Resultado “para ontem” Expectativa e frustração são dois lados de uma mesma moeda e não estão restritas à estética. A mente humana é a responsável por desenvolver as expectativas, por vezes irreais. Ao levar esse fator em consideração, é possível dimensionar o trabalho de um psiquiatra quando o tema é a busca por resultados perfeitos. Nessa especialidade, distúrbios e problemas de saúde afetam uma parte muito sensível do organismo, podendo desencadear diversos outros tipos de doenças. Dessa forma, muitos pacientes esperam que, ao iniciar certa medicação ou tratamento, tudo volte ao normal e esses problemas sejam automaticamente eliminados. De acordo com a psiquiatra Valéria Avilla, ex-presidente da Associação Psiquiátrica de Goiás (APG), isso ocorre porque, apesar dos meios de comunicação oferecerem muito mais informações do que há 30 anos, ainda há resistência em se procurar um psiquiatra. “Além disso, colegas médicos ainda encaminham pouco. A maioria de nossos pacientes vem encaminhada por outros pacientes ou por familiares de pacientes que melhoraram. Ou seja, o paciente demora muito a chegar até nós”, lamenta. Na Psiquiatria, nem sempre as expectativas são o problema. Na
“Devemos retornar àquele médico em quem a família confiava. Ao médico que lia literatura e filosofia e, por isso, entendia não só da doença, mas principalmente do homem, o sujeito singular quando adoece”
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tratou todos da mesma maneira. Porém, quando opera médicos ou familiares de médicos, ele tem mais receio quanto aos resultados. “No nosso meio existe a lenda do CRM positivo, em que todas as complicações possíveis ocorrem nesse grupo de pacientes. Para minimizar a lenda, desde a primeira consulta, deixo claro que não abro exceções e que o protocolo será seguido igualmente em todos os casos”, ressalta.
Valéria Avilla, psiquiatra
relação médico-paciente, há casos em que as pessoas, quando vão à consulta, já não possuem esperança. “Quando recebemos um paciente que já passou por muitos psiquiatras, tendemos a ficar preocupados, pois é um caso refratário aos inúmeros fármacos existentes, ou o paciente já está muito desgastado e terá dificuldade em confiar em nós”, analisa Valéria. Nessas situações, segundo a especialista, conquistar a confiança e a esperança desse paciente já tão sofrido será uma tarefa maior que de costume. A psiquiatra acrescenta que, certa vez, atendeu uma pessoa com transtorno bipolar grave com várias internações, relatadas como traumáticas, em um momento de sintomas psicóticos associados e com clara indicação de uma nova internação por risco de suicídio e agressividade. Valéria seria apenas a próxima psiquiatra de sua romaria, mas ela resolveu realizar uma internação domiciliar, com enfermeiros de plantão. "É claro que a família colaborou bastante, mas uma internação domiciliar é bastante complexa. Ela ficou grata e de fato nunca mais teve indicação de internação”, relembra. Valéria ressalta que jamais teria feito isso em seu começo de carreira, pois a atitude requer cuidado e
frequente reavaliação dos riscos e dos benefícios. Além disso, ela diz que a Medicina deve voltar a ser mais humanizada. “Devemos retornar àquele médico em quem a família confiava. Ao médico que lia literatura e filosofia e, por isso, entendia não só da doença, mas principalmente do homem, o sujeito singular quando adoece”, sugere.
Incertezas com a espera Assumir a responsabilidade pela chegada de um bebê também não é tarefa fácil. Se construir um relacionamento tranquilo com apenas um paciente é difícil, quando há duas pessoas envolvidas, então, pode ser ainda mais. Seja pela presença do pai, da mãe da gestante ou de algum acompanhante, as expectativas e incertezas relacionadas à gestação e ao parto são constantes. Para o ginecologista e obstetra Domingos Mantelli, autor do livro Gestação: mitos e verdades sob o olhar do obstetra, lidar bem com essa realidade demanda uma relação de confiança mútua entre o profissional de saúde e o paciente. “É comum que pacientes venham até nós como a última opção de tratamento. Nesses casos, temos que deixar claro que sempre faremos o possível para
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