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Olá, pessoal. Meu nome é Eleonor Hertzog e sou gaúcha de Porto Alegre. Pediatra por formação, sou escritora de coração. Leio desde que descobri o que eram livros; não vou dizer que escrevo desde a mesma época porque eu era realmente muito pequena. Mas, desde o primeiro livro, descobri que adorava contar histórias. No começo eram as dos livros. Mais tarde, as dos livros com alguns acréscimos. E, na adolescência, começaram a pipocar personagens, lugares e situações que não vinham de livro nenhum – estavam dentro de mim. Eu cresci, meus personagens se tornaram mais complexos. Eu aprendi, eles passaram a ver o mundo de outra forma. Tive filhos, eles souberam como ser pais e mães convincentes. O enredo se tornou mais bonito e complexo e, de repente, descobri que não tinha apenas uma história dentro de mim. Tinha mundos inteiros! Durante anos, família e alguns amigos muito próximos (meus únicos leitores até agora) me questionaram a respeito de quando eu iria finalmente considerar o livro pronto. Bom, está pronto agora. Orgulhosamente pronto! Entrego nas mãos de vocês meus personagens, meu enredo, meus mundos. Espero que tenham tanto prazer lendo quanto eu tive escrevendo!


Eleonor Hertzog

Cisne

Uma geração. Todas as decisões.

São Paulo / 2012


Copyright © 2012 by Eleonor Hertzog

Produção Editorial Editora Dracaena

Editor Léo Kades

Projeto Gráfico e Diagramação Francieli Kades

Capa Anelise Hertzog, Rafael Krás e César Oliveira

Revisão Karla Reis Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto 6.583, de 29 de setembro de 2008) 1ª Edição: Outubro / 2012

Hertzog, Eleonor

Cisne / Eleonor Hertzog ISBN: 978-85-8218-037-2

1. Infantojuvenil. Literatura Brasileira. Ficção. I Título. Autor. Editora.

Publicado com autorização. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida sem a devida autorização da Editora.

Editora Dracaena

Rua Edson Crepaldi, 720 – Bal Rincão CEP 88820-000 - Içara – SC Tel. (48) 3468-4544 www.dracaena.com.br


A todos os familiares, amigos e profissionais que, de alguma forma, colaboraram para transformar o sonho na realidade palpĂĄvel que agora estĂĄ em suas mĂŁos: este livro.


Era uma vez...

...Um mundo lá no cantinho da galáxia. Seus habitantes, como os habitantes de todos os mundos da galáxia, asseguravam que seu planeta era o mais incomum e especial do Universo todo. O curioso é que diziam isso com a autoridade de quem conhece numerosos mundos, raças e civilizações – e jamais tinham ultrapassado os limites de seu Sistema Estelar. Mas o mais curioso é que os habitantes dos outros mundos concordavam: era um planeta isolado, tecnologicamente pouco desenvolvido, mas absolutamente singular. E, de todos os pontos da galáxia, vinham conhecer o estranho planeta. Precisavam vir escondidos, disfarçados de nativos, e naquele mundo se disfarçar de nativo era surpreendentemente fácil. Alguns visitantes achavam o mundo fantástico; outros, igualmente numerosos, consideravam aterrador. Diversos concordavam com os dois posicionamentos. Era fantástico, era aterrador – era único. Era, para aqueles de espírito aventureiro, irresistível. Muitas raças, pela galáxia afora, conheciam antigas lendas que podiam explicar o mundo tão diferente de todos os outros, mas se recusavam a acreditar nelas. O mundo mítico era um paraíso. Aquele planeta estava muito longe disso! Uns poucos sabiam que aquele era, realmente, o mundo das lendas; a partir dessas lendas, acreditavam compreender o que era aquele mundo. Outros, cujo número podia ser contado nos dedos das duas mãos, tinham uma ideia mais exata. E, finalmente, havia os que realmente sabiam. O nome do mundo? Não podia ser mais comum. Chamava chão, solo, pedra, areia. Chamava Terra. 7


A Terra estava com pressa. Chances demais haviam sido perdidas, erros demais haviam sido cometidos. O tempo estava acabando. Eles seriam reunidos agora: jovens cheios de criatividade, planos e sonhos, com o coração generoso que apenas os jovens sabiam ter. Eles eram os melhores. Neles, toda esperança estava depositada. Se eles falhassem, seria o fim. Que os sonhos fossem grandes o bastante. Que os corações fossem realmente generosos. Que pensassem, enquanto fosse possível, que estavam somente vivendo suas vidas... Porque um dia descobriram que estavam vivendo a vida de todo aquele mundo! Um dia, eles saberiam: “A esta geração, todas as decisões”.

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Um barco, uma família Peggy Saint-Mont havia sido adotada há dois anos e, desde então, nunca mais tinha sentido falta de alguém para chamar de irmão. Sua nova família era numerosa. Seus novos pais Doris e Henry Melbourne tinham sete filhos: Teo e Ted eram os gêmeos mais velhos, com dezesseis anos; depois, vinha outro par de gêmeos, Tim e Tom, com quinze anos. Pam era a seguinte com quatorze, Lis tinha treze, e depois havia uma pausa de cinco anos (nos dias de tédio, os filhos se divertiam especulando o que teria acontecido naqueles anos para os pais não terem procriado o filho anual) e vinha o caçula, Bobby, de oito anos. Peggy tinha quatorze anos como Pam, e havia se entrosado perfeitamente com eles desde o primeiro dia. Eram uma turma unida e no geral bem humorada. Todos estavam acostumados a trabalhar em equipe no Cisne, um belíssimo veleiro solar a que chamavam orgulhosamente de “nossa casa”. O nível de turbulência a bordo variava conforme o estado de ânimos da jovem tripulação, e no momento estava alto. Muito alto! Todos os irmãos, exceto Bobby, haviam feito exames de ingresso para uma escola muito especial, a Escola Avançada de Champ-Bleux, que formava os melhores cientistas da Terra. No próximo porto receberiam as respostas de Champ-Bleux e, há alguns dias, parecia não haver um minuto de sossego disponível no Cisne. A cada instante aparecia um surto de implicâncias em algum lugar. Peggy estava dando uma geral no biolab e chegou a se encolher quando lá fora começou algo que Tim, na certa, ia chamar de cantar. Mostrava que ele tinha excelente pulmão, ótima goela, e uma capacidade fantástica de desafinar onde ninguém mais desafinava. Como Tim só desafinava quando queria, isto indicava que mais um round de implicâncias estava iniciando. Peggy cronometrou exatos vinte segundos até ouvir a voz de Teo, o irmão mais velho: – Tim, se você não parar de uma vez com esta barulheira aí em cima, juro que te afogo quando descer!! 9


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A garota debruçou-se na janela, assistindo. Tim estava num dos mastros a uns seis metros de altura, consertando a conexão de uma das velas solares. Teo estava no convés, encarando o irmão fora de alcance. Era terminantemente proibido brigar nos mastros, provável motivo de Tim ter se oferecido tão depressa para a tarefa. Tim parou a discutível cantoria para responder, muito sorridente e animado: – Barulheira?! Como pode chamar de barulho, mano Teo?! Isto é música! Arte! É minha alma se expandindo no Sol da tarde! – É sua alma passando mal, isto sim! Vê se para, ok?! – É música! – É barulho! – Seu gosto pra música é tão terrível quanto seu gosto pra se vestir! retrucou Tim. – Me deixe com minha inspiração e vá cuidar da sua roupa que é melhor! – Que é que tem com minha roupa?! – Bom, pelo menos eu não ando por aí com uma camiseta escrito “EU SOU UM PORRE” nas costas! – Tim, eu não vou cair nesta! – Curvo-me à sua perspicácia, sábio irmão mais velho! riu-se Tim. – Eu não vou olhar e fim! – Que firmeza de opinião! É uma virtude, não acha, Lis?! Lis estava justamente passando atrás de Teo, olhou a camiseta e segurou o riso. – Viu? Lis achou graça das costas brancas da sua camiseta! provocou Tim, lá de cima. – Lis! protestou Teo. – Se eu fosse você, respondeu ela, tinhosa, – não olhava! Claro que Teo tirou imediatamente a camiseta para ver. “CAIU DE NOVO, PATÃO!” – Eu avisei pra não olhar! disse Lis, rindo. – Tim, eu vou esganar você!!! exclamou Teo, largando a camiseta. Chegou a encostar a mão no mastro para subir, mas Tim, lá de cima, preveniu:

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– Na-na, nem pensar nisto! Não pode brigar em mastro, senhor irmão mais velho mestre de tripulação! Olhaí o exemplo pra todos seus maninhos mais novinhos! Paiê capitão! Olha seu mestre de tripulação querendo me esganar no mastro! – Nada de brigas nos mastros, Teo, repetiu o doutor Henry. A “cantoria” o tinha atraído também, e o homem estava verificando quem estava sendo esquartejado no seu barco. – Ele está insuportável, pai! – Nada de brigas nos mastros inclui irmãos insuportáveis. – Ok, ok, ok! – E, só para avisar, a tinta passou da camiseta para suas costas. – Quê?! exclamou Teo, torcendo-se todo para ver. – TIM! Vou MATAR você!!! – É melhor matar depois de tirar a tinta, sugeriu o doutor Henry, tentando não rir. – Parece a tinta que usamos para marcar golfinhos. Esta não sai fácil. Lis engoliu as risadas e se ofereceu ajudar o irmão tatuado, que não tinha como tirar a tinta das costas. Foram juntos para o laboratório. Aquela pintura ia precisar de mais tecnologia do que água e sabão! O doutor Henry olhou o filho empoleirado no mastro e passou o polegar pela garganta, num gesto eloquente: Tim ia ser degolado! – Ei, papai, confie em mim! riu-se ele, voltando para o trabalho na conexão da vela. A cantoria recomeçou com força e desafinação totais. O doutor Henry só abanou a cabeça e saiu de perto. Peggy continuava na janela, e sorriu quando o pai adotivo se aproximou. – Desistiu, tio Henry? – Desisti nada, não vou nem tentar. Teo tem razão, isto é passar mal e, se ele quer passar mal lá em cima, por mim, tudo bem. Mas ele vai ser mesmo escalpelado, desta vez. Olhou o sorriso divertido da garota, e perguntou: – Ou não vai? – Tim passou quase toda a manhã ocupado com a tinta de marcar golfinhos, informou Peggy. – Acho que esta tinta está ligeiramente diferente da oficial, não vai sair com os removedores habituais, e só Tim tem o removedor que funciona. 11


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No mastro, Tim se lançou num som cuja descrição mais aproximada seria uivo gargarejado. O doutor Henry chegou a fazer uma careta, dizendo: – Certo que a voz humana é o instrumento mais versátil que existe, mas Tim abusa! Vou lá dentro ver se acho um tapa-ouvido! Mas o uivo serviu como grande final da cantoria desafinada, para o alívio geral. – Ainda bem que parou! disse Pam, que estava na sala de leme e navegação com Tom, o gêmeo de Tim. Ela e Tom tinham observado a escaramuça dos irmãos pela grande janela do leme, de onde podiam ver boa parte do Cisne. – O natural de Tim já é um tumulto só, mas ele está passando dos limites nos últimos dias! – Depois que recebermos os resultados das provas de Champ-Bleux, ele volta ao normal. Pam reclamou alguma coisa, em surdina, e Tom perguntou: – Foi comigo? Não entendi. – Não, não foi com você! Eu disse que não sei se EU vou voltar ao normal depois dos resultados de Champ-Bleux, ok?! Como é que pode estar tão calmo, Tom?! – Eu não estou calmo, mas Tim está fazendo barulho por mim e por ele. Quero ver como ele desce daquele mastro. Teo vai querer o pescoço dele depois desta coisa de tinta. Mas a previsão de Peggy estava correta. A tinta não saiu com removedor algum do Cisne, e Teo foi obrigado a negociar com o irmão peste. Era isto, ou ficar com as costas pintadas durante uma semana! – Você é que é um porre! rosnou Teo para Tim, doido de vontade de esmurrar o outro. – Mana Lis, olha ele aí querendo me matar, e acabou de prometer que não matava! – É paiê capitão ele quer subir no mastro, é mana Lis ele quer me matar! Quem sabe você banca o valente sozinho, hein?! protestou Teo, e saiu dali antes de ceder à tentação de se avançar no engraçadinho. Lis esperou Teo se afastar para avisar: – Pega leve, Tim! Dá uma folga até eles verem os resultados de Champ-Bleux! – Você não está nem aí com os resultados, não é? observou Tim.

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– Idade de ingresso, treze anos completos até dezoito incompletos, disse Lis. – Tenho treze, minha chance de passar é mínima e todo mundo sabe disto, inclusive eu. Mas estou torcendo muito por vocês, manos mais velhos! Às onze da noite, Bobby, o caçula, era o único que estava dormindo. Ted tirou o barco do automático, encarregando-se do leme. Era bom ter o que fazer, as ideias não ficavam fazendo loops em torno de assuntos sem solução, como resultados da Escola Avançada de Champ-Bleux... Prestou atenção ao tumulto na cozinha, onde ninguém parecia se preocupar com provas, resultados, aprovações ou reprovações. Os irmãos faziam uma barulheira infernal, porque um clássico do xadrez de bordo estava sendo disputado: Teo versus Lis. Lis era uma adversária sempre ardilosa, Teo jogava muito bem, e as regras, claro, não eram as usadas pelo resto do mundo, ou não haveria toda aquela gritaria. Tim era o juiz tanto da partida quanto da roubalheira descarada que fazia parte do jogo: ganhava quem jogava melhor e trapaceava com mais competência, dentro do complexo conjunto de normas estipuladas pela família. A segunda função de Tim era a narração da partida, o que ele fazia com total entusiasmo, irradiando animadamente cada jogada, cada possível jogada, cada consequência de jogada, trapaças, peças sumidas e reaparecidas, possibilidades, estatísticas, enfim, era uma falação só, sem nem tomar fôlego, e Ted redobrou a atenção quando Lis conseguiu pegar um dos reis de Teo. Meio xeque-mate! Se Teo não se cuidasse, ia perder de novo. Ouviu a gargalhada de Tim acima de todo o barulho. Tim. Os resultados de Champ-Bleux. Os exames tinham sido em novembro. Consistiam em dez provas de conhecimentos, onde os irmãos estavam certos de terem ido bem, e dez psicotestes, que eram testes de aptidão altamente específicos nos quais ninguém conseguia saber se tinha passado ou não. Na manhã seguinte, chegariam à cidade de Porto Alto... E, em sua agência de correio, havia sete envelopes personalizados contendo o resultado das provas. Não vinham em nome de Champ-Bleux. A Escola permitia remetentes fictícios, e os Melbourne tinham escolhido o Instituto de Genética de Itaro. O que quer que aqueles envelopes contivessem, ia mudar a vida de todos a bordo daquele barco... Para melhor ou para pior? Tim, que queria tanto entrar em Champ-Bleux, ser cientista...

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Ted notou que seu otimismo estava um tanto vacilante. E que – ah, droga! – estava pensando em Champ-Bleux de novo!! Ocupou-se tanto tentando não pensar no assunto que nem percebeu quando o barco silenciou por completo. No biolab, Peggy encerrou algumas análises pendentes, atenta à quietude tão incomum a bordo. Como o silêncio se estendeu, foi procurar os irmãos na cozinha, ponto habitual de reunião da família. Excetuando-se Tim e Ted, todos os irmãos estavam lá, aglomerados junto a um vídeo. – O que vocês estão vendo aí? perguntou ela, aproximando-se. – Venha ver também, chamou Tom, abrindo espaço ao seu lado. Pam fez a notícia voltar ao início. “CHARIENSE EM ESCOLA AVANÇADA. O governo de Chari, conhecido país turístico do Norte, noticiou oficialmente que Jdor Ni, de dezesseis anos, ingressou na Escola Avançada de Petimo. Esta Escola é considerada a segunda melhor do planeta, estando atrás apenas da famosa e pioneira Escola Avançada de Champ-Bleux. Ni é o primeiro chariense a ingressar na Escola de Petimo. Este jovem, juntamente com outros quinze que não foram aprovados pelas Escolas Avançadas, recebeu educação especial desde os sete anos, educação esta orientada e financiada pelo governo do Chari. Dir Laman, primeiro-ministro do Chari, informou que a família de Ni receberá uma pensão vitalícia de...” – Chega, disse Teo, desligando o vídeo. – Educação especial! repetiu Pam. – Pensão vitalícia! Por ter entrado em Petimo, a SEGUNDA melhor Escola, “estando atrás apenas da famosa e pioneira Escola Avançada de Champ-Bleux”! Mas que droga!! Bufou, e concluiu: – Já pensou se passarmos... Quer dizer, se um de nós passar?! Agora, todo mundo aponta a gente porque somos filhos dos doutores Melbourne que se formaram em Champ-Bleux, e tem vezes que isto enche MESMO! Daí, já pensou ser uma destas... notícias mundiais?! Que pesadelo!

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– Podem me explicar por que vão procurar estas coisas no vídeo, se sabem perfeitamente o que vão encontrar? perguntou Peggy. – Eu procuro porque meu mundo é um pouquinho maior que as amuradas deste barco, que tal?! respondeu Pam, alterada. – Bem maior que o seu, está parecendo! E saiu, batendo a porta. – Pam está muito nervosa, informou desnecessariamente Tom. – É, dá pra notar. Alguém sabe onde Tim se meteu? – Disse que ia lá pro leme com Ted, respondeu Lis. – Mas, pelo silêncio de Ted, ele não está lá coisa nenhuma. – Você podia ver onde Tim está e fazendo o quê, Peggy, sugeriu Teo. – Duvido que tenha conseguido dormir. – Ok, concordou Peggy, e foi. Os outros três se olharam uns instantes e Teo afinal desabafou: – Preferia que ele continuasse fazendo barulho! – Tim também tem o direito de se preocupar, retrucou Tom. – Tem todo o direito, mas juro que prefiro quando ele me pinta com tinta de golfinho – e não ousem repetir isto perto dele! Tim quieto de preocupação me dá uma sensação de, sei lá, catástrofe pela frente! Bom, vou lá no leme com Ted, ele está sozinho faz um tempão. E vocês? Lis acompanhou o irmão mais velho, Tom disse que ia procurar Pam. A irmã estava realmente nervosa e, nestes momentos, quem melhor conversava com ela era Tom. Peggy bateu de leve e entrou. Tim estava na cabine que era o quarto dos rapazes, com as luzes desligadas. Só a claridade vinda de fora iluminava seu rosto. – Você demorou, disse ele, em voz baixa para não acordar Bobby. – Quis dar um tempinho pra você descansar, disse ela. – Conseguiu? O rapaz negou com a cabeça, explicando: – Estou preocupado demais pra conseguir descansar. Mas não estou preocupado comigo, estou preocupado com eles... Com aquilo que falei pra você, ontem: como vão se sentir se um cabeça oca como eu passar, e vocês, não?

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– Como eu disse ontem, nenhum deles pensa em você como cabeça oca, Tim. Se você passar e eles não, eles vão tentar de novo no semestre que vem, e fim. Ele só suspirou, sem responder. – Tim, não é o fim do mundo não passar em Champ-Bleux. – Eu não devia ter arrastado todos comigo, suspirou ele. – Champ-Bleux sempre foi o meu objetivo, não o deles! Teo e Ted até falavam de fazer as provas, mas, todo ano, adiavam! Pam pretendia fazer só no ano que vem, e Lis... Peggy, Lis tem só treze anos! Ela não vai passar! – E ela, que não vai passar, não está preocupada com isso. Por que você está? – Porque fui eu que convenci todos a fazerem os exames junto comigo, neste semestre! repetiu Tim. – O que não torna você responsável pelos resultados deles, opôs Peggy. – Vamos. Chega de ficar remoendo coisas aqui sozinho. O que acha de uma partida de xadrez? – Não estou com cabeça, disse Tim, pegando a flauta longa e negra que estava largada ao seu lado, na cama. – Melhor fazer Pam dormir, antes que ela morda alguém! Cientista ou flautista, eis a questão! – Você pode ser as duas coisas. Quem disse que um cientista não pode tocar flauta? – Uma legítima e misteriosa flauta extraterrestre dentro de Champ-Bleux? Iam fazer picadinho dela pra ver o que tem dentro, Peggy! Teo e Lis chegaram à sala de leme, e Ted perguntou, direto: – O que houve? Por que tudo está quieto deste jeito? Não vão me dizer que Tim dormiu! – Duvido muito, respondeu Teo ao seu gêmeo. – Ele deve estar socado em algum canto por aí. Se depois eu descobrir que todo este silêncio é só mais uma brincadeira, vou espatifar com a cara dele. – Ajudo você no espatifamento, apoiou Ted. – Tom vai ficar do lado de Tim e vocês quatro vão acabar embolados numa briga, avisou Lis. – Qualquer briga barulhenta é melhor do que este tudo quieto que não acaba!

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Mal tinha terminado de falar e as primeiras notas de uma suave melodia quebraram o silêncio. Teo sorriu quase antes de perceber que estava sorrindo, Ted e Lis sorriam também, o mesmo sorriso surgiu em Pam e Tom, no doutor Henry e na doutora Doris, e até em Bobby, que virou na cama sem acordar. – Agora eles dormem, constatou o doutor Henry. – Parece que esta flauta tem soporífero! – Estão precisando, disse a doutora Doris. – Faz diversas noites que não dormem bem. – Depois que pegarem estes resultados, dormem até em cima de pedra, sorriu o cientista, divertido. – Bem que avisei que mandar os resultados para Porto Alto só ia servir para aumentar o suspense! Se tivessem mandado para Porto Arriz, já saberiam. A mulher olhou pensativamente a proa, de onde vinha a música, e disse: – Eles não querem saber o que Champ-Bleux decidiu, Henry. Porque uns vão para lá, e os outros vão ficar aqui. – Uma pergunta, uma resposta. Perguntaram a Champ-Bleux o que a Escola pensava deles como alunos, e Champ-Bleux vai responder. Faz parte da vida ouvir a resposta. Se não queriam esse tipo de resposta, era só não terem feito a pergunta. – E então continuariam a vida toda aqui, debaixo das nossas asas? Henry sorriu de novo. – Não seriam nossos filhos se achassem que debaixo de asas é lugar de viver a vida toda. Vai ser difícil e vai doer um bocadinho, mas eles vão descobrir que os laços entre eles são mais fortes do que qualquer distância. Vão sobreviver. Sorriu para a esposa e completou: – Nós sobrevivemos, e muito bem. Vou lá com eles. Quero ver quem é o primeiro que despenca! Tim estava espichado numa das espreguiçadeiras da proa, olhos fechados, tocando sua flauta. Aquele não ia dormir, com certeza. Sentada no chão ao lado dele estava Peggy, abraçada aos joelhos, olhando o céu e as estrelas. Tom e Pam já tinham sentado encostados a uma das paredes, e Henry ficou observando Pam se aconchegar cada vez mais no irmão até deitar a cabeça nas pernas dele, adormecendo em seguida. Tom descansou uma das mãos sobre os cabelos da garota, absorto na música.

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– Daí, senhor capitão, vai ficar aí olhando com cara de “eu avisei que deviam ter mandado estas coisas pra Porto Arriz e agora estou só no bico do nervoso de vocês”, ou vai ser um papai bem camarada e sentar ali com a gente? Estou a fim de dormir no seu ombro. Se o senhor não deixar, vou dormir na sua cama, agarrada no seu travesseiro. O que Tim faz com esta flauta, que de repente a gente fica com tanto sono? – Não tem tudo isso na minha cara, respondeu o doutor Henry a Lis. – Claro que tem, disse Ted. – Sente por aí, pai, também quero um ombro amigo. – Pobre filhotinho! sorriu o cientista. – Ok. Ficamos ali perto de Tom e Pam? Sentaram, com Ted escorado a um ombro do pai e Lis envolvida pelo outro braço dele. Tom sorriu para eles e continuou quieto, Pam dormia firme. Ted logo adormeceu, encostado ao pai. – Por que a flauta deixa a gente com tanto sono? repetiu Lis, bem baixinho. – Porque acalma, e vocês estão precisando disso, respondeu o doutor Henry, em outro sussurro. – Devíamos mesmo ter mandado os resultados pra Porto Arriz... – Bobagem. Suspense é o temperinho da vida! – Adoro o senhor, papai. – Também adoro você, disse ele, beijando a filha na testa. – Durma. O dia de vocês vai ser cheio, amanhã. Lis se enroscou contra o pai, deixou a flauta embalar seus sonhos e dormiu. Tom pegou no sono minutos depois, e Henry resolveu que era melhor acompanhar os filhos e dormir também. O dia seguinte seria realmente cheio – aprovações ou reprovações, quaisquer que fossem as respostas de Champ-Bleux, a vida naquela família nunca mais seria a mesma. A doutora Doris subiu para o leme, onde Teo sorria sozinho. – Oh-oh, uma mamãe que resistiu ao hipnotismo dele! Todos despencaram? – Todos menos Peggy. Acho que não dorme, se Tim não dormir. – Papai também? Que espanto! – Seu pai também. E você, quer descansar? – Que nada, não estou com sono, e Tim está inspirado, vale a pena ouvir!

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Se a senhora quiser dormir, tudo bem. Tomo conta da casa! – Fico com você, Teo. Os irmãos acordaram juntos, olhando o Sol com surpresa. Já era dia?! Costumavam acordar muito mais cedo! Mas ficaram bem quietinhos porque Tim continuava tocando, e a música estava muito linda. O rapaz completou aquela música e parou de tocar, saudando: – Bom dia, família! Tiveram belos sonhos, espero! – Belíssimos, assegurou Pam, de bom humor. – Não tinha Champ-Bleux neles! Eles riram, concordando, e foram juntos para o café da manhã. Nas refeições, o barco ficava no automático. – Me passe a geleia aí, Tim! pediu Teo. – Bem capaz! Você é viciado em geleia de morango, fique longe dela ou não sobra nem a tampa! – Isso aí, Tim, impeça! apoiou Lis. – Ele acabou com dois potes ontem! Este é o último! – Até parece que não tem geleia em Porto Alto, daqui a pouco! Parem de regular e me deem esta geleia! Pam, passe pra cá! – Bem capaz! Cuide aí da sua vida e esqueça a geleia! – Oh, eu cuidar da minha vida? E você, que está com o copo cheio de bolota de guardanapo e nem viu? – Tim! – Não fui eu, foi ele! – Fui eu nada! protestou Bobby, o caçula acusado. – Querem me passar de uma vez esta geleia?! – Nem pensar. É você de um lado da mesa e a geleia do outro! Envolveram-se na disputa da geleia e não perceberam Bobby, sorrateiro, acertando bolotas de guardanapo dentro de diversos copos. Quando os donos dos copos notaram, a guerra de bolinhas de papel se generalizou, e Teo aproveitou para pegar a ambicionada geleia de morango, enchendo depressa sua fatia de pão com o que restava dela. E, lá do fundo do pote, veio uma coisa escura que não era morango. Era uma enorme baratona preta. 19


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– Esta barata de novo?! bradou Teo. – Tim, eu MATO você! – Ei, mas Florinda está aqui! avisou Tim, puxando do bolso sua barata de plástico. Aí Teo branqueou. – Esta coisa é DE VERDADE?! E estava na geleia que eu...?! Houve diversos olhares repugnados para a geleia até Tom, sossegado, observar: – Que eu saiba, Florinda não é a única falsa barata do mundo. Teo avançou na barata, exclamando: – DE PLÁSTICO! MATO você, seu traste!!! Papel no meu copo e barata na minha geleia, sua vida não vale nada a partir de AGORA! – Você disse que se matava se caísse de novo no conto da barata! riu Tim, escapando feito um raio da mesa. – Cumpra sua palavra e se suicide! – Vou suicidar você, praga insuportável!! Os dois correram porta afora, Tim decidido a livrar o couro e Teo decidido a livrar Tim do couro dele, e num instante Tim estava berrando pelo pai. Estava empoleirado bem alto no mastro principal, e Teo começava a subir atrás dele. – Olha ele aí, não pode!!! berrou Tim. – Desça, Teo! determinou o doutor Henry. – Nada de brigas nos mastros! – Mas, pai...! – Desça. E você, equipamento de segurança! – Sim senhor, capitão! respondeu Tim, pegando o equipamento de segurança sobressalente, que ficava na metade da altura do mastro. O Cisne era, provavelmente, o único veleiro solar do planeta com equipamentos de segurança naquela localização. – Você vai ter que descer daí! ameaçou Teo. – Não com você aí em baixo, mano hidrófobo! Peggy, proteja Florinda II! – E você ainda ajuda! reclamou Teo para Peggy. – Claro que Peggy ajuda! retrucou Tim. – Porque ela sabe que Florinda é especial! É a única barata de plástico geneticamente modificada pra enganar todo mundo todas as vezes! É tão geneticamente modificada que se multiplica por cissiparidade feito ameba! Agora evoluiu, não são duas baratas, são duas amebaratas! 20


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– Ug, o bicho só fica cada vez mais nojento! concluiu Lis. – Aproveite que está aí em cima, Tim, e veja se a terceira vela não vai travar de novo! – Vim pra cá pra fugir de um linchamento e acabo no serviço?! – Mencionando serviço, já é mais do que hora das velas estarem nos lugares, lembrou o doutor Henry à sua tripulação de filhos. Eles cumpriram rapidamente a rotina da manhã, e Lis estranhou, perguntando: – Cadê Tim? Não tem barulho em lugar nenhum! – Dentro d’água, informou Pam. – Teo atirou o peste pra fora e eu nem vi? – Teo foi para o leme e Tim foi para a água sozinho – excepcionalmente! Lis riu e foi espiar. Peggy e o doutor Henry estavam na amurada da popa, olhando o rapaz que nadava atrás e paralelamente ao barco. Dois golfinhos estavam junto com ele. Sempre havia golfinhos seguindo o Cisne. – Ei, ele está indo bem! constatou Lis, debruçando-se ao lado de Peggy. – Fiquem de olho nele, filhotas, recomendou o doutor Henry. Natação junto com o barco era exercício comum quando o Cisne reduzia a velocidade para coleta de dados, mas sempre alguém tinha que vigiar quem estava na água. – Nossa velocidade está bem baixa, Tim vai conseguir nos... Eles se admiraram quando, de repente, o propulsor principal foi desligado e os quatro auxiliares postos para funcionar, acabando com a tranquila esteira de um propulsor só. Na sala de leme, debruçado na janela, Teo se divertia com os rodopios que Tim dava. – Certo, manas, cuidem da praga direitinho! recomendou, rindo. – Não se atreva a aumentar a velocidade! avisou Lis. – Ele está no limite! – Mas que peninha! Por que ele não pede ajuda para as baratas de plástico dele?! Tim tomou fôlego e mergulhou, escapando do caos de espuma e marolas. Reapareceu mais afastado do barco e tornou a mergulhar. E aos poucos, com muito esforço, ultrapassou a zona de turbulência e se colocou ao lado do Cisne, sempre mergulhando. Emergiu agarrado ao estabilizador lateral do veleiro. Depressa, antes que a água o arrancasse de seu posto, subiu no estabilizador e, segurando-se nas traves que ligavam o estabilizador ao barco, saltou para bordo. 21


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– Este último mergulho foi uma beleza! elogiou Lis. – E quando digo que sou o máximo, ninguém acredita! riu Tim, ainda sem fôlego. – O máximo nos rodopios também? provocou Teo, lá de cima. – Ei, cara, quando vou atirar alguém num redemoinho, aviso antes! retrucou Tim, olhando o irmão com uma cara definitivamente perigosa. Peggy riu, dizendo: – Deixe Teo pra depois, temos que arrumar o Cisne! – “Temos” coisa nenhuma, interferiu o doutor Henry. – Agora o programa de vocês (Peggy e Tim) é cama. Não dormiram a noite passada e precisam estar descansados para Porto Alto. Os outros se encarregam do Cisne. – Mas, pai...! começou Tim. – Sei que falta pouco, mas uma hora de sono é melhor do que nenhuma hora de sono. Vá se trocar e já fique no quarto, Tim. Pego o leme para Teo dormir também, e é para dormir, não para se esganarem! – Mas...! – Melhor Teo dormir no seu quarto, capitão, ou vai dar gente voando pela janela! riu Lis. – Só porque ele tentou me afogar?! exclamou Tim. – Imagine!! – Só porque ele está com criação de barata de plástico?! protestou Teo, lá de cima. Tim foi mandado para o quarto dos rapazes, era para sossegar, nada de retaliações. Teo foi dispensado do leme e mandado para o quarto dos pais, direto e sem escalas. Qualquer ameaça de motim seria resolvida pelo capitão em pessoa. – Ok, ok, pai, entendi! respondeu Teo. – Mas, se Tim vier se metendo por lá, vou ter que me defender! – Lis, vá com Teo. Qualquer problema, você me avisa na hora! – Sim senhor! O táxi parou e o rapaz olhou em torno, surpreso. O cais fervilhava de gente! Crianças, jovens, adultos, todos muito alegres e animados! – Quanta gente! murmurou baixinho, tentando imaginar a razão de estarem todos ali. Por causa dos Melbourne é que não devia ser. Porto Alto era 22


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uma cidade que há muito tempo tinha seu posto do Controle Científico, e, para estas cidades, cientistas não passavam de rotina. Voltou-se para o motorista. – Quanto foi? – Trinta e seis. O rapaz entregou o dinheiro. – Que festa é esta? Alguma data especial da cidade? – É sempre festa quando o Cisne chega, sorriu o homem, saindo do táxi com seu passageiro. – Cisne? – É, Cisne é o barco dos Melbourne. Não sabia? Não é por causa deles que está aqui? – Bom... Sim. – Eu fico no porto. Se precisar de condução, estou no Anzol. E apontou um restaurante próximo, onde uma espalhafatosa tabuleta indicava que aquele era o Anzol Dourado. O rapaz assentiu, localizando afinal o cais de atracação A-8. Dirigiu-se para lá sem pressa. A criançada corria à volta, e ele tomava muito cuidado com sua câmera novinha em folha. Viu a garota parada na borda do cais, sozinha, e decidiu abordá-la para algumas explicações a mais. Um cortês “oi” fez a moça se voltar. – Oi... Conheço você? perguntou ela, sabendo que não conhecia. Não se esqueceria de cabelos vermelhos como os dele! – Não, sorriu ele. – Meu nome é Jean. E o seu? – Anita. É novo na cidade? – Não sou daqui, explicou Jean, ainda sorrindo. – Sou de Paris. A garota se surpreendeu, e ele perguntou: – Você mora aqui? – Moro, respondeu ela, cravando os olhos na câmera profissional. – Está longe de casa, Jean. Repórter? – Be-em! Se você considera repórter quem cursou uma Escola de Jornalismo e conseguiu emprego numa empresa de notícias, então sou. Mas, se for

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perguntar a outro repórter, diria que ele não me levaria nem um pouquinho a sério como colega! – Um foca! sorriu Anita. – Pois é. – O que está fazendo aqui? Sua empresa manda focas tão longe? – Só os mais chatos e insistentes! Foi uma guerra, pode crer. Estou aqui por causa de uma foca – uma foca de verdade, das douradas. – O que você tem a ver com uma foca dourada? – Focas como eu sempre vão para a seção infantil, explicou o jovem. – O chefe da seção infantil me deixou enredado com uma emocionante série de artigos sobre parques e jardins, e fui ao zoo ver uns bichos, para variar. E aí, por acaso, ouvi uma conversa sobre uma foca dourada, roubada para um zoo particular. Gravei tudo e, muito heroicamente, corri para a polícia. Insisti tanto na Central Ecológica que me deixaram ir junto. Eles encontraram a foca, e eu escrevi uma nota sobre o roubo e o resgate dela. Como o chefe ficou bem satisfeito com meu grande furo, aproveitei e pedi para seguir a foca, para escrever sobre ela para a seção infantil. Ele deixou. Quando eu disse que a foca vinha para cá, pss! Por pouco eu não vinha! Anita riu. – E como era sua foca? Adulta? – Que nada, um filhote! Maldade pura tirarem um bichinho daqueles da mãe! Soube que os doutores Melbourne é que vão levá-la de volta para a reserva. – É, pode ser. – Eu gostaria muito de ir junto. Anita só olhou, sem uma palavra. – Acha que tenho chance de ir com eles até a reserva? perguntou Jean. – Eles não levam passageiros. – Nunca? – Nunca. – Um repórter, então, nem pensar, concluiu Jean. – Nem pensar, assentiu Anita. – É. Imagine se os importantes cientistas de Champ-Bleux vão deixar um repórter chegar perto! A que distância vou ter que ficar para documentar o em24


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barque da minha foca? Que perímetro de isolamento eles exigem? Dez metros? Trinta? Em vez de responder, a garota avisou: – Se quer arrumar encrenca aqui, é só continuar falando assim dos Melbourne. Jean olhou-a sinceramente surpreso. – Hein? – Está vendo aquele grupo ali? São os repórteres da cidade. Nenhum deles conseguiu colocar um pé a bordo do Cisne, e não falam dos Melbourne como você está falando! – Você está defendendo esses cientistas! – Pois é. Estou. – Não pensei que você conhecesse os doutores Melbourne – mesmo. – Conheço. – ...E que gostasse deles. – Gosto. Amiga dos Melbourne, admirou-se Jean. Talvez fosse um meio de se aproximar daqueles cientistas! Tratou de ser simpático com a moça. – Então, me desculpe. Não quis aborrecer você. Se são seus amigos... – Sim, eles são meus amigos, e você é um foca muito desinformado. O Cisne é a casa deles. Você ia querer um repórter dentro da sua casa, vai ver? – Casa? admirou-se o rapaz. – Entendi que o barco era um biolab de pesquisa oceânica! – Casa é o lugar onde a gente mora, mesmo se esse lugar for um biolab de pesquisa oceânica. – Casa é o lugar onde a gente mora com a família, disse Jean, aproveitando o gancho. Cientistas eram sempre muito reservados a respeito de suas vidas, filhos e tudo mais. – Eles levam a família nas viagens? Têm filhos? – Têm filhos, sim, confirmou Anita, tentando não sorrir daquele repórter que achava que estava conseguindo relevantes informações da vida particular dos Melbourne. – E os filhos também moram neste barco, no Cisne? 25


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– Moram. – Quantos filhos são? – Oito. – Oito?! Tudo dentro do barco?! Mais uma tripulação?! – Você tem tripulação na sua casa? – Então quem cuida do barco e faz o serviço?! – Os filhos. – Ei, quer dizer que os filhos são a tripulação?! espantou-se Jean. – É, eles são. – E que idade têm esses filhos? Como são? Mas Anita percebeu o gesto de Jean, levando a mão ao bolso. – Gravação? quis saber ela. – Sim, disse ele. – Algum problema? – Comigo, não. Mas, se pretende sair escrevendo coisas por aí, antes vai ter que pedir permissão aos Melbourne. – Pedir permissão?! – Ou não falo mais. – Não preciso de permissão para escrever, muito menos permissão de cientistas! Estava mesmo difícil se manter séria. Não havia coisa alguma que Anita pudesse contar sobre os Melbourne que o próprio Jean não fosse ver daí a pouco, quando o Cisne atracasse. O foca parecia pensar que ela era a única pessoa em Porto Alto que conhecia o doutor Henry e sua família, e Anita estava se divertindo. – Pede permissão? Se não vai escrever nada de mais, eles não vão se importar. – Ok, rendeu-se Jean, aflito por não perder as novidades. – Peço permissão, se conseguir! – Como, se conseguir? – Quanto tempo você acha que figurões de Champ-Bleux têm para focas?! Aí, Anita desatou a rir. – Qual é a graça?! – Nada! Promete? 26


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– Palavra de Fogo! – Hein? Jean se surpreendeu consigo mesmo, tinha falado sem notar. – Meu apelido é Fogo. Os cabelos, nota-se (e passou a mão pelos cabelos ruivos). Posso perguntar? – Pode. Queria saber das idades. – Isso. Que idade tem o mais velho? – Dezesseis. Na verdade, quase dezessete, o aniversário é em fevereiro. – Espere, eu perguntei o mais velho! – E eu respondi. Aliás, são dois. – Dois o quê? – Os mais velhos. Uma dupla de gêmeos idênticos, Ted e Teo. Jean avaliou a possibilidade de a garota estar brincando com ele, mas resolveu continuar, e conferiu: – Uma dupla de gêmeos, com dezesseis anos? – Isso mesmo. – Certo. E como eles são? – De físico? Louros, todos eles são louros como os pais. Olhos verdes, aquele moreno de quem está no Sol o dia todo, e mais altos do que você. – Os dois têm olhos verdes? – São gêmeos idênticos, eu já disse, sorriu Anita. – Muito idênticos! – E por que você acha isso tão engraçado? – Ah, é que eles têm uma aposta com Mateo, ali do Anzol Dourado. Mateo é o dono. Faz três anos que Mateo tenta acertar quem é Teo e quem é Ted e, como sempre erra, os Melbourne comem de graça no Anzol! Este ano tem muita gente apostando se Mateo acerta, ou se erra outra vez! Jean olhou o Anzol Dourado, sua tabuleta colorida, e olhou Anita. – Ali? – É, bem ali. Jean olhou de novo o restaurante. Filhos de cientistas fazendo apostas em restaurantes de cais?! Comendo em restaurantes de cais?! – O doutor Melbourne e a família comem ali? 27


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– Sim, ali no Anzol. – Anita, eu estou falando dos doutores Henry e Doris Melbourne, formados por Champ-Bleux, que são os melhores biólogos marinhos do Sistema Solar! – São os únicos Melbourne que vêm aqui, garantiu Anita. O espanto do pessoal de Porto Alto com os doutores Melbourne, na primeira vinda da família à cidade, não tinha sido nada menor que o de Jean. Jean ficou olhando a garota. – É verdade, assegurou ela. – Eles não são como os outros. Está vendo esta criançada toda? Boa parte é da casa de vó Ana (Anita apontou uma velhinha de sombrinha que mantinha a criançada longe da água). Ela tem um orfanato, as crianças estão aqui por causa dos Melbourne, são loucas por eles. As outras crianças são daqui de perto ou do orfanato regional. O pessoal da nossa idade é do Clube de Mar e Mergulho, os adultos são da guarda costeira, do Posto Científico, ou gente que eles conheceram por aí. Ora, o que acha que todo mundo está fazendo aqui? Jean olhou de novo toda a gente espalhada no cais. – Toda esta gente – amigos dos Melbourne. – É. – Quanto tempo eles passam aqui? – Quatro ou cinco dias por ano, nesta época ou logo depois do Ano Bom. – Cinco dias por ano?! Só?! – Só. – É difícil de acreditar! – Pois é, concordou Anita, sorrindo. – Às vezes é difícil, mesmo. Mas estávamos falando de Teo e Ted. – É... é, estávamos. Os gêmeos de dezesseis anos, filhos dos doutores Melbourne, que são a tripulação de um barco de pesquisas oceânicas e que têm uma aposta com o dono de um restaurante do cais. Anita, você está brincando comigo? – Logo vai ver se estou brincando ou não. O Posto disse que o Cisne chega às nove, e é quase isso. – Ok... ok, vamos em frente. De temperamento, como eles são? – Alegres, divertidos, sempre bem-humorados! Como acha que fazem amigos com tanta facilidade? 28


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– Defeitos? – Agora você me pegou... Não sei. – O que você menos gosta neles? – Sei lá, Jean. Gosto muito deles. – Estudam? – No Cisne. Fazem exames periódicos de avaliação, todos eles. – Em que nível estão? – Não sei, nunca perguntei. Jean olhou a garota. – Bonitos? Ela corou, mas respondeu, sem hesitar: – Bonitos, sim. Bem bonitos! – E namoradores? – Nem um pouquinho. Jean só olhou Anita, mas não questionou. – Depois deles, vem quem? – Tim e Tom, outra dupla de gêmeos idênticos. – Outra?! É raro acontecer isso! Que idade estes têm? – Quinze. – E o físico? Louros e olhos verdes também? – Louros, mas de olhos castanhos, e o resto é a mesma descrição de Ted e Teo: bem altos, bronzeados de Sol e (olhou Jean) bonitos também. Tom é mais quieto. Nesta dupla, o barulho ficou todo com o outro gêmeo. Tim passa o tempo todo falando e rindo, sempre tem uma resposta engatilhada, não sossega um minuto! – Chato? – Ah, não, Tim não é chato! Ninguém consegue se aborrecer com ele, nunca! Foi ele quem pegou Mateo nesta aposta com Ted e Teo! – Hm. E depois, vem quem? Mais gêmeos? – Não, depois vem Pam. Ela tem quatorze anos, cabelos compridos, olhos castanhos e é muito parecida com a doutora Doris.

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– De temperamento? – Como os irmãos: um amor! – Defeitos? – Em Pam? Sei lá, Jean! – Uma garota que não acha defeitos nos outros, isso é o que você é! Depois de Pam... – Vem Peggy, que eles adotaram faz dois anos. Os pais dela eram cientistas e morreram num acidente, alguma coisa que envolvia espaço, não sei bem. – Cientistas conhecidos? – Acho que não, os nomes não me chamaram atenção. Só lembro que era francês, ou coisa parecida. Peggy tem quatorze anos também, é uns meses mais nova que Pam. Tem cabelos castanhos, bem compridos. E os olhos são uma coisa, mais azuis do que este céu, lindos, transparentes, fora de série! – Mais azuis do que este céu? duvidou Jean, olhando o céu intensamente azul. – Você vai ver. Parece que brilham! – Bonita? – Ela é muito simpática, isso sim. Ano passado, Tim chamava Peggy de maninha gafanhoto, porque ela espichou de repente e meio que se perdia com os braços e as pernas. – E ela não se importava? – Ela não usava roupas verdes para não ser um gafanhoto completo. Parece quietinha, mas é sempre ela que ajuda Tim nas aprontações! – Defeitos nem vou perguntar, não adianta. Faltam dois, ainda. – Depois vem Lis, treze anos, olhos verdes, é a menor da família – a mais miúda, quer dizer. O caçula é Bobby, oito anos, uma graça de garoto e é louco por sorvete de chocolate! – Você gosta um bocado deles, não é? – Muito! – Nota-se... – Acha que estou exagerando? Então pergunte aos outros! Uma grande agitação tomou conta do Anzol Dourado, a garotada correu toda para a borda do cais. 30


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– Estão chegando? perguntou Anita ao garoto mais próximo. – A guarda costeira disse que a gente vê o Cisne daqui a pouquinho! Logo, um grito muito alegre encheu a manhã de sábado – as crianças tinham localizado o reflexo cor de prata das velas solares do Cisne! – É veleiro solar? perguntou Jean. – Dos grandes! – Cisne de água doce é um nome esquisito para um veleiro oceânico. – Ah, é que, quando o vento enfuna as velas, quando estão todas erguidas, e todas refletindo o Sol, parece que o barco é um enorme, lindo, fantástico, maravilhoso cisne de prata! riu Anita, toda feliz. Jean a olhava, espantado mais uma vez. Quanto entusiasmo com aqueles cientistas! – Que surpresa é esta de que estão falando? – Todo ano eles inventam uma coisa, disse ela, sem tirar os olhos do distante ponto prateado. – Ano retrasado fizeram um pescoço de cisne para o barco e ficou perfeito! No ano passado chegaram de noite e fizeram o maior show com fogos de artifício! Este ano avisaram para as crianças não faltarem, a surpresa é para elas! Jean até esqueceu de mais perguntas, espantado com o grupo cada vez maior. Incrível! Incrível mesmo! Crianças saíam de ruas próximas, de casas, do Anzol Dourado, de toda a parte! E jovens e adultos se aproximavam também, rindo e conversando, de modo que logo havia uma verdadeira multidão no cais. O Cisne aumentava rápido, escoltado por uma lancha da guarda costeira. Quando estava mais perto, a criançada começou a berrar e acenar alegremente. Jean assobiou, admirado. Era o maior veleiro solar que já tinha visto! Começou a filmar bem quando as velas solares pararam de piscar, tornando todo veleiro um só esplendor branco-prata que refletia o azul do céu. Acenos e gritos redobraram, mas, da amurada do Cisne, ninguém respondia aos acenos. A criançada estranhou e foi parando, sem tirar os olhos do barco. O veleiro, aparentemente deserto, parou com suavidade a dez metros do cais, paralelo a ele. Um homem e uma mulher saíram da sala de leme e, por uma escada externa, subiram para a plataforma que havia lá em cima. Os gritos recomeçaram, muito entusiasmados.

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Jean continuava filmando e começou a dar crédito às descrições de Anita: aquele era o doutor Melbourne, sem dúvida, e a mulher era a doutora Doris, tinha que ser. Mas as imagens estavam longe de serem justas! O cientista devia passar com folga do metro e oitenta de altura, físico poderoso, cabelos bem louros e curtos, sorridente, transbordando simpatia; sua esposa era uma mulher muito bonita e, nossa!, como era elegante apesar do monte de filhos! Não era bem a ideia de Jean sobre cientistas. O casal sorria e acenava, pedindo silêncio, e custou a ser atendido. – Vamos ter teatro! Lá! exclamou o doutor Melbourne, com voz forte. “Lá” era a proa do Cisne, justamente onde Jean e Anita estavam. Recuaram um pouco para dar lugar às crianças que, com gritos e risos, estavam se acomodando. Jean, no entanto, conseguiu manter seu posto privilegiado. – Vá dizendo quem são! pediu ele a Anita. – Certo! Adultos e jovens se colocaram atrás das crianças, todos querendo uma fresta para ver. O silêncio até estava bem razoável quando uma figura desceu escorregando pelo mastro maior. Até então, estava escondida pela vela. – É Lis! exclamou Anita, rindo. Jean levantou uma sobrancelha. Parecia uma menina com muito menos que treze anos, mas era linda! O barulho, claro, começou todo de novo. A garota estava com um vestido dourado e comprido, de saia rodada; colar, brincos, um diadema, tudo brilhando à luz do Sol. Tinha os cabelos um tanto despenteados, uma estrela pintada na testa, e o detalhe mais interessante é que ela já desceu amarrada ao mastro. Ainda estavam fazendo barulho por causa de Lis quando mais um personagem apareceu: um pirata de calças cortadas abaixo dos joelhos, camisa vermelho-escândalo amarrotada e sem botões e lenço verde amarrado na cabeça. Sua face esquerda estava cortada de um lado a outro por uma enorme cicatriz preta, e ele trazia uma garrafa pelo gargalo. – É Ted ou Teo! Jean levantou as duas sobrancelhas. O cara tinha músculos por todo lado! Dezesseis anos – só?! 32


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O pirata rondava a garota amarrada, e ela o encarava iradamente. O público se aquietou, interessado. O pirata cuspiu de canto, exclamando (ajudado certamente por um amplificador escondido, porque foi ouvido em todo cais): – Princesa! Ora! Princesa! Foi para a amurada, apoiou o pé nela, para o encanto das crianças. – Ela diz que é princesa! Que diferença faz a realeza agora?! E gesticulava com a garrafa. – A diferença é a mesma que há entre uma rainha e um rato! retrucou a princesinha, forçando as cordas. – Cale-se! ordenou o pirata, sacudindo a garrafa. – Esta estrela na testa não lhe dá o direito de ser impertinente! – Me dá o direito de ser rainha da minha terra de Aral! – Aqui não é Aral! – Não, é um imundo e fedorento navio dos ladrões de Mirta! A criançada gritou e aplaudiu. Aral e Mirta, inimigos ferrenhos através dos séculos! Reis, rainhas, lorde Erestor, princesa Aurora, guerra, piratas, ia ter briga de espada!!! – Tudo o que há para dizer ofendendo Mirta eu já disse, alteza real! Mas odeio mais Aral do que detesto Mirta! E é para Mirta que vai, alteza, em troca de uma boa recompensa! – Aral e meu pai podem dar muito mais que uma simples recompensa! – Eu odeio Aral e nem todo o ouro sujo do seu reino me faria levá-la de volta! retrucou ele, cuspindo com desprezo. Aproximou-se dela, balançando a garrafa: – Tem sede, magnífica alteza real? – Não! – Mas terá! riu o pirata, cantando com voz possante a velha canção dos piratas: – Oh, oh, oh, uma garrafa de rum! E emborcou a garrafa, bebendo ruidosamente. Engoliu a última golada e olhou a mocinha com o rosto congestionado:

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– Vai se arrepender de ter nascido, alteza de Aral! Não é, ó moleque?! Jean nem tinha visto, como a maioria, a figura que se aproximava de quatro, com um balde e uma escova, lavando o convés. Era um garoto miúdo contra o pirata, magricela, com calças compridas cinzentas e balofas, duas vezes o seu tamanho; a camisa enxovalhada devia ter sido uma vez branca. Por cima daquilo ficava uma espécie de colete escuro e comprido. A cara do garoto estava imunda, assim como os cabelos que escapavam do gorro igualmente sujo. – Não é, moleque?! repetiu o pirata ao não receber resposta, e finalizou a pergunta com um pontapé no traseiro do lavador de chão. O moleque saiu tropeçando e levantou lá adiante, estonteado e bem assustado, enquanto o grandalhão ria a valer. – É, sim, senhor! retrucou o garoto, amedrontado. O pirata parou imediatamente de rir e avançou um passo, sacudindo cheio de ameaça a garrafa pela metade: – É, sim, SE-NHOR CA-PI-TÃO! CA-PI-TÃO! – É, sim, senhor capitão! apressou-se a corrigir o garoto. – Quem é o garoto, Anita? quis saber Jean. – É Peggy! Veja só os olhos! Jean viu finalmente os olhos do “moleque”: eram azuis, estupendos, brilhantes como pedras preciosas! O pirata avançou outro passo. – Ponha-se no seu lugar, moleque! Quem é você – VAMOS! A cara do pirata, com a cicatriz toda torcida, estava mesmo pavorosa, e o garoto trêmulo engoliu em seco duas vezes antes de responder: – Sou Tinin, senhor, o ajudante da cozinha, senhor, às suas ordens, senhor! – SE-NHOR CA-PI-TÃO! – Sim, senhor capitão, desculpe, senhor capitão! O pirata pegou Tinin pela camisa com uma só mão e o trouxe até si, ameaçador. – E eu, fedelho treme-treme, e eu, quem eu sou?! – O senhor é o grande Cicatriz Quebrabraço, senhor, o terror dos mares, senhor capitão!

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Cicatriz Quebrabraço, o terror dos mares, soltou Tinin, olhando-o com um sorriso maldoso. – Jamais vai ser um homem, fedelho! Pegue aquela corda! Tinin obedeceu apressadamente, trazendo o pedaço de corda que Cicatriz apontava. – Sabe para que serve uma corda, moleque? E o pirata batia com ela na mão. – Pa-para amarrar, se-senhor capitão! disse o garoto, com os olhos redondos de medo. – E para bater, fedelho! exclamou Cicatriz, apanhando Tinin com um gesto rápido. Tinin se encolheu todo, protegendo a cabeça com o outro braço. – CICATRIZ! A voz autoritária veio do outro extremo da cena: era outro pirata. – É Tom! cochichou Anita. – Quinze anos?! espantou-se Jean. – Tem o tamanho do outro! – Avisei que eram altos! retrucou Anita, rindo. – Não avisou que eram malhados deste jeito! – São a tripulação do barco! O que você esperava? Tom estava todo de preto: calças, camisa, botas, cinturão e lenço na cabeça. Trazia uma espada na cintura ao jeito dos piratas, ou seja, sem bainha. Os cabelos, ao contrário dos de Cicatriz, eram compridos e se enroscavam em cachos caprichosos. A barba e o bigode eram louros como os cabelos, bem tratados, e mostravam que aquele era um pirata cuidadoso com a aparência. Cicatriz não chegou a baixar a corda em Tinin, interrompido pelo grito. A criançada aplaudiu o novo personagem, rindo dos cachos de Tom. – Já foi avisado para não tocar no garoto, Cicatriz! Depois não há quem faça o serviço da cozinha! Cicatriz largou Tinin de má vontade. Era evidente que não simpatizava com seu companheiro de preto. Cuspiu de lado. Tinin raspou-se. – Claro, claro... Senão você é que tem que fazer o serviço de mulher, não é, Amarelinho? 35


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O outro se empertigou todo e levou a mão à espada. – Já avisei para não me chamar disso! – Amarelinho! provocou Cicatriz. – Retire! – Não tenho medo de bonecas perfumadas! Jean viu-se empurrado, chacoalhado e quase derrubado pela agitação infantil. Discussão de piratas! Briga de piratas! LUTA COM ESPADAS!! O pirata de preto estava avançando e puxando a espada, fulo da cara. – Isso mesmo! meteu-se a princesa. – Matem-se! Um pirata de Mirta a menos no mundo! Reino podre de gente po... Ela parou de repente, com a ponta da espada de “Amarelinho” na garganta. – Não se intrometa, ou arranco a estrela da sua testa junto com o resto da cabeça! – Vamos lá, mate-a! exclamou Cicatriz. – E tiro a recompensa do seu couro! O “Amarelinho” deixou a princesa de lado e exclamou: – Pegue sua espada, Cicatriz! Cicatriz riu, feroz e contente, esfregando as mãos. – Avoado! Traga minha espada! – Sim, meu senhor Cicatriz! berrou alguém lá de dentro. Num instante apareceu um rapaz correndo com a espada numa das mãos, apontada direto para frente. Sua camiseta era listrada de amarelo e vermelho; o gorro era azul com verde. – Cuidado com esta espada, imbecil! berrou Cicatriz, saindo do caminho bem a tempo, porque o outro tinha tropeçado e vinha para cima dele como um lanceiro. Jean, novamente sacudido e espremido, não precisou perguntar quem era aquele. Todo o pessoal ria, aplaudia e assobiava, chamando por Tim. Com um ÔOOOOO!, Tim se estatelou ao comprido no chão, a espada escapou de sua mão e foi parar dentro d’água. – A espada caiu na água, meu senhor Cicatriz! exclamou ele, com ar de grande novidade, levantando num salto. – Já vi, seu monstruoso cretino! Quase fico com ela espetada no meio da barriga! 36


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– Então é uma sorte meu senhor Cicatriz não ser barrigudo como uns e outros que tem por aí! proclamou Avoado. O pessoal de Porto Alto estourou numa enorme gargalhada. Aquilo era com Mateo, cuja barriga era um dos alvos prediletos das implicâncias de Tim. Mateo bufou, enquanto os amigos batiam em suas costas, rindo. Tim estava começando cedo! – Mas foi um acidente, meu senhor Cicatriz! Busco outra espada para o senhor, meu senhor Cicatriz! Num minutinho! E saiu na disparada de novo. – Avoado! berrou Cicatriz. Ele travou, agitando os braços como um helicóptero e causando novo acesso de riso nas crianças. – Sim, meu senhor Cicatriz! – Traga a espada na bainha! Um enorme espanto apareceu no rosto de Avoado. – Mas o senhor me ensinou que piratas não usam espadas com bainha, meu senhor Cicatriz! – Piratas não, mas aprendizes do seu tipo usam!! – Mas a espada é para o senhor e não para mim, meu senhor Cicatriz! Então não precisa de bainha! – Traga COM bainha, Avoado! É uma ordem! ORDEM! – Mas meu senhor, a única bainha a bordo é a do meu senhor Amarelinho – perdão, meu senhor Barba Amarela! E se meu senhor Cicatriz vai lutar de novo com meu senhor Barba Douradinha, isto é, Amarela, como é que pode usar a bainha da espada dele? Não pode, meu senhor Cicatriz, porque lutar com um homem usando a bainha da espada dele não é certo, e ainda mais sendo meu senhor Barba Amarela – acertei! – irmão do meu senhor Cicatriz, embora meu senhor Cicatriz não goste dos cachos do meu senhor Barba Cachos, quer dizer, Amarela, isso faz ficar ainda mais errado pegar a bainha da espada e... – CALE ESTA BOCA! E traga a espada na BAINHA! – Mas eu não posso, meu senhor Cicatriz! – Por que não pode, cabeça de peixe podre?! – Mas meu senhor Barba Amarela está com ela fechada no baú, meu senhor Cicatriz! 37


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– Arrombe o baú! – Mas eu não posso arrombar o baú! – Ele não vai arrombar meu baú! – Você é um pirata ou um guarda do rei, Avoado?! explodiu Cicatriz. – Quero ser um pirata, meu senhor Cicatriz, porque piratas são... – Feche esta boca, não quero ouvir tudo isso de novo! Vá lá e arrombe aquele baú!! – Atreva-se a tocar no meu baú e eu o parto em dois, Avoado! ameaçou Barba Amarela. Avoado olhou os dois, de olhos muito arregalados. Cicatriz explodiu mais uma vez: – VÁ BUSCAR UMA ESPADA, AVOADO, COM OU SEM BAINHA! – Mas e a bainha, meu senhor Cicatriz?! – Pro inferno com a bainha! Que esta espada venha logo ou você vira comida de tubarão! – Sim, meu senhor Cicatriz! Avoado logo reapareceu com outra espada em nova correria, mas desta vez apontada para cima como uma bandeira – e não escorregou. – Sua espada, meu senhor Cicatriz! – Até que enfim! exclamou Cicatriz e, com um grito selvagem, atacou. Barba Amarela se defendeu, e o público foi brindado com uma cena até aí só vista em filmes: uma legítima briga com espadas de Mirta! As lâminas retiniam em choques sucessivos. Cicatriz e Barba Amarela atacavam-se com ferocidade, a ponto de Jean quase se esquecer da câmera. As crianças ficaram na pontinha dos pés, de respiração presa com os incríveis finos que os piratas tiravam um do outro, entre insultos, saltos e pragas. Avoado torcia, saltitando e incentivando um ou outro. A princesa amarrada no mastro parecia bem interessada na habilidade dos dois piratas. A vitória acabou mesmo com Cicatriz, que fez a espada de Barba Amarela voar longe. – Ah! exclamou Cicatriz, enquanto Avoado e toda a plateia aplaudiam entusiasticamente. – Ainda não está cansado de perder?! – Minha espada, Avoado! exigiu Barba Amarela. – Não discuto com trapaceiros!

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– Trapaça?! berrou Cicatriz, já pegando de novo a espada. – Eu venci limpamente! Sabe disso! Retire! Retire ou...! A ameaça foi sublinhada por um floreio da espada. – Ou o quê? provocou Barba Amarela. – Que tal me matar, hein? Sou o único neste barco que tem educação suficiente para parecer um cavalheiro! E lorde Erestor só trata com cavalheiros! – Cuspo em você e em lorde Erestor! retrucou Cicatriz, mas enfiou a espada no cinto. – Cuspo em toda esta baboseira de educação e cavalheiro! Avoado teve que saltar ligeiro para não levar a cuspida bem na cara. – Sua espada, meu senhor Barba Amarela! – Dê meu rum! resmungou Cicatriz, e sua expressão estava simplesmente pavorosa. Pelo jeito, estava furioso por não poder passar sua espada bem no meio de Barba Amarela. Avoado trouxe a garrafa num piscar de olhos e recuou mais depressa ainda. – Passe! exigiu Barba Amarela, estendendo a mão para a garrafa. – Ah-ah! rosnou Cicatriz, bebendo do gargalo e secando o rum, com a cara mais terrível que se podia imaginar num pirata. Então, outro pirata surgiu, este sem camisa, tapa-olho preto e um ameaçador punhal na mão. – É Ted ou Teo! Olhe como são parecidos, Jean! Jean estava sem tempo de ver se os gêmeos eram parecidos ou não, muito ocupado em examinar aquele monte de músculos armado com o punhal. Filho de cientista?! Aquele?! – MEU rum! Cicatriz conseguia armar uma cara feia e má, mas a do novo pirata era simplesmente tenebrosa. Barba Amarela tratou de sair do caminho. – De novo meu rum! Sempre meu rum! Já tinha avisado, Cicatriz! BASTA! O punhal descreveu um largo arco no ar. Avoado estava a uma distância prudente. – Ora, Caolho... Ora... – Matem-se de uma vez! exclamou a princesa, ao ver Cicatriz recuar diante de Caolho. – CALE-SE! gritou Caolho, e o punhal zuniu perto do rosto da princesa. Ela não se intimidou. 39


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– Chega de ameaças! Não vão tocar em mim! Só pagam recompensas por princesas vivas! – NÃO ME IRRITE! – Me raptam do meu reino! Me trazem pra este navio fedorento! Me amarram a este maldito mastro! Chega! Chega de ameaças com espadas e punhais! Não vão me matar! – Ah, não? – Não! Além de ficarem sem a recompensa, teriam lorde Erestor atrás de vocês até o fim dos seus dias! Cicatriz cuspiu de lado. Caolho olhava tudo muito irritado. – Erestor! ironizou Cicatriz. – Um nobrezinho emproado! – Um nobre implacável! retrucou a princesa. – Um pirata de Mirta nunca vai temer um nobre de Aral! – Erestor não é um nobre qualquer, meteu-se Barba Amarela. – É perigos... – QUIETO! berrou Caolho. – Já é demais ter dentro deste barco alguém com todos estes cachos e perfumes! Experimente se acovardar e (o punhal riscou uma ameaça no ar) fim! Desta vez, Barba Amarela não respondeu. – Lorde Erestor não descansa enquanto não me vingar! insistiu a princesinha. – E quando chegar, rosnou Caolho, – vou colocá-lo para descansar... Para sempre! – Ele vai matar todos vocês! Eles riram, ela retrucou, furiosa: – Vamos, riam! Muita gente já riu antes de lorde Erestor! Espiões, traidores, sequestradores como vocês! Nenhum escapou! Uns conseguiram ficar fora do alcance do lorde por mais tempo, mas terminaram apanhados, presos, mortos! Esta é a primeira vez que ele falha e não vai descansar antes de pegar todos vocês! – Piratas são bem mais espertos que soldados e espiões! retrucou Cicatriz. – Isso está me irritando! avisou Caolho. – Espertos?! Se são tão espertos, como doze piratas foram executados faz menos de um mês?! devolveu a princesa, de olhos chispando.

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– QUIETA! gritou Caolho, fora de si, como se aquilo fosse a gota d’água. – De uma vez por todas, chega! Acabou de pronunciar sua sentença de morte, “princesa”! – Veremos! encarou ela, de volta. – Avoado, a prancha! Avoado ficou plantado no mesmo lugar, aturdido. – A PRANCHA! exigiu Caolho, acariciando o punhal. – Quero ver como esta “princesa” se comporta vendo a morte de perto, por ter provocado quem não devia! Vamos – A PRANCHA! – Si-im, meu senhor Caolho! saltou Avoado, como quem acorda. Retirou uma parte da amurada do lado do veleiro voltado para o cais e ajustou uma prancha ali. Saiu do caminho, todo espantado. – Não se atreva! exclamou a garota amarrada, e se encolheu contra o mastro quando o punhal se aproximou. – Não me toque ou vai se arrepender! Com um sorriso sinistro, Caolho cortou as cordas. – Vamos, “alteza”... Ande! – Não! – Caolho, espere aí... começou Cicatriz. – CHEGA! Ela gosta de provocar, não é? Desta vez, vai ter o que merece! A garota tentou correr, as saias atrapalharam, e Caolho a pegou em duas passadas. – Me solte!! Barba Amarela e Cicatriz ficaram de fora, enquanto Caolho arrastava a princesa aos gritos para a prancha. Caolho só viu o balde quando já tinha enfiado o pé dentro dele, espalhando água com sabão por todos os lados. A garotada caiu na risada. Caolho lutou um momento com o balde, gritando: – TININ! A princesa tornou a escapar e Caolho, com o pé livre, pegou-a sem a menor cerimônia. – Tire este balde daqui! Nunca mais esqueça esta porcaria no meio do caminho! Seque todo o chão! JÁ!

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Tinin correu para atender, prudentemente passando longe de Caolho e da princesa. – Ande, moleque imundo! gritou Cicatriz, que estava precisando gritar com alguém. – S-im, senhor capitão! gaguejou Tinin. – Capitão?! esbravejou Caolho. – Desde quando você é capitão de alguma coisa?! – Ora, Caolho, é... É brincadeira com o moleque! – Se escuto este garoto chamando você de capitão mais uma vez, é a sua cara que eu arrebento, entendeu bem?! Venham me ajudar – JÁ! – Ora... Ora, Caolho, deixe-a! – Isso, deixe-a! apoiou Barba Amarela. – Mas... Mas, meu senhor Caolho, começou Avoado, e calou-se instantaneamente quando o olho fuzilante de Caolho se cravou nele. – Avoado, avisei que não queria ouvir mais nenhum desses irritantes “mas” que vivem na sua boca! Assim que acabar com ela, trato de você! Avoado perfilou-se. – Sim, meu senhor Caolho! Neste exato instante, Caolho soltou um urro medonho que assustou todo mundo. A princesa tinha passado para a ofensiva, mordendo a mão do pirata, chutando e desencadeando uma furiosa saraivada de tapas. – Que é que está pensando pra me sacudir assim?! Está achando que sou o quê?! Caolho tentou uma bofetada, mas ela abaixou rapidamente, aproveitando para empurrá-lo com toda força contra a amurada. O pirata gritou de dor e afastou-a com um golpe de braço, fazendo-a cair no início da prancha. – UM TUBARÃO! exclamou ela, olhando para baixo. O realismo do grito foi tanto que Jean, instintivamente, foi procurar o hipotético tubarão com a câmera – e qual não foi sua surpresa ao dar com o vulto negro logo abaixo da água, barbatana de fora, dando voltas agourentas sob a prancha! Mas estava longe de ser um tubarão de verdade. Tubarões de verdade não punham o focinho para fora como um periscópio de submarino, e muito

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menos tinham a boca toda sorridente, apesar de bem provida de dentes! E nem ficavam lá parados, estalando as mandíbulas como quem espera o jantar! – Um tubarão! repetiu a garota. – Coitado dele! retrucou Caolho. – Você é de dar congestão em qualquer bicho, “alteza”! A princesa puxou um punhal semelhante ao de Caolho, levantando num salto, toda amarrotada e descabelada. – Vamos ver quem é que dá congestão nele! Caolho pegou seu punhal e a briga começou, cada um tentando fazer o outro subir na prancha. A princesa não ficava nada atrás do pirata no manejo do punhal, e Jean já estava de cabelos em pé com aquele brinquedo perigoso. Via a todo instante alguém sair ferido, e pensou que aquela era uma estranha habilidade para uma princesa. Cicatriz e Barba Amarela incitavam os dois à luta, Avoado acompanhava a briga com saltinhos, esquivando-se de punhais imaginários, e Tinin, abraçado ao balde, parecia querer sumir. O tubarão zanzava próximo ao barco de boca escancarada, sempre abaixo da briga, esperando algum pedaço cair. – Parem imediatamente com isto! ordenou uma voz fria e autoritária. A parada foi completa e brusca. – É Pam! admirou-se Anita. Jean assobiou baixinho. Que garota linda! Vestida de pirata, espada na cintura, fez imediatamente lembrar a lendária ferocidade das mulheres-pirata de Mirta. De porte altivo e decidido, a bonita pirata fez Jean lamentar o tamanho dos irmãos que ela infelizmente tinha. – De novo, Caolho?! Será que só vão parar quando um estiver morto?! – Ela me provoca, Bela! – Ele se mete em tudo, com ares de grande coisa! retrucou iradamente a “princesa”. – Ou melhor, com ares de qualquer coisa, porque grande coisa nunca vai ser! – Ora, sua...! – Parem! tornou a ordenar Bela, e eles obedeceram. – Pode-se saber o que faz com estas roupas ridículas, Fera? A “princesa” empertigou-se. – Eu era a princesa Aurora! Cicatriz e eu estávamos nos divertindo um bocado até que ele (apontou Caolho) veio se meter! 43


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– Ridículo! Tire estas roupas, nunca vai parecer uma princesa, muito menos Aurora de Aral! Assim como aquele (Barba Amarela) nunca vai parecer um nobre – e tem que parecer! Barba Amarela encolheu-se ante a acusação. – Faço o que posso, Bela! – Faça mais! Temos que pegar aquela princesa e nosso sucesso depende de você enganar a guarda do palácio! Se está faltando estímulo, lembre-se que, se descobrirem que é um impostor, sua cabeça é a primeira que rola! Barba Amarela engoliu em seco. – E você, Fera, tire esta estrela absurda da testa! E estas joias também! Fera passou a mão pela testa e a estrela virou um borrão de tinta. – Avoado, Tinin, deixem tudo em ordem! Especialmente este chão encharcado! – Sim, minha senhora Bela! – Vocês quatro, vamos! Temos que repassar o plano, faltam apenas dois dias para Aral! Traga as joias, Fera! Fera se livrou do vestido e, por baixo dele, usava roupas semelhantes às dos outros. Enfiou o punhal no cinto. – Pois vamos a isto, Bela! – Serviço direito! mandou ainda Bela a Avoado e Tinin. – Sim, minha senhora Bela! Vamos, Tinin! Tinin pegou a escova, abandonada em algum lugar, e recomeçou a trabalhar. Avoado recolheu o vestido de Fera. – O que faço com isto, minha senhora Bela? – Atire na água! Bela entrou na cabine de onde tinha saído, acompanhada de perto por Caolho que se queixava de Fera. Cicatriz e Fera vinham logo atrás, e Barba Amarela encerrava a fila. Avoado olhou a porta fechando, olhou o vestido, olhou o tubarão e atirou o vestido na boca escancarada do bicho, que engasgou e tossiu com impressionante realismo, afundando num burburinho de espuma. Todos riram e aplaudiram, dando a peça por encerrada com o desaparecimento dos piratas e do tubarão, e com o peculiar “salvamento” da princesa em apuros. 44


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Avoado ficou imóvel uns momentos, olhando a cabine fechada dos piratas. E, de repente, sua expressão mudou por completo, calando a plateia de espanto. Altivo e severo, o novo personagem nada tinha a ver com Avoado. Afastou-se da amurada com modos calmos e disse, a voz tão mudada quanto a expressão: – Eles vão demorar lá dentro. Tinin largou a escova com um suspiro e ergueu-se, secando as mãos na roupa. – Posso? perguntou o lavador de chão, puxando do bolso um lenço milagrosamente limpo. Avoado concordou com um gesto de cabeça, dizendo: – Dois dias até Aral... Estamos perto! – Vão ser os dois dias mais longos da minha vida, assegurou Tinin, limpando o rosto com o lenço. Sua voz agora era bonita, suave e muito feminina. Tinin afastou o lenço do rosto limpo e Jean assobiou baixinho. Outro encanto de garota! Ah, aqueles irmãos... Ela puxou o gorro com uma mão e a peruca suja com a outra, soltando uma cascata de cabelos escuros divididos ao meio. Uma delicada estrela estava desenhada em sua testa. – Francamente, suspirou ela, – podia ter encontrado um meio mais razoável de voltarmos para Aral, Erestor! Piratas! Piratas que querem me raptar! Se soubessem onde está a Aurora que tanto querem...! – Ninguém procura lordes e princesas na cozinha, alteza. – Primeiro ser levada para Mirta num barco destes! Depois voltar para Aral esfregando chão e lavando pratos noutro barco pirata! Não acha que é demais? – Não é demais chegar viva a Aral depois de ter estado nas masmorras de Mirta. Ela suspirou de novo, mas, desta vez, o suspiro foi seguido por um belo sorriso. – Tem razão. Só mais dois dias! – Que não vão ser os mais longos, alteza. Os mais longos foram os dezesseis de Mirta até aqui. – Vamos comemorar na cozinha. Escondi frutas para nós! – Não devia, se eles descobrem...

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Ela riu baixinho. – Já me tornei uma boa lavadora de chão, milorde, e uma ladra muito hábil também! Depois de amanhã – em Aral! Nem acredito! Lorde Erestor e a princesa desapareceram em outro ponto do barco, conversando em surdina, e o tubarão ergueu um enorme cartaz onde se lia “FIM MESMO”. Entre aplausos entusiásticos, os jovens atores voltaram ao “palco”, primeiro Cicatriz, Fera, Caolho, Barba Amarela e Bela, todos sorrindo. O tubarão foi puxado para bordo por Caolho e Cicatriz, e Bobby saiu de sua casca de mandíbulas móveis, feliz e encharcado. Os aplausos redobraram, e aumentaram ainda mais com o aparecimento do lorde Erestor e da princesa Aurora, que nem chegaram a se juntar ao grupo. De repente, o terrível grito de guerra dos piratas de Mirta cruzou a manhã ensolarada, e Cicatriz, de espada em riste, partiu para cima da dupla. – Eu pego vocês dois!! EU PEGO!! Tim e Peggy debandaram para a proa, rindo, e Tim rapidamente apanhou uma espada deixada bem a jeito. – Penduro os dois no mastro!! Atiro pela prancha!! Sal no meu rum!! Pimenta no meu rum!! E eu tive que tomar tudo, TUDINHO!!! Cicatriz mandava golpes a torto e a direito, e Tim recuava sempre mais, com Peggy às suas costas. – E bicarbonato no seu rum! emendou Tim, enquanto os outros desatavam a rir, afinal entendendo as caras terríveis que Cicatriz fazia depois de beber da garrafa. – E vinagre também! – E açúcar, cravo e canela pra dar um gostinho especial! ajudou Peggy. – E mais meia dúzia de trecos e pós lá do laboratório! juntou Tim. – Eu pego vocês, seus envenenadores!! urrou Cicatriz, redobrando a fúria do ataque. – Ei, manão, seja razoável! defendia-se Tim. – Você não estava conseguindo fazer as caras feias que precisava e a gente resolveu incrementar seu guaraná falsificado de rum! – Nós só quisemos ajudar! – Eu acabo com este lorde de meia tigela e te mostro ajudar, alteza! 46


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– Puxa vida, maninha, que é que se faz com um irmão tão furioso assim? preocupou-se Tim. – Será que a gente deve contar que tinha purgante também?! Cicatriz quase teve um ataque. – O QUÊ?! Faço paliteiro de você, seu patife!! A fúria dos golpes foi tamanha que por pouco a espada não escapou de Tim. – Calma, mano, caaaalma! Tenho uma princesa pra proteger! – Faço paliteiro dela também! Ahá! Encurralados! Tim não tinha mais para onde recuar. Peggy saltou então para o grande esporão da proa, que parecia um mastro de sete metros derrubado para o lado de fora do barco. Dali eram baixados muitos instrumentos de medição oceanográfica. E Tim não demorou a ter que saltar também para o esporão, sem outro lugar para ir. – Ora, ora, duas pestes vão tomar banho! alegrou-se Cicatriz. – Vai ter que nos pegar antes, piratão! riu Tim, e ele e Peggy afastaram-se mais de três metros do barco, equilibrados no esporão. – Eu pego, pode deixar! respondeu Cicatriz, e não teve dúvidas: saltou também para o esporão e foi obrigando Tim a recuar centímetro por centímetro, até Peggy avisar: – Acabou o chão, Tim! – Peguei vocês! – Quem pegou quem, esperto?! riu-se Tim, e ele e Peggy saltaram do esporão reto para baixo. Cicatriz não teve tempo nem de cantar vitória. A dupla se agarrou ao esporão no último instante, um tranco seco, e lá se foi Cicatriz para a água. Quando voltou à superfície, Tim e Peggy estavam de volta ao Cisne e riam às gargalhadas – como todos, aliás. – Aí, acalmou, manão pirata?! – Vocês planejaram isso!! protestou Cicatriz. – Nós?! exclamou Tim, muito admirado. – Imagine! – Como pode nos acusar assim?! Olhe só a carinha tão inocente de Peggy! Não havia absolutamente nada de inocente no rosto travesso da jovem, e Cicatriz acabou aderindo aos risos. – Estou vendo! 47


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E tratou de nadar para o cais. Os do Cisne providenciaram a prancha de desembarque. Por causa dos estabilizadores laterais, o veleiro precisava se manter afastado. Num instante, os jovens Melbourne estavam em terra, cumprimentando os amigos. A criançada arrancou a barba de Tom, e sua peruca loura provocou muitos comentários maliciosos dos rapazes de Porto Alto. Tom enfiou a peruca no mais próximo. – Vamos lá, você é Ted ou Teo?! insistia o garotinho que Caolho tinha na garupa. – Não conto pro Mateo! – Adivinhe! – É Ted! – Não, é Teo! – Ted! – Teo! – Ted, puxa! Eu conheço Ted! – Puxa, mas que briga super aquela sua com Lis! Você não ia machucar, não é? – Ela é valente, pra uma garota! – E que cara feia você estava fazendo! – Que cara feia Pam estava fazendo, isso sim! – Olhe lá, Mateo! mostrou um dos guardas do cais. – Imagine só o tamanho que o estômago deles deve estar, neste ano! – Pf! fez Mateo. – Vou esperar no Anzol. Com tanto tumulto, acabo é dentro d’água. – E tente acertar, desta vez! completou outro farrista. Não demorou muito para o grupo do cais entupir o Anzol Dourado de gente. – Deixem nossos vales de almoço entrar antes! exclamou Tim, e um caminho se abriu da porta até o balcão de Mateo. A torcida era ainda mais entusiasmada ali dentro. – Continuam iguaizinhos, Mateo! – Olhe que vai perder de novo! Caolho e Cicatriz entraram. O Anzol Dourado continuava acolhedor, decorado com conchas, fotos de barcos, velhas âncoras, instrumentos de navegação, e entranhado de cheiro de peixe. 48


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Mateo e sua respeitável barriga saíram de trás do balcão. Parou em frente aos gêmeos, bem mais altos do que ele. – Então, sempre voltam, não é? E estendeu a mão, apertada com igual vigor pelos dois irmãos. – O que seus pais dão a vocês? Fermento? Como cresceram! Pam, Lis e Peggy saudaram Mateo com beijos no rosto. – Trouxemos um presente pra você! sorriu Lis, mostrando um belo pacote. Era uma caixa, e Mateo, desconfiado, olhou os irmãos. – Se, quando eu abrir isto, pular alguma coisa na minha cara, corro vocês daqui pra fora! – Vá em frente! riu Caolho. – As garotas não deixaram Tim chegar perto deste pacote! – Está vendo, Mateo? Ele mesmo confirma que estou inocente, desta vez! – Desta vez! salientou Mateo, abrindo a caixa com cautela. Afinal, nada pulou. Mateo ergueu, para todos verem, a enorme e multicolorida concha. – Esta veio de longe, das Ilhas de Randol, disse Pam. – Achamos que você ia gostar! – Garotos, muito e muito obrigado! É uma das mais coloridas que já vi! Vamos acabar logo com isto. Estão com as identificações aí? – A minha está aqui, disse Caolho, e bateu com a mão no bolso da calça. – E a minha, aqui, disse Cicatriz, mostrando o bolso da camisa. – Molhada, mas está! Mateo olhou-os demoradamente, escolheu Caolho. – Você é Teo! Passe a identidade! Era Ted, e todo Anzol caiu na risada. – Quatro vezes seguidas é muito azar! gemeu Mateo. – Está bem, são meus convidados outra vez! Qual é a primeira facada? – Um sorvete de chocolate! exclamou Bobby, feliz da vida. – Ah, tinha que ser, seu devorador de sorvete de chocolate! Vão me deixar pobre, você e seus irmãos! E serviu um generoso sorvete ao garoto, enquanto as apostas eram acertadas.

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O resto do pessoal se divertia com a perseguição de Teo a Tim e Peggy, querendo saber o que havia de verdade e o que havia de farra na alquimia que os dois tinham metido na sua garrafa. Peggy só ria e Tim garantia ao irmão que, caso houvesse purgante, ele seria o primeiro a descobrir! Quando Teo enfim desistiu, Tim assumiu a narração das peripécias da família, contando com riqueza de detalhes a tremenda tempestade que pegara o Cisne pouco antes de acharem a concha de Mateo. Um copo de vinho foi, de repente, largado na sua frente. – Ei, eu pedi refri! protestou o rapaz. Mateo colocou copos diante de Ted, Teo e Tom. – Refrigerante? Vocês têm o tamanho de homens, a força de homens e fazem o serviço de homens. Portanto, tratem de beber como homens! Os quatro se olharam e olharam Mateo. – Está querendo nos embebedar? riu-se Teo. – Parece! apoiou Ted. – Olhe só o tamanho disto que ele chama copo! Lá no Cisne, é balde! – Ora, ora, vão cair fora? Tom afastou o copo da sua frente, retrucando: – Que é que você acha, se até nosso “rum” é guaraná? Quer dizer, era guaraná, antes de Tim e Peggy darem uma temperadinha! – Somos uma tripulação em serviço, argumentou Teo. – Nossos vinhos ficam para o almoço, se o capitão deixar! – Larga disto, Teo! meteu-se Pedro, filho mais velho de Mateo, cuja idade regulava com a de Tim e Tom. – Todo este tamanho e foge de um copo de vinho?! – Estão com medo que o vinho deixe vocês de língua solta! riu Mateo, mas concordou com Teo que estavam de serviço, e fez sinal ao ajudante do balcão para providenciar refrigerantes. – É isso aí, Mateo, é medo de falar demais! – Especialmente sobre garotas! Garotas que encontram pelo mundo afora! – Lindas garotas! – Sedutoras garotas! Então, os Melbourne ouviram algo que estavam torcendo ardentemente não ouvir: – E envelopes personalizados, um para cada um deles, justo agora, na época das respostas das Escolas Avançadas! 50


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Envelopes personalizados O comentário veio de Antônio, da agência de correio, causando interesse instantâneo e geral. – Envelopes personalizados? Para quem?! – Para todos eles! – Quando chegaram? – Primeiro de dezembro! O Anzol inteiro virou para os irmãos. – Os resultados das Escolas Avançadas chegam sempre entre vinte de novembro e três de dezembro, em envelopes personalizados! continuou Antônio, para o remoto caso de alguém não saber. – Vocês estão em idade de ingresso. Lis ainda é novinha, mas podia muito bem fazer os exames! O que dizem disso? Os jovens adorariam pegar aqueles envelopes sem despertar atenção, mas sabiam que a chance de conseguir era pequena. Alunos de Escolas Avançadas eram sempre sensação e a chegada dos envelopes personalizados naquela época do ano não passava despercebida em lugar algum. Estavam preparados para a situação, mas a maioria dos planos de distração envolvia os pais – que não estavam ali. A tripulação teria que se virar sem eles, e Peggy foi a primeira a sorrir, espantada: – Mas, Antônio, estas correspondências são do Instituto de Itaro, não são? – São. Mas todo mundo sabe que as Escolas usam remetentes falsos. Nem sei se este tal Instituto de Itaro existe! – Existe, informou Jean. – Fica perto de Paris e trabalha com genética humana. – Isso mesmo, Itaro trabalha com genética, confirmou Pam. – Fizemos diversos exames lá e demos o endereço da caixa postal daqui. E exames genéticos, Antônio, vêm sempre em envelopes personalizados! – Vocês não precisam de exames. Não estão doentes! 51


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– Não são exames para doentes, explicou Ted. – As pesquisas deles precisam de diversos mapeamentos genéticos de gêmeos idênticos. – E Mateo é testemunha que Teo e Ted são bem idênticos, hein, Mateo? sorriu Tim. – Teo, Ted, Tim e Tom foram chamados por isso, e também porque é muito raro aparecer mais de uma dupla de gêmeos na mesma família, disse Pam. – Se são um caso raro, por que só agora fizeram esse tal mapeamento? – Itaro não sai caçando gêmeos, Antônio! sorriu Tim. – A gente tem que se inscrever, e nós só nos inscrevemos ano passado! Todos fizeram os exames, até mamãe e papai! Tem envelopes personalizados pra eles também, não tem? – Tem, admitiu Antônio. – Mas se vocês são os gêmeos, por que todos fizeram os exames? – Porque essa coisa de gêmeos é de família, explicou Pam. – Lis e eu fizemos o mapeamento para comparar com os deles (os irmãos), e papai e mamãe também. – E você? perguntou Mateo a Bobby, que estava muito ocupado com seu sorvete. – Não fez exames também? Bobby engoliu depressa seu sorvete. – Claro que fiz, só que sou muito pequeno pra receber envelope personalizado. O meu veio junto com o da mamãe. Até Lis só recebeu no nome dela porque papai deixou! Mateo não era o único a continuar muito desconfiado, e Ted argumentou: – Como Antônio disse, todo mundo sabe que os resultados chegam até três de dezembro, certo? Faz mais de cinco meses que registramos nossa rota, e a data para chegar aqui sempre foi depois do dia doze, e a data para Porto Arriz, dia sete! É ou não é? O pessoal do posto do Controle Científico que estava por ali confirmou: bem isso! – Se fossem resultados de Escola Avançada, por que íamos mandar resultados para cá, se dava para ter pegado em Porto Arriz na semana passada? – Imagine só se fossem mesmo resultados de uma Escola Avançada e a gente estivesse contando com sua discrição! riu Teo, olhando Antônio. – Não é quebra de sigilo dizer que uma correspondência chegou, defendeu-se Antônio. – E os pais de vocês saíram de Champ-Bleux! O que queriam que eu pensasse? 52


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– Desculpe, Antônio, mas não imaginamos que estes envelopes iam chegar justo na época dos resultados de Escolas Avançadas! Jean resolveu dar sua opinião, aliás em voz bem alta e clara: – Envelopes personalizados seriam muito notados em Porto Arriz, ainda mais na época dos resultados das Escolas Avançadas. Mandar para cá e pegar com uma semana de atraso serviria para despistar. E o Instituto de Itaro pode ser uma excelente cobertura para vocês, por causa dos gêmeos. Os Melbourne tiveram a mais sincera vontade de estrangular o intrometido. – Ora, e você, quem é? perguntou Ted. – É repórter, é francês e se chama Jean, informou Tim. – E, com estes cabelos vermelhos, janto a minha bota se não tiver o apelido de Brasa, Chama, Fogo ou coisa do tipo! – Como é que você sabe? espantou-se Jean. – Ora, Fogueirinha, foi só perguntar pra Anita! Sua câmera chama atenção de longe! – Acontece que ele tem razão, disse Mateo. – Ah, sai, Mateo! riu Tim. – Se fossem mesmo resultados de Escola Avançada, a gente ia estar tranquilamente aqui neste seu covil cheirando a peixe? Até o sorvete tem cheiro de peixe! É óbvio que íamos achar um jeito de ir ventado pro correio! Ou, pelo menos, a gente avisava Antônio pra ele não falar! É ou não é, Fogueirinha? E daí, qual é o seu apelido? – O apelido dele é Fogo, informou Anita. – E ele está bem certo nisso de despiste. Vocês podem estar nos tapeando. De novo! – Ei, você já sabe até o apelido dele! sorriu Peggy, muito maliciosa. – Que interessante! – Peggy, nem vem! defendeu-se Anita, avermelhando. – A gente mal conversou! – Ah, tá. Então, como é que sabe até o apelido? retrucou Peggy. Os palpites se generalizaram pelo grupo de garotas, e logo estavam todas rindo do vermelhão de Anita – e de Jean, claro, metido junto nos palpites. Mateo, por sua vez, estava cheirando o sorvete de Bobby. – Não tem cheiro de peixe coisa nenhuma! – Claro que tem! Você é que não sente mais!

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– O atrevimento! Devia ter mais cuidado com a mão que o alimenta! – Muito contra vontade! riu Tim. Em outro ponto do Anzol Dourado, a criançada não queria saber de envelopes personalizados ou Escolas Avançadas. Só falavam da peça e dos duelos, entusiasmando-se ao imitar os golpes ágeis dos piratas. – Aquilo foi muito perigoso. Podiam se ferir! – Claro que não, vó Ana! respondeu Ted, o Caolho, mostrando o punhal usado na peça. – Mandamos colocar estas proteções transparentes em Porto Arriz. Está sem fio e sem ponta. – Parecia que não tinha nada disso! decepcionou-se um dos garotos. – Mas tinha, disse Ted. – Punhais e espadas não são brinquedos. – Mas faziam barulho de metal! insistiu outro garoto. – A proteção dá esse som. – Estão vendo? disse vó Ana aos garotos. – Eles não brincam com isso! – O que há, vó Ana? perguntou Ted, olhando a garotada que se remexia. – Duelos na cozinha! Olhem só o dedo do Paulo! – Não foi nada! defendeu-se Paulo, escondendo o dedo que era um canudo de curativos. – Mas, puxa, as brigas que vocês fizeram estavam super! – Aquela do esporão foi a mais genial! – Era parte do enredo ou não? perguntou Pedro, cansado de ouvir falar das molecagens dos pirralhos de vó Ana. – Pode apostar que não era! bufou Teo. – Fui mesmo vítima de sabotagem! – Eu também fui vítima de sabotagem! protestou Tim, lá do outro lado. – Você quase me afogou hoje de manhã, já esqueceu?! Teo nem respondeu, e Tim voltou ao seu assunto com Vânia, uma das garotas que ajudava vó Ana. Bobby era todo ouvidos. – ...Foi esta última série de aventuras, Tim, a Espada Heroica. São duelos de espada o tempo todo e os garotos querem fazer igual! – E nossa brincadeira meteu lenha na fogueira! Que droga. Vamos ver se isso tem conserto. – Como? perguntou Vânia. – Ah, tudo tem jeito na vida! assegurou Tim, e viraram quando a turma em volta de Anita e Peggy caiu junta na gargalhada. Tim riu também e comentou: 54


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– Entre fogos e fogueiras, sua grande amiga Anita vai acabar assada! Não vai lá ajudar? – Eu vou. Peggy está terrível! disse Vânia, e foi. Bem baixinho, Bobby cochichou: – Peggy distraiu eles direitinho! – Bota direitinho nisso! – Que pena! – Que pena o quê? perguntou Tim, sem entender. – Que Peggy distraiu o povo. Queria ver você usando a barata! Mateo ia ficar uma fúria se você fizesse Florinda aparecer aqui dentro! Seria uma confusão fenomenal, sem dúvida, e Tim e Bobby sorriram só de imaginar. O almoço foi mesmo no Anzol Dourado, Mateo fez questão, e mandou seu filho Pedro chamar a doutora Doris e o doutor Henry. Vó Ana reuniu sua creche e despediram-se dos Melbourne. – Estamos esperando vocês de tarde! avisaram os pequenos, acenando, rindo e atirando beijos. Mateo ajeitou a família na melhor mesa do lotado Anzol Dourado, começando então a servir o almoço. – Tem lugar? perguntou Jean a Pedro, vendo as mesas cheias. – Não. – Posso comer no balcão. – Não servimos almoço no balcão. – Mas eu gostaria de ficar, insistiu o repórter. – Já falei que não tem lugar! – Calma aí, Pedro! disse um dos rapazes da mesa mais próxima. – Você fica na nossa mesa, se quiser! Onde se arranja uma cadeira, Pedro? – Não tem cadeira. – É? Pois eu vou ver lá na cozinha. Pedro se afastou, irritado. – Que é que ele tem? perguntou Jean a outro dos rapazes. 55


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– Você estava com Anita, resumiu ele, rindo. – É a namorada dele! Ah, aí vem Luís com seu banco. Na mesa dos Melbourne, Mateo servia Ted de vinho. – Você não desiste, hein, Mateo! – Disseram para deixar para o almoço, e aí está! Seu pai não achou problema algum! – Diz a tradição que a tripulação pode encher a cara quando chega num porto depois de meses no mar, afinal! disse Tim, e ergueu seu copo num brinde: – À sua saúde, Mateo! Os outros acompanharam o brinde e, quando baixaram os copos, Mateo já tinha sumido. – Ele encabulou! sorriu Lis. – Nós meio que precisamos de vocês aqui dentro, disse Teo aos pais, baixo. – O que houve lá por fora, para demorarem tanto? – Precisaram? Não parece! – A gente se vira, senhor capitão, disse Tim. – Então? O que o doutor Inácio queria? Deve ser novidade grossa! – É novidade grossa, concordou o doutor Henry, falando mais baixo ainda. – Vamos ter companhia no próximo mês, tripulação: dois cientistas tarilianos do Intercâmbio. Houve um momento de silenciosa surpresa. O Cisne não fazia parte dos programas do Intercâmbio Científico-Cultural Interplanetário! – Chegaram na Terra há três meses, e o Intercâmbio mandou os dois para o Aurora Boreal. – Com o doutor Orel?! – Exatamente com Orel. Ele e a tripulação transformaram a vida dos dois num inferno. Chegaram a ponto de inutilizar os vídeos de comunicação para eles não terem a quem recorrer. – Menino! O Intercâmbio vai linchar o doutor Orel! – Já está linchando. Os tarilianos desembarcaram na cidade de Netar há dois dias e entraram em contato com o Intercâmbio, obviamente furiosos. Claro que se comunicaram só com o setor tariliano e, quando o setor terráqueo ficou sabendo, a confusão já estava armada. Conseguiram abafar na Imprensa, o que

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não vai durar muito. Os estagiários só queriam saber de voltar para Tarilian e nunca mais ver a Terra, se recusavam até a falar com o pessoal terráqueo. No fim, como último recurso, o departamento terráqueo ofereceu a conclusão do estágio no nosso barco. Isso eles aceitaram. – O que o setor tariliano ameaçou para nos meterem no meio? – Suspender permanentemente todo o programa de Intercâmbio. – Uau! – Alguém deve ter mexido um bocado de pauzinhos para o Controle Científico ter permitido estagiários de qualquer tipo dentro do Cisne, ainda mais tarilianos! – Eles vão morar conosco até quinze de janeiro, quando termina o estágio, e, neste tempo, temos que desfazer a impressão que Orel deixou. Inácio deixou bem claro que seria ótimo se isto acontecesse, mas o Controle não espera milagres. Se não piorarmos a situação já está bom – palavras de Inácio, que recebeu o recado do Intercâmbio. – Como o Intercâmbio foi meter os dois justo no Aurora Boreal? – Não sei. Dizem que foi algo com o computador. São biólogos recém-formados: Turon de Alter, primeiro colocado em Ciências Biológicas das Universidades Reunidas de Tarilian; Tian de Carasan, segundo colocado. – O quê?! Ele mexeu com os primeiros classificados das Universidades Reunidas?! – Por que o doutor Orel simplesmente não se recusou a recebê-los, e fim? – Orel não é mais o mesmo, desde a morte da esposa e da filha. Os jovens procuraram alguma coisa para mastigar, como desculpa para o súbito silêncio... Um silêncio cheio de recordações. O doutor Orel era um cara simpático e risonho, sua esposa era uma coisinha gorducha e cheia de bom humor, e Iva, a filha deles, era amiga de todos eles. Mas a base terráqueo-tariliana Ariel explodira, e muita gente, além delas, perdera a vida naquele dia. Um trágico acidente, concluíram as investigações oficiais. Mais trágico ainda porque não tinha sido acidente, protestaram os dois mundos. Os eventos que haviam levado à destruição da maior parte da base eram inverossímeis demais! Tarilianos acusaram terráqueos, terráqueos acusaram tarilianos e, por pouco, as relações entre os dois mundos não tinham sido rompidas. Os hipotéticos culpados, se é que havia algum, nunca foram encontrados. Por fim, o assunto e as acusações

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foram arquivados – mas apenas oficialmente. Falar em “base Ariel”, tanto na Terra quanto em Tarilian, inevitavelmente suscitava discussões, acusações e, muitas vezes, agressões. Os três anos desde o acidente pareciam três dias, nesses momentos. E, desde aquela época, estava proibida a reunião que acontecera em Ariel, considerada a causa do “acidente”: de um lado, uma nave vinda de Tarilian, rumando para a Terra, na sua parada de reabastecimento; de outro, uma nave terráquea, indo para Tarilian, também reabastecendo. A nave tariliana levava para um congresso na Terra os melhores físicos de Tarilian. A nave terráquea era o transporte dos melhores biólogos e químicos da Terra, rumo a um congresso em Tarilian. Por diversas horas, as duas naves ficaram juntas em Ariel. O doutor VenCahari, renomado bioquímico da Terra, morrera lá. O doutor de Lavor, incomparável físico tariliano, também. E muitos, muitos mais. – Gente, este vinho até que está bom, disse de repente Teo, tentando esquecer aquele pesadelo. Estavam em Ariel, no dia do acidente. E, quando tudo começara a explodir, não havia como qualquer um deles saber se no momento seguinte estaria vivo ou não, onde estava o resto da família, o que fazer diante de um destroço ensanguentado que tinha sido um ser humano. – Definitivamente, Mateo quer nos ver de pileque, disse Tim. – E eu ia deixar pra de noite, mas, já que está dando pra conversar, seguinte: nossa peça mexeu num tremendo vespeiro. Tem um seriado por aí que está causando uma epidemia de esgrimistas mirins altamente amadores, e vó Ana está muito intranquila. – Alguma ideia? – A família Quebrabraço terminou de deixar a criançada fanática por espadas e duelos. Então, o melhor é arrumar um instrutor de esgrima de verdade pra eles. Se a gente colocar o anúncio na rede amanhã, talvez dê pra resolver tudo antes de partirmos. E vão precisar de todo equipamento, também. – É uma ótima ideia, disse a doutora Doris. – Leve em frente. Estavam terminando a sobremesa quando Mateo se aproximou. – Mais alguma coisa? – E onde você pensa que eu vou pôr “mais alguma coisa”? perguntou Ted, rindo. – O almoço estava excepcional, Mateo! – Muito obrigado. Vão estar aqui amanhã à noite, doutor Henry? – É claro, por quê?

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– Porque planejamos uma festa para amanhã, especialmente para Pam e Peggy. – Para nós? admirou-se Pam. – Por quê? – A festa é para todos vocês, explicou Mateo. – Mas você e Peggy fazem quinze anos no ano que vem. Aqui em Porto Alto, quinze anos é idade especial para uma moça. Vocês só vão voltar em dezembro do ano que vem, e queremos fazer uma festa adiantada. Não faz mal ser muito adiantada, e vocês não podem faltar! – Não vamos faltar de jeito nenhum! animou-se Lis. – Onde vai ser, Mateo? Aqui? – Vai ser uma grande festa na praça do porto. – Na praça?! Mas quanta gente vem?! – Vem todo mundo. Não se preocupem, tudo está preparado. Só não faltem! Daquele minuto em diante, só se falou de festa na mesa dos Melbourne. Era perto de duas da tarde quando um rapaz veio chamar o doutor Henry. – Tem um caminhão da Ecologia lá no Cisne, doutor. Estão esperando o senhor! – Deve ser a foca dourada, disse Pam. Jean, atento, também ouviu o mensageiro. Levantou e pegou sua câmera com um gesto bastante profissional. Só o gesto, no entanto, estava profissional. Jean estava se sentindo meio esquisito. Completamente esquisito, aliás. Era foca, um principiante em uma grande empresa de notícias e, muitas vezes, pensara quem poderia se sentir menor do que um foca de uma grande empresa de notícias. Até aí, sua tarefa eram parques e jardins, e os poucos curiosos sobre suas atividades eram as crianças dos parques e algumas garotas que o olhavam com admiração se ele dizia em qual empresa trabalhava. Jean se sentia importante, grande e profissional nessas ocasiões. Mas, mal colocava os pés no Paris Diário, o encantamento das garotas deslumbradas se desfazia e ele se tornava apenas mais um foca entre uma multidão de outros. Era pequeno. Minúsculo. Sem nome. “Ei, você, faça isto!”, e ele tinha que parar tudo e fazer. “Eh, do cabelo vermelho, pegue aquilo!”, e o aquilo tantas vezes era café, um casaco, papéis em enormes pilhas. Não se podia pisar no menor calo dos “grandes”, e todos eram maiores que um foca. Havia muito mais focas do que lugares para eles. 59


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Como tinha esperado sua chance! Ex-colegas seus, com bons amigos, já eram chamados de “repórteres”. Só que estes ex-colegas não ajudavam quem não tinha amigos ou parentes importantes. Então, aparecera aquela foca dourada. Ainda bem que tinha chamado a polícia em vez de investigar por conta própria. De acordo com seu chefe, esta rara demonstração de juízo – focas, na sua ânsia de subir, eram notoriamente imprudentes – autorizava sua ida até Porto Alto. Seria sua primeira chance de mostrar que era, ou poderia ser, um bom repórter... Se bem que uma foca, mesmo dourada e mesmo roubada, não era muita notícia. Se fizesse tudo direito, uma promoção da seção infantil para a juvenil seria o máximo a que poderia aspirar. Ainda em Paris, Jean soube que a foca iria para a reserva no barco de pesquisas dos doutores Melbourne. Melbourne? Nunca tinha ouvido falar, mas o jeito do pessoal da Ecologia se referir a eles fez Jean temer o pior. Pesquisou, e o pior estava lá: doutor Henry e doutora Doris Melbourne, formados pela Escola Avançada de Champ-Bleux, o que era, por si só, bem ruim. Mas sempre podia piorar, e os doutores Melbourne eram citados como os melhores biólogos marinhos da Terra. Quanto mais famoso o cientista, mais alérgico a repórteres era. Aqueles, saídos de Champ-Bleux e mundialmente reconhecidos como autoridades em sua área, seriam, para simplificar, inatingíveis. Os repórteres mais experientes riram quando tentou pegar algumas dicas práticas. Jean podia esquecer. Não ia nem vê-los de perto! E agora... Agora, gente que Jean nem conhecia sabia seu nome, de onde tinha vindo, o que estava fazendo ali. E Tim, um dos filhos dos doutores Melbourne, havia tomado informações detalhadas sobre ele, como se ele, Jean, fosse alguém importante! E, aliás, adoraria saber em que parte da teoria aqueles desconcertantes Melbourne encaixavam. Não eram inacessíveis. Não estavam cercados de guarda-costas. Um casal de cientistas de Champ-Bleux e seus filhos almoçando num bar como se fosse a coisa mais natural do mundo? Se contasse em Paris, não iam acreditar! – Jean! chamou Ted, rindo. – Hã? Sim? Quê? – Aterrisse, Fogueirinha, olhe aí seus novos amigos se despedindo de você, e você nem ouve! riu Tim.

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Jean se voltou, espantado ao notar que tinha se afastado da mesa sem se despedir. Os recentes amigos já pareciam aborrecidos, decerto tinham falado alguma coisa...! Avermelhou até as orelhas. – Desculpem, eu não ouvi. – Eu perguntei se você fica até amanhã, disse um deles, obrigado a rir pelo súbito vermelhão do outro. – Fico, sim. – Tem um quarto desocupado lá em casa, se você quiser. – Obrigado, mas eu... – Claro que ele aceita, Luís! interferiu Tim, passou o braço pelos ombros de Jean e acertou um leve cutucão de advertência. – Não é, Fogueirinha? – Claro que aceito. Muito obrigado. – Ótimo! sorriu Luís. – Depois a gente fala, agora você tem que ir. – Vamos nesta, repórter distraído! chamou Ted, já do lado de fora. Aí Jean avermelhou para valer, ficando da exata cor de uma pimenta. A última coisa que um repórter podia ser era distraído, o pessoal do Anzol desatou a rir e Tim não perdoou: – Gentes, o cara virou Fogueira dupla, é cabelo vermelho e cara mais vermelha ainda! Não fique com saudades, Mateo! Nós voltamos! O resto do clã Melbourne estava esperando Tim e Jean do lado de fora. Tim deu um tapa amigável nas costas de Jean e largou-o. – Cuidado, Fogueirinha! Este pessoal se ofende fácil e pode confundir distração com pouco caso! – Obrigado... a todos. – Ei, não foi nada! – Vamos lá ver sua foca! – Mas... Como é que eu vou ficar na casa daquele Luís? O chefe me mata se souber que pagou hotel para eu não ficar nele! – Você é o cara das palavras, não é? sorriu Pam. – Convença o hotel que não vai ficar lá e consiga o dinheiro de volta. Seu chefe vai ficar bem feliz! – Posso tentar... 61


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– Se não conseguir, avise que é amigo de Tim e que ele vai lá argumentar por você, riu-se Ted. – Vai ver como o pessoal do hotel muda de ideia na hora! – Só muda, assegurou Tim. – Tive uma escaramuça bem divertida com eles, no ano passado! Mas diga aqui, sua comida não estava com gosto esquisito? Não está com alguma dorzinha de barriga suspeita? – Quê? – Ora, meu caro repórter, se fui pegar informações suas com Anita, é óbvio que vi, como todo mundo, que você estava com ela! Pedro não ia deixar barato! – Pedro, o filho de Mateo? Ele queria me ver fora de lá. Ainda bem que os outros me ofereceram lugar na mesa. – São amigos de Pedro, disse Pam. – São bem mais razoáveis que Pedro, retrucou Jean, e eles riram. – Bem razoáveis, sim, mas só se a garota não for a deles! – Vá falar com a garota de um deles só pra ver o que acontece! – Pior você, que é francês. – Eles consideram franceses o maior perigo! riu-se Tim. – Mesmo se o tal francês só estiver preocupado com uma foca! – Aliás, como encontrou a foca? perguntou o doutor Henry ao rapaz. Jean olhou para sua esquerda, e o doutor Henry Melbourne, o melhor biólogo da Terra, de Tarilian, de todo Sistema Solar, estava ali – falando com ele! Depois de duas engasgadas que fizeram a turma jovem sorrir com divertimento, Jean conseguiu falar. Estava terminando quando chegaram ao Cisne. – Não fiz muita coisa, como o senhor pode ver. – Foi sensato, retrucou o cientista, e afastou-se rumo ao caminhão da Ecologia, que já estava rodeado por uma pequena multidão de curiosos. Quase todos cumprimentaram o doutor Henry. Uma porção de jovens havia saído do Anzol logo depois deles e agora estavam ali, mas ninguém tinha interrompido a conversa com Jean. Jean pegou a câmera, e a doutora Doris perguntou: – É para documentar a instalação da foca a bordo do Cisne? – Sim, mas o que eu queria mesmo era acompanhar Douradinha até a reserva. – Deve saber que não levamos passageiros conosco. 62


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– Anita disse. Mas eu encontrei esta foca e é só por isso que ela está aqui. E se eu me comprometer a só cuidar da Douradinha? – O Cisne está sob a jurisdição do Controle Científico, Jean. Há muita coisa sigilosa a bordo. Não permitimos câmeras. – O quê?! Mas só quero mostrar o lugar onde ela vai ficar! – Não permitimos câmeras, repetiu calmamente a doutora, afastando-se também. Pam ficou ao lado de Jean. Peggy estava logo atrás dos dois, quietinha, e não a perceberam. – É só dizer o que não é para filmar e eu nem olho! exclamou Jean. – Jean, nós também não permitimos repórteres a bordo, explicou Pam. – Então não posso nem subir a bordo?! – Sem a câmera, pode. Normalmente não poderia, mas você achou a foca e mamãe disse que, então, você pode. – E suponhamos que eu veja duas ou três coisas secretas e saia espalhando por aí? – Esse risco é nosso, respondeu a garota. – Você não está preocupada! E, se não está preocupada, quer dizer que não há segredos à vista! Então por que não posso tirar minhas fotos?! – Porque são as regras. – Isso é bobagem! Se o pessoal da cidade entra no barco, por que eu preciso de permissão especial?! Só porque sou repórter?! – Quem disse que o pessoal entra? perguntou Pam. – Pelo menos, quem disse que entram sozinhos, sem convite? – Ouvi por aí! – Pois ouviu mal. – Uma objetiva razoável numa câmera razoável e os segredos de vocês não são mais segredos! – São, se você tiver um campo energético dispersor em volta dos seus segredos. Jean olhou muito espantado para Pam. Aqueles estranhos campos de energia invisível não perturbavam a visão, mas embaralhavam completamente a aparelhagem! 63


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– Mas só se usa isso em lugares autorizados pelo Conselho Terrestre! – Exatamente, concordou Pam. – Olhe, vão tirar a foca do caminhão. – Hein? – Vá lá, disse Pam, e empurrou-o para o lado do caminhão. Jean se afastou, ainda meio atordoado, e Pam soltou um curto bufo abafado. – Queria ver você ter tanta paciência com Teo, comentou Peggy, surpreendendo Pam. – O que você estava fazendo aí atrás de mim?! – Estava só escutando. – Não achei que ele ia ser tão grosso! reclamou Pam. – Mas que vontade de dar uma resposta bem desaforada. Ele estava merecendo! – Até agora, campos dispersores deviam fazer parte só das teorias dele. Agora está bem do lado de um, por causa de uma foca. Deve estar achando muito estranho. – O que não é motivo para ser grosso desse jeito. Será que ele pensa que alguém, aqui, ainda se impressiona com rosnados de repórteres?! Me poupe! – Ele é ligeiro. – Quê? Peggy apontou Jean com os olhos e depois Lis, para quem Jean estava se dirigindo. – Ora vejam só, constatou Pam. – Outro que acha que pode pegar Lis no contrapé! Lis, miúda para seus treze anos, parecia menor ainda quando estava junto com os irmãos. Era o alvo preferido de todos que tentavam encontrar alguma língua solta na família Melbourne. – Um foca principiante como ele versus uma peste que discute com Tim, quem é que você acha que vai sair tosquiado? Ele vai acabar com cara de bobo, e vai ser muito bem feito! Peggy ficou quieta, Pam tomou como assentimento e foi para o Cisne, providenciar os ajustes no tanque da foca. – Não, disse Peggy, num sussurro. – Eu não concordei com você, e ele não vai sair com cara de bobo, porque esse não é o estilo de Lis. – Ei, não vem me ajudar? chamou Pam, e Peggy correu atrás dela. 64


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A foca foi retirada do caminhão em seu caixote transparente. Seu olhar era triste, e o pelo amarelado, muito bonito, era a causa das focas douradas serem ainda caçadas. Ted abaixou do lado do caixote. – Está bem saudável. – E bem irritada, juntou Tom, logo atrás. – Por que estas focas são tão perigosas? perguntou Jean a Lis, indicando que estava gravando. – Porque elas não levam desaforo pra casa. Se uma delas achar que foi ofendida, pss! Saia da frente, e depressa! Jean ergueu as sobrancelhas, Lis riu: – Quer dizer que reagem quando se sentem molestadas, Jean. E, como são animais grandes, fica perigoso. Veja este filhote: não tem mais que cinco meses e já é dois metros e mais ou menos cento e vinte quilos de foca! – Elas atacam pessoas, então. – Não falei em atacar, falei em reagir. Uma foca dourada não ataca sem provocação. – E quanto ao tratador do zoológico da Capital Terrestre? Ele foi ferido sem ter feito absolutamente nada para provocar as focas! – Ele fez, sim. Estava usando uma loção com cheiro parecido com o de um macho adulto. As focas interpretaram como um intruso invadindo o território, e ele foi tratado de acordo. – Não sabia disso. – Quase ninguém sabe. Quando acontecem problemas assim, todo mundo fala do ataque, mas depois não falam da legítima justificativa do animal. – Bem, cientistas sempre encontram uma desculpa... – No caso específico da Capital, a “desculpa” é a mesma que você usaria para esbordoar um assaltante dentro da sua casa. Falando com tanta fluência e segurança, ela não parecia ter apenas treze anos. E prosseguiu: – Uma foca não é uma pessoa e reage a estímulos diferentes. Um soco pra você é agressão, mas, se socar este filhote, ele vai ficar bem feliz com o carinho. Você se acha perfumado com sua nova loção, mas, do ponto de vista de uma foca,

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virou intruso. Quem trabalha com animais precisa saber o que está fazendo ou o resultado é o da Capital: hospital. A cauda destas focas é muito forte e pode machucar feio uma pessoa. Jean entendeu que não ia pegar aquela pequena amostra de bióloga sem resposta e perguntou, mais técnico: – Seu irmão falou que ela está irritada. Não parece. – É porque ela está imóvel. Essa imobilidade já enganou muita gente. É preparação de ataque. – Em quanto tempo vai ser libertada? – Vamos partir dia vinte. Dia trinta ela deve estar em casa. – Ela não vai se ressentir com mais dez dias de confinamento? – Mas ela não vai o tempo todo trancada! Soltamos assim que se acalmar. – Ela não saiu do confinamento um instante até agora! – Esta foca não é um animal feroz, explicou Lis. – É um bichinho assustado e, quando o medo passar, ela acalma. É só saber o que fazer. Agora, por exemplo, os manos vão carregar o caixote em vez de usar o transporte automático. O zunido irrita muito a audição dela! Jean olhou Teo, Ted, Tom e Tim erguendo o caixote da foca. Então... Era agora que ia entrar num campo dispersor, pela primeira vez em sua vida! Os quatro Melbourne levaram a foca para bordo, e Jean foi logo atrás deles. Pisou na prancha com nervosismo. Campo energético dispersor! Estava MESMO entrando num campo energético dispersor autorizado pelo governo da Terra! Quantos dos grandes podiam dizer o mesmo?! Meia dúzia, se tanto! E estava dentro de um campo dispersor para fazer uma matéria sobre uma mísera foca! Não podia desperdiçar a oportunidade! Memorizaria tudo, depois pediria ajuda de alguém entendido naquela aparelhagem e explicaria o que tinha visto, e então teria sua chance! Alguém ia se interessar – o lado de dentro de um campo dispersor sempre interessava! Era A CHANCE! SUA chance! E não ia atirar fora! Lis fez sinal aos irmãos para tomarem conta de Jean, ela estava caindo fora. Pam assentiu muito discretamente e pediu, enquanto Lis se afastava: – A câmera, Jean. – Estas fotos vão fazer falta! protestou ele, mas atendeu.

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– Nós só queremos evitar complicações. – Mas que complicação pode haver em fotos de uma foca?! – Jean, um pouco de diplomacia sempre ajuda. – Diplomacia! O que você faria, se estivesse no meu lugar? Ia se conformar e só? Isso é um atentado à liberdade de Imprensa! Pam transformou sua intenção de bufo num suspiro socialmente aceitável. “Atentado à liberdade de Imprensa” era um refrão muito conhecido por cientistas! – Este barco é nossa casa e você não pode invadir nossa privacidade de câmera em punho. Sua liberdade de Imprensa termina exatamente onde começa nossa casa. E, se eu estivesse no seu lugar, me conformaria, sim. Tem outra alternativa? Jean não respondeu e Pam prosseguiu: – Mas, se estivesse no seu lugar, teria mais tato e diria “sim, entendo porque não posso usar a câmera, mas será que você, que é da casa, podia tirar umas fotos para mim?”. E eu diria que sim, porque não quero atrapalhar seu serviço. – Você faria isso?! exclamou ele, incrédulo. – Claro, tanto que acabei de me oferecer. Vamos ver sua foca. E foi com Jean até o tanque onde a foca ia ficar. – Salinidade, temperatura, agitação da água e tudo mais, no tanque, é controlado lá de dentro, explicou Pam, mostrando o laboratório. – Peggy está fazendo os ajustes. Os rapazes já tinham largado a caixa, e Tom conferia alguns mostradores próximos. Indicavam ajustes em processamento. – Você sabe mexer nesta câmera? preocupou-se Jean. – Sei. Quantas fotos quer? – Quando achar que o ângulo está bom, fotografe, disse o jovem, olhando para trás, para o cais onde ainda havia muita gente. Ninguém, no entanto, fez menção de vir a bordo. – O pessoal não vem sem convite, comentou Ted. – Sei, sua irmã já disse. Os indicadores estabilizaram. – Está pronto, informou Tom. – Vocês são mesmo a tripulação do barco.

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– Somos, disse Ted, enquanto abriam o caixote e o inclinavam. A foca escorregou para dentro do tanque e Pam providenciou as fotos. – E o pessoal de manutenção, os mergulhadores, técnicos de laboratório e tudo mais? Onde estão? De folga? – Você está olhando o pessoal de manutenção, mergulho, laboratório e tudo mais, disse Teo, observando a foca. – É muito esquisito. Vocês são mais novos que eu! – Que idade você tem, velhusco? perguntou Tim. – Dezoito. – Ô mania de aumentar a idade! riu-se Tim. – Você tem dezessete, Cabeça de Fogo, faz dezoito dia dez de março! Jean avermelhou. – Se já sabia, por que perguntou?! – Eh, não se exalte, Fogueirinha! – Fogo!! corrigiu Jean, irritado. – Tanto faz, você queima fácil mesmo! Jean ia retrucar, mas Ted falou antes: – Será que não consegue ver ninguém quieto, Tim? – Mas este é justamente o problema: ele está quieto demais! Devia estar nos enchendo de perguntas sobre a foca, mas fica aí olhando pra tudo, menos pro bicho! Jean ficou mais vermelho do que seus cabelos, e Teo comentou, despreocupado: – Bem que achei que você é que estava quieto demais, Tim! – Estava espionando este pretenso espião aí! Vem cá, Jean, meu velhusco! Vou mostrar o que é aquela caixa de aspecto sinistro que você está namorando desde que chegou! – Pare com isso! protestou Jean, mas Tim, rindo, rebocou-o até a caixa embutida no mastro principal. – Aí, esta coisa altamente suspeita e misteriosa se chama “sistema de controle manual de velas solares”. Esta tecla com dois ossos cruzados e uma caveira sorridente liga e desliga as velas do mastro, e este dial secretíssimo regula a quantidade de energia que vai para os acumuladores lá de baixo. Estes mostradores hipersofisticados aqui e aqui se referem a cada uma das velas e, se você quiser 68


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ligar toda esta complexa aparelhagem só antes vista em qualquer veleiro solar decente do planeta, basta apertar aqui, ó, e veja! As velas, antes prateadas, tornaram-se negras, em seguida prateadas, de novo negras. – Pra desligar, você aperta de novo aqui, assim! As velas ficaram prateadas. – Você vai encontrar uma caixa destas em cada mastro e eu asseguro, Fogueirinha, não tem segredo algum nelas! Jean corou de novo e Tim riu, dizendo: – Agora vá cuidar da sua foca! – Espere... Se há um campo dispersor aqui, tudo que filmei da apresentação de vocês não vai sair. Foi trabalho perdido! – Ah, isso! Claro que ia ter alguém com câmera, então tiramos todo equipamento científico, que, aliás, não ficava bem na peça, e desligamos o campo dispersor daquela parte. – E pode-se desligar partes do campo?! – O desligamento parcial é coisa nova. A expressão de Jean refletiu todo seu interesse na informação e Tim riu de novo: – Eu disse que é coisa nova, não que é segredo! Se sabe como funciona um campo dispersor, posso explicar como é que se faz, qualquer hora destas. – Mesmo?! – Não, cara, eu sempre digo que vou fazer coisas que não pretendo fazer! Pare de duvidar de cada palavra, criatura aborrecida! Que é que tem de tão impressionante em eu dizer como funciona o desligamento parcial, ora esta?! – Tudo! – Claro, como pude esquecer? Sou filho de cientistas, estou DO OUTRO LADO. Não devia estar nem falando com você, não é? O gracejo fez Jean exclamar: – Exatamente!! – Eu vou me lembrar disso! riu Tim. – Sou um ser à parte, devo me comportar de acordo, não é? Fogueirinha, deixe de besteira!

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Teo olhou a cara vermelha de Jean e comentou, voltado para o tanque da foca: – Acho que este já entendeu que não é saudável bancar o espião com Tim por perto! – Tim é capaz de desmoralizar qualquer espião, concordou Tom. – Ei, Lis! Ela estava voltando, direto para Tim e Jean. Deu meia volta para atender ao irmão. – O que achou dele, Lis? perguntou Tom. – Vimos que ele tirou uma reta para você lá no cais, juntou Teo. – Sem problemas, não é? – Claro que sem problemas, ele até que se tocou rápido que não estava falando com uma babaquinha! Detesto quando teimam em me tirar pra criança burra, ele não fez isso, de modo que entrou no meu catálogo como não-inconveniente. – E o que mais? insistiu Tom. Lis deu de ombros, respondendo: – Nada de muito mais, nem de muito menos. Repórter padrão, que fica nas obviedades de sempre. Daquela encrenca na Capital Terrestre, por exemplo, só sabia que a foca tinha atacado o tratador. Mas até que é simpático, este Fogueirinha. O “Fogueirinha” estava na proa com Tim, examinando o esporão de onde Tim e Peggy haviam pulado. Pelo jeito, estava recusando o convite de se empoleirar nele. – Ele sabe ser bem grosso, isso sim, disse Pam. – Bom, não foi grosso comigo, retrucou Lis. – Qual é o programa da tarde? – Começamos com a visita ao orfanato da vó Ana, aproveitamos e levamos os presentes de Ano Bom das crianças, respondeu Teo. – Vamos alugar dois carros para esses dias. Vai nos facilitar a vida. – E, se vamos ter festa, vocês precisam de roupas, disse Pam. – Temos que ver isso hoje. Precisam parar de assaltar o guarda-roupa do papai e, além disso, ele não deve ter roupa de festa para vocês quatro. – Precisamos é de roupas que não parem de servir depois de uns meses, isto sim, retrucou Teo. – Ok, fazemos as compras antes de ir na vó Ana. Isso enche a tarde toda e o correio fica para o fim, na maior naturalidade. Não podemos ter a menor pressa para pegar esses envelopes personalizados, ou começa tudo de novo. Vou lá checar com mamãe se fica bem assim. 70


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– Eu cuido do anúncio para o instrutor de esgrima, disse Tom. – E Tim cuida de Jean... comentou Lis. Os rapazes se afastaram. Pam e Lis ficaram olhando a foca. – Correio no fim da tarde, repetiu Pam, tensa. Lis não respondeu. Ela tinha treze anos, a idade mínima para fazer os exames de ingresso. E, em cinquenta anos, só dois alunos haviam entrado com treze anos na Escola Avançada de Champ-Bleux. Entre todos, Lisandra sabia que as menores chances de aprovação eram as suas. Nem menores chances eram. Na verdade, ela estava tentando se conformar antecipadamente com a reprovação. Jean e Tim vinham se aproximando. – ...Mas como você sabe minha idade e o dia do meu aniversário? Eu não disse isso a Anita! Tim puxou uma carteira do bolso. – Minha carteira! exclamou Jean. – Nem reparei que tinha perdido! E, puxa, nem paguei o almoço! – Mas é um caloteiro! riu Tim, entregando a ele. – Obrigado! Onde achou? – Você deixou cair, na saída do Anzol. Peggy viu e guardou, e admito que bisbilhotei dentro. – Bom, naquela hora eu estava atordoado demais para prestar atenção em carteira, avaliou Jean. – E, se precisar de ajuda com o pessoal do hotel, é só me avisar. – Obrigado mais uma vez. E, antes que eu esqueça... A conversa que tive com Anita... Dava um bom artigo para a seção juvenil. Eles estranharam. Um repórter avisando sobre o que ia escrever? – É que eu disse a ela que só escrevia se falasse antes com vocês, disse Jean, visivelmente atrapalhado. – Falar conosco? E seu “atentado à liberdade de Imprensa”? – O que ela disse, que precisa falar com a gente antes? – Nada de mais... Idade, o jeito de cada um... que moravam e trabalhavam aqui, coisas do tipo. Nada que eu já não tenha visto por mim mesmo. – Mas ora, deixe ver se entendi bem! exclamou Tim. – Está nos perguntando se pode escrever sobre nós?! 71


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– Estou. Tim e as irmãs entreolharam-se. – Dei minha palavra a Anita, disse Jean, tentando se explicar. – Sempre cumpro o que prometo. – Ora vejam só! exclamou Tim, rindo. – Também não precisa rir! – Desculpe! É que é muito... diferente, isto que você está fazendo! – Ok, ok, estou me sentindo bem esquisito também, é a primeira vez que acontece isso, mas posso escrever ou não posso? – Bem, pode, claro! decidiu Tim. – E é a primeira vez que acontece o quê? – Isso de misturar palavra com serviço. Prometi sem perceber, no meio da conversa. Mas acho que levo essa coisa de promessa mais a sério do que pensava... E estava fácil cumprir. Quer dizer, pensei que não ia conseguir chegar nem perto de vocês. Aliás, eles falaram que vocês vão na vó Ana esta tarde. Estava na cara que ele queria mudar de assunto, e Peggy respondeu: – Vamos, sim. – Posso ir com vocês? – Claro! aceitou prontamente Tim. – Quanto mais gente pra carregar aquela tremenda pacotama, melhor! – O que vó Ana faz por aquelas crianças, isto sim merece uma reportagem! – Posso tentar, Pam... Mas meu chefe gosta de sensacionalismo. Se ela fosse uma vovó espancadora de crianças, aí a chance seria melhor. Mesmo sobre vocês, até vou escrever, mas não sei se vai sair. Às vezes, colocam alguma coisa do tipo na seção juvenil e, sendo vocês filhos de quem são... Mas não sei, não. Filhos bonzinhos de cientistas é coisa capaz de fazer muito mal para o fígado do meu revisor! Os Melbourne riram e Jean sorriu. – O pior é que é verdade. Vou lá pagar meu almoço antes de esquecer de novo. Fica com a câmera, Pam? – Posso ficar. – Obrigado pelas fotos. – Às ordens.

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– Até mais tarde. – E cuidado com Pedro! recomendou Tim, rindo. Jean sorriu e acenou, descendo para o cais. Pam só esperou Jean estar fora do Cisne para perguntar, bronqueada: – Ok. Qual de vocês bateu a carteira dele?! – Eu, respondeu Peggy. – E posso saber por quê?! – Porque eu pedi, respondeu Tim. – Eu distraí o cara, Peggy passou a mão na carteira e, daqui a pouquinho, vou acessar o sistema e conferir os dados dos documentos dele. De Paris até aqui por causa de uma foca?! Tem coisa errada nessa história! – Acho que você está perdendo tempo, avisou Peggy. – Pra mim, Jean pareceu só um foca. E dos bem inexperientes, por sinal. – Ninguém manda focas inexperientes pra tão longe por tão pouco motivo. – Tim, ele veio “pra tão longe” de carona com o pessoal da Ecologia e está metido no quarto mais barato do hotel mais barato que tem aqui. De repente, o chefe dele achou, sei lá, que valia a pena avaliar quanto potencial tem este foca. – Mana Peggy, tem outra cor no seu mundo além de cor-de-rosa?! invocou-se Tim. – Será que não pode meter uma dosezinha saudável de desconfiança nesta sua vida?! O cara viajou centenas de quilômetros – por causa de uma foca?! – Eu viajaria centenas de quilômetros por causa de uma foca, disse Lis, sorrindo e apoiando Peggy. – Você está procurando cabelo em ovo, desconfiado irmão! – Eu sou o desconfiado, mas quem usa o velhíssimo truque de deixar uma coisa pra buscar e ter certeza que volta é ele! retrucou Tim, indicando a câmera que estava com Pam. – E como é que foi isso de nos pedir permissão pra escrever? Isso não é um repórter, é um alienígena! – Puxa! espantou-se Lis. – Um tariliano hipersecreto tapado de plásticas?! – Não vem tirar uma da minha cara, tampinha! – Oh, tampinha! Pois vá lá checar os documentos dele, grandalhão paranoico, e vai ver que ele é bem quem disse que era! – Ele não é! 73


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– Está valendo o quê? desafiou Lis, e Tim quase entrou na aposta, mas se deu conta a tempo: – Você já sabe que ele é quem disse que é! A única resposta de Lis foi uma boa risada, Tim protestou: – E me chama de paranoico?! Você foi checar antes de mim! Como?! – Acessando o registro de funcionários do Paris Diário, ora esta! – E como você conseguiu acessar o registro de funcionários deles tão depressa?! – Não fui eu, senhor paranoico, foi o seu paranoico pai! riu-se Lis. – Ou não viu que ele se sumiu pra cá enquanto vocês se ocupavam da foca? Quando fui ver o que o nosso capitão estava fazendo, ele já estava com o registro de Jean aberto na tela! – Papai! – Ele me chutou pra fora, decerto pra continuar a bisbilhotar a vida de Jean com mais privacidade. Deve saber até o dia em que ele entrou no jardim de infância, a esta altura! É só um foca do Paris Diário, Tim. Exatinho como disse que era! – Parece que meu mundo cor-de-rosa está bem conectado com a realidade, sem precisar da sua dosezinha saudável de desconfiança, observou Peggy. – Desconfiança ou paranoia? divertiu-se Lis. – As duas, agora?! protestou Tim, e Peggy e Lis riram. – E a câmera, por que deixou aqui?! – Pra voltar e pegar e falar com a gente, retrucou Lis. – Ora, Tim, qual é o problema de usar um velho truque que não tem como não funcionar? Deixa ele! – Eu vou lá falar com papai, resolveu Pam, afastando-se depressa. Lis suspirou, mas só falou quando Pam não podia mais ouvir: – Sou eu que não vou passar pra Champ-Bleux, e é ela quem está neste nervoso todo! Bom, e agora? Vamos conferir os presentes da criançada ou você vai atrás de Pam pra ver se não tem um microfone superespião escondido na câmera dele, Tim? – Tampinha, tampinha, não comece! reclamou o rapaz, e correu atrás de Pam. – Tim é outro que está num nervoso só, mas nem pensar em admitir! disse Lis. – E daí, o que você achou do nosso inédito repórter que pede permissão pra escrever? Foi bem esquisito! 74


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– E sincero? sugeriu Peggy. – Pior que achei! riu-se Lis. – Mas é melhor a gente não dizer isso perto de Tim, senão ele tem um chilique com nossa credulidade e nosso mundo cor-de-rosa! Peggy riu também, e ela e Lis foram conferir se os presentes estavam todos em ordem. Teo e Ted alugaram dois carros e tratou-se, então, de fazer caber neles todos aqueles pacotes de presente. Os amigos de Porto Alto vieram ajudar e, rindo, garantiram que não ia sobrar lugar para as pessoas, depois que todos os presentes entrassem! – Só sobraram dois lugares além dos motoristas, disse Ted, olhando os carros abarrotados. – Quem vai com a gente e quem vai a pé? Pam e Tom foram nos carros; Tim, Peggy, Lis e Bobby foram a pé, com a turma de Porto Alto. A doutora Doris e o doutor Henry ficaram no Cisne. A primeira parada foi nas lojas da cidade, para os Melbourne comprarem roupas para a festa – uma baderna memorável, porque Tim estava com a corda toda. Depois, foram para vó Ana, e as quarenta e sete crianças pareciam quatrocentas e setenta. Pulos, gritos, risos, correrias, os presentes foram trancados num quarto até a noite de Ano Bom. As brincadeiras continuaram até que a maior parte das crianças despencou, exausta. Os Melbourne se despediram de vó Ana e foram para os carros. – Conseguimos, disse Ted. – Cansaram antes de nós! – Mas depois do Fogueirinha! riu Tim. – Ah-ah! fez Jean, visivelmente reumático. – Fazia anos que não bancava o cavalo! – Daí, Jean, quer uma carona? ofereceu Lis. – Afinal, você ficou. A maior parte do pessoal de Porto Alto debandou! – Lis, eu adoraria! – Então venha, disse a garota, entrando no segundo carro, o que Teo ia dirigir. Jean atendeu, perguntando: – Para onde vão agora? O barco?

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– Para o correio, disse Teo, arrancando. – O famoso correio... comentou Jean. – Passamos bem na frente quando viemos para cá. Por que não pararam naquela hora? – E ir com um monte de correspondência pra vó Ana? perguntou Lis. – Você viu o que fizeram com nossos pacotes! Tinham aberto todos os embrulhos e experimentado as roupas dos rapazes. As garotas conseguiram defender seus vestidos novos. – Imagine só o que ia ter acontecido com a correspondência! – É, só é. Ui, estou quebrado! – Mas como geme a criatura! disse Teo. – Onde é para deixar seus cacos? – No hotel, fica bem no caminho. – Pegou o endereço de Luís? – Peguei, sim. Vou para a casa dele esta noite. Logo Teo parou em frente ao hotel. – Entregue, Jean. – Gente, valeu. Muito obrigado! Se sobrou algum caco meu aí, mandem para Luís! Riram e se despediram. Bastou arrancarem e Teo olhou Lis muito atravessado. – “Lis, você não devia ter oferecido carona”! adiantou-se ela. – Você disse pra agir com naturalidade, não disse, Teo? O que é mais natural que oferecer carona se o hotel dele fica bem no nosso caminho? – E se ele tivesse resolvido ir com a gente até o correio? – Um: ninguém abre correspondência na agência do correio. Dois: se precisar abrir no correio, Tim está com os envelopes falsos pra trocar! Os envelopes falsos eram idênticos aos vindos de Champ-Bleux, mas continham mapeamentos genéticos em vez de resultados de Escola Avançada. Se fosse necessário, uns distrairiam o pessoal dos correios enquanto os outros substituiriam os envelopes. Ted estacionou em frente ao correio. Anita estava esperando os Melbourne; seu pai, Antônio, era o chefe do correio, e Anita trabalhava lá também. Pedro estava com a namorada.

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– O doutor Henry disse que vocês vinham aqui ainda hoje, mas era para terem chegado mais cedo, não é? – A pirralhada da vó Ana resistiu mais que a expectativa, explicou Tim. – Vamos lá, gente, estou com fome, não podemos deixar Mateo esperando! Pedro, é este ano que comemos todo seu patrimônio e deixamos você sem herança! – Onde estão os outros? perguntou Anita, referindo-se a Teo, Pam, Tom e Lis. – Há os envelopes personalizados para retirar. – Ah, chegam logo, disse Tim. – Foram levar o Fogueirinha até o hotel! Pedro resmungou alguma coisa sobre franceses intrometidos, os Melbourne riram e Ted garantiu: – Nem se preocupe em demolir o francês. A turma da vó Ana já fez isso! – Ele foi mesmo lá com vocês?! espantou-se Pedro. – Coitado! A inesperada solidariedade arrancou uma risada de todos. Anita depositou no balcão um bocado de cartas para os irmãos, mais um verdadeiro calhamaço para seus pais. – Olhem só o tamanho desta pilha! Parece que nem existe correio virtual neste mundo! – Tem um monte de coisas pra mamãe e papai! constatou Tim. – Mas eles já estiveram aqui, não é? – Já, e levaram só os personalizados, sorriu Anita. – Deviam ter visto a cara deles para isto! Disseram para vocês levarem. E aqui estão os personalizados de vocês. Quem é o primeiro? – Eu, disse Ted. Anita destacou o canhoto do envelope de Ted e introduziu-o na identificadora. – Mão na placa, orientou Anita, e Ted atendeu. A identificação foi conferida com a do canhoto, estava ok. – Theodore? admirou-se Pedro, ao ver o nome no envelope que Anita passou a Ted. – Não sabia que seu nome era Theodore, Ted! – Prefiro Ted, disse o rapaz, com o máximo de naturalidade que conseguiu arranjar. – Mas soa bem, Theodore Melbourne! disse Anita. – Eu acho Ted Melbourne melhor. O seguinte foi Tim. 77


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– Este aqui é Thimoty, Pedro! sorriu Anita, entregando o envelope. – Só quando eu me descuido, respondeu Tim, enfiando a carta num bolso bem fundo. Se Ted não gostava de ser chamado de Theodore, Tim simplesmente detestava ouvir falar em Thimoty! A melhor coisa era calar a boca e não chamar a atenção de Pedro e Anita para aquilo. Peggy segurou o riso, passou pela identificadora e recebeu seu envelope. – Peggy Saint-Mont Melbourne! disse Anita. – Jean perguntou seu nome, e eu não conseguia lembrar deste Saint-Mont! Pedro amarrou a cara ao ouvir falar de Jean, Anita trocou de assunto e o resto da família chegou. Tom torceu o nariz quando Pedro constatou que seu nome era Thomas, e Teo se abanou disfarçadamente ao ser chamado de Theobald. Pam, Peggy, Lis e Bobby por muito pouco não desataram a rir. Pam era Pamela e Lis era Lisandra, mas não se importavam com os nomes, ao contrário dos irmãos. Quando Anita perguntou a Bobby como era o nome dele, o garoto respondeu: – Roberth, mas acho que nem atendo se alguém me chamar assim! – Você não tem cara de Roberth, riu-se Anita. – Não vão abrir os personalizados? interessou-se Pedro. – Aqui? Não, vamos ver em casa, esta noite. Pedro ficou visivelmente desconfiado e os Melbourne riram. – Apesar de mapeamento genético ser coisa particular, pode ver o meu amanhã, pra ter certeza que não é resultado de nenhuma Escola Avançada! ofereceu Tim, rindo. – Como é, vamos ou não vamos? Ted, Tim e Peggy foram em um carro. No outro, Teo segurava o volante com força desnecessária. – Envelopinho complicado! disse Lis, rodando o seu nas mãos. Entregou-o a Pam, como tinham combinado. Ela guardou na bolsa. – Vai ser o jantar mais comprido da minha vida! garantiu Tom, à meia voz. Os outros não responderam. Até Bobby estava quieto. O jantar no Anzol Dourado foi peixe e Mateo fez o vinho correr solto na mesa dos Melbourne. Os rapazes logo notaram que seus copos nunca conseguiam ser completamente esvaziados e declararam que o pessoal do Anzol tinha se reunido numa conspiração para deixá-los de pileque, o que era verdade. A conversa 78


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depois do jantar estava cheia de risos, e os vizinhos de Teo, Ted, Tom e Tim se encarregavam de fazê-los beber copo depois de copo com brindes, desafios ou o que fosse. As garotas estavam apreensivas com a crescente animação dos irmãos, mas trataram de rir e brincar junto. O pessoal do Anzol voltava seguidamente ao tópico uma-namorada-em-cada-porto sem o menor resultado. Às onze horas, Tim, Ted, Tom e Teo já secavam o vinho voluntariamente. Às onze e meia, Tim estava em cima de uma mesa, contando uma história confusa e sem nexo, mas muito engraçada. Meia-noite, Tim começou a enrolar a língua; mais meia hora, e a turma de Porto Alto ajudou os doutores Melbourne a colocar na cama seus quatro filhos, que roncavam com toda a força dos pulmões. Tom ainda segurava seu caneco. As garotas e Bobby foram para a cozinha, enquanto o doutor Henry e a doutora Doris se despediam dos ajudantes. – Mas que droga! reclamou Pam, aflita. – Por que eles simplesmente não recusaram?! E agora, vamos ter que esperar até amanhã?! Ou vamos abrir os envelopes sem eles?! – Nem pense nisso! retrucou Lis. – Eles DEVIAM ter recusado a bebida! Lis ia responder quando a doutora Doris entrou, dizendo: – Fechem as cortinas e preparem café. – Eles vão dar uns minutos e vir para cá, completou o doutor Henry, entrando logo depois da esposa. – Pam, todas as respostas estão com você? – Estão trancadas ali na gaveta, mas o jeito que eles beberam...! – Estavam fingindo. – Como, fingindo?! espantou-se Lis. – E todo aquele vinho, pra onde foi?! Tom se esgueirou para dentro como um ladrão, encarregando-se da resposta: – Todo aquele vinho, irmãzinha, está tentando sair pelas minhas orelhas! – Garotas, o café, pediu o doutor Henry. – Está quase pronto! avisou Peggy. – Mas o que aconteceu, Tom?! perguntou Lis. – O que vocês fizeram?! – Não fizemos coisa alguma e sei lá o que aconteceu. Era como se fosse suco, não vinho. Não entendi.

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– E os outros? perguntou o doutor Henry. – Teo dormiu, e Tim e Ted estavam tentando acordar. O cais está deserto. Todos voltaram para o Anzol. – Mas vocês tomaram o vinho! admirou-se Pam. Tom assentiu e disse: – E, quando vimos o que estava acontecendo, quer dizer, o que não estava acontecendo, resolvemos fingir o pileque para vir logo para casa. – Por que não avisaram? reclamou Pam. – Faz ideia do que estava parecendo?! – Podia confiar um pouco mais em nós. Claro que não íamos encher a cara justo hoje! – Confiança?! Minha confiança naufragou naquele vinho todo, coitada! retrucou Lis, colocando os canecos na mesa. – Tom, vocês beberam um monte! Tim, Ted e Teo entraram juntos, também se esgueirando. – Este dia vai ficar na história! declarou Ted. – O dia em que Teo resolveu tirar uma soneca antes de saber o resultado de Champ-Bleux! – Eu só dormi uma hora ontem, defendeu-se Teo. – Foi sem querer! – Pai, o que aconteceu, por que nem tonteamos?! perguntou Ted. – Isso não é, sei lá, normal, depois de tudo que a gente bebeu! – Óbvio que é normal, espertíssimo irmão, retrucou Tim. – Quase nenhum medicamento funciona em nós. Álcool é só outra droga e pelo jeito somos resistentes a mais esta! – São, concordou a doutora Doris. – Como vocês, disse Tim aos pais. – Então, vocês também não ficam de pileque. – Digamos que só muito raramente, em situações bastante específicas, com bebidas igualmente específicas, disse o doutor Henry. – A ressaca também é específica, podem crer. – E vinho não está na lista! – Nem perto. – E não descobrimos antes porque nunca tentamos encher a cara antes! – Então, vocês sabiam o que ia acontecer, disse Ted. – Por isso não se meteram! 80


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– Isso mesmo. – Imune ao pileque, pelo jeito, não quer dizer imune a todo efeito da bebida, reclamou o rapaz. – Estou completamente enjoado! – E elas? perguntou Teo, indicando as irmãs. – Somos filhas do mesmo pai e da mesma mãe que você, retrucou Lis. – Se vale pra vocês, vale pra nós também! Certo, pai? – Claro. – E esta irmã? perguntou Teo, olhando Peggy que vinha com o café. – Você nunca quebrou um braço para a gente saber se anestésicos funcionam ou não, Peggy. – Não, anestésicos não funcionam em mim, disse ela, enchendo o caneco do pai adotivo. – Nunca testei com álcool. – Não teste, sugeriu Teo, de cara torcida. – Meu estômago está todo embrulhado! – Eu também estou mareado, juntou Tim. – Estou me sentindo como um balão, disse Tom. – Cheio, cheio... – Aonde você vai, Tom? – Ao banheiro. Prefiro ser um balão vazio! Houve uma romaria ao banheiro e só então sentaram em torno da mesa. A doutora distribuiu os envelopes e os sorrisos desapareceram. Não havia como não lembrar outra reunião muito semelhante àquela, em torno da mesma mesa, meses atrás. Naquele dia, tinham discutido com os pais a inscrição para os exames da Escola Avançada de Champ-Bleux. Todos estavam com o Ensino Básico concluído, requisito indispensável para a inscrição nos exames. Estavam decididos: iam fazer os exames, todos juntos. Os pais, formados por Champ-Bleux, salientaram que, embora não fosse raro o ingresso de filhos de ex-alunos, uns iam passar; outros, não. Lisandra, com apenas treze anos, era a que tinha menores probabilidades de ser aprovada. Lis não se importou. Queria fazer os exames junto com os irmãos. Depois daquela conversa, tinham voltado muitas vezes ao assunto. Doris e Henry consideravam os filhos bem preparados na parte técnica, ou seja, acreditavam que passariam sem problemas nas provas de conhecimentos. Mas as provas de Champ-Bleux incluíam dez psicotestes, e uma reprovação na primeira tentativa não queria dizer necessariamente falta de psicoaptidão, em especial nos 81


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mais jovens. Neles, a psicoaptidão poderia não estar desenvolvida o suficiente para ser registrada. O casal concordou que não era hora de mais recomendações. O melhor era acabar de vez com o suspense. – Vão abrir todos juntos ou um por vez? perguntou o doutor Henry, quebrando o desconfortável silêncio. – Acho... Acho que é melhor um por vez, disse Ted. – É, é melhor. – Por idade, sugeriu Tim. Concordaram. – Começamos por Teo ou por Lis? – Por mim, resolveu Lis, e, com o máximo de determinação que conseguiu reunir, destacou o canto do seu envelope, puxando a única folha que ele continha. Leu. Não acreditou no que estava lendo, leu de novo e olhou os irmãos, estupefata: – A... Aprovada! Eu... passei! Passei! Gente, EU PASSEI! Eu estou em Champ-Bleux!! Os outros ficaram se olhando, surpresos. – Você, Peggy, comandou o doutor Henry. – Primeiro todos veem suas respostas. Lis desatou a rir e chorar. Peggy abriu seu envelope, nova leitura, um longo fôlego, outro sorriso: – Aprovada! Lis se dependurou em Peggy, e Peggy quase chorou junto. – Pam. Ela errou a parte de destacar e rasgou o envelope. A folha saiu ilesa. Quando a espantada garota disse que também estava aprovada, Henry Melbourne teve a terrível suspeita de que sabia o que os outros quatro envelopes traziam como resposta. – Você, Tom. Aprovado. – Tim. Tim abriu o envelope com gestos seguros, dizendo: – Aprovado! Você, Ted! 82


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Henry percebeu quando Doris chegou à conclusão que ele chegara dois envelopes antes. Ted estava aprovado também. Todos ficaram muito quietos... Olhando Teo, com o sétimo e último envelope. Teo, suando, abriu seu envelope. Se ele passasse, iriam todos juntos para Champ-Bleux! O sétimo envelope trazia a mesma resposta dos outros seis: aprovado. A farra foi enorme e custou a acalmar. Só às quatro da manhã eles foram, pelo menos, para as respectivas camas, ainda eufóricos. – Quietos! recomendou ainda o doutor Henry. – Vou chamar o plantão do Posto Científico, e ele vai estranhar muito se ouvir barulho depois do “pileque” de vocês! E, mais uma vez, parabéns! Sorrindo, garantiram que iam ficar em silêncio. Henry esperou alguns minutos do lado de fora do quarto dos filhos, verificando se a bagunça não recomeçava. Não recomeçou, e só então o cientista chamou um dos homens do Posto Científico, que controlavam o acesso ao Cisne a partir do cais. O guarda subiu para a sala de leme e navegação, encarregando-se da vigilância. – Elas sossegaram? perguntou Henry à esposa, que voltava do quarto das garotas. – Estou induzindo o que posso, respondeu Doris. – Tente se irritar menos. Entraram no quarto, trancaram a porta, e Henry esmurrou furiosamente o colchão. Era a única coisa que podia esmurrar sem fazer barulho. – Acha que é coisa de Paul, Henry? – Seis irmãos em Champ-Bleux é a cara de Paul! Avisamos muito bem para ele não meter nossos filhos em nada!! – Mas meter em quê? Não encaixa! – É só agarrar Paul pelo pescoço e sacudir que encaixa!! Doris suspirou. – Eles estão agitados e não vão dormir. Se eles não dormirem, nós não podemos sair. 83


– Doris, estamos com pressa! – Eu sei que estamos com pressa, mas é mais fácil fazer todos dormirem se você ficar quieto. Henry calou a boca e apoiou as costas na porta. Doris sentou na cama, concentrada. Depois de uns segundos de silêncio, protestou: – Assim não é possível, Henry, continua atrapalhando! Esqueça Paul, pense em algo agradável! – Como eu posso pensar em algo agradável com Paul se metendo com nossos filhos – e foi bem avisado para não se meter! Torço o pescoço dele! Torço o pescoço dele como se torce o pescoço de um frango raquítico! – Se você não sossegar, não consigo fazer ninguém dormir. Se eles não dormirem, não podemos sair e você não pode torcer o pescoço de Paul. Portanto, pense em alguma coisa agradável e se acalme! Henry resmungou qualquer coisa, teve uma ideia, e Doris sentiu que ele não a perturbava mais. A mulher concentrou-se em acalmar e adormecer seu batalhão de filhos. Ao fim de vinte minutos, voltou-se para Henry. – Pronto. Todos dormindo. – Até Peggy? perguntou ele, com o sorriso satisfeito de quem acaba de acordar de um sonho feliz. – Sim, até Peggy, confirmou Doris. – Em que você estava pensando? – Em Paul, ora! respondeu Henry, rindo. – Como conseguiu não me atrapalhar se estava pensando em Paul?! – Eu estava pensando em como seria fabuloso ter uma perna dele aqui na Terra, outra lá em Tarilian, um braço em Luna, a cabeça espetada num foguete rumo a Saturno... Doris acabou rindo. – Você é impossível! Vamos? – Vamos. Houve uma fraca luminosidade esverdeada, e o quarto trancado estava vazio.

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Equipe de retaguarda Com o mesmo clarão verde, Henry e Doris surgiram numa sala ampla e clara, e os que estavam lá – dois homens e uma mulher – não se surpreenderam. Ao contrário, sorriram. – Pela hora, foram boas notícias! disse Niris. – Quem passou? Como estava a festa? – Onde está Paul? perguntou Henry. – O que aconteceu? estranhou Scot. – Primeiro queremos falar com Paul, disse Doris. – Onde ele está? Gregor apontou a porta no outro extremo da sala. – Está lá, com Robert. Podem dizer como seus filhos foram nos exames? – Pois olhem, é justamente o que queremos saber! exclamou Henry, indo com Doris para a porta indicada. Scot, Gregor e Niris entreolharam-se. – Alguém entendeu? interessou-se Gregor. – Só falta Paul ter aprontado alguma e metido os filhos deles, respondeu Niris. – Se fez isso, vamos ter um senhor espetáculo de fogos por aqui! – Filhos? riu Scot. – Criação de coelhos, isso sim! E, se Paul mexeu com os indefesos coelhinhos, agora vai se ver com os furiosos coelhões! – Não entendo. Aqueles garotos não encaixam em lugar algum, no atual estado de coisas! Niris e Scot olharam juntos para Gregor, e ele completou: – ...Ok, ok, admito que isso não é critério para nada, aqui. – As coisas só costumam encaixar depois que Paul se digna a explicar, disse Niris, cheia de razão.

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– Agora vamos ver quem é o mais rápido: Paul, explicando, ou Henry, pulando na jugular dele! – Scot! – Não esquenta, Niris. Se escorrer sangue por baixo da porta, a gente vê o que fazer. A sala onde Paul e Robert estavam era uma reedição bastante aproximada da anterior: boa iluminação, paredes claras e móveis funcionais. Era nitidamente um local de trabalho. Os dois homens estavam juntos em uma mesa, ocupados com terminais e gráficos, mas pararam tudo quando Doris e Henry chegaram. – E então, perguntou Robert, – como foi? – Pergunte a Paul, retrucou Henry. – Eu? – É, você! Paul, pode começar a se explicar, já e já!! – Mas o que você está pensando que eu fiz?! defendeu-se Paul. – O que aconteceu? perguntou Robert a Henry. – O que aconteceu?! Sabe o que todos os resultados de Champ-Bleux que foram lá para o Cisne diziam, todos os sete?! APROVADO! Paul... – QUÊ?! exclamou Paul, estupefato. – Quer dizer que todos passaram?! – Paul, não banque o inocente! O que está pretendendo?! Nós avisamos para deixar nossos filhos fora disto! Completamente FORA!! – Mas eu não fiz nada! Eles passaram mesmo?! Todos os seis?! Até Lis?! A surpresa de Paul era tão escancarada que Henry e Doris moderaram a voz. – Sim, até Lis, confirmou Doris. – E a conta são sete filhos e não seis, porque Peggy é filha também. Paul...! – Não tenho nada a ver com isso! exclamou Paul. – Só me informei dos exames de Peg e Tom! – Não me diga que não disseram que Peg e Tom eram dois entre sete irmãos! exclamou Henry. – Não, não disseram! – Mas como, não disseram?! O máximo de irmãos que já entraram em Champ-Bleux foi três, e em semestres diferentes! Como sete irmãos que entram juntos não merecem nem uma menção?! 86


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Robert olhou Paul, dizendo: – Tudo depende, Henry, do modo que Paul fez as perguntas. Se só perguntou de Peg e Tom, só recebeu respostas referentes a Peg e Tom. – Mas eram dois entre sete irmãos! Não acredito que o doutor Leonard não avisou! exclamou Henry. Leonard Janson era pai de Robert e o atual diretor da Escola Avançada de Champ-Bleux. – Paul não explicou o motivo das perguntas. Ou você explicou, Paul? – Não expliquei, foi a resposta seca do outro. – São as regras, disse Robert a Henry e Doris. – Se Paul perguntou sem explicar a pergunta, e se, portanto, meu pai não podia decidir o que era informação relevante e o que não era, respondeu apenas ao que Paul perguntou, sem acrescentar coisa alguma. – Mas que raio de regras são essas?! protestou Henry. – Regras antigas que Paul conhece muito bem, respondeu Robert. – E, mesmo se Paul não conhecesse as regras, conhece muito bem meu pai. Ele detesta receber ordens, e colaboração espontânea não faz parte do seu vocabulário. Bem, Henry, parabéns pela façanha da filharada, mas seu barco não vai ficar meio deserto? – Eu vou estrangular seu pai, Robert! murmurou Paul, de repente. – Agora mesmo!! Robert estava tão aborrecido quando Paul por mais aquela sonegação de informações, mas não adiantava se aborrecer. O melhor era evitar mais problemas. Portanto, avisou: – Você não pode estrangular ninguém. Meu pai seguiu as regras. Você vai chegar lá, reclamar, e ele vai jogar na sua cara que a culpa foi sua. Se queria saber mais, devia ter perguntado mais. – Uma família inteira entrando junta, e aquela múmia não teve a decência de avisar!! E levantou, irritado. – Aonde você vai? perguntou Robert. – Ver seu pai! – Paul, não faça isso agora, acalme-se antes! advertiu Robert. – Você encurtou as perguntas, meu pai encurtou as respostas, fim, encerre o assunto aí! Henry e Doris saíram de Champ-Bleux e, se uma tropa de irmãos fosse um dia entrar na 87


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Escola, teria que ser uma tropa de filhos de gente que passou por lá. Estudavam juntos, terminaram o Básico juntos, fizeram a prova juntos, passaram juntos, não mexa mais nessa história. Não chame mais atenção ainda para Peg e Tom. – Robert, quanta gente “conhecida” fez os exames para Champ-Bleux neste semestre?! exclamou Paul, e os outros três olharam-no com espanto. – Deuses, espero estar errado! Sem qualquer luminosidade ou aviso, Paul desapareceu. A notícia do surpreendente feito dos jovens Melbourne se espalhou pelo grupo, em rápidos avisos telepáticos. Uns depois dos outros, os mentais surgiram na sala, que logo estava bastante lotada. Contrariando as expectativas, Paul não demorou. – Não conseguiu falar com o doutor Leonard? perguntou Scot. – Não costumo discutir com computadores, quer eles pareçam gente ou não, retrucou Paul. – Fiz coisa melhor. Mostrou alguns módulos de memória computadorizada. – São os psicotestes e a análise da unidade dos seus filhos, Henry. – E os outros da unidade, Paul? perguntou Reinol. – Temos conhecidos no meio? Paul passou a ele uma folha impressa. – A lista dos integrantes da unidade 1-5-0. Leia para todos! Reinol ficou uns segundos olhando a folha, boquiaberto. Então, leu: – Toda a turma de vocês, Doris e Henry, mais Peg; Steve e Harmon Breterech; Michele Daril e Anton Mester; Ricardo Veron e Anna Tanlai; Katelin Graie; Alexandra Roblo; Sergei Janson! Olhou para o petrificado grupo e completou: – Socorro! – Todos... juntos?! exclamou Niris, esperando não ter entendido direito, mas tendo certeza de que entendera. – Juntinhos!! explodiu Paul. – Só pode ser o toque de reunir que estávamos prevendo! E, se for realmente o toque de reunir, não podemos separá-los! – Para empilhar tudo isso no mesmo semestre e na mesma unidade, tem que ser o toque de reunir, disse Gregor. – Não existem coincidências deste tamanho. 88


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– O que vamos fazer agora? perguntou Reinol, aturdido. – Vamos administrar junto com todo o resto, respondeu Henry, muito objetivo. – Tem alguém nesta unidade que não conhecemos? – Uma dupla: Joseph Garder e Françoise Lefreve. Mas, se estão nesta unidade, não se iluda. Nós só não conhecemos por enquanto! – Não me iludo, só estava querendo saber quanto serviço extra vai haver. Dois nem é tanto assim. E Sergei, Robert? O doutor Leonard disse que o garoto não ia fazer os exames neste semestre, não é? – É, o “doutor Leonard” disse, retrucou azedamente Robert, colocando o grosso do azedume no nome do pai. – Só que o “doutor Leonard”, como sempre, diz uma coisa e faz outra! – Deixe seus problemas familiares de lado, cortou Paul. – Vamos examinar logo os psicotestes e as análises! Niris e Gregor, vocês verificam os dados mentais anteriores de todos da unidade. Precisamos determinar qual a probabilidade de eles serem realmente sensíveis a um toque de reunir! – Uma vez que já aconteceu, acho meio perda de tempo, Paul. – Se houver qualquer chance de isso não ser o toque de reunir, vou desfazer esta unidade muito depressa! – Melhor não ter muitas esperanças, respondeu Niris. Niris e Gregor foram para os arquivos e Paul disse: – Não tenho esperanças, mas não posso deixar qualquer chance sem verificação. E, Robert, deixei o doutor Leonard virado numa verdadeira fera. Ele vai descontar no primeiro que aparecer; portanto, tome cuidado se chegar perto dele. Agora eu estou mesmo me metendo nos assuntos da Escola, e ele não gostou nem um pouquinho. E desconfio que vou me meter mais ainda. Desta vez, além de pedir – quer dizer, exigir – estas informações, só fiz uma pergunta: qual a avaliação global da unidade 1-5-0? Resposta: a mais alta já obtida em Champ-Bleux. É a melhor unidade que já conseguiram formar. – E não é para menos... Olhe o tipo de gente que juntaram ali! comentou Meriel. – Não são gente, disse Scot. – São bombas ambulantes. – Vamos revisar tudo, prosseguiu Paul. – Começando pela avaliação global do doutor Leonard para o grupo. – Ele não se enganaria em nada relacionado à Champ-Bleux. 89


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– Não espero enganos dele, mas tampouco espero a verdade completa. Vamos fazer nossa própria avaliação. Se o toque de reunir está se localizando em Champ-Bleux, é óbvio que, dessa vez, o enfoque vai ser científico. Vamos precisar de alguém nosso na unidade. – Peggy? sugeriu Meriel. – Não. Outra pessoa, em contato direto com o grupo de treinamento. – Que outra pessoa? interrogou Robert. – Como vai colocar outra pessoa aí se os exames estão encerrados e as unidades, formadas? Não pretende... – Pretendo fazer o que for necessário, inclusive mandar o doutor Leonard enfiar mais alguém na unidade. Não me interessam os critérios da Escola e muito menos suas proibições. Ao trabalho! Não demoraram a constatar que a avaliação global da unidade 1-5-0 era ainda mais espantosa do que a informada pelo doutor Leonard. A “verdade” do diretor de Champ-Bleux estava, como de hábito, pela metade. – O toque de reunir congrega mentes afins, com alta capacidade de interação e cooperação, disse Regort. – Os critérios de seleção das unidades de Champ-Bleux fazem o mesmo. Provavelmente, o toque de reunir é o motivo desta avaliação global tão extraordinária. – O que eu estou achando extraordinário é tanta encrenca ter se juntado em tão pouco espaço físico, disse Augusto, olhando mais uma vez a lista de nomes. – Quem podia imaginar uma coisa assim?! É quase inacreditável! – O toque de reunir seria a única coisa capaz de me obrigar a permitir uma reunião dessas, assegurou Paul. – Se não for o toque, eles não ficam juntos de jeito nenhum! Gregor e Niris voltaram, avisando que a probabilidade de ter acontecido o toque de reunir era extremamente alta. – Descontando sutilezas matemáticas, podem considerar certeza, disse Gregor. – É mesmo o toque de reunir, Paul. – Muito bem. Então, definitivamente, precisamos de alguém lá. – Bem, e quem vai? Nossos filhos não podem. Alguém de Tarilian? – Com disfarce mental no meio de todos aqueles mentais? Nem pensar. – Sem disfarce, quem?

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– Arthur, respondeu Paul. – Ele tem psicoaptidão científica, pode fazer os psicotestes e passar, e isso já sossegaria bastante o doutor Leonard. – Queria ver você convencer o doutor Leonard a aceitar na Escola alguém que nem tem psicoaptidão! – Convencer, nunca. Mas, Augusto, posso mandar. – Aquele velho ia ter um ataque. – Aquele velho não tem ataques, assegurou Paul. – Computadores são imunes a isso! Segunda vantagem de Arthur, Peg não o conhece e não precisamos de qualquer história. Terceiro, Arthur chamaria atenção demais. Logo, quem vai é Ali Ramuz. A surpresa foi geral e os sorrisos, quase unânimes. Arthur, rapaz alegre e bem humorado, há anos divertia os amigos com sua “segunda personalidade” de Ali Ramuz. Ali era tão capaz de rir ou ser tirado do sério quanto um poste e conseguia manter a expressão imutável quaisquer que fossem as provocações – e seus amigos eram bastante imaginativos, para dizer pouco. Arthur, com uma mudança de roupa e expressão, conseguia se transformar numa pessoa completamente diferente, sem qualquer ajuda de disfarce mental. – Se quer uma pessoa que passe despercebida, não sei se Ali é o mais indicado... Ou você vai tirar o turbante daquele varapau de dois metros de altura? – O varapau vai de turbante e tudo, mais a cara de bacalhau e a túnica fechada até o pescoço. – De repente, Ali acaba chamando mais atenção do que Arthur chamaria. – É outro tipo de atenção. Ali é um excêntrico esquisitão, Arthur equivale a uma atração permanente. As pessoas acostumam com esquisitões, mas não cansam de olhar um príncipe herdeiro. Não é, Ahmad? – Pss! fez o referido, que era pai de Arthur e rei da Ídia, o maior país do sul do continente. – Ele vai ter muito mais paz como Ali! – Pode se virar sem ele? perguntou Paul. – Você sabe muito bem que o varapau, quando está sem turbante, é meu braço direito. Vai me fazer muita falta, ainda mais se tiver que ficar na Escola em tempo integral. – Precisa ficar. – E como vou explicar o sumiço do meu real filho, único herdeiro direto da Ídia, para uma penca de repórteres em plantão permanente, isto sem mencionar um determinado parlamento com cheiro de bolor? 91


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– Arrume um sósia, respondeu Paul. – Convoque seu regra dois de volta. – Chamar Bernar?! – Ele é igual a Arthur. Parecem irmãos gêmeos, não primos. – Mas fui eu mesmo que dei permissão a ele de ir para as Casas de Meditação...! – Palavra de rei às vezes volta atrás, observou Gregor. – E Ali não precisa ser inventado, prosseguiu Paul. – Oficialmente, ele existe. Além disso, tem um pai que saiu da Escola, o famoso biofísico Ahmad Ramuz. – É um caso raro de dupla personalidade hereditária, comentou Scot. – Alguém já pensou sobre o que Arthur vai achar disso? – Ele sempre quis entrar para a Escola, disse Paul. – E todos eles, particularmente Arthur, nos atormentaram bastante este semestre por causa de Champ-Bleux. – Toque de reunir também? perguntou Niris, admirada. – Bem que me ocorreu, mas podemos verificar mais tarde. Então, Ahmad, Ali Ramuz vai para Champ-Bleux? – Acho que ele é a melhor alternativa que você tem, suspirou o pai da vítima. – Isto é sim ou não? – Certo, eu concordo. – Robert? – É mesmo a melhor alternativa. – Só uma perguntinha, aparteou Scot. – Como é que você vai explicar isso ao doutor Leonard e, especialmente, a Arthur? – O doutor Leonard vai ter ordens de não fazer perguntas a Ali. – E vai saber que Ahmad faz parte do seu grupo, se você quer o ingresso do filho dele depois de ver esta lista de nomes, muitos dos quais ele conhece. Vai cair em cima de Ahmad. Um ex-aluno da Escola metido com você vai ser considerado no mínimo um traidor. – Ahmad pode se virar com o doutor Leonard. – Eu gostaria de ter sua certeza, retrucou Ahmad. – Mas ainda é melhor ele grudar no doutor Ahmad do que no rei Ahmad. Por precaução, durante algum tempo, vou ser só o rei Ahmad. 92


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– É uma boa providência, concordou Meriel. – O problema é que o doutor Leonard vai ter muito tempo para vigiar Ali, para descobrir o que puder. Isto, claro, sem mencionar que Ali vai estar na mesma unidade que Sergei. – Robert, o pai é seu. Ele pode suspeitar do que Arthur é? Robert deixou o aborrecimento de lado para analisar e responder: – Ele vai suspeitar de muita coisa, Paul, mas não que você teria o atrevimento de mandar Arthur da Ídia para dentro da Escola dele, ainda mais com identidade falsa. – Não é falsa, lembrou Ahmad. – É alternativa. – Que seja. Arthur vai saber que entrou para Champ-Bleux por meios não usuais; que, portanto, o doutor Leonard vai mantê-lo sob observação. Com Arthur de sobreaviso, meu pai não vai conseguir definir a que parte do grupo Ali e Ahmad pertencem. – E Sergei? insistiu Meriel. – Com Sergei, a convivência vai ser constante. – Meu pai não vai encarregar Sergei de qualquer coisa que considere importante. – Por que, se Sergei é quem vai estar mais perto de Ali? perguntou Gregor. Sergei era o neto mais jovem de Leonard Janson e sobrinho de Robert. E Robert, diante da pergunta do amigo, abanou a cabeça e disse: – Você só pergunta porque não conhece Sergei. Ele é muito... – ...Muito retraído e submisso para dar um bom espião, completou Diure. – Retraído, conferiu Gregor. – E submisso, ajudou Scot. – Ele é um bom rapazinho, disse Diure. – Mas não tem estofo. E quanto a Arthur, Paul? O que vai dizer a ele? Como vai justificar este ingresso tão incomum? – Que tal a verdade? sugeriu Henry. – Não, opôs Paul imediatamente, com firmeza. – Grupos funcionam melhor sem saber que são toques de reunir, em especial no começo. – O grupo não saberia, retrucou Henry. – Só Arthur. – Não, repetiu Paul. – Peg vai ser nosso pretexto. – Peg? Como assim, Peg? – Hoje Doris e Henry souberam que Peg entrou em Champ-Bleux e, evidentemente, passaram a notícia a Robert e Diure. Robert e Diure se preocuparam, porque a repressão que Peg recebeu ao se afastar do grupo devia ter reprimido 93


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quase toda sua capacidade criativa. Ela não poderia ter entrado na Escola. Como entrou, isso pode significar que há algo errado com a repressão. Portanto, Ali vai para vigiar Peg. – Bem plausível, concordou Augusto. – Paul, você é o maior inventador de histórias que eu já vi! Quanto tempo levou pra tramar isso? – E no dia em que Arthur souber que Peg não recebeu repressão alguma? questionou Niris. – Então, o que ele foi fazer em Champ-Bleux? Passear? Ocupar o tempo vago? – Isso demora, Niris, respondeu Paul. – Quando acontecer, falo do toque de reunir. – Era mais fácil falar direto. – Não, Henry! – Vai avisar Peg que ela está sendo vigiada? – Para quê? Arthur não vai perceber nada, nela. – E ela? O que Peg vai perceber nele? – O futuro rei da Ídia, provavelmente. E provavelmente, também, o treinamento mental das Casas de Meditação. Ela não vai ver que ele faz parte do nosso grupo. – Como vai explicar a Arthur que o doutor Leonard concordou com os exames fora de época? – O doutor Leonard me deve um grande favor, muito especial. Grande o suficiente para eu conseguir o ingresso atrasado de Arthur, quer dizer, Ali. É claro que o doutor Leonard não concordou de boa vontade, de modo que Ali, além de jamais tocar no assunto, deve ter muita cautela com o mau humor do velho. O doutor Leonard cumpriu a palavra que empenhou comigo, mas de péssima vontade. Seria ótimo Ali ser assustado a respeito do doutor Leonard. Robert, você se encarrega? O pai é seu. – Pete e Loon se encarregam, respondeu Robert, referindo-se aos filhos. – Quando souberem, vão encher Arthur de recomendações. – E Sergei? Arthur vai aguentar sem perguntar a Sergei que enorme favor foi esse? – Vai estar avisado que Sergei não sabe coisa alguma sobre o ingresso fora de época, o que provavelmente vai ser verdade. Mais alguma coisa?

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– Que tal uns detalhes sobre essa teórica repressão à criatividade de Peggy? sugeriu Augusto. Combinaram os detalhes, a fim de todos dizerem a mesma coisa sobre o mesmo assunto. Encerrado aquilo, Paul pediu que alguns ficassem conferindo os detalhes da futura unidade de Arthur. – ...Henry e Doris voltam ao barco, e parabéns pelos filhos; Ahmad, você avisa Arthur das novidades. – Não posso, está na hora de comparecer diante do meu parlamento embolorado. Eles ficam muito nervosos se eu atraso, você sabe. – Scot e eu vamos, ofereceu Talita. – Afinal, eu estaria supervisionando o treino físico de Arthur e Norton, se não fossem as novidades de Henry. – Certo. E eu vou informar a Leonard Janson que Champ-Bleux tem mais um aluno. Com essas palavras, Paul desapareceu. Scot e Talita foram para a ala de treinamento. De acordo com a escala, Arthur devia estar numa das salas de treino físico, junto com Norton. E, sem supervisão, o treino físico já estava transformado em sessão de luta livre. O aparecimento do casal não atrapalhou as atividades de Arthur e Norton, nem perturbou Andy, Ronron, Andres e Lita, que eram a torcida e não deviam estar ali. Norton era um rapaz alto, muito forte, de cabelos quase brancos de tão platinados. Berrou “oi, pai, oi, mãe, daqui a pouco a senhora supervisiona oficialmente!” e nem os olhou. Se despregasse os olhos um instante só de Arthur, seria mais uma briga perdida. Arthur também berrou um oi sem afastar os olhos do seu adversário, e ele e Norton se atracaram de novo. Scot e Talita não interromperam, esperando os rapazes encerrarem sua “atividade de treinamento”. Eram os mais velhos do grupo (dezessete anos) e os mais altos também (Norton: um metro e noventa e dois na semana anterior; Arthur: um metro e noventa e quatro na mesma ocasião). Ambos tinham herdado o físico avantajado dos respectivos pais. Norton, por exemplo, ainda não tinha o metro e noventa e oito do seu pai, mas passava do metro e oitenta e cinco da mãe. Arthur, meio apavorado com o tamanho que já estava, esperava ardentemente parar de crescer antes de alcançar seu pai (dois metros e três centímetros). Mas

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a semelhança parava aí. Norton tinha olhos verdes extremamente claros para combinar com seus cabelos cor de prata. Arthur tinha cabelos e olhos negros como a maioria da gente de seu país natal, a Ídia. Daquela vez Norton venceu a disputa, e Arthur se estatelou no chão. Norton, ofegante, riu: – Bem que se diz, quanto maior a árvore, maior a queda! E foi um tombaço, cara!! – Não podia dar uma surra em você na frente dos seus pais, retrucou Arthur, levantando. – Depois, quando eles não estiverem junto, a gente acerta esta! Agora veja aí o que eles querem! A assistência deu uma desculpa de pé quebrado e garantiu que ia imediatamente voltar ao que devia estar fazendo. – Podem ficar, disse Talita. – Não viemos supervisionar. E não é com Norton, Arthur, é com você. – Sem bronca por estarmos aqui? estranhou Andy. – Vem coisa! – Só vem! concordou Norton. – O que é que há, pra vocês estarem com caras tão esquisitas? – Bomba, disse Andres. – Na certa! – Afinal, que é? perguntou Arthur. – Paul decidiu que você vai para Champ-Bleux. Foram todos apanhados de surpresa, especialmente Arthur. – Champ-Bleux?! Eu?! Mas como?! Não tenho mais idade! Vou estar com dezoito anos nos próximos exames! – Não no semestre que vem. Agora. – AGORA?! exclamou o rapaz, incrédulo. Os exames tinham sido em novembro! – Paul precisa de alguém na Escola e resolveu que vai ser você, repetiu Talita, dando ao rapaz uma oportunidade de organizar as ideias. – Mas, mas, mas... mas...! Queria saber como ficaria o treinamento, suas infindáveis obrigações como príncipe herdeiro, mas tudo o que saiu foi: – ...Por que eu?!

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– Porque seu pai é cientista de Champ-Bleux, porque você sempre quis entrar para a Escola, porque você tem psicoaptidão científica e vai passar nos psicotestes. – Ei, devagar aí! exclamou Arthur. – Como eu vou fazer os exames agora?! As unidades devem estar até formadas! – Estão formadas, sim. Mas o doutor Leonard deve um grande favor a Paul. – Tão grande assim?! admirou-se Arthur. – Que favor foi esse? perguntou Andy. – Pergunte a Paul, sugeriu Scot, o que equivalia a dizer que não haveria resposta. – Por que de repente precisam de alguém na Escola? perguntou Norton. – Por que é ele quem vai? perguntou Andy, que também gostaria de ir para Champ-Bleux. – Porque Arthur vai para a unidade de Peg. De boca aberta, ficaram olhando Talita e Scot sem achar o que dizer. – Porque você é o único, entre todos daqui, que não é sensível a ela, disse Scot a Arthur. – Arthur com Peg?! Pra quê?! – O que está acontecendo com ela?! Desataram a falar ao mesmo tempo, um atropelando o outro nas perguntas. Scot mandou parar, ou não haveria explicações. – Tá bom, tá bom! exclamou Norton. – Ficamos quietos, mas falem logo!! – Peg soube hoje que passou em Champ-Bleux, disse Talita. – E não podia ter passado. Quando ela nos deixou e a repressão mental foi feita, a criatividade foi afetada também. Paul fez contato com o doutor Leonard e soube que ela passou muito bem, sem apresentar déficit em área alguma. Pelo que Paul avaliou, a criatividade está num nível muito próximo ao de antes da repressão. Isto significa que a repressão pode estar cedendo. – Mas, mãe, e a Síndrome de Tisoni?! exclamou Norton, assustado. – Como é que fica a Síndrome de Tisoni, se a repressão mental ceder?! – Peg teria uma crise violenta. – Mas então vocês precisam...!

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– Precisamos ter calma, disse Talita, cortando a exaltação do filho. – O último exame foi feito logo depois da implantação da repressão mental e da Síndrome de Tisoni, com Peg ainda inconsciente. Não há como um exame ser exato nestas condições. Foi o melhor exame que pôde ser feito nas circunstâncias, mas estava longe de um exame mental ideal. Nesse exame, entre muitas outras coisas, perceberam que a criatividade havia sido envolvida na repressão. Era um dado periférico e não foi investigado, porque não havia tempo e o foco do exame era outro. O fato é que, logo depois da implantação da repressão mental, a criatividade estava diminuída, certamente abaixo do que Champ-Bleux exige. Temos duas possibilidades. Na primeira, a criatividade estaria apenas agredida e por isso deprimida, não reprimida. Se isso aconteceu, a criatividade iria se recuperando aos poucos, junto com o resto da mente, e Peg poderia passar nos exames de Champ-Bleux sem dificuldade. Na segunda possibilidade, a criatividade teria sido envolvida na repressão mental e seu reaparecimento poderia ser o primeiro sinal de que o amadurecimento mental de Peg estaria corroendo a repressão muito antes do que calculamos. Entendido? – Entender, eu entendi, espantou-se Arthur. – Mas não me sinto nada tranquilo com tantos “estaria” e “poderia”! Vocês não têm certeza de nada?! – Não, não temos, respondeu Talita. – E eu vou para lá para avisar se isso acontecer? conferiu o rapaz. – Claro que não. Para isso, não precisaríamos de você. A própria Escola avisaria se Peg tivesse uma crise de Tisoni. Há outra alternativa, pouco provável, mas foi esta que acabou com o sossego de Paul e colocou você dentro da Escola. – Qual, tio Scot? perguntou Arthur, muito desconfiado. – Peg era a melhor transportadora do grupo. Se a repressão estiver parcialmente rompida, ela pode se transportar, no susto, durante alguma emergência. – Uma emergência?! Quer dizer que vou passar dez anos servindo de babá para ela, para evitar que ela chegue perto de encrencas?! – Cara, não vai ter jeito de você fazer isso! assegurou Andy, espantado. – Hein?! – Não tem quem possa manter Peg longe de encrencas! garantiu Norton. – Se tiver uma só encrenca num quarteirão inteiro, é lá que Peg vai estar! – Ela fareja encrencas, apoiou Andy. – E se mete no meio de todas, sempre tentando ajudar alguém!

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– Não que ela não se saia bem dos rolos, prosseguiu Norton, com um risinho meio safado. – Quase sempre ela se sai muito bem. Mas, se você vai pra manter Peg longe de emergências, vai viver de chilique em chilique, porque a maior emergência é a própria Peg! Pergunte só a Pete. Experimente só perguntar! – Ei, calma aí! pediu Scot, rindo da cara de Arthur. – Há boas chances de você ter uma temporada calma, Arthur. Todos, inclusive Robert, acham que não há problemas com a repressão. Mas ninguém pode ter certeza absoluta, o risco de transporte mental é remoto, mas existe, e por isso você vai. Nossa pequena conspiração precisa de segurança completa, ou quem tem o chilique é Paul. – Temporada calma? repetiu Arthur, e seus amigos riram. – Qual é a graça?! invocou-se o futuro rei da Ídia. – Arthur, o apelido de Peg era Madame Confusão! respondeu Andres. – Não tem temporada calma perto dela! Arthur vai para a unidade de Peg, tio Scot? É o melhor jeito de ficar perto dela. O favor de tio Paul ao doutor Leonard é deste tamanho? – É. – Arthur, você vai ter uma temporada de caos, pode crer! disse Norton, sorrindo. – Não acredite no meu pai, porque nem ele está acreditando nessa calmaria! Daí, pai, quando é que Arthur vai? Quando ele faz os exames, ou nem precisa fazer exames? – Há exames, sim, disse Scot, com um sorriso bem divertido. – Mas não para você, alteza. Para Ali Ramuz. – QUÊ?! – O príncipe da Ídia é filho do rei, sorriu Talita. – O filho de Ahmad Ramuz, cientista que saiu daquela Escola, é Ali Ramuz. – Isso é piada! ofegou Arthur. – De jeito nenhum, respondeu Scot. – Palavras textuais de Paul, “o varapau vai de turbante e tudo, mais a cara de bacalhau e a túnica fechada até o pescoço”. Paul quer Ali. Ele é muito mais fácil de substituir do que um príncipe herdeiro. – Mas eu fazia Ali de brincadeira! – E fazia muito bem, riu Scot. – Que seja melhor ainda, agora que é sério! – E o que o meu pai acha disso?! exclamou Arthur. – Como é que vai explicar meu sumiço na Ídia? Tenho que ir de Arthur, senão, onde é que se meteu o príncipe? Aquela velharia do parlamento vai ter um ataque se eu sumir! 99


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– O príncipe não vai sumir, sorriu Talita. – Ahmad vai trazer Bernar para o seu lugar. Arthur ficou sem resposta, e Scot riu: – Paul quer Ali, e você sabe que ele costuma conseguir o que quer! E quer Ali em forma, para não despertar suspeitas no doutor Leonard. Você está dispensado do treinamento para se encarregar de ser Ali Ramuz. – Dispensa pra mim também! assanhou-se Norton. – Se ele vai arrumar aquela cara de sapo pra enfrentar o impressionante diretor de Champ-Bleux, doutor Leonard Janson em pessoa, quem melhor do que eu pra deixá-lo no ponto?! – Melhor que você, disse Talita ao seu filho que era o maior problema de Ali, – só você e Dam. Pode avisá-la. – Não! exclamou Arthur. – SIM! alegrou-se Norton. – E mais Pete, Loon, Alina, Ferrugem... prosseguiu Scot. – Todos estão dispensados do treinamento. Não vão se concentrar em nada mesmo, com uma novidade dessas à solta. – Os de Tarilian também? – Todos. – Liberou geral! exclamou Norton, esfregando satanicamente as mãos. – Ok, vamos avisar o povo! Puf, gente, sumam! Os cinco jovens desapareceram em transporte mental perfeitamente silencioso. No salão de treinamentos subitamente quieto, Arthur encarou Talita e Scot. E declarou, solene: – Isso vai ser assassinato. Ou meu, ou deles! Scot riu, dizendo: – É bom Ali estar preparado! – Preparado para o doutor Leonard, vá lá! exclamou o rapaz. – Mas duvido que ele seja remotamente parecido com aquele doido do Norton ou com o resto do bando reunido! Isso é sadismo de vocês! Não precisavam ter largado todos eles – e juntos! – em cima de mim!!!

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– Bom, o doutor Leonard, não. Mas sua unidade... – Não tem outro bando igual a este aqui, muito menos num lugar como Champ-Bleux! – Não fique tão certo. – Mas que é que há, mãe?! – Lembra do que Regort falou uma vez sobre os filhos de Doris e Henry? Lembra dele dizendo que tinha um mais danado do que Norton, e Norton ficou fulo da vida? – Este passou também? alertou-se Arthur. – Se chama Tim e passou, sim. – Pior que Norton? – Pior. – Não faz mal. Ele vai estar sozinho e um louco sozinho não é problema. O problema é quando junta o bando! Ficou na mesma unidade que Peggy? – Como irmão adotivo, sim. E, se você acha que o bando é o problema, todos os seis Melbourne fizeram os exames. E todos os seis passaram. O clã Melbourne vai estar reunido na sua unidade, não vão se sentir nada sozinhos, e Regort garante que você vai passar um mau pedaço. – SEIS?! SEIS de uma vez só?! – Com Peg, sete. – Na mesma unidade, todos eles?! – Claro, são irmãos. E tem mais um interessante: Sergei Janson. – O primo de Pete e Loon?! O neto do doutor Leonard?! – Este mesmo. O provável futuro diretor da Escola. – Mas que unidade vai ser esta, com sete irmãos mais o futuro diretor da Escola metidos nela?! – Tem mais irmãos nela. Interessado no resto de sua unidade? – Claro! – Sua unidade tem dezenove alunos, contando com você. Sergei entrou sozinho, mais duas garotas. O resto entrou com a família, ou quase. – “Quase” família? Dezenove menos Sergei, as tais garotas e eu, e menos os sete Melbourne, ainda sobram oito!

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– Michele Daril... – Daril?! Filha do doutor Daril, da Academia de Espaço?! – Isso mesmo. – Essa entrou junto com algum irmão? Algum primo? Ou é este tal de quase?! – É o tal de quase, riu Scot. – Com ela entrou Anton Mester, um rapaz sob a tutela do doutor Daril há cerca de meio ano. Depois, Anna Tanlai... – Que é filha do doutor Tanlai, no mínimo! – Filha única dele, e mais um “quase”: Ricardo Veron, que o doutor Tanlai adotou há dois anos. – Filhos do coordenador da Cidade Espacial! Onde estão me metendo?! – E mais uma dupla de adotados. Harmon e Steve, adotados pela doutora Mada Breterech. – Adotados... POR QUEM?! – Você ouviu direitinho. – Eu vou ter aquele chilique que Norton falou, e nem vou precisar de Peggy para isso! – Última dupla, Joseph Garder e Françoise Lefreve. Ela é filha do doutor Lefreve, do Laboratório Terrestre de Física. Ele é filho da doutora Karen Guterrai, depois de casada Karen Garder, a segunda pessoa a entrar na Escola de Champ-Bleux com treze anos. Os Garder e a esposa do doutor Lefreve morreram no mesmo acidente, e o doutor Lefreve adotou o garoto. – Ah, ótimo. Em cinquenta anos, duas pessoas entraram com treze anos na Escola. Uma foi a doutora Garder, e o filhote da celebridade está na mesma unidade que eu. O outro que entrou com treze anos foi o doutor Dornor e este “apenas” descobriu Tarilian! Só falta uma das duas garotas que entraram sozinhas ser neta ou filha adotiva ou neta adotiva ou sei lá o que dele! Arthur olhou os sorrisos divertidos do casal. – Ou não falta?! – Faça as contas. Ted e Teo Melbourne, dezesseis anos; Tom e Tim, quinze; Pamela, quatorze... Lisandra, que é a caçula... – ...Treze?! – Certo. A terceira pessoa a entrar com treze anos está na sua unidade. 102


Cisne - Uma Geração, Todas as Decisões

– Sete irmãos juntos em Champ-Bleux, e uma tem treze anos! Que espécie de gente, afinal, são estes Melbourne?! – Amigos! riu Scot. – Bons amigos, sorriu Talita. Doris e Henry retornaram ao Cisne, desativaram seu sistema pessoal de segurança para ausências não explicadas e dispensaram o homem do posto do Controle Científico que fazia seu turno de vigia. Henry respirou bem fundo quando ele afinal passou pela prancha e saiu do barco. – Não adianta não gostar deles, Henry. – Só que eu não gosto deles dentro da minha casa e fim. Os primeiros raios de Sol anunciaram um belíssimo dia, enchendo o mar de reflexos. O casal foi para a proa. – É difícil de acreditar, disse Doris. – Todos os seis em Champ-Bleux! – Difícil mesmo, concordou Henry. – Até Lis... com treze anos! – É. – Sinceramente, não achei que ela fosse aprovada. – Nem eu. – O que você tem, Henry? – Nada. – Henry. – Estou ficando paranoico, só. Não dá mais para acreditar que coisas como esta aconteçam por acaso – nem mesmo um toque de reunir! – Henry, toques de reunir são fatos. Raros, mas fatos. – Informações mentais que embasam a certeza sobre o toque de reunir podem não ser tão “fatos” assim. – Paul não adulteraria informações mentais. – Ah, não, ele nem adulteraria, imagine! Doris, se Paul quer nossos filhos lá, sabe perfeitamente que precisaria de uma justificativa poderosa para nos impedir de TIRAR todos eles daquela... temeridade!!

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Eleonor Hertzog

– Henry, Paul não faria isso. – Ou armou todo o circo para parecer que não tinha feito?! – Paul perturba sua segurança, Henry, só isso. – É, pois é, e eu tenho todos os motivos para me sentir perturbado! Ele é um ninho de tramoias e histórias mal contadas, e fico pensando em quantas ele poderia nos aplicar sem descobrirmos a tempo! – Você não confia nele. – Confio que ele está fazendo tudo ao seu alcance para as coisas acabarem bem. Só não confio nesse “tudo ao seu alcance!”. “Tudo ao seu alcance” é um bocado de coisas, a coisa mais ao alcance dele são essas histórias inventadas e infernalmente perfeitas! “Tudo ao seu alcance” é se meter onde não devia se meter e fazer coisas que não devia fazer porque acha que é o melhor para o grupo. Pode significar o embrulho de Doris e Henry e família porque é o que precisa ser feito, ainda que Doris e Henry tenham avisado para não meter a família no meio! Doris, eu quero saber o que estou fazendo, para que e por quê! E esta unidade – me diga, quando se poderia prever uma situação assim?! Scot tem razão, eles não são gente, são autênticas bombas mentais de duas pernas! – Seus filhos entre eles? – Eu me assusto só de pensar em ter meus filhos junto com o resto daquela “unidade”! – Ou agora está assustado porque vão sair debaixo das suas asas? – Considerando perto de quem eles vão estar, estou assustado, sim, e muito! Paul pode fazer o doutor Leonard aceitar na Escola até alguém sem psicoaptidão, se quiser. E se ele deu ordens ao doutor de formar essa unidade, com essas pessoas?! E se ele mandou o doutor forjar aqueles psicotestes que nós vimos?! A avaliação global daquela unidade chega a um passo de incrível, é alta demais! – Concordo com Regort: a avaliação global incomum pode ser reflexo do toque de reunir. – Doris! – Desde que, é claro, o toque de reunir exista, completou ela, sossegadamente. – É só esperar e ver como a unidade se comporta, Henry. Paul não pode falsificar o rendimento de uma unidade. Ou talvez até possa, mas nossos filhos vão estar lá para dizerem se está havendo favorecimento ou não. – Você não está levando a sério! 104


Cisne - Uma Geração, Todas as Decisões

– Não acredito que Paul tenha feito isso, repetiu Doris. – Você confia demais nele! – Nele? Não, nele eu não confio nem um pouco. Mas confio muito em nós. Ele não ousaria nos desobedecer. Sabe que as consequências seriam desastrosas – para ele. Henry deu um sorrisinho apertado. – Pode ser, então, que eu considere Paul bem mais atrevido do que você considera, querida... Porque, se eu estivesse no lugar dele, me atreveria a desobedecer a qualquer um!

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Cisne  

Série de fantasia juvenil sobre a família Melbourne: jovens que pensam que estão decidindo suas vidas, mas etão decidindo pelo mundo todo!

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