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contradiçþes da modernidade


universidade estadual de campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador Geral da Universidade Edgar Salvadori De Decca

Conselho Editorial Presidente Paulo Franchetti Alcir Pécora – Christiano Lyra Filho José A. R. Gontijo – José Roberto Zan Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara


Marcus Vinicius de Freitas

contr adiçþes da modernidade O jornal Aurora brasileira (1873-1875)


Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Em vigor no Brasil a partir de 2009.

ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação F884c

Freitas, Marcus Vinicius de. Contradições da modernidade: o jornal Aurora brasileira (18731875) / Marcus Vinicius de Freitas. – Cam­pinas, SP: Editora da Unicamp, 2011. 1. Periódicos brasileiros. 2. Brasil – História – Império, 1822-1889. 3. Liberalismo – Brasil. 4. Café – Aspectos eco­nômicos. I. Título.

cdd 079.81 981.04 320.510981 338.17373 isbn 978-85-268-0960-4 Índices para catálogo sistemático:

1. 2. 3. 4.

Periódicos brasileiros Brasil – História – Império, 1822-1889 Liberalismo – Brasil Café – Aspectos eco­nômicos

079.81 981.04 320.510981 338.17373

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agradecimentos

No percurso da pesquisa e da redação deste trabalho, contei com o apoio de um grande número de pessoas e de instituições. A todas devo aqui agradecer, sob o risco de esquecer alguma. Ao CNPq, pelo apoio ao meu estágio de pós-doutorado na Unicamp, através da concessão da bolsa de pós-doutorado sênior, durante o ano de 2009, quando foi realizada a maior parte da pesquisa; À Congregação da Faculdade de Letras da UFMG e aos colegas do Setor de Teoria da Literatura, pelo apoio institucional; A Francisco Foot Hardman — supervisor do meu estágio de pós-douto­ rado na Unicamp, onde boa parte da pesquisa para este trabalho foi feita — que, com sua generosidade, seguiu como interlocutor privilegiado deste texto quando apenas a amizade e o interesse científico passaram a ser o elo da interlocução, além de ter apresentado o meu trabalho à Editora da Unicamp; A Fernando Baião Viotti, que me ajudou a fazer as primeiras tabelas de as­suntos e de nomes da Aurora brasileira, quando este texto era ainda um ideia em gestação;


A Ema Franzoni, diretora do Arquivo Edgard Leuenroth, e a todos os seus fun­cionários, que, de maneira dedicada e generosa, me franquearam o acesso aos periódicos paulistas da segunda metade do século XIX que vão citados neste trabalho; a Ema Rodrigues Camillo, diretora de Pro­c es­ samento Técnico do Centro de Memória da Unicamp, que me abriu importantes sendas de pesquisa; a Maria Alice Paganotte, bibliotecáriachefe da Biblioteca César Bierrenbach, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, que me en­controu o raro texto da autobiografia de Francisco de Assis Vieira Bueno; a Maria Tereza de Arruda Campos, diretora do Arquivo Municipal de Rio Claro, pela atenção dispensada num momento em que o AMRC passava por grandes dificuldades operacionais; aos funcionários do Museu Republicano Convenção de Itu e aos fun­ cionários da seção de documentos da Biblioteca Pública Estadual Luís de Bessa, em Belo Horizonte, pelo atendimento correto e eficiente; A Elaine Engst, diretora da Carl A. Kroch Library — Division of Rare and Manuscript Collections, Cornell University, com quem tenho dialogado há muitos anos sobre a Aurora brasileira, a quem agradeço a oportunidade de ter me apresentado o jornal, ainda nos idos de 1998, e de ter me permitido tra­z er daquele arquivo uma cópia microfilmada do periódico, a partir da qual a pes­quisa se constituiu; à mesma Elaine Engst e à sua assistente, Ana Guima­raes, pela presteza e eficiência, quando das negociações para a liberação dos originais através de cópia digital especialmente produzida para servir de base a esta edição; A Maria Aparecida Pacheco Jordão, pelos dados pessoais que me forneceu sobre seu bisavô, Elias Fausto Pacheco Jordão; Aos alunos do seminário de pós-graduação sobre os “Desencontros da modernidade”, ministrado pelo professor Francisco Foot Hardman, no IEL–Uni­camp, no 1 o semestre de 2009 , que me receberam com tanto carinho e competência para um profícuo debate sobre o tema deste livro; A Luiz Roberto Cairo, Jefferson Cano, Carlos Eduardo Ornelas Berriel e Ana Maria Chiarini, pela interlocução. Mesmo que, às vezes, tenha sido pequena, foi de grande importância; Ao diretor, Paulo Franchetti, e aos pareceristas da Editora da Unicamp, pela eficiência e pelas sugestões criteriosas que em muito melhora­ram os


originais deste trabalho. No mesmo sentido, aos atentos funcionários da Editora. Nenhuma dessas pessoas, obviamente, tem qualquer responsabilidade sobre as ideias e os possíveis erros constantes deste trabalho, que ficam a cargo somente do autor. Num plano pessoal, à minha família, pela paciência de me ver emendar um trabalho no outro, contingência natural da vida de professor e pesquisador.


nota de edição

Em todas as passagens e citações retiradas do texto da Aurora brasileira, a ortografia foi atualizada, para fins de facilidade e compreensão, com exceção dos nomes próprios e dos nomes de seções do jornal, que foram mantidos com a mesma grafia usada pelos redatores. Os próprios redatores do periódico se desculpam pelos erros ortográficos ocasionais, justificandoos pela falta de familiaridade dos impressores americanos com a língua portuguesa. Foram evitadas correções em eventuais diferenças de pontuação entre os textos do jornal e a nossa norma corrente, uma vez que a pontuação usada no periódico está, de maneira geral, de acordo com o ritmo e o gosto de cada redator do jornal e do momento de sua publicação.


sumário

lista de tabelas.......................................................................................................................................

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introdução....................................................................................................................................................

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Modernidade a partir de 1870............................................................................................................... 15 Uma aurora em Ithaca.. ............................................................................................................................... 22 1

antecedentes da aurora brasileira..............................................................

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Expedição Thayer.. ........................................................................................................................................... 27 “Land Grant Institutions” e ensino de ciências aplicadas.................................................... 31 O mentor, Hartt, e o patrono, José Carlos Rodrigues.............................................................. 32 A modernização paulista e as universidades técnicas americanas.................................. 37 O Clube Brasileiro de Cornell. . ............................................................................................................... 42 2

aurora brasileira: a materialidade do objeto...........................

47

Formato do jornal........................................................................................................................................... 47 Aurora brasileira — Editorial. . .............................................................................................................. 50 Comunicados...................................................................................................................................................... 52


Sciencias e Lettras .......................................................................................................................................... 56 Noticiário e Crônica Mensal.................................................................................................................... 59 3

aurora brasileira: relações intratextuais.....................................

61

Progresso, nação e província..................................................................................................................... 61 Francisco Bueno e a educação.................................................................................................................. 76 Educação feminina. . ................................................................................................................................. 83 Ensino tecnológico: minas e agricultura................................................................................. 87 Escravidão: um silêncio gritante........................................................................................................... 91 Poesia na Aurora brasileira...................................................................................................................... 97

alberto salles: retrato do republicano quando jovem..................................................................................................................................... 103 4

5 elias fausto pacheco jordão: um percurso exemplar..................................................................................................................................................... 115 6

as contradições da nossa modernidade.. .......................................... 135

índice onomástico da aurora brasileira .................................................... 153 bibliografia.................................................................................................................................................. 159 Arquivos................................................................................................................................................................. 159 Periódicos.............................................................................................................................................................. 159 Livros, artigos e teses. . .................................................................................................................................... 160 Fontes eletrônicas............................................................................................................................................. 165


lista de tabelas

Tabela 1: Estudantes brasileiros matriculados em Cornell até 1875. . ......... 43 Tabela 2: Membros do Clube Brasileiro fora de Cornell.. ......................... 44 Tabela 3: Aurora brasileira — Editorial (ou Aviso).................................. 51 Tabela 4: Seção Comunicados............................................................... 53 Tabela 5: Seção Sciencias e Lettras. . ....................................................... 57 Tabela 6: Artigos publicados na Aurora brasileira — ordem completa de ocorrência....................................................................................... 141

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introdução

Modernidade a partir de 1870 A bibliografia crítica e historiográfica sobre a Primeira República tem destacado, nos últimos anos, a existência de elementos de continuidade entre aquele momento histórico e as décadas finais do Império, em especial o período a partir de 1870. A matriz dessa linha de abordagem tem pos­ sivelmente seu primeiro representante em Gilberto Freyre, no livro Ordem e progresso, no qual o autor destaca os elementos de imbricação entre aqueles dois momentos históricos: Ao procurarmos considerar as relações de República de 89 com o que foi o progresso ou desenvolvimento cultural, quer no Brasil dos últimos anos do Império, quer no já republicano na aparência mas ainda monárquico nas sobrevivências mais íntimas — inclusive as de formas de convivência —, o sentido que atribuímos ao adjetivo “cultural” é o compreensivamente sociológico. Designando, portanto, todo um conjunto de valores e de estilos, de técnicas e de hábitos; e não apenas referindose aos primores de ciência, de arte e de literatura1. 1 Freyre, 2004, p. 353.

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Dessa maneira, a despeito das óbvias diferenças e mudanças no interior daqueles anos que vão de 1870 a 1930 — sobremaneira representadas pela proclamação da República e pelo fim da escravidão —, os elementos de continuidade vêm à tona quando se abordam temas relativos ao con­tra­ ditório surgimento da modernidade no Brasil, tais como a emergência do paradigma científico numa sociedade ainda escravocrata; a identificação simples e direta entre nação e conhecimento demarcado do território; a ro­ mantizada permanência da literatura como espaço de construção da iden­ tidade nacional, em um momento em que a arte já não era mais romântica; a continuidade e a reiteração da centralização de poder, a despeito da mu­ dança de Império a República; e, por último, a perma­nência do conflito entre, por um lado, o modelo socioeconômico agrário e, por outro, o cresci­ mento das cidades e das classes médias urbanas, conflito este associado à expectativa, por parte dessas camadas emergentes, de mais participação política e da implantação de um modelo econômico baseado em indus­ trialização, o que só viria a ocorrer de maneira decisiva com a Revolução de 1930. Tomando por base essa perspectiva de continuidade, podemos entender, entre outros, os esforços empreendidos por Nísia Trindade Lima em Um sertão chamado Brasil, onde a autora vincula a recorrência, nas três pri­ meiras décadas do século XX, dos temas sertão, povoamento, civilização, nacionalidade, saneamento e ciência — formadores de uma matriz de inter­ pretação do Brasil — à sua emergência como conjunto de interesses da nossa geração de 1870 (Lima, 1999). A mesma direção já havia sido apontada, há mais de 20 anos, por Fran­cisco Foot Hardman, ao analisar documentos literários e culturais em torno do drama da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, entre 1907 e 1912, e suas relações com as aspirações de modernidade de parte da sociedade brasileira nas décadas iniciais do século XX, no livro Tremfantasma (Hardman, 1988). Em um ensaio intitulado “Antigos moder­ nistas”, Foot Hardman segue pela afirmação explícita da necessidade de retroceder o pensamento sobre a modernidade no Brasil às décadas finais do século XIX, sobretudo como posicionamento crítico diante do reducio­ nismo de nossa visão sobre o modernismo, por sua vinculação ao conceito estreito de vanguarda (Hardman, 1992). 16


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Da mesma maneira, Eliana de Freitas Dutra, ao estudar o Almanaque Garnier (1903-1914), no ensaio Rebeldes literários da República, demonstra que a conjuntura histórica presente nesse e em outros almanaques con­ temporâneos aponta para um marco temporal bastante homogêneo, que vai da segunda metade do século XIX às primeiras décadas do século XX (Dutra, 2005). Na esteira de Foot Hardman, Luciana Murari constrói uma densa aná­ lise da relação entre homem e natureza na produção intelectual brasi­leira entre 1870 e 1922, com vistas a compreender a inserção da intelectualidade nos projetos de uma modernidade cultural, política, social e econômica da nação, que, se parece emergir com clareza nas reflexões dos modernistas de 1922, é constitutiva da imbricação dos polos romântico e realista que per­ passa a nossa literatura das décadas finais do século XX, assim confor­mando já o caráter do modernismo2. Um outro importante exemplo da necessidade de voltarmos aos anos 1870 para a compreensão de eventos e mudanças socioculturais que têm lu­ gar já nos estertores da Primeira República são os estudos de Carlos Eduardo Ornelas Berriel sobre as obras de Paulo Prado e de Eduardo Prado. Em uma análise detalhada da obra de Paulo Prado — mecenas da Semana de Arte Moderna de 1922 —, Berriel mostra que vários dos conflitos e das opções que se apresentaram aos nossos modernistas têm suas origens nos embates de Eduardo Prado (tio de Paulo Prado) com a cultura brasileira, ainda nos primeiros anos da República (quando os nossos jovens da geração de 1870 já são homens maduros), embates esses que, por sua vez, estão em larga medida lastreados nos debates da Geração de 70 em Portugal sobre os mesmos temas da nação e da modernidade. Assim, a problematização da mo­dernidade e da civilização na cultura brasileira, a partir de 1870, tem relações com as mesmas questões ora colocadas por intelectuais como An­ tero de Quental, Oliveira Martins, Teófilo Braga e Eça de Queirós. O apartamento de Eduardo Prado em Paris, na década de 1880 e começo da década de 1890, constitui, como mostra Berriel, um microcosmo da moder­ nidade como problema, lugar de atração tanto da geração portuguesa do Cenáculo quanto de intelectuais brasileiros que frequentavam a capital 2 Murari, 2009, p. 28.

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francesa, tais como Joaquim Nabuco, Barão do Rio Branco, José Veríssimo, Olavo Bilac e Oliveira Lima (Berriel, 2000; Berriel, 2003). As observações e direções de pesquisa de Nísia Trindade Lima, Fran­ cisco Foot Hardman, Eliana de Freitas Dutra, Luciana Murari e Carlos Berriel, entre outros3, possibilitam-nos, portanto, tomar como hipótese, ainda que ela não esteja necessariamente explicitada nos textos de todos aqueles autores, a existência de um longo século XIX4. Cabe lembrar que a perspectiva de um reordenamento da periodização, que leva à assunção do conceito de um longo século XIX, não sobressai somente no trabalho de historiadores sociais, historiadores da cultura, antropólogos e sociólogos. De fato, um dos primeiros estudiosos do século XIX a apontar a extensão de seu marco temporal até a década de 1920 foi Alexandre Eulálio, historiador e crítico da literatura brasileira. Em confe­ rência historiográfica sobre a literatura mineira do século XIX, feita ainda em 1980, Eulálio afirmava categoricamente que “[...] o fim de século em Mi­nas havia de se prolongar estilística e ideologicamente, nas suas li­nhas de força decisivas, até cerca de 1920”5. Dessa forma, a investigação da passagem brasileira à modernidade, seja ela literária, política, econômica ou cultural — passagem desde sempre mar­cada pelo signo das contradições —, parece demandar um retorno ao marco temporal da década de 1870, quando a literatura, as instituições científicas e culturais, os projetos políticos para a nação, o modo de pro­du­ ção, as cidades e mesmo a consciência sobre a paisagem do sertão iniciaram um longo e complexo processo de mudança em direção à modernidade. 3 De maneira um pouco mais difusa, mas com o mesmo espírito de amalgamar num mesmo contexto as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX, devemos lembrar os importantes trabalhos de Nicolau Sevcenko sobre o tema (Sevcenko, 1983; Sevcenko, 1992), e o ensaio de José Murilo de Carvalho sobre a permanência da tradição imperial na Primeira República (Carvalho, 1999). 4 O reconhecimento da não identificação entre a passagem temporal dos séculos e os movimentos das sociedades e das culturas leva a que muitos estudiosos, como é aqui o caso, lancem mão da ideia de séculos longos ou curtos. Sobre esta possibilidade, lembro as palavras de Dermeval Saviani: “O uso da categoria século para organizar a narrativa historiográfica é recorrente entre os historiadores. Conscientes, porém, de que os momentos significativos que marcam as eras ou os períodos históricos não coincidem com a passagem de um a outro século conforme a contagem cronológica, os historiadores são levados a flexibilizar a referida categoria lançando mão de expressões como ‘breve século’ ou ‘longo século’. Assim, não apenas o início e o término dos séculos históricos não coincidem com aqueles dos séculos cronológicos, como pode haver superposição entre eles, situação em que determinado século pode ter o seu término em data posterior ao início do século seguinte”. Ver Saviani, 2006, p. 9. 5 Eulálio, 1992, p. 118.

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O jornal Aurora brasileira constitui texto privilegiado para um estudo sobre esse processo de mudança social, econômica, política, cultural e científica. O periódico foi publicado entre 1873 e 1875 na Universidade Cornell, em Ithaca, cidade ao norte do estado de Nova York, EUA, por um grupo de estudantes brasileiros que para lá se dirigiu a fim de estudar engenharia, agricultura e ciências naturais. Trata-se de uma forma específica de viagem de conhecimento. Esses estudantes eram, em sua maioria, filhos da riqueza do café na fronteira agrícola do Oeste Paulista, e vinham de cidades como Campinas, Rio Claro, Itu, Sorocaba e Jundiaí, todos ligados ao ideário republicano e à diversificação do modelo econômico brasileiro, aspirantes a uma visão modernizante de mundo, para além da monocultura cafeeira. A origem desses jovens numa zona de fronteira em expansão é por si mesma um signo das mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas que têm início em 1870. Dessa forma, o jornal Au­rora brasileira, que tem o subtítulo “Periódico literário e noticioso”, traz em suas páginas um conjunto de matérias sobre nação, literatura, República, imaginário cien­ tífico, educação liberal, progresso e modernidade, que vêm ao encontro do estudo da passagem do Império à República e da análise das vicissitudes da emergência da modernidade na sociedade brasileira. Cabe destacar que esta investigação sobre a Aurora brasileira procura se vincular a uma visão dos periódicos que não se limita a tomá-los como fon­ tes primárias para investigações de variada natureza, mas como objetos que devem ser considerados e analisados em sua inteireza, dotados que são de unidade narrativa e estrutural. Assim é que um periódico, ainda que legiti­ mamente permaneça como fonte para a história social, a sociologia, a polí­ tica, a história da educação, a história da literatura, a história da ciência e para outras áreas do conhecimento, cada vez mais deve ser visto ele mesmo como literatura e como agente no espaço cultural, e não apenas como fonte de outras ordens de conhecimento. Essa modificação da maneira pela qual vemos os periódicos é sobretudo eficiente quando nos dirigimos a um momento histórico como o século XIX brasileiro, quando há uma estreita relação entre os afazeres literário, jornalístico, historiográfico e científico. Em estudo sobre o jornal O novo mundo, periódico publicado entre 1870 e 1879 em Nova York, por José Carlos Rodrigues, que se constituía em modelo para os editores da Aurora brasileira, Gabriela Vieira de Cam­pos 19


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coloca com clareza o problema das tradicionais fronteiras entre literatura e periódico: “Até que ponto o jornal era literário? E até que ponto não era? Era muito curiosa a relação que se estabelecia dentro de O novo mundo a respeito do papel da literatura para uma sociedade que necessitava de progresso”6. A autora faz uma investigação minuciosa dessa problemática no âmbito daquele jornal, de uma maneira geral, em relação ao lugar dos periódicos no século XIX brasileiro, chegando à seguinte conclusão: Quase nenhuma atenção se dá ao jornal, esse meio de difusão de ideias de aspecto aparentemente caótico. No entanto, discutem-se muito a simbiose do escritor com o jornal — é esse o início de sua profissionalização — e os efeitos diretos para a literatura. O escritor escreve direta ou indiretamente para o jornal: o redator do jornal é um folheti­ nista — ou quase cronista —, é um narrador de ficção em alguns momentos; o jornalista do século XIX nada tem a ver com a figura de um repórter em busca de notícias, o fato imediato que deve ser sobretudo preciso... O jornalista é o escritor. O escritor tem que considerar ainda que o meio é efêmero, que as palavras duram muito pouco... Entretanto, o aspecto volátil dos jornais é relativizado pelas coleções (alguns jornais poderiam ser reunidos em coleções depois de um ano), pela presença dos folhetins que poderiam ser guardados...7

Gabriela Campos, portanto, propõe a possibilidade de uma leitura au­ tônoma — mas não descontextualizada — dos periódicos, em especial num ambiente como o do nosso século XIX, realçando sobretudo o aspecto de conjunto que certos periódicos apresentavam a partir de um agrupamento de edições. Cabe ressaltar que não está em jogo na afirmação da autora, nem se deve sugerir ou endossar, que o jornalismo seja o mesmo que ficção, ou que não existam diferenças entre literatura de ficção, história e jornalismo. Uma noção ampla de “literatura” não se confunde com a defesa ingênua da superposição do ficcional sobre outras formas de discurso, cuja autonomia, diferença e finalidade permanecem, em cada caso, resguardadas. A Aurora brasileira se enquadra nessa perspectiva de análise, uma vez que constitui um texto unitário, um conjunto coeso, tal como as coleções

6 G. V. de Campos, 2001, p. 14. 7 Idem, op. cit., p. 182. Grifo no original.

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apon­tadas por Gabriela Vieira Campos. Ao longo de dois anos, foram pu­ blicados apenas 18 números, por um grupo socialmente definido e histo­ ricamente localizado de editores. Essa coleção materialmente fechada e cul­ turalmente aberta, assim como um verdadeiro arquivo cultural, possi­bilita que as suas diversas partes componentes e os seus variados assuntos possam, e devam, ser vistos nas suas relações intratextuais, e não apenas extratex­ tuais. Dizendo de outra forma, em um conjunto desse tipo, cada um dos seus temas, editoriais, colunas, matérias e mesmo anúncios só é claramente compreendido quando relacionado aos outros textos do mesmo jornal. Os textos ali publicados sobre liberalismo, sobre educação, sobre literatura ou sobre escravidão, entre outros assuntos, só conseguem ser devidamente uti­lizados como fonte pelo historiador, pelo educador, pelo crítico ou pelo an­tropólogo se estes analistas antes compreendem que o sentido de cada um daqueles textos se faz na relação com os outros do mesmo periódico, dada a sua coesão. Ao mesmo tempo em que se deve destacar a unidade do jornal, cabe lem­brar que os periódicos de um dado momento histórico compartilham muitos elementos ideológicos e estruturais, o que aponta para a relevância de uma análise comparada entre periódicos, que ajude a caracterizar o ob­ jeto em tela. Nesse sentido, procurei ler o jornal Aurora brasileira, publi­ cado na distante Universidade Cornell, ao lado de outros periódicos da sua época, publicados no Oeste Paulista, entre os quais devem ser destacados os seguintes (os anos consultados estão indicados entre parênteses): Imprensa ituana (1874-1883); Diário de Campinas (1875-1876); Gazeta de Cam­pinas (1873-1874); O alpha (Rio Claro, 1878); O break (Rio Claro, 1877); O leque (Rio Claro, 1877); O município (Rio Claro, 1896); Gazeta de Santa Rita (Santa Rita do Passa Quatro, 1895); Correio paulistano (Órgão do Par­ tido Republicano. São Paulo, 1873-1877); Echo do povo (Rio Claro, 1873); Re­vista de engenharia (Rio de Janeiro, 1879-1881); Revista do Instituto His­ tórico e Geográfico de São Paulo (1900-1918). Devo destacar ainda o fato de que o jornal Aurora brasileira constitui um documento basicamente inédito, que não possui nenhuma coleção com­ pleta em qualquer biblioteca brasileira. A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro possui alguns números apenas. Até onde pudemos investigar, não há qualquer trabalho minimamente dedicado a esse periódico. A Aurora bra­ 21


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sileira não é sequer mencionada no largo levantamento de títulos em­preen­ dido por Nelson Werneck Sodré sobre os periódicos brasileiros do sé­culo XIX, o que atesta o seu ineditismo e reforça a necessidade de sua inves­tiga­ ção, para integração na bibliografia sobre as vicissitudes de nossa passagem à modernidade8.

Uma aurora em Ithaca No dia 6 de setembro de 1873, às 13 horas, em Ithaca, pequena cidade ao norte do estado americano de Nova York, um grupo de estudantes saiu em car­reata, das portas do Hotel Ithaca, na cidade baixa, até o alto da íngreme colina onde, apenas seis anos antes, fora instalado o campus da Univer­sidade Cornell. Os carros estavam decorados de folhas e flores, e traziam várias bandeiras brasileiras e americanas. O cortejo era precedido por uma banda de música, que tocava os hinos nacionais brasileiro e americano, entre outras peças. Além dos estudantes, em sua maioria brasileiros, o grupo era integrado por alguns americanos, estudantes e professores de Cornell, todos muito afeiçoados ao grupo de brasileiros e ao Brasil. O motivo da pa­ rada eram os 51 anos da independência do país. A festa teria melhor lugar no dia 7, mas a data nacional brasileira caía num domingo, e os organiza­ dores preferiram antecipar a comemoração. Diz o jornal Aurora brasileira, na sua edição de estreia, em 22 de outubro de 1873, que o cortejo seguiu da cidade à colina “entre alas de povo, que alegre saudava a confraternização das duas maiores nações d’América” (AB, I-1, p. 1)9. Depois de chegar ao campus e percorrer os seus então cinco edifícios, uma comissão de quatro brasileiros, composta por al­ guns dos estudantes mais antigos — Elias Fausto Pacheco Jordão, Luís de Souza Barros, Francisco de Assis Vieira Bueno Júnior e Antônio de Queirós Telles Neto —, dirigiu-se ao reitor da Universidade, Andrew D. White, que improvisou um discurso de saudação aos jovens e ao nosso país, sem deixar 8 Ver Sodré, 1983. 9 Daqui em diante, as referências ao jornal serão todas apresentadas entre parênteses no corpo do texto, a partir da sigla AB. O primeiro número significa o ano do jornal; o segundo, a edição; as páginas vêm indicadas a seguir. A sigla AB aparece igualmente em algumas passagens do texto.

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de destacar que a presença daqueles brasileiros ali se devia aos esforços de um dos professores de Cornell. Não era necessário citar seu nome, pois to­ dos sabiam que White se referia ao jovem geólogo Charles Frederick Hartt, que desde 1865 dedicara todo o seu esforço intelectual ao Brasil, e servira como um dos elos entre a recém-criada universidade americana e os bra­ sileiros dispostos a estudar engenharia civil, engenharia mecânica, agri­ cultura e ciências da terra em Ithaca. Depois do discurso de White e dos vivas ao reitor, o cortejo tomou o ca­ minho da descida, parando apenas para saudar o vice-reitor, W. C. Russell, e a figura mítica de Ezra Cornell, o fundador e primeiro benemérito da instituição. De volta ao hotel, conforme a descrição da AB, “[...] numa sala ricamente decorada, e onde se viam entrelaçadas as bandeiras Americana e Brasileira, foi servido um copo d’água” ( AB, I-1, p. 2). Nada mais repre­ sentativo do espírito sóbrio e puritano daquela universidade à beira do Cayuga Lake. Assim se deu a fundação do Clube Brasileiro de Ithaca e de seu jornal, Aurora brasileira — periódico literário e noticioso, cujo objetivo era atrair novos alunos brasileiros para Cornell. Já no seu terceiro número, o jornal proclamava que o Clube era agora integrado por estudantes de outras uni­ versidades, e que o objetivo inicial do jornal — o de ser um órgão de divul­ gação de Cornell para os brasileiros — se ampliava a todas as universidades americanas. Os nomes de Lehigh e da University of Pennsylvania, entre outras, logo passam a ser frequentes nas páginas do periódico estudantil. Como aqueles estudantes foram parar em Cornell, uma universidade no­va, sem qualquer tradição de ensino, pouco conhecida mesmo entre os americanos naquela época? Quem eram aqueles estudantes? De que regiões do Brasil eles vinham? Qual o seu interesse, no começo da década de 1870, por uma universidade que se apresentava como centro de estudos técnicos, tão diferente do modelo clássico de Harvard ou de Colúmbia, para não falar das universidades europeias que sempre atraíram os brasileiros can­ didatos a bacharel? Que fizeram eles ao voltar para o Brasil? Que espírito presidia o jornal e o Clube Brasileiro? Que relações ali se constroem entre literatura, ciência e nação? A leitura dos 18 números publicados da AB é a pista inicial para responder a todas essas perguntas. Em seus editoriais e em suas colunas estão os indícios de uma insuspeitada conexão entre as 23


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transformações do capital cafeeiro paulista e o ensino técnico das chamadas “Land Grant Institutions”; entre o espírito republicano, que ganhou im­ pulso no Brasil a partir daquela época, e as tradições políticas, poéticas e filosóficas da nação do Norte; entre o fim da escravidão americana e a po­ lítica de imigração de mão de obra livre, protagonizada pela Sociedade Pro­ mo­tora de Imigração, a expensas do Estado brasileiro; entre o feminismo da Nova Inglaterra e os avanços da educação feminina no Brasil; entre as praias de Newport — no estado de Rhode Island, onde os Vanderbilt, magnatas das estradas de ferro, construíram o seu balneário particular — e as areias da Praia das Pitangueiras, na Ilha de Santo Amaro, onde os burgueses do café construíram a Vila Balneária do Guarujá, ao lado do maior porto exportador de café do planeta; entre a explosão do capitalismo americano e os ensaios de empreendedorismo que tomaram várias cidades de São Paulo no final do século XIX, povoadas de imigrantes, de capital e de sonhos de realização material e civilizacional (a escravatura, o abandono do sertão, a mo­nocultura cafeeira como atividade exclusiva e o atraso das velhas povoa­ ções coloniais iam sendo varridos para debaixo do tapete da história, para que sua presença insidiosa não nublasse o brilho do progresso que se fazia presente ali e naquela hora). No Editorial do número I-7 da Aurora brasileira, Francisco de Assis Vieira Bueno Jr. tece um conjunto de loas ao espírito liberal e empreen­ dedor da província paulista. Entre suas frases, uma pode sintetizar essa relação entre a modernidade ansiada e a permanência contraditória de elementos arcaicos: “Em S. Paulo por iniciativa particular se ouviu primeiro o longínquo assovio da locomotiva e lá estendeu-se o misterioso fio que leva a terras distantes a ordem para o bem-estar público...” (AB, I-7, p. 52). O assovio da locomotiva está presente aqui, mas parece vir de longe, de um outro lugar e de um outro tempo, assim como os fios do telégrafo são mar­cas do mistério. A frase parece emblematizar as contradições vividas pelos jovens editores da Aurora brasileira, buscando na distância o apito da modernidade, mas sua locomotiva move uma composição de contradições que permanecem nos fios do tempo. Ler o jornal Aurora brasileira poderia constituir uma simples forma de constatar a velha máxima de Silvio Romero, para quem, na virada da década de 1870, “um bando de ideias novas esvoaçavam sobre nós de todos os 24


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pontos do horizonte”10. Entretanto, trata-se de muito mais do que uma simples constatação. Trata-se de uma possibilidade (restrita, mas exemplar) de avançar na compreensão das condições de surgimento dessas ideias e práticas novas, em meio a tantas contradições, e ainda de avaliar de perto o percurso de alguns de seus protagonistas. Para tanto, faz-se necessário remontar aos antecedentes do jornal, investigar as condições de seu surgimento, avaliar o seu conteúdo específico (ideário, referências e proposições), e seguir os desdobramentos de seu posicionamento ao longo da vida e do percurso social, intelectual, científico e econômico dos estudantes que o editaram. Dizendo de outra forma, o interesse de investigar um modesto jornal de estudantes, que perdurou apenas 18 meses, está em que suas páginas cristalizam uma imagem redu­ zida do seu tempo, a face visível de um iceberg historiográfico, a ponta de um novelo que pode ser desdobrado como contribuição à compreensão da história e à historiografia do último quartel do século XIX brasileiro, momento em que a passagem brasileira à modernidade teve um momento privilegiado e contraditório, momento feito de encontros e desencontros, dos quais somos os herdeiros diretos.

10 Romero, 1926, vol. 10, p. XXVI.

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