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Índice CAPA: O cenário está posto 05. Editorial 08. Páginas Verdes Maria Castelo Branco concede entrevista à jornalista Cláudia Brandão

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Páginas Verdes

Maria Castelo Branco

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Energia Renovada

56. POLÍTICA O que está por trás da compra de votos 64. INDÚSTRIA

20. SAÚDE Sarampo e Pólio voltam a assustar a população

72. GERAL Centro de Teresina, um tabuleiro de xadrez

30. SAÚDE O melhor alimento de todos os tempos

78. GERAL A história da telecomunicação no Piauí

36. GERAL O Piauí vai encolher

305,5 horas de sol

54. Ponto de Vista Elivaldo Barbosa

66. Economia e Negócios Jordana Cury 75. Tecnologia Marcos Sávio 82. Passeio Cultural Eneas Barros 86. Perfil Péricles Mendel 90. Poesia Sempre Elias Paz e Silva

Articulistas 13

Jeane Melo

35

Cecília Mendes

COLUNAS

36

45

Zózimo Tavares


Foi dada a largada! Passado o período das convenções partidárias, depois de muitas mudanças e acordos firmados, desfeitos e refeitos, o eleitor tem o desenho das chapas que irão concorrer ao pleito do dia 7 de outubro. A Revista Cidade Verde mostra como ficaram as composições que vão disputar as vagas majoritárias nesta eleição. Ao todo, dez candidatos disputam o governo do Estado. É o quarto estado do Brasil com o maior número de candidatos concorrendo à vaga de governador.

A diminuição do número de habitantes chega atrelada a outro dado que merece ser analisado, que é o do envelhecimento da população. Em 26 anos, haverá mais gente com idade acima de 65 anos no Piauí do que jovens com menos de 15 anos de idade. E isso traz reflexos diretos na economia porque haverá menos gente produzindo riqueza e mais gente para ser sustentada pela previdência. Os gastos com saúde pública também deverão aumentar, já que os idosos tendem a adoecer mais do que os jovens.

Seja qual for o(a) candidato(a) eleito(a) para administrar o Piauí pelos próximos anos terá de enfrentar uma nova realidade populacional que, certamente, vai influenciar na políticas de governo a serem desenvolvidas. O estado está avançando em uma estrada contínua que leva à diminuição da população. Atualmente, somos 3,195 milhões de habitantes, número que deve ser reduzido dentro do curto espaço de 14 anos. As projeções são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que prevê que, já no ano de 2032, teremos menos piauienses morando no Piauí. Seremos o primeiro estado brasileiro a ter a sua população reduzida.

A pesquisa do IBGE não pode ser vista apenas como um punhado de estatísticas condensadas em gráficos. Elas servem como ferramenta de planejamento para o governo do estado, que deve pensar políticas públicas para administrar essa nova realidade. Esta edição traz o detalhamento da pesquisa realizada pelo IBGE e mostra como deve ser o perfil demográfico do Piauí nas próximas décadas.

A explicação está, entre outros fatores, na diminuição do número de nascimentos. Com outras prioridades e preocupações, as mulheres estão tendo menos filhos. A taxa de fecundidade medida em 2010 era de 1,8 filho por mulher. Foi-se o tempo em que as famílias tinham oito, nove, dez filhos. As dificuldades, inclusive financeiras, de criar filhos na era moderna fizeram com que os casais repensassem o tamanho da família.

Outro desafio que merece constar na agenda de propostas dos candidatos é o da sustentabilidade. A cada ano, as temperaturas aumentam no Piauí, com consequências diretas na agricultura, na pecuária e até mesmo na saúde da população. Agora em agosto, a radiação solar está atingindo seu mais alto índice no Piauí, com Teresina sendo submetida a mais de 300 horas de sol. Que toda essa luz seja aproveitada para melhorar, de alguma forma, a qualidade de vida da população. Cláudia Brandão Editora-chefe

REVISTA CIDADE VERDE | 19 DE AGOSTO, 2018 | 5


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Entrevista POR CLÁUDIA BRANDÃO

Maria Castelo Branco

claudiabrandao@cidadeverde.com

Quando começa a vida?

foto Catarina Malheiros

Diante da polêmica criada em torno da descriminalização do aborto, a medicina entra em cena para esclarecer as dúvidas sobre o assunto e derrubar alguns mitos que ainda existem sobre o tema.

Nos dias 3 e 6 de agosto, o Supremo Tribunal Federal realizou uma audiência pública para discutir a possibilidade de descriminalização do aborto que, no Brasil, é considerado crime, com pena prevista de um a três anos para a mulher que realiza o procedimento. Os únicos casos permitidos por lei são quando a gravidez é fruto de estupro, quando há risco de vida 8 | 19 DE AGOSTO, 2018 | REVISTA CIDADE VERDE

para a mãe ou em casos de anencefalia (ausência de cérebro no feto). Ainda assim, são necessários alguns requisitos, como a idade gestacional, que não deve ultrapassar a 22ª semana, e o peso do feto, que deve apresentar até 500 gramas. O pedido para a descriminalização do aborto foi ajuizado em março deste ano pelo Partido

Socialismo e Liberdade (PSOL) e pede que a prática deixe de ser considerada crime, com a suspensão da prisão em flagrante e da abertura de processos criminais, até a 12ª semana de gravidez. O processo está nas mãos da relatora, Ministra Rosa Weber, que ouviu os argumentos de movimentos contra e a favor da descriminaliza-


ção. Para detalhar melhor a questão, a Revista Cidade Verde ouviu a Coordenadora do Serviço de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual (SAMVIS), que realiza o abortamento legal em casos de vítimas de estupro. A seguir, a entrevista com a obstetra Maria Castelo Branco de Deus.

RCV – O que caracteriza o início da vida para a Medicina? MD – A vida inicia com a concep-

ção. Com os avanços tecnológicos, você pode, inclusive, iniciar uma vida in vitro. Isso já mostra que o ser humano, o embrião, tem a sua vida independente. Uma vez iniciada essa vida, como por exemplo, no caso da vida in vitro, esse embrião pode ser criopreservado e colocado em um útero de aluguel. Isso já mostra que, não necessariamente, é dentro da mãe que se forma a vida, nem a vida é uma propriedade da mãe. Portanto, a vida se inicia no encontro do espermatozoide com o óvulo. No ser humano, ele acontece no terço distal da trompa. Dois a três dias depois, ele chega ao útero e aí ocorre um processo chamado nidação, que é a implantação do ovo, porque, depois de fecundado, o óvulo passa a ser chamado de ovo. É nessa fase que ele se implanta dentro do útero, começando a formação da placenta, que vai passar a mantê-lo. A partir do momento do encontro do óvulo com o espermatozoide, todas as informações genéticas e de desenvolvimento já vêm pré-informadas dentro do padrão genético.

Entre a quarta e a sexta semana, já é possível, ao ultrassom, presenciar batimentos cardiofetais.

RCV – E a partir de qual semana o coração do bebê começa a bater? MD – Entre a quarta e a sexta se-

mana, já é possível, ao ultrassom, presenciar batimentos cardiofetais. No entanto, todas as informações de maturação, de desenvolvimento são pré-estabelecidas desde a concepção.

RCV – Quais órgãos já estão formados a partir da 12ª semana? MD – Já é possível ter braços curtos,

o formato dos olhos, o início dos membros já está praticamente pré-estabelecido. Já há tronco, uma proporção maior da cabeça em relação ao tronco. Já é possível ver o esboço do nariz, da boca. A maioria dos órgãos sensórios já está iniciada. E também já há um broto cerebral em desenvolvimento.

RCV – Quais são os riscos que uma mulher corre ao realizar um aborto, ainda que ele seja

feito dentro de um hospital ou clínica especializada? MD – Esses riscos ocorrem, mas

não são intensos, principalmente no início da gestação. Cerca de 20% a 30%, ou em outras estatísticas, de 30% a 50% das gestações, terminam em abortamento, são os chamados abortamentos espontâneos. Nesses casos, também podem ficar restos ovulares, esses restos ovulares podem gerar uma infecção, na dependência de hábitos de higiene e da fragmentação ou do número de dias que esse material ficar dentro do útero, ou pode haver um abortamento completo. Quando o abortamento é feito no início da gestação, ele é titulado, na maioria das vezes, como abortamento completo. Não há necessidade de curetagem, a pessoa pode ter, inclusive, um atraso menstrual, engravida, e aquilo fica como uma menstruação prolongada. Na medida em que avança a gestação, aí incorrem outros riscos, como sangramento, restos fetais, restos ovulares, infecção urinária, trombose. Esses riscos aumentam na medida em que a idade da gestação está mais avançada. A definição de aborto é dita como a interrupção de uma gestação de até 20 a 22 semanas ou quando o peso fetal é de até 500 gramas. A partir de então, com os avanços das técnicas neonatais, deixa de ser um feto e passa a ser um prematuro. Aí passa a ter uma gestação e, nesse caso, não se chama mais abortamento e, sim, uma gestação prematura. Os riscos do abortamento, realmente, estão ligados às condições de assistência à mulher.

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RCV – A mulher que já praticou aborto pode ter dificuldades de engravidar novamente? MD – Pode, porque a infecção pós-

-aborto pode atingir as tubas uterinas. Então, elas fazem a obstrução das trompas, e o espermatozoide não consegue passar para encontrar o óvulo. Talvez seja esse o maior risco. Quando o aborto é feito de forma legal, essa infecção é mais difícil. Quando o aborto é precoce, entre a sétima e a oitava semana, é feito um procedimento chamado amil. Esse amil é uma vácuo extração. Imagine um bebezinho se desenvolvendo dentro do útero, aí você entra com um equipamento tipo um aspirador forte e é feito uma vácuo aspiração, que suga o feto. Quando o bebê tem até doze semanas ainda é possível expulsá-lo com a medicação, que é o citotec, uma medicação que dá muita contração, solta o bebê e ele fica sem oxigenação, perde a vida, aí o útero contrai e o expulsa, como se fosse o início de um parto. Se for para interromper já próximo de vinte semanas, quando o bebê já está praticamente todo formado, aí o risco ainda é maior. Há o risco de causar hemorragia, uma ruptura uterina, porque você chega até o útero com uma pinça, tem de causar a morte do bebê e, quando a gestação já está avançada, você tem até de tirar os fragmentos do feto. Principalmente se a indução não responder e você tiver que tirar partes do feto.

RCV – O bebê sente o sofrimento causado por esse procedimento? MD – Sim, o bebê sofre. Ele tem sinais sensoriais não demonstráveis ainda. Por exemplo, no Brasil, o aborto é permitido em casos específicos

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Eu imagino a criança como um locador, ela está ali, naquele útero, onde deveria ter a proteção da mãe para se desenvolver e tornar-se um novo ser.

da vida, de curar, de dizer que não faz. Aqui no SAMVIS, por exemplo, nós temos o serviço legal, mas quando uma vítima se enquadra nos requisitos previstos em lei, essa mulher é encaminhada à Comissão de Ética da Maternidade e a Comissão vai procurar um colega que não tenha objeção de consciência. Não é uma coisa fácil. O coordenador tem sempre tido dificuldade de encontrar, principalmente porque a gente aprende outra coisa: a humanizar o atendimento e fazer o que é melhor para a pessoa.

(vítima de estupro, risco de vida para a mãe e anencefalia) até 20, 22 semanas. Até essa fase, não há um teste que você realize e que ele responda, mas, um pouco mais além, já existem testes em que você faz um som do lado de fora e o bebê responde com taquicardia, com movimentação. A vida é uma sequência, a gente não encontra uma árvore pronta, você tem primeiro a semente. Eu imagino a criança como um locador, ela está ali, naquele útero, onde deveria ter a proteção da mãe para se desenvolver e tornar-se um novo ser.

RCV – O que caracteriza a Síndrome Pós-Aborto? MD – A maior consequência é a sen-

RCV – Mesmo nos casos previstos em lei, o médico pode se recusar a fazer o procedimento, por convicções pessoais contrárias ao aborto? MD – Sim, este é um dos direitos do

médico que constam no Código de Ética Médica. Ao médico é facultado o direito de não realizar nenhum procedimento no qual a sua consciência faça objeção. Ele pode se dar ao direito, por sua convicção de tratar

sação psíquica causada pela retirada da criança. Muitas vezes, a pessoa, naquele período em que acontece a situação da descoberta de uma gravidez indesejada, está tão angustiada, que ela não tem outro pensamento. Quando a gente recebe aqui pessoas que procuram o serviço para fazer o abortamento legal, existe uma equipe multiprofissional. Há uma série de conversas com a psicóloga, com a médica, que, às vezes, fazem a mulher desistir. Algumas até relatam que, antes de chegar aqui, ouviram conselhos para tirar a criança porque ela iria trazer problemas, mas, nem sempre, é assim. Quantas pessoas que não foram abortadas, hoje apresentam um pensamento diferenciado sobre o assunto!

RCV – Existem programas públicos de planejamento familiar que sejam eficazes no Brasil? MD – Eu acho essa pergunta

Revista Cidade Verde 196  

Eleições 2018. A decisão agora é sua.

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