Este ícone indica a existência de um objeto educacional digital (OED). Trata-se de uma ferramenta multimídia relacionada ao tema ou assunto que você está estudando.
TEXTO COMPLEMENTAR O continente e a ilha O continente e a ilha (ou tradição anglo-americana) são uma metáfora que ilustra a divisão que a Filosofia assumiu no século XX. De modo geral, a Filosofia do continente ficou marcada pela fenomenologia, pela hermenêutica e pelo marxismo. Já a Filosofia da ilha ficou conhecida pela Filosofia da linguagem, pela leitura analítica e pelo pragmatismo. A seguir, Ivan Domingues apresenta essas concepções: A força da tradição continental está no uso da história da filosofia capaz de dar o contexto dos problemas, fornecendo os meios para o estudioso adquirir a familiaridade, afastando as ilusões da originalidade e preparando a mente para realizar as verdadeiras descobertas e reconhecer as intuições seminais. O risco está no servilismo, na erudição livresca e na morte do pensamento, como já tinham visto Sêneca e Santo Tomás, que alegaram que a filosofia não consiste em conhecer a opinião dos filósofos, mas em estudar o mundo que nos cerca, e que “a filosofia, quando se torna história da filosofia, não estuda as próprias coisas, mas o que foi pensado por outros”. A força da tradição anglo-americana está na coragem do pensamento, verificada na decisão de fazer tábula rasa da história e pensar os problemas com os meios do pensamento, meios lógicos como nos experimentos mentais, e não factuais ou empíricos, como na história da filosofia. Os riscos são o oposto da tradição continental, mas não menos perigosos: o filósofo acreditar que descobriu a América quando apenas criou mais um puzzle, a filosofia se converter num jogo de xadrez intelectual (jogo de salão) e os experimentos mentais, em vez de “higienizar” e fortalecer, levarem à renúncia ao pensamento. [...]
Texto complementar
Foi pensando nessas coisas que pensei um outro caminho para a filosofia e o filosofar, um caminho equidistante tanto da via da história da filosofia, que leva ao historicismo, quanto da via dos experimentos mentais, que leva ao logicismo. Distante da história da filosofia e dos problemas historicamente constituídos, por enraizar a reflexão filosófica em problemas contemporâneos. Distante dos experimentos mentais e da análise de conceitos da lógica, por apoiar a reflexão filosófica numa experiência propriamente “existencial”, como Platão na República ao falar da velhice e dos efeitos da idade na pergunta do filósofo pelo bom governo e pela cidade ideal. Entendo que é este mesmo filtro “existencial” que vamos encontrar nas filosofias de Aristóteles, Sêneca, Agostinho, Descartes, Pascal, Rousseau, Nietzsche, Kierkegaard, Wittgenstein, Heidegger e em inúmeros outros que marcaram a filosofia desde a aurora do pensamento grego e que está perigosamente sentenciado de morte em diferentes segmentos da filosofia contemporânea, todos eles cada vez mais técnicos, uns mais lógicos e outros mais eruditos – mas igualmente sem nenhum pensamento e sem nenhuma relevância. Para dar expressão conceitual aos problemas e ao filtro da experiência existencial ao abordar os problemas filosóficos, será preciso um espaço de argumentação mais amplo do que o espaço lógico da filosofia analítica e de outras vertentes da tradição anglo-americana: maior do que o espaço do claim, do argumento e do contra-argumento, e maior também do que o foco do laser pointer dos experimentos mentais (exemplos e contraexemplos), como viu Appiah. E ao mesmo tempo um espaço menor do que as reconstruções históricas sem fim e descarregado do contextualismo excessivo da tradição continental. [...] E como Montaigne, Sócrates e Rousseau penso que aquilo que define a reflexão filosófica, o éthos do filósofo, e caracteriza o espaço filosófico da reflexão com seu filtro existencial são o sentido dos problemas, a meditação paciente, a palavra interior e o esforço de falar aos corações das pessoas (Rousseau), nada mais. (DOMINGUES, 2009, p. 91-95) 1. O pensamento original sintetiza a meta que pode ser alcançada tanto pela tradição continental como pela tradição anglo-americana. No entanto, as duas tradições também podem afastar o filósofo desse objetivo. Explique como cada uma dessas tradições pode aproximar ou afastar o pensador de uma Filosofia verdadeiramente original. 2. O texto propõe que os problemas da Filosofia devem ser contemporâneos e que a reflexão filosófica deve estar apoiada em uma experiência existencial. De que modo essa proposta se afasta da tradição continental e da tradição anglo-americana?
Capítulo 16
Nesta seção, textos de pensadores que abordam e aprofundam temas e conceitos trabalhados no capítulo. Há também perguntas que exploram seus principais aspectos.
309
AMPLIANDO
Por dentro do pan-óptico
Jeremy Bentham expôs a ideia do pan-óptico em obra publicada em 1786. Segundo o filósofo, a aplicação de sua arquitetura da vigilância seria ampla: “Para dizer tudo em uma palavra, ver-se-á que ele é aplicável, penso eu, sem exceção, a todos e quaisquer estabelecimentos, nos quais, num espaço tão demasiadamente grande para que possa ser controlado ou dirigido a partir de edifícios, queira-se manter sob inspeção certo número de pessoas. Não importa quão diferentes, ou até mesmo quão opostos, sejam os propósitos: seja o de punir o incorrigível, encerrar o insano, reformar o viciado, confinar o suspeito, empregar o desocupado, manter o desassistido, curar o doente, instruir os que estejam dispostos em qualquer ramo da indústria [...]” (BENTHAM, 2008, p. 19).
A Ilha da Juventude (antiga Ilha dos Pinheiros), em Cuba, é um dos lugares em que foi construído um presídio-modelo baseado no pan-óptico de Bentham, na década de 1920. Trata-se de um conjunto de cinco edifícios com capacidade para 5 mil prisioneiros no total. Fechado definitivamente em 1967, o local foi declarado patrimônio nacional e nele atualmente funciona um centro de pesquisa. Friman
O Pan-óptico de Bentham
© 2008 Jason Florio
Presídio-modelo. Cuba, 2010.
Jeremy Bentham
Vista da cela
Nasceu em Londres, em 1748. Filho de um advogado, seguiu a carreira do pai, preferindo, no entanto, dedicar-se ao estudo da teoria do Direito. Fundador do utilitarismo, acreditava que os indivíduos deviam medir suas ações com o objetivo de conquistar o máximo de felicidade e o mínimo de sofrimento. Esse raciocínio também servia à economia política e orientava os princípios dos bons governos, quais sejam, os de tomar medidas que garantem o máximo de felicidade para a maioria da população governada.
Projeto arquitetônico
A arquitetura do edifício prisional elaborado por Bentham era a de uma construção anelar com uma torre de observação localizada do centro. Situados nessa torre central, os vigilantes podiam ter uma visão de todos os presos, mas os presos não teriam condições de saber se estavam realmente sendo vigiados. O modelo arquitetural de Bentham influenciou a construção de presídios em vários países.
Vista da torre
Mansell/The LIFE Picture Collection/Getty Images
Fresta pela qual o olhar opressor do Estado vê, mas não pode ser visto. Segundo o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), trata-se de um olhar “que vigia e que cada um, sentindo-o pesar sobre si, acabará por interiorizar, a ponto de observar a si mesmo; sendo assim, cada um exercerá essa vigilância sobre e contra si mesmo” (FOUCAULT, 2002, p. 218).
No desenho do pan-óptico de Bentham, vê-se a construção circular com as celas distribuídas em volta e uma torre no centro para vigilância.
Distribuídos ao longo da obra, infográficos e exploração de imagens significativas convidam a uma compreensão mais apurada de assuntos importantes, com textos sintéticos e qualidade visual.
© 2008 Jason Florio
Não é preciso que os vigilantes estejam sempre presentes no interior da torre, pois os detentos não conseguem enxergá-los. O objetivo é levar os detentos a internalizar a vigilância e evitar o crime.
Ampliando
337
Atividades Localizada no final de cada capítulo, seleção de atividades de tipos e dificuldades variadas.
FIXAR CONHECIMENTOS 1. As palavras ética e moral possuem praticamente o mesmo significado etimológico. Qual seria, então, a diferença entre elas? 2. Como a responsabilidade é entendida em uma moral baseada na liberdade e em uma moral baseada na determinação? 3. A falta de consenso entre as morais particulares é um obstáculo que precisa ser resolvido por uma moral universal. De que modo Kant resolveu esse problema? 4. Compare a moral kantiana e a moral existencialista. 5. Qual foi a importância de Maquiavel para a relação entre moral e política?
Fixar conhecimentos
6. O que é o conflito entre a ética das convicções e a ética da responsabilidade? 7. Quais são os argumentos utilizados por Hugh Lacey para sustentar a tese de que ciência não é livre de valores?
APLICAR CONCEITOS
Questões verificam o aprendizado dos conteúdos estudados.
8. Leia no trecho da notícia a seguir o que declarou o biólogo britânico Lewis Wolpert (1929-), comente sua afirmação e explique os argumentos utilizados em defesa da separação entre ciência e valores sociais ou morais. Um biólogo britânico defendeu esta segunda-feira, no Porto, que os cientistas não deviam ocupar-se com questões éticas. “A ciência é livre de valores”, disse Lewis Wolpert, professor numa universidade de Londres. [...] Para o biólogo, a ciência “não deveria ser confundida com tecnologia ou com as aplicações da ciência” e disse que o que deveria ser sujeito a considerações de valor é o que a sociedade faz com o conhecimento científico (A CIÊNCIA..., 2009).
INTERPRETAR TEXTOS FILOSÓFICOS
Aplicar conceitos O estudante é convidado a interpretar situações novas ou cotidianas com base em conceitos filosóficos desenvolvidos no capítulo.
Interpretar textos filosóficos
ATIVIDADES
9. Friedrich Nietzsche fez a crítica da moral de sua época, mas levantou uma questão profundamente original, como veremos no texto a seguir. Pondo de lado até o valor de certas afirmações, como, por exemplo, de “se existe em nós um imperativo categórico”, ainda podemos perguntar: o que nos ensina tal afirmação acerca da pessoa que afirma? Há morais que têm por fim justificar o seu autor ante a opinião dos outros: outras tranquilizá-lo e deixá-lo satisfeito consigo mesmo, noutras o autor quer crucificar-se, humilhar-se; outras servem para a vingança; outras para a solidão; outras para o autor glorificar-se, elevar-se longinquamente às alturas. Às vezes a moral serve ao seu autor para esquecer, ou para fazer esquecer a si totalmente ou em parte. Alguns moralistas querem desafogar na humanidade suas ambições, suas megalomanias e vontade criadora. Outros, finalmente, talvez até Kant, dão a entender com sua moral: “O que há em mim de respeitável é que sei obedecer e vós deveis fazer o mesmo”. Numa palavra, a moral não é outra coisa que a linguagem figurada dos afetos (NIETZSCHE, 2009, p. 97-98).
328
a) Elaborar novos princípios morais ou mesmo a forma de toda ação moral, como fez Kant, é um procedimento que pode ser adotado por pensadores e moralistas. Esse procedimento foi adotado por Nietzsche em seu texto? Justifique sua resposta.
Atividade focada na análise e interpretação de um texto filosófico significativo para os propósitos do capítulo.
b) De acordo com o texto, os princípios morais estão baseados na revelação divina? E na razão? Justifique sua resposta. c) Segundo a resposta do item anterior e sabendo que os afetos variam de indivíduo para indivíduo, a moral pode ser universal? Justifique sua resposta.
TRABALHAR COM FILOSOFIA – BLOG 10. O mundo contemporâneo levantou novos problemas políticos e sociais. Entre eles o surgimento das novas tecnologias e as novas formas de se organizar politicamente e de se relacionar com outras pessoas. Os movimentos sociais de grupos considerados minoritários (como as mulheres, os negros e os homoafetivos), que lutam por seus direitos. A crise ambiental e suas consequências. O objetivo desta atividade é promover uma discussão livre e mais demorada sobre um desses problemas em um blog, onde seu posicionamento deve ser publicado. Publique também links de textos e vídeos que enriqueçam o debate. Siga as orientações a seguir. • Reúna-se com mais cinco colegas de sua sala de aula.
Trabalhar com Filosofia
• Juntos, escolham um dos três temas mencionados anteriormente. Se necessário, tornem o tema mais específico. Por exemplo: o grupo pode escolher um único aspecto da crise ambiental, como o desmatamento na Amazônia ou o aquecimento global. • Selecionem um dos serviços gratuitos da internet de gerenciamento de blog. Você e seu grupo não encontrarão dificuldades para criar o blog, pois esses serviços geralmente orientam passo a passo como fazer. • Elejam um nome para o blog e formulem a pergunta que conduzirá o debate virtual. • Apenas os membros do grupo podem postar nova publicação no blog. • Após duas semanas de debate virtual, os membros do grupo devem elaborar um breve relatório e apresentar para a sala suas impressões e reflexões. O debate pode permanecer por quanto tempo desejarem. Bom trabalho.
SUGESTÕES LIVRO VALLS, Álvaro L. M. O que é ética. 9. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996. O autor apresenta e problematiza várias questões éticas. Faz uma abordagem histórica da questão na Grécia antiga e nos dias atuais. Entre os problemas colocados no livro estão a relação entre ética e religião, a questão dos comportamentos morais e o tema central da liberdade.
FILME BRILHO eterno de uma mente sem lembranças. Direção: Michel Gondry. Estados Unidos: Universal Pictures, 2004. 1 DVD (108 min), son., color. O filme aborda o fim de um relacionamento amoroso entre um homem e uma mulher. A personagem feminina, disposta a pôr um ponto-final no que havia vivido, submete-se a um procedimento científico em que todas as memórias relativas a seu antigo relacionamento são apagadas. Sabendo da decisão de sua amada em esquecê-lo, o personagem decide também se submeter ao procedimento, mas desiste na última hora. O filme trata de uma questão ética importante: e se pudéssemos decidir por quais experiências passar em nossas vidas? Nesse caso, as experiências difíceis e dolorosas podem ser simplesmente apagadas de nossa memória?
Unidade 3
Capítulo 17
PROJEÇÕES FILOSÓFICAS
329
Elaboração de atividades práticas baseadas nos temas e conteúdos filosóficos estudados.
Livros e filmes Indicação de livros e filmes adequados ao aprofundamento ou ampliação dos estudos.
V DE VINGANÇA
Filme de James McTeigue. V de vingança. Reino Unido, EUA, Alemanha. 2005
Sinopse V de Vingança é uma adaptação cinematográfica da história em quadrinhos homônima escrita por Alan Moore e publicada entre os anos de 1982 a 1989. O filme é ambientado em Londres, Inglaterra, e se passa em um futuro próximo, no qual o Reino Unido é governado pelo partido Fogo Nórdico, cujo líder, o chanceler Adam Sutler, exprime características ditatoriais. O personagem principal é o misterioso V, um opositor que usa uma máscara para esconder sua identidade. Seu objetivo é explodir o parlamento inglês e incitar a população a se rebelar contra a ordem vigente. Para tanto, ele vai contar com a colaboração da jovem trabalhadora Evey.
Preparação
Título: V de Vingança Título original: V for Vendetta Direção: James McTeigue Ano de produção: 2005 Países: EUA/Reino Unido/Alemanha Duração: 132 min
• Organize-se para ver o filme com seus colegas. Anote os nomes dos personagens, suas características principais e o que eles representam em termos de posição ou ideal político. • Apesar de ser uma obra futurista, sua narrativa permite comparações com eventos históricos. Entretanto, não perca de vista o universo criado pelo próprio filme. • Faça uma pesquisa sobre a produção do filme (contexto e pessoas envolvidas). Se tiver oportunidade, leia também a história em quadrinhos de Alan Moore.
Ilustrações: VITOR FLYNN
336
Projeções filosóficas Localizada ao fim de cada uma das três unidades, contém atividades, baseadas no roteiro de estudo de um filme, que encerram um largo período de estudos e podem ser realizadas individualmente ou em grupo.
Para refletir e filosofar
312
1. Em termos políticos, quais são os valores representados por V, Evey e Adam Sutler? 2. De que maneira a liberdade religiosa e a liberdade de expressão aparecem no filme? 3. De que modo a ideia de contrato social faz parte da narrativa? 4. Antes das ações de V, é possível tratar a relação da população com o governo nos termos de uma servidão voluntária? 5. Recentemente, máscaras do personagem V foram usadas em manifestações em vários países do mundo. Em sua opinião, o que esse símbolo significa?
313