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:ESTÚDIO 10

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102 Cartaxo, Zalinda (2014) “Como um grão de areia. Sobre uma obra de Regina de Paula.” Revista :Estúdio, Artistas sobre Outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. Vol. 5 (10): 97-102.

espacial orientada para o homem reflete o espírito humanista-renascentista na valorização da consciência e da individualidade do mesmo. Conciliar o vazio quadrangular, quase ‘malevitchiano’, ao universo bíblico de uma história supostamente reveladora da nossa origem significa afirmar uma temporalidade ambígua fundada numa estrutura em devir. Segundo Fernando Pessoa (1994: 211), ... as coisas são como que cúbicas; a nossa sensação delas plano-quadrada. Cada sensação pode dizer-se cúbica porque envolve um triplo: a coisa-em-si (seja ela o que for), a nossa percepção individual, e nossa percepção extra-individual, [...] metafisicamente falando, este último gênero de percepção é o comum a tudo o que existe, a quanto é universo de quanto é universo.

O espaço cúbico no interior do objeto-bíblia, regular, ortogonal e geométrico contradiz a ‘situação’ em que o compêndio é apresentado: espécie de massa disforme, recorrente da sua imersão no mar, ora envolto e preenchido por areia, ora ausente (fisicamente) / presente (imanência). A imersão do objeto-bíblia na areia, assim como a inserção da areia ‘dentro’ dele, rompe com os limites entre obra e espaço, entre coisa e lugar. O informe (formless) teorizado pelos críticos Rosalind Krauss e Yve-Alain Bois a partir da formulação de Bataille, de 1929, buscou superar a dicotomia forma/conteúdo. Dos quatro conceitos que tratam do informe (formless), apresentados pelos autores — a horizontalidade, a pulsação, o baixo materialismo e a entropia —, o que melhor representa o estado das coisas, é o último. A entropia rompe com o purismo modernista que exigia limites específicos para a obra de arte. A partir da lógica de Bataille, da experiência como excesso fundada numa estrutura de deslimites, os autores refletem sobre as novas práticas contemporâneas. A dissolução do objeto-bíblia no seu entorno-areia, e vice-versa, a ruptura dos limites, aqui, históricos, geográficos, ideológicos, estéticos etc., repercutem as dinâmicas temporais que, por sua vez, retomam o conceito de origem. Obra cumulativa de tempos e espacialidades, Como um grão de areia, constitui-se como objeto de potência. Como nas palavras de Benjamin (1985: 229-30), “a história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de 'agoras'.” Referências Benjamin, Walter (1984) Origem do Drama Barroco Alemão. São Paulo: Brasiliense. Benjamin, Walter (1987) Rua de mão única. Rio de Janeiro: Brasiliense. Benjamin, Walter (1985) “Sobre o Conceito de História.” In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense. Cartaxo, Zalinda (2012) Pintura e Realidade.

Realismo arquitetônico na pintura contemporânea. Adriana Varejão e José Lourenço. Rio e Janeiro: Apicuri. Gagnebin, J. M. (1989) Notas sobre as noções de origem e original em Walter Benjamin. 34 Letras, n. 5/6, set. Pessoa, Fernando (1994) O Cubo das Sensações: textos filosóficos. Lisboa: Edição Ática, vol. 2,


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