Capítulo 7
O papel da leitura e o contexto de produção do texto escrito
113
Tornei-me ávido leitor. Monteiro Lobato, coleção “Terramarear”, o Tesouro da Juventude. Não lia com a cabeça, e sim com os olhos. O texto se fazia espelho e eu via meu próprio rosto no lugar do perfil anônimo de autor. Mais do que o conteúdo, encantavam-me a sintaxe, o modo de construir uma oração, a força dos verbos, a riqueza das expressões, a magia de encontrar o vocábulo certo para o lugar exato. (...) Escrevo para lapidar esteticamente as estranhas forças que emanam do meu inconsciente. Aos poucos, fui descobrindo que nada me dá mais prazer na vida do que escrever. Condenado a fazê-lo, sou candidato à prisão perpétua, desde que possa produzir meus textos. Aos candidatos a escritor, aconselho este critério: se consegue ser feliz sem escrever, talvez sua vocação seja outra. Um verdadeiro escritor jamais será feliz fora deste ofício. (...) Escrevo, enfim, para extravasar meu “sentimento de mundo”, na expressão de Drummond. Tentar dizer o indizível, descrever o mistério e exercer, como artista, minha vocação de clone de Deus. Só sei dizer o mundo através das palavras. Só sei apreender este peixe sutil e indomável – o real – através da escrita. É minha forma de oração. 7.2 O PROCESSO DA ESCRITA FOMENTADO POR OUTRO: O DA LEITURA. Muito se fala sobre o fato de ser a leitura um fator que contribui para uma melhora na escrita. Muito se fala, mas não é comum termos acesso a dados concretos que sustentem essa ideia, a não ser depoimentos como o de Frei Betto que ainda toca num ponto nevrálgico: a atitude da mestra serviu de estímulo para ele vir a ser um ávido leitor – e aqui temos um testemunho do “poder” que está nas mãos do professor. Para termos uma noção mais precisa sobre a leitura influindo positivamente na escritura, recorreremos a uma fonte de pesquisa voltada ao processo de escrita: trata-se do norteamericano Krashen (1984) que desenvolveu seus trabalhos na linha processual. O estudioso analisou uma série de pesquisas e observou que algumas revelaram que existe uma correspondência expressiva, positiva, entre leitura voluntária e desenvolvimento da habilidade de escrever, reiterando o que nos revelou Frei Beto. O
Volume 3 - Redacao.indb 113
4/11/12 10:01 AM