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tratamento institucional de transtornos emocionais…
Brasileira de Psicanálise de São Paulo, onde fiz minha formação nos anos 1980, o divã se impôs com muita vitalidade. Mas também era considerado o único filho realmente legítimo da herança freudiana. Outros usos até podiam ser feitos – e o foram – do legado de Freud, porém eram considerados secundários. Felizmente, o panorama da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo vem mudando. Vemos uma retomada fecunda da psicanálise extramuros, bem como uma valorização do intercâmbio com a cultura e as universidades. Entretanto, o tratamento institucional de pacientes graves ainda não é reconhecido como a melhor indicação psicanalítica para certos casos. Nesse ponto, continuamos com uma cultura voltada essencialmente para os consultórios, independentemente da gravidade do caso. Já em outros países, a “psicanálise além do divã” se desenvolveu de maneira produtiva e consistente. Na França e na Itália, principalmente, nossos colegas se engajaram na criação de instituições que tivessem uma abordagem psicanalítica da doença mental. O tratamento em hospital-dia substituiu, com vantagem, os hospitais psiquiátricos, inclusive no que diz respeito à adolescência. A adolescência é um momento crucial no desenvolvimento do ser humano. A delicada interação entre o adolescente, sua família, a escola e a sociedade é decisiva durante esse processo. Em alguns casos, o turbilhão emocional típico dessa fase se cristaliza na forma de patologia, com sintomas dos mais variados tipos: fragilidade emocional extrema, dificuldades escolares graves, isolamento e marginalização social, relacionamento familiar explosivo, depressão, fobias, distúrbios alimentares, distúrbios do comportamento em geral, delírios e alucinações. Esses adolescentes acabam abandonando a escola e isolados do ponto de vista social. O círculo vicioso das relações afetivas patogênicas vai se fechando em torno desses jovens, tornando o prognóstico cada vez mais sombrio.
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