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MAIO/JUNHO DE 2015 • NÚMERO 19 • FAMECOS/PUCRS • WWW.PUCRS.BR/FAMECOS/EDITORIAL J

Como estão as praças da Capital Em meio ao debate sobre a necessidade de cercamento da Redenção, reportagem mostra dez maiores áreas de lazer de Porto Alegre com problemas de conservação Juliana Baratojo (3º sem.)

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A reação dos nanicos

Machismo na publicidade

Trotes na mira da lei

Imprensa alternativa fustigou a ditadura

Índice de mulheres na criação explica estereótipos

Propostas tentam regular ritual para calouros

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papo de redação

Jornal do Laboratório de Jornalismo Convergente da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Avenida Ipiranga, 6.681 Porto Alegre/RS PUCRS Reitor Ir. Joaquim Clotet Vice-reitor Ir. Evilázio Teixeira Pró-reitora Acadêmica Mágda Rodrigues da Cunha

FAMECOS Diretor João Guilherme Barone Reis e Silva Coordenador do curso de Jornalismo Fábian Chelkanoff Thier Coordenadora do Espaço Experiência Paula Puhl Coordenador do Editorial J Fabio Canatta Coordenadora de produção Ivone Cassol Projeto gráfico Luiz Adolfo Lino de Souza Professores responsáveis Alexandre Elmi Fabio Canatta Filipe Gamba Flávia Quadros Ivone Cassol Marcelo Träsel Marco Villalobos Tércio Saccol Vitor Necchi Alunos editores Annie Castro Cândida Schaedler Eduarda Endler Lopes Gabriel Gonçalves Jéssica Moraes Yasmin Luz Diagramação Bruno Ibaldo

Alunos Adrieny Couto, Amanda Fialho, Angelo Passos, Angelo Werner, Annie Castro, Aristóteles Da Silva Júnior, Bethânia Helder, Bharbara Hack, Bibiana Garcez, Bruno Cisco, Bruno Ibaldo, Camila Ferreira Lubeck, Cândida Schaedler, Cláudia Dos Anjos, Cristhian Montanha, Deyves Goulart, Eduarda Endler Lopes, Eduardo De Conto, Eduardo Pinzon, Elisa Marinsek, Filipe Castilhos, Filipe Nascimento Da Silva, Francelle Machado, Frederico Martins, Gabriel Corrêa, Gabriel Peres Gonçalves, Gabriela Cavalheiro, Gabriela Klaus, Georgia Ubatuba, Guilherme Almeida, Guilherme Macedo, Guilherme Pacheco Mercado, Guilherme Testa, Helena Rocha, Jessica Hubler, Jéssica Moraes, Jorge Lourenço Grill, Juliana Baratojo, Juliana Forner, Kamylla Lemos, Kelly Freitas Moreira, Laura Schneider, Laura Zucchetti, Lucas De Oliveira, Lucas Vidal Domingues, Luiz Henrique Martins Escopelli, Luiza Frasson, Luiza Simão, Maria Antônia Fiorini, Maria Eugênia Boffil, Mariana Capra, Mariana Melleu, Marina Rosa, Muriell Custódio, Nicole Oliveira, Paula Estivalet, Pedro Silva, Pedro Trindade, Priscila Araújo, Rafaella Câmara, Rodrigo Oliveira, Roger Paz Da Silva, Thiago Valença, Tiago Bianchi, Tiago Decker, Vanessa Carvalho, Vanessa Schenkel, Vicente Carcuchinski Costa, Vinicius Spengler, Vitória Fonseca, Yanlin Costa e Yasmin Luz

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Laboratório de Jornalismo Convergente da Famecos www.pucrs.br/famecos/editorialj

Um roteiro pelo descaso

Equipes visitaram praças de Porto Alegre com problemas de manutenção P O R Eduarda Endler Lopes (2º sem.)

F

oram mais de dois meses de esforço para realizar uma reportagem que, vista de longe, parecia fácil. A pauta estava na nossa frente, no caminho para casa, no lazer do final de semana: a situação dos parques e das praças de Porto Alegre. Como ponto de partida, no dia 4 de março, cada repórter do Editorial J deveria visitar a praça mais próxima de sua residência, analisando vários itens listados (corte de grama, iluminação, lixeiras, lixo no chão, banheiros, acesso para deficientes físicos, presença de funcionários ou seguranças, calçamento, estado dos brinquedos da pracinha/quadras, bancos, bebedouros, estado dos monumentos). Com o passar das semanas, no entanto, surgiu a questão: qual o critério para a escolha das praças? Percebemos, então, que estávamos cometendo um equívoco, pois não tínhamos um parâmetro específico e que, dessa forma, nossas visitas foram em vão e teríamos que recomeçar o processo. A partir de uma nova discussão, pensamos nas praças e nos parques esquecidos pelo poder público. Ou seja, aqueles que ficam em lugares distantes do

Centro, em bairros carentes, afastados de uma determinada visão estereotipada de “ponto turístico” da Capital. Mesmo negligenciadas, são áreas abandonadas que poderiam servir como lazer para a população da capital gaúcha. Surgiu, então, um critério para a escolha dos locais definitivos: os 10 maiores em área, mas que não integrassem a lista dos mais populares entre os porto-alegrenses. Começamos a visitar as praças e os parques somente entre duas repórteres, o que exigia muito tempo. Devido à dificuldade em percorrê-los num curto período, a reportagem foi remodelada e exigiu a convocação de outros dois repórteres e fotógrafos. Formou-se o que no jornalismo é chamado de força-tarefa. Eles se uniram ao desafio de avaliar os locais num período de três dias (14, 15 e 16 de abril), nos quais poderíamos analisar a situação de cada um simultaneamente. Isto é, observar os mesmos itens, como a altura da grama e a quantidade de lixo no chão, em um período similar. Após a apuração de campo, chegou a hora de ver o resultado do que havíamos analisado em todas as zonas de Porto Alegre. E o desfecho foi o esperado: há, infelizmente, um abandono de lugares

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que poderiam ser usufruídos. Dessa forma, entramos em contato com a prefeitura de Porto Alegre, que tentou justificar as constatações da reportagem. Com a apuração e as entrevistas em mãos – tanto de frequentadores, trabalhadores dos parques e das praças quanto do diretor de Praças, Parques e Jardins da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sman) de Porto Alegre –, colocamos o descaso da prefeitura e as lamentações dos frequentadores em palavras e gráfico. Confira, nas páginas centrais desta edição, a condição destes parques e praças de Porto Alegre.

+ Veja a galeria de imagens geolocalizadas das 10 praças de Porto Alegre pesquisadas em


Esta reportagem integra a cobertura especial sobre os 30 anos da redemocratização do Brasil.

história

As vozes da contestação PAR A DRI B L A R C E N S U RA MILITAR, JORNALIS TAS CRIARA M VEÍCULOS A LTERNATIVOS

P O R Pedro Silva (5º sem.)

O

s jornais alternativos que surgiram durante a ditadura militar (1964-1985) tinham como posicionamento editorial a oposição ao governo e à repressão vigentes. Passados 30 anos da redemocratização, eles não existem mais, pois vieram para transformar o cenário autoritário com reportagens de denúncia e contestação que ajudaram a acelerar o retorno da democracia. A partir de 13 de dezembro de 1968, com a linha dura estabelecida pelo Ato Institucional número 5 (AI-5), a insatisfação dos meios culturais e daqueles que se opunham ao regime fez com que surgissem movimentos independentes de contracultura e resistência. Com a presença do censor dentro das redações, jornalistas e intelectuais descontentes se organizaram em espaços à margem das publicações tradicionais. Surgia a chamada imprensa nanica. Em formato tabloide e de maneira independente, essa foi a saída para ir além das barreiras da censura e do comodismo que impregnava as redações dos grandes jornais. No final de 1968, surgiu o projeto que se tornaria um dos maiores fenômenos do cenário da mídia alternativa brasileira: o Pasquim, formado inicialmente pelo cartunista Jaguar e pelos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral. Movido por um humor intenso e inteligente, o tabloide reunia nomes de destaque na imprensa brasileira, como Millôr Fernandes e Ziraldo. O jornal era direcionado aos temas comportamentais e políticos censurados nas páginas dos periódicos tradicionais, como sexo e feminismo, por exemplo. No Pasquim, reinava o deboche e uma criatividade única que servia como porta-voz da indignação social no Brasil. Outros jornais, como Opinião, Movimento, Lampião da Esquina e Em Tempo, também ousaram romper com o silêncio imposto aos meios de comunicação. No Rio Grande do Sul, surgiram na década de 1970 experiências como Pato Macho, Coojornal, Exemplar e Risco. O primeiro, dirigido por Luís Fernando Verissimo, era o que mais se aproximava do Pasquim, pelo tom satírico. O Pato Macho teve curta duração, pois foi interrompido pela censura um ano depois. Em Porto Alegre, o jornal Folha da Manhã, do Grupo Caldas Júnior, então maior empresa de comunicação do Estado, teve parcela fundamental no processo de surgimento dessa imprensa alternativa e do agito que os jornalistas queriam trazer às redações estagnadas pela censura. O grupo contava com três publicações diárias: Correio do Povo (o grande título na época), Folha da Tarde e Folha da Manhã. Esse último era o jornal com mais liberdade editorial. "Tínhamos um grupo

de jovens jornalistas revoltados com aquela situação de censura. Nos reuníamos na Folha da Manhã, onde se praticava uma linha mais investigativa de jornalismo, o que batia de frente com os mais conservadores do Correio do Povo", lembra Rafael Guimaraens, repórter do jornal no início da década de 1970. A presença de censores da ditadura era constante nas redações da Folha que, cada vez mais engessada pela vigilância severa, começou a perder repórteres, incomodados com a situação. José Antônio Pinheiro Machado, que também trabalhou como editor-chefe do Pato Macho e participou do Opinião, comenta um episódio no qual se envolveu com

o censor que diariamente visitava a redação da Folha, na qual fazia uma coluna de notas chamada Plano Geral. O censor falou para Pinheiro Machado que era proibido mencionar os nomes de Luís Carlos Prestes, Leonel Brizola e dom Helder Câmara. Aproveitando-se da informação, o jornalista fez uma nota na hora que o jornal estava finalizando a edição, na qual dizia: “Censura federal comunica que a partir desta data está proibido divulgar os nomes de Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes e dom Helder Câmara". Bem humorado, Pinheiro Machado lembra que foi repreendido pelo censor no dia seguinte. Em 1974, 21 jornalistas pediram para sair

Coojornal, Opinião e Pasquim (sentido horário) foram símbolos da imprensa nanica, que denunciava a ditadura, além de publicar matérias que desafiavam o sistema vigente. Com humor, o Pasquim tornou-se um dos maiores fenômenos nesse cenário

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da Folha da Manhã ao se solidarizarem com a demissão do colega Caco Barcellos, desligado em função de uma reportagem sobre violência policial. Depois do episódio, começaram a pensar em como produzir o jornalismo que queriam. A ideia de criarem seu próprio jornal, porém, logo esbarrou em um obstáculo. "Como a dificuldade era pelo lado financeiro, planejamos uma cooperativa onde teria espaço para o jornal", lembra Elmar Bones, um dos repórteres que deixou a Folha. Ele e mais 66 jornalistas formalizaram a constituição da Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre. Dentro dela, havia o jornal mensal que circulou entre novembro de 1976 e dezembro de 1982: o Coojornal. A ideia de uma cooperativa abrangia, além do jornal, trabalhos editoriais e produção para terceiros, em sua maioria sindicatos. O Coojornal inovou não apenas por fazer parte de uma cooperativa, mas por seu conteúdo, ressaltando a importância da apuração e da narrativa. "Nunca quisemos fazer frente aos grandes jornais porque não tínhamos condições financeiras para isso. Porém, o Coojornal se diferenciava daquilo que era oferecido no mercado", ressaltou José Antônio Vieira da Cunha, primeiro presidente da cooperativa. Ao contrário de muitos jornais alternativos da época, que enfatizavam no humor exacerbado sua afronta ao governo ditatorial, o Coojornal tinha um viés investigativo e criticava não apenas o governo, mas também os grandes veículos de comunicação. "A ideia era falar de assuntos que os jornais tradicionais não falavam, aproveitando a chamada abertura lenta e gradual do presidente Geisel", ressalta Guimaraens. Em 1980, Guimaraens, Bones, Osmar Trindade e Rosvita Saueressig foram presos por causa de uma matéria que tratava de documentos secretos do Exército sobre a repressão a movimentos guerrilheiros ocorridos dez anos antes. O relatório confidencial da Agência Central do Serviço Nacional de Informações, datado de 20 de fevereiro de 1980, classificava o Coojornal como hostil: “Apesar de a referida publicação ter a tiragem de, apenas, 35.000 exemplares, seus artigos são comumente comentados pelos demais órgãos de imprensa, e passam, desse modo, a ter repercussão nacional”. O Coojornal sofreu com a censura que, entre outros fatores, levou ao fim da cooperativa. Após a prisão dos jornalistas, em 1980, o veículo passou a sofrer com a dificuldade financeira causada pelo abandono dos anunciantes diante da pressão da censura. Vieira da Cunha creditou a esta "censura comercial" o encerramento das atividades do Coojornal. Em dezembro de 1982, foi publicado o último mensário.


publicidade história

Onde estão as mulheres da criação LEVAN TAM E N TO MO S T RA QUE 23,6% DOS P ROFISS IONAIS QUE CRIA M OS A NÚNCIOS SÃ O DO S E XO F E MI N I N O, O QUE P OD E E X PLICAR MACHISMO DE A LGUMAS PEÇAS Annie Castro (2º sem.) P O R Francelle Machado (7º sem.)

T

odo ano a história se repete no Carnaval: as propagandas de marcas de cerveja abusam do uso da imagem feminina, apostando em uma linguagem muitas vezes machista. Em 2015, não foi diferente. Uma peça da Skol gerou polêmica, ao supostamente fazer apologia ao estupro. A reação foi imediata e provocou um debate que também é antigo. A baixa presença de mulheres nas redações seria uma das causas para o predomínio do estereótipo na hora de vender determinados produtos? Ainda que o fenômeno possa ter inúmeras causas, as mulheres são minoria entre os criativos. Conforme um levantamento exclusivo feito pelo Editorial J com 18 agências de publicidade em Porto Alegre, dos 242 publicitários da criação, 57, ou 23,6%, são mulheres. Na área de criação trabalham os diretores de arte e os redatores que pensam as ideias para divulgar uma marca, produto ou serviço. Na falta de um ranking oficial que refletisse a participação feminina no setor criativo, o Editorial J identificou 18 agências e apurou a distribuição entre os sexos na criação. O critério para a escolha das agências foi a relevância e a presença dos sites em buscas na internet. Em apenas duas delas, o número de mulheres representou 50% do total de criativos – em outras duas empresas, a informação é de que o setor é formado inteiramente por homens. Como um indício de que a presença feminina é desproporcional, ela contrasta com o número de estudantes de Publicidade. Na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), por exemplo, as mulheres são 320 de um total de 619. Em nível nacional, o número de mulheres entre o círculo de publicitários encarregado de pensar as peças seria de 10%, de acordo com dados coletados pelo projeto 65/10, idealizado pela publicitária Thaís Fabris e que discute o lugar que a mulher ocupa no mercado da publicidade. Mas e se o setor de criação fosse composto por elas, ao menos em 50%, faria alguma diferença? Mesmo entre mulheres do mercado publicitário, existem diferentes opiniões sobre o assunto. Com experiência de 20 anos em marketing e 15 anos em propaganda, a diretora de planejamento da TH Comunicação, Carmen Lúcia Tavares, entende que a área de criação

Aroa Khalil Suleiman é a única publicitária no setor de criatividade da TH Comunicação é reduto de homens, o que pode levar ao conteúdo machista. “A criação é um clube do bolinha, e agência é muito fechada. Para quem é do mercado mesmo, se não tem relacionamento, não entra. Quando tem mulher, é redatora”, pontua. Carmen também acredita que os obstáculos enfrentados pelas mulheres da criação publicitária são, muitas vezes, subliminares. “Em uma reunião com clientes homens, se tu não carrega na voz ou não tem uma postura um pouco mais sisuda, não tem respeito. Na mesma reunião com um (cliente) homem, se um homem vai representando a agência, ou se vai uma mulher, é muito diferente. Isso é uma coisa complicada de lidar. A gente só se dá conta disso com o tempo e a experiência”, garante. A vice-presidente da Associação Riograndense de Propaganda (ARP) Claudia Vieira Gonçalves diverge. A inserção da mu-

lher no mercado da criação publicitária não envolve a questão do preconceito por causa do gênero. “Tem um pouco de histórico, porque essa é uma atividade que, assim como outras, começou há muito tempo e (naquela época) dispunha de menos profissionais do sexo feminino”, explica. Cláudia acredita que são poucas as profissões em que há predominância de mulheres e vê a defasagem feminina no setor criativo como algo normal, tendo em vista o contexto sociológico de desenvolvimento das profissões. Textos assinados por publicitárias na internet relatam, de forma mais direta, um cenário de preconceito e falta de respeito. Entre esses desabafos, está o da ex-redatora Aline Valek: “É claro que continuamos a ver tanta propaganda tratando mulher como idiota, secundária ou objeto sexual, porque é exatamente esse o tratamento que os caras

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atrás do volante da publicidade dispensam às mulheres, inclusive suas colegas de trabalho”. Publicada no blog de Aline, a crítica ainda detalha a experiência pessoal dela como publicitária e compara as mulheres criativas às personagens Joan Holloway e Peggy Olson, do seriado Mad Men, por estas também sofrerem preconceitos relacionados ao gênero. A publicitária e ilustradora paulista Priscila Ferrari se tornou conhecida na internet após intervir, com a jornalista Mila Alves, em uma peça da cerveja Skol. No cartaz no qual se lia a mensagem “Esqueci o não em casa”, que foi considerada uma apologia ao estupro, as garotas completaram com “e trouxe o nunca”. As imagens das duas em frente a esse outdoor de um ponto de ônibus, em São Paulo, tornaram-se virais na web, fato que ajudou a reacender o debate sobre a publicidade machista.


ceber o que, em outros espaços e de forma Priscila trabalhou quatro anos como descontextualizada, às vezes aparece mais gerente de projetos em uma agência. Ela sutilmente”, comenta. afirma ter visto algumas situações desA linha de raciocínio de Maria Joana concertantes. “Todo mundo presencia encontra o ponto de vista de Claudia, para esse tipo de coisa, porque está em todo quem a presença da mulher no ambiente de lugar e é tratada como normal. ‘Ah, ela criação em nada interfere no conteúdo final é meio feia pra ser atendimento’, já ouvi de uma campanha. Quanto aos estereótipos, um cara falando sobre uma ex-colega de no entanto, a vice-presidente da ARP pensa trabalho. A sociedade está acostumada diferente. “Acho um recurso que, normalcom o tratamento, logo elas não percebem mente, é em tom de brincadeira. Embora o absurdo. Acham normal comentarem da possa ser uma brincadeira de mau gosto, é bunda de uma recepcionista”, comenta. um recurso criativo”, defende. Claudia adAfirmando ter certeza de que o fator de gêverte, ainda, que uma parcela de responsanero influencia também na dificuldade de bilidade sobre o conteúdo de uma campanha permanência da mulher no setor criativo, publicitária fica com o cliente, pois é dele o Priscila é contundente: “Quando comecei dever de aprovar ou não o resultado final do a trabalhar, fui para área de criação, mas trabalho do publicitário. “É uma via de mão é complicado mesmo. Passei por um mondupla, é um relacionamento, não necessariate de lugar que só tinha homem babaca. mente uma imposição”, explica. Assim que entrei me senti um pedaço de As reações não ficam restritas às cambife, os caras já começaram a dar em cima. panhas publicitárias, mas também buscam É ridículo”. enfrentar o preconceito e a hostilidade denUma questão que se desdobra da avatro do ambiente profissional. Maria Joana, liação sobre a presença feminina na área que hoje não trabalha mais para agências de criação é se o fenômeno faz diferença de publicidade, reconhece que o problema no produto final de uma campanha publiestá associado a questões mais profundas do citária considerada machista. De acordo mercado de trabalho. “Uma coisa que eu não com uma pesquisa realizada em 2013 pelo me dava conta na época é que sempre que Instituto Patrícia Galvão, em parceria uma mulher era promovida, com o Data Popular, 58% tentavam associar isso a uma dos entrevistados acreditam conduta sexual dela. Quando que a mulher é tratada como A criação um homem é promovido, ninobjeto sexual em campaé um clube guém pergunta com quem ele nhas publicitárias. Entre os dormiu. No caso da mulher, entrevistados, 65% também do bolinha, quando uma coisa boa aconteconcordam que o padrão de a agência ce na carreira dela, ela tem que beleza difundido pela publise justificar o tempo inteiro cidade não condiz com a reé muito para não levantar suspeita”, alidade. O Instituto Patrícia fechada.” acredita. Para a jornalista, Galvão é uma organização o que ela chama de crise de sem fins lucrativos que atua Carmen Lúcia representação feminina é algo na proteção dos direitos das Tavares observado tanto na publicidade mulheres no Brasil. A pescomo em muitas outras atividades. quisa, divulgada pela agência Ainda assim, há lugares de trabalho do próprio instituto, ainda revela que 70% nos quais a diversidade de gêneros é, pelo das pessoas defendem punição aos resmenos, respeitada. Aroa Khalil Suleiman ponsáveis por propagandas que mostram é redatora da TH Comunicação há dois a mulher de modo ofensivo. anos e atua na área há nove. Mesmo senA jornalista Maria Joana de Avellar do a única mulher em uma equipe com trabalhou na agência Duplo por três anos. mais seis homens, ela afirma não sentir Em 2012, ela já falava sobre o machismo desconforto por trabalhar em um meio exposto nas campanhas publicitárias. No masculino. “Acredito na harmonia desartigo intitulado O Macho, a Marcha e sa relação de trabalho e aproveito para o Lugar da Mulher na Propaganda, puconversar com eles sobre assuntos do blicado no blog da própria empresa, ela universo feminino e desmistificar alguns argumentou que “a publicidade é um dos preconceitos”, assegura. Aroa comenta terrenos em que o machismo circula com que já ouviu comentários machistas dimais liberdade” e provocou uma discusrigidos a colegas de trabalho e frisa que são sobre a presença da mulher como pernão conseguiria trabalhar em um amsonagem estereotipado das propagandas: biente dominado pelo preconceito. “Se a mãe, a dona de casa e a esposa dedicada. não houver espaço para minha expressão, Quando questionada se o maior número não tem espaço para o meu trabalho tamde mulheres na área de criação poderia bém”, resume. mudar o cenário de estereótipos, Maria Aroa acredita que a presença de mulheJoana afirma que não, pois, para ela, o res no setor criativo melhora a compreensão conteúdo equivocado difundido pela pudo público alvo. Ela aconselha as publicitáblicidade é, com ou sem a interferência rias a não se limitarem ao setor de atendifeminina, apenas um reflexo da visão que mento, exceto nos casos em que a afinidade a sociedade já tem sobre as mulheres. “O fale mais alto, não apenas a convenção. “As problema é muito cultural e é sintomático agências só têm a ganhar ao mesclar suas que na publicidade seja assim. Por trabaequipes. Quanto mais pontos de vista difelhar com estereótipos, ela só escancara o rentes, mais completas e inteligentes serão que somos e caricaturiza de um jeito que é as campanhas”, destaca. até importante, por tornar mais fácil per-

Jornalista (E) e publicitária protestaram contra propaganda de cerveja considera machista, mudando mensagem e postando na web

Números da minoria Nas

Apenas

57

18

agências de publicidade

criativas trabalham em um universo

pesquisadas pelo Editorial J,

predominantemente masculino.

23,6%

10%

dos cargos de criação são

dos profissionais de publicidade no

ocupados por mulheres.

Brasil são mulheres.

Presença feminina Levantamento exclusivo feito pelo Editorial J aponta que mulheres são minoria no setor de criação das maiores agências de publicidade de Porto Alegre: Publicidade Popular

2/4 13/41

Paim Engenho de Ideias

0/6

Purple

2/6

Duplo

0/2

Integrada

Total

3/6

Centro Penso Ideias

Mulheres

3/10

Martins Andrade

6/18 1/5

Matriz

5/22 10/40

Escala Bonaparte Publivar On Togo TH Morya

3/9 1/5 1/4 1/7 1/14

DM9 Sul Dez

2/21 3/22

Média feminina Média total 3,16 13,44

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Fonte: Levantamento do Editorial J


porto alegre história

Uma cidade que ma

À margem dos cuidados recebidos pelas áreas de lazer mais populares da Capital, os dez maiores parques sofrem com problemas crônicos de manutenção em equipamentos e de conservação P O R Eduarda Endler Lopes (2º sem.), Sofia Schuck (3º sem), Nicole Oliveira (1º sem.) e Pedro Silva (5º sem.)

S

em a visibilidade dos parques mais conhecidos de Porto Alegre – que enfrentam problemas de manutenção, mas ainda assim recebem investimentos da prefeitura –, praças e parques menos conhecidos sofrem com abandono. O Editorial J visitou 10 dos maiores parques e praças da Capital e constatou uma história de descaso que se repete. Para fazer o levantamento (veja quadro), os locais mais populares da cidade foram retirados da lista, como o Parque Farroupilha, o Marinha do Brasil, o Germânia e o Parcão. Por este critério, o Parque Marechal Mascarenhas de Moraes, no bairro Humaitá, foi considerado o maior da cidade. Nos dez locais observados, um cenário semelhante: problemas de corte de grama, falta de iluminação, ausência de lixeiras e inexistência de banheiros. Doze itens compuseram o teste. Dos dez parques e praças, nove estavam com a grama alta nos dias em que a equipe do Editorial J fez a apuração, de 14 a 16 de abril. Em todos os parques e praças, os usuários apontaram a iluminação como precária. Em um dos parques, sequer havia postes. Metade dos espaços visitados não oferecia lixeiras. Apenas o Parque Marechal Mascarenhas de Moraes e o Marcos Rubin, no bairro Jardim Carvalho, estavam totalmente limpos, conforme a avaliação da reportagem. Dos 10 parques e praças, dois têm banheiro, sendo que em um somente funcionários de uma empresa que cuidam do espaço têm o direito de usar. Os parques e as praças ou não tinham identificação ou estavam com ela danificada, atrapalhando a localização. Além disso, apenas três contavam com monumentos, mas sem conservação. Todas as áreas tinham bancos, mas em quatro eles apresentavam pixações e estragos. Apenas dois dos dez parques e praças não ofereciam pracinha ou quadra de esportes. Em pelo menos cinco, os brinquedos estavam enferrujados e com pregos expostos. Para entender como era feita a manutenção, o Edi-

torial J procurou por funcionários no local, mas apenas cinco estavam presentes no momento da apuração. No parque Vinte de Maio, no bairro Vila Ipiranga, e Marcos Rubin, quem estava era contratado pelos condomínios que cercam a área. Dos dez espaços, na Praça dos Açorianos, localizada no Centro Histórico, o calçamento estava em boas condições. Em quatro deles, sequer havia calçamento. Em cinco, as irregularidades no piso eram agravadas pelo crescimento das raízes das árvores, pela existência de buracos e pelo crescimento de grama. De forma geral, foi contatada falta de acessibilidade para portadores de necessidades especiais. Novamente, apenas Praça dos Açorianos oferecia rampas de acesso. Em defesa da prefeitura de Porto Alegre, o diretor de Parques, Praças e Jardins da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), Sérgio Tomazini, conta que os parques da Capital têm administração e equipes próprias, vinculadas à Divisão de Administração de Parques, Praças e Jardins (DAPPJ) da Smam. As praças, em sua maioria, são cuidadas por empresas terceirizadas, a partir de uma demanda programada, que é organizada pelas Gerências Técnicas Zonais da Smam (são cinco: Centro, Norte, Leste, Sul e Extremo Sul). Tomazini afirma que as praças e os parques recebem uma ação de conservação a cada período de 30 dias. O representante da prefeitura justifica a falta de lixeiras pelo mau uso da população, já que os equipamentos são alvo de depósito irregular de lixo doméstico ou até mesmo de vandalismo que levam a perdas. Segundo ele, a Smam tem dificuldade de reposição devido ao custo. “A responsabilidade pelo lixo gerado é daqueles que o geram, portanto, nesses casos, a orientação é que os usuários das praças que não possuem lixeiras acondicionem o lixo que gerarem até encontrarem a lixeira mais próxima para o seu descarte adequado”, pediu o diretor. Tomazini também informou que as novas praças estão sendo entregues com acessibilidade universal (rampas, piso podotátil e brinquedo adaptado). O estado de conservação deixa os usuários indignados. É o caso do

advogado Raphaell Couto, frequentador do Parque Brigada Militar, na Zona Norte. Há três anos, com um grupo de amigos praticantes de futevôlei, percebeu que a população usava o espaço para despejar lixo e que havia usuários de drogas no lugar. Com os moradores, estimou os custos para adotar o parque: seria em torno de R$ 15 mil por mês, considerado inviável. O desejo do grupo não pôde ser realizado, mas não impediu que Couto deixasse o esporte de lado: “Foi o verão inteiro sem poder usar. Por conta própria, contratei um senhor que cortou em volta da cancha onde jogamos”, afirmou. Ele gastou R$ 200 no mutirão. O mesmo quadro foi encontrado no Vinte de Maio, na Zona Leste. Gabriel Veiga, frequentador, mostra galhos jogados pelo chão e a grama alta. “Ninguém faz nada. Faz tempo que não vejo ninguém da prefeitura aqui, há um tempo eles ainda apareciam”, salientou. Em praças ou parques adotados por empresas, a situação é diferente, de contraste, como na Praça México, no bairro Rubem Berta. A MRV Engenharia foi contratada pelos condomínios ao redor. A garçonete Cláudia Flaviana Corrêa da Silva, frequentadora da praça há mais de 28 anos, diz que há um mês não havia manutenção. “Hoje tem um pessoal cuidando dos banheiros. Antes não tinha bebedouro e era muito matagal. Sem falar que era deserto e abandonado, o que causava muitos assaltos”, acrescenta Cláudia. Mas nem sempre a organização da comunidade produz resultados. No Parque Marcos Rubin, Jorge Luís de Matos, segurança do local há cinco anos contratado pela associação dos condomínios, há um descaso do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU). “O governo não se preocupa porque é perto da periferia”, criticou. No extremo sul e sul da Capital, a condição encontrada foi a mesma. Natalia Gadini, que frequenta a Praça Monsenhor Antonino Dutra, explicou que a manutenção da praça é muito precária. A moradora também reclamou da iluminação durante a noite: “Não me sinto segura pelo que tem acontecido aqui. Há um tempo, era um lugar muito bom de se viver, mas agora não é”.

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Parque

Área

Grama

Parque Marechal Mascanhares de Moraes (Bairro Humaitá)

182.383 m²

Mal cortada.

18 p

Parque João Pereira da Fonseca (Bairro Hípica) – Extremo Sul

96.060 m²

Não cortada.

10 p

Praça Pedro Vergara (Bairro Aberta dos Morros) – Zona Sul

84.616 m²

Parcialmente cortada.

Oito

Parque Brigada Militar (Bairro Jardim Itu Sabará) – Zona Leste

64.225 m²

Não cortada e com grama seca não recolhida.

24 p

Praça Monsenhor Antonino Dutra (Bairro Aberta dos Morros) – Extremo Sul

64.010 m²

Parcialmente cortada, mas não recolhida.

11 p

Parque Marcos Rubin (Bairro Jardim Carvalho) – Zona Leste

63.375 m²

Não cortada, com galhos secos espalhados pelo chão.

Três prim Cad algu ou q dois

Praça dos Açorianos (Bairro Centro) – Centro

48.055 m²

Cortada.

Cinc

Praça México (Bairro Rubem Berta) – Zona Leste

46.567 m²

Parcialmente cortada.

Nove

Parque Vinte de Maio (Bairro Vila Ipiranga) – Zona Leste

45.096 m²

Parcialmente cortada, com galhos e pedaços de árvore não recolhidos.

Nen

Praça Frei Celso Brancher (Bairro Teresópolis) – Zona Sul

40.273 m²

Parcialmente cortada.

Sete dele 16:4


altrata seus parques Po s te s

Li xe ira

L i xo no c hã o

B a nhei ro s

A c e ss ib ilid a d e

Func ionár ios / se gura nç as

Calç ame nto

Praci nha / quadras

Bancos

Bebedouros

Monument os / escul t uras

Em torno de 100.

Tem.

Placa pela inauguração.

Tem, mas irregular Brinquedos devido às raízes de enferrujados, mas firmes. árvores.

Sete, todos ao redor do espaço da STS.

Não tem.

Placa de identificação dafinicada.

Sem funcionário presente.

Tem, em bom estado.

Pracinha em boas condições, uma quadra futebol de cimento, uma quadra de futebol de grama.

Três

Não tem.

Não tem.

Não tem.

Sem funcionário presente.

Não tem.

Brinquedos enferrujados, mas firmes. Um degrau do escorregador com prego exposto e quebrado.

Seis, um deles Não tem. estragado. Pixados.

Não tem.

Não tem.

Não tem.

Sem funcionário presente.

Não tem.

Duas pracinhas com brinquedos quebrados, pista de skate, quatro quadras de futebol, postes para rede de vôlei, duas canchas de bocha, um mesa de xadrez.

37

Não tem.

Não tem.

Não encontrado. Uma lixeira por parquinho. Ao redor do parque, lixeiras da prefeitura.

Não tem no perímetro observado (os dois níveis de praça).

Um rebaixamento na calçada.

Tem um funcionário.

Tem, com crescimento de grama no meio.

Três pracinhas, em mau estado. Quatro quadras com árvores. Duas canchas de bocha, uma mal conservada e outra em condições de jogo. Uma mesa de xadrez.

Bancos em estado regular com algumas pichações e ferrugens. No segundo parquinho, há 10 bancos.

Um bebedouro sem pressão na água.

Tem um busto.

co postes.

Nenhuma lixeira.

Encontrado.

Não tem.

Tem.

Funcionário contratado pela Cootravipa para limpeza. Uma vez por semana faz a ronda na praça.

Não tem.

Não tem.

Oito

Não tem.

Tem. Está em cercamento para restauração, com pichações.

e postes.

12 lixeiras.

Encontrado.

Tem.

Não tem.

Tem um funcionário.

Tem, com o crescimento de grama no meio e irregular.

Duas pracinhas, pista de skate e quadras em perfeito estado.

26

Tem um.

Não tem.

nhum.

Quatro tonéis e 16 lixeiras. Sacolas de lixo ao lado das lixeiras.

Encontrado.

Não tem.

Não tem.

Tem funcionário contratado pelos moradores, para jardinagem e recolhimento de lixo.

Tem, em boas condições.

42, sendo Três quadras um deles de futebol, uma quebrado. de bocha e uma praça, com gangorra e balanço quebrados.

Tem dois. Um quebrado e outro funcionando.

Não tem.

e postes, um es ligado às 42.

Nenhuma lixeira.

Encontrado.

Não tem.

Não tem.

Sem funcionário presente.

Não tem.

Não tem.

Não tem.

Tem, não conservado.

postes.

Cerca de 120 lixeiras.

Não encontrado. Tem, em bom estado.

Não tem.

Associação dentro do parque com uma equipe com cerca de seis funcionários.

Tem, com buracos preenchidos com areia.

postes.

Dois tonéis e uma lixeira na parada de ônibus.

Encontrado.

Tem um que só a STS (empresa de ônibus) pode usar.

Não tem.

Sem funcionário presente.

o postes.

Nenhuma lixeira.

Encontrado.

Não tem.

Não tem.

postes.

Nenhuma lixeira.

Não tem. Encontrado, inclusive móveis abandonados (mesa e cadeiras de praia).

postes.

Nenhuma lixeira.

Encontrado

s postes na meira área. da espaço com um brinquedo quadra tem de s a três postes.

Pracinhas razoáveis, quadras de vôlei, futebol, pista de skate e churrasqueiras para lazer.

11. Pichados.

SEGUE >> MAIO/JUNHO DE 2015 • PÁGINA 7


porto alegre história

É preciso cercar? U M DOS PA RQ U E S M A I S VIS ITADOS DA CAPITAL, RE DE NÇ Ã O VOLTA A SER ASSOMBRA DA PELO FAN TAS M A DO C E RCAME NTO COMO FORMA DE GARANTIR SEGURA NÇA DO USUÁ RIO Annie Castro (2º sem.) P O R Cândida Schaedler (7º sem.) e Pedro Silva (5º sem.)

tada. Com o objetivo de pleitear soluções junto ao governo, cinco pessoas reuniram-se na época e criaram a Associação. Com um abaixo-assinado que angariou mais de 300 cidade que cuida mal dos seus assinaturas de frequentadores da Redenção, parques é assombrada por um eles conseguiram aumentar a vigilância no debate recorrente: o cercamento local, o que diminuiu a violência. Para ele, a do Parque Farroupilha, conheciação é uma prova de que a solução não está do por Redenção. Este ano, o vereador Neno cercamento. reu D’Ávila (PDT) retirou da gaveta o projeto Atual membro do Conselho de Usuários de debater a construção mais uma vez, e a do Parque Farroupilha, Roberto Jakubaszko Câmara o aprovou. Com a sanção do prefeito concorda com Machado. “Enquanto a popuJosé Fortunati, haverá um plebiscito, em lação não ocupar o espaço público, a violência data ainda a ser definida, para consultar a vai aumentar”, avalia. Juntamente com a Aspopulação porto-alegrense. Especialistas, sociação dos Artesãos do Brique da Redenção membros do Conselho de Usuários da Re(AABRE), o conselho pretende confeccionar denção e presidentes de associações ligadas panfletos e adesivos para conscientizar a poao parque, porém, contestam a necessidade pulação a se posicionar contra o cercamento. do projeto e apontam alternativas ao gradeO presidente da AABRE, João Batista amento de espaços públicos, frisando que Castilhos da Rocha, recorda que, na essênocupá-los e cuidá-los são possíveis soluções. cia, a criação do Brique, em abril de 1982, O geólogo e doutor em Ecologia da Paisafoi uma reação ao abandono do parque na gem da Universidade Federal do Rio Grande época. Assim, ocupar o espaço público e do Sul (UFRGS) Rualdo Menegat diz que o enchê-lo de vida e atividades é uma solução. argumento da insegurança dentro da RedenEle acredita que o cercamento serve para ção não justifica a proposta. Para ele, cercar excluir os “indesejados” – pois defende que o parque seria um ato de extrema violência, um grupo de pessoas quer excluir outras que porque iria contrariar a sua história de lijulgam ser perigosas pela condição social ou berdade. “Colocar uma cerca na Redenção é aparência física. colocar uma cerca na história, cultura e paiO coordenador da Serenata sagem de Porto Alegre. Cercar Iluminada em Porto Alegre, um lugar que sempre acolheu Pedro Loss, também parte da todos os públicos é destruir um Especialistas mesma ideia de ocupação do símbolo da cidade”, pontua. defendem espaço público. O projeto existe Menegat entende que a desde 2012 e tem como prinmelhoria na vigilância e no poocupação do cípio a utilização de parques e liciamento poderiam ser soluespaço púcentros históricos da Capital ções. Contudo, mais eficaz seria para encontros culturais pela aprimorar a governança com blico e ativipopulação durante a noite. “Temeios democráticos de gestão, dades como nho a utopia de que um dia não fortalecendo os espaços públiprecisemos mais marcar uma cos e a participação popular. “A alternativa. serenata ou piquenique noturno vida pública precisa ser animapara que eu possa chamar meus da para ocupar os espaços púamigos e ir a parques e lugares públiblicos”, resume. O pesquisador cos de noite com segurança”, projeta. também lembra a importância da Redenção Paulo Gasparotto, ex-presidente da para o paisagismo porto-alegrense, uma vez antiga associação do Parque da Redenção que espaços públicos verdes e abertos são e colunista social, lembra outros projetos imprescindíveis à cidade e à população, tanto que foram pensados para o local. “Tentaram na questão ambiental quanto de lazer. uma vez criar uma passarela para passagem Na visão de Valfrei José Machado, um de automóveis, o que ocuparia parte da Redos fundadores da Associação Amigos do denção”, recorda, mas completa que a ideia Parque, hoje Conselho de Usuários do Parfoi considerada absurda na época. Gaspaque Farroupilha, o problema da insegurança rotto afirma que o gasto com o cercamento que os governantes tanto citam poderia ser da Redenção é totalmente desnecessário, facilmente resolvido com policiamento e não só pelo que significa simbolicamente, câmeras. “Já tivemos essa experiência e funmas também porque exigiria a contratação cionou”, relata. de guardas para vigia. “O dinheiro tem que Machado lembra que, quando o Conseser voltado para o cuidado com o parque. lho foi criado, no início da década de 1980, o Qualquer um que passa por lá vê que está número de assaltos no parque era muito eleabandonado e atirado”, ressalta. vado, o que deixava a população amedron-

A

Aumento no policiamento é apontado como medida para proteger frequentadores de atos de violência O jornalista e professor universitário Juremir Machado da Silva questiona a eficácia da proposta do cercamento e afirma que a ideia em si é antipática. Também aponta que policiamento, vigilância e iluminação à noite poderiam ser alternativas à insegurança no local, uma vez que as grades podem ser burladas. “De noite pode ajudar, não vai ter ninguém lá dentro. Mas será que ninguém vai pular?”, cogita. O Diretório Central de Estudantes (DCE) da UFRGS também é contrário ao cercamento. O coordenador do DCE Samuel Jachetti lembra que diversos casos de

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assaltos são relatados na região do campus próximo à Redenção. “Os casos que são levados à polícia não são nem 20% do total, porque a maioria não faz o boletim de ocorrência”, constata. Na antiga gestão, ainda foi feito um mapeamento dos locais onde mais ocorriam assaltos na região, ideia criticada pela atual chapa, que justifica que isso só piorou o trânsito de pessoas no entorno do parque, uma vez que os alunos ficaram com medo de circular em alguns pontos. Jachetti classifica a ideia de cercamento como problemática e diz que em nada auxiliaria os estudantes.


comportamento história

Novas cores para o trote S EM G A RA N T I R C O MO S E RIA A FIS CALIZ AÇÃO, PROJETOS DE LEI BUSCA M CRIA R R E G R AS PA RA RE P RI M IR RITUAL DE RE CE P ÇÃO A CALOUROS NAS UNIVERSIDA DES Edissa Waldow (4º sem.) P O R Aristoteles Junior (2º sem.)

O

ritual de passagem da escola para a universidade, muitas vezes, deixa de ser a celebração da conquista da vaga para se tornar tema de discussão em grupos de defesa dos direitos humanos. O eixo do debate: o trote estudantil seria degradante, e suas características deveriam mudar. O diagnóstico, contudo, não é acompanhado de um plano de ação por parte das autoridades e da sociedade, o que dificulta a aplicação das leis existentes e leva ao questionamento sobre as pretensões das normas mais novas. O assunto divide opiniões e tornou-se tema de diversos projetos e leis em todas as esferas nos últimos meses. O deputado federal Danilo Cabral (PSB-PE), licenciado para cumprir a função de secretário das Cidades de Pernambuco, é autor do Projeto de Lei Federal 7.609/2014, que tipifica a conduta de constrangimento do trote universitário como crime. Ele admite que sua preocupação não está na fiscalização. “A nossa preocupação é de tipificar a conduta criminal. Então, a responsabilidade pela fiscalização continua sendo da polícia, das universidades etc.”, ponderou. O texto de Cabral tramita na Câmara ao mesmo tempo em que, no Senado, o senador Magno Malta (PR-ES) tenta emplacar um projeto visando solucionar a questão. A tendência, de acordo com Cabral, é que os processos sejam unificados e, com isso, acelerados. A cidade de Porto Alegre aprovou seu projeto de lei do trote estudantil em fevereiro. De autoria do vereador Mauro Pinheiro (PT-RS), após ter passado por todas as etapas de votação, a proposta não foi sancionada nem vetada pelo prefeito José Fortunati. Como ele se absteve de decidir, a promulgação será feita pelo próprio vereador Pinheiro, que ocupa também a função de presidente da Câmara Municipal. O projeto da Capital também delega a responsabilidade da fiscalização às universidades. Estas, no entanto, alegam já estarem realizando trabalhos nesse sentido. As instituições de Ensino Superior têm as suas justificativas sobre como controlam as atividades de recepção aos calouros. A Pró-Reitoria de Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) entende que a lei deixa a cargo das universidades a aplicação das normas. “A UFRGS tem a orientação de que os trotes sejam solidários e que não firam a dignidade de ninguém”, explica a universidade, por meio de nota. Enquanto isso, a Pró-Reitoria Acadêmica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) também se posiciona contra o trote opressor e apoia a promoção do trote solidá-

Uso de tintas é tradição para recepcionar estudantes, mas instituições defendem trotes solidários realizado “sob coação, agressão física, moral rio. A PUCRS alega não ter controle sobre as ou qualquer outra forma de constrangimento atividades fora do campus. que possa acarretar risco à saúde ou à inteO trabalho de prevenção, contudo, parece gridade física dos alunos”. Ainda assim, São não refletir na segurança dos calouros quanto Paulo é um dos Estados protagonistas em ao trote universitário. A estudante Bárbara manchetes relacionadas a trotes que acabaKayser está no segundo semestre do curso de ram mal. Arquitetura e Urbanismo na UFRGS e afirma Procurada pelo Editorial J, a Pró-Reitoque, em função da tradição e da empolgação ria de Graduação da Univercom o momento da aprovação, sidade de São Paulo (USP), participou do trote, mas que limitou-se a indicar comunão se envolveria novamente. Prefeitura nicados oficiais do seu site. Bárbara relata que o rito preNeles, a universidade valoriza sencial teve muitas fases. Ela não teria suas iniciativas para prevenpercebeu que os colegas particomo conção de trotes opressores, tais cipavam de algumas atividades quais o Disque-Trote (criado com receio. “Os encontros dos trolar atiem 2000, com o propósito de bixos, que surgiram após a tudes dos receber denúncias) e a temáparte virtual do trote, foram os tica “Feliz Veterano Novo”, responsáveis pela nossa inteestudantes aplicada nos trotes do primeiro gração. Inclusive, por já estarsemestre de 2015, que enfatizou mos integrados durante o trote a ideia de que o calouro é parte da sujo, tivemos a oportunidade instituição e será o próximo veterano. de repudiar algumas ideias dos O estudante de Medicina e representante nossos veteranos”, conta. do DCE da USP Allan Brum também ressalta O principal exemplo da falha na fiscalios malefícios provocados pelos excessos dos zação quanto às leis que pretendem coibir os veteranos. “Qualquer resquício de suborditrotes opressivos se encontra no Estado de nação entre veteranos e calouros prejudica a São Paulo. De acordo com a Lei nº 10.454, concepção de igualdade entre os estudantes de autoria do então deputado estadual Faria e a visão crítica do seu papel político dentro Júnior (PMDB-SP), aprovada em 20 de deda universidade”, diz. Para Lires Bastos, zembro de 1999, o trote é proibido quando

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estudante de Serviço Social na PUCRS e integrante do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da universidade, a conduta opressora do trote é inaceitável e atinge, especialmente, as camadas sociais mais violentadas da população, como mulheres, negros e homossexuais. “Os trotes, na maioria deles, são machistas, racistas e homofóbicos”, avalia. Antonio Zuin, professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e autor do livro O Trote na Universidade: Passagens de um Rito de Iniciação, acredita que o veterano se sente no direito de domesticar o aluno, não por acaso chamado de bicho. “O trote lhe proporciona um grande prazer, de ordem sádica. E é por isso que há tanta resistência em relação às proibições das novas leis”, explica. Por outro lado, há muitos alunos que veem diversos pontos positivos na tradição do trote. Pietro Bottega, aluno do primeiro semestre do curso de História na UFRGS, acredita que o trote auxilia na interação do calouro com os demais alunos e que há certas atividades que deviam ser tidas como aceitáveis. “Gostei muito do trote em que participei como calouro. Não conhecia ninguém, e o trote ajudou muito no meu processo de integração aos colegas e veteranos”, reconhece.


Fotos: Juliana Baratojo (3º sem.)

novo capitólio história

Guardião do audiovisual CINEMATECA, INAUGURADA EM MARÇO NO PRÉDIO DE UM ANTIGO CINEMA DE CALÇADA, FOI CONCEBIDA PARA PRESERVAR A PRODUÇÃO DE FILMES E VÍDEOS DO ESTADO P O R Rodrigo Oliveira (2º sem.)

A

pesar do encantamento que a sala de exibição e a arquitetura da Cinemateca Capitólio causam no público desde sua inauguração, no dia 27 de março, o espaço tem como principal objetivo a preservação, o armazenamento e a difusão da memória audiovisual do Rio Grande do Sul. A curiosidade foi tanta que, no primeiro fim de semana de funcionamento da sala de projeção, as sessões tiveram lotação esgotada e, em cada uma, cerca de cem pessoas ficaram sem ingresso. Entretanto, mais do que este agito, o que se impõe no espaço é a sua nova vocação de cuidar de parte importante do patrimônio cultural do Estado. O antigo Cine-Theatro Capitólio, inaugurado em 1928 e fechado em 1994, teve uma segunda vida a partir de 2004, quando começaram as obras necessárias para a instalação da cinemateca do Rio Grande do Sul. O resultado foi um ambiente capaz de unir os nostálgicos apaixonados por cinema e o público cansado das salas com programação

essencialmente comercial. Com pouco tempo de funcionamento, o local já está abrigando exibições, exposições e eventos. A cinemateca começa com um acervo organizado de aproximadamente 6 mil títulos em diferentes bitolas e formatos: 35 mm, 16 mm, 8 mm, VHS, DVD e HD. Além de filmes, são armazenados cartazes, folhetos, fotografias, roteiros, catálogos, revistas e livros. Toda a elaboração relativa à produção audiovisual gaúcha, incluindo documentação, são de interesse da instituição. Em função disso, no futuro, o espaço do arquivo pode ser ampliado para outros locais. O acervo começou a ser formado pela Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria Municipal da Cultura (SMC), órgão responsável pela administração da cinemateca, cujo titular atual é Marcus Mello. Parte do material provém do Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproarte), que financia filmes, além de outros projetos. Em contrapartida, os realizadores depositam uma cópia na SMC. Conforme Mello, essa prática preservou uma parcela significativa da produção gaúcha recente.

Além do material cedido, o Capitólio recebe manifestações de instituições e pessoas interessadas em colaborar. Nestes casos, é feita uma triagem para avaliar se o material a ser doado é relevante. A direção do Instituto Estadual de Cinema (Iecine) já contatou a coordenação para comunicar que deseja contribuir com diversas cópias de filmes. Mello enfatizou que a vocação do Capitólio é ser um espaço de guarda e cuidado da produção gaúcha. Assim, produtores e diretores permanecem com os direitos autorais e, inclusive, autorizam a exibição e definem se o ingresso será cobrado. Quando o filme entra em domínio público, a cinemateca tem autonomia para exibi-lo sem autorização prévia. Os direitos autorais duram 70 anos a partir de 1º de janeiro do ano seguinte ao falecimento do detentor. Não são apenas filmes que compõem o acervo. Muitas vezes, um simples material de divulgação, que é reproduzido em grande escala, pode ser a última lembrança de uma obra no futuro. A primeira doação feita para o Capitólio depois da reabertura é um exemplo. O crítico de cinema e colunista do Jornal do

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Comércio Hélio Nascimento cedeu o folheto original do filme Torres (1927), de José Picoral. Nascimento relata que o filme teria sido o primeiro a retratar o trabalho humano em alto mar, antes mesmo de Drifters (1929), do escocês John Grierson, considerado por pesquisadores o pioneiro no tema. O também crítico e historiador Paulo Emílio Sales Gomes, falecido em 1977, ficou impressionado com a produção e levou a única cópia para a Cinemateca Brasileira com o fim de reproduzi-la. No dia 28 de janeiro de 1957, um incêndio destruiu cerca de um terço dos filmes da Cinemateca Brasileira (em torno de 2 mil latas), incluindo o documentário de Picoral. Além disso, o negativo do filme, que estava na Alemanha, foi supostamente destruído em um bombardeio durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mello destacou que a compreensão da necessidade do cuidado com o patrimônio audiovisual é uma construção lenta e política. A Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) auxilia a conscientização de realizadores, da sociedade e do poder público. É importante que a preservação comece logo


Além de salas de cinema, Capitólio abriga revistas e documentos. Marcus Mello diz que meta do espaço é prospectar obras raras ou perdidas e armazená-las em local apropriado na fase de produção. O produtor precisa ter a preocupação e o entendimento de que sua obra pode ser exibida no futuro e valorizada ao longo do tempo. No Brasil, ainda é raro que uma obra preveja em seu orçamento matrizes de preservação (internegativos ou interpositivos). Os custos de restauração ou de duplicação de películas também são altos e não permitem um retorno comercial satisfatório. Mello lembra que existem filmes nacionais cuja única cópia existente é um VHS. Produções amadoras historicamente relevantes também podem ser doadas ao acervo da cinemateca. Muitas delas, no entanto, são obtidas em material frágil e se encontram em condições precárias, correndo risco de serem perdidas definitivamente. O motivo disso, conforme Mello, é que o público em geral desconhece medidas de conservação. Assim, uma das metas do Capitólio é prospectar, por meio da imprensa e de outras instituições ligadas ao cinema, obras perdidas ou de existência ainda desconhecida. É preciso entender que os filmes estarão melhor conservados e armazenados em um local especializado do que em residências, galpões ou depósitos. A cinemateca conta com salas climatizadas para o armazenamento das películas em processo de deterioração. Mello destaca que os filmes em más condições prejudicam os demais, se depositados em um mesmo local. Muitos chegam às cinematecas com cheiro péssimo e contaminados por fungos. Atualmente, não existem profissionais capacitados no Rio Grande do Sul para restauro, mas é cogitada a possibilidade de se trazer um especialista de São Paulo. Além disso, Mello apontou ser necessário formar pessoas aptas ao trabalho de preservação e possibilitar

convênios com faculdades, acrescentando disciplinas referentes ao tema nos currículos dos cursos de cinema no Estado. Por enquanto, cinco pessoas estão trabalhando no acervo: dois funcionários da prefeitura e, na área de arquivologia, há dois estagiários e um contratado pelo período de um ano. A função do grupo é verificar e organizar o material já reunido. O acesso ao arquivo é restrito a pesquisadores e à própria equipe. A circulação do público não é permitida, para garantir a conservação dos materiais. Em abril, no evento de comemoração aos 30 anos da Associação dos Profissionais e Técnicos Cinematográficos do Rio Grande do Sul (APTC-RS) realizado no Capitólio, Marcus Mello disse que o próximo passo é consolidar a instituição como cinemateca do Estado. “Não é só uma sala de cinema”, ressalta. A parte mais invisível do processo é também a mais cara, dependente de manutenção e de profissionais qualificados. No evento, o então presidente da APTC-RS, Giba Assis Brasil, salientou que não pode se pensar a coordenação da Secretaria Municipal de Cultura como única administradora do Capitólio. Para ele, a prefeitura ainda precisa disponibilizar mais recursos humanos para que os compromissos sejam cumpridos. Hoje a equipe se reveza para atender a todas tarefas do espaço, inclusive bilheteria. O professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Glênio Póvoas participou da discussão inicial para criação da cinemateca. Quando desenvolveu sua tese de doutorado sobre as primeiras imagens registradas no Rio Grande do Sul e resgatou seus primeiros 50 anos de produção, percebeu que não basta apurar da-

dos e analisar resenhas sobre os filmes. Para o pesquisador, é essencial contatar os realizadores, localizar as obras e entender como elas estão armazenadas. A ex-coordenadora de preservação da Cinemateca Brasileira Fernanda Coelho, que trabalha com arquivos audiovisuais desde 1979, explicou que somente na década de 1930 surgiram as primeiras cinematecas no mundo, baseadas no pensamento de que o cinema ultrapassa as barreiras do entretenimento. Portanto, é um cuidado relativamente recente na história do cinema e que deve ser constantemente reforçado. Para ela, as cinematecas são uma resistência à tendência descartável da produção audiovisual atual. Fernanda explica que toda cinemateca precisa cumprir quatro funções básicas: reunir, documentar, conservar e difundir. Com a não preservação, além de se perder o passado, se perde o futuro. No final da década de 1970, se pensava na organização de uma cinemateca nacional para garantir o patrimônio da produção de todo o Brasil. Um arquivo central guardaria todas as matrizes dos filmes e distribuiria cópias para filmotecas regionais. Para Fernanda, felizmente isso não se concretizou. Por mais que a ideia possa parecer interessante, nenhuma entidade seria tecnicamente capaz de preservar a filmografia de todo o país em um único lugar. “Tudo que se cria está contaminado pela cultura”, acredita Fernanda. O Capitólio, sendo regional, é naturalmente mais capacitado para identificar e interpretar os elementos locais. Fernanda acrescentou que se todos os Estados tivessem uma cinemateca própria, em conjunto elas possibilitariam a preservação do cinema nacional.

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Lugar da memória A Cinemateca Capitólio, localizada na esquina da Rua Demétrio Ribeiro com a Avenida Borges de Medeiros, na Capital, é composta por: • Acervo distribuído em quatro pavimentos; • Sala de exibição em formato stadium com capacidade para 164 pessoas; • Espaço para exposições e projeções de videoarte; • Sala multimídia equipada com projetor digital de alta definição, destinada a cursos, palestras e oficinas; • Duas salas para a consulta individual de pesquisadores mediante agendamento por meio do telefone (51) 3289-7463; • Biblioteca de documentação sobre a produção audiovisual do estado, sem possibilidade de empréstimo; • Cafeteria localizada no segundo andar.


X Engajado

ÍCONE DA JUNK FOOD CHEGA À COZINHA VEGANA, CONTRÁRIA A INGREDIENTES ANIMAIS P O R Angelo Werner (2º sem.)

X

is, o tradicional lanche de rua do Rio Grande do Sul, rápido, prático, prensado e exagerado – sobretudo exagerado. Veganismo, uma filosofia cujos adeptos buscam a não exploração dos animais na vida cotidiana e que vem crescendo bastante no mundo todo, inclusive no Brasil. As duas definições, aparentemente, são de universos distintos. Como, então, surgiu o xis vegano? Em outras palavras, como um ícone da junk food ganhou um adjetivo consciente e saudável? Os veganos não consomem carnes, ovos, leite e seus derivados, nem utilizam peles, lã, couro e seda na vestimenta. Cada vez mais há pessoas interessadas em conhecer esta prática, tanto que o site alexa.com contabiliza que o portal vegano Vista-se esteve entre os mil sites brasileiros mais acessados durante o mês de abril, com mais de 500 mil acessos. Conforme dados do Google Trends, as pesquisas por veganismo no Google cresceram 500% nos últimos cinco anos no Brasil, sendo o Rio Grande do Sul o segundo Estado onde há mais buscas sobre o assunto. Em Porto Alegre, o interesse crescente acabou estimulando que lancherias incluíssem em seu cardápio o inusitado xis vegano. É o caso da M&M Lanches, que passou a oferecer opções veganas após a provocação de um cliente. “Não tínhamos nenhuma opção vegetariana ou vegana, e um cliente vegano ficava me falando que não conhecia lugares onde pudesse comer. Então começamos a trabalhar com soja e logo mais com vegetais. Depois disso, não paramos mais”, contou Selene Telles Bueno, desde 2008 proprietária da M&M. A lancheria, na verdade um trailer instalado no pátio de uma casa em frente à Praça Marquesa de Sevigné, na esquina das ruas Coronel Genuíno e General Lima e Silva, no Centro, movimenta o local diariamente das 20h até a meia-noite. O trailer parece bastante convencional e não dá indícios da especialidade da casa. O que acaba por determinar o ambiente é a própria praça, extensão natural do estabelecimento, onde diversos adesivos e desenhos trazem mensagens de proteção aos animais. Uma das imagens fixadas nas lixeiras mostra a cabeça de uma vaca e a inscrição “Não mate”. Uma mureta e um chafariz desativado servem de banco para os clientes que comem ou esperam seus xis ficarem prontos. As gangorras e os balanços, bem no meio da praça, também são opção de assento, quando não estão tomados por crianças moradoras da região que enchem o local com seus gritos e brincadeiras. A nova opção do estabelecimento trouxe vida e agito a um lugar antes habitado por muitos pombos e poucos clientes. “O público dobrou! Quase não tinha movimento quando trabalhávamos apenas com carne. Penso até em tirar a carne, mas não tiramos porque essa opção existe desde o início, e tem clientes antigos que ainda pedem. Mas, se eu fosse abrir

Guilherme Almeida (6º sem.)

uma filial, certamente trabalharia só com opções veganas e vegetarianas”, explica Selene. Os sabores mais procurados são os de moranga, berinjela, grão de bico e estrogonofe de soja, com preços que variam de R$ 12 a R$ 15. Além da M&M, outra opção para se comer xis vegano é o tradicional restaurante Govinda, inaugurado há 17 anos com a proposta inicial de servir comida lactovegetariana (lactovegetarianos não consomem carne nem ovos, mas não excluem leite e seus derivados). Cinco anos depois, inaugurou também uma lancheria anexa. O local apresenta decoração temática hinduísta, com quadros de divindades. No balcão, adesivos estampam mensagens de incentivo a uma alimentação livre de carne. Inicialmente focada na venda de pizzas e sanduíches, o xis era apenas uma alternativa. “Desde o começo, o xis foi um sucesso. Nem imaginávamos que se transformaria no nosso carro-chefe”, revela o funcionário Līlā Dās, hare krishna que preferiu informar apenas o seu nome espiritual, em sânscrito. E o veganismo veio bater na sua porta há cinco anos, devido também à demanda dos clientes. Localizado na esquina das ruas Santa Terezinha com José Bonifácio, ao lado do Brique da Redenção, a lancheria lota nos fins de semana, tamanha a procura pelo xis vegano. “O pessoal come até na calçada, a gente teve que expandir. Vendemos uns 150, fora os outros lanches”, conta Līlā, que atribui o movimento à proximidade com o Parque da Redenção. As opções de xis do Govinda são com hambúrguer de soja ou bife de glúten, e custam R$ 12 (pequeno) e R$ 16 (grande). “É um xis bastante substancial, muitos nem conseguem comer todo”, alerta Līlā Dās. Mas será que este diálogo entre a cultura vegana e o lanche de rua é aceitável? Para o cozinheiro Rafael Barcelos, especialista neste tipo de culinária, o xis pode ser considerado um prato vegano. “Ele é, porque mostra que é possível. Quem vê o veganismo com preconceito não imagina comidas do dia a dia como possíveis no veganismo, e o xis é o exemplo clássico de que não precisa abrir mão de uma coisa pela outra”, argumenta Barcelos. Sendo originário do inglês cheeseburguer, o queijo é um dos elementos principais do xis, mas isso pode ser contornado de diversas formas na gastronomia vegana, que não tolera o uso de derivados do leite. No Govinda Lanches, é utilizado o tofupiry, inspirado no requeijão catupiry, mas feito à base de queijo de soja (tofu). Existem outras opções, como queijo de mandioca ou queijo de amêndoas. O veganismo é um estilo de vida, uma filosofia, uma escolha moral e ética que seus adeptos praticam na vida cotidiana, da melhor forma possível, inclusive na hora de comer um lanche de rua barato e rápido. “Do ponto de vista vegano, pode ser o formato que quiser, o nome que quiser, contanto que nenhum animal tenha sido envolvido no processo”, ressalta Barcelos. Portanto, veganos do mundo, está liberado: xis sim, sempre exagerado.

Profile for Editorial J

Editorial J – Número 19 - Maio/Junho de 2015  

Edição impressa do Editorial J, o laboratório curricular de jornalismo da Famecos/PUCRS.

Editorial J – Número 19 - Maio/Junho de 2015  

Edição impressa do Editorial J, o laboratório curricular de jornalismo da Famecos/PUCRS.

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