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CLAU PUBLIC


UDINO CIDADE


Índice Capa

Redução de abelhas compromete agronegócio

05. Editorial 08. Páginas Verdes Leonardo Passos concede entrevista à jornalista Cláudia Brandão 14. Palavra do leitor

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Páginas Verdes Leonardo Passos

36. Indústria

O custo para levar água ao sertão

16. Ponto de Vista Elivaldo Barbosa

56. Juventude interrompida

26. Economia e Negócios Jordana Cury

64. A saudade que fica

76. A volta do Salão de Arte Santeira

38. Você já ouviu falar em bitcoins?

Guerra orçamentária

41. Tecnologia Marcos Sávio 73. Chão Batido Cineas Santos 80. Playlist Rayldo Pereira 82. Perfil Péricles Mendel

Articulistas 61

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42. Os primeiros cuidados com a saúde masculina

70. Frutas, sim, mas com moderação!

28. Imposto do barulho

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COLUNAS

48

Fonseca Neto

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Tony Batista


foto Manuel Soares

A perda de abelhas e a redução de alimentos As mudanças climáticas e a estiagem prolongada, que castiga o Piauí há sete anos consecutivos, estão provocando um fenômeno preocupante para os produtores rurais: a perda de abelhas. O fenômeno, na verdade, não acontece apenas no Piauí. Mas aqui, ele ganha contornos mais graves por afetar diretamente o setor apícola, que responde pela sétima maior produção de mel do país. Outros alimentos que dependem do polinizador natural, como o maracujá, também estão com a produção comprometida. De acordo com pesquisadores da Embrapa, das plantas cultivadas no país, 75% dependem da polinização. Quando esta é afetada, há um prejuízo natural na produção de alimentos e um custo maior para o agronegócio. O valor estimado de contribuição dos serviços ambientais de polinização no Brasil é de U$ 12 bilhões por ano. O prejuízo nessa área acontece, justamente, no momento em que o agronegócio vem dando sinais positivos no crescimento da economia, como revela a entrevista concedida às páginas verdes pelo chefe da unidade estadual do IBGE, Leonardo Passos. Ele traça um perfil da realidade socioeconômica do Piauí a partir dos dados coletados pelo censo e pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – PNAD.

Os números apontam uma realidade de contrastes, com avanços em algumas áreas, como a melhoria do Índice de Desenvolvimento Humano - IDH - e o aumento na expectativa de vida dos piauienses; e o atraso em outras, a exemplo da participação do Piauí no Produto Interno Bruto do Brasil, que responde por apenas 0,7% de todo o PIB nacional. Para acelerar o desenvolvimento econômico do estado, seriam necessárias algumas obras importantes de infraestrutura, indispensáveis para a atração de grandes investimentos. Mas o governo do estado está em crise e não dispõe de recursos para isso. A outra alternativa seria contar com investimentos do governo federal, também escassos para atender aos pedidos de todos os estados da federação. O jornalista Fenelon Rocha faz uma análise sobre a guerra orçamentária que se desenha no horizonte do Planalto Central, com poucas chances de vitória para o Piauí. Um exemplo de obra necessária são as adutoras, especialmente a do Sertão, que deveriam ser construídas para levar a água dos aquíferos até a população. Mas esta é uma obra extremamente cara e, por isso, acaba ficando só no desejo, como mostra a jornalista Caroline Oliveira, na reportagem da página 32. Cláudia Brandão Editora-chefe

REVISTA CIDADE VERDE | 29 DE OUTUBRO, 2017 | 5


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SE D1 CIDADE


Entrevista POR CLÁUDIA BRANDÃO

Leonardo Passos

claudiabrandao@cidadeverde.com

O Piauí em números A divulgação nacional do levantamento sistemático da produção agrícola de 2017 vai ser feita aqui no Piauí, no próximo dia nove de novembro. E, nessa data, o IBGE vai apresentar uma boa notícia para o estado, relativa à safra recorde a ser colhida este ano, estimada em 3,7 milhões de toneladas de grãos. No entanto, os bons números vindos do agronegócio não são acompanhados em todos os outros setores da economia piauiense, que ainda depende, em larga escala, da administração pública. A indústria, por exemplo, é praticamente inexistente em boa parte dos municípios do estado. E a participação do Piauí no PIB nacional é de apenas 0,7%, ocupando a 21ª colocação no país, o que revela uma grande desigualdade em relação aos outros estados brasileiros. Nesta entrevista à Revista Cidade Verde, o chefe da unidade estadual do IBGE no Piauí, Leonardo Passos, revela dados preciosos sobre a realidade piauiense, que merecem ser conhecidos e analisados detalhadamente para a formulação de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento.

RCV – Que tipo de contribuição as informações colhidas pelo 8 | 29 DE OUTUBRO, 2017 | REVISTA CIDADE VERDE

foto Wilson Filho

O IBGE apresenta uma radiografia detalhada do Piauí e antecipa o resultado que aponta uma safra recorde de 3,7 milhões de toneladas de grãos.


IBGE podem dar para o planejamento do Estado? LP – O IBGE tem como missão ins-

titucional retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento da sua realidade e ao exercício da cidadania. Diuturnamente, estamos presentes na vida da sociedade. Nós temos hoje diversas pesquisas que vão avaliar vários setores da sociedade, algumas mais ligadas à economia, como as que avaliam a atividade das empresas, das indústrias. Nós temos também pesquisas domiciliares, que avaliam aspectos de renda da população, do emprego. E outras mais sociais, referentes a aspectos demográficos, como nascimentos, óbitos, casamentos, divórcios. A grande contribuição do IBGE, portanto, é traçar diversos retratos, apresentar uma radiografia da sociedade, como forma de projetar uma luz e clarear aspectos importantes na definição de políticas públicas e na alocação de recursos.

RCV – O que a evolução histórica das pesquisas tem revelado sobre as mudanças no Piauí? LP – Nós podemos analisar diversos

aspectos, como, por exemplo, os aspectos sociais. Ao longo do tempo, nós temos visto a esperança de vida do piauiense subir. O IBGE tem a síntese de indicadores sociais que demonstra isso: o aumento da expectativa de vida do piauiense, ou esperança de vida, o termo técnico que nós utilizamos. A renda do piauiense também vem subindo, mas tanto em relação à renda, quanto à esperança de vida, se observa que o Piauí ain-

Este ano, nós teremos uma safra recorde de grãos em nosso estado, estimada em 3,7 milhões toneladas.

da está entre os últimos estados. No caso da esperança de vida, o Piauí só fica à frente do Maranhão. Nós estamos evoluindo, mas ainda estamos abaixo do restante do país. Com relação à renda média habitual, que é um dado avaliado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio - PNAD – aqui no Piauí, ela gira em torno de R$ 1.380, de acordo com o último dado. Já a média do Brasil gira em torno de R$ 2 mil. É também uma das menores rendas dentre todas as unidades da federação.

RCV – E como está a proporção entre população urbana e rural? LP – De modo geral, observa-se al-

guns fenômenos demográficos. O ritmo de crescimento da população piauiense vem abaixo da média nacional. A última estimativa populacional que nós divulgamos mostrava que, enquanto a média no Brasil cresceu 0,77%, o Piauí cresceu 0,22%. Isso se deve a alguns fatores: a diminuição da taxa de fecundidade, ou seja, as pessoas estão tendo menos filhos, e também o fenômeno da migração, tanto da zona rural para a zona urbana, como também

a migração de pequenos municípios para municípios maiores, em busca de uma melhor condição de acesso à educação e à saúde. Cerca de 21% dos municípios piauienses apresentaram redução do número de habitantes, em razão também dessa migração de municípios menores para outros de médio e grande porte.

RCV – Qual o setor da economia piauiense que mais cresceu nos últimos anos? LP - Em termos de composição para

o PIB estadual, o setor de serviços ainda é aquele que contribui mais decisivamente em termos de valores, mas nós observamos também a expansão muito grande do agronegócio, especialmente na região dos Cerrados, conhecida como MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que vem registrando um crescimento grande e possibilitando uma taxa de crescimento, inclusive, maior do que a de outros estados. Pelos dados do PIB divulgados no último ano, o Piauí foi o segundo estado que mais cresceu, registrando 5,3% ( dados de 2014 - último ano divulgado). Esse crescimento foi muito puxado pela agropecuária, que é um setor ainda muito importante para o estado. No entanto, em que pese todo o investimento feito em técnicas agrícolas mais modernas, nossa agropecuária ainda é muito dependente das questões climáticas. Então, nós percebemos em 2015, por exemplo, uma safra bem inferior à ocorrida em 2014, muito por conta da ausência de chuvas ou chuvas irregulares. Já neste ano, como houve REVISTA CIDADE VERDE | 29 DE OUTUBRO, 2017 | 9


um período chuvoso regular e um bom aproveitamento desse ciclo hídrico, nós teremos uma safra recorde de grãos em nosso estado, estimada em 3,7 milhões toneladas. É a maior safra de todos os tempos.

RCV – E como está a posição do Piauí com relação aos demais estados brasileiros, quando se fala em crescimento econômico? LP – Nos últimos anos, a gente vem

constatando um crescimento gradual do Piauí, mas como nós tínhamos um deficit muito grande, então, ele deveria crescer em uma velocidade muito maior para chegar próximo aos demais estados. Em termos de economia, segundo os últimos dados divulgados, o Piauí ocupa a 21ª posição no país. Ele saiu do 22° lugar e passou para o 21°. Isso ainda é pouco, porque se você imaginar o nosso estado pelo ponto de vista da economia, nós só ficamos à frente de Sergipe, que é um estado pequeno, do tamanho do município de Baixa Grande do Ribeiro, em termos de território. Portanto, ainda há muito a avançar. Mas há conquistas também. Em relação ao IDH, por exemplo, nós tínhamos um índice de 0,36 em 1991; em 2010, esse índice subiu para 0,646, o que significa melhorias em relação à educação e à esperança de vida.

RCV – Com o corte dos recursos federais, o IBGE deixou de realizar um dos censos. De que forma isso prejudicou o registro histórico da série? LP – O censo agropecuário foi adiado

de 2015 para 2017. O que deixou de ser feita foi a contagem populacional 10 | 29 DE OUTUBRO, 2017 | REVISTA CIDADE VERDE

De um modo geral, 31% do valor adicionado do PIB do Piauí é composto pela administração pública.

de 2015, que seria uma espécie de levantamento apenas em termos quantitativos da população. Isso, de uma forma geral, é mitigado por conta de outras pesquisas que o IBGE já possui. Nós temos pesquisas amostrais, como a própria PNAD, que permitem fazer um acompanhamento da realidade de diversos aspectos da sociedade. Eu diria que não houve comprometimento na qualidade dos dados com a inexistência dessa contagem populacional prevista para 2015, graças ao know-how do IBGE de trabalhar com pesquisas amostrais. Hoje, de um modo geral, nós trabalhamos com dois grandes tipos de pesquisas: as pesquisas censitárias - o recenseamento, feito de dez em dez anos – e as pesquisas amostrais, nas quais nós nos utilizamos dos dados do censo para formar uma amostra mestra, que vai traçar diversos retratos de setores, como taxa de fecundidade, de migração, todos esses fenômenos que são captados por essas pesquisas amostrais.

RCV – Do ponto de vista da logística, qual a diferença da realização de uma pesquisa de recen-

seamento para uma pesquisa como a PNAD? LP - O recenseamento tem uma

grande diferença porque ele visita todos os domicílios, no caso do censo demográfico, e todos os estabelecimentos agropecuários, no caso do censo desse setor. Isso necessita de um volume muito grande de servidores e de recursos, também. Já na PNAD, utiliza-se uma amostra bem mais reduzida, valendo-se da estatística a favor da ciência. Para você ter uma ideia, no censo agropecuário de agora, nós contratamos 1.200 agentes públicos para colaborar com os serviços. Hoje, o IBGE tem um quadro em torno de duzentos servidores, entre efetivos e temporários. No censo demográfico, foram contratados cerca de quatro mil agentes para realizar a pesquisa.

RCV – A violência urbana tem atrapalhado o serviço dos pesquisadores do IBGE? LP – Há, realmente, uma dificulda-

de na coleta dos dados. A violência vem aumentando no nosso estado, e já são diversos casos registrados de assaltos a recenseadores, inclusive isso dificulta um pouco até com relação à recusa da população em fornecer informações. A sociedade, de um modo geral, tem ficado reticente para prestar informação. No entanto, nós temos investido na identificação do agente do IBGE, com crachá, existe também um número de telefone 0800 para confirmar a identidade desse agente, de forma que isso não atrapalhe o serviço.

RCV – De que forma os gestores e a polução em geral podem ter

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Perda de abelhas afeta produção de alimentos