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A enfermidade, o sentimento de perda, os preconceitos e traumas, que não ficam à mostra como feridas, seguem cravados na subjetividade dos personagens de Chuva negra. A destruição física, escancarada a cada casa em ruínas e a cada corpo exa­ lando podridão, revela-se como apenas uma das camadas do desastre.

Masuji Ibuse

Hiroshima, 6 de agosto de 1945...

Olhei fixamente  para o céu, mas, no lugar de uma nuvem de chuva, a impressão que tive era de algo granuloso compactado. “Talvez um redemoinho”, pensei. Era algo estranho, nunca visto até então. Fiquei paralisado ao

Chuva Negra

imaginar o que aconteceria se aqueles grãos caíssem da nuvem.

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Tradução de Jefferson José Teixeira

ISBN 978-85-7448-196-8

Masuji Ibuse nasceu em Kamo (província de Hiroshima) em 1898. Ingressou na Univer­ sidade Waseda, em Tóquio, aos dezenove anos, e estudou litera­ tura francesa. A partir de 1922, passou a dedicar-se à ficção. Entre suas obras es­ tão Koi [A carpa, 1924], Sanshôuo [A sala­ mandra,1929], Sazana Gunki [Crônica das pequenas ondas, 1938], Ekimae Ryôkan [O hotel da estação, 1956] e Chimpindô Shujim [O antiquário, 1959]. Algumas de suas histórias foram adaptadas para o cinema, caso de Chuva negra, em 1989, marco da cinematografia japonesa, diri­ gido por Shohei Imamura. Morreu em Tóquio, em 1993.

Masuji Ibuse

Chuva Negra

Às 8h15 da manhã do dia 6 de agosto de 1945 uma bomba atômica atinge Hiroshima. Três dias depois, seria a vez de Nagasaki. Milhares de pes­soas morreram imediata­ mente e muitos dos que escaparam com vida não tiveram um destino menos trá­ gico. A atrocidade histórica e seus re­flexos são vistos a partir da experiência desses sobrevi­ventes em Chuva negra, principal obra do escritor japonês Masuji Ibuse. Nesse romance, vencedor do Noma, um dos maiores prêmios literários do Japão, a nuvem em forma de cogu­melo, formada logo após a explosão, não é vista do alto como na imagem tantas vezes repetida, mas da pers­pectiva daqueles que estão sob seus efeitos. A narrativa coloca o lei­ tor diante do inferno que vivenciaram e da tentativa de retomada do coti­diano depois da catástrofe, como o casal Shizuma, que tenta casar a sobrinha Yasuko. Boatos de que está acometida pela radioatividade afetarão tal pretensão. O autor baseou-se em diários e testemu­ nhos para construir o romance, trazendo para a formalização da obra característi­ cas desse tipo de registro que, de modo geral, traz as impressões escritas em pri­ meira pessoa no calor dos acontecimen­ tos. Assim, vozes singulares se erguem e, somadas, compõem um coro regido por um narrador que jamais torna verborrági­ co o que está silenciado. O resultado é uma prosa sóbria e sem sentimentalismo, mesmo quando coloca o leitor diante de cenas como a de uma criança faminta que tenta agarrar o seio de um cadáver, ou de um pai que, para salvar-se, larga para trás o filho clamando por ajuda.

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Chuva negra

Tradução do japonês e notas

Jefferson José Teixeira

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Título original: Kuroi Ame (黒い雨) © Editora Estação Liberdade, 2011, para esta tradução. Publicado por acordo com a Kodansha International Ltd.

Preparação Huendel Viana

Revisão Nair Hitomi Kayo Assistência editorial Luciana Araujo e Tomoe Moroizumi

Ideograma em caligrafia sho Hisae Sagara Composição B.D. Miranda Imagem de capa © Toru Yananaka/AFP/Getty Images

Editores Angel Bojadsen e Edilberto F. Verza

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE Câmara Brasileira do Livro (CBL), SP 121c Ibuse, Masuji, 1898-1993 Chuva negra / Masuji Ibuse ; tradução do japonês e notas Jefferson José Teixeira. – São Paulo : Estação Liberdade, 2011. Tradução de: Kuroi Ame ISBN 978-85-7448-196-8 1. Romance japonês. I. Teixeira, Jefferson José, 1958II. Título. 11-2752

CDD 895.63 CDU 821.521-3

Todos os direitos reservados à Editora Estação Liberdade Ltda. Rua Dona Elisa, 116 | 01155-030 | São Paulo-SP Tel.: (11) 3661 2881 | Fax: (11) 3825 4239 www.estacaoliberdade.com.br

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Shigematsu Shizuma, do vilarejo de Kobatake, carregava havia alguns anos um peso no peito por causa da sobrinha Yasuko. E pressentia que seria forçado pelos anos vindouros a continuar carregando esse indescritível fardo. Era como se a dívida moral assumida consigo mesmo duplicasse ou triplicasse. O motivo residia no simples fato de não conseguir arranjar um marido para Yasuko, pois corria o boato entre os moradores de Kobatake, distante cerca de cento e sessenta quilômetros a oeste de Hiroshima, que a moça, recrutada no final da guerra, teria trabalhado na cozinha do Corpo de Serviço da Segunda Escola Secundária de Hiroshima e contraído a doença radioativa. Afirmava-se que o casal Shizuma estaria escondendo o fato de a sobrinha estar doente. As possibilidades de casamento eram, portanto, remotas. Aqueles que apareciam nas vizinhanças em busca de um possível matrimônio abandonavam a ideia ao tomar conhecimento do boato, interrompendo as conversações para logo desaparecerem. Quando a bomba explodiu na manhã daquele dia 6 de agosto, os membros do Corpo de Serviço da Segunda Escola Secundária de Hiroshima ouviam palavras de exortação reunidos no lado oeste da ponte Shin Ohashi ou outra qualquer localizada na parte central da cidade. Nesse exato momento, os corpos dos estudantes queimaram por in­teiro, mas mesmo assim o professor ordenou que cantassem em coro 9

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pianíssimo a canção “Se eu navegar pelo mar…”, e só ao concluí-la emitiu ordem de dispersar. O professor tomou a frente atirando-se no rio, então com a maré alta. Todos os estudantes o acompanharam. Apenas um deles escapou e, regressando com dificuldade à casa, relatou o ocorrido. Conta-se que esse estudante também acabou morrendo. A história fora aparentemente transmitida por um membro do Corpo de Voluntários Patriotas de Kobatake que escapara de Hiroshima. Contudo, nenhum fundamento existia no boato de que Yasuko trabalhasse na cozinha do Corpo de Serviço da Segunda Escola Secundária de Hiroshima. Mesmo que isso fosse verdade, não haveria razão nenhuma para uma das moças da cozinha estar no local onde se cantava “Se eu navegar pelo mar…”. Yasuko era empregada da fábrica Fiação Japão S. A., localizada em Furuichi, nos subúrbios de Hiroshima, e fora designada para a função de mensageira e recepcionista do diretor da fábrica, senhor Fujita. Nenhum vínculo existia entre a Fiação Japão S. A. e a Segunda Escola Secundária. Desde sua admissão na fábrica de Furuichi, Yasuko vivia temporariamente com o casal Shizuma no número 862 de Senda 2-Chome, em Hiroshima, e, assim como Shigematsu, costumava tomar o trem sentido Kabe para ir à fábrica. Absolutamente nenhuma relação havia entre a Segunda Escola Secundária e o Corpo de Serviço. O único elo entre a moça e a escola era o fato de um militar em ação no norte da China, ex-aluno dessa escola, ter endereçado a ela uma carta excessivamente cortês agradecendo por um pacote de presentes que dela recebera pelo seu esforço na guerra e, algum tempo depois, ter lhe enviado cinco ou seis versos de sua autoria. Shigematsu recordava que sua esposa enrubesceu apesar da idade ao ver os versos que a sobrinha lhe mostrara e declarou: “Yasuko, deve ser isto que as pessoas chamam de poemas de amor.” Durante a guerra, a propagação de rumores infundados estava proibida pelo decreto de restrição à liberdade de expressão emitido pelo Exército e, aparentemente, até mesmo o tipo de conversas entre as pessoas era controlado por meio de circulares ou outros papéis. No 10

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pós-guerra, vários rumores se alastravam a respeito de assaltos, roubos, jogos de azar, provisões militares, enriquecimento instantâneo, forças de ocupação, entre outros; rumores que estavam fadados ao esquecimento com o passar dos dias. Seria ótimo se os boatos relacionados a Yasuko tivessem o mesmo destino, mas não: sempre que alguém aparecia para consultar acerca de um possível casamento, o boato sobre ela ter pertencido à equipe de cozinha do Corpo de Serviço da Segunda Escola Secundária de Hiroshima era novamente trazido à baila. De início, Shigematsu se perguntava quem poderia ter espalhado semelhante rumor e até cogitou tentar descobrir o culpado. Todavia, além de Shigematsu, sua esposa e Yasuko, dos moradores de Kobatake, apenas os jovens pertencentes ao Corpo Voluntário Patriota e os membros do Corpo de Serviço estiveram em Hiroshima quando a bomba explodiu. O Corpo Voluntário Patriota era composto de jovens recrutados em cada vilarejo da província com a finalidade de trabalhar na evacuação forçada de residências como preparativo para a prevenção de incêndios na cidade de Hiroshima. Os jovens de Kobatake formavam a Unidade Kojin, cujo nome derivava do fato de ser composta por jovens dos vilarejos de Konu e Jinseki. A função desses jovens era demolir residências. Serravam cada coluna da casa à altura de quatro quintos e amarravam uma grossa corda à viga mestra do telhado, que, puxada por vinte ou trinta pessoas, deitava abaixo a casa. Havia alguma dificuldade para demolir casas térreas. Elas desabavam com estrépito, mas lentamente. Os sobrados eram relativamente mais fáceis de pôr abaixo e caíam de uma só vez, levantando uma nuvem de poeira que impedia qualquer aproximação por pelo menos cinco ou seis minutos. No dia seguinte à chegada da Unidade Kojin e do Corpo de Serviço a Hiroshima, a bomba explodiu no exato momento em que se efetuavam os preparativos para iniciar os trabalhos. Os que não perderam a vida instantaneamente foram levados com queimaduras por todo o corpo para alojamentos em Miyoshi, Shobara e Tojo, nos arredores de Hiroshima. Bem cedo, na manhã do dia em que a guerra terminou, 11

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membros do corpo de bombeiros de Kobatake foram enviados às ruínas da cidade em um ônibus movido a carvão de madeira, seguidos pelo pessoal voluntário da Associação de Jovens, que se dirigiu para os alojamentos provisórios de Miyoshi e Tojo em busca de feridos. No momento de sua partida, os voluntários da Associação de Jovens receberam a saudação de despedida do chefe do vilarejo, com a presença do presidente da associação em exercício. — Rapazes, somos gratos a todos vocês por seu árduo trabalho durante os tempos atribulados da guerra. É desnecessário frisar que os feridos que vocês trarão de volta têm o corpo coberto por queimaduras, e por isso peço-lhes que tenham o máximo de cuidado a fim de poupar-lhes mais sofrimentos. Dizem que, em seu ataque aéreo a Hiroshima, o inimigo usou o que denominam de “nova arma de destruição”, submetendo instantaneamente dezenas de milhares de inocentes que ocupavam a cidade a uma situação infernal. Segundo relato de um membro do Corpo Voluntário que conseguiu regressar com vida de Hiroshima, após a cidade ter sido devastada por essa nova arma, ouviam-se as vozes chorosas dessas dezenas de milhares de pessoas que pareciam irromper do interior do solo, clamando por socorro. Em seu caminho de volta, ele contemplou as planícies incendiadas em Fukuyama, e tanto a torre de menagem como a torre de vigia do castelo estavam destruídas pelo fogo. Confessou-me um aperto no coração, questionando a si mesmo se a guerra seria realmente aquilo. Todavia, de qualquer maneira, é um fato indiscutível que estamos em guerra, e uma vez que vocês, membros de um grupo de trabalho voluntário, irão buscar seus companheiros de batalha, peço que tomem os devidos cuidados para jamais deixarem cair as lanças de bambu que levam consigo, símbolos do incessante desejo de continuarmos lutando até a destruição total do inimigo. É realmente lamentável que neste momento em que os envio, tão cedo, antes mesmo de nascer o dia, não se possa ter nem uma luz acesa sequer; mas creio que vocês compreendem o motivo em vista das circunstâncias atuais. 12

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Ao concluir seu discurso, o chefe do vilarejo se dirigiu às mais de oitenta pessoas reunidas para a despedida: — Então, conclamo vocês a oferecer três vivas aos membros do grupo de trabalho voluntário que ora enviamos nesta arrojada empreitada. — E ergueu os braços, pronto para conduzi-las no ritmo da aclamação. Antes de partir, os membros do grupo de trabalho voluntário se dividiram em três equipes: uma que passaria por Miyoshi, outra por Shobara e a última delas por Tojo. Todos acompanhavam calados a carroça de carga. A equipe direcionada a Tojo parou em Yuki, a meio caminho entre Kobatake e Tojo, onde todos os membros almoçaram, sentados à varanda da casa de um sítio à beira da estrada. Nesse momento, puderam ouvir, do rádio no interior da casa, a importante transmissão das palavras do Imperador. Por algum momento eles permaneceram calados, até que o encarregado de segurar o cavalo pelas rédeas disse: — A maneira como o chefe do vilarejo despediu-se pela manhã foi um pouco longa, não acham? Essas palavras serviram para que todos começassem a discutir que fim dariam às lanças de bambu e por consenso decidiram dá-las de presente ao agricultor que lhes cedera a varanda. O alojamento provisório em Tojo era um velho prédio com dois supervisores, mas nenhum deles sabia exatamente como agir. As vítimas da bomba se espalhavam por sobre os tatames e as queimaduras no rosto tornavam impossível identificá-las. Uma delas apresentava uma lustrosa careca na região onde deveria haver cabelos e apenas um bocado normal de pele remanescente, ostentando a suposta marca de uma bandana que lhe cobria a testa. Havia outra cujas bochechas pendiam flácidas como seios de uma anciã. Todos os feridos eram capazes de ouvir; assim, conforme iam dizendo o próprio nome, que lhes era perguntado, este era escrito em tinta nanquim diretamente no corpo dos que estavam nus ou nos trapos daqueles que estavam vestidos. Esse método tosco de identificação precisara ser adotado, pois os feridos, gemendo de dor, mudavam constantemente de posição. 13

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— O que o médico está fazendo? — perguntou um voluntário ao supervisor. — Não vai tratar dos feridos? O doutor receava cometer alguma imprudência por se tratar de doentes cujo tratamento desconhecia. Ignorando a causa do sofrimento dos feridos, além das queimaduras, a princípio injetou-lhes um remédio denominado Pantopon, o que aliviou temporariamente a dor de meia dúzia deles. Em seguida, deixou claro serem aquelas as únicas doses do medicamento de que dispunha. Essa história foi contada mais tarde a Shigematsu, após seu retorno de Hiroshima, por um membro do grupo de trabalho voluntário. Nessa época, o próprio Shigematsu já apresentava sintomas da doença radioativa. Ao colocar um pouco mais de vitalidade no trabalho da lavoura, seu corpo se tornava letárgico e pústulas minúsculas lhe surgiam na cabeça. Seus cabelos se soltavam sem dor quando ele os puxava. Nessas ocasiões, Shigematsu procurava repousar e se alimentar o melhor possível. Os primeiros sintomas mais comuns das vítimas da bomba eram uma estranha letargia em todo o corpo; alguns dias mais tarde os cabelos se soltavam totalmente, sem dor, e os dentes amoleciam e acabavam caindo. As vítimas sentiam-se esgotadas fisicamente, até por fim morrerem. Caso sentissem languidez no início da enfermidade, era imprescindível primeiro descansar e se alimentar bem. Aqueles que se esforçavam no trabalho perdiam gradualmente as forças, depauperando como um pinheiro mal transplantado. No vilarejo vizinho a Kobatake e nos outros adjacentes àquele, os que acreditavam ter escapado da radioati­ vidade, regressando extremamente animados de Hiroshima, após um ou dois meses de trabalho duro caíam de cama e acabavam morrendo depois de uma semana ou dez dias. Quando a doença se manifestava numa determinada parte do corpo, experimentava-se uma dor particular, cujos sintomas dificilmente se comparavam às dores nos ombros e lombares de outras enfermidades. Shigematsu fora diagnosticado categoricamente pelo médico do serviço de saúde ambulante como um portador de doença radioativa. 14

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O doutor Fujita, de Fukuyama, ratificou esse diagnóstico. Yasuko, porém, não havia contraído a doença. Ela se submetera a testes feitos por médicos competentes e aos exames de saúde periódicos destinados às vítimas da bomba; passara pelos exames de contagem de glóbulos, fezes, urina, hemossedimentação, audição, auscultação e outros, todos apresentando resultado normal. Isso ocorreu passados quatro anos e dez meses do final da guerra, justo quando surgira uma proposta de casamento tão boa que parecia mais do que a moça poderia merecer. O pretendente era um rapaz pertencente a uma família tradicional do vilarejo de Yamano. A proposta fora trazida por uma intermediária e todos se perguntavam onde o jovem pretendente teria visto Yasuko. Ao ser consultada, a moça expressou seu consentimento. Desta feita, para que os rumores acerca da doença radioativa não frustrassem os planos, Shigematsu tratou de pedir a um médico conceituado que emitisse um atestado de saúde da sobrinha e o enviasse à casamenteira pelo correio. — Desta vez tudo dará certo. Todo cuidado é pouco. É comum hoje em dia os pretendentes trocarem atestados de saúde antes de se casarem. Certamente o rapaz não achará isso estranho. A casamenteira parece ser a esposa de um ex-militar e sem dúvida conhece os costumes novos das cidades grandes. Desta vez nada pode dar errado — afirmou Shigematsu à esposa, não sem certa dose de presunção. Entretanto, seu cuidado e sua preocupação acabaram acarretando um resultado estúpido. A casamenteira aparentemente consultara alguém do vilarejo sobre a saúde de Yasuko e através de uma carta pediu informações a Shigematsu sobre a vida da sobrinha, desde o dia da queda da bomba até seu regresso a Kobatake. A mulher argumentava tratar-se de um desejo particular, afirmando que o pretendente ignorava a consulta. Shigematsu percebeu que sua responsabilidade aumentara. Após ler a carta, sua esposa a entregou a Yasuko, mantendo os olhos pregados ao tatame. Em seguida, levantou-se e se dirigiu à despensa. A sobrinha a acompanhou. Quando depois de alguns instantes Shigematsu foi 15

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procurá-las, encontrou as duas chorando, a esposa com o rosto apoiado sobre o ombro de Yasuko. — Bem, sei que desta vez a culpa foi minha. Mas como podem tratar alguém como doente incurável baseando-se unicamente em boatos? Daremos a volta por cima e superaremos tudo isso. Ele estava ciente de que eram meras palavras de consolo. Yasuko levantou-se lentamente e, calada, entregou a Shigematsu um diário que retirara de uma das gavetas da cômoda. Era seu diário do ano de 1945. Duas bandeiras se entrecruzavam na capa: a nacional, com o símbolo do sol nascente, e a da Marinha de Guerra. Quando estava em Senda, após o jantar, Yasuko escrevia no diário à mesa de refeições redonda, que servia de escrivaninha. Nenhum dia se passava sem que ela escrevesse, por mais cansada que estivesse. O método de registro dos fatos no diário era o de anotar durante quatro ou cinco dias resumidamente, em cinco ou seis linhas, e no quinto ou sexto dia redigir com mais detalhes os acontecimentos de vários dias. O próprio Shigematsu havia utilizado o método durante muito tempo, ensinando-o a Yasuko, que o adotara. Esse método lhe ocorreu nas noites em que voltava para casa muito tarde; abatido pelo sono, começou a resumir os acontecimentos. Era sua forma de redigir um diário com “controle de velocidade”. De qualquer maneira, ele precisava agora transcrever o diário de Yasuko a fim de enviá-lo à casamenteira. Shigematsu transcreveu as anotações de alguns dias do diário a partir de 5 de agosto de 1945. 5 de agosto Submeti ao senhor Fujita, diretor da fábrica, meu pedido de au­sên­cia do trabalho amanhã e voltei para casa a fim de preparar nossos perten­ ces para a evacuação. O teor dos pertences era o seguinte: de minha tia, quimonos de verão e inverno com o brasão da família, três cintas, três quimonos de inverno (entre estes, um de seda amarela, uma peça valiosa, pois diziam haver sido usado por nossa bisavó ao ficar noiva) 16

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e quatro quimonos de verão; de meu tio, um casaco para manhãs de inverno, quimonos de verão e inverno e um haori1, todos com o brasão da família, duas peças de roupa ocidental de inverno, uma camisa social, uma gravata e seu diploma de conclusão de curso (Escola do Cidadão); meus quimonos de verão e inverno, duas cintas de quimono e meu diploma de graduação (Escola Feminina). Enrolei tudo em uma manta de palha de arroz, e numa bolsa a tiracolo coloquei três medidas de arroz, meu diário, caneta-tinteiro, carimbo pessoal, mercurocromo e gazes triangulares (uma nota posterior de Shigematsu menciona que, a seu pedido, todos os pacotes de evacuação foram devolvidos intactos a Kobatake no segundo ano após o término da guerra). De madrugada soou o alarme de ataque aéreo. Uma esquadrilha de B-29 apenas atravessou o céu. Por volta das três horas, o alerta foi suspenso. Regressando de sua vigília noturna, meu tio nos contou que recentemente um B-29 lançara nos arredores de Kobatake material de propaganda que dizia: “Não esquecemos de bombardear Fuchu. Em breve, trataremos disso.” O texto possuía um tom ao mesmo tempo desenvolto e assustado­ ramente estranho. Fuchu seria mesmo bombardeada? Segundo ouvi de alguém recentemente chegado da província de Yamanashi, antes de Kofu ser bombardeada, os B-29 lançaram material de propaganda, algo como panfletos impressos em esplêndido papel couché. Disse que neles havia um artigo segundo o qual na ilha de Saipan, ou alguma outra ilha sob a ocupação das tropas americanas, os japoneses viviam alegres e bem alimentados. Já não se encontra mais papel couché em Hiroshima. Fui dormir às três e meia. 6 de agosto Às cinco e meia da manhã o caminhão do senhor Nojima chegou para carregar os pertences para a evacuação. Em Furue, enorme clarão e estrondo. Fumaça negra sobre a cidade de Hiroshima, semelhante a 1. Tipo de casaco curto, em geral feito de algodão.

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uma irrupção vulcânica. Regressamos de barco por Kusatsu, ancorando sob a ponte Miyuki. Minha tia estava sã, meu tio apresentava um ferimento no rosto. Um incidente sem precedentes no século. Porém, não se conhecem bem todos os aspectos do problema. A casa se inclinou quinze graus e escrevo este diário na entrada do abrigo antiaéreo. 7 de agosto Ontem havíamos decidido nos transferir para o dormitório dos operários da fábrica de Ujina, mas desistimos por se mostrar inviável. Seguindo as palavras de meu tio, nos refugiamos em Furuichi. Minha tia estava conosco. No escritório da fábrica, meu tio chorou. Hiroshima é uma cidade incendiada, uma cidade de cinzas, uma cidade de morte, uma cidade totalmente destruída. Empilhados, os cadáveres protestam silenciosamente contra a guerra. 8 de agosto Estou muito ocupada preparando arroz para a refeição matinal. Os pontos importantes de discussão e deliberação relativos à administração da fábrica foram divulgados. 9 de agosto Hoje também mais sobreviventes apareceram buscando refúgio. Alguns deles não possuem relação com os operários. Quase todos estão feridos. Nenhum se veste decentemente. Um deles carregava uma caixa com os restos mortais de algum membro da família, suspendendo-a com um barbante por trás do beiral da janela enquanto murmurava a oração “Em nome de Buda, em nome de Buda. Rendo-lhe graças, rendo-lhe graças”. Um senhor de meia-idade distribuía três cartões postais novos a cada pessoa, gracejando desesperadamente: — Peguem sem cerimônia. Enviem notícias para todos aqueles preocupados com vocês. É de nossa fabricação; posso dar-lhes quantos desejarem. Mas peço que isso fique apenas entre nós. 18

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Era um homem de feições rudes, com o pescoço enfaixado por um pano sujo. Ele deveria ter apanhado os cartões postais em alguma agência dos correios explodida ou outro lugar qualquer. É uma da tarde agora e a maioria das pessoas tira a sesta. Sinto que minha capacidade de raciocínio se recuperou um pouco hoje e decido seguir o fio da memória para relembrar os acontecimentos desde o dia 6. Às quatro e meia da manhã desse dia, o caminhão dirigido pelo senhor Nojima chegou e carregou os pertences para a evacuação. Eu estaria acompanhada na viagem pela senhora Nojima e pelas senhoras Miyaji, Yoshimura e Doi. Todas eram membros da mesma associação de moradores ou da cidade vizinha. Cada uma de nós se sentou no caminhão ao lado de seus pertences. Partimos às cinco e meia. No caminho principal entre Koi e Furue, em um terreno de uns vinte metros quadrados, usado como campo de painço, vimos um boneco marrom de pé, representando um homem em tamanho natural e servindo como espantalho. O senhor Nojima abrandou a marcha do caminhão e bateu na grade divisória como querendo dizer: “Vejam aquilo! Há algo estranho ali!” Apesar de ser um boneco, o rosto e os membros haviam sido elaborados em detalhes, como moldados em argila, e uma manta de palha de arroz lhe envolvia a cintura. Poderia ser também um trabalho em papel machê, mas a senhora Nojima disse: — Seria aquilo um espantalho produzido por aborígines do Pacífico Sul e trazido por alguém que regressou de lá? Ao que a senhora Miyaji replicou: — Mais parece um manequim de alguma loja de departamentos enegrecido pela fumaça de uma bomba de óleo ou algo parecido. A senhora Doi arrematou: — Que susto levei. Jurava que era uma pessoa de verdade incinerada. Chegamos a Furue por volta das seis e meia. As portas ainda estavam fechadas, mas na casa da família da senhora Nojima, seus pais nos esperavam com o celeiro aberto. Desembarcamos os pacotes e os coloca­mos no celeiro. A senhora Nojima redigiu um recibo para cada 19

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A enfermidade, o sentimento de perda, os preconceitos e traumas, que não ficam à mostra como feridas, seguem cravados na subjetividade dos personagens de Chuva negra. A destruição física, escancarada a cada casa em ruínas e a cada corpo exa­ lando podridão, revela-se como apenas uma das camadas do desastre.

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Hiroshima, 6 de agosto de 1945...

Olhei fixamente  para o céu, mas, no lugar de uma nuvem de chuva, a impressão que tive era de algo granuloso compactado. “Talvez um redemoinho”, pensei. Era algo estranho, nunca visto até então. Fiquei paralisado ao

Chuva Negra

imaginar o que aconteceria se aqueles grãos caíssem da nuvem.

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Tradução de Jefferson José Teixeira

ISBN 978-85-7448-196-8

Masuji Ibuse nasceu em Kamo (província de Hiroshima) em 1898. Ingressou na Univer­ sidade Waseda, em Tóquio, aos dezenove anos, e estudou litera­ tura francesa. A partir de 1922, passou a dedicar-se à ficção. Entre suas obras es­ tão Koi [A carpa, 1924], Sanshôuo [A sala­ mandra,1929], Sazana Gunki [Crônica das pequenas ondas, 1938], Ekimae Ryôkan [O hotel da estação, 1956] e Chimpindô Shujim [O antiquário, 1959]. Algumas de suas histórias foram adaptadas para o cinema, caso de Chuva negra, em 1989, marco da cinematografia japonesa, diri­ gido por Shohei Imamura. Morreu em Tóquio, em 1993.

Masuji Ibuse

Chuva Negra

Às 8h15 da manhã do dia 6 de agosto de 1945 uma bomba atômica atinge Hiroshima. Três dias depois, seria a vez de Nagasaki. Milhares de pes­soas morreram imediata­ mente e muitos dos que escaparam com vida não tiveram um destino menos trá­ gico. A atrocidade histórica e seus re­flexos são vistos a partir da experiência desses sobrevi­ventes em Chuva negra, principal obra do escritor japonês Masuji Ibuse. Nesse romance, vencedor do Noma, um dos maiores prêmios literários do Japão, a nuvem em forma de cogu­melo, formada logo após a explosão, não é vista do alto como na imagem tantas vezes repetida, mas da pers­pectiva daqueles que estão sob seus efeitos. A narrativa coloca o lei­ tor diante do inferno que vivenciaram e da tentativa de retomada do coti­diano depois da catástrofe, como o casal Shizuma, que tenta casar a sobrinha Yasuko. Boatos de que está acometida pela radioatividade afetarão tal pretensão. O autor baseou-se em diários e testemu­ nhos para construir o romance, trazendo para a formalização da obra característi­ cas desse tipo de registro que, de modo geral, traz as impressões escritas em pri­ meira pessoa no calor dos acontecimen­ tos. Assim, vozes singulares se erguem e, somadas, compõem um coro regido por um narrador que jamais torna verborrági­ co o que está silenciado. O resultado é uma prosa sóbria e sem sentimentalismo, mesmo quando coloca o leitor diante de cenas como a de uma criança faminta que tenta agarrar o seio de um cadáver, ou de um pai que, para salvar-se, larga para trás o filho clamando por ajuda.

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"Chuva negra", de Masuji Ibuse  

Essa obra de Masuji Ibuse (1898-1993) conta a história da pequena cidade japonesa de Kobatake, dominada pelo boato de que uma de suas habita...

"Chuva negra", de Masuji Ibuse  

Essa obra de Masuji Ibuse (1898-1993) conta a história da pequena cidade japonesa de Kobatake, dominada pelo boato de que uma de suas habita...

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