COMFORT PINTOS
Júlia Portella texto da artista editado por Filipe Chagas
CALMA, GENTE. É SÓ UM PINTO. ...Era uma vez uma garotinha que tinha uma mania desde a infância: desenhar pintos. Não, gente... não era uma tara, não era falta ou excesso, não era bandeira, não era esquerda nem direita, não era preto ou branco, não era rosa ou azul, não era menino nem menina. Era só um pintinho mesmo. Porque ela achava ENGRAÇADO. Só isso.
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Num mundo onde tudo era tão definitivo dava um alívio não colocar filtro, poder desconcertar tudo, deixar tudo pelado. E o pinto, assim, seco, sem lógica, sem corpo, sem intenção, sem roteiro, sem gravidade, solto no espaço, fazia isso. Assim ele nem sempre precisava ser uma ameaça ou uma frustração, um herói ou uma arma de destruição em massa...
N
ão, não é uma fábula inspirada em uma versão feminina do filme “Super Bad”! Esta garotinha existe e sou eu, Júlia Portella. Sempre achei curioso o estado de impermanência profunda que um simples pinto é capaz de provocar nas pessoas. Em qualquer lugar que esteja, ele tira tudo do esteio, da elegância, balança, agita, revolta, diverte, ofende, pelo simples fato de existir. Quando eu era pequena, isso servia apenas à uma lei cômica e inconsciente pra mim, de desestabilizar o curso natural das coisas, fazer curvas no esperado: um presente para um amigo ter a grata e desconcertante surpresa de encontrar um pinto desavisado enquanto abria o fichário no meio de uma aula chata. Gargalhadas! E viciada nesta reação, fui percebendo outras também que – ainda não entendia o porquê –, mas me mostravam que nem sempre o pinto era bem-vindo. Às vezes ele causava repúdio, indignação, nojo. Fui adicionando mais substantivos à lista de