Caçadora de tempestades

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It never rains in California But girl, don’t they warn ya It pours, man, it pours* — ALBERT HAMMOND

* Nunca chove na Califórnia/ Mas, garota, não te avisaram que/ as tempestades são de arrepiar.


PRÓLOGO

Depois de ser atingida por raios tantas vezes quanto eu fui, a pessoa passa quase o tempo todo esperando o pior. Nunca se sabe quando aquele fiapo irregular de fogo branco, carregado com centenas de milhões de volts de eletricidade, pode descer dos céus, fulminante, e encontrar o alvo em seu corpo, abrindo um buraco como o de uma bala ou reduzindo os cabelos a cinzas; talvez deixando a pele chamuscada e quebradiça ou fazendo o coração parar. Isso pode deixá-lo cego, surdo ou ambos. Às vezes, o raio brinca um pouco, ergue o corpo no ar e o atira a vinte metros de distância, joga os sapatos longe ou frita as roupas na mesma hora, deixando a pessoa nua e fumegante na chuva. O raio pode apagar as últimas horas — ou dias — da memória ou sobrecarregar o cérebro, causando um curto-circuito na personalidade e transformando a pessoa em alguém completamente diferente. Ouvi falar de uma mulher que, ao ser atingida por um raio, foi curada de um câncer terminal. E de um paraplégico que voltou a andar. Tem vezes que o raio atinge você, mas é a pessoa ao lado que acaba indo parar no hospital. Ou no necrotério. Qualquer uma dessas coisas pode acontecer, ou nenhuma delas, ou ainda outra da qual ninguém tinha ouvido falar. O problema dos raios é que nunca se sabe o que podem fazer. Podem transformar a pessoa em algum tipo de bateria humana bizarra, armazenando energia, ou podem deixar a sensação constante de que a qualquer dia ela vai entrar em combustão espontânea. Como se uma bomba detonasse dentro do corpo e fizesse, bem... o que as bombas fazem de melhor. Ou talvez isso só aconteça comigo. Meu nome é Mia Price, e sou um para-raios humano. Será que existe um grupo de apoio para isso? Deveria, e vou dizer por quê.


Meu nome é Mia Price, e sou viciada em raios. Pronto. Agora você sabe a verdade. Quero que os raios me encontrem. Desejo isso como pulmões desejam oxigênio. Não há nada no mundo que faça alguém se sentir mais vivo do que ser fulminado. A não ser, é claro, que seja fatal. Isso acontece comigo, de vez em quando, e foi por isso que me mudei para Los Angeles. Como diz a música, nunca chove no sul da Califórnia. Mas a música também diz que as tempestades são de arrepiar. E ela está certa. Meu nome é Mia Price, e faz um ano desde que fui atingida pela última vez, o que não quer dizer que já parei de esperar o pior. Só caem raios em Los Angeles algumas vezes por ano. O problema é que troquei tempestades por terremotos — por um terremoto em especial. Aquele que mudou a cidade, e minha vida, para sempre. Naquele dia, aconteceu o pior desastre natural que atingiu os Estados Unidos desde... Hã, acho que desde sempre. Choveu. Na verdade, caiu uma tempestade.

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PARTE 1

Um raio nunca atinge duas vezes o mesmo lugar. — Provérbio

14 de abril Três dias até a tempestade...


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Não durmo muito. Uma hora aqui, duas ali. Insônia crônica é uma das sequelas mais toleráveis de ser atingido por raios. Não é tão ruim quanto as cicatrizes vermelhas e raiadas que cobrem meu corpo, ou quanto a queimação no peito — que se torna incandescente quando fico um pouco emotiva. Insônia? Mé. Poderia ser pior (e costuma ser). A maioria das pessoas deseja ter mais horas no dia. Eu uso quase todas as 24. Quando vou me deitar à noite, não é com intenção de dormir. Se o sono vier, ótimo. Se não, bem, é algo com que já me acostumei. Então, quando abri os olhos e vi um cara de pé ao lado da cama, só pude presumir que finalmente havia caído no sono. E, quando reparei a faca prateada reluzente em sua mão — o tipo de lâmina bonita e decorativa que não tem aplicação prática além de assassinato —, decidi que não queria descobrir o fim daquele sonho. Teria sido legal dormir um pouco mais, mas precisava me forçar a acordar antes que o Garoto do Pesadelo usasse a faca para me estripar. — Acorde, Mia — falei comigo mesma, em uma voz que saiu rouca e falhada, como aconteceria se eu estivesse, de fato, acordada. O cara se afastou da cama. Soltou a faca, que caiu retinha e ficou cravada no piso de madeira com um tum. Devia estar afiada. Ele se atrapalhou para soltá-la, mas parecia não saber o que fazer com a arma depois disso. O rosto estava encoberto pelas sombras, mas os olhos brancos arregalados e os movimentos assustados denunciaram que estava tão apavorado quanto eu. Em matéria de pesadelos, aquele garoto não era tão ruim. Decidi continuar dormindo. Fechei os olhos, esperando que, ao abri-los, estivesse em um novo sonho.


Mas não tive mais sonhos naquela noite, só ouvi o som leve dos passos do Garoto do Pesadelo batendo em retirada. Quando abri os olhos de novo, parecia que eu não tinha dormido nem um segundo, mas a temida manhã havia chegado. A manhã em que eu e meu irmão Parker voltaríamos para a escola pela primeira vez desde o terremoto. Tinha um dicionário de sonhos em algum lugar da casa. Se eu o consultasse, estava quase certa de que confirmaria minhas suspeitas de que sonhar com uma faca era mau presságio. Não que eu precisasse de um presságio para me avisar que aquele dia seria horrível. Quando me arrastei para fora da cama, reparei em um pequeno corte no piso de madeira, bem onde a faca do Garoto do Pesadelo ficara cravada. Estranho. Mas também havia várias outras rachaduras e cortes no velho piso do meu quarto, um sótão reformado. Afastei os pensamentos do sonho. Tinha problemas maiores — problemas reais — com que me preocupar. Não sabia o que esperar da volta à escola, mas se havia qualquer indicação nas mudanças que tinham se consolidado no restante da cidade, acho que deveria aceitar e esperar o pior, como sempre. Obrigada pelo aviso, Garoto do Pesadelo. Não que me ajude muito.

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Eu estava fora do quarto da minha mãe quando ouvi a voz abafada do Profeta. Não conseguia entender bem o que ele dizia, mas, depois de um mês com minha mãe assistindo àqueles sermões dele na TV de um jeito quase obsessivo, dava para adivinhar qual era o assunto. O fim do mundo está próximo. Aqueles que entregarem as almas ao Profeta serão salvos. Os que não o fizerem sofrerão e morrerão — e então sofrerão mais um pouquinho. Tá, tá, tá. Ouvimos da primeira vez. — Mãe. Bati à porta antes de virar a maçaneta. Eram sete horas, e, lá fora, o sol cumpria sua função, mas o quarto da minha mãe parecia uma caverna. Ela estava sentada à janela vestindo o roupão surrado que não tirava há dias e olhando pelas frestas da persiana. Seus olhos se moviam de um lado para outro, divididos entre a janela e a TV, que exibia A Hora da Luz, a transmissão matinal de Rance Ridley Profeta. Ele apresentava três programas por dia: de manhã, ao meio-dia e à noite. Desde que trouxemos minha mãe de volta do hospital, ela estava obcecada com o Profeta. O único modo de perder a transmissão seria se a eletricidade ou a TV a cabo nos deixassem na mão. Eu quase torcia para esses apagões acontecerem. — Irmãos e irmãs — entoava o Profeta —, em breve Deus fará Seu julgamento final. Agora é a hora de decidir de que lado ficarão: do lado do paraíso? Ou do lado da terra e dos prazeres perversos e mundanos? Serão erguidos, arrebatados para o paraíso? Ou serão abatidos pela terrível vingança divina? A voz do Profeta abafou minha entrada no quarto. Às vezes eu ficava me perguntando se a audição da minha mãe piorara por causa do terre-


moto. Ela parecia tão alheia ao que acontecia ao redor... O médico que a atendeu durante cinco minutos inteirinhos antes de ceder o leito a alguém mais necessitado disse que minha mãe estava bem. Desnutrida e desidratada, mas sobreviveria. Depois de três dias presa debaixo de um prédio que desabou, ela estava com alguns hematomas feios, algumas costelas quebradas e dezenas de lacerações no rosto e nos braços, tudo causado pela parede de vidro que explodiu perto de onde estava, quando o prédio começou a ceder. A maioria dos ferimentos já tinha quase cicatrizado. Fisicamente, ela estava tão bem quanto podíamos esperar. A saúde mental era outra questão. A internet — assim como a TV a cabo e os outros serviços — caíam e voltavam o tempo todo desde o terremoto, mas, enquanto a conexão estava funcionando, pesquisei os sintomas da minha mãe até determinar o que havia de errado com ela: transtorno de estresse agudo — o gêmeo malvado e cheio de anabolizantes do transtorno de estresse pós-traumático —, causado por um evento traumático que é revivido em flashbacks, causando ansiedade, delírios, afastamento emocional, até mesmo amnésia. Minha mãe tinha todos os sintomas e mais um pouco. Devia estar em um hospital, 24 horas por dia, sob os cuidados de um psiquiatra e de uma equipe de enfermeiras. Mas os hospitais ainda estavam cheios de pacientes com ferimentos que eram uma verdadeira ameaça às suas vidas, pessoas com colunas quebradas, braços e pernas esmagados e queimaduras infeccionadas. Pessoas sofrendo de febre do vale, um distúrbio imunológico causado por fungos liberados das profundezas durante o terremoto. Pessoas tão desnutridas e desidratadas pela falta de comida e água na cidade que o único modo de seus corpos aceitarem os nutrientes era por meio de um tubo. Não havia camas para aqueles com mentes defeituosas, mas corpos funcionais. O lado positivo era que o transtorno de estresse agudo costumava durar no máximo quatro semanas, e o terremoto acontecera havia exatamente um mês. Três semanas e quatro dias desde que a equipe de resgate retirara o corpo inconsciente e desidratado da minha mãe de baixo de várias toneladas de escombros. Era um milagre ela ainda estar respirando. Outras pessoas que foram encontradas no mesmo local não deram tanta sorte. Algumas foram esmagadas na mesma hora. Outras sufocaram, e foram suas mortes que salvaram a vida dela. Não havia oxigênio suficiente para todos naquela pequena caverna sob os destroços. Quatro semanas desde o terremoto... Pareciam quatro mil. — Mãe — chamei de novo. Mantive a voz baixa e suave, como se minhas palavras pudessem feri-la se saíssem altas demais. Ela enrijeceu o corpo e curvou os ombros quando virou a cabeça. Fazia tanto tempo desde que lavara o cabelo que 18


ele parecia úmido de tão ensebado. As cicatrizes em seu rosto se destacavam como linhas brilhantes cor de salmão naquela pele que não via o sol há semanas. Eu precisava me esforçar para não me encolher sempre que olhava para ela. Pelo menos meu rosto fora poupado das cicatrizes de raios que cobriam o restante do meu corpo. O rosto da minha mãe, por outro lado... Ela precisaria de uma cirurgia plástica para remover as cicatrizes se não quisesse ser lembrada do terremoto sempre que olhasse no espelho. — Já começamos a testemunhar a ira divina — continuou o Profeta. — Ele sussurrou para mim, contando que atingiria Los Angeles poucos minutos antes de Seu punho descer. O fim de todas as coisas está próximo, irmãos e irmãs, e vai começar bem aqui, em Los Angeles. Porque esta não é a cidade dos anjos, é uma cidade em que demônios governam, lá das mansões nas colinas e dos enormes estúdios, espalhando a corrupção como uma praga pelas telas de televisão, pelos cinemas e pela internet. Será mesmo uma surpresa, em uma cidade tão imoral, que nossos jovens, aqueles que se intitulam “nômades”, dancem e bebam, saltitando por cima dos túmulos dos mortos no deserto? Abaixei o volume, desviando o olhar das órbitas leitosas dos olhos do Profeta. Seus cabelos, brancos como a neve, caíam como uma avalanche sobre os ombros, espessos e brancos como os pelos de um urso polar, embora ele não devesse ter mais que 35 anos, a julgar pelo rosto bronzeado e liso como manteiga de amendoim. O sorriso era branco como alvejante, em formato de lua crescente. Mas, quando eu olhava para ele, a característica que mais me chamava a atenção eram os olhos, vazios e opacos, cobertos por um filme de catarata. — Mãe, Parker e eu precisamos ir — falei. — O quê? — respondeu ela, por fim. — Aonde... Aonde vocês vão? A voz dela era arrastada, carregando o peso dos antipsicóticos e remédios contra a ansiedade que eu obtivera por meios nada legais. Mesmo que conseguisse uma consulta para que um dos médicos superocupados da cidade examinasse minha mãe, eles apenas dariam receitas que eu não poderia comprar. As farmácias tinham sido saqueadas nos primeiros dias após o terremoto. Suprimentos como comida, água e remédios chegavam à cidade em carregamentos aéreos, mas, com a maioria das estradas fechada e os caminhões que conseguiam passar sendo saqueados, não havia o suficiente. Quando o terremoto aconteceu, 19 milhões de pessoas moravam na grande área metropolitana. A população diminuíra desde então. Aqueles que puderam abandonaram a cidade como se abandona um navio a pique. Mas ainda havia gente demais para alimentar e medicar. Mesmo contando com os jatinhos particulares que as celebridades emprestavam 19


para as organizações que prestavam socorro, havia um número limitado de aviões e helicópteros disponíveis para importar mercadorias. Os suprimentos eram divididos entre os hospitais e clínicas da região e consumidos assim que deixavam os caminhões. Se os caminhões conseguissem concluir o caminho dos aeroportos até o local de descarga. A única opção que me restou para conseguir remédios para minha mãe foi o mercado negro. Sabia que estava comprando os mesmos medicamentos que tinham sido roubados, mas não podia me importar com isso. Minha bússola moral não apontava para a mesma direção que antes. — Mãe — insisti. Pude ver que ela estava com dificuldade para se concentrar em mim. Metade de sua atenção na porta, a outra metade no Profeta. — Parker e eu precisamos voltar para a escola hoje. Mas voltaremos direto para casa. Você só vai ficar sozinha por algumas horas. Uma expressão começou a se formar no rosto dela. Terror diante da perspectiva de ser deixada sozinha na casa, com protestos e saques ainda ocorrendo pela cidade, além de fornecimento de água, eletricidade e serviço de celular ainda instáveis. Minha mãe apertou as mãos, unidas, no colo, como se tentasse moldá-las em um novo formato. — E se alguém tentar entrar enquanto vocês estiverem fora? — Verifiquei as portas e janelas. Tudo está bem trancado. Ninguém vai entrar. Foi bom eu ter verificado as janelas de novo naquela manhã. Encontrei a da garagem aberta. Era uma janela pequena, mas alguém poderia se espremer e passar por ela, se realmente quisesse entrar. Minha mãe esticou os dedos e abriu as persianas de novo. — Tinha um garoto olhando a casa mais cedo. Um rapaz da sua idade, usando óculos. Eu já o vi antes. Não consigo... Não consigo lembrar onde. Ele me viu olhando e foi embora. Eu o conheço de algum lugar, Mia. Conheço, mas não me lembro. — Ela bateu com os punhos fechados nas têmporas com tanta força que dei um salto. — Por que os dois precisam ir? Não dá para um de vocês ficar aqui comigo? Não quero ficar sozinha nesta casa enquanto ele está lá fora, olhando. Não queria dizer a ela por que era tão importante que Parker e eu voltássemos para a escola, por que não daria para esperar mais uma semana. Estávamos nas últimas latas de comida, e as poucas escolas que reabriram não apenas ofereciam almoço de graça, mas as crianças que começassem a assistir às aulas teriam prioridade no socorro. Parker e eu, cada um, receberíamos uma ração de comida para levar para casa por cada dia que aparecêssemos. Não era uma questão de educação. Era de sobrevivência. 20


Os punhos da minha mãe estavam fechados junto às têmporas, o corpo curvado, como se estivesse se preparando para o impacto. Será que tinha mesmo alguém observando a casa, ou ela estava vendo coisas de novo? — Mãe... Mãe, preciso que tome os remédios antes de sairmos. Xanax para a ansiedade. Thorazine para as alucinações e os flashbacks. Ela abaixou o queixo, apertando-o contra o peito. — Já tomei. — Tem certeza? Eu parecia condescendente, mas minha mãe quase nunca se lembrava de tomar os remédios. Na maioria das vezes, mal parecia lembrar o próprio nome. Ela lançou um olhar irritado para mim. — Absoluta — disse. Uma batida leve na porta aberta. Parker enfiou a cabeça para dentro da sala, os espessos cabelos cor de palha, ainda molhados do banho, caíam sobre os olhos. A água estava funcionando naquele dia. Um alívio. Eu não tinha tomado muitos banhos desde o terremoto, e não queria voltar para a escola cheirando como um dos Desalojados. Parker foi até nossa mãe e a abraçou. — Amo você — disse. — Vamos estar de volta num piscar de olhos, tudo bem? Nossa mãe ficou tensa quando ele a tocou. Parker a soltou, tentando não parecer magoado com a rejeição, mas eu sabia que estava. De nós dois, Parker sempre foi o mais sensível. A palavra que minha mãe usava para descrevê-lo era “empático”, mas era mais do que isso. Parker não era apenas empático. Era um “reparador”. Quando alguém estava magoado, meu irmão tentava encontrar um modo de fazer a pessoa se sentir melhor. Parker não conseguia ultrapassar a muralha que nossa mãe erguera ao redor de si, e aquilo o estava matando. Mas a rejeição dela não era pessoal. Pelo menos era o que eu dizia a mim mesma. Ela não gostava mais que as pessoas se aproximassem. Todo dia, parecia se fechar mais dentro de si, ficando menor e menor, como se ainda estivesse sendo esmagada por aquele prédio desabado. — Vou esperar no carro. Parker evitou olhar para mim ao passar, mas vi que estava com os olhos úmidos e senti a emoção fazer um nó em minha garganta. Quando ele se foi, eu me aproximei dela. Também queria abraçá-la, embora soubesse que estaria tão imóvel e inerte quanto um toco de

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madeira. Mas, mais que isso, queria agarrá-la pelos ombros e sacudi-la, exigindo que voltasse para nós. Precisávamos dela. Meus olhos permaneceram fixos na TV. Na tela, a câmera recuou, revelando o palco. Diversos adolescentes com roupas idênticas — os meninos de camisas e calças brancas, impecáveis, as garotas de longos vestidos brancos — estavam dispostos de cada lado do Profeta. Dois eram gêmeos, um menino e uma menina, com cabelos loiros quase brancos, um tom mais próximo do marfim do que do cabelo do Profeta, ambos tão altos e magros que pareciam ter sido esticados. A caravana de crianças adotadas pelo Profeta. Seus Doze Apóstolos, era como ele os chamava, embora eu só tivesse contado 11 deles no palco. Considerando que aquele homem conseguira fazer lavagem cerebral em milhões de pessoas — que passaram a acreditar que ele não era apenas um homem cujo sobrenome era Profeta, que não era um profeta, e sim o profeta escolhido por Deus para nos alertar que o mundo estava chegando ao fim —, eu não queria imaginar como era a rotina na privacidade de seu lar. — Ele está lá fora de novo... olhando a casa — comentou minha mãe, ansiosa. — O menino. Olhe. Eu me abaixei para espiar pelas persianas e meus olhos encontraram a luz forte do sol. As pessoas perambulavam pela calçada, sem rumo. Os Desalojados. Aqueles cujos lares tinham sido destruídos pelo terremoto. Mas não vi nenhum menino observando a casa. — O que ele quer? — perguntou minha mãe. A mão dela percorreu o rosto, os dedos tracejando a linha protuberante de uma cicatriz rosada e irregular no maxilar. — Não sei — respondi, ouvindo o desespero em minha voz, forte como um sotaque. A dela saiu falhada. — Tudo está se desfazendo, e o Profeta diz que as coisas só vão piorar. Ele sabe o que está vindo, Mia. Deus fala com ele. Ah, Deus. Deus, Deus, Deus. Eu estava de saco cheio de ouvir falar de Deus. Deve ser porque havia dois anos que não ouvia falar muito dele (ou dela, ou disso), desde o falecimento da mãe da minha mãe — minha avó fanática, temente a Deus e agarrada à Bíblia. Depois disso, minha mãe ficou livre para parar de fingir que caía na teologia cheia de fogo e enxofre da vovó, que foi para o túmulo pensando que a filha, um dia, se juntaria a ela em uma nuvem branca e fofinha no paraíso, em vez de afundar direto para o inferno — onde meu pai assava em um espeto, junto com os outros descrentes. Minha mãe sempre alegou com muita firmeza que era agnóstica, apesar da criação extremista. Não acreditava em qualquer coisa em particu22


lar, e estava perfeitamente feliz em esperar até a morte para descobrir qual era a verdade. Imaginei que a obsessão com o Profeta fosse uma fase nascida do desespero, como as pessoas em um avião que começam a rezar quando passam por um trecho ruim de turbulência. Toquei o ombro de minha mãe. Estava em um ângulo duro, protuberante. Ela não passava de um esqueleto vestindo um roupão. — Vai ficar tudo bem — falei, embora as palavras tivessem perdido o sentido devido à repetição frequente. Eu sempre as dizia para alguém agora, fosse para minha mãe, para Parker ou para mim mesma. — Tome cuidado lá fora — disse ela, tocando em mim bem depressa, na mão enluvada. — Cuide do seu irmão. — Pode deixar. Virei para ir embora, e o Profeta sussurrou por cima de meu ombro, como se estivesse logo atrás de mim: — Eu olhei depois de aberto o sexto selo, e houve um grande tremor de terra; então o sol se tornou negro como se coberto por silício, e a lua se tornou sangrenta. A hora está chegando. O fim está chegando.

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