55
Fotografias colocam o Pão de Açúcar como um fato estético que exerce grande poder de sedução
CIDADE ERÓTICA Opina o crítico Paulo Herkenhoff que o Pão de Açúcar é um problema pictórico antigo da cidade – de Taunay a Tarsila do Amaral, passando por Thimóteo da Costa e Guignard. Entende-se que é problema porque é assunto de relevância; um fato-estético da geografia que exerce grande poder de atração sobre quem passa por ali ou sobre ele ouve falar. Se o Rio de Janeiro é mundialmente conhecido como um destino erótico, o Pão de Açúcar entra como fator importante para essa consideração, coloca o artista. “Para mim, ele sempre foi um aliado, uma solução”, garante. O grande ícone já protagonizara um clássico de sua obra, “Eu Só Vendo a Vista” (1998) – para Herkenhoff o trabalho mais político de Marcos Chaves, “que aborda o colonialismo interno no País e no Rio em sua resistência ao capital imobiliário”. Depois, o Pão de Açúcar foi a imagem de abertura do vídeo Day and Nightshots (Oferta e Procura) (2015), exibido em Destricted.br, projeto coletivo sobre sexo, erotismo e pornografia, apresentado no Festival do Rio, em 2010, e n Galpão Fortes Vilaça, SP, em 2011.
Na lenda do gigante que jaz adormecido nas montanhas do Rio – e que inspirou várias gerações de viajantes, do gravurista inglês John Landseer (1769-1852) à propaganda do uísque Johnnie Walker (2011) –, o Pão de Açúcar é o pé dessa figura deitada, enquanto a Pedra da Gávea é a cabeça e o Corcovado, o pênis. Mas no vídeo de Marcos Chaves, ele é promovido: assume a forma de um pênis e torna-se símbolo da paixão que irrompe no calor das praias cariocas, debaixo de calções apertados. Pé, pinto ou peito, o Pão de Açúcar de Marcos Chaves é a confirmação de que a percepção que o flâneur tem da cidade passa sempre pelo apelo erótico das coisas. Não podemos esquecer outro enamorado, desta vez um paulista, Oswald de Andrade, quem cantou pela primeira vez a poesia que há “no Pão de Açúcar de Cada Dia”. Depois veio João Bosco musicar o poema (Escapulário, Pau-Brasil, 1925) e completar que, “diante da pedra, são todos iguais”. Assim são as casas, os casulos, os carroceiros e os atletas abraçados diante da pedra e da câmera de Marcos Chaves. Óbvios, e todos iguais. FOTOS: CORTESIA DO ARTISTA/ GALERIA NARA ROESLER
Portfolio Marcos Chaves.indd 55
21/03/16 18:58