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Daniela Gonรงalves | Elsa Villon | Gisele Assis 3


Universidade Metodista de São Paulo Faculdade de Comunicação 2012 Projeto Experimental apresentado em cumprimento parcial às exigências do Curso de Jornalismo da Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social Habilitação Jornalismo. Orientador(a) do Projeto Experimental: Prof. Herom Vargas

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edicamos esse livro-reportagem a todos aqueles que buscam conhecer melhor a cultura brasileira, sobretudo as manifestações culturais criadas em situações de repressão como o maracatu. Aos integrantes dos grupos que reproduzem essa cultura em São Paulo,

e principalmente às nações de baque virado em Pernambuco, que são os grandes responsáveis por manterem o maracatu vivo no Brasil e no mundo. Agradecemos aos nossos familiares, por possibilitarem escolhermos nossa profissão e nos darem toda a assistência necessária durante os quatro anos dentro da universidade. Aos nossos amigos, que aturaram nossas falas sobre maracatu quase 24 horas por dia. Ao fotógrafo Paulo Vargas pela disposição e belíssimo trabalho. Aos que fizeram a arte e revisão da obra e nos ajudaram a unir forma e conteúdo da melhor maneira. Aos professores que fizeram parte desse trajeto e ao nosso orientador, Herom Vargas, que acreditou no nosso projeto desde o começo e esteve do nosso lado até sua conclusão. Ao Guilherme Dias Frigatto, que estará para sempre em nossos corações. 5


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diversidade da cultura brasileira  traduz a miscigenação da nação como um todo, e as manifestações populares carregam a história do país por meio da arte. O maracatu de baque virado é uma dessas manifestações, que nasce no Estado de Pernambuco e atualmente

ultrapassa as fronteiras geográficas e invade a capital paulista com seus brincantes. A obra Maracatu Paulistano – Uma Brincadeira Sagrada traz o perfil dos grupos

e companhias de maracatu de baque virado na cidade de São Paulo e conta como as pessoas que hoje trabalham o folguedo na terra da garoa conheceram essa tradição pernambucana que tem mais de dois séculos de história. Semelhanças, diferenças, crenças, resgate folclórico, valorização e identificação da cultura nacional. Esses são alguns temas abordados no livro, contados a partir de pesquisas, vivência com os grupos e principalmente, histórias de quem mantêm essa cultura viva.

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Cheguei Recife Com alfaia, mineiro e gonguĂŞ Quando escuto o apito do mestre Eu sinto a terra tremer Cia CaracaxĂĄ

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660 km separam a cidade de Recife (PE) da capital paulista. Após três horas de voo, aquela que seria a primeira viagem ao Nordeste tornou-se a certeza de um lugar para viver. Advogada, recém-formada e apaixonada pela cultura

de Pernambuco, Giovanna de Maio Spina voltou para São Paulo apenas para pegar suas coisas e avisar sua mãe que iria embora para o estado nordestino. Sozinha, a dificuldade de morar longe dos familiares e amigos aos poucos foi superada, graças à nova família que adotou: a da Nação do Maracatu Porto Rico. Os ensaios semanais deixaram de acontecer com o grupo que a ensinou a batucar – o Quiloa, em Santos (SP) – e deram lugar à comunidade do bairro recifense do Pina, tornando-se a sua segunda casa. Isso há três carnavais. A paulista fez as oficinas de alfaia (tambor tradicional do maracatu), se adaptou ao sotaque, ao calor e aos calos na mão e, em 2010 competiu na passarela do carnaval, em uma disputa similar à competição das escolas de samba do eixo Rio/São Paulo. Como em uma família, compartilhou as dores de perder o troféu de campeão e a glória de conquistá-lo no ano seguinte. Foram nesses momentos que a certeza quanto à decisão tomada se consolidou. Hoje, atuando em um escritório de advocacia e com uma casa no bairro de Boa Viagem, não pensa em retornar para as terras do Sudeste. Exceto, é claro, para visitar os amigos, que a cada ano vão aos montes até Recife para conhecer os motivos que fizeram Giovanna se aventurar no até então desconhecido Pernambuco.

Em um bar na Zona Leste de São Paulo, ao som de um forró universitário, Silvio Ribeiro discorre sobre sua paixão pela música e ressalta sua devoção a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e São Benedito. Além de filho de Ogum, é também fundador da Cia. Porto de Luanda e arte-educador. Entre goles de cerveja, divide com dois batuqueiros da Nação Porto Rico algumas histórias sobre o motivo que os 10


une: o maracatu. Destaca sua opção por não tocar no carnaval pernambucano, mas ajudar de outras maneiras para que a nação faça um bom desfile. “O pessoal ensaia o ano inteiro por esse momento. Acho injusto chegar algumas semanas antes e querer desfilar junto”. Apontando para Deivson Santana, um dos integrantes da nação, relembra todo orgulhoso um dos momentos do desfile de 2011, no qual não tocou nenhum instrumento, mas ajudou a Porto Rico. - Esse aqui deixou a baqueta cair no carnaval passado e eu estava atrás para recolher. - Batuqueiro não pode abaixar para pegar quando ela cai, senão a nação perde pontos. Eu sempre levo um par a mais preso à alfaia por precaução, mas o Silvão recolheu a minha e a Porto Rico foi campeã. Deivson estava há dois meses em São Paulo ministrando oficinas de maracatu para os grupos da cidade e dividia com o companheiro de nação, Ivan da Silva, conhecido como Ivanzinho, a oficina na quadra da Escola Estadual Milton Cruzeiro, em Itaquera, zona leste de São Paulo. O ritmo da oficina era ditado pelo pedido inicial de Ivanzinho: “Toquem o que vocês costumam tocar. Assim, nós podemos trabalhar seu sotaque”. Na escola, 15 pessoas, entre crianças e adultos, faziam o intercâmbio cultural Pernambuco/São Paulo e durante três horas trocavam experiências sobre suas visões do maracatu. Pouco depois das cinco da tarde, em meio a batuqueiros pernambucanos e paulistanos, Silvo ressalta como o maracatu mudou sua vida. Repetente, foi expulso da escola na infância. A música, em especial a percussão, foi o caminho que encontrou para se entusiasmar com os estudos. De aluno expulso, passou a pesquisador de ritmos brasileiros, africanos, cubanos e árabes. Voltou para a escola, fez supletivo, se formou na faculdade e incentivou outros membros da Porto de Luanda a ingressarem na universidade. Hoje faz pós-graduação em Educação em Música e é professor. Vive de cultura, ora ensinando as pessoas a tocarem ora contando a história do maracatu. 11


Não esconde a vontade de montar uma associação cultural, ter uma empresa com CNPJ, concorrer a prêmios, ter uma sede e mostrar para a sociedade que cultura é coisa séria. Com a Cia., Ribeiro aprendeu a trabalhar em equipe e compartilhar a coordenação do grupo. Percebeu a função e necessidade de cada um dos integrantes, além das possibilidades encontradas quando se está disposto a aprender com o maracatu. E não esconde a satisfação: “Fico muito feliz com a divulgação que o maracatu está tendo, de entrar na universidade, ser alvo de estudo e virar uma ciência. Isso divulga cada vez mais a cultura tradicional. Lembrando que divulgar não é resgatar – quem resgata é o SAMU! A cultura é viva e existe”.

Há 12 anos, o músico e pesquisador Antônio Nóbrega levou um bando de garotos paulistas para conhecer o carnaval pernambucano. Eles faziam parte do projeto Orquestra Jovem de Percussão Zabumbal, que ensaiava no Instituto Brincante, em São Paulo, idealizado por Nóbrega. Entre os jovens estava Henrique Barros, músico iniciante apelidado de Capitão. Aquela seria apenas a primeira vez que passaria um carnaval em Pernambuco. Durante 30 dias, ficou encantado com a força da cultura folclórica nas ruas de Recife, Olinda e redondezas. Sentia uma certa energia mais forte, vinda de um lado específico: era o maracatu. O mesmo clima de encantamento era partilhado por um amigo e companheiro de Capitão, Francisco Rojo, o Chico. A vontade de continuar aquilo que haviam visto e aprendido no Nordeste persistiu na capital paulista. Um convite do jornalista Gilberto Dimenstein foi o que faltava para que o projeto se consolidasse. Após se apresentarem na inauguração da praça do Projeto Aprendiz, no bairro paulistano da Vila Madalena, Bruno Prado, amigo em comum de Chico e Capitão, sugeriu formar um grupo percussivo, que aos poucos foi se transformando em um de maracatu, até se consolidar como Cia. Caracaxá. 12


Chico e Capitão dividem hoje a coordenação da Cia., mas seus corações batem por nações pernambucanas diferentes. Em 2003, após hospedar Shacon Viana, mestre da Nação Porto Rico em sua casa em São Paulo, Capitão fez uma alfaia nas cores da nação – verde e vermelho – e presenteou o pernambucano. O instrumento foi aceito, mas com uma condição: a de que Capitão fosse o responsável por tocá-la naquele carnaval. A partir disso, o paulistano vai para Recife competir todos os anos e chega a ficar de dois a três meses ensaiando com a comunidade do Pina, que se tornou um grande grupo de irmãos. Seu amigo Chico também toca maracatu no carnaval pernambucano, mas veste as cores azul e branco da Nação Estrela Brilhante de Recife. Coincidentemente, sua história com o povo do bairro recifense Alto José do Pinho também começou em 2003 e seja por terra ou por céu, todos os anos ele está em terras pernambucanas saudando a comunidade que um dia o abraçou. A “rivalidade” entre nações existe, mas nunca ultrapassou a amizade dos dois. É como se cada um torcesse para um time diferente, o que já acontece: Chico é corintiano e Capitão, são paulino, mas que a paixão pelo futebol falasse mais alto. “Independentemente da nação, sua importância para que a cultura do maracatu permaneça viva é maior”, define Capitão.

A superação da dificuldade de Giovanna Spina em morar sozinha, as famílias conquistadas por Chico Rojo e Capitão e a determinação de Silvio Ribeiro em ter uma profissão foram conquistas, em parte, adquiridas graças ao maracatu de baque virado. O elo entre essas três histórias é uma manifestação cultural existente há mais de 200 anos, que mudou a vida desses paulistas de origem, mas pernambucanos de coração. Apaixonados, o primeiro contato com a cultura foi o suficiente para que começasse a nascer relações que perduram até hoje. Tanto Giovanna, quanto os coordenadores da Cia. Caracaxá ou o fundador da Cia. Porto de Luanda,tiveram suas vidas tocadas, direta ou indiretamente, pela cultura 13


pernambucana por causa de Francisco de Assis França, o Chico Science. Juntamente à banda Nação Zumbi, o músico protagonizou o fenômeno denominado manguebeat no início anos 1990 tiveram a ideia de colocar elementos do maracatu nas músicas e levá-los para o palco. Difundindo o discurso de que o Brasil precisava conhecer o que era produzido culturalmente em Pernambuco, Science despertou o interesse dos jovens paulistanos a respeito da vida cultural de Recife, Olinda e região. Antes dele, nos anos 1960, o poeta Solano Trindade trouxe suas pesquisas sobre a manifestação e introduziu os primeiros registros de maracatu em São Paulo. Deixou seu legado na cidade de Embu das Artes, que com a ajuda de outras figuras pernambucanas, vêm colorindo os quatro cantos da capital paulista. Se há 10 anos, apenas dois grupos faziam uma releitura do maracatu em São Paulo, hoje mais de uma dúzia espalha pela cidade aquilo que conheceram em terras pernambucanas.

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O povo negro coloriu o Brasil E criou o maracatu Invadiu São Paulo e Rio Tocando de Norte a Sul Ilê Aláfia

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uando se fala em maracatu São Paulo, os pernambucanos Solano Trindade e Chico Science são tidos como personagens principais na disseminação do baque virado na cidade. A manifestação,

originalmente pernambucana, tornou-se uma prática cultural também paulistana e está relacionada a questões políticas, econômicas e ao próprio desenvolvimento da região. O crescimento da capital paulista como potência da economia nacional fez com que São Paulo passasse a ter uma grande oferta de empregos e brasileiros de outras regiões começaram a migrar para a cidade. Por conta da migração uma das principais características da capital paulista é a sua diversidade cultural e miscigenação, que faz do local um grande agregador de costumes e manifestações vindas de outras regiões, como as releituras do folclore nordestino, entre elas o maracatu. Um desses migrantes nordestinos veio de Pernambuco na década de 1950 e trouxe para o Sudeste suas pesquisas sobre as manifestações originais de seu estado. Solano Trindade (1908-1974) era poeta, teatrólogo, pintor e pesquisador, além de defensor do movimento negro no país. Viajou o Brasil com o Teatro Popular Brasileiro, grupo que tinha como ideal a preservação e promoção da cultura afro-brasileira, criando releituras de diversas culturas populares como o maracatu. A ligação dele com a manifestação é evidenciada nos seus poemas: Sou negro Meu avós foram queimados pelo sol da África Minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques,gonguês e agogôs Contaram-me que meus avós vieram de Luanda Como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo E fundaram o primeiro maracatu

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Solano veio para São Paulo a convite do escultor Claudionor Assis para uma apresentação na cidade de Embu das Artes. Seu legado não parou nas pesquisas e atividades do Teatro Popular, o amor pela cultura afro ficou nos genes de sua família e a filha mais velha, a historiadora Raquel Trindade, virou referência com suas pesquisas sobre o assunto. “Papai se apaixonou por Embu. Naquele tempo o rio e a cachoeira eram limpos. Ficamos com mais trinta pessoas trazidas do Rio de Janeiro morando no barraco do Assis. Nós pintávamos e dançávamos pela rua. Era lindo”. Hoje, Raquel tem livros publicados sobre candomblé, a história de Embu, e danças de origem africana. A vinda de seu pai para a cidade revolucionou a região e sua casa tornou-se um núcleo artístico. Com os moradores da região, o poeta desenvolveu releituras de culturas populares e se tornou referência por criar um polo de tradições afrobrasileiras em Embu das Artes. Nesse período, o Teatro Popular continuou viajando por todo o país e durante uma das apresentações na capital paulista, a companhia descobriu a existência do grupo de maracatu Brasil Folclore Irmãs Ibêjis. Raquel Trindade descreve o momento: “Nós começamos a fazer uma grande festa pelas ruas de Embu, e passamos a ser chamados para dançarmos em vários lugares de São Paulo. E quando nos apresentamos nas ruas vimos que já existia um maracatu aqui, o das irmãs, trazido do Nordeste para a zona leste da cidade. A partir daquele dia, começamos a nós apresentar juntos”. A fusão das Irmãs Ibêjis com o Teatro Popular impulsionou a divulgação dos cortejos de maracatu. No carnaval de 1968, as Ibêjis se apresentaram no sambódromo do Anhembi com o enredo Terreiro Nagô e um corpo de 200 integrantes. Com o falecimento de Solano, em 1974, Raquel começou a buscar um terreno em Embu para a fundação do Teatro Popular Solano Trindade e procurou Joaquim Mathias de Morais, então prefeito da cidade, conhecido como Quinzinho: – A senhora vai votar em mim se eu ceder o terreno? 17


– Eu não voto na direita, então não posso votar em você. – Bom, neste caso eu também não vou poder ceder o terreno para a senhora. A suposta imposição política era apenas uma brincadeira do prefeito que cedeu o espaço e em 1975 foi fundado o Teatro Popular Solano Trindade. O objetivo da nova companhia era dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelo poeta ao longo dos anos. A importância do pernambucano se estendeu para a capital e no carnaval de 1976, a escola de samba paulistana VAI-VAI o homenageou com o samba-enredo Solano Trindade, o Menino do Recife, interpretado por Oswaldinho da Cuíca. Solano vento forte africano Nome que o menino recebeu Lá no Recife Pernambuco Cidade que o menino nasceu Moleque de rua Viu carnaval O pregão da quituteira E lapinhas no natal Literatura de Cordel E firmou um ideal Levantar uma bandeira Pela arte popular Com forte ligação com o maracatu que aprendeu ainda na infância, Raquel Trindade coordena atualmente dois grupos: a Nação Kambinda e o Urucungos, Puítas e 18


Quijêngues, o último formado no período em que ministrava aulas de folclore, teatro negro e sincretismo religioso em cursos de extensão da Universidade de Campinas (Unicamp). Para ela, o maracatu representa uma grande força: “Quando os tambores tocam, eu me sinto elevada. Ele é muito bonito e tem uma ligação muito forte com a minha família. A Kambinda já existe há 37 anos, se juntarmos com o tempo em que meu pai fazia apresentações de maracatu já são quase 100 anos dessa tradição”. Apesar de toda trajetória histórica, foi apenas nos anos 1990 que a prática do maracatu passou a ganhar notoriedade no Sudeste. A década é um divisor de águas para a difusão da manifestação no Estado de São Paulo, sobretudo na capital. O movimento manguebeat, criado em Pernambuco e representado por bandas como Mestre Ambrósio, Mundo Livre S/A e, principalmente, Chico Sience e a Nação Zumbi, que incluía nas canções elementos de culturas folclóricas da região, entre elas os maracatus de baque solto – originário da zona rural pernambucana, com características indígenas – e o de baque virado, criada pelos escravos africanos, e que hoje possui uma série de releituras em São Paulo.

Dona Raquel Trindade relembra o início do Teatro Popular Brasileiro 19


Eu vou fazer uma embolada, um samba, um maracatu Tudo bem envenenado, bom pra mim e bom pra tu Chico Science & Nação Zumbi Não era só nas letras que o folclore nordestino se fazia presente. Esses grupos deixaram-se influenciar pela música tradicional pernambucana ao mesmo tempo em que misturavam elementos de rock, hip-hop e batidas eletrônicas. O manguebeat se deu em paralelo à expansão da internet, que ajudou a criar formas de divulgação mais exponenciais para o movimento. “Na época que eu era criança, o maracatu não tinha essa dimensão que tem de uns 20 anos para cá, o povo pernambucano tinha uma ligação muito maior com o frevo”, conta a pernambucana Vera Lucia Athayde, que veio morar em São Paulo para estudar. Como pesquisadora de cultura popular acompanhou de perto o interesse dos paulistanos que passaram a ter contatos mais próximos com a produção cultural de Pernambuco e se sentiam atraídos pelo que era feito na terra do manguebeat. Foi assim com Silvio Ribeiro, da Cia. Porto de Luanda, que se interessou pelo maracatu quando viu um show da banda de Chico Science: “Eu fui a um evento chamado Hollywood Rock, com várias bandas e o Chico Science e Nação Zumbi abriu as apresentações em 1996. Eu já tinha ouvido falar neles, pelo jeito de tocar, os tambores exóticos - de maracatu. Mas consegui conhecer um pouco mais ali”. Segundo o jornalista José Teles em seu livro Do frevo ao manguebeat, antes da Nação Zumbi, Lenine e Lula Queiroga já haviam levado tambores de maracatu para os palcos em shows no Rio de Janeiro, no lançamento do álbum Baque Solto, de 1983, despertando o interesse de jovens de classe média do Sudeste por culturas pernambucanas. Mas tanto Lenine quanto Science apenas colocavam elementos da manifestação em suas músicas. Teles também afirma em seu livro que “o maracatu da Nação Zumbi não era nem baque virado, nem baque solto. A rigor, nem sequer maracatu. Era um hibridismo, uma mistura de ritmos em que o maracatu era um dos ingredientes”. 20


Um dos integrantes de outra banda do manguebeat, o Mestre Ambrósio, foi mais além. Eder “O” Rocha veio morar em São Paulo com o grupo e não só misturava elementos folclóricos em suas músicas, mas também tinha uma ligação muito forte com o maracatu de Pernambuco. Integrante da Nação Estrela Brilhante de Recife desde 1993, teve contato com a Cia. de Artes Baque Bolado – que em 1996 chamavase Bloco Baque Bolado – e por pedidos dos integrantes do grupo paulistano, começou a ministrar oficinas sobre a percussão dessa tradição na cidade. Foi o responsável por trazer Walter França – o primeiro mestre a dar oficinas na capital – e organizou o primeiro encontro de maracatu no bairro da Vila Madalena que reuniu no mesmo lugar pessoas interessadas pela manifestação. Foi assim que o Estrela Brilhante de Recife tornou-se a primeira nação de maracatu a se aproximar dos moradores da terra da garoa. Também foi pioneira entre as nações a gravar um CD, em 2002, tendo como principais exportadores Eder Rocha e o Mestre Ambrósio. A partir daí, o intercâmbio cultural entre os dois estados se intensificou: as alfaias passaram a ser levadas para São Paulo, mestres de outras nações começaram a ministrar oficinas para os grupos da cidade e vínculos fortes começaram a ser criados.

No começo dos anos 2000 dezenas de paulistanos adquiriram maior conhecimento sobre o maracatu em viagens para Pernambuco e participações em oficinas com mestres. Para Eder esse intercâmbio é essencial para quem quer fazer maracatu na capital paulista já que essas pessoas “saem de São Paulo para procurar a essência do que estão reproduzindo e voltam com uma nova consciência, que aquilo que eles fazem é algo maior do que simplesmente tocar”. Nessa época se formaram alguns grupos que hoje são considerados os maiores e mais populares da cidade de São Paulo. O Ilê Aláfia, o mais antigo em atividade na cidade, foi criado um pouco antes, em 1999, e atua até hoje no bairro do Jabaquara. O ano de 2003 marcou a formação 21


das Companhias Caracaxá e Porto de Luanda e, em 2005 surgiu o grupo Bloco de Pedra, originário do Projeto Calo na Mão, considerado o maior bloco da cidade e que lota, todos os sábados, a quadra da Escola Professor Antônio Alves Cruz, no bairro do Sumaré, chegando a levar 600 pessoas ao ensaio em uma só tarde. Na cidade, existem atualmente nove grupos em atividade. O Bloco de Pedra é um dos que ministram oficinas de introdução ao maracatu, que vai desde como segurar uma baqueta, passando pela base de toques, cantos e dança de algumas nações. Ensinam as toadas e um pouco da história das nações que tiveram maior aproximação ao longo do tempo, como Estrela Brilhante de Recife, de Igarassu e Porto Rico.

Apresentação do Projeto Calo na Mão na Escola Professor Antônio Alves Cruz No lado oposto da cidade, em Itaquera na Zona Leste, a Cia Porto de Luanda, tem uma didática parecida, embora em menor escala. Oferece cursos de introdução e ensaios abertos, porém com dificuldade da localização, por ser um pouco mais afastada dos bairros mais badalados. Outros grupos, como a Cia Caracaxá que ensaia na Universidade de São Paulo, não possui esse cunho didático, mas estão abertos à visitação para que qualquer pessoa possa conhecer o trabalho que desenvolvem. Há 22


ainda grupos como o Batuntã, Baque Bolado e Cangarussu que não possuem estudo exclusivo sobre o maracatu, mas incluem elementos em seus trabalhos, fundindo o ritmo com outras manifestações, como baião, afoxé, coco e jongo. Algumas pessoas, como o Capitão da Cia Caracaxá, passaram a integrar também as nações de Recife e ficam meses nas sedes se preparando para adquirirem o conhecimento necessário para o esperado momento de se apresentar no carnaval. André Vianna, o Jota, coordenador do Ouro do Congo e companheiro de Capitão na Nação Porto Rico trabalha o ano todo com o maracatu, mas sabe que no final do ano a cabeça já está no próximo carnaval. “O compromisso de tocar em uma nação é muito grande. Você deixa de ir para Recife para passear e conhecer a região para ficar o tempo inteiro em uma comunidade, porque você firmou um compromisso com aquele trabalho”. Os motivos pelos quais os paulistanos dedicam parte de suas vidas a uma manifestação que originalmente está a milhares de quilômetros são vários. O reconhecimento entre nordestinos que moram em São Paulo e a identificação de uma cultura essencialmente nacional são alguns exemplos. Mas uma coisa é unânime: a batida da alfaia e o poder de alcance do som desse tambor, faz com que as pessoas se sintam modificadas ao final de uma toada, a música que compõe o maracatu. O dançarino Aurélio Prates conta que quando os tambores tocaram e reverberaram os 70% de água existente em seu corpo, aquilo mexeu com ele a ponto de que a brincadeira do maracatu passasse a fazer parte da sua vida, tanto na esfera pessoal quanto na profissional. Muitas pessoas procuraram as oficinas do Eder “O” Rocha como forma de terapia, mesmo que essa não fosse a sua função original. “Tocando, fazendo exercício físico, as pessoas libertam parte do problema, daquela energia que está ali presa. Maracatu é movimento, é energia”. Allan Fillismino, do Mucambos de Raiz Nagô e Mariana Vicenzo, estilista e integrante da terceira turma de introdução ao maracatu do projeto Calo na Mão exemplificam em poucas palavras esse poder:

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– É a identificação com o tambor. Você está num baque e consegue sentir a outra pessoa pela alfaia. – Essa batida parece o tum tum do coração.

Apesar de não haver um consenso entre historiadores e pesquisadores sobre

o

ano

do

surgimento

da

manifestação, a maioria dos indícios leva a crer que o maracatu surgiu no Brasil colonial. A origem da palavra maracatu também não é certa, o escritor e pesquisador Mário de Andrade cita em sua obra Danças dramáticas do Brasil que uma possibilidade seria a junção de maraca (instrumento) + catu (que em tupi, significa bonito). Essa Batuqueiros do Bloco de Pedra em ensaio no bairro do Sumaré

hipótese, no entanto, não é tão aceita já que não se tem registro da maraca como instrumento da manifestação. Outro

significado, esse considerado mais coerente, é que quando designada pelo senhor branco, a palavra remetia à bagunça e, de forma pejorativa também significava qualquer tipo de festa, ajuntamentos e batuques feitos pelos negros. Durante a escravidão, os portugueses criaram uma coroação em que eram eleitos reis e rainhas negros que coordenavam os demais escravos. Os reis eleitos tinham a função de manter a chamada “corte” organizada. Isso facilitava o trabalho dos senhores, que em caso de desobediência ou desordem não precisavam se preocupar em descobrir o responsável. Controlar um rei e uma rainha era mais fácil que um grande grupo de escravos. Mário de Andrade considera que esses reinados eram apenas festivos e 24


não passavam de “monarquias ilusórias”. A aceitação dessa prática pelas autoridades era a forma que os colonizadores encontravam para manter a disciplina dos escravos, além de disseminar a rivalidade entre as diferentes nações. O termo nação a princípio também era utilizado pelo europeu para identificar grupos vindos de diferentes áreas africanas e o que entendiam sobre especificidades culturais desses escravos. Dentro de um novo contexto, agora vivendo no Brasil escravista, o termo sofreu uma ressignificação, passando a ser adotado pelos próprios africanos que passaram a construir novas identidades no novo mundo. As coroações criadas para elegerem os líderes dessas nações eram realizadas em igrejas católicas, evitando a disseminação de religiões de descendência africana e não abrindo espaço para a autonomia dos escravos. Apesar disso a celebração permitia aos escravos criarem um canal entre si, com o intuito de preservar seus hábitos e crenças. A prática tornou-se uma mistura de costumes dos negros e dos portugueses. Escravos saiam das senzalas usando roupas doadas pelos senhores, com trajes que remetiam à corte real portuguesa e os novos reis eram mostrados ao resto da população em desfiles de sua nova corte – daí o termo “cortejo de maracatu”. Do ponto de vista português, os cortejos eram também uma brincadeira, uma forma de distração para os escravos a fim de que esses não se revoltassem. Mas para o antropólogo Julio Moracen, a prática que deu origem ao maracatu é uma cultura de resistência, pois nela os africanos encontraram maneiras de se comunicar, criando novas línguas e misturando diferentes culturas, adaptando-se ao novo lugar. Mesmo que a coroação dos reis negros tenha sido criada pelos europeus como forma de controle, o momento dos escravos estarem juntos proporcionava um diálogo entre eles, vindos de diferentes partes da África, mas unidos pelas mesmas condições no Brasil. O crescimento de ideias abolicionistas, sua concretização e a instauração da República no Brasil enfraqueceram as coroações. Elas perderam a força política e a razão de existir, mas as festas continuaram e passaram a ser chamadas de Autos do Congo, com coroações simbólicas em frente às igrejas. Os Autos do Congo tornaramse brincadeira popular, como forma de se comunicar com aqueles que passaram pelas 25


mesmas condições de escravidão. Os negros formaram novas estruturas sociais e buscaram refúgios nos terreiros de candomblé para se manterem próximos de suas origens. Os agrupamentos, ou seja, as nações existem até hoje e representam as cortes no carnaval pernambucano, como a Nação Leão Coroado, Estrela Brilhante, Porto Rico, Nação Cambinda Estrela, Encanto da Alegria, Estrela Brilhante de Igarassu, entre outras. Com as eleições de reis perdendo o significado, os chefes das nações passam a ser os babalorixás - pais de santo- e yalorixás - mães de santo - dos terreiros de candomblé ligados a cada nação. Os instrumentos e toques ligados à prática religiosa passaram a fazer parte do desfile e foi criada a Ala dos Batuqueiros. A disposição do maracatu se consolidou e da nova organização surgiu o estilo musical e a batida do baque virado. Os desfiles continuaram a ocorrer no carnaval e o maracatu tornou-se um espetáculo no qual os afrodescendentes reafirmam suas origens e homenageiam seus ancestrais por meio da arte.

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Na marcação das alfaias no tilintar do gonguê no xiquexá da maraca na marcação do abê Estrela Brilhante de Recife

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busca pela identidade nacional, a valorização do legado africano e o orgulho das manifestações populares permearam os estudos do escritor Mario de Andrade, do maestro César Guerra-Peixe e da antropóloga

Katarina Real. Andrade percorreu o Brasil entre suas pesquisas folclóricas, deparandose com diferentes danças presentes nas manifestações populares. O resultado foi a publicação do já citado Danças dramáticas do Brasil, dividido em três volumes, escritos entre 1934 e 1944, que evidenciaram a diversidade de influências entre negros, brancos e índios na formação da cultura brasileira. O mesmo fez Guerra-Peixe, junto às nações de Pernambuco entre 1949 e 1952, ao publicar a obra Maracatus do Recife, no qual aborda a hoje extinta Nação Maracatu Elefante e as nações Leão Coroado, Porto Rico e Estrela Brilhante. A americana Katherine Royal Cate ou Katarina Real, como ficou conhecida, dedicou a maior parte de sua vida ao estudo e divulgação da cultura pernambucana, publicando diversos artigos sobre as manifestações e folguedos da região e quatro livros sobre a cultura brasileira entre eles, Eudes, o rei do maracatu. A obra conta como José Eudes Chagas, nascido em Olinda, tornou-se o rei do Maracatu Porto Rico do Oriente. Esses três nomes se destacam entre tantos que valorizavam a cultura nacional que foi deixada de lado por muito tempo para dar lugar à cultura que vinha de outros países. No início dos anos 1990, as manifestações populares pernambucanas também se tornam objetos de estudos, graças aos músicos do manguebeat, também chamados de “caranguejos com cérebro”, resgatando não só que o que já fora alvo de estudos antropológicos, musicais e artísticos, mas misturando-o a diversas influências e criando um novo cenário cultural. Isso fez com que as manifestações populares regressaram como novidade para o povo brasileiro, que ainda importava cultura e musicalidade, ao invés de exportá-la como antes tinha ocorrido com o samba e a bossa nova. Em breve, o som grave da percussão reverberaria não só no Sudeste, mas também na Europa e até no Japão. A alfaia que ilustrou cenicamente o manguebeat agora estava presente nas bandas aclamadas pela imprensa. O público vinha na direção de sua própria história, que por 28


décadas foi ofuscada pela colonização cultural norte-americana e questões políticas, segundo Fábio Trummer, guitarrista e vocalista da banda Eddie: “O Governo Collor deu uma cacetada e acabou com o investimento para a cultura, que já vinha mal das pernas. Era um processo que vinha da ditadura, de colonização de todos os mercados no Brasil, o da cultura principalmente. O manguebeat representava a volta do ser brasileiro, que voltou a se achar bonito, legal. O tambor de maracatu talvez fosse o símbolo disso, pois brasileiro sempre gostou muito de batucada e o tambor é símbolo da música brasileira”. Chico Science sabia e declarava abertamente que não estava fazendo maracatu. Mas ao adotar a alfaia como instrumento e elemento cênico no palco, chamou a atenção para o curioso tambor e tudo o que ele representava – dentro e fora de Pernambuco. Trummer explica que foi graças a todos os signos representados pelo instrumento que o brasileiro estava descobrindo um Brasil que ainda não conhecia, por meio de uma música moderna e da cultura ligada à própria alfaia. As pessoas queriam conhecer mais sobre o maracatu também por conta daquela música. Foi graças à aparição desse tambor na TV que Adalcir Vieira, ou Índio, como é mais conhecido, descobriu o maracatu de baque virado. Embora seja filho de pernambucano, foi apenas anos mais tarde que a manifestação integraria sua vida: “Eu perguntei para o meu pai e ele não soube me responder, pois saiu de lá ainda pequeno. Foi quando decidi buscar mais sobre essa cultura”. Viajou para Pernambuco em 2006 com amigos e foi quando viu uma alfaia ao vivo pela primeira vez. Dois anos mais tarde, juntamente com a amiga Priscilla Rocha, montou o Mucambos de Raiz Nagô. O grupo enfatiza a ligação do homem com o tambor que segundo eles, é um dos motivos que ocasionou não só a repercussão do maracatu em São Paulo, mas sua sobrevivência em Pernambuco, ao longo dos séculos. “O importante de tudo isso é que o maracatu não morreu. Isso o fez não só existir, mas hoje em dia ser patrimônio imaterial, sendo assim mais difícil que ele morra. A força do tambor sempre vai haver, sua relação com o homem sempre vai existir”. 29


Hoje, Pernambuco exporta alfaias para o mundo inteiro e a cidade de Colônia, na Alemanha, sediou em julho de 2012 o 5º Encontro Europeu de Maracatu, que já passou por Londres e Paris. Idealizado pelo inglês Sam Alexander, diretor do grupo londrino Maracatu Estrela do Norte, o evento ocorre desde 2006 e reúne grupos de maracatu de baque virado vindos de muitos países do continente europeu, reunindo mais de 350 participantes e milhares de espectadores, segundo informações divulgadas pelo site do evento. A cultura novamente se sobrepôs às fronteiras da etnia, dos países e do tempo. Para o percussionista do Nação Zumbi, Gustavo Da Lua o maracatu de baque virado é o ritmo brasileiro que mais define a cultura pernambucana, que é riquíssima. Mônica Xavier Santos, que coordena o grupo Arrastão do Beco, acredita que o papel dos profissionais da cultura popular é a busca pelas raízes brasileiras com sentido de identificação nacional e valorização do que é feito no Brasil. Silvio Ribeiro conta que os mestres e membros das nações de Pernambuco disseram para que ele trabalhasse o maracatu como manifestação cultural e ritmo brasileiro com a Cia. Porto de Luanda, repassando isso a quem estivesse disposto a aprender seu significado. E é assim que eles e os demais grupos e companhias de São Paulo o fazem: representam dentro de seu contexto o que é feito em Pernambuco.

Apresentação da Cia Porto de Luanda no centro da cidade de São Paulo 30


O que se perde da tradição do maracatu quando ele é representado em São Paulo? Nada. Assim se posiciona Da Lua: “Nada se perde quando o maracatu vem para São Paulo. Só se ganha. São Paulo é uma cidade cosmopolita, que abraça culturas do mundo inteiro. Do mesmo jeito que tem maracatu, tem ciganos, árabes, sírios, espanhóis, peruanos. Todo mundo trazendo suas culturas”. O percussionista ressalta apenas que quem quer fazer algo que não está acostumado, precisa se moldar, ter embasamento e saber o significado de cada elemento, pois só assim será verdadeiro. “O maracatu, hoje em dia, está inserido na sociedade de outra forma e o intuito é difundir a cultura sem banalizar”, finalizou, grato pelo acolhimento que recebeu da cidade, tanto como músico quanto como cidadão pernambucano. Fundado em 2002, o Fórum Permanente das Culturas Populares foi criado em São Paulo para discutir o tema. Membro do fórum, a recifense e coordenadora de um grupo de maracatu em Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo, Vera Cristina Athayde defende que qualquer manifestação estudada deve ter a construção de um sentido, para que a cultura não se perca e seja assim fortalecida.

Ode ao sincretismo Virgem do Rosário, nossa casa cheira Cravo de rosa, flor de laranjeira Olê Bambi, olê bambá Estrela Brilhante chegou pra ficar E é a Virgem do Rosário Nós viemos festejar Nação Estrela Brilhante de Igarassu

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O começo da noite do dia 23 de abril já movimentava as calçadas da Avenida Paulista, ponto de encontro famoso por suas aglomerações da cidade. Entre vendedores de poesia e moradores de rua, o vão do Museu de Arte de São Paulo recebia pessoas de diferentes regiões da cidade e de fora dela, carregando instrumentos típicos do maracatu de baque virado: alfaias, gonguês – instrumento metálico similar a um sino de boca achatada, tocado com um pedaço de ferro – e agbês – cabaças revestidas de miçangas que tem som similar ao dos chocalhos. Por volta das oito da noite, os maracatuzeiros checavam a afinação dos tambores e conversavam entre si. Sem uniformes ou estandartes, naquela noite eles seriam apenas um grupo: os brincantes de maracatu da cidade de São Paulo. As calçadas foram tomadas por batuqueiros de todas as idades e etnias. Caminhando sentido à estação Consolação do metrô, a cada quarteirão o movimento despertava olhares e ouvidos curiosos ao que estava acontecendo. Toadas de diferentes grupos paulistas e nações pernambucanas embalavam o trajeto. A data não foi escolhida por acaso. Tratava-se da comemoração de São Jorge, que no sincretismo entre catolicismo e candomblé representa Ogum, o orixá defensor da justiça que representa a ordem e a força. Meses antes e longe do Sudeste, na capital pernambucana as nações de maracatu reverenciavam e agradeciam os orixás na virada do dia 20 para 21 de fevereiro, marcando a Noite dos Tambores Silenciosos. Após as competições do carnaval recifense, ocorre a reunião de batuqueiros em cerimônia tradicional, que marca o culto a Iansã, senhora dos ventos e das tempestades, e a Ogum, entidades que comandam a celebração. À meia noite todas as luzes se apagam e as loas – cantos e batuques de exaltação aos orixás – soam em uníssono. As nações vindas de qualquer parte do Estado, independente da competição, participam em reverência aos antepassados e deuses africanos no dia da semana que representa as almas segundo o panteão mitológico do candomblé: segunda-feira. Ao final, pombas brancas são soltas enquanto fogos de artifício celebram a data com pedidos de paz e proteção. 32


Presente nas duas ocasiões citadas, a religião é um dos aspectos que diverge na realização do maracatu recifense e do paulistano, resultado do sincretismo entre catolicismo e candomblé. No Recife, esse sincretismo surgiu ainda no período escravista como uma maneira de cultuar a identidade africana no novo continente dentro de uma sociedade opressora. Julio Moracen contextualiza essa relação: “A dualidade entre orixás e santos católicos permite o que hoje conhecemos como cultura afro-brasileira. Sincretismo, mestiçagem, transculturação. Esses são nomes utilizados pelas ciências sociais como uma maneira de entender como o encontro entre diferentes culturas dá fim a algo e se cria uma nova realidade cultural”. Longe de suas referências, os negros dominados foram inseridos em um novo modelo de convivência na estrutura social estabelecida por seus dominadores. “O maracatu tem essa função de confraria de negros que tentavam dialogar sua cultura com a europeia”, afirma Moracen, pontuando que tanto o candomblé quanto o maracatu são decorrentes do processo de urbanização. Já em São Paulo, o sincretismo é característico da formação da metrópole. Em cada bairro da capital, há a latente marca da miscigenação que transforma a cultura paulistana em um grande híbrido com um pouco de tudo. Chineses, japoneses, árabes, bolivianos, italianos e tantos outros povos que para cá imigraram ostentam sinagogas, templos budistas, mesquitas, casas de umbanda e terreiros de candomblé, além de igrejas cujas proporções arquitetônicas tornaram-se referências turísticas, tal como a Catedral Metropolitana Nossa Senhora de Assunção, situada na Praça da Sé, marco zero da cidade. O grupo Ouro do Congo, criado em 2010, exemplifica de forma clara o seu sincretismo com a umbanda e declara abertamente sua ligação com a religião. “Não é um pré-requisito, assim como não é na nação, mas criamos um novo significado do que acontece em Recife no contexto paulistano. Não obrigamos ninguém a seguir nada, mas todos têm conhecimento da nossa ligação”, afirma Jota Vianna, um dos fundadores do grupo. Após conhecer as nações pernambucanas, principalmente a Estrela Brilhante de Igarassu e Porto Rico – da qual faz parte, apesar da distância geográfica – Jota expõe a ligação do grupo com a umbanda como um espaço para viver o maracatu dentro do que ele acredita. 33


Jota já tocava em outros grupos, entre eles Cia. Caracaxá e Bloco de Pedra, além do Quiloa, em Santos. Em 2006 teve a oportunidade de viajar para Pernambuco na época do carnaval e aprofundou seu aprendizado de maneira empírica, graças à convivência diária com as comunidades durante os três meses que esteve no Estado. Retornou em outras ocasiões e seu vínculo com o Mestre Shacon, da Porto Rico se estreitou quando ficou hospedado em sua casa. Decidiu tocar juntamente com a nação, frequentar o terreiro e, quando retornou a São Paulo, desvinculou-se dos outros grupos para criar o seu, apadrinhado pela nação de seu agora mestre e amigo.

Ouro do Congo pede proteção antes da primeira apresentação pública do grupo

MARACATU ECUmÊNICO Surge a questão: como representar a cultura enérgica dos tambores em uma cidade que possui manifestações, culturas, tradições e religiões diferentes eclodindo em cada rua? Por meio da busca de um novo sentido para o que é feito, de um forte elo com as nações pernambucanas, reconhecendo a identidade nacional em cada toada, batuque e passo do maracatu. E principalmente, pelo respeito à tradição que 34


há séculos permeia o maracatu-nação em sua origem. Para isso, todos os grupos da cidade buscam o conhecimento não só em pesquisas, mas principalmente no tesouro vivo nacional: as pessoas que preservam tal legado há séculos pela oralidade. A origem da palavra cultura vem do latim colere, que significa cultivo, o que ilustra a maneira como as manifestações e representações surgem, se estabelecem e são repassadas graças aos que têm contato com elas. Esse cultivo também permite entender o conceito de nação, crucial para compreender os elementos que a compõem e a diferenciam dos grupos. Identificadas principalmente pelo bairro ou morro da capital pernambucana, elas possuem uma estrutura social que diverge dos grupos paulistanos. Da Lua ressalta o pensamento dos locais quanto ao folguedo: “Maracatu para gente é como se fosse escola de samba para o carioca. Alguns têm relação com o bairro, com a cidade”. As pessoas convivem entre si, possuem uma relação que se estende para além do carnaval, não só pelos ensaios, mas também pela ligação com os terreiros que as regem. Muitos dos que integram as nações pernambucanas não são apenas batuqueiros: possuem uma função no contexto religioso dentro do terreiro da nação. Além dos ensaios, seguem o candomblé e têm responsabilidades ao longo do ano para o grande momento de sair às ruas no carnaval e brincar o maracatu. No entanto, nem todos os integrantes são devotos, mas reconhecem o vínculo entre a fé e a manifestação. Isso é decorrente da origem de cada nação e de como é repassada ao longo dos séculos por seus mestres, reis, rainhas e membros. Os disseminadores do maracatu na cidade de São Paulo contam não só com pesquisas didáticas e registros passados, mas também com mestres pernambucanos e batuqueiros para fundamentar a percussão e a dança de seus grupos, trabalhando as partes musicais e culturais que resultam na formação de grupos percussivos e companhias de dança. “Nação, para mim, é só em Pernambuco”, pontua Índio do grupo Mucambos de Raiz Nagô. “Não tem como montar uma nação aqui em São Paulo, é impossível. Então, nós tentamos reproduzir o mais próximo possível”, defende o coordenador de percussão do Ilê Aláfia, Bruno Barbosa de Caldas. 35


Realizado por uma ONG vinculada diretamente à Associação Cristã de Moços (ACM), o Ilê surgiu sem que seus criadores soubessem ao certo o que era o maracatu. O intuito era aproximar crianças e adolescentes da cultura afro-brasileira dentro de uma grade de atividades já elaborada pela ACM. Ainda sem conhecimento aprofundado, os primeiros instrumentos adquiridos remetiam mais às escolas de samba que ao maracatu de baque virado. Foi quando os coordenadores tomaram conhecimento de todo contexto histórico e perceberam a tênue linha entre manifestação e religião por meio de oficinas dadas por mestres e batuqueiros pernambucanos, viagens e pesquisas de campo dentro das nações. Mas não deixaram de reproduzir a tradição por conta disso, buscando em sua simbologia cultural os signos e elementos necessários para manter o grupo percussivo. Rei, rainha, príncipe, princesa, barão, baronesa, embaixador, embaixatriz, lanceiro, vassalos, dama de passo: eis alguns personagens que compõem a corte dos maracatus de Recife as quais variam entre 30 e 70 pessoas. Em São Paulo, esses elementos são extintos ou representados em menor escala. Os dois grupos que atualmente se apresentam com rei e rainha são a Cia. Porto de Luanda e a o Grupo Ilê Aláfia, que também realiza cerimônias simbólicas de coroação – tanto para o grupo adulto, quanto para o mirim. O porta-estandarte, entretanto, é presente em todas as apresentações dos grupos paulistanos, levando o nome e a data de fundação de cada uma delas. No caso da Cia. Porto de Luanda, leva também o nome da padroeira Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, considerada a santa dos batuqueiros e que também batiza a conhecida igreja de Pernambuco, que tem sua fachada conhecida pelas antigas coroações realizadas e que originaram muitos cortejos de maracatu. Os elementos das cortes pernambucanas também têm ligação com a religião. A rainha Elda Viana da Nação Porto Rico, por exemplo, não só desfila no carnaval com o traje vistoso, mas também é yalorixá e cuida dos trabalhos realizados para proteger os batuqueiros e suas famílias. Outra personagem notória é a dama de passo, que sob o aspecto religioso, tem uma série de restrições e obrigações a cumprir para 36


desempenhar sua função nos cortejos e apresentações: carregar a calunga, a boneca sagrada considerada a verdadeira dona do maracatu, citada e homenageada em muitas loas e símbolo da ancestralidade. Na capital paulista, o Grupo Ilê Aláfia, traduzido do iorubá como Casa da Felicidade, foi presenteado pelo mestre da Porto Rico com o objeto mais sagrado que uma nação poderia oferecer a um grupo: uma calunga. Sem ligação com antepassados do grupo, o presente simboliza a mãe África e o respeito entre a diversidade cultural. Em solo paulistano, não há grupo que tenha obrigações coletivas quanto à religião e que trabalhe a parte cultural do maracatu, com exceção do Ouro do Congo que, embora suas obrigações não sejam pré-requisito na integração dos membros, é a que mais se aproxima da religião. Os grupos reverenciam as nações de Pernambuco embasadas pelo caráter cultural, folclórico, musical e étnico, sem um posicionamento religioso claro. Isso aconteceu antes do manguebeat, com Solano e Margarida Trindade, naturais de Recife, que repassaram a cultura sem o caráter religioso implícito em sua prática. O casal, na verdade, tinha visões opostas: ele era ateu e ela, presbiteriana. Os dois acreditavam que a importância estava contida na tradição por sua identidade afro-brasileira e era importante repassar o que era feito com respeito e seriedade, porém sem desvincular-se de ideologias ou crenças pessoais por conta disso. Os passos de dança que remetiam ao candomblé não eram realizados por Dona Margarida, embora ela os soubesse, assim como Solano não criou terreiros de candomblé em Embu das Artes, embora eles existissem e existam até hoje. A identificação com o canto, o toque, a dança e a festa falaram mais alto que vínculos e aberturas provocados por qualquer vínculo religioso. Se o interesse pelo maracatu em São Paulo se deu principalmente por conta da percussão, o aspecto místico contido em sua realização também cativa os maracatuzeiros. Após conhecer a tradição, as nações, a história e a identidade cultural do maracatu, há os que se aproximam da religião. O coordenador de dança do Bloco de Pedra e da Cia. Caracaxá, Aurélio Prates, conta que não frequenta terreiros de 37


candomblé, mas que a força dos tambores já o chamam: “Eu não sou adepto, mas sinto a energia, o contato entre som e uma relação sagrada mesmo quando estou dançando, mesmo não acreditando”. Ao sair para dançar nas ruas, pede licença a Exu, entidade africana responsável pelos caminhos das cordas de pessoas e cortejos que seguem pelas ruas – paulistanas ou recifenses. E afirma que quando está dançando ou presente no maracatu, sente que a ligação beira o sagrado, o mais próximo do divino dentro do que acredita. O contrário também ocorre, já que Mônica Xavier dos Santos, nascida dentro do candomblé, em um terreiro de Angola da Bahia, afirma que a música fala por si só e separa fé e manifestação. Mônica reconhece toda a simbologia religiosa presente no maracatu, mas prefere não misturar candomblé e maracatu quando está tocando, até por respeito a sua religião. Há brincantes de maracatu dentro das companhias e grupos que se aproximam e seguem alguma fé, seja a umbanda, catolicismo ou o próprio candomblé. Mas essa prática ocorre de maneira individual. O coletivo celebra o maracatu por seu conteúdo folclórico, cultural e artístico, sem para isso adotar e vincular qualquer instituição religiosa como base e evidenciando que o maracatu, como uma manifestação cultural, pode ser pensado como laico e que a religião é um dos aspectos que permeiam o processo cultural da sociedade.

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Peço licença a todos os mestres Para os nossos tambores zoar Dá licença meu povo nagô Escute a pisada do nosso tambor Cia Caracaxá

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“N

ação só pode ter em Pernambuco. Grupo pode ter até na Lua, se houver devoção e verdade dentro do que se faz”. A fala de Índio, coordenador do Mucambos de Raiz Nagô, mostra que há admiração e devoção às

nações e tentativa em reproduzir o mais fiel possível o que é feito em Pernambuco, mas também expressa a consciência de que a releitura nunca será idêntica ao original. Quando feito em São Paulo, o maracatu se adequa ao clima, rotina e especificidades que compõe a região. Uma das diferenças entre o maracatu pernambucano e o da capital paulista é a nomenclatura. Em terras pernambucanas, existem as nações, ligadas a uma comunidade da cidade, onde boa parte dos moradores já nasce fazendo maracatu. Em São Paulo, a reunião de pessoas que o praticam é conhecida apenas como grupos, compostos em sua maioria por jovens de classe média que conheceram a manifestação quando já estão na fase adulta. Cada nação tem seu sotaque, seu estilo próprio. Alguns grupos, no entanto, trabalham somente com determinada nação, seja por afinidade com mestres e integrantes, ou por querer desenvolver um trabalho mais complexo, rico em detalhes. É assim com o Ouro do Congo, que desenvolve apenas a linha da Porto Rico. Depois de muitas idas a Pernambuco, o coordenador grupo, André Vianna, o Jota, percebeu o quão diferente era a linguagem de cada nação. “Trabalhar em São Paulo com várias nações era muita pretensão. Passei a perceber como faziam diferenças os detalhes que não dávamos conta tocando todas”. Jota fez parte de alguns grupos da cidade, até decidir montar o seu. Essa prática de passar por alguns grupos, sobretudo o Bloco de Pedra, para depois montar um grupo próprio é algo comum na capital paulista. Pode-se dizer que o projeto do bairro do Sumaré é um “grupo mãe” dos outros. Além do Ouro do Congo, foi assim também com o pessoal do Arrastão do Beco e do Mucambos de Raiz Nagô. “Não tenho nada contra os outros grupos, sou muito amigo e admiro o trabalho e proporcionaram uma série de oportunidades para eu conhecer o que conheço hoje, mas para fazer o maracatu da forma que acredito, acho que eu deva tocar apenas uma nação.”, explica Jota. Pessoas que participam de diversos grupos simultaneamente também são encontradas na capital paulista, algo que não ocorre em Pernambuco.

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A forma como o maracatu é administrado também é diferente. A nação pertence à rainha – esse cargo normalmente é passado entre gerações – e ela é quem representa a nação perante aos órgãos culturais. Além disso, determina as ocasiões em que o maracatu se apresenta, quem participa dos desfiles, entre outras coisas. O mestre é a segunda autoridade, responsável pelo desenvolvimento da musicalidade específica de cada nação, compõe as toadas e cria arranjos percussivos, e justamente por ter uma função central, é tido como referência pelos demais integrantes. Em São Paulo, não há a figura do mestre de batuque, mas alguém que “apita” cada grupo. Ou seja, uma pessoa que responde pelo todo, está sempre à frente nas apresentações, orientando os batuqueiros em relação a cada toque e puxando o coro. É o coordenador, geralmente a pessoa que fundou o grupo, ou que está nele há bastante tempo. A maioria dos grupos é coordenada por mais de uma pessoa, e cada instrumento também tem seu coordenador específico. O mesmo acontece para a dança. Para o antropólogo Julio Moracen e a pesquisadora Vera Cristina Athayde mestres e coordenadores possuem relevâncias distintas, mas juntos, mantêm o maracatu vivo. Júlio: Os mestres que possuem o conhecimento cultural passado de geração em geração são considerados os “Tesouros Humanos Vivos”. Vera:- Eles devem que ser valorizados porque repassam essa cultura, cuidam das nações, tomam conta do maracatu. – Mas são os agentes culturais, ou seja, as pessoas que fazem a releitura do maracatu fora de Pernambuco, discípulos do mestre, que transformam e fortalecem o maracatu. – No entanto, se chegou até São Paulo, se atingiu essa proporção, é porque tem alguém tomando conta. Se não tivesse alguém cuidando, já teria acabado.

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Mestre Shacon comandando a Cia Caracaxá pelas ruas de Pinheiros, em São Paulo Outras características diferenciam esses grupos paulistas dos maracatus-nação. A maioria de companhias de São Paulo executa apenas a parte percussiva da manifestação e isso éum dos principais fatores que moldam o maracatu em São Paulo. Ser um grupo musical, no entanto, não isenta o estudo da história do que é praticado. Pelo menos não é o que pensa Monica Xavier dos Santos, coordenadora do Arrastão do Beco: “Trabalhamos com a música. Mas não deixamos de incentivar e dar dicas para os participantes irem atrás da história do maracatu”. Jota, do Ouro do Congo, vai mais além: “O vínculo com a nação está desde a forma como a gente constrói o instrumento, como a gente coloca a pele, a corda que a gente usa, a afinação que a gente faz, o tipo de baqueta, o tipo de talabarte, a postura em relação à alfaia na hora de tocar”. Vera Lucia, também defende que pesquisa e vivência devem estar lado a lado para quem quer trabalhar com o maracatu, então, se faz maracatu em São Paulo, deve-se ir pra Pernambuco conhecer a origem. “Muito do que temos de registro nos livros de Guerra Peixe ou Mário de Andrade é a visão deles sobre o que viram, é muito 42


pessoal. Quem quer se aprofundar tem que fazer a pesquisa de campo, ser um viajante mesmo”. O dançarino Aurélio concorda: “Nas vivências de dança que eu faço com os grupos, costumo dizer que quando forem a Recife, colem nessas pessoas que tem o maracatu no dia a dia delas, pois são as que detêm o conhecimento de 200 anos”. A dança também faz parte da manifestação em São Paulo, mas com uma procura reduzida em relação aos instrumentos. Mariana Ramos, responsável pelo corpo dançante da Cia. Porto de Luanda explica que em São Paulo os interessados no maracatu buscam aprender a toque dos agbês, gonguês,

caixas

e

principalmente

alfaias. Alguns grupos sequer possuem

Aurélio Prates comanda a dança durante os ensaios da Cia Caracaxá, na USP

dançarinos. Como a distância entre Recife e São Paulo é grande, esses brincantes fazem uso da internet para visualizar, reproduzir e recriar o que é feito na capital pernambucana. “Víamos vídeos no Youtube porque Pernambuco está a mais de dois mil quilômetros daqui. Escutávamos as toadas e começamos a pensar na dança”, explica Aurélio, o atual coordenador do segmento do Bloco de Pedra e da Cia Caracaxá. O aspecto geográfico é outro fator que difere o maracatu paulista do pernambucano. Em Recife, as nações estão localizadas em comunidades específicas – como a Porto Rico, localizada no bairro do Pina – muitos de seus componentes se relacionam e levam uma vida em conjunto, mesmo quando não estão praticando o folguedo. 43


Os mestres são tidos como líderes, que ajudam no dia a dia dos moradores. Os grupos paulistanos não têm essa característica. Seus ensaios ocorrem desde em áreas carentes, como Itaquera, até regiões nobres, como o bairro Sumaré, próximo à Vila Madalena. Os brincantes costumam vir em sua maioria são de diferentes bairros, sem necessariamente possuir vínculo comunitário com aquele local. Mas mesmo com pessoas vindas de diversos pontos da cidade que participem das atividades, existe a preocupação social com o local em que se está inserido. O Ilê Aláfia, no Jabaquara, região sul, e mantém uma relação socioeducativa com o bairro. “Temos um trabalho social com as crianças. Existe um acompanhamento. Para fazer parte do grupo é preciso ir bem na escola e se comportar dentro de casa. Quando a criança não vai bem em algum desses quesitos, conversamos com ela e tentamos ajudar”, explica Bruno Caldas. Esse aspecto social faz parte da vida dos que fazem maracatu em Pernambuco, mesmo que de forma inconsciente, sem pretensão de ser um projeto social. Questões do cotidiano, de pessoas que têm problema com drogas, com a fome, saúde. Uns ajudam os outros, e principalmente os líderes (mestres e rainhas), atuam para ajudar a sobrevivência dos moradores de cada comunidade. Em São Paulo, o Bloco de Pedra é outro exemplo de trabalho sociocultural. Preocupado em difundir a cultura do maracatu de baque virado na capital, está ligado ao Projeto Calo na Mão, iniciativa que oferece oficinas sobre a manifestação. O grupo tem cunho educacional, com oficinas de introdução ao maracatu e durante oito finais de semana os interessados podem aprender a dançar, tocar e cantar. Aurélio Prates explica que o aperfeiçoamento, no entanto, ocorre com o tempo, pois muito sobre essa manifestação não se aprende de forma teórica, mas sim pela observação: “Não pode haver a ansiedade de querer aprender a fazer em dois dias, dois meses ou dois anos o que as nações fazem há 200. Eu brinco o maracatu há cinco anos e a cada dia aprendo algo novo e por isso ele me move”. Ao final das oito aulas, os alunos do Calo da Mão fazem uma apresentação para os professores e são convidados a participarem de um batizado. Escolhem um padrinho, responsável por orientá-los dali em diante, participam de um bate-papo e conhecem 44


um pouco da história do maracatu, para só então integrarem o Bloco de Pedra. A partir daí, podem participar de apresentações e dos ensaios fechados do grupo. Esse perfil educativo do projeto existe desde sua criação. Ele surgiu como um braço das atividades que tinham a intenção de revitalizar a Escola Estadual Professor Armando Alvez Cruz, no bairro do Sumaré. As oficinas de maracatu deram tão certo que permanecem até hoje na escola e com vagas muito concorridas. Há quatro turmas por ano e as inscrições se esgotam logo nas primeiras horas disponíveis. O interesse dessas pessoas – a maioria jovem – em participar desses grupos, em alguns casos está ligado ao entretenimento, à batucada, à dança e ao encontro com os amigos. Na opinião de Fábio Trummer, da banda pernambucana Eddie, a reunião desses jovens também é uma atividade importante para a capital paulista: “Além de entender a batida, se entende porque o maracatu é daquela forma, conhece-se parte da história do Brasil e se cria um auto-entendimento, porque essa história de alguma forma está em todo brasileiro”. Nas nações, o maracatu extrapola a dimensão do lazer e atinge outros fatores como a religiosidade, ancestralidade e tradição. Daí a sua importância para todos que estão envolvidos com ele, seja no local que for. O percussionista da Nação Zumbi, Gustavo da Lua, é pernambucano de Olinda e viu desde criança as atividades da Nação Leão Coroado, uma das mais tradicionais de Pernambuco. Acha bacana a expansão do maracatu para São Paulo, onde mora atualmente. “É uma cidade cosmopolita, que abraça culturas do mundo inteiro. Do mesmo jeito que tem maracatu, tem ciganos, árabes, sírios, espanhóis, peruanos, todo o mundo trazendo sua cultura. Seja em São Paulo ou Pernambuco, a música e a cultura não têm cor”.

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Cortejo Salve o rei, salve a rainha Salve a corte imperial Embaixador pedindo passagem Imperador me mostre o sinal Sou da Nação Porto Rico Faço no apito os tambores falar Nação Porto Rico As nações fazem uma representação das cortes que aconteciam na época da escravidão e isso ainda é fortemente visto no maracatu de Recife. Na capital paulista, quase todos os grupos não mantêm essa estrutura em suas apresentações. O Ilê Aláfia, situado no bairro do Jabaquara, é o único que trabalha com uma encenação de cortejo. Para Nelci Abilel, coordenadora da ACM o Ilê resolveu manter essa

representatividade

para

ficar mais próximo das nações: “Não trabalhamos apenas com a Rei, rainha e dama de passo durante apresentação do Ilê Aláfia 46

percussão. O rei e a rainha têm uma representação muito grande para nós”.


Além das duas figuras centrais da corte, o grupo tem dama do passo, vassalo, baiana rica e até a calunga. “Esses personagens trazem o significado da cultura do maracatu”, define Bruno Barbosa de Caldas, educador social responsável pela percussão do Ilê. Para ele, essa é a maneira mais fiel de reproduzir essa manifestação.

A religiosidade é o traço que mais marca a diferença entre a prática do maracatu nos dois estados. Em Recife, todas as nações possuem algum tipo de ligação com as religiões afro-brasileiras, em maior ou menor grau. Nos grupos isso não acontece de forma coletiva, ou seja, o nome do projeto não é associado à determinada religião. Outro aspecto é que em São Paulo, os que praticam religiões afro seguem a umbanda (criada no Sudeste), quanto que em Pernambuco a ligação é com o candomblé, também conhecido como Xangô. Thais Vieira, excoordenadora do Baque Sinhá ressalta que em São Paulo esse aspecto seja mais representativo: “A questão religiosa é muito individual, pessoas de diversas religiões podem fazer parte de um mesmo grupo”.

O cuidado com o sagrado se encontra nos detalhes dos objetos de alguns batuqueiros 47


Na cidade, apenas o Ouro do Congo está ligado às crenças africanas. Jota,coordenador do grupo, acredita que para representar a cultura do maracatu, é necessário cuidar também do aspecto religioso: “Nós juntamos os aprendizados que tivemos nos grupos de São Paulo e nas nações para montarmos o caráter espiritual do grupo. Mas para fazer parte do Ouro não é necessário ser praticante de nenhuma religião. Assim como nas nações, temos uma parte religiosa, mas não impomos essa crença aos integrantes”. O Ilê Aláfia é um caso à parte, como o grupo está ligado à Associação Cristã de Moços, o cuidado com o cunho religioso da manifestação é redobrado. Bruno Barbosa de Caldas explica: “Temos conhecimento da religiosidade da manifestação, mas por estarmos dentro de uma associação cristã tentamos trabalhar isso de uma forma não muito aprofundada. Quando vamos passar para os integrantes de onde veio o maracatu explicamos tudo isso, sem enfatizar os trabalhos feitos dentro de uma nação. Tomamos cuidado também com as toadas. Aprendemos todas, mas as que falam diretamente dos orixás são tocadas em alguns lugares, outros não, tocamos em alguns lugares e em outros não. Na entidade, existem pessoas de diversas religiões e por isso temos grande respeito e tomamos muito cuidado. Não pregarmos nenhuma prática religiosa”. Um exemplo de como a religiosidade não influencia os grupos é a dimensão do sagrado. Em Pernambuco, algumas nações atribuem sacralidade aos tambores, não permitindo, por exemplo, que mulheres sejam batuqueiras. Apesar disso, existem algumas nações que estão deixando de lado essas antigas tradições. É o caso do Encanto do Pina, que desde 2008 passou a ter como mestre Joana D’arc, idealizadora do grupo recifense Baque Mulher projeto cultural que surgiu com objetivo de evidenciar as qualidades instrumentais femininas e de estimular a presença delas no maracatu. Em São Paulo, podemos citar o Baque Sinhá, que surgiu durante um evento em homenagem ao Dia Internacional da Mulher e reuniu batuqueiras de diversas companhias, e resolveram fundar o grupo meses depois. Mas não são apenas as mulheres que sofrem com o lado tradicional das nações, se em São Paulo é comum ver homens dançando vestidos de mulher, há nações que 48


não permitem essa prática. Não é o caso da recifense Estrela Brilhante do Recife, cuja figura da baiana rica - personagem que integra a corte e se destaca das demais baianas por suas vestes luxuosas - é representada por um homem e serviu de inspiração para Aurélio Prates, que em São Paulo é a principal figura da dança em apresentações da Cia. Caracaxá e do Bloco de Pedra. Ele veste o figuro completo – até salto – para brincar o maracatu paulista. Carnaval O axé da minha nação Vem do meu barracão sou Encanto do Pina Com as folhas, alfazema e dandá Vou pro meu carnaval com proteção divina Nação Encanto do Pina

Aurélio Prates durante apresentação da Cia Caracaxá 49


Apesar do seu significado sagrado, o maracatu também tem uma vertente de entretenimento. No Recife, ele é produzido e cuidado por comunidades que são registradas como agremiações carnavalescas. É durante o carnaval que os batuqueiros saem às ruas para “brincar o maracatu”. A apresentação do folguedo no Carnaval segue as normas da Federação Carnavalesca, mas não existe um padrão definido para o desfile, os personagens que devem constar na corte e o número mínimo de integrantes são alterados anualmente. Mesmo assim, as apresentações na avenida costumam ocorrer nesta ordem: primeiro vem o baque, grupo de batuqueiros, que para em frente aos jurados enquanto a corte passa. Depois vem o estandarte, as catirinas – que representam mucamas e escravas domésticas – e a dama de passo, figura com significado religioso que conduz a boneca calunga pela apresentação. Após a passagem das alas nomeadas como subalternas surgem os dançarinos com roupas que fazem referência à nobreza, seguidos por pessoas vestidas com trajes que representam algum orixá. Depois da passagem desses personagens, entram em filas os casais da corte – conde e condessa, marquês e marquesa, barão e baronesa– e, logo depois o rei e a rainha, acompanhados de um escravo que segura o pálio, objeto que serve para diferenciar a realeza dos demais integrantes. Assim que o rei e a rainha passam pela avenida, os batuqueiros passam a acompanhar o desfile atrás da corte. Apesar de ser uma tradição, algumas nações não concordam com as normas estabelecidas para o Carnaval e por isso não desfilam. É o caso da Estrela Brilhante de Igarassu - localizada na região metropolitana do Estado-,considerada a nação de maracatu de baque virado mais antiga em atividade, com mais de 185 anos de existência. Seus moldes tradicionais são defendidos pela herdeira Dona Olga de Santana, presidente da nação que busca manter a sua estrutura e organização, independentes à competição, criada posteriormente à nação. No Recife, por conta do grande envolvimento dos integrantes e do forte sentimento de identificação, acabam existindo rixas entre as nações que ficam explícitas durante 50


os desfiles do Carnaval pernambucano. Para Thais Viera, a rivalidade não permeia a relação dos grupos na capital paulista: “Aqui acontecem diversos encontros de maracatu e eu sempre senti que o que todos prezam é ajuda mútua entre os integrantes, independentemente de suas nações do coração”. Apesar da existência de diversos grupos que fazem releituras da manifestação, a parceria e a troca de informações rege a relação entre os grupos e seus integrantes em São Paulo.

Em Pernambuco, quando uma nação encerra suas atividades, é utilizada a expressão que “o maracatu foi para o museu”. Isso porque ela literalmente tem seus objetos (roupas, calungas, instrumentos, estandartes) recolhidos e expostos em locais como Museu do Homem do Nordeste (MHN), da Fundação Joaquim Nabuco, localizado no bairro de Casa Forte, em Recife. O museu é um local que garante uma espécie de preservação daquilo que é material dentro das nações. Em São Paulo isso não acontece, até pela recente formação dos grupos. Um exemplo disso é o grupo feminino Baque Sinhá, que encerrou suas atividades na capital paulista em 2012. Os objetos que moldavam à pratica feita pelas meninas estão guardados com as próprias integrantes, já que o grupo também não tinha sede para os ensaios.

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Meu tambor tem a batida do coração Meu baque é virado Segura a compasso da marcação Nação Encanto do Pina

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parte musical do maracatu talvez seja o elemento de maior destaque que compõe a manifestação e que faz tantas pessoas se interessarem por ela. Tanto em terras pernambucanas quanto em São Paulo, é por

meio da música que nações e grupos de baque virado contam suas histórias, origens e influências. As músicas são chamadas de toadas, compostas por melodia, letras e pelo baque, que dá o ritmo ao maracatu. Para se compreender o significado de cada nação, é essencial prestar atenção em seu repertório, que por meio das letras contam não só a história da comunidade, mas a história do povo brasileiro. Nossos negros vieram da África, pra formar só uma nação Junto com reis e rainhas, na lavoura fora a sensação Eu sou de Pernambuco, sou rainha Mariú Eu vim da África, pra morar em Igarassu (...) Graças a uma lei a escravidão acabou Foi princesa Izabel, que essa lei ela criou Muitos anos se passaram e nada mudou Ao ver crianças sofrendo nesse Brasil de tanto amor Nação Estrela Brilhante de Igarassu A visão da coordenadora do Arrastão do Beco, Mônica Santos, é de que muito da identidade brasileira está na música e na cultura popular. O papel de quem trabalha com esse segmento é resgatar a identificação nacional, que em algum momento se perdeu com o consumo da cultura estrangeira. Fábio Trummer também compartilha essa opinião: “O maracatu é uma ótima maneira de conhecer o Brasil. Porque é afro, mas também passa pela linguagem europeia, por causa da colonização. Surge para 54


entendermos melhor algumas coisas que são mal contadas quando estamos na escola”. diz Trummer referindo-se à falta de ensinamentos sobre a história da África na grade curricular brasileira. Meu maracatu chegou, Com a força e o poder, Que mãe África deixou Pra gente se entender. Bloco de Pedra As toadas do maracatu possibilitam ao mesmo tempo aprender um pouco da história do povo brasileiro e desenvolver ritmo e coordenação, já que quem toca um instrumento, por exemplo, dança e canta ao mesmo tempo. Nos cortejos – que em São Paulo quando não há os elementos de corte são chamados de “arrastão”– os batuqueiros ainda devem andar pelas ruas, e ficarem atentos para não perderem o ritmo durante o baque. Além disso, o movimento dos agbês e gonguês é repetitivo e exige esforço do corpo, o que faz do maracatu um excelente exercício físico. O mesmo acontece com as alfaias, que embora não haja dança, são pesadas (de três a cinco quilos) e demandam disposição física de quem está tocando. As religiões de descendência africana, como braço espiritual do povo escravo no Brasil, também são cultuadas em algumas toadas. Na Nação Porto Rico, por exemplo, fica evidente a devoção aos orixás. As toadas ou as loas agradecem e pedem proteção aos espíritos ancestrais (eguns), incluindo em suas letras, inclusive, o iorubá, língua dos orixás e citando os nomes de cada um. Outras nações não especificam tanto a devoção a certos orixás, mas demonstram a influência do candomblé.

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A Nação de Porto Rico vem trazendo todos santos Vamos homenagear de Êxum a Orixalá Bate o agonguê toque um igexá Bate o agonguê canta xeu ê pa babá Nação Porto Rico O meu santo é muito forte Seu poder é da magia Salve todos orixás Do Encanto da Alegria Nação Encanto da Alegria Em São Paulo, no entanto, como a ligação com as religiões afro-descendentes são de forma indireta ou individual, esse aspecto é mais sutil nas toadas. Ele existe, como na Cia Caracaxá que “pede à mãe Yansã sua proteção e assim caminhar”, mas outros aspectos são mais comuns, como a história do grupo, passando por elementos como o bairro em que ele está inserido, que seja na Zona Oeste ou Leste, exerce grande influência sobre o maracatu paulistano. O vem de lá… Vem do alto do Sumaré! O vem de lá… Para o povo brincar quando quer! Bloco de Pedra 56


Lá em Itaquera se escuta os tambores Fazendo a zuada pra gente cantar Lá em Itaquera se escuta os tambores Fazendo a zuada pro povo dançar Porto de Luanda Falam ainda sobre símbolos que permeiam o dia a dia de ensaios e apresentações, como as saias rodadas das meninas da dança, ou o bordado do estandarte, que conta a história em cada contorno. Prestam homenagem aos povos africanos ou às nações que se dispõem a ensinar um pouco dessa cultura. Além disso, cada grupo interpreta as toadas das nações, seja daquela que possui mais admiração, que tem ligação efetiva ou que buscam pesquisar sobre a história. É o que acontece com a Cia Porto de Luanda, que inclui em seus ensaios e apresentações um pouco do repertório da Porto Rico, Estrela Brilhante de Recife, Estrela Brilhante de Igarassu, Leão Coroado e Encanto da Alegria. Alguns grupos ainda colocam nas letras, toques e práticas, a evidente devoção à determinada nação, como o Ouro do Congo. “Conforme fui conhecendo mais as nações, me identifiquei muito com a Porto Rico, pela questão da religiosidade, porque eles falam e praticam a religião de uma forma que eu não vi em nenhuma outra nação”, explica o coordenador Jota, que já deve um vínculo com a Estrela Brilhante de Igarassu, mas desde que conheceu os detalhes da nação de mestre Shacon, decidiu se dedicar á ela. Sou Ouro do Congo, vim da África Sou origem de um povo Nagô Toco com orgulho a minha nação Nação Porto Rico ao som do trovão Ouro do Congo 57


Meu coração ficou nas margens de Pernambuco Nação do Maracatu Porto Rico me abençoou Ilê Aláfia Sobe a ladeira rufando o tambor Estrela Brilhante eu sou! Foi Walter de França quem me ensinou Ao meu mestre eu canto com amor! Arrastão do Beco Mesmo sem levantar a bandeira de determinada nação, a maioria dos grupos agradecem aos que mantém a cultura do maracatu viva em Pernambuco. Alguns, como a Cia.Caracaxá, pedem “licença a todos os mestres para os seus tambores zoar”, e ao “povo nagô” para que escutem a pisada de seu tambor. É uma forma de dizer que o que fazem em São Paulo, só existe graças à prática iniciada no nordeste por povos africanos e agradecer à criação dessa cultura que hoje pode ser feita fora de seu local de origem. Um fato interessante de se observar é que nos grupos existem toadas feitas por mestres e integrantes das nações, ou para determinada nação, e o inverso também acontece. Quando eu toco o tambor É pra todos dançar, no baque parado das ondas do mar.

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Foi o Mestre Shacon quem pediu pra tocar, no baque parado das ondas do mar. Toada do Bloco de Pedra, feita por Shacon Viana, mestre da Nação Porto Rico Esse baque é lento, foi Shacon que ensinou, é chamado o baque das ondas, assim ele chamou.

Esse baque vem de além mar, foi trazido por Nação Nagô. Esse baque é de Orixá, é toque de tambor. Toada do Bloco de Pedra em homenagem ao Shacon Viana

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Musicalmente, as toadas das nações expressam distintas influências, são compostas por uma célula rítmica básica permeada por convenções e variações que mudam de nação para nação. O baque (parte musical) acompanha um coro em que o mestre puxa e batuqueiros respondem. Em geral são compostas por poucas estrofes – duas ou três repetidas pelo coro. Algumas são de domínio público passando por variações de acordo com cada nação, podendo diferenciar nas letras ou nos toques. Os baques do maracatu são executados por uma orquestra percussiva, composta pelos batuqueiros. São ainda designados para nomear os diversos toques – ritmos – que compõe a linguagem musical do maracatu. Por exemplo, baque de luanda, marcação, malê, arrasto, trovão e parada. Cada nação executa um ou mais desses sotaques e os grupos, consequentemente, trabalham com os toques das nações. Eles não desenvolvem baques próprios, mesmo que tenham toadas autorais, os baques utilizados são os das nações. Com baque parada e baque trovão Com a dama do passo, escute o refrão Estrela Brilhante de Recife Batuqueiro, batuqueiro No baque Luanda ou no Baque Nagô Saudando todos os mestres o Caracaxá chegou Cia Caracaxá Para a execução das toadas e a junção de letra e baque, além do coro, uma série de instrumentos complementa a parte musical do maracatu. Em São Paulo, grupos seguem a linha dos instrumentos utilizados nas nações. Caixas, gonguês e alfaias são 60


comuns à maioria delas. Alguns grupos confeccionam seus instrumentos por meio de oficinas de construção. Outros utilizam a mão de obra de pernambucanos que estão na cidade trabalhando com o maracatu. Há ainda os que compram peles, baquetas e madeiras em Pernambuco e levam para a capital paulista. O tambor, também chamado de bombo, é o principal instrumento, variando os tamanhos e afinações de acordo com cada função dentro das nações. Há por exemplo os bombos-mestres, maiores e que produzem um som mais grave, os bombos que “seguram o baque” e fazem a marcação e os que fazem a viração, ou o repique, improvisando e variando nas notas. Há ainda os xequerês ou agbês, que dão um “molho” ao som, e sempre vêm acompanhados de passos coreografados. Alguns instrumentos são particulares de determinadas nações, como os mineiros da Nação Estrela Brilhante de Igarassu – que não possui agbê – e o atabaque da Nação Porto Rico, inserido para demonstrar a devoção ao candomblé. Bote as caixas pra rufar lerê Quero ouvir o tilintá do gonguê lerê Com as alfaias o chão vai tremer Pra marcar o compasso os agbês Cia Porto de Luanda Baquetas, postura, afinação e posição dos instrumentos ao corpo são outros fatores que diferenciam as nações e que são reproduzidos pelos grupos em São Paulo. Quanto maior a quantidade de nações trabalhadas pelo grupo, maior a atenção dada a esses detalhes se estiverem com o propósito de reproduzir mais fielmente a manifestação feita em Pernambuco. Não há dúvidas de que a música é indispensável e o elemento responsável pela popularidade e poder de atração de pessoas que a princípio não têm envolvimento com a tradição das nações. O maracatu entra para a lista de ritmos percussivos ensinados nas escolas de música, e quem sabe um dia, nos livros de História. 61


Batuqueiro do Bloco de Pedra durante apresentação do grupo 62


Canta forte batuqueiro Toca, faz tremer o chão Sou Ouro do Congo, Sou Guerreiro Toco na batida do meu coração Ouro do Congo

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O grupo, que iniciou suas atividades em 2012, surgiu por meio de oficinas que aconteciam Bloco do Beco, ONG da Zona Sul de São Paulo, ministradas pela arteeducadora Mônica Santos, atualmente a líder do Arrastão. É o único grupo em atividade na capital paulista que tem uma mulher como líder. Localizado no bairro de Santo Amaro, o Arrastão do Beco se declara um grupo percussivo, não abordando o aspecto religioso da manifestação e tem como tema de pesquisa principal a identidade do maracatu de baque virado, buscando referências nas nações Estrela Brilhante do Recife, Estrela Brilhante de Igarassu e Leão Coroado. Além do maracatu, o grupo reproduz os batuques, os cantos e as danças dos candomblés das nações de Angola e Kêtu.

Foi formando em 2007 por alunos e ex-alunos da Escola Cidade (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), na região central de São Paulo. Atualmente, o grupo vem agregando pessoas de fora da universidade que se identificam com a manifestação e os propósitos trabalhados. O objetivo do grupo é estudar o maracatu e estabelecer um diálogo com a cidade, praticando intervenções noturnas e buscando entender a relação das pessoas com as manifestações culturais. É coordenado por Henrique Barros, o Capitão e além do contato musical realizam encontros para entender um pouco da história e da cultura do maracatu e oficinas de construção, acabamento, montagem e manutenção dos tambores e agbês.

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A reunião de batuqueiras para uma apresentação em homenagem ao dia internacional de mulher acabou por se consolidar em um grupo exclusivamente feminino em 2010. Suas integrantes faziam parte de outros grupos da cidade e por conta da falta de tempo para se dedicarem aos ensaios, decidiram desfazer a parceria em 2012. Mesmo assim, nenhuma integrante deixa de cogitar a volta do grupo que utilizava o Parque do Ibirapuera como espaço para ensaios e executava além das toadas de maracatu de baque virado, folguedos de outras manifestações como jongo, coco de roda, yjexá e quebra- prato.

Atualmente o maior da cidade de São Paulo, o grupo foi formado em 2005 e conta atualmente com cerca de 80 músicos e 20 dançarinos. Em seu repertório, estão inclusas composições próprias e as tradicionais toadas dos grupos de maracatu de Pernambuco. O Bloco de Pedra se preocupa em difundir o maracatu de baque virado em São Paulo, por isso está relacionado com o “Projeto Calo Na Mão”, uma iniciativa cultural que oferece de forma gratuita oficinas de aprendizado sobre a história dessa manifestação popular. O projeto surgiu como proposta para revitalizar a Escola Professor Antônio Alves Cruz, localizada no bairro do Sumaré, região oeste da capital, e dentre as várias atividades oferecidas, as oficinas de maracatu foram as que obtiveram a maior procura e assim permaneceram na escola. Por conta disso, o grupo atualmente tem o espaço disponível para seus ensaios, que acontecem todos os sábados e já chegaram a reunir mais de 600 pessoas em uma única tarde. 67


Fundada em 2003, a companhia surgiu de um convite feito pelo jornalista Gilberto Dimenstein em que 12 batuqueiros fizeram uma apresentação na Vila Madalena e devido ao sucesso do evento, montaram um time para trabalhar com a manifestação. Desde então a Cia busca reproduzir a música das tradicionais nações do maracatu de Pernambuco, baseada nas particularidades de cada uma delas. Coordenada por Henrique Barros e Francisco Rojo, integrantes das nações Porto Rico e Estrela Brilhante de Recife, respectivamente, tem seus ensaios realizados na Universidade de São Paulo (USP). Com esse intuito de ter maior contato com a linguagem de cada uma das nações, o grupo já realizou, desde o seu surgimento, diversas oficinas com mestres de maracatus-nação de Recife.

O grupo surgiu em 1999 como projeto de extensão cultural da ACM (Associação Cristã de Moços) do bairro do Jabaquara, trabalhando com adultos e crianças. Começaram a trabalhar a manifestação sem um conhecimento amplo e até mesmo com a aquisição de instrumentos mais próximos ao samba. Após pesquisas e visitas às nações pernambucanas, descobriram o lado religioso e cultural do maracatu de baque virado. Devido ao vínculo entre o grupo e a ONG cristã existe um cuidado maior ao abordar a questão religiosa presente na tradição. O caráter pedagógico, principalmente com as crianças, relaciona o folguedo às tradições afro-brasileiras para que não se perca o aspecto original da manifestação. Além de trabalhar a parte musical do maracatu, é o único grupo que possui uma simbólica “coroação”, tanto adulta, quanto infantil. Realizada a cada dois anos, a representação é feita em uma festa que conta com o apoio da comunidade local. 68


Surgiu em novembro de 2008, em comemoração ao Dia da Consciência Negra. O grupo de amigos pertencia a outros grupos, principalmente nas oficinas do Bloco de Pedra, oferecidas pelo Projeto Calo na Mão. Depois da comemoração em Ermelino Matarazzo (zona oeste da cidade), começaram a tocar juntos em outras ocasiões, até formarem o grupo. É atualmente o menor grupo da cidade, com cerca de oito integrantes e tem sua sede na região do Jardim da Saúde. Eles trabalham a cultura como maneira de transformação, socialização e reconhecimento da identidade brasileira, além de conciliarem a manifestação a outras linguagens por meio de parcerias, como a do Reciclowns, grupo de clowns (palhaços).

É o mais novo da capital paulista, criado em 2010 por André Vianna,, o Jota, batuqueiro da Nação Porto Rico e que já havia sido integrante de outros grupos de São Paulo. Está ligado à região do Campo Limpo, Zona Sul e é o único que trabalha exclusivamente com os toques, cantos e elementos da Nação Porto Rico. É também o único que dedica seus trabalhos a uma única nação. Pela ligação de seu coordenador com a umbanda, trabalha também a questão da espiritualidade. Seus integrantes acreditam que para se reproduzir a cultura do maracatu é necessária uma ligação com o lado sagrado da manifestação e já fizeram apresentações dentro de terreiros de umbanda.

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Formado em 2003, o companhia é fruto das oficinas de maracatu de baque virado ministradas por Silvio Ribeiro, em diversas áreas da capital paulista. Foi também o único grupo de maracatu a participar da edição de 2012 da Virada Cultural. Durante dois anos (2008 e 2009) foram contemplados pelo programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), o que permitiu melhorar a estrutura do grupo e já se apresentaram pela programação do SESC Pinheiros. Já tocaram também na Festa da Padroeira do Rosário, celebrada pela Igreja da Penha, região leste de São Paulo. A Cia. Também estão finalizando um DVD com o trabalho realizado com base nas nações pernambucanas Estrela Brilhante de Igarassu, Porto Rico e Leão Coroado.

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Maracatu Paulistano - Uma brincadeira sagrada  

Livro-reportagem sobre o folguedo tradicionalmente pernambucano e sua ressignificação em São Paulo. Trabalho de Conclusão de Curso desenvolv...

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