariamente um salto, pois é possível observar que suas obras continuaram articuladas pela relação vida-religião, sobretudo quando começou uma pratica de desenho cego, uma forma de desconectar-se do racional e entrar em contato com o inconsciente (Figura 8). Essa experiência ecoou em 2012, quando Peters esteve na China. Lá conheceu a Alquimia Chinesa, que também se definia em sua origem pela crença “na transmutação dos metais em ouro e pelo valor ‘soteriológico’ das operações realizadas para obter esse resultado.” (Eliade, 1987: 89). Entretanto, ao aproximar-se do taoísmo dividiu-se em Waidanshu — Alquimia Externa (metalurgia e farmacologia) e Neidanshu — Alquimia Interna (espiritualidade). Esta ultima atingiu sua plenitude no séc. XIII, junto à escola zen, aproximando-se do Budismo e sendo substituída por ele. Nela os processos alquímicos orientaram-se para o próprio corpo do alquimista, por meio de praticas contemplativas, meditativas, técnicas de respiração e métodos de “fisiologia mística” (Eliade, 1987). A série Qi (2013) é consequência da investida de Peters sobre esse universo da cultura tradicional chinesa, evidenciando novamente o interesse metafísico de sua criação artística. Baseada em desenhos cegos de seu diário de viagem, Qi esta associado à energia primordial que dá origem a matéria. A série é subdividida em grupos de produtos com técnicas e aparência distintas (Figura 9 e Figura 10), cujas etapas do processo de produção foram realizadas em oficinas na China e Amsterdã. Observa-se a intenção de tornar a obra uma experiência coletiva, alinhando-a ao pensamento taoísta que ele buscou incorporar em seu processo artístico (Klimt02, 2014).


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