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U ma J o r na da de Mil M i l ha s

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U ma J o r na da de Mil M i l ha s M i n h a

h i s t รณ r i a

LANG LANG E DAV I D R I TZ

T RA D U รง รฃ o : E L A I N E T R I N DA D E

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M i n h a

h i s t 贸 r i a

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L A N G E

L A N G

D A V I D

R I T Z

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Título do original em inglês: Journey of a thousand miles: my story Publicado mediante acordo com a Spiegel & Grau, uma divisão da Random House, Inc., EUA. Copyright © 2008 by Lang Lang Tradução: Elaine Alves Trindade Preparação e revisão: Depto. editorial da Editora Manole Editoração eletrônica: Luargraf Serviços Gráficos Ltda. - ME Adaptação da capa para a edição brasileira: Depto. de arte da Editora Manole Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lang, Lang Uma jornada de mil milhas / Lang Lang & David Ritz ; [traduzido por Elaine Alves Trindade]. -1. ed. -- Barueri, SP : Manole, 2008. Título original: Journey of a thousand miles. ISBN 978-85-204-2848-1 1. Lang, Lang, 1982- 2. Pianistas - China Biografia I. Ritz, David. II. Título. 08-09291

CDD-786.2092

Índices para catálogo sistemático: 1. Pianista chinês : Biografia 786.2092 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, por qualquer processo, sem a permissão expressa dos editores. É proibida a reprodução por xerox. 1ª edição brasileira - 2009 Direitos em língua portuguesa adquiridos pela: Editora Manole Ltda. Av. Ceci, 672 - Tamboré 06460-120 - Barueri - SP - Brasil Fone: (11) 4196-6000 Fax: (11) 4196-6021 www.manole.com.br info@manole.com.br Impresso no Brasil Printed in Brazil

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Pa r a m i n h a m 達 e e m e u p a i

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“Uma jornada de mil milhas começa com um único passo.” - Lao-tzu, O Caminho de Lao-tzu

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S u m á r i o

Introdução

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PA RT E U M : PA RT E DA I N F Â N C I A evo lu ç ã o

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Revolução

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Tom e Jerry

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O quartel

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A história da professora

22

O Macaco

28

Terra de rivais

32

Número Um

36

O cachorro amarelo

42

Saindo de casa

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S um á ri o

PA RT E D O I S : A C I DA D E E L E T R I ZA N T E

Febre

57

A Professora Brava

61

Vergonha

70

Tio no 2

77

O retorno à música

84

Nove meses

90

Papel vermelho no quadro de avisos

96

Recomeçando

103

O Mestre de Kung Fu das Oito Regiões

109

PA RT E T R Ê S : A L É M DA C H I N A

Alemanha

115

Chopin

131

A batalha de Rachmaninoff

142

PA RT E Q UAT RO : Estad os U nid os

Estados Unidos

149

Despedida

153

Pequim 9, Xangai 1

160

Hip-Hop

165

Gary Graffman

170

Tutor cultural

182

Maestro Eschenbach

187

As Cinco Grandes

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S um á ri o

PA RT E C I N CO : C I DA D ÃO D O M U N D O

O retorno ao lar

209

A imprensa

216

Os críticos

220

Maestro Barenboim

223

Dois cavalos

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Além da música

234

Agradecimentos

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meus pais, minha bisavó m at e r n a e e u

Introdução

Na minha mente, eu ouvia música enquanto minha mãe me segurava

em seus braços, uma melodia triste que não consigo lembrar. Ela estava dizendo adeus. Eu tinha 9 anos e não podia imaginar minha vida sem ela – ela era o mundo para mim. Estava voltando para Shenyang, e eu ficaria com meu pai em Pequim. Shenyang era nosso lar, repleto de pessoas que eu conhecia e amava. Pequim era fria e solitária, uma imensa paisagem urbana com infinitos bulevares repletos de gente. Era uma cidade onde eu não conhecia ninguém. Uma mulher magra, com cabelos ondulados e grandes olhos escuros, minha mãe sempre sorria quando olhava para mim – até seus olhos sorriam. Mas agora seu rosto estava molhado pelas lágrimas. Eu rezei para ela não partir. – Basta! – disse meu pai a ela. – Está na hora de ir. Deixe o menino. Todo esse sentimentalismo o torna fraco. – Sei que tem razão, Lang Guoren – disse minha mãe, chorando compulsivamente. – Mas isso vai ser duro para ele. Ele é uma criança sensível. – Ele fará o que tiver de ser feito. Todos nós faremos.

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I n t ro d u ç ã o

Eu me agarrei à minha mãe enquanto ela se dirigia à porta. Meu pai me afastou dela. A porta se abriu. Minha mãe partiu. – Vá praticar – disse meu pai. – Já perdemos tempo suficiente hoje.

A música abriu o mundo para mim, um menino dos subúrbios

da China industrial, que hoje se apresenta em um país diferente a cada semana e não tem um lar fixo, apenas os lares do meu coração: China, minha amada terra natal; Europa, a terra dos meus heróis musicais; Estados Unidos, a terra que me transformou e me conduziu à idade adulta. Música, minha linguagem básica, é a linguagem universal, ainda que cada país fale seu próprio dialeto. O Ocidente e o Oriente podem compartilhar a mesma tecnologia, arte, moda, cultura e o mesmo esporte, mas, ainda assim, suas diferenças continuarão enormes. Por causa das diferentes expectativas culturais, até uma mesma música pode soar diferente aqui e ali. No Ocidente, a música clássica é uma arte antiquada que foi substituída pelo rock, pelo hip-hop e por outras músicas pop direcionadas aos jovens. Já na China, um país fechado para o Ocidente durante a Revolução Cultural das décadas de 1960 e 1970, a música clássica é considerada a música da moda. Sempre que faço um concerto na China, 90% do público é de jovens com menos de 20 anos. Quando dou aula mestra por lá, algumas famílias dormem na calçada para conseguirem um lugar, como os adolescentes fazem aqui nos concertos de rock. As crianças na China estão aprendendo música clássica e adorando, o que é surpreendente. Cinqüenta milhões delas estudam música, e dentre estas, 36 milhões estudam piano. Todas as escolas públicas têm aulas de música, e metade das músicas que os estudantes aprendem vem do Ocidente. A venda de pianos está decaindo nos Estados Unidos, mas cresce fortemente na China. O amor da China pela música clássica pode, em muitos casos, ser ingênuo. Há uma piada que gosto de contar sobre um grupo de produtores de discos que receberam o pianista Vladimir Ashkenazy na sala de reuniões 2

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I n t ro d u ç ã o

para tratar de uma nova gravação de valsas de Chopin. Os produtores se sentaram em silêncio, até Ashkenazy perguntar se eles não iriam começar a reunião. “Não devemos esperar o compositor?”, um deles perguntou. Fico feliz com o fato de os estudantes de piano da China sentirem que a música clássica é tão atual e importante. Quando um jovem me diz: “Ei, Lang Lang, soube que gravou pela Deutsche Grammophon. Sei que Mozart também tem contrato com esse selo”, eu fico feliz. Adoro a idéia de o garoto achar que Mozart ainda está vivo e bem. Alguém também me perguntou se Beethoven toca piano melhor que Elise ou se Elise toca melhor que Beethoven (Beethoven escreveu uma peça chamada Für Elise). Eu respondi, “O que você acha?”. Não me importo quando o público chinês aplaude entre os movimentos de um concerto em vez de esperar até o final. Para mim, o amor pela música é mais importante que a etiqueta tradicional. Quando viajo, sou constantemente questionado sobre a minha música, sobre minha infância e sobre vencer as diferenças entre o Oriente e o Ocidente. Para mim, a forma mais fácil de responder a essas questões é por meio da minha história. Minha história é a música: a música clássica, a música chinesa, a música que eu ouço na minha mente... Minha história é a China: a China antiga e a China moderna, o próprio espírito da China, minha terra natal... E minha história também é o Ocidente, o meu outro lar, no qual fui bem recebido e que deu forma à minha vida quando adulto. Tudo começou quando meus pais descobriram que eu tinha talento para música.

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u m P a r t e

P a r t e

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i n f 창 n c i a

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a n da n d o n o s i d eca r da m oto c i c l e ta d o m e u pa i n a bas e da Fo r ç a A é r e a

Re v o l u ç ã o

A Revolução Cultural da China, que começou em 1966 e durou uma

década, teve um impacto enorme em praticamente todas as pessoas na China. Eu nasci em 14 de junho de 1982, 6 anos após o término da Revolução, e ainda senti sua imensa reverberação. A Revolução foi uma grande revolta em toda a sociedade, com efeitos tanto no aspecto social como no político, na qual todos os estudantes e intelectuais, inclusive músicos e artistas, foram enviados a outras cidades para trabalharem em fazendas e aprenderem com os camponeses. Milhões de profissionais foram forçados a deixar suas casas. A China tinha de ser auto-suficiente e fechada para o Ocidente. Por volta dos meus 7 anos, comecei a fazer perguntas a minha mãe sobre o passado de nossa família. Uma noite, enquanto meu pai estava no trabalho fazendo a ronda nos clubes noturnos e na região badalada de Shenyang, e depois que eu tinha terminado meus longos exercícios no piano, minha mãe sentou-se perto de mim, oferecendo um copo de água fresca e pedaços de laranjas. Não demorou muito para que ela começasse a falar sobre sua juventude. Eu adorava ouvir as histórias de minha mãe. Como ela tinha sido cantora e atriz na escola, falava de modo teatral, com um entusiasmo radiante e

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Pa rt e da i n f â n c i a

com incríveis pausas dramáticas. Enquanto ela me contava a história de sua vida, da vida do meu pai e de como seus caminhos se entrelaçaram, a música na minha cabeça acompanhava cada história – desde sempre tive uma trilha sonora diferente tocando na minha cabeça, acompanhando a maioria dos momentos importantes da minha vida. Eu ouvia estudos musicais e concertos, sonatas e grandes sinfonias. Ouvia harmonias e contrapontos. Ouvia a ação da música. Para mim, a música era ação. E a vida de meus pais era repleta de ação, recheada de drama e música eletrizante. “Música”, dizia minha mãe, “foi o primeiro amor da minha vida. A música sempre elevou meu espírito e me trouxe alegria”. Mamãe me disse que quando ela tinha 4 anos, seus pais fizeram a mudança da família – ela e os três irmãos – de Dandong, na costa da Coréia do Norte para Shenyang no norte da China, onde o pai dela trabalhava como técnico altamente qualificado em uma siderúrgica e sua mãe era contadora. O avô dela adorava cantar canções da Ópera de Pequim, assim, a música enchia a casa. – E a minha avó? – perguntei. – Porque eu não a conheci? – Ela morreu de uma doença nos pulmões quando eu era pequena. – Pequena quanto? – perguntei. – Eu tinha 9 anos. Meu coração começou a bater sem parar – de repente, eu fiquei apavorado. – Você vai morrer quando eu tiver 9 anos? – Ah não, querido – garantiu ela, – eu sempre estarei com você. – Você ficou com medo? – perguntei. – Sim, eu fiquei com medo. Por ser a única filha, eu era muito apegada a minha mãe. Perdê-la doeu demais. Eu tinha medo de viver sem ela. – Então, o que aconteceu? – O mundo seguiu seu caminho, disse minha mãe. O mundo sempre segue seu caminho. O pai dela destacou-se em seu emprego na siderúrgica. Ele inventou um dispositivo que aumentava a produtividade e foi recompensado de forma justa. Minha mãe foi para a escola e saía-se bem; todos na família 8

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eram alunos brilhantes. Na escola, ela começou a atuar em peças infantis e a cantar e dançar. Então, em 1966, veio a Revolução Cultural da China – e tudo mudou. O avô paterno de minha mãe era proprietário de terras, apesar de minha mãe nunca ter visto essas “terras”. Embora o pai dela fosse um inventor de sucesso e um técnico muito importante na siderúrgica, naquele momento ele passou a ser considerado uma pessoa não confiável e era supervisionado bem de perto. Circulavam rumores de que meu avô estava conspirando contra a Revolução Cultural da China. É claro que os rumores eram falsos, mas eles persistiam. Para que mamãe e seus irmãos não se preocupassem, o pai dela nunca contou nada sobre o fato. Eles só descobriram quando, um dia, um amigo foi a casa deles e gritou: “Eles colocaram seu pai na parada dos tolos!”. Minha mãe nem sabia o que isso significava, mas é claro que ela saiu correndo para ver. Na rua, um grupo de homens estava sendo forçado a marchar para fora da siderúrgica, o pai dela estava entre eles. Todos usavam chapéus de burro e seguravam grandes cartazes com palavras que minha mãe não entendia. Ela queria correr em direção a ele, mas ele foi cercado pelos guardas. Naquela noite, seu pai não voltou para casa. Ela chorou como um bebê. Quando ele finalmente apareceu na manhã seguinte, ela correu até ele. – Por que estão fazendo isso com o senhor? – reclamou. – O senhor cometeu algum erro? – Não cometi erro algum – disse meu avô. – Não fiz nada de errado. Mas estamos sofrendo mudanças da época com novas pessoas no poder que me perseguem apesar de nem me conhecerem. O pai dela foi reintegrado na siderúrgica, mas foi rebaixado de cargo e não era mais reconhecido nem respeitado. Minha mãe sentia o desprezo da comunidade de forma mais intensa na escola. Seus colegas de turma estavam sendo escolhidos para servir na Guarda Vermelha, o que era uma honra para os meninos e meninas. Os selecionados usavam um lenço vermelho especial no pescoço, mas por causa de seu pai, mamãe foi proibida de usá-lo. Ela era uma boa cantora, então, apesar do desprezo, eles queriam que ela cantasse para a escola. Durante as suas apresentações, davam a ela o 9

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lenço vermelho, mas ao final, o lenço lhe era tomado. Os meninos da escola perseguiam e debochavam dela pelos corredores. Eles nunca esperavam que ela retrucasse, mas ela sempre retrucava. Ela debochava deles também. Ela poderia se sentir magoada pelo ódio deles, mas não era tímida nem fraca. Tinha sonhos e ambições. – Que tipo de sonhos, mamãe? – perguntei. – Sonhos de entrar para um grupo profissional de dança ou de música. Sonhos de representar. Quando eu estava no palco, não importava o que pensavam de mim – lá em cima, eu era invencível. Mamãe tinha imaginação e talento. Ela conseguia sentir a história por trás das letras das músicas e tornava essa história viva. Ela conseguia transformar-se em várias personagens. Ela conseguia mergulhar em um drama histórico ou em uma música de outro século ou em uma coreografia feita décadas antes de ela nascer. No palco, ela se sentia livre, tinha grandes esperanças de se tornar uma profissional. Os militares recrutavam atrizes e cantoras para divertir as tropas do Exército da Libertação Popular. Naquela época, os militares representavam o poder mais importante e tocar para os generais era a maior das honras. Minha mãe tinha todas as razões para crer que seria escolhida. Suas professoras a recomendaram enfaticamente. Seus colegas diziam que ela era a atriz, a dançarina e a cantora número um da escola. E, ainda assim, ela foi rejeitada. “A família do meu pai era de proprietários de terras, e os proprietários, e até mesmo suas netas, não eram considerados confiáveis durante a Revolução”, disse minha mãe. “Meu período na escola acabou e, com ele, os meus sonhos...” Minha mãe e seus três irmãos foram levados para longe do pai – ela foi trabalhar em uma fazenda e seus irmãos foram trabalhar em aldeias diferentes. Um dos seus irmãos era um talentoso cantor da Ópera de Pequim, mas sua carreira acabou durante a Revolução. Eu adorava ouvir minha mãe falar mas, inevitavelmente, suas histórias chegavam ao fim, e ela falava para eu ir praticar. Eu praticava peças de Chopin e Liszt que outros alunos só teriam contato por volta dos 13 ou 14 anos, e eu ficava empolgado com o desafio. Mas, enquanto meus dedos moviam-se pelas teclas, minha mente passeava pelas histórias da minha mãe 10

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sobre minha família. Eu fiquei orgulhoso por ela não ter permitido que os meninos na escola a intimidassem e pela sua força. Para mim, ela era a artista que tinha desejado ser. Eu praticava para compensá-la pelas oportunidades perdidas, até eu vencer a música, assim como ela tinha vencido seus inimigos. A música tornou-se uma trilha sonora de um filme sobre a minha mãe. Em nossa pequena mesa de jantar, ela me servia a comida que eu mais gostava, bolinhos fritos e chucrute com carne de porco. Meu pai trabalhava até tarde, então, ela e eu normalmente comíamos sozinhos, e eu insistia para ela continuar contando suas histórias. Ela me contou como ela e meu pai se conheceram em 1977, quando os dois tinham 24 anos. A Revolução Cultural da China tinha terminado e, graças ao seu excelente trabalho na fazenda, permitiram que retornasse a Shenyang. Ela tinha acabado de começar a trabalhar como telefonista no Instituto de Ciência, e meu pai trabalhava em uma fábrica durante o dia. Mas o sonho dele era ser um músico profissional. Ele tocava erhu, um violino de duas cordas, o instrumento mais popular na China, que em uma orquestra tradicional tinha um papel semelhante ao do violino em uma orquestra do Ocidente. Embora seu sonho de entrar em um conservatório musical não tivesse se realizado, pois os conservatórios haviam sido fechados durante a Revolução Cultural, ele conseguiu um emprego de meioperíodo tocando na banda de um circo acrobático e, às vezes, viajava com eles. Mas o emprego não era estável. No primeiro encontro deles, meu pai levou minha mãe ao cinema para assistir a um filme russo. Mais tarde, ele disse aos amigos que estava 100% satisfeito com a aparência e a personalidade dela. Eu perguntei a minha mãe se ela tinha ficado 100% satisfeita com meu pai. – Não posso dizer que sim, com certeza não no início. Meu homem ideal era um pouco mais alto, um pouco mais animado que seu pai, mais falante e com uma personalidade mais gentil. E um pouco mais estabilizado do ponto de vista profissional. Perguntei se meu avô gostou dele, e mamãe começou a rir. Ela me contou o quanto o pai dela havia alertado dizendo: “Esse homem não tem 11

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futuro, não tem profissão.Você não ficará bem com ele.” Meu avô proibiu minha mãe de se encontrar com meu pai, mas meu pai era persistente. Ele continuava convidando minha mãe para sair. Apesar da desaprovação do pai, ela encontrou papai às escondidas várias vezes. Numa noite, quando ela chegou em casa, o pai dela flagrou meu pai levando-a até a porta. Enfurecido, meu avô deu um tapa no rosto dela. Segundo mamãe, essa foi a única vez em que seu pai levantou a mão para ela. Depois disso, ela parou de ver meu pai, mas seu pai estava no direito de fazer isso. De vez em quando, meu pai ainda telefonava; o trabalho dela como telefonista fazia com que eles pudessem se falar a qualquer hora. O país estava cheio de novas esperanças para o futuro. As universidades tinham sido reabertas, então, meu pai resolveu entrar no conservatório; ele sabia que a educação superior era o segredo para se tornar um músico profissional. Enquanto ele estudava para o vestibular, ele disse a minha mãe: “Zhou Xiulan, por favor, compreenda se eu não ligar para você por um tempo. Devo dedicar-me totalmente a esses exames”. Naturalmente, minha mãe compreendeu e desejou-lhe sucesso. Meu pai ficou em primeiro lugar nos dois primeiros exames, mas, mesmo assim, negaram sua entrada no conservatório. Minha mãe me explicou que os responsáveis pelo conservatório encontraram uma inconsistência na inscrição de meu pai. Naquela época, você não podia se inscrever caso tivesse mais de 25 anos. Na verdade, papai tinha 25 anos na época, mas um professor aconselhou-o a colocar 24, pois se ele não passasse nos exames poderia tentar no ano seguinte. Meu pai seguiu o conselho do professor, mas, por ser um homem honesto, logo abaixo, entre parênteses, ele escreveu: “Idade real: 25”. Eles o desqualificaram imediatamente, mesmo ficando em primeiro lugar duas vezes. Imagino o quanto ele sofreu, ter seus sonhos destruídos por uma infração idiota que nada tinha a ver com seu talento. Depois disso, o pai de minha mãe proibiu-a definitivamente de ver meu pai. Segundo meu avô, o incidente provou que Lang Guoren não era digno da companhia de sua filha. Disseram-na para devolver todos os presentinhos que meu pai lhe havia dado e ela não teve outra escolha a não ser obedecer. 12

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– Mas você se casou com ele mesmo assim – lembrei ela. – Como já disse, seu pai era um homem teimoso. Ele não me largava. Agora que não estava mais preocupado com os estudos, ele não parava de me ligar no trabalho. Em alguns dias, ele deve ter ligado umas 50 vezes. Ele ligava tanto, que eu mal conseguia fazer o meu trabalho. Ele insistia para eu acompanhá-lo a um concerto ou a uma peça de teatro. Quando contei que meu pai tinha me proibido de vê-lo, ele disse: “Você não precisa contar a seu pai”. Então, começou uma nova fase ainda mais secreta do relacionamento deles. No início, não era nada romântico, meus pais eram apenas amigos. Minha mãe começou a gostar da companhia do meu pai cada vez mais, mas, apesar de ela saber que tinham muitos interesses artísticos em comum e de ter percebido como ele era inteligente, ela disse a ele que não os via juntos no futuro. – “Não me subestime, Zhou Xiulan” – disse-me Lang Guoren. – “Eu terei um futuro bom, provarei isso a você. Serei um músico profissional”. – Como o meu próprio sonho de ser uma artista tinha sido negado, não acreditei nele. Não achei que fosse possível ele encontrar um emprego estável como artista. – “Eu encontrarei um emprego” – disse ele – “e ganharei o seu amor”. É claro que, como com qualquer outra coisa que meu pai cismava, ele conseguiu as duas coisas. A Força Aérea tinha um programa para músicos tocarem em sua banda, mas para entrar tinha de passar nos exames. O salário na orquestra da Força Aérea era decente e o trabalho estável. Se ele entrasse, meu pai não teria mais de trabalhar em dois empregos, um na fábrica e outro no circo acrobático. Então, ele encontrou um professor no Conservatório de Música de Shenyang para orientá-lo. Por meses, ele praticou seu erhu dia e noite, ao ar livre, para não perturbar ninguém, ele começava às 4 da manhã antes de ir trabalhar e ficava depois do trabalho até à meia-noite. Sua disciplina nunca foi abalada e, como prometido, quando chegou o dia do exame, ele se sobressaiu. Finalmente, ele foi contratado 13

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pela Força Aérea como solista e primeiro violino da orquestra. O pai de minha mãe ficou impressionado. “Talvez eu o tenha julgado mal, Zhou Xiulan”, disse ele. “Ele é ambicioso e persistente. Não vou mais interferir em sua amizade com ele.” A amizade deles transformou-se em amor. Eu não via meu pai como um homem romântico, mas quando minha mãe contou-me a história, compreendi que ele tinha paixão. Meus pais casaram-se em 22 de abril de 1980 e eu nasci pouco mais de dois anos depois. No início, eles moraram com meus avós paternos. Mas, quando o irmão mais novo de meu pai se casou, ele precisava de um lugar para morar com sua nova esposa. Como meu pai era generoso, ofereceu seu lugar na casa dos pais. Naquela época, não era possível comprar apartamentos, porque os apartamentos eram alocados pelo Estado. Mas como músico da Força Aérea, meu pai estava qualificado para ter um quarto no quartel. Ele e minha mãe, que estava grávida na época, poderiam se mudar para lá e isso resolveria o problema. Mas surgiram novas complicações: o Presidente do Comitê Deng Xiaoping estava fazendo uma reforma na China e uma de suas metas era reduzir o número de militares; papai soube que a orquestra da Força Aérea de Shenyang seria extinta em poucos anos e, quando isso acontecesse, ele não teria direito ao quarto. Então, meu pai fez um plano que desafiava todas as regras. Ele não tinha opção. Mamãe estava a menos de dois meses para dar à luz. Ela estava grande e sentia-se desconfortável, e a idéia de ficar sem moradia era demais para suportar, então, ela concordou com o plano de papai. Ele pegou um caminhão e fez a mudança de tudo – cama, cômoda, roupas – sem autorização, para um apartamento vazio no quartel. É claro que os líderes ficaram furiosos. Entre militares, não é possível violar as regras. Alguns dos superiores queriam despejá-los imediatamente, mas outros foram mais solidários: como meu pai poderia se mudar quando sua esposa estivesse para dar à luz? E, de forma bem inesperada, meus pais foram autorizados a ficar e eu nasci no quartel da Força Aérea. O meu primeiro nome Lang significa “esplendor e alegria”, e meu sobrenome Láng quer dizer “cavalheiro educado”. Apesar de ser grato aos 14

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meus pais por terem me dado um nome tão maravilhoso, agora eu tinha de viver à altura das expectativas deles. Meu parto, como tantas outras coisas na minha vida, foi um desafio. Meu cordão umbilical estava enrolado em meu pescoço duas voltas e meia, quase me levando à morte. Meu rosto tinha ficado terrivelmente esverdeado e eu não emitia sons. Mas quando o médico removeu o cordão e me deu um tapinha, soltei um choro alto e agudo. Não morri, explicou minha mãe, porque eu tinha uma missão a cumprir: a missão de levar a música ao mundo. Como filho de dois músicos que tiveram suas ambições e esperanças destruídas, nasci com grandes expectativas, que tanto me guiaram como me levaram ao grande sucesso.

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Lang Lang, Uma Jornada de Mil Milhas  

A emocionante autobiografia do pianista chinês que conquistou o mundo, fazendo da música clássica um fenômeno pop!