.o nosso mundo lá fora
QUEREMOS CRER
N
o mundo global e crescentemente tecnológico em que vivemos e em que as notícias nos invadem de forma avassaladora, vindas de toda a parte e por todos os meios, às vezes apetece dizer “basta”, dizer “não” ao direito de ser informado.
Apetece-nos, mas mesmo que isto fosse uma opção, nunca seria linear. Será possível escolher o isolamento na tranquilidade idílica do “ninho”, intacto na identidade original que preserva aspetos positivos, mas também cristaliza os negativos, sem nos sentirmos insatisfeitos? Ou, ao invés, lançarmo-nos na inquietude da abertura a novos horizontes e culturas, ser-se atual e atuante, integrado e interligado, sem, quiçá, nos sentirmos angustiados? Será possível fugir desta era global da Informação? Tal já não nos parece sequer uma opção. Apenas uma tentação e, mesmo assim, polémica. Atrevemo-nos a equacioná-la, pelo cansaço de “assistir” impotentes, a tanta guerra, tanto cataclismo, tanta desgraça e miséria… Tanto horror, que faz de nós descrentes. Claro que surgem também notícias boas, registos de beleza singela, de candura, de bravura, de respeito pelo mundo e por todos os seres vivos, gestos nobres e altruístas, que nos lavam a alma e nos renovam a fé nas melhores qualidades do bicho homem. Mas, talvez por não serem chocantes, não nos marquem tanto, como deveriam. A título de exemplo, recordamos o caso, que foi notícia televisiva, de um sem abrigo - que nome tinha? Ele que nos perdoe, mas chamemos-lhe Francisco, por lhe assentar bem – e do seu cão - pensamos que era Tom - companheiros inseparáveis, até no infortúnio. A história é simples: Francisco veio parar à rua porque perdeu o emprego e deixou de poder pagar a casa. De um momento para o outro ficou sem abrigo, conservando Tom como único “bem” pessoal. Entrou num círculo vicioso, porque, sem residência fixa, tornou-se impossível encontrar emprego e, sem emprego, era impraticável arranjar casa. Pelo caminho surgiram algumas ofertas de alojamento, que Francisco declinou por não incluírem Tom. Nunca poderia abandoná-lo – “Nós somos responsáveis por aquilo que cativamos”. E, assim juntos, foram sobrevivendo por longo tempo na rua, até ao dia em que a reportagem televisiva lhes abriu novas portas para uma vida melhor… Em suma, uma história com final feliz, entre tantas outras igualmente belas, mesmo que sem final à vista… Como a daqueles dois casais, de sítios e idades diferentes, mas em idêntica situação de precariedade financeira e que, apesar disso, mantêm estoicamente a seu cargo vários animais abandonados e maltratados pelos antigos donos. É na adversidade que se conhecem as verdadeiras qualidades individuais e cremos que, mais do que o uso da palavra e desenvolvimento intelectual, o que verdadeiramente nos distingue de todos os outros animais é esta capacidade de superar os instintos primários de sobrevivência, dando ênfase às virtudes e aos valores em que acreditamos. Queremos crer. Neste Ano Internacional da Fé, vem a propósito recordar as palavras de S. Paulo: “Eu sei em quem pus a minha fé”. Quanto a nós, que não somos santos nem fomos ungidos por tal dom, gostaríamos apenas de poder continuar a acreditar no Homem. Isabel Pires de Carvalho
22
V avozdocolégio 32