__MAIN_TEXT__

Page 1


A Terra de Leovigildo

Da Terra de Leovigildo ao Concelho de Lousada| 1


Ficha Técnica Trabalho da turma do 4.º ano da Escola Básica de Campo (Nevogilde), realizado ao longo dos anos letivos 2015/2016 e 2016/2017, no âmbito do projeto “Aprender com a Biblioteca Escolar” e da atividade “Vamos conhecer melhor a nossa terra”. Coordenação Prof. Luís Ângelo Fernandes. Colaboração: Profs. Cristina Matos, Hilária Leal, Nuno Costa, Marco Aurélio Gomes, Sílvia Moreira, Pauliana Fonseca e Patrícia Vasconcelos, e Educadoras Iolanda Mateus e Rosa Moreira. Investigação Ana Ribeiro, Herlander Araújo, Lucas Gomes, Marta Pacheco e Raquel Monteiro (Evolução histórica), Bárbara Magalhães, Gonçalo Alexandre Moreira, Inês Sousa, Letícia Costa, Maria Beatriz Nunes e Pedro Torres (Monumentos), Diana Sousa, Mariana Borges, Maria Luís Cunha, Rafael Gomes e Ricardo Sousa (Personalidades), Cláudio Sousa, Gonçalo Daniel Bessa, Jéssica Ferreira, João Magalhães, Luana Leal e Sara Ferreira (Património Oral), Prof. Altino Magalhães (Folclore), Dr. André Couto (Fauna) e Dr. Rafael Marques (Flora). Fotos Carlos Mota (Presidente da Associação de Pais) Título A Terra de Leovigildo Capa e Design Fedra Santos Edição EB de Campo, Nevogilde, Lousada Paginação Invulgar, Artes Gráficas - Penafiel Tratamento eletrónico Eduardo Ribeiro 2.ª Edição Março de 2018 ISBN 978-972-8787-23-3 Depósito Legal 426594/17

Apoio

Siglas e Abreviaturas ADP – Arquivo Distrital do Porto | AHM – Arquivo Histórico Militar | Arq. – arquivo Coord. – Coordenação | D. – Dom / Dona Dir. – Direção | Dr. (ª) – Doutor(a) | EB – Escola Básica EBS – Escola Básica e Secundária | ed. – edição | Eng.º – engenheiro FC – Futebol Clube | fl (s). – fólio(s), folha(s) | ha – hectares inf. – informação | Lda. – Limitada | m – metro | Org. – Organização p., pp. – página, páginas | Pe. – Padre | Procº – processo Prof.(ª) – Professor(a) | PSD – Partido Social Democrata | s/n – sem nome UD – União Desportiva | v. – verso | vol. – volume


Apresentação Esta obra tem uma história. No ano letivo 2015/2016 a turma do 3.º ano da escola básica de Campo (Nevogilde) tinha no programa o estudo do meio local, enquanto a Biblioteca Escolar procurava relacionar o serviço da biblioteca com o currículo. Juntaram-se os dois objetivos e surgiu uma investigação sobre a história de Nevogilde. Houve visitas de estudo e leituras de livros, fizeram-se resumos, observaram-se fotos, entrevistaram-se pessoas, tudo com muito interesse e entusiasmo. No final, com o resultado das pesquisas, tivemos um modesto livrinho fotocopiado só para os alunos. No entanto, ficaram temas por tratar e havia a necessidade de aprofundar outros assuntos. Como toda a turma transitou para o 4.º ano, pensou-se em dar continuidade ao projeto. Os grupos de trabalho prosseguiram as investigações e apareceram novas informações e novas ideias, entre as quais publicar um livro para toda a comunidade ficar a conhecer a verdadeira história da freguesia. Para isso, envolvemos mais pessoas adultas para ajudarem a fazer uma obra mais completa e rigorosa. Com a colaboração de todos, acreditamos que Nevogilde só ficou a ganhar. Quanto mais conhecermos a nossa terra, mais razões encontramos para a amar.


“Contudo, nesse momento, era a ilha que o interessava e não esta ou aquela pessoa em especial.” Georges Simenon, “O meu amigo Maigret”, 1958, Livros do Brasil, Colecção Vampiro, p. 50

“No largo tapete d’ este fertilíssimo valle descobre-se mais ao longe NEVOGILDE, dominando com a sua brancura de garçareal o verde-ruivo das carvalheiras que parecem formar um pelotão marchando ao nosso encontro.” José Augusto Vieira, O Minho Pittoresco, 1886, p. 357


Nevogilde é uma freguesia do concelho de Lousada, distrito do Porto. Está rodeada pelas freguesias (ou união de freguesias) de Casais, Nespereira, Lodares e Figueiras (concelho de Lousada), Beire (Paredes) e Ferreira (Paços de Ferreira). Tem cerca de 3,6km2 de área e 2.600 habitantes.


Lição heráldica Escudo de azul, vaca passante de prata, ungulada de negro. Significa a criação de gado, muito importante na freguesia. Em chefe, dois cachos de uvas de ouro, sustidos de prata: representa a agricultura, especialmente a cultura da vinha, fonte de rendimento da população durante muitos anos. Em campanha, ponte de prata de quatro pilares, lavrada de negro, movente dos flancos e da ponta: constitui uma referência ao Aqueduto, um dos principais monumentos da nossa terra. Coroa mural de prata de três torres: são três torres porque Nevogilde é uma freguesia. Listel branco, com a legenda a negro: «NEVOGILDE - LOUSADA».


DA TERRA DE LEOVIGILDO AO CONCELHO DE LOUSADA


Uma origem germânica

D

e onde vem o nome Nevogilde? Sabemos que vem de um nome próprio de homem, ao certo não se sabe quem, mas quase de certeza um guerreiro godo ou alguém muito importante na sociedade, que aqui viveu e lhe deu o seu nome (GOMES, 1996: 106). Talvez se chamasse Leovigildo (“Leov” quer dizer caro), que era também o nome do primeiro rei godo a governar a Lusitânia e que morreu em Toledo em 585. Por todo o Vale do Sousa existem muitos nomes assim, de origem germânica, levando-nos a concluir que esta região foi bastante preferida pelos invasores da Península Ibérica, por haver sítios altos, com solos de granito e campos de cultivo fácil (GOMES, 1996: 106). Aliás, num ponto elevado da freguesia, que se destaca na paisagem, e com muitos elementos de granito, surge-nos um antigo castro, onde terão aparecido restos de cerâmica e que teria, também, uma muralha defensiva (NUNES, 2008: 165). As referências comprovadas mais antigas sobre Nevogilde vêm da Idade Média. Por exemplo, em 1105, o Mosteiro de Santo Estêvão de Vilela tinha aqui muitas propriedades, por compra ou por doação, nomeadamente em Lagoas, com uma herdade deixada por um Goldegrodo Pais, enquanto

O castro, na montanha ao fundo, teria uma muralha defensiva. Coleção particular de Carlos Mota.

12 | Uma Origem Germânica


em 1174 o Mosteiro compra pelo seu prior, D. Garcia Ordonhes, o terço de um casal que Mem Gonçalves tinha em Lagoas (LOPES, 2004: 293). Em 1228 o Mosteiro de Arouca recebeu um casal na Jusam (LOPES, 2004: 294). Chamava-se casal à exploração conjunta das terras pela mesma família. Agora diríamos que era uma pequena quinta. Em 1258 o Rei D. Afonso III mandou fazer Inquirições por todo o reino. Era uma espécie de fiscalização para verificar quem eram os verdadeiros donos das terras.A Coroa estava com dificuldades financeiras devido à guerra contra os Mouros e pelo facto de muitos senhores abusarem, dizendo serem suas as terras que de facto pertenciam ao Rei. Assim, um grupo de inquiridores andou a percorrer o país inteiro para apurar os direitos das terras e os rendimentos dos fidalgos e da Igreja, já que estes tinham muitos privilégios e não pagavam impostos. Eram inquéritos confidenciais após informações prestadas pelo juiz em cada julgado (que administrava e julgava em nome do Rei), pelo pároco da freguesia, pelos homens-bons (os mais ricos e respeitados chefes de família) e por todos os que pudessem informar corretamente. D. Afonso II foi o primeiro Rei a fazer Inquirições, no ano de 1220, mas não nos chegaram notícias acerca de Nevogilde. No entanto, em 1258, com as tais Inquirições de D. Afonso III, ficamos a saber muitas coisas. Desde logo, o nome das testemunhas: pároco Martim Enes, que nos informa com Afonso Pais, Pedro Pires, João Miguel e João Mouro. Assim, Nevogilde, que pertencia ao julgado de Aguiar de Sousa, tinha 23 casais, assim distribuídos: Mosteiro de Ferreira (6), Mosteiro de Pombeiro (3), Igreja de Nevogilde e herdadores (1), Igreja de Nespereira (1), D. Gil Martins (1), D. Teresa Martins (2), D. Fernando Nunes (2), D. Aires Nunes (1), D. Gonçalo Nunes e D. João Nunes (2), D. Fernando Eanes da Galiza (1), Rodrigo Pires Alto (1), Mendo Rodrigues e João Rodrigues (1) e Pedro Rodrigues (1) (LOPES, 2004: 295). Os rendimentos da igreja pertenciam a D. Gil Martins e D. Gonçalo Garcia de Sousa. Portanto, o Rei não tinha aqui haveres. Novas Inquirições ocorreram com o Rei D. Dinis, em 1308, apenas ficando mencionado que esta freguesia já tinha sido inquirida por Rui Pais e Gonçalo Rodrigues (LOPES, 2004: 300). Sabe-se que em 1312 Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis, recebe de seu pai 220 mil libras como compensação dos gastos que tivera na compra de numerosos bens que tinham sido do 2.º Conde de Barcelos, D. Martim Gil, entre os quais Veiga,Vilar do Torno, Carrazedo, Sequeiros e Nevogilde (PIZARRO, 1997: 190-192). Se avançarmos para 13/2/1395, verificamos que Constança Afonso, já casada com Martim Gonçalves, revalida a doação de metade dos casais de Sequeiros e de Lagoas ao Prior e Convento de Bustelo, na condição, entre outras obrigações, de uma missa oficiada por suas almas e daqueles por quem eram obrigados, em dia de São Martinho (MEIRELES, 2007: 87). A 28/7/1431 Senhorinha Afonso, mulher de Afonso Gonçalves, e sua irmã Constança Afonso, fazem manda ao Mosteiro de Bustelo de toda a parte e direito que tenham no casal de Sequeiros e Lagoas, exceto a quebrada de Miragaia, em obrigação de dizerem por suas almas e daqueles que houveram as terras o número de missas que julgarem por bem1. Dois anos depois, a 9 de março, Martim Gonçalves e sua mulher Constança Afonso, moradores em Meinedo, fazem uma doação ao Prior e Convento de Bustelo, entre outras terras, de metade do lugar de Lagoas, com obrigação de uma missa oficiada em dia de S. Martinho por suas almas e das suas obrigações e de aplicar os rendimentos que sobrassem em outras missas2. Já em 25 de novembro de 1513 o Rei D. Manuel I concedeu foral a Aguiar de Sousa. Nevogilde (tal como outras freguesias atualmente de Lousada, como Casais, Covas, Figueiras e Sousela) continuava a integrar este concelho. Por aquele documento sabemos que o casal da Ratoeira pertencia a Álvaro 1 2

Arq. do Mosteiro de Singeverga, Bustelo, Gaveta 1, n.º 60. Arq. do Mosteiro de Singeverga, Bustelo, Gaveta 1, nº 46.

Uma Origem Germânica | 13


Frontispício da carta de foral concedida por D. Manuel I a Aguiar de Sousa, na qual vinha mencionada a freguesia de Nevogilde1 . 1 http://www.cm-paredes.pt/VSD/Paredes/vPT/Publica/Agenda/ Eventos/Encontrartes+2013.htm.

Quinta de Vinhais A quinta de Vinhais, que pertencia à Mesa conventual de Paço de Sousa, foi emprazada ao meirinho1 do bispado do Porto por D. João de Soiro, Abade do Mosteiro, e Procurador de D. Pedro da Costa, Bispo da diocese e comendatário do Mosteiro. A renda anual era de 120 reais, com obrigação de lutuosa2 em dobro da renda, bem como 90 reais pela passagem do Rei e 4 e 1/4 para a do Príncipe, quando estes passarem para aquém Douro, e ainda 10 de dízima3 quando o Rei, o Papa ou o Bispo a lançarem ao Mosteiro. Aconteceu este contrato a 30/9/1523. Mais tarde parece que os Jesuítas terão ficado com esta propriedade (PIMENTA, 1942: 246).

Oficial de justiça na Idade Média. 2 Direito que os donatários recebiam pela morte dos inquilinos. 3 Imposto. 1

14 | Uma Origem Germânica

Quinta de Vinhais. Coleção particular do Prof. Luís Ângelo Fernandes.


Fernandes, que pagava de imposto meio maravedi, que eram 24 reais e três dinheiros (tudo moedas da época), e o casal de Paços pertencia a Gonçalo Anes, havendo também impostos a pagar por João Álvares, João do Cão e Gonçalo Anes do Cão (LOPES, 2004: 301). Só o lugar de Lagoas estava no concelho de Lousada (LOPES, 2004: 138). Em 1758, as terras eram do Rei (D. José I), menos o lugar de Lagoas, que pertencia à Casa de Bragança (MOURA, 2009: 438). No mesmo lugar de Lagoas e no lugar de Quebrada de Lagos, já em finais do século XVIII, havia propriedades do Mosteiro de Bustelo (MAIA, 1991: 112). Com a extinção do concelho de Aguiar de Sousa a 6/11/1836, Nevogilde passou para o concelho de Paredes, onde se manteve até 17/4/1838, data da restauração do concelho de Lousada. Em resumo, antigamente, o território que hoje corresponde ao nosso concelho estava dividido por grandes proprietários. Não havia as 15 freguesias atuais porque algumas delas pertenciam a outros concelhos e até acontecia partes da mesma freguesia estarem distribuídas por diferentes concelhos.

Acontecimentos Apesar de a organização administrativa do país ser bem diferente, Nevogilde sentiu muitos dos principais acontecimentos da História de Portugal. Das invasões bárbaras às Invasões Francesas, da consolidação da nacionalidade à Implantação da República, da guerra colonial à instauração do poder local democrático, podemos estudar a História do país a partir da História local.

Invasões Francesas

Queda do Governo

Na segunda invasão francesa, o exército francês, comandado pelo general Soult, bateu em retirada, perseguido pelas tropas portuguesas e inglesas. Na sua fuga desesperada, entre 13 e 14 de maio de 1809, passou por Nevogilde, mas não há registo de prejuízos causados pelo invasor (MOURA, 2009a: 452).

Em 1881 houve uma crise no governo de Portugal. O primeiro-ministro, Anselmo Braamcamp, demitiu-se e centenas de pessoas festejaram com grande entusiasmo na vila de Lousada. José de Sousa Freire Pitta Malheiro, da Casa da Jusam, um dos mais influentes do Partido Regenerador, contratou duas bandas de música, que tocaram todo o dia os hinos nacionais em Nevogilde, Casais e Figueiras, mandou lançar muitos foguetes e ofereceu um lauto jantar1. 1

Commercio de Penafiel: 26/3/1881, p. 4; 30/3/1881, p. 4, e 2/4/1881, p. 4.

Treino militar General Soult . 1

https://www.google.pt/search?q=soult&rlz=1C1AVNE_ enPT623PT624&espv=2&biw=1366&bih=662&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwi6v62OgIbRAhXBchQKHa_dCPIQ_AUIBigB#imgrc=ypAdcMqW05vP7M%3A (consulta em 25/1/2016). 1

Decorria o ano de 1914. Em meados de Agosto, o Regimento de Infantaria n.º 32, aquartelado em Penafiel, fazia exercícios de acantonamento, bivacando em Lagoas (FERREIRA, 2008: 41).

Uma Origem Germânica | 15


Manuel Magalhães (ao centro) festejando o regresso da Guerra Colonial, em 1971, na quinta da Lavandeira, ladeado por José Belmiro Dias (à esquerda na foto) e José Moreira da Silva. Coleção particular de António Belmiro Dias.

Regresso da guerra

A última vítima

Se para uns a guerra acabou em morte ou com lesões muito graves, para outros regressar ilesos do Ultramar era motivo de festa na aldeia, com foguetes, banquete, convívio e muita alegria.

A Guerra Colonial havia terminado um mês antes, mas um acidente abalou a freguesia em maio de 1974. Tomás Augusto de Barros Brás, de 23 anos, daqui natural, Alferes Piloto-Aviador, filho do Dr. Manuel da Silva Brás, morreu em Vila Pery, Moçambique, quando um avião da Força Aérea explodiu antes da aterragem1. 1

Tomás de Barros Brás. Coleção particular do Prof. Luís Ângelo Fernandes.

16 | Uma Origem Germânica

Jornal de Lousada: 20/4/1974, p. 5.


Major António Teixeira Pinto Nasceu em Nevogilde em 21/3/1861, filho de José Teixeira Pinto e de D. Ermelinda Rosa de Jesus. Fez carreira militar em África, onde teve cargos de grande responsabilidade. Regressou em 1908 e passou a morar em Vila Nova de Gaia, onde foi Presidente da Câmara, encontrando-se perpetuado na toponímia de Vilar do Paraíso. Teve uma história de vida muito preenchida de aventuras, com processos disciplinares, lutas na Serra do Pilar e filhos fora do casamento, que depois legitimou. Casou duas vezes: a 29/9/1883 com D. Matilde das Dores Gonçalves1 , e, por falecimento desta, com D. Alice da Conceição Pires a 20/1/1918. Faleceu, com a patente de Major, em Chelas (Lisboa), em 12/9/19192. 1 2

AHM, Proc.º do Major Teixeira Pinto. Jornal de Lousada, 14/9/1919, p. 2.

Perpetuado na toponímia de Vila Nova de Gaia1.

1 https://www.google. pt/maps/@41.0986761,8.6188935,3a,75y,250.98h,89.76t/data=!3m6!1e1!3m4!1sDWVxN4t69U0A8ecgxWewVg!2e0!7i13312!8i6656 (consulta 1/2/2017).

POPULAÇÃO Nem sempre é possível apurar com rigor o número de habitantes de uma terra ao longo dos séculos. Não havia registos seguros e, por isso, muitos cálculos são por estimativa, normalmente multiplicando por 5 quando os documentos referem o número de “casais” ou de “vizinhos”. Só em 1864 decorreu o 1.º Recenseamento Geral da população e só a partir do século XX se instituíram os censos regulares em cada década, permitindo finalmente estatísticas seguras.

Ano

Habitantes

1258

115

1527

165

1706

118

1758

458

1864

857

1878

857

1887

865

1890

823

1900

869

1911

982

1930

1.059

1981

2.118

1991

2.271

2001

2.638

2011

2.617

Uma Origem Germânica | 17


Memórias Paroquiais

A

s “Memórias Paroquiais da Torre do Tombo de 1758” são as respostas dos párocos a um inquérito do Pe. Luís Cardoso enviado aos párocos em 1756 depois da autorização do Marquês de Pombal. É o segundo inquérito, porque as respostas obtidas no anterior ficaram destruídas pelo terramoto de 1755. Veja-se as respostas dadas pelo pároco de Nevogilde.

O que se procura saber desta terra é o seguinte 1 – Em que província fica, a que Bispado, Comarca, Termo e Freguesia pertence? A freguesia está situada na província do Minho e é do bispado do Porto, comarca e termo da mesma cidade. 2 – Se é de El-Rei ou de Donatário e quem o é ao presente? É terra de el-rei, exceto um lugar chamado de Lagoas e sito da parte do concelho de Lousada, termo da vila de Barcelos, terra e jurisdição da Sereníssima Casa de Bragança. 3 – Quantos vizinhos tem (e o número de pessoas)? Tem 140 vizinhos e 478 pessoas. 4 – Se está situada em campina, vale ou monte, e que povoações se descobrem dela e quanto dista? Está situada ao pé de uma pequena serra chamada de S. Tiago e da ribeira de S. Cristóvão dos Milagres. Da residência da mesma freguesia se avistam as povoações da freguesia de S. Miguel de Bustelo, Santa Marinha de Lodares, S. João de Nespereira, Santo André de Cristelos, S. Paio de Casais e S. Miguel de Beire.Também se avista a vila de Arrifana do Sousa (atual cidade de Penafiel).

18 | Uma Origem Germânica

5 – Se tem Termo seu, que lugares ou aldeias compreende, como se chamam e quantos vizinhos tem? É termo seu e consta de 32 lugares: Aido Monte, Vinhais, Barrimau, Carvalhal, Peso, Lama, Bouça, Lavandeira, Lagoas, Campo, Orge, Jusam, Ratoeira, Covilhão, Penedos, Passos, Vale, Perrixil, Presas, Afreita, Carreiro, Vinhas, Fermentões, Costa, Pomar, Nogueira, Monte, Caselha, Vinha Dona, Outeiro, Barreiro e Remanga. 6 – Se a Paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares ou Aldeias tem a Freguesia, todos pelos seus nomes? A residência paroquial e a Igreja ficam fora do povoado. 7 – Qual é o seu Orago, quantos Altares tem, e de que Santos, quantas naves tem; se tem irmandades, quantas, e de que Santos? O orago é S.Veríssimo e tem a mesma Igreja três altares. No altar maior se acha colocada a imagem do santo padroeiro, Santa Ana e o Menino Jesus; num dos altares laterais a imagem de S. Gonçalo, noutra a sagrada imagem de Cristo pregado na Cruz. A igreja é de uma só nave e há nela duas irmandades: Confraria Geral de Subsino e a do Santo Nome de Jesus.


Altar de São Veríssimo na igreja paroquial. Coleção partIcular de Carlos Mota.

8 – Se o Pároco é Cura, Vigário ou Reitor ou Prior ou Abade e de que apresentação é e que renda tem? A paróquia é abadia de apresentação do senhor Ordinário deste bispado, mas pende litígio entre os religiosos bentos de Santa Maria de Pombeiro e a Mitra deste bispado sobre o padroado dela. Costuma render num ano 400 mil réis de frutos certos e incertos. 9 – Se tem Beneficiados, quantos e que renda tem e que os apresenta? Não há beneficiados. 10 – Se tem conventos e de que religiosos ou religiosas e quem são os seus padroeiros? Não tem conventos. 11 – Se tem hospital, quem o administra e que renda tem? Não tem hospital.

12 – Se tem casa de Misericórdia e qual foi a sua origem e que renda tem; e o que houver notável em qualquer destas coisas? Não tem Misericórdia. 13 – Se tem algumas ermidas e de que Santos e se estão dentro ou fora do lugar e a quem pertencem? Há quatro ermidas. Uma de Nossa Senhora da Ajuda, que é da freguesia e tem dois altares, o maior da mesma Senhora e o lateral de Santo Amaro.Tem mais uma ermida de Santa Ana com um só altar, no lugar de Lagoas, e é particular do Pe. Manuel Ribeiro da Silva. Outra ermida no lugar do Campo com um só altar de Nossa Senhora do Bom Sucesso que é particular de um brasileiro por nome Maurício Pinto Nogueira. Outra ermida, no lugar de Afreita, com um só altar da Senhora da Conceição, é particular do licenciado António Simas Couto.

Uma Origem Germânica | 19


e qual é esta? Não tem Juiz, está sujeita ao Juiz de Fora da cidade do Porto. E corregedor do Senado da Corte da mesma cidade nas causas cíveis. Nas criminais ao Juiz do Crime e Corregedor do Crime da mesma cidade. Nas execuções da terra é Juiz o Ouvidor deste concelho de Aguiar de Sousa. 17 – Se há couto, cabeça de concelho, honra ou beetria1? É concelho de Aguiar de Sousa, exceto o lugar de Lagoas que pertence ao concelho de Lousada.

Imagem de Santo Amaro na festa da Senhora da Ajuda em 1983. Coleção particular de D. Angelina Moreira.

14 – Se acode a elas romagem, sempre ou em alguns dias do ano e quais são estes? No dia 15 de janeiro festeja-se na ermida da Senhora da Ajuda a imagem de Santo Amaro, onde concorre bastante povo da freguesia e da vizinhança a fazer-lhe romagem. No dia 25 de Março e 15 de Agosto também se festeja na mesma capela a imagem da Senhora, a cujas festividades também concorre o povo da freguesia e algumas pessoas das vizinhanças. São as confrarias de Santo Amaro e da Senhora da Ajuda que fazem as festas. 15 – Quais são os frutos da terra, que os moradores recolhem em maior abundância? Os frutos são o milho graúdo, a que vulgarmente se chama milhão, painço, feijão, centeio e vinho verde, e também algum milho miúdo. Todos estes frutos são bem necessários para o sustento do povo desta terra por ser muito. 16 – Se tem Juiz ordinário e Câmara ou se está sujeita ao governo das Justiças de outra

20 | Uma Origem Germânica

18 – Se há memória de que florescessem ou dela saíssem alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas? Nada consta. 19 – Se tem feira e em que dias, e quantos dias dura, se é franca ou cativa? Não tem feira. 20 – Se tem Correio, e em que dias da semana chega, e parte, se o não tem, de que Correio se serve, e quanto dista a terra aonde ele chega? Não tem correio. Usa o da vila de Arrifana de Sousa. 21 – Quanto dista da cidade, capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do Reino? Dista esta freguesia da cidade do Porto cinco léguas2, e de Lisboa 55. 22 – Se tem alguns privilégios, antiguidades ou outras coisas dignas de memória? Nada tem.

1 2

Direito de uma comunidade escolher o senhor que a governava. Uma légua são cerca de 5km.


23 – Se há na terra ou perto dela, alguma fonte ou lagoa célebre, e se as suas águas têm alguma especial qualidade? Não tem fontes nem lagoa célebre; porque suposto seja fértil de águas, em nenhuma delas se tem descoberto virtude ou qualidade especial.

25 – Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seus muros: se for Praça de armas, descreva-se a sua fortificação. Se há nela, ou no seu distrito, algum Castelo ou Torre antiga e em que estado se acha ao presente? Não é murada.

24 – Se for porto de mar, descreva-se o sítio, que tem por arte, ou por natureza, as embarcações, que o frequentam e que pode admitir? Não tem porto de mar.

26 – Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755 e em quê e se já está reparada? Não padeceu ruína no terramoto.

A segunda parte referia-se às montanhas: comprimento e largura das serras, povoações, minas, fontes, agricultura, gado e outras informações. O que se procura saber desta Serra é o seguinte 1 – Como se chama? 2 – Quantas léguas tem de comprimento e quantas de largura, onde principia e onde acaba? Acha-se esta freguesia contígua pela parte nascente à sobredita serra de S. Tiago, a qual tem de comprimento de norte a sul pouco mais ou menos meia légua, e de largura de nascente a poente, um quarto, pouco mais ou menos. Principia na freguesia de Sobrosa, e acaba o seu cume na de Figueiras, e assim sempre se denominou. 3 – Os nomes dos principais braços dela? Não tem braços. 4 – Que rios nascem dentro do seu sítio. E algumas propriedades mais notáveis deles; as partes para onde correm e onde fenecem? Não nascem nela rios, mas aumenta-se o Mezio com algumas águas que dela manam.

5 – Que vilas e lugares estão, assim na serra como ao longo dela? Não tem vilas, só o pequeno lugar de S. Tiago. 6 – Se há no seu distrito algumas fontes de propriedades raras? Não tem fontes de propriedades raras. 7 – Se há na Serra minas de metais, ou canteiros de pedra, ou outros materiais de estimação? Não tem minas de metais ou outra alguma coisa de estimação digna; só sim é abundante de pedra de cantaria, porém grosseira. 8 – De que plantas ou ervas medicinais é a serra povoada e se se cultiva algumas partes e de que géneros de frutos é mais abundante? Não tem plantas nem ervas medicinais e também se não cultivam.

Uma Origem Germânica | 21


9 – Se há na Serra alguns mosteiros, igrejas de romagem, ou imagens milagrosas? Não tem mosteiros mas sim a sobredita capela de S. Tiago, onde está colocada imagem de Cristo crucificado que faz bastantes milagres. 10 – A qualidade do seu temperamento? É fria e húmida.

11 – Se há nela criações de gados ou de outros animais ou caça? Criam-se algumas perdizes, lebres e coelhos, mas em pouca quantidade. 12 – Se tem alguma lagoa ou fojos notáveis? Não tem lagoas nem fojo notável, somente uma fonte junto da capela com água todo o ano em grande quantidade.

A terceira parte era respeitante aos rios: sua extensão, afluentes, espécies animais e vegetais, culturas nas margens, etc. O que se procura saber do rio desta terra é o seguinte 1 – Como se chama, assim o rio como o sítio onde nasce? Corre pelas beiras desta freguesia, junto do lugar de Lagoas, um rio chamado Mezio, que tem o seu início no pé da serra de Barrosas e aumenta-se com a fonte que nasce em S. Cristóvão dos Milagres da freguesia de Santa Maria de Sousela. 2 – Se nasce logo caudaloso e se corre todo o ano? É diminuto no seu nascimento e corre todo o ano, mas no tempo de verão, em alguns anos, em tão limitado agueiro que muitas vezes se passa a pé enxuto.

5 – Se é de curso arrebatado ou quieto em toda a sua distância, ou em alguma parte dela? É de curso frouxo e pacífico. 6 – Se corre de Norte a Sul, se de Sul a Norte, se de Poente a Nascente, se de Nascente a Poente? Corre da parte de norte a sul. 7 – Se cria peixes e de que espécies são os que traz em maior abundância? Cria escalos, bogas, trutas e enguias, mas pela falta de águas no verão nunca chegam a exceder o tamanho de dois palmos.

3 – Que outros rios entram nele e em que sítio? Não entram outros rios nele, mas com vários aquedutos que nascem nos sítios vizinhos a sua corrente vai aumentando até que chega a constituir um pequeno rio.

8 – Se há nele pescarias, e em que tempo do ano? Fazem-se pescarias em todo o ano, exceto em Março, Abril e Maio, em que só se pesca à cana com anzol.

4 – Se é navegável e de que embarcações é capaz? Não é navegável.

9 – Se as pescarias são livres, ou de algum Senhor particular, em todo o rio, ou em alguma parte dele? São livres em todo o rio.

22 | Uma Origem Germânica


O Rio Mezio ''é de curso frouxo e pacífico'': a ponte ao fundo foi construída em 1959 por Alfredo Alves de Oliveira. Arq. da EB de Campo1.

10 – Se se cultivam as suas margens, e se tem muito arvoredo de fruto ou silvestre? Cultivam-se as suas margens e com água dele se fertilizam. Criam-se nas suas beiras castanheiros, carvalhos, amieiros e salgueiros, e ao pé de quase todas, vides plantadas que produzem vinho verde. 11 – Se tem alguma virtude particular as suas águas? Não consta. 12 – Se conserva sempre o mesmo nome, ou começa a ter diferente em algumas partes, ou se há memória de que em outro tempo tivesse esse nome? Conserva-se o mesmo nome. 13 – Se morre no mar ou em outro rio, e como se chama este, e o sítio em que entra nele? Fenece no rio Sousa, no lugar chamado Azevedo, entre as freguesias de Arrifana e Bitarães. 14 – Se tem alguma cachoeira, represa, levada ou açudes que lhe embarassem o ser navegável? Tem nas quais se represa a água para os lavradores regarem as terras contíguas. Inf. de D. Cecília Soares de Moura. Ainda existia em finais da década de 1940 (inf. de D. Cecília Soares de Moura). 1

15 – Se tem pontes de cantaria ou de pau, quantas e em que sítio? Esta freguesia tem duas pontes, uma de cantaria no lugar de Lagoas e outra no lugar de Trabelhe, que só serve para passar a pé2. 16 – Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras ou outros algum engenho? Tem duas levadas, e em cada uma dela duas rodas de moinhos. 17 – Se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro de suas áreas? Não consta. 18 – Se os povos usam livremente das suas águas para a cultura dos campos ou com alguma pensão? Os povos que têm terras contíguas usam livremente as águas tendo comodidade de extraí-las e não causando prejuízo às terras dos seus vizinhos. 19 – Quantas léguas tem o rio, as povoações onde passa, desde o nascimento até onde acaba? Tem duas léguas de comprimento e passa por Sousela, Covas, Santa Eulália, Cristelos, Casais, Nevogilde, Beire e Bitarães.

S.Veríssimo de Nevogilde, 20 de Abril de 1758

2

Manuel de Sousa da Silva, Abade de Nevogilde (CAPELA, 2009: 318-310).

Uma Origem Germânica | 23


Toponímia

A toponímia é o nome dado a ruas e lugares.Vamos tentar encontrar a explicação para os nomes dos lugares da nossa freguesia.

A Afreita - terreno cultivado. Aido - o mesmo que Eido. Pequeno campo junto da habitação. Aido Monte - o termo Aido é uma variante popular de Eido. A expressão Eido significa campo de cultivo, que, neste caso, fica perto de um monte. Alça-a-perna - origem desconhecida. Terá a ver com alguma zona de passagem, talvez obrigando a passagem de um regato? Aldeia de Baixo - pequeno casario que por oposição a outro está acima.

B Barreiro - lugar de onde se extrai barro. Também pode significar terreno inculto. Barrimau - terreno inculto ou bouça. Por vezes também se relaciona com uma zona de onde se extrai ou extraiu barro de má qualidade. Barroca - terreno inculto, ou terreno fundo, que pode estar cerrado por elevações ou árvores. Belos Ares - território aberto e arejado, de paisagem larga. Bento - forma de “Bendito”. Surge por vezes devido à influência da devoção a São Bento em certas regiões. Boavista - local de onde se obtém uma boa visão da paisagem.

24 | Uma Origem Germânica

Bouça - terreno inculto, que normalmente apenas cria mato.

C Cam - de Cão (nome de pessoa) ou então forma abreviada de Campo. Campelos - campos pequenos em socalco, talvez cercados por muretes ou árvores de fruto. Campo - terreno cultivado e normalmente de terra arável. Carreiro - caminho estreito, normalmente aberto pela passagem continuada de animais e pessoas a pé. Carreiro de Baixo - parte inferior do caminho do Carreiro. Carreiro de Cima - parte superior do caminho do Carreiro Carvalhal - terreno onde abundam carvalhos. Caselha - casa pequena. Costa - o mesmo que encosta, zona com algum declive na base ou a meia altura de certo monte. Covilhão - tem origem numa espécie de urze.

D Devesa - terreno ou campo cercado de árvores.


Quinta da Lavandeira. Coleção particular de Carlos Mota.

F

M

Fermentões - local povoado e ligado à Coroa, ao serviço da montaria (o foro dos «montados», ou «monteiros»).

Monte - elevação de terreno. Mouta - o mesmo que moita. Zona de vegetação com pouca altura.

I

N

Igreja - espaço onde está construído um edifício religioso.

J Jusam - topónimo com origem no latim tardio – ‘Jusäm’ – que significa o que está em baixo, ou abaixo de.

L Lagoas - pequenos charcos de água. Lama - terreno alagadiço, enlameado, parcela de terra onde há abundante presença de água. Lavandeira - poderá significar pequeno ribeiro ou o nome de uma ave.

Nogueira – árvore que produz nozes.

O Orge – de provável origem francesa. Nesta língua significa cevada. No caso de Nevogilde deve ter-se cuidado numa tradução direta, uma vez que poderemos estar perante a alteração de uma palavra que acabou por resultar na modificação da escrita original. Outeiro – pequena elevação de terreno.

Uma Origem Germânica | 25


Casa da Mouta. Coleção particular de Carlos Mota.

P

R

Paços – do latim “palatiu”, “palácio”. Refere-se à existência na zona de uma residência senhorial de abastado proprietário de uma quinta ou vila. Passal – terreno da igreja. Penedo – pedra de grandes dimensões. Penedo de Baixo - rochedo situado, por oposição a outro, numa cota inferior. Penedo de Cima - pedra situada, por oposição a outra, numa parte superior. Peso – deverá significar “Penso”, refeição dada a animais de transporte, ou indicar o local onde era costume dar-se-lhes essa refeição. Poças – charcos de água de dimensão variável. Pomar – sítio de plantio de árvores de frutos Ponte – passagem sobre o rio Mezio. Pourixil, Perrixil ou Perrexil – salsa, planta da família das apiáceas de folhas partidas muito usada na cozinha. Presas – grandes poças onde é represada água para regadio.

Randinha – diminutivo de Rande? Rande tem origem em ‘Randi’ (villa), devendo ser de origem germânica. Ratoeira – origem obscura. Remanga – no Brasil é uma espécie de rede em volta da embarcação para apanhar os peixes, que, da mesma, se evadem aos saltos. Será que se pode buscar aqui o seu sentido?

26 | Uma Origem Germânica

S Senhora da Ajuda – local onde se situa a Capela de Nossa Senhora da Ajuda.

V Vale - terreno aplanado na base e entre montes, bem servido de água. Vinha Dona – local onde há lugar ao plantio de videiras. Vinhais – local onde existem ou existiram vinhas. Vinhas – terreno plantado de videiras.


Rede Viária

A

pesar de situada numa das extremidades do concelho, Nevogilde foi atravessada por importantes vias de comunicação. Os vestígios mais notórios encontram-se no chamado “Caminho do Carreiro”, calçada “à antiga portuguesa”, com grandes lajes de granito, a servir o conjunto de casas que se encontram ao longo do seu percurso. Foi alargado na década de 1930, e atualmente tem cerca de 170m de comprimento, mas o caminho antigo devia ter cerca de 350m, talvez ligando ao caminho velho para Sousela (NUNES, 2008: 167).

Caminho do Carreiro. Coleção Particular de Carlos Mota.

Determinante foi igualmente a chamada Ponte de Lagoas, pequena ponte sobre o rio Mezio, com uma largura máxima de 3,40m. Está assente em dois arcos iguais de volta perfeita. A primeira construção deve ser do século XVIII, com melhoramentos nos anos seguintes (NUNES, 2008: 168).

Uma Origem Germânica | 27


Ponte de Lagoas. Coleção particular de Carlos Mota.

Aliás, o mapa da província de Entre Douro e Minho, levantado por Custódio Villas-Boas em 1798, considerava que a única ligação rodoviária digna desse nome no concelho era proveniente de Penafiel, atravessando Lodares, Bairros e a ponte de Lagoas, seguindo depois por Nevogilde até Ferreira e Freamunde (MOURA, 2009a: 251). Parte deste trajeto seria aproveitado para o desenho da futura estrada de Paredes a Lousada. No entanto, em 1865, Joaquim Sousa Pereira Meireles, da Casa das Quintãs (Lodares), propôs o alinhamento em linha reta, disponibilizando gratuitamente os terrenos necessários (MOURA, 2009a: 258), daí surgindo a famosa “Reta de Lagoas”. O processo de pavimentação teve início a 20/2/1862, quando, em reunião de Câmara, o executivo reconhecia os melhoramentos realizados durante a anterior vereação, que permitiram o empedramento parcial, “por onde já corre uma diligência, mas falta ainda muito para que chegue a um estado regular” (MOURA, 2009a: 251). Só em 1870 teremos o orçamento, apresentado pelo Eng.º Kopke de Carvalho, da Direção de Obras Públicas do distrito do Porto, para a pavimentação do 2.º lanço de Sequeiros a Lousada, avaliado em 8.399$250 réis (MOURA, 2009a: 258), e só em 1875 a obra ficou concluída. Mas na freguesia eram muitas as dificuldades para o trânsito rodoviário. Por exemplo, em 7/12/1840 o pároco participava à Junta que, devido ao “estado deplorável dos caminhos”1 não podia ministrar os sacramentos. Dando cumprimento a uma circular do Governo Civil, a Câmara de Lousada emitiu em 21/11/1865 uma relação das estradas de segunda ordem ou municipais, mencionando, logo a abrir, a ligação proveniente “do Porto por Lagoas, Lousada, Barria e Passos (a de Lagoas a Passos) com dez kilometros”, bem como “a de Villa do Conde para Amarante por Barrimau, Chamusca, Romariz, Ponte de Pias,Villa Verde e Mouro em Cahide – com dez kilometros” (MIGUÉIS, 2003: 52). Há notícia de que em dezembro de 1905 iam ser iniciados melhoramentos entre a estrada nacional e a Casa da Jusam, assim como o estudo de uma estrada entre a Jusam e a igreja paroquial. No lugar da Ponte, onde havia estabelecimentos comerciais importantes (“como fora da cidade poucos aparecem”), a ponte, que estava atolada de lama e obrigando os peões a passar por cima das guias, também ia ser reparada2. Durante bastante tempo, o problema principal residia na ligação entre Lagoas e Jusam. Embora aberto, o caminho permaneceu várias décadas sem ser pavimentado, provocando muitas contrariedades 1 2

Actas 1/1/1838 a 23/7/1879. Commercio de Penafiel, 6/12/1905, p. 3.

28 | Uma Origem Germânica


– por exemplo, à transferência para o Porto de uma cerimónia de casamento prevista para a capela da Senhora da Ajuda e ao atolamento de um camião da Shell –, mas o empedramento concluiu-se em finais de 1937, reclamando-se nessa altura a ligação até Ferreira3, pretensão que teve insistência durante 14 anos4. No entanto, o pavimento para a Jusam degradou-se, e em 1951 encontrava-se em “deplorável estado”5, faltando ainda alargar as passagens de ligação aos caminhos do Cam, Campo e Mouta6. Em sessão camarária de 14/1/1958 era adjudicada ao empreiteiro José da Silva Magalhães a construção da estrada a servir os lugares de Penedo de Baixo, vale Afreita, Presas, Campelos, Boavista, Penedo de Cima e Pomar de Achas, que se encontravam praticamente isolados7. Já em 1967 a freguesia ficou servida pela estrada que do lugar do Peso segue para os lugares de Bento, Outeiro, Passal e Igreja. Mas em 1970 estava ainda por finalizar, nomeadamente no lugar da Remanga, enquanto o estado da estrada da Jusam voltava a merecer protestos da população8. Atualmente os principais acessos são pela autoestrada A42 (inaugurada em 2006), com um nó no limite da freguesia; a estrada nacional 106, com o famoso troço conhecido por “Reta de Lagoas”, e a variante à mesma estrada nacional, que comunica a A42 com a A4, em Penafiel. Muitas estradas e caminhos municipais ligam todo o interior da freguesia. A larga maioria destas vias de comunicação é relativamente recente, sendo construída depois da revolução do “25 de Abril” porque, até aí, a necessidade de uma rede viária condigna liderava as reclamações da população. Jornal de Lousada, 15/1/1938, p. 1. Jornal de Lousada, 15/12/1951, p. 3. 5 Jornal de Lousada, 22/9/1951, p. 3. 6 Jornal de Lousada, 22/9/1951, p. 3. 7 Jornal de Lousada, 8/12/1958, p. 2. 8 Jornal de Lousada: 23/9/1967, p. 2, e 24/6/1970, p. 4.

Jornal de Lousada, 21/10/1966, p.2.

3 4

Travessa da Afreita: à esquerda é visível uma cruz sacralizadora de um dos caminhos mais pitorescos da freguesia. Arq. da EB de Campo.

Itinerário do Porto à Casa da Jusam, em documento com origem e data desconhecidas. Coleção particular de D. Cecília Soares de Moura.

Uma Origem Germânica | 29


Transportes

O

comboio já passou em Nevogilde. A 27/8/1913 a máquina “Penafiel”, do caminho de ferro de Penafiel à Lixa, fez serviço experimental até Lagoas, sendo recebida pela banda de música e girândolas de foguetes, e com muitos aplausos para o Dr. Cerqueira Magro, promotor do empreendimento, e o Visconde de Lousada, Dr. Luís Pinto Coelho Soares de Moura, da Casa do Cáscere (Nespereira)1, que mandou construir o Apeadeiro ainda hoje existente. A 8 de Novembro daquele ano era inaugurado o troço entre Novelas e Lousada passando pela reta de Lagoas. Era mais uma etapa de uma linha ferroviária em que participaram muitas pessoas ilustres da região. Havia quatro comboios ascendentes e descendentes, com os seguintes horários de partida: 1

Commercio de Penafiel: 27/8/1913, p. 2, e 30/8/1913, p. 2.

Lousada

Novelas

Partidas

Partidas

6h00

7h27

8h59

9h54

16h27

17h09

19h02

20h58

Estavam previstas paragens em Lagoas e, sempre que houvesse passageiros, em Costinha, Tapada, Cáscere, Quintão, Sequeiros e Bichas (FERREIRA, 2000: 38). A fim de facilitar o acesso ao comboio, em fevereiro de 1914 entrava em funcionamento uma carreira de ligação entre Lagoas e Freamunde2. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o aparecimento de um novo meio de transporte, o camião, e a falta de interesse das autoridades prejudicaram muito a exploração. Em 1931 os carris já estavam a ser levantados. (FERREIRA, 2000: 39). 2

Em abril de 1924 era criado um serviço de transporte coletivo de passageiros entre a vila de Lousada e a estação de comboios de Penafiel. A chamada “camioneta da carreira” estava a cargo de José Maria de Sousa Monteiro, possuía 22 lugares, sendo 10 em 1.ª classe, 10 em 2.ª e dois junto ao condutor, para além de um tejadilho para as bagagens. Partia da Vila às 8h00 e 17h00, regressando após a passagem dos comboios-correios1 . Já em 1953 é anunciada um carreira de camioneta entre Lousada e Paredes2 . Um táxi chegou a ter praça junto ao cruzamento "das Machas" até à década de 1980. 1 2

Jornal de Lousada, 13/4/1924, p. 2. Jornal de Lousada 3/1/1953, p. 2.

30 | Uma Origem Germânica

Commercio de Penafiel, 7/2/1914, p. 3.

Comboio na reta de Sequeiros. Arq. da Câmara Municipal de Lousada.


A máquina “Lousada” perto da estação de Lagoas, em serviço experimental em 19131 . 1

Jornal de Lousada: 16/11/1913, p. 1.

Apeadeiro do Cáscere e memorial no cemitério de Lodares: os únicos vestígios públicos do caminho-de-ferro de Penafiel à Lixa. Arq. da EB de Campo.

Uma Origem Germânica | 31


VIVÊNCIA RELIGIOSA


A Paróquia de Nevogilde

A

origem das paróquias é anterior à nacionalidade. Uma das características das relações de poder sobre elas exercidas era o direito de padroado, que permitia escolher o pároco: o chamado direito de apresentação. Provavelmente em Nevogilde aconteceu o mesmo que em muitas outras localidades: um grande senhor tomou a iniciativa de construir a igreja, fazendo dela um templo próprio onde acorriam os fiéis, originando assim a criação da paróquia. O fundador e os seus herdeiros vão manter-se durante um tempo indefinido com o direito sobre ela, tal como sobre qualquer outra propriedade sua (MAGALHÃES, 2009: 88). Referem as Inquirições de 1258 que os bens da igreja pertenciam a D. Gil Martins e a D. Gonçalo Garcia de Sousa. D. Gil Martins, senhor de Riba Vizela, o único rico-homem presente no falecimento do Rei D. Sancho II em Toledo (FERNANDES, 2006: 21) e grande guerreiro, foi Mordomo-Mor de D. Afonso III. Mordomo vem do latim major domus, que quer dizer “o maior da casa”. Significa pois que era o chefe do Governo, um cargo agora correspondente ao de primeiro-ministro.

O Mosteiro de Santa Maria do Pombeiro tinha o padroado de Nevogilde. Arq. da Rota do Românico.

34 | Vivência Religiosa

Por sua vez, D. Gonçalo Garcia de Sousa pertencia à linhagem dos Sousas, uma das famílias mais ilustres nos primeiros tempos da nacionalidade. Foi Alferes-Mor de D. Afonso III, ou seja o mais alto oficial do exército, a quem pertencia levar a bandeira no campo de batalha. Os bens relativos à igreja foram mudando de proprietário, sabendo-se que em 1302 foram doados ao Bispo do Porto por D. Berengária Aires, aia da Rainha Santa Isabel (LOPES, 2004: 301). Ainda no reinado de D. Dinis, o padroado passou para um grande fidalgo, Fernão Pires Barbosa, senhor de Vizela, que na Corte teve elevada influência como rico-homem, membro do Conselho Régio e confirmador de todas as leis. Pertenceu ainda aos senhores de Baião e ao Mosteiro de Pombeiro pelo menos até à entrada do século XVI, sabendo-se que o Mosteiro mantinha em 1758 um litígio com a Mitra do Porto acerca do direito do padroado (CAPELA, 2009: 318), decidido a 6/4/1782 a favor de Pombeiro (MEIRELES, 2007: 99).


O Liberalismo acabou por integrar no sistema político e administrativo a estrutura eclesiástica paroquial. Entretanto, já em 1770, a Congregação Consistorial do Porto procedeu ao desmembramento da diocese do Porto, criando a diocese de Penafiel, incorporando nove paróquias de Lousada: Nevogilde, Figueiras, Casais, Cristelos, Nespereira, Lodares, Boim, Pias e Meinedo (MOURA, 2009: 357). No entanto, a separação pouco durou porque em 1778 a diocese de Penafiel era extinta e integrada novamente na do Porto.

Os Párocos O direito de apresentação, ou seja o de indicar o pároco, pertencia ao senhor que fundou a igreja e aos seus herdeiros. O rendimento da igreja de Nevogilde era apreciável (400 mil réis em frutos certos e incertos, em 1758) e, por vezes, existiam conflitos sobre a quem de facto competia esse privilégio. Além disso, houve párocos que, apesar de indicados, nunca aqui exerceram, enquanto outros o fizeram por pouco tempo, preferindo ambos abdicar de uma pequena parte dos rendimentos e pagarem a quem os substituía na atividade pastoral. Por isso, torna-se bastante difícil descortinar quem foram, na realidade, os verdadeiros titulares da paróquia, pois, por vezes, eram vários os presbíteros em funções. Em 1833, com o Liberalismo, terminou o direito de padroado.

Pe. Martinho Eanes (1258) É a mais antiga referência ao titular da paróquia de Nevogilde, constando como testemunha nas Inquirições de 1258, no reinado de D. Afonso III. A sua apresentação foi confirmada pelo Bispo do Porto (LOPES, 2004: 298). Pe. Martim Peres “Louredo” (1294) Por falecimento do anterior, foi apresentado a 16/1/1294 por Martim Gil, 2.º Conde de Barcelos, e sua irmã, D. Teresa Gil, e, mais tarde, por um tal João Gonçalves (LOPES, 2004: 298). Pe. Pedro Martins (1294) Era cónego do Mosteiro de Ferreira e foi apresentado por Fernão Pires Barbosa, depois por D. Guiomar Gil e outros, e mais tarde por D. Guiomar Martins e algumas freiras do Mosteiro de Arouca (LOPES, 2004: 298).

Pe. Pedro Anes (1455-1499) Foi apresentado por Luís Álvares de Sousa, 4.º senhor de Baião, e confirmado por D. Luís, Bispo do Porto a 26/3/1455, e pelo Mosteiro de Arouca (LOPES, 2004: 299). Pe. João Anes (1499) Tendo o anterior pároco renunciado a 11/5/1499, o Mosteiro de Pombeiro e o 6.º senhor de Baião, João Fernandes de Sousa, apresentaram o Pe. João Anes, confirmado por D. Diogo de Sousa, Bispo do Porto, a 3/6/1499 (LOPES, 2004: 300). Pe. João Afonso Assume a responsabilidade da paróquia após o falecimento do anterior, sendo confirmado pelo Bispo D. Pedro da Costa, capelão-mor da Infanta D. Isabel (filha do Rei D. Manuel I), após a apresentação feita por João de Sousa, senhor de Baião, e pelo Mosteiro de Pombeiro. Estes concordaram

Vivência Religiosa | 35


em revezarem-se a partir daí na apresentação do pároco (LOPES, 2004: 300). Pe. Pedro Cunha Embora não tenhamos descortinado a sua assinatura nos assentos paroquiais, sabemos que Pedro Cunha, para além de abade de Santa Margarida de Lousada, foi também abade de Nevogilde. Era filho de D. João Lopes de Osório, comendatário e Dom Abade do Mosteiro de Paço de Sousa, e de D. Guiomar da Cunha (filha de D. Nuno da Cunha, senhor de Portocarreiro). Já ordenado, teve de D. Maria Dias, solteira, um filho que veio a perfilhar: Paulo da Cunha, Capitão-Mor do Unhão por falecimento do sogro que morreu na batalha de Alcácer Quibir (FREITAS, 2002: 230-231). Este clérigo deve ter inaugurado uma linhagem familiar que se estendeu durante as décadas seguintes. Pe. Melchior Barreto (de fevereiro de 1598 a julho de 1630) Intuindo a existência de um contínuo familiar, este Belchior Barreto seria filho de Henrique Borges, natural de Macieira, “homem muito nobre que vivia de suas fazendas, que mandava granjear por seus criados e se tratava com seu cavalo em que andava”, escrivão da Câmara, Juiz e Vereador do Unhão e senhor da Quinta da Souselinha, em Vilar do Torno. Foi fruto do 2.º casamento do pai, com D. Margarida Gonçalves, e matriculouse em 1585 em Braga (FREITAS, 2002: 53). Faleceu de morte súbita, estando no altar dizendo Missa, a 1 de outubro de 1630, dia do orago da freguesia. Pe. Leão da Fonseca Teixeira (de outubro de 1630 a setembro de 1653) Prosseguindo o mesmo rumo familiar encontramos este filho de Heitor Borges Barreto, senhor da Casa de São João de Macieira (Lousada) e de D. Catarina Pinto da Fonseca. Licenciado em Cânones e sucessor

36 | Vivência Religiosa

Assento de óbito do Pe. Melchior Barreto1 . 1 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=540241 503 tif (consulta a 3/12/2016).

de seu irmão no morgadio de Torres Novas, faleceu em Nevogilde em 1657 (FREITAS, 2002: 225). Pe. Cunha (de dezembro de 1640 a abril de 1643) Estando certa a mesma associação familiar, poderemos estar perante novo membro da família, eventualmente outro Pe. Pedro da Cunha, primo do anterior, filho de Paulo da Cunha e de D. Vicência Borges (Coelho Sequeira). Era licenciado em Teologia pela Universidade de Coimbra, com matrículas em 7/12/1613, 2/10/1614 e 28/2/1615 (FREITAS, 2002: 231). Pe. Luís Freire de Andrade (de agosto de 1682 a dezembro de 1702) Pe. João António Roriz (de abril de 1703 a janeiro de 1712) Pe. Manuel Nunes da Rocha (até setembro de 1715) Pe. Manuel Dias da Fonseca Abranches (de fevereiro de 1712 até março de 1745) O apelido remete-nos como oriundo de uma família das Beiras. Faleceu em 5/6/1745 e foi sepultado no dia seguinte na capela-mor da igreja. Pe. João de Almeida Loureiro (de abril de 1745 a dezembro de 1749)


Pe. António Freire de Sousa (coadjutor) (de dezembro de 1826 a agosto de 18653) Pe. Jerónimo Pinto Ribeiro (de maio de 1834 a junho de 1844) Assento de óbito do Pe. Manuel Dias da Fonseca1 . 1 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=540243 809 tif (consulta a 13/11/2016).

Pe. Joaquim Pinto Peixoto de Vasconcelos (de junho de 1844 a dezembro de 1857)

Pe. Manuel de Sousa da Silva (de março de 1751 a março de 1781) Foi o autor das respostas às Memórias Paroquiais, permitindo-nos informações preciosas acerca da freguesia no ano de 1758. Pe. João Luís do Couto (de março de 1755 a dezembro de 1780) Em 1765 batizou, no Porto, D. Frei Vicente da Soledade e Castro, primeiro Presidente das Cortes Constituintes e lente teólogo da Universidade de Coimbra, cujos avós maternos (António do Couto Leite e Antónia Teresa de Sousa) eram naturais de Nevogilde1. Pe. José Caetano de Sousa Cassão (de julho de 1781 a julho de 1830) Faleceu a 18 de agosto de 1843, com cerca de 86 anos, e inumado na igreja, na sepultura da sua Casa de Vale do Mezio, na altura ainda designada “Casa de Lagoas”, amortalhado com o hábito de São Francisco, por ser irmão terceiro2. Pe. João de Melo Vieira de Castro (de setembro de 1816 a dezembro de 1818) Pe. José de Sousa Pacheco (de agosto de 1817 a dezembro de 1825) Pe. Joaquim Pinto Peixoto de Vasconcelos (de janeiro de 1818 a abril de 1834)

Arq. de Frei Geraldo Coelho Dias. http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226285 44 tif (consulta a 23/11/2016). 1 2

Pe. António Cardoso Pinto e Vasconcelos (de janeiro de 1858 a 1860) Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira (de julho de 1830 (como coadjutor) a dezembro de 1865 Deixa de assinar como coadjutor desde março de 1844. Natural de Tangil (Monção), faleceu com cerca de 88 anos a 21/12/1871, em Nevogilde, sendo sepultado na capelamor da igreja4. Assina assento de batismo a 31/10/1826. http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226288 23 tif (consulta a 12/12/2016). 3 4

Pe. Vitorino Barbosa de Melo (de janeiro de 1865 a julho de 1870) Natural de Nevogilde, oriundo da Casa de Aido Monte. Nasceu a 26/07/1823, filho de João Barbosa de Melo e de D. Matilde Rosa de Oliveira. Foi padre encomendado, isto é, em regime de substituição. Pe. Manuel da Rocha e Sousa (de agosto de 1870 a dezembro de 1873, e de novembro de 1874 a agosto de 1876) Nascido em 9/2/1824 em Sande (Marco de Canaveses), filho de António da Rocha e de D. Maria da Costa Sá Peixoto. Faleceu em Lagoas a 9/10/1876, sendo sepultado na igreja. Pe. Manuel Francisco de Castro (de janeiro a outubro de 1874) Nasceu a 28/6/1825, na Foz do Sousa (Gondomar), filho de José Francisco da Cunha e de D. Maria de Sousa Castro. Faleceu a 20/11/1874, ficando sepultado na igreja.

Vivência Religiosa | 37


Pe. Manuel Marques da Cunha (de setembro de 1876 a julho de 1887) Nasceu a 12/5/1842 em Britelo (Celorico de Basto), filho de João Luís da Cunha Mesquita e de D. Margarida Rosa Fonseca Marques. Em 17/4/1863 pediu “inquirição de genere”, isto é, quis provar como estava “limpo” de sangue não cristão e de como a sua fé religiosa era sincera. Faleceu a 28/6/1887 e foi sepultado no adro da igreja.

Pe. Joaquim Pacheco de Carvalho. Coleção particular do Prof. Luís Ângelo Fernandes.

Carvalho e de D. Ana Pacheco. Exerceu também em Pias (Lousada), onde veio a ser condenado (e posteriormente ilibado) a cinco meses e meio de prisão por posse de bombas de dinamite que um penitente entretanto declarou ter comprado5.Transitou depois para Beire, onde faleceu a 23/04/1939. Pe. Joaquim Loureiro da Cruz (de abril a agosto de 1892) Assento de batismo do Pe. Manuel Marques da Cunha1 .

Pe. Albino Júlio de Magalhães (de setembro de 1892 a junho de 1893) Natural de Lordelo (Felgueiras), filho de D. Matilde de Magalhães6, foi uma destacada e polémica figura da vida política, social e religiosa do seu tempo7. Devido às suas fortes convicções monárquicas, passou vários dissabores após a Implantação da República: apanhado a distribuir panfletos conspirativos provenientes da Galiza8, esteve preso em Caxias9. Capelão cartorário da Irmandade

http://pesquisa.adb.uminho.pt/viewer?id=1013027 200 tif (consulta a 20/11/2016). 1

Pe. Joaquim Loureiro da Cruz (de julho de 1887 a janeiro de 1889) Natural de Valongo. Nasceu a 15/08/1855, filho de Joaquim Moreira da Cruz e de D. Maria Cândida Martins da Hora. Faleceu em Nevogilde a 20/11/1914 e sepultado em Valongo.

O Commercio de Penafiel, 1/3/12893, p. 3. Registo Paroquial de Baptismos, Nascimentos e Óbitos de Sam Christovão de Lordello (1923-1930), fl. 34. No entanto, o Arq. Diocesano aponta o nascimento em Idães. Estando embora ligado à Casa da Corredoura, em Idães, sendo inclusive tio de António Couto e Vasconcelos (1883-1965), conhecido em Lousada por “Capitão de Lagoas”, que ali nasceu, na plataforma eletrónica do ADP não descortinámos o assento de batismo do Pe. Albino naquela freguesia, enquanto em Lordelo não estão disponíveis os assentos das décadas imediatamente anteriores a 1860, período em que o nascimento deverá ter ocorrido. 7 Em https://casadopato.wordpress.com/2007/06/06/convivio-das-familias-oriundas-da-casa-do-pato/ (consulta a 15/3/2017) há bastantes referências ao seu temperamento sedutor e à vasta prole, aliás perante nós testemunhadas neste mesmo dia por fontes orais de Lordelo. 8 https://books.google.pt/books?id=n3M6EdVIZXsC&pg=PT97&lpg=PT97&dq=padre+albino+julio+de+magalhaes&source=bl&ots=ui4IDAdKNL&sig=SJD8mqQ2jxMkqbbNMWTf3seTbCU&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjj1ouQttnSAhUBVRQKHS9uBqIQ6AEIJDAC#v=onepage&q=padre%20albino%20julio%20de%20 magalhaes&f=false (consulta a 23/10/2016). 9 O Radical, 1/2/1912, p. 1. 5 6

Assento de batismo do Pe. Loureiro da Cruz1 . 1 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=501073 954 tif (consulta a 21/11/2016).

Pe. Joaquim Gomes Pacheco de Carvalho (de fevereiro de 1889 a abril de 1892) Natural de Beire, Paredes. Nasceu a 21/04/1866, filho de António Gomes de

38 | Vivência Religiosa


do Unhão (Felgueiras)10. Diretor do jornal “Vida Nova”, da Senhora Aparecida, desde a sua fundação até 1912, ano em que emigrou para Pernambuco, sendo logo nomeado por D. Luís de Brito, Arcebispo de Olinda, capelão da Confraria de Santa Rita, no Recife, onde celebrava missa nos dias santificados, e, sucessivamente, Vigário de Surubim, Água Preta, Petrolina (com 150km e 200 batizados por mês) e Lapa. Por razões de saúde, em 1925 regressou a Portugal. Faleceu a 29/7/1927 em Lordelo (Felgueiras), onde foi sepultado11. 10 11

Jornal de Lousada, 12/4/1908, p. 1. Vida Nova, 12/8/1927, pp. 1-2.

Pe. Manuel Lopes Dias da Rocha. Arq. da Junta de Freguesia de São Martinho da Gândara.

Pe. Manuel Lopes Dias da Rocha (de janeiro de 1916 a setembro de 1919) Natural de São Martinho da Gândara, Oliveira de Azeméis. Nasceu a 27/01/1888, filho de Albino José da Rocha e de D. Rosa Maria Lopes. Faleceu a 10/01/1970. Pe. Manuel Rodrigues Barbosa (de novembro de 1919 a janeiro de 1934) Natural de Marecos, Penafiel. Nasceu a 02/12/1889, filho de Jerónimo Rodrigues Barbosa e de D. Emília Coelho da Rocha. Após exercer o múnus pastoral em Nevogilde, foi transferido para Guilhufe (Penafiel)12. Faleceu a 03/08/1971.

Vida Nova, 12/8/1927, p.1.

Pe. Joaquim Loureiro da Cruz (de agosto de 1893 a 1914) Pe. Manuel Francisco Henriques, encarregado da freguesia (de novembro de 1914 a janeiro de 1915) Pe. Joaquim Freire (de janeiro de 1915 a janeiro de 1916)

Pe. Manuel Rodrigues Barbosa. Arq. da Paróquia de São Veríssimo de Nevogilde. 12

Jornal de Lousada, 30/12/1933, p. 1.

Vivência Religiosa | 39


apreciado pelos seus dotes de oratória13. Faleceu no Porto a 02/02/75 e foi sepultado em Sobrado (Castelo de Paiva). 13

Inf. da sobrinha, Dr.ª Margarida Moreira.

Pe. José Vieira Pinto. Arq. da Paróquia de São Veríssimo de Nevogilde.

Pe. José Vieira Pinto (de janeiro de 1934 a novembro de 1953) Natural de Penafiel. Nasceu a 02/12/1889, filho de António Vieira Pinto. Faleceu a 03/08/1971. Pe. Miguel da Cunha Barros (de novembro de 1953 a outubro de 1965) Natural de Pedorido, Castelo de Paiva. Nasceu a 08/05/1908, filho de Manuel da Cunha Barros e de D. Margarida Pereira Gonçalves Barros. Ordenado pela Diocese do Porto, exerceu em Oldrões (Penafiel), Travanca (Amarante), Nevogilde (Lousada) e Frazão (Paços de Ferreira), onde sofreu um derrame cerebral que o incapacitou para a atividade pastoral, na qual era muito

Pe. Miguel da Cunha Barros. Coleção particular da Dr.ª Margarida Moreira.

40 | Vivência Religiosa

Pe. António da Fonseca Soares. Arq. da Paróquia de São Veríssimo de Nevogilde.

Pe. António da Fonseca Soares (de outubro de 1965 a março de 1975) Nasceu em Ovar a 08/01/1924, filho de José Fonseca Soares. De saúde frágil, com bronquite asmática e de temperamento reservado, estudou no antigo colégio Júlio Dinis (Ovar). O tio, Monsenhor António da Fonseca Soares, com grande ascendência sobre a sua educação, mandou-o estudar para o Seminário da Boa Nova, em Cucujães (Oliveira de Azeméis). Já ordenado, foi colocado em Madalena, Vila Nova de Gaia, onde permaneceu pouco tempo, alegadamente pela excessiva religiosidade popular existente, que misturava fé, crendice e superstições. O tio acabou por enviá-lo como capelão para um hospital do Porto, fixando-se posteriormente em Nevogilde14, onde faleceu a 13/04/75 e está sepultado. Inf. de D. Celeste Soares, prima do pároco, com 92 anos na altura do depoimento recolhido pela Prof.ª Graça Coelho em janeiro de 2017.

14


Pe. Álvaro Rocha. Arq. da Paróquia de São Veríssimo de Nevogilde.

Pe. Manuel António Mendes. Coleção particular do Pe. Manuel António Mendes.

Pe. Álvaro Ferreira da Rocha e Costa (de março de 1975 a janeiro de 2001) Natural de Vila Maior (Santa Maria da Feira), onde nasceu a 27/07/1924, filho de Bernardo Pais da Rocha e Costa e de D. Maria Ferreira Baptista. Iniciou a obra do salão paroquial e faleceu a 19/9/2004.

Pe. José Ribeiro da Mota (desde abril de 2002) O atual pároco de Nevogilde, Casais, Ordem e Figueiras nasceu no lugar da Ratoeira (Nevogilde) em 7/9/1946, filho de António da Mota e de D. Emília Ribeiro. Ordenou-se em 8/7/1973 e exerceu em Rio Tinto e Lomba (Gondomar), Raiva e Pedorido (Castelo de Paiva), sendo o pároco da maioria das vítimas da queda da ponte de Entre-os-Rios, em 2001. Foi sócio-fundador da Associação Banda dos Mineiros do Pejão. Destaca-se pela sua grande dedicação às paróquias e por importantes obras de conservação dos monumentos religiosos.

Pe. Manuel António dos Santos Carvalho Mendes (administrador paroquial de março de 2001 a abril de 2002) Nasceu a 21/7/1962, em Paço de Sousa (Penafiel), filho de Júlio Augusto Carvalho Mendes e de D. Emília de Oliveira Santos. Licenciou-se em Engenharia Agronómica, lecionando entretanto no 2.º e 3.º ciclos. Foi admitido no Seminário Maior do Porto, onde dirigiu a revista “Atrium”. Licenciado em Teologia e com pós-graduação em Teologia Pastoral, foi ordenado presbítero a 9/7/2000. Após colaboração em algumas paróquias, foi pároco em Nevogilde e Casais (Lousada) e depois nomeado colaborador da Obra do Padre Américo, com serviço pastoral no Calvário (Beire) e nas Casas do Gaiato de Paço de Sousa e Miranda do Corvo. É jornalista e vice-postulador da Causa de Beatificação do Servo de Deus Padre Américo, sendo autor de várias publicações.

Pe. José Ribeiro da Mota. Arq. da Paróquia de São Veríssimo de Nevogilde.

Vivência Religiosa | 41


Pescadores de Homens A experiência religiosa na freguesia e a fé cristã das famílias motivaram vários naturais para a vida eclesiástica. Para além de Vitorino Barbosa de Melo e de José Ribeiro da Mota, há outros registos que importa conhecer. Pe. Manuel Ribeiro Da família da casa da Ratoeira, filho de Manuel Gaspar, faleceu a 2 de dezembro de 17031. Pe. João Nunes Barbosa Nasceu no lugar de Perrixil a 8/10/1710, filho de Manuel Ribeiro e de sua mulher D. Maria Nunes2. Faleceu no lugar do Campo a 15/10/1754. Foi sepultado na igreja com hábito de São Pedro, deixando um legado de 50 missas por sua alma e outras 50 pela de seus pais3. Pe. Manuel Pereira de Sousa Nasceu na Casa da Lavandeira a 13/9/1757, filho de José Pereira e de D. Maria de Jesus4, e faleceu a 10/8/1830. Foi sepultado na igreja, amortalhado com o hábito sacerdotal e acompanhado até à sepultura pelas irmandades de Santo Amaro, desta freguesia, e das Almas, de Beire5. Pe. Belmiro Nogueira de Sousa Freire Nasceu em Lagoas a 13/6/1855, filho de António Nogueira de Morais e de D. Maria Rosa de Sousa Freire. Foi pároco em Paço de Sousa (Penafiel) entre 1878 e 1909 e Presidente da Casa Pia local, saindo em 1889 em conflito com o Administrador do Concelho6. Muito devoto do Sagrado Coração de Jesus e da Nossa Senhora de Lurdes, organizou uma viagem a Lourdes e em 1904 mandou construir uma capela em sua honra. Faleceu de pneumonia a 29/7/19097 e foi sepultado em Paço de Sousa, onde em meados do século ainda acorriam muitas pessoas para pedir ou agradecer a sua intercessão, devido à fama de santidade8, sendo construído um medalhão em sua honra. 1 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=540242 529 tif (consulta em 16/2/2017). 2 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=540232 251 tif (consulta em 22/2/2017). 3 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=540243 819 tif (consulta em 22/2/2017). 4 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=540229 687 tif (consulta em 2/2/2017). 5 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226285 13 tif (consulta em 2/2/2017). 6 O Commercio de Penafiel: 15/6/1889, p. 2. 7 O Penafidelense, 3/8/1909, p. 2. 8 Cartório da Paróquia de São Salvador de Paço de Sousa.

42 | Vivência Religiosa

Pe. Belmiro Nogueira de Sousa Freire. Arq. do da Paróquia de São Salvador de Paço de Sousa.


Pe. Adriano Correia Barbosa Nasceu em Casais a 19/6/1929, filho de António Correia da Silva e de D. Júlia Nogueira Barbosa Leão. A sua família esteve sempre muito ligada a Nevogilde. Ordenado a 19/7/1953, celebrou Missa Nova na capela de Nossa Senhora da Ajuda. Missionário em Angola, onde realizou notável trabalho a nível da etnografia e da linguística, de que resultaram os livros “Folclore angolano, 50 contos quiocos”, “Folclore angolano, 500 provérbios quiocos”, “Dicionário Cokwe-Português”, “Dicionário Português-Cokwe” e “Angola, imagens e mensagens – contos tradicionais” (Pelouro da Cultura, 2002: 11). Condecorado com a Medalha de Prata de Mérito Municipal, faleceu a 14/11/20149.

Pe. Narciso Coelho de Bessa Nasceu no lugar de Penedo de Baixo a 11/1/1934, tendo João como nome de batismo, filho de António Coelho de Bessa e de D. Isabel Pereira da Silva. Ingressou na Ordem de S. Bento, onde professou a 30/9/1953, sendo ordenado a 2/8/1959 pelo administrador apostólico D. Florentino Andrade e Silva. Assegurou o serviço paroquial em Roriz (Santo Tirso), passando depois para a diocese do Porto, onde foi pároco em S.Vicente de Pereira (Ovar) e no Bonfim (Porto), transitando mais tarde para a diocese de Aveiro, onde ainda se encontra. Doutorou-se em 1994 em Liturgia pelo Instituto Pontifício de Liturgia, da Universidade “Pontificum Athenaeum Anselmianum”, de Roma.

Pe. Abílio Policarpo Irmão do anterior, nasceu igualmente em Penedo de Baixo, a 15/12/1935, recebendo como nome de batismo Abílio Orlando. Após a instrução primária seguiu para o Mosteiro de Singeverga, onde professou a 5/10/1954. Ordenou-se a 6/9/1961, adotando o nome de Abílio Policarpo. De 1965 a 1967 colaborou no Colégio de Lamego, indo depois ocupar-se da Casa de Bande (Paços de Ferreira) e capelão das Irmãs. Regressou a Lamego, onde se destacou como professor10.

9

TVS, 21/11/2014, p.12. Presença de Singeverga, nº 87, julho/dezembro de 2011, p. 24.

10

Pe. Adriano Correia Barbosa. (Pelouro da Cultura, 2002: 11.)

Ordenação sacerdotal do Pe. Narciso Bessa. Coleção particular do Pe. Narciso Bessa.

Pe. Abílio Policarpo na Missa Nova. Coleção particular do Pe. Abílio Policarpo.

Vivência Religiosa | 43


Confrarias

A

s confrarias cristãs, também conhecidas por irmandades, são associações formadas por leigos para promover a caridade, a piedade ou o culto a um santo. Há conhecimento de em 1758 existirem as confrarias da Senhora da Ajuda e do Santo Amaro (MOURA, 2009b: 440), esta última fundada em 1709 (COSTA, 2005: 336) e ainda em atividade, promovendo a festividade ao patrono no mês de janeiro. Em 1814 era criada a do Santíssimo Sacramento – que se mantém ativa – para veneração ao Santíssimo, sufrágio das almas e penitência, e mais tarde a confraria do Subsino, que ainda existia em 1903 quando apresentou as contas da cera. Esta irmandade corresponde sensivelmente à Corporação Fabriqueira Paroquial, agora designada Conselho da Fábrica da Igreja Paroquial e do Beneficio Paroquial, popularmente conhecida por Comissão Fabriqueira, aqui fundada em 1926, com estatutos revistos em 1941, destinada à administração dos bens, culto religioso, apostolado e caridade. A referência obrigatória de qualquer confraria era um altar com as respetivas imagens, sendo notável o número de organizações existentes no país, pelo que é de crer que, em muitos sítios, todos os moradores se encontrassem inscritos (SÁ, 1996: 57). Uma das principais funções era a manutenção da igreja paroquial e do culto: os confrades podiam cotizar-se para pagar as obras e despesas da igreja, revezavam-se para conservar os altares em ordem, organizavam procissões e festas religiosas” (SÁ, 1996: 57). A morte era um acontecimento especialmente mobilizador: quando um deles morria, intervinham no transporte do corpo de casa para a igreja, forneciam círios para o funeral e acompanhavam o velório e o enterro. A Confraria das Almas tinha por objetivo libertar as almas do Purgatório através da oração (SÁ, 1996: 57).

44 | Vivência Religiosa

Jornal de Lousada, 1/5/1909, p. 3.

Em 1894 decorreu a festa de inauguração da imagem do Sagrado Coração de Jesus, oferecida à irmandade por D. Mariana Peixoto, da Casa de Barrimau. Houve procissão entre a capela da Senhora da Ajuda e a igreja, seguida da atuação da Orquestra de Paredes, Te Deum e pregações pelos Pe. Belmiro de Sousa Freire, de Paço de Sousa (natural da freguesia), e pelo abade de Lustosa, D. António Barbosa Leão1. 1

O Commercio, 23/6/1894, pp. 2-3.


Igreja Paroquial. Coleção particular de Carlos Mota.

Igreja Paroquial e Cemitério

A

igreja paroquial está construída na encosta do monte de São Tiago, numa das partes mais altas da freguesia. É um edifício do século XVI, ampliado no século XIX, supondo-se, no entanto, que construído em cima de outra igreja mais antiga, talvez do século X ou XI (NUNES, 2008: 167). Ao longo dos anos foi conhecendo obras de conservação e restauro, assim como a casa do pároco. Por exemplo, em março de 1899, a Junta de Paróquia deliberou proceder ao restauro da residência, constituída por uma sala e quatro quartos, obras orçadas em 48.600 réis1. Os trabalhos devem ter-se prolongado porque, em 1902, o diretor das obras públicas do distrito do Porto é autorizado a despender 370$000 réis nas obras de reparação e ampliação2. Nessa altura a igreja encontrava-se em muito mau estado, e, como eram muitas as dificuldades financeiras, tudo se aproveitava. O chumbo dos caixões enterrados sob o soalho da igreja foi derretido a fim de ser aplicado nos ferros da capela-mor para a suspensão dos lustros, enquanto as tábuas de castanho do coro eram transformadas em almofadas das portas da residência3. O financiamento governamental de 870 mil réis foi anunciado em maio de 19024 para a reparação de ambos os edifícios5.

Actas 12/7/1896 a 13/1/1901, fl. 29v. Commercio de Penafiel, 10/5/1902, p. 2. 3 Actas 10/2/1901 a 26/5/1905, fls. 14v-15v. 4 Actas 10/2/1901 a 26/5/1905, fl. 17. 5 Actas 10/2/1901 a 26/5/1905, fl. 17. 1 2

Vivência Religiosa | 45


Cemitério

Jornal de Lousada, 4/12/1954, p. 2.

O decreto de 28/9/ 1844 proibiu o enterramento nas igrejas, obrigando o depósito dos restos mortais da pessoa falecida, após o registo de óbito e licença sanitária, em cemitério construído para o efeito. No princípio a lei foi ignorada: havia poucos cemitérios e a população atravessava uma grande carestia alimentar devido à guerra civil, à praga da batata e à seca. Mas quando o Governo impôs o cumprimento da medida, o povo insurgiu-se porque não aceitava os entes queridos sepultados fora dos recintos sagrados, em campo aberto e ainda ter de pagar as despesas do funeral. Aconteceu mesmo a revolta da “Maria da Fonte”, liderada por uma camponesa da Póvoa de Lanhoso, que alastrou a muitas regiões do Norte, chegando até a entrar em Lousada (MOURA, 2009a: 331). A contestação foi dominada, o país, muito lentamente, acalmou e os cemitérios começaram a surgir. Em Lousada o Administrador do Concelho ainda sugeriu um recinto comum para Nevogilde, Casais e Figueiras (COSTA, 2004: 510), mas a proposta não avançou. Aqui, como em muitos outros lados, os enterramentos iniciaram-se no adro da igreja, passando depois a campo próprio, obrigando às autoridades locais a um grande esforço financeiro devido à falta de verbas próprias. Sabemos, por exemplo, que em Nevogilde a reconstrução dos muros do cemitério, em 1880, obrigou a Junta a contrair um empréstimo de 400 mil réis, ao juro de 5% ao ano, a amortizar no prazo de sete anos, sendo lançada uma derrama de 30% aos proprietários da freguesia sobre as contribuições gerais, predial, pessoal e industrial, no valor de 2.177 réis, esperando-se do Governo a concessão do terreno do passal para a execução do aumento do recinto6. Como não houve resposta, a Junta incluiu no orçamento de 1882 a expropriação por 28.879 réis, bem como a execução de trabalhos e a instalação do portão de ferro forjado, orçado em 45 mil réis7. O processo de construção deu entrada no Governo Civil a 25/5/1890 (COSTA, 2004: 510), sendo necessário desenterrar cinco cadáveres do cemitério antigo para execução da obra8. Dada a urgência9, novo empréstimo foi aprovado em 1891, no valor de 545 mil réis, com 5% de juros anuais10. O orçamento das obras ascendia a 865 mil réis11 e, uma vez concluídas, foi aprovado o regulamento em 22/11/189112. O portão, muito artístico, veio a Actas 1/1/1838 a 23/7/1879, fl. 26v. Actas 5/2/1875 a 31/5/1896, fls. 25v-26, 30-31. 8 Actas de 7/2/1875 a 31/5/1896, fl. 62. 9 Actas de 7/2/1875 a 31/5/1896, fl. 61. 10 Actas de 7/2/1875 a 31/5/1896, fl. 62v, 64. 11 Actas de 7/2/1875 a 31/5/1896, fl. 67v. 12 Actas de 72/1875 a 31/5/1896, fl. 68. 6 7

Commercio de Penafiel, 18/2/1891, p. 3.

46 | Vivência Religiosa


ser instalado em 1899. O primeiro sepultamento ocorreu a 29/4/1895 em circunstâncias especiais. Luís Pinto de Almeida Soares Gavião, da Casa de Barrimau, havia falecido no Porto em 1888 e foi sepultado no cemitério ocidental daquela cidade, mas veio a ser transladado para Nevogilde para o jazigo que a sua esposa, D. Mariana Júlia Peixoto de Sousa Vilas Boas, havia mandado construir13. O primeiro enterramento registado deu-se a 19/5/1895, de uma Maria Alves, natural de Ferreira e moradora no lugar do Vale. Tinha apenas 24 anos de idade e já era viúva do serviçal Joaquim Freire14. Posteriormente, ao longo dos anos, o cemitério conheceu várias ampliações.

O portão foi instalado em 1899. Coleção particular de Carlos Mota.

13 14

http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226295 005 tif (consulta a 23/1/2017). http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226295 005 tif (consulta a 23/1/2017).

Visita do Bispo O Bispo do Porto, D. António Barroso, veio a Nevogilde em 1902, ficando hospedado na Casa da Jusam, do Dr. António Marinho Falcão de Castro Morais Sarmento. Teve a recebê-lo duas bandas de música, iluminações, fogo de artifício e muitas bandeiras1 . Voltou a passar na freguesia em novembro desse mesmo ano, em direção a Lustosa, sendo recebido no cruzamento de Nevogilde pelas autoridades do concelho e por muito povo, que o saudava lançando flores. As casas próximas estavam adornadas com cobertores de damasco e bandeiras2.

D. António Barroso1 . 1 http://www.remelhe.bcl.pt/imagens/D%20Antonio%20 Barroso1.jpg (consulta em 26/2/2016).

1 2

Commercio de Penafiel, 11/6/1902, p. 2. Commercio de Penafiel, 5/11/1902, p. 2.

Vivência Religiosa | 47


Virgem Peregrina A imagem da Virgem Peregrina de Fátima visitou o concelho de Lousada em 2016. Mas não foi a primeira vez que esteve entre nós, pois em 27/6/1928 foi recebida em Nevogilde, por iniciativa da Casa de Cabo Vila (Nespereira)15.

Cruzeiros O maior cruzeiro do concelho de Lousada está situado no topo norte do adro da igreja e foi construído no ano de 1796. Em dezembro de 1940 foi mandado restaurar, sendo inscrita a referência às comemorações centenárias da Fundação de Portugal e Restauração da Independência. Há ainda mais dois cruzeiros: na entrada do adro da capela da Senhora da Ajuda e na Rua da Padaria, onde a procissão no dia da festa inverte a marcha.

15

Jornal de Lousada, 18/11/1919, p. 2.

48 | Vivência Religiosa

Jornal de Lousada, 3/7/1948, p. 2.


Capela de Nossa Senhora da Ajuda

N

ossa Senhora da Ajuda é uma das muitas invocações de Maria, mãe de Jesus Cristo. O seu culto deve ter começado em  Portugal  durante a  Idade Média, sendo habitualmente ligado a uma ermida na praia do Restelo, em Lisboa, onde existia uma imagem de Nossa Senhora, muito invocada por marinheiros e soldados. A capela de Nevogilde é uma das mais belas, importantes e antigas capelas do nosso concelho. Já existia em 1690 e teve algumas reparações e alterações, principalmente nos séculos XIX e XX, com o muro à volta construído em 1802. Sabe-se que foi restaurada em 1830 por Manuel Albino Pacheco, da Casa das Vinhas, devido a graça recebida, conforme se pode ler em lápide na frontaria. Em 17/11/1909 ficava concluída a torre sineira, sendo depois colocados quatro sinos e o relógio, e executados outros melhoramentos, como o novo assoalhamento, pintura, douramento dos altares e

Capela da Senhora da Ajuda em 22/2/1962. Arq. da Casa das Vinhas.

Vivência Religiosa | 49


novas sanefas, custeados pelo Comendador José Ferreira Ribeiro de Meireles, natural da freguesia e emigrado no Brasil1, de que há retrato a óleo na sacristia. Mas as obras, realizadas pelo mestre de obras Alfredo Nogueira de Sousa Freire2 (irmão do Pe. Belmiro de Sousa Freire), foram suportadas em grande parte pelo Conde de Nevogilde. Custaram 2.443$000 réis, assim distribuídos: torre, 1.000$000 réis; 4 sinos, 461$000 réis; para-raios 91$000 réis; revestimento a mosaico na torre e dois mostradores de mármore, 431$000 réis; relógio, 360$000 réis3. O relógio, executado na fábrica Paul Odobei, em França, esteve exposto na Relojoaria Marques & Filho, em Lousada4, e foi assente a 3/6/1910. A 20/12/1909 decorreu o batismo solene dos sinos novos, construídos numa fundição em Rio Tinto e adquiridos à casa Alexandre Leão e Filhos, da Rua do Heroísmo, no Porto. O juiz do sino grande foi o Conde de Nevogilde e a madrinha a sua afilhada, D. Noémia; o juiz do 2.º sino foi José Ferreira Ribeiro de Meireles e a madrinha a sua sobrinha, D. Mercedes José Gomes de Meireles; do 3.º sino os juízes foram o abade da freguesia e D. Maria Isabel Malheiro, da Casa da Jusam; e os do 4.º sino, Luís Lencastre e D. Maria Carolina Lencastre, da Casa de Barrimau. O sino velho foi doado à igreja matriz5.

Comendador José Ferreira Ribeiro de Meireles. Coleção particular de Carlos Mota.

A grande festa de inauguração oficial das obras de restauro ocorreu a 27 e 28 de agosto de 1910. No sábado, dia 27, houve sermão à Nossa Senhora da Ajuda, seguido da inauguração do retrato a óleo do Conde de Nevogilde oferecido pelo pároco. Quando o retrato, colocado sob um dossel forrado a cetim azul e branco e veludo por um pavilhão de damasco, foi descerrado, “o povo assistente manifestou-se espontaneamente por uma ovação delirante, vivas ao Sr. Conde de Nevogilde, ao mesmo tempo que os sinos repicavam festivamente e os foguetes estrelejavam e retumbavam nas quebradas das montanhas”6. Intervieram depois vários oradores, salientando o amor à pátria e o patrocínio do benemérito. O domingo iniciou-se pelas 10h00 com missa solene a grande instrumental e sermão por orador sacro; às 15h00 saiu a procissão com vários andores, figuras bíblicas e duas bandas de música; às 16h00 bazar, e às 21h00 arraial noturno, com iluminações, fogo de três pirotécnicos e despique de bandas de música7. Jornal de Lousada, 7/11/1909, p. 2. Jornal de Lousada, 6/2/1910, p. 3. 3 Jornal de Lousada, 5/6/1910, p. 3. 4 Jornal de Lousada, 15/5/1910, p. 3. 5 Jornal de Lousada, 26/12/1909, p. 2. 6 Jornal de Lousada, 4/9/1910, p. 2. 7 Jornal de Lousada, 28/8/1910, p. 3. 1 2

50 | Vivência Religiosa

Imagem da Senhora da Ajuda na capela de Nevogilde. Coleção particular de Carlos Mota.


Em 30/5/1937 foi procedida à eletrificação e iluminação, por conta do Dr. Guilherme do Carmo Pacheco, da Casa das Vinhas8. Para além da festa anual, no último fim de semana de agosto, sempre muito concorrida, há registo de uma grandiosa peregrinação em 10/7/1898 com a participação de Associações do Apostolado de 13 freguesias da região, filarmónicas e fogo de artifício. Foi aprovada pelo Cardeal D. Américo, que concedeu 100 dias de indulgências aos fiéis que, devidamente preparados, nela se incorporassem. O largo da Capela estava adornado com plintos, troféus e arcos, que à noite se iluminaram com copinhos e balões venezianos9. 8 9

Jornal de Lousada, 5/6/1937, p. 2. O Commercio: 2/7/1898, p. 2, e 6/7/1898, p. 3.

Nossa Senhora da Ajuda Senhora do nosso encanto Se um dia Te deixar Já não vou ver o teu manto.

Já não vou ver o teu manto Quando lá longe sentir Faltar a tua amizade O manto do Teu vestido. (Refrão do hino cantado pelo grupo de Janeiras)

Conde de Nevogilde Nasceu na Casa da Devesa a 6/6/1853, filho de Bernardino Correia e de D. Ana Rosa, e chamava-se Claudino Correia. Já emigrante no Brasil, onde fez fortuna e foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Beneficência, acrescentou ao nome o apelido Lousada. No dia em que completava 54 anos, em 1907, o Rei D. Carlos concedeu-lhe o título de Visconde. Em 1909, D. Manuel II atribuiu-lhe o título de Conde. Em visita a Nevogilde em 1907, custeou as obras na capela da Senhora da Ajuda, tendo por isso um retrato a óleo na capela (MOURA, 2009b: 455), para além de igualmente financiar a construção do santuário da Senhora da Piedade (Sameiro), em Penafiel. Conde de Nevogilde. Coleção particular de Carlos Mota.

Vivência Religiosa | 51


VIDA SOCIAL


Protagonistas da sociedade local

Elites Locais

“Em cada década um grande homem. Quem pagava as despesas?” Bertold Brecht

A

s famílias e as casas principais desempenharam um papel determinante no poder formal da sociedade local portuguesa. No chamado Antigo Regime, a liderança local passava pelas pessoas principais das terras, os melhores dos lugares ou da melhor nobreza. O peso dos morgados, a apertada disciplina familiar e a indivisão dos patrimónios, a perpetuar as casas e as famílias no seu esplendor, confirmavamse nas cartas de brasão de armas que se afidalgavam nas fachadas das casas provinciais de razoáveis proporções (MONTEIRO, 1996: 62). Portanto, estudar as elites locais é estudar os centros de poder político, económico, social e cultural e é também estudar as formas de dominação, uma vez que os principais ofícios deviam ser reservados para quem possuía mais elevada e antiga dignidade nobiliárquica, enquanto a honra social se convertia igualmente em situação de domínio e em poder de mando (MONTEIRO, 1996: 63). Esta realidade assentava ainda no princípio de “viver para a política sem dela ter de viver”, devido à independência económica proveniente dos recursos privados dos seus atores: “Considerava-se assim que os membros das famílias mais antigas e prestigiadas não só seriam depositários de uma autoridade natural que os habilitava para o mando, porque mais facilmente acatada pelos dirigidos, como davam maiores garantias de independência e isenção no desempenho dos cargos por disporem de recursos próprios para o seu sustento, que persistiu até tarde como modelo” (MONTEIRO, 1996: 62). Desta sociedade fortemente hierarquizada podemos extrair muitos exemplos na história da freguesia de Nevogilde. Manuel Albino Pacheco surge como o mais antigo dos registos conhecidos, enquanto presidente da Comissão Municipal de Aguiar de Sousa e, mais tarde, da Câmara de Lousada. Da mesma Casa dasVinhas saíram ainda o seu filho, Conselheiro José Guilherme (Deputado às Cortes, Governador Civil de Angra do Heroísmo e Presidente da Câmara de Paredes); o seu neto, Dr. Guilherme do Carmo Pacheco (Presidente da Câmara de Vila Flor, Presidente do Futebol Clube do Porto e diretor do Jornal de Notícias), e bisneto, Dr. Antero Pacheco, também senhor da Casa do Carreiro de Baixo (acionista maioritário do Jornal de Notícias). Da Jusam, referência para Joaquim doVale Cabral (Presidente do Club Portuense e administrador do Caminho-de-Ferro do Porto à Póvoa) e Joaquim Burmester (Presidente da Câmara de Lousada), e de Barrimau, Luís Pinto de Almeida Soares Gavião e o seu neto Luís Lencastre que foram Presidentes da

54 | Vida Social


Junta de Freguesia, cargo também ocupado pelo Tenente Pedro Lobo Machado, da Casa do Carreiro de Cima, que presidiu ainda ao Senado Municipal. Na Casa do Vale do Mezio, mandada construir pelo Contra-Almirante Sebastião Garcês, nasceu o Coronel Soares de Moura (Presidente do Grémio da Lavoura e da Adega Cooperativa de Lousada). Se ainda juntarmos, da Casa do Carreiro de Cima, os Drs. Francisco de Sales (Juiz de Penafiel e da Correição da Feira) e Dâmaso Joaquim Barbosa de Lemos (Vereador da Câmara de Lousada) ou, mesmo, José Maria Lopes, da Casa de Cam (Vice-Presidente da Câmara), verificamos, de facto, que os protagonistas da sociedade local eram originários das casas e famílias principais do lugar. Nem sempre terá sido pacífica esta regulação, quer por eventuais excessos no exercício da dominação, quer por circunstâncias especialmente delicadas, como no abastecimento alimentar em tempo de carestia de géneros. Garantir o “pão barato” representava, assim, uma das condições essenciais para a pacificação social, até porque o alto preço do pão, em anos de escassez, tornando-se inacessível aos pobres, despoletava revoltas e insurreições. Foi o que aconteceu na década de 1910, com a chamada Crise das Subsistências, originando em 1912 revoltas iminentes em Nevogilde e em Nespereira, culminando em 1915 e 1916 com sérios tumultos por todo o concelho. Aliás, em novembro de 1915, o Contra-Almirante Sebastião Garcês foi obrigado a vender, contra a sua vontade, o milho que possuía1. Curioso é, ainda, o contributo voluntário para as urgências do Estado, dado em 1829 por um conjunto de figuras representativas: Abade da freguesia, 24$000 réis;Tenente António Pereira de Sousa, 4$800; Bacharel José Caetano da Silva e Sousa, 6$400; António Machado Brandão Lobo, 7$200; Manuel Albino Pacheco, 1$800; António Pereira Casela, 1$200; D. Quitéria Joaquina, 20 alqueires de milho que rendeu 6$720; Diversos habitantes da freguesia, 1$7802.

Família Pacheco, da Casa das Vinhas, cerca de 1934. Da esquerda para a direita: Mário, Maria Natália, Maria Antónia, Alda e Antero Pacheco. Crianças: Rui, Maria Sofia e Mário. À frente, os caseiros Neca e Quim. Coleção particular da Eng.ª Natália Pacheco.

Jornal de Lousada, 28/11/1915, p. 1. Gazeta de Lisboa, 15/9/1829, p. 1. Disponível em https://books.google.pt/books?id=7hAwAAAAYAAJ&pg=PA899&lpg=PA899&dq=antonio+machado+meireles+brandao+lobo&source=bl&ots=CAYO-qcbkS&sig=gXJVpcreQzJrAw_lJ242DEzjgXw&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwik3tyWpe3RAhUFrRQKHXVDBBIQ6AEIRTAJ#v=onepage&q=antonio%20machado%20meireles%20brandao%20lobo&f=false (consulta em 20/1/2017). 1 2

Vida Social | 55


Luís Almeida Soares Lencastre da Casa de Barrimau. Data desconhecida. Coleção particular de D. Carolina Lencastre.

Assaltos “Na freguesia de Nevogilde os larápios andam desaforados há dois annos a esta parte. Tem havido vários casos d’ arrombamento e destelhamento, acompanhados de roubos, entre outras partes em casa das exª.mas sr.ªs Angela Delfina Machado, do Carreiro de Cima, e D. Maria Julia de Lemos, do Carreiro de Baixo, e do srs. Antonio Nunes de Magalhaes e Antonio Barboza de Melo. Consta-nos que um dos meliantes já se posera ao fresco para o lado do Porto, a fim de fugir à acção da justiça. Bom será que as auctoridades investiguem estes factos, como é do seu dever, a fim de que não se repitam estes factos pois consta-nos que n’ uma das casas acima mencionadas o valor dos roubos já excede a quantia dos 100$000 réis.”1 . 1

Commercio de Penafiel:, 3/6/1885, p. 2.

Casa das Vinhas

A

Casa das Vinhas é residência senhorial do séc. XVI, permanecendo na família Pacheco desde então até à atualidade. Gonçalo Gaspar, nascido talvez em 1640, seria seu proprietário, e nela nasceu em 3/12/1712 Manuel Pacheco, filho de Manuel Gaspar e de D. Francisca Pacheco. Casou com D. Josefa da Rocha a 3/5/1744, filha de Domingos Fernandes e de D. Maria da Rocha1. Possui um aspeto de fortaleza: as fundações assentam sobre uma rocha, tem seteiras para defesa, e possuía alçapões e redutos de defesa já desaparecidos devido a adaptações ao longo dos tempos. A atual senhora da Casa é D. Maria Adelaide Augusta de Bettencourt Cyrne Pacheco, viúva do Dr. Antero da Costa Morais Pacheco. 1

Arq. da Casa das Vinhas.

56 | Vida Social

Casa das Vinhas em 1920. Coleção particular da Eng.ª Natália Pacheco.


Manuel Albino Pacheco Manuel Albino Pacheco era filho de Manuel Pacheco da Rocha e de D. Mariana Luísa Nogueira de Miranda. Emigrou por duas vezes para o Brasil. Inicialmente regressou em 1822, fixando-se na Casa das Vinhas, de que era senhor e onde tinha nascido, talvez em 1780, mas em 1822 voltou ao Brasil devido à guerra civil, deixando a família na Casa. Mandou restaurar em 1830 a Capela da Nossa Senhora da Ajuda, devido a uma graça recebida, e, regressado a Portugal, em 1834, tornava-se Presidente da Comissão Municipal de Aguiar de Sousa. Também foi Vereador da Câmara de Paredes (empossado em 15/2/1837) e Vereador (1843-1845) e Presidente da Câmara de Lousada (1850-1852), para além de Vereador Fiscal do Círculo da Paz de Nevogilde (1848-1850). Casou com D. Ana Maria de Jesus Pacheco Cordeiro, de quem teve onze filhos, falecendo em 10/10/1862 (MIGUÉIS, 2003: 32-33).

D. Ana de Jesus Cordeiro, falecida a 23/11/1880, com cerca de 80 anos, natural de S. João do Curral d'El Rei, Minas Gerais (Brasil)1. Coleção particular da Eng.ª Natália Pacheco. http://pesquisa.adporto.pt/ viwer?id=1226288 64 tif. 1

Manuel Albino Pacheco com os filhos, algures entre 1825 e 1845. Coleção particular da Eng.ª Natália Pacheco.

Dr. Manuel Albino Pacheco Cordeiro Nascido em 1817 no Rio de Janeiro, era filho de Manuel Albino Pacheco e de D. Ana Maria de Jesus Pacheco Cordeiro. Em 1834 veio com os seus pais e irmão para a Casa das Vinhas. Diplomado pela Universidade de Coimbra, tornou-se Médico da Casa Real e “médico gratuito de toda a gente de Lousada e arredores”, e Cavaleiro da Ordem da Conceição por mercê do Rei D. Pedro V. Faleceu a 9/10/1897, solteiro e já aposentado, no Convento dos Capuchos, em Monção, sendo sepultado em Nevogilde.

Dr. Manuel Albino Pacheco Cordeiro, em data incerta. Coleção particular da Eng.ª Natália Pacheco.

Vida Social | 57


Albino Manuel Pacheco Também nascido no Rio de Janeiro, em 21/11/1818, era igualmente filho de Manuel Albino Pacheco e de D. Ana Maria de Jesus Pacheco Cordeiro. Em 1861 foi nomeado comandante da expedição de Tete ao Zumbo (Moçambique), que concluiu no ano seguinte. O relato que escreveu foi publicado no Boletim Oficial do Governo Geral da Província de Moçambique em 1883. Trata-se de um diário de viagem e de um conjunto de ensaios sobre etnografia e história do vale médio do Zambeze, que continua a servir de base aos estudiosos e investigadores sobre a história do reino Monomotapa. Capa do diário adaptado a livro1 .

Conselheiro José Guilherme Nasceu no Brasil em 10/2/1823, mas está muito ligado à Casa das Vinhas, onde passou a infância, pois era filho de Manuel Albino Pacheco e de D. Ana Maria de Jesus Pacheco Cordeiro. Entre vários outros cargos, foi Presidente da Câmara de Paredes, Deputado às Cortes e Governador Civil de Angra do Heroísmo. Ficou conhecido como “Rei de Paredes” pela criação da comarca, instalação do telégrafo, passagem da Linha do Douro e construção de estradas e escolas, estando perpetuado com estátua no Parque com o seu nome e mausoléu no cemitério municipal. Faleceu a 7/12/1889 (MAIA, 1990: 35).

Dr. Francisco Xavier Pacheco Nasceu na Casa das Vinhas em 3/12/1864, filho de Manuel Albino Pacheco e de D. Ana Maria de Jesus Pacheco Cordeiro. Cursou Medicina na Escola Médica do Porto, que concluiu em Julho de 1863. Médico da Marinha Mercante, exerceu também longos anos no Brasil, no estado de Santa Catarina. Em Março de 1886 recebeu um Alvará do Rei D. Luís, nomeando-o médico da Real Câmara, com todas as honras e prerrogativas inerentes ao cargo. Casou com D. Sofia Alves (Carvalho) do Carmo (adoção de apelido em honra de Nossa Senhora do Carmo em virtude de iminência de um naufrágio de um antepassado) e faleceu a 23/12/19162. 2

Jornal de Lousada, 31/12/1916, p. 2.

58 | Vida Social

1 http://thumbs.buscape.com.br/ livros/a-journey-from-tete-tozumbo-uma-viagem-de-tete-aozumbo-albino-manoel-pacheco019726560x_200x200-PU3cc7cae0_1. jpg (consulta em 24/1/2017).

Conselheiro José Guilherme. Coleção particular da Eng.ª Natália Pacheco.

Dr. Francisco Xavier Pacheco. Coleção particular da Eng.ª Natália Pacheco.


Dr. Guilherme do Carmo Pacheco Nasceu no Porto em 17/5/1881, filho do Dr. Francisco Xavier Correia Pacheco e de D. Sofia Augusta Alves do Carmo, e licenciouse em Direito pela Universidade de Coimbra. Senhor da Casa das Vinhas e benemérito da capela da Senhora da Ajuda, foi presidente e secretário do Futebol Clube do Porto (1911-1912) e o primeiro sócio honorário da história do clube (1/11/1913), sendo na sua presidência que o clube alcançou a primeira vitória num jogo internacional: 4-1 perante o Fortuna de Vigo (FERNANDES, 2015: 31). O azul e branco do equipamento do clube foi escolha sua devido ao facto de ser um monárquico convicto. Foi ainda diretor do “Jornal de Notícias”. Devido ao seu casamento com D. Palmira Amélia da Costa Morais, radicou-se em Vila Flor, onde foi advogado, Delegado do Procurador Régio e presidente da Câmara Municipal durante a restauração monárquica, ali falecendo a 7/7/1978 (MOURA, 2009b: 455). Estão sepultados no jazigo do tio de sua mulher, Aníbal da Costa Morais, um dos fundadores do "Jornal de Notícias".

Dr. Guilherme do Carmo Pacheco. Coleção particular da Dr.ª Maria Antónia Pacheco.

Casa do Carreiro de Baixo

A

Casa do Carreiro de Baixo, do século XVII, tem uma planta em L, em cujo ângulo se encontra uma escadaria semicircular. No piso de baixo ficam a adega e outros serviços, enquanto o andar nobre é para habitação. Em várias divisões é possível encontrar seteiras, para defesa da casa durante o período das lutas liberais. Possui ainda um belo jardim, onde se encontra a pedra de armas de Lemos, Barbosa, Carneiro e Monteiro após ter sido apeada da fachada poente na década de 1930 para o alargamento do Caminho do Carreiro decidido pelo Dr. Guilherme do Carmo Pacheco (NÓBREGA, 1999: 250), senhor desta Casa e das Vinhas. Herdou-a o seu filho, Dr. Antero da Costa Morais Pacheco, pai da atual proprietária, Dr.ª. Maria Antónia de Bettencourt Cyrne Pacheco, viúva de Francisco Malafaia de Oliveira Sá.

D. Maria Antónia Adelaide Dâmaso da Silva e Lemos Barbosa, antiga senhora da Casa. Coleção particular da Dr.ª Maria Antónia Pacheco.

Vida Social | 59


Casa do Carreiro de Baixo. Coleção particular de Carlos Mota.

A casa pertenceu também a D. Maria Antónia Adelaide Dâmaso da Silva e Lemos Barbosa, filha do Dr. Dâmaso Joaquim e Silva Barbosa Lemos e de D. Joaquina Margarida, da Casa do Carreiro de Cima. Nasceu a 1/10/1856 e faleceu a 30/3/1936, no Carreiro de Baixo1. 1

http://pesquisa.adporto.pt/viwer?id=12262856 138 tif.

Dr. Antero Pacheco O Dr. Antero da Costa Morais Pacheco nasceu em Vila Flor em 27/3/1917, filho do Dr. Guilherme do Carmo Pacheco e de D. Palmira Amélia da Costa Morais. Senhor da Casa das Vinhas e do Carreiro de Baixo, foi Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra e acionista maioritário do Jornal de Notícias. Casou com D. Maria Adelaide Augusta de Bettencourt Cyrne a 15/8/1949, na Capela das Aparições de Fátima, e faleceu na Foz do Douro (Porto) a 27/4/1984 (NÓBREGA, 1999: 250). Está sepultado no cemitério da Lapa, no Porto, no jazigo dos Viscondes Pereira Machado, avós de sua mulher. Dr. Antero Pacheco no início da década de 1940, contemplando o Caminho do Carreiro. Coleção particular da Dr.ª Maria Antónia Pacheco.

60 | Vida Social


Casa do Carreiro de Cima

A

Casa do Carreiro de Cima, parcialmente abandonada, apresenta fachadas abertas por janelas retas de moldura simples, com acesso por uma escadaria ao piso de cima. Com a venda da Casa de Ribas (Covas, Lousada), por Francisco Vaz Guedes Pinto Bacelar, na segunda metade do século XIX, a pedra de armas, que exibia as armas dos Pinto, Morais, Bacelar e Sarmento, foi trazida e guardada numa dependência até data incerta1, uma vez que a Casa do Carreiro de Cima era de familiares (NÓBREGA, 1959: 231). A referência mais antiga ao proprietário que nos foi possível apurar é de 2/9/1765, quando ocorre o casamento de D. Eugénia Custódia Joaquina de Meireles, desta Casa, com António Machado Brandão de Sousa Lobo, da Casa da Argonça (Ordem) (NÓBREGA, 1959: 240), falecido a 29/10/18462. Ela era filha de Custódio de Meireles Freire e de D. Maria Nunes, já moradores em Carreiro de Cima, neta paterna de Domingos António Nunes e de D. Maria Josefa3. Esta ligação entre as duas casas vai perdurar durante várias décadas, sendo em Argonça que nasceu em 1851 o Tenente Pedro Lobo Machado, que, por sua vez, vem a casar com D. Maria Júlia e Silva Lemos Barbosa, da Casa do Carreiro de Cima. Foi ele que em 1923 mandou construir o jazigo da família no cemitério de Nevogilde (NÓBREGA, 1999: 182). Da família Barbosa e Lemos há a salientar o Dr. Francisco de Sales e o seu irmão Bacharel Dr. Joaquim Dâmaso Barbosa Lemos, senhor da Casa do Carreiro de Cima no início do século XIX, casado com D. Luísa da Silva, filho de Manuel José Monteiro de Lemos e de D. Maria Josefa de Barbosa4.

Diploma de formatura do Dr. Joaquim Dâmaso Barbosa de Lemos. Coleção particular da Dr.ª Maria Antónia Pacheco. 1 Segundo inf. que nos foi prestada em 4/8/2014 pelo sr. Francisco Malafaia Sá, da Casa do Carreiro de Baixo, esta pedra de armas foi adquirida por uma família de Torres Vedras. 2 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226285 53 tif (consulta a 23/11/2016). 3 http://pesquisa.adporto.pt/viwer?id=540237 60 tif. 4 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226273 32 tif (consulta a 19/2/2017).

Vida Social | 61


O filho destes, Bacharel em Direito Dr. Dâmaso Joaquim Barbosa Silva Lemos, nasceu a 2/5/18145, foi vereador da Câmara de Lousada em 1847 e 1853 (MIGUÉIS, 2003: 25, 36) e faleceu a 26/7/1877, já viúvo de D. Maria Margarida Joaquina de Magalhães6. O atual proprietário da Casa é o piloto das Linhas Aéreas Internacionais, jubilado, comandante José António de Sequeira Braga Guedes Bacelar (nascido em Lourenço Marques, atual Maputo, a 27/4/1943), cujos pais a herdaram da tia enfermeira D. Maria Isménia Vaz Guedes Pinto Bacelar (31/12/1876-15/5/1950), que, por sua vez, a havia comprado ao Tenente Pedro Lobo Machado (NÓBREGA, 1999: 174-175). 5

Senhor da Casa do Carreiro de Cima não identificado, eventualmente o Dr. Joaquim Dâmaso Barbosa de Lemos. Coleção particular de José António Guedes Bacelar.

6

http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=540231 72 tif (consulta a 20/5/2107). http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226288 48 tif (consulta a 20/5/2107).

Casa do Carreiro de Cima. Arq. da EB de Campo.

Dr. Francisco de Sales O Dr. Francisco de Sales de Barbosa e Lemos era filho de Manuel José Monteiro de Lemos e de D. Maria Josefa Barbosa, da cidade do Porto7. Foi Bacharel em Direito, Cavaleiro da Ordem de Cristo e Fidalgo da Casa Real. Em 1816 tomou posse como Juiz da cidade de Penafiel, cargo que exerceu até 20/3/1820, para então ir ocupar a Correição da Feira. Casou com D. Faustina Lemos, que foi mãe solteira de D. Mafalda Júlia Lemos Barbosa e Albuquerque, que veio a casar com o Dr. Luís Pinto de Mesquita Carvalho, da casa de Vila Verde (Caíde de Rei, Lousada) (FREITAS, 1982: 78).

7 Cf. http://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=anais_bn&pagfis=21627&pesq= e http://pesquisa.adporto.pt/ viewer?id=540231 72 tif (ambas consulta a 7/11/2016).

62 | Vida Social


Tenente Pedro Lobo Nascido na Casa da Argonça (Ordem) a 9/9/1851, o Tenente Pedro Lobo Machado de Sousa Meireles era filho de António Machado Meireles Brandão Lobo e de D. Teresa de Jesus Ferreira. Foi Vereador da Câmara de Lousada, Presidente do Senado Municipal e Presidente da Junta de Freguesia de Nevogilde8. Pelo seu casamento com D. Maria Júlia da Silva e Lemos de Barbosa tornou-se senhor da Casa de Carreiro de Cima, onde faleceu em 1938, no dia em que completava 87 anos, sendo sepultado no cemitério de Nevogilde, no jazigo por ele mesmo mandado construir (NÓBREGA, 1999: 174, 182, 251). 8

Jornal de Lousada, 14/9/1938, p. 2.

Assento de batismo do Tenente Pedro Lobo Machado1 . 1 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226340 33 tif (consulta a 12/10/2016).

Casa da Afreita

A

atual casa da Afreita é uma construção do século XIX, situada na parte mais alta do chamado Caminho do Carreiro. Tem uma bonita fonte de pedra com carranca para afugentar os maus espíritos, numa parede do recinto de acesso à casa. Na parede detrás do edifício há outra fonte da mesma época, também com carranca que despeja muita água para um tanque quadrangular. O portão de entrada é de grande beleza, com um estilo único no concelho (OLIVEIRA, 1999: 91). Possui ainda uma capela em honra de Nossa Senhora da Conceição, registada em 2/5/1712 com autos de dote a favor de D. Maria da Conceição e Sousa. Em 1758 era propriedade do Dr. António Simão do Couto, diplomado em Cânones em 1754 após frequentar o curso de Instituta em 1/10/17481. Em meados do século XIX pertencia a Bento José Dias de Castro (filho de outro Bento José Dias de Castro e de D. Ana Margarida de Castro, naturais da cidade do Porto), casado com D. Maria Efigénia2. A 10/4/1852 é celebrado um contrato de obra e rateio de água, bem expressivo de como a posse, uso e divisão da água constituíram 1 2

Entrada da Casa da Afreita. Coleção particular de Carlos Mota.

http://pesquisa.auc.uc.pt/details?id=206690&ht= (consulta em 9/2/2017). http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226252 175 tif (consulta em 30/1/2017).

Vida Social | 63


Casa da Afreita. Coleção particular de Carlos Mota.

desde sempre uma questão essencial nas comunidades3, tanto mais que, no caso em apreço, a propriedade incluía dois moinhos, situados no fim do Caminho do Carreiro, em excelente estado de conservação depois de restaurados (NUNES, 2008: 173). Após ter pertencido à família Portocarrero, é agora a propriedade de Manuel Carlos Mergulhão Cardoso4, casado com D. Solveig Hilde Edvardsen, sendo classificada como Imóvel de Interesse Público em 3/2/2005.

3 4

http://arte-patrimonio.blogs.sapo.pt/2011/07/?page=1 (consulta em 30/1/2017). Inf. de Joaquim Ferreira Pacheco.

64 | Vida Social


Casa da Jusam

N

o lugar da Jusam, que muitas vezes aparece com a grafia Juzam, Jusão, Juzão e Jusã, surge imponente esta residência senhorial do século XVIII com capela interior em honra de Santo António, e que em tempos idos conheceu um ambiente de grande fidalguia, com várias outras quintas associadas, como a da Ratoeira. No portão principal há um brasão das famílias Abreu e Pita da Veiga, mas a representação não está correta (OLIVEIRA, 1999: 89). Aqui viveu o Dr. António Marinho Falcão de Castro Morais Sarmento (Guimarães, 1857-Jusam, 1922), Bacharel em Direito e advogado no Porto.

Casa da Jusam. Coleção particular de Carlos Mota.

Casamento em 30/9/1953, na Casa de Jusam, de D. Maria Fernanda Marinho Falcão do Vale Cabral com José Luís de Faria Lencastre: noivos ao centro, ladeados (à esquerda na foto) por Joaquim do Vale Cabral (pai da noiva) e D. Maria Amélia Madureira de Magalhães (mãe do noivo), e por D. Maria Isabel Pita Malheiro (mãe da noiva) e Dr. Simeão Pinto de Mesquita, padrinho de casamento. O pai do noivo, Luís de Faria Lencastre, já tinha falecido. Coleção particular de D. Ana Rita Beça.

Vida Social | 65


Joaquim do Vale Cabral Nasceu no Porto a 3/12/1884, filho de Constantino do Vale Coelho Pereira Cabral e de D. Sofia Baldaque Pinto da Fonseca. Foi Presidente do Club Portuense, Tesoureiro da Santa Casa da Misericórdia do Porto e administrador do Caminho-de-Ferro do Porto à Póvoa e Famalicão. Recebeu a Medalha de Ouro da Legião Portuguesa e os títulos de Comendador da Ordem de Cristo e de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real. Casou no Porto com D. Isabel Pita Malheiro Marinho Falcão de Castro, vindo morar para Casa da Jusam. Na chegada houve uma grande festa, com muito povo, banda de música, lançamento de flores, confetis e amêndoas, embandeiramento, aclamações e dísticos de boas vindas1 . Aqui faleceu em 5/4/161, estando sepultado no cemitério de Nevogilde.

1

Jornal de Lousada, 27/11/1910, p. 3.

Joaquim do Vale Cabral com uniforme de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real. Data desconhecida. Coleção particular de D. Ana Rita Beça.

Dr. Joaquim Bastos Embora nascido em Viana do Castelo, a 20/8/1909, o Dr. Joaquim José Monteiro Bastos apresenta uma íntima ligação a Nevogilde, onde casou, na Casa da Jusam, a 15/9/1938, com a Dr.ª Maria do Rosário Marinho Falcão do Vale Cabral. Licenciou-se na Faculdade de Medicina do Porto em 1932, com 20 valores. Após o doutoramento, foi Diretor do Serviço de Propedêutica Cirúrgica no Hospital de São João (sucedendo ao Dr. Álvaro Rodrigues), Diretor do Hospital, da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia e da Sociedade Portuguesa de Cirurgia. Publicou cerca de 150 artigos científicos e recebeu a comenda de Grande Oficial

Dr. Joaquim Bastos1 . 1 http://revista.spcir.com/index.php/ spcir/article/view/9/8

da Instrução Pública, falecendo no Porto a 6/6/19962. 2

Revista Portuguesa de Cirurgia, Março de 2013, pp. 93-94.

Dr. Joaquim Burmester Joaquim Burmester de Abreu Malheiro (Pinto da Fonseca)3, da Casa da Costilha (Cristelos), onde nasceu a 13/7/1911, e senhor da Casa da Jusam (Nevogilde), era filho de Joaquim Ramalho Pinto da Fonseca e de D. Maria das Dores Malheiro Burmester. Foi Presidente da Câmara de Lousada (1962-1968), diretor e gerente do Grémio da Lavoura, mesário da Santa Casa da Misericórdia, Presidente da Assembleia Geral da Associação Desportiva de Lousada e do Conselho Fiscal dos Bombeiros e professor e sócio do Colégio Eça de Queirós. Casou com D. Maria Odete Antunes de Abreu Malheiro e faleceu a 23/11/1976 (RIBEIRO, 1999: 57). 3 Inicialmente chamado Joaquim Pinto da Fonseca Júnior, alterou o nome em 23/12/1950 (Jornal de Lousada, 30/12/1950, p. 2).

66 | Vida Social

Dr. Joaquim Burmester discursando na posse como Presidente da Câmara de Lousada, em 1964. Coleção particular do Dr. José Carlos Carvalheiras.


Casa do Cam

A

referência mais antiga ao casal do Cam remonta a 1513, quando Gonçalo Anes foi taxado em meio maravedi, 24 reais e 3 dinheiros, e João do Cão no dobro desta quantia pelo foral de Aguiar de Sousa (MOURAb, 2009: 450). A 2/6/1712 encontramos um documento de apegação, ou seja, de posse jurídica de propriedade, confirmado pelo Vigário da Vara de Penafiel, após informações prestadas por João de Vines, louvador e morador do mesmo lugar, “pessoa que conhecia todas as terras por as ter fabricado e porque esteve de posse do dito casal quatro anos”, e por João da Costa, da cidade do Porto, e José Coelho, de São Paio de Casais1. A Casa não é brasonada,mas tem capela em honra de Nossa Senhora do Bom Sucesso, que a 28/2/1750 teve autos de património a favor de Maurício Pinto Nogueira, "brasileiro", natural de Fonte Arcada (Penafiel)2 , filho de António Nogueira e de Catarina Gonçalves3. Casou com D. Maria Nunes de Morais, natural e residente no lugar do Campo (filha de João de Morais e de Jerónima Nunes), que ainda a mantinham em 1758 (CAPELA, 2009: 318). Em 1807 era de António Nunes Ferreira, capitão das Ordenanças do então concelho de Aguiar de Sousa, ou seja, comandante das tropas organizadas que na altura existiam nos concelhos (MOURA, 2009a: 436), casado com D. Joana Josefa Nunes4. Já em 1843 pertencia ao filho destes, António Nunes de Magalhães, casado com D. Maria Joaquina Nunes Moreira5. No princípio do século XX pertencia a Alfredo Baptista de Freitas, cidadão brasileiro desde criança residente em Portugal, filho de Joaquim Baptista de Freitas e de D. Maria Isabel da Purificação. Além de Regedor, dedicou-se à fotografia, sendo considerado na cidade do Porto, onde executava os trabalhos, um fotógrafo de elevada competência. Faleceu a 28/5/1929, com 64 anos6, viúvo de D. Elisa Augusta Pinheiro de Freitas. Sucedeu-lhe D. Maria José Pinheiro de Freitas, que casou com Abel Freire de Sousa Lopes, comerciante, correspondente do “Jornal de Lousada” (assinando pelas iniciais A. L.) e de “O Século”7, pais do último senhor da Casa, José Maria Freitas de Sousa Lopes (19332014), que foi vice-presidente da Câmara de Lousada (1982-1989).

Alfredo Baptista de Freitas. Coleção particular da Família de José Maria Lopes.

José Maria Lopes cerca de 1955 junto à capela do Cam. Coleção particular da Família de José Maria Lopes.

Arq. da Família de José Maria Lopes. http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=540229 717 e 718 tif (consulta a 23/9/2017). 3 http://www.geneall.net/pt/forum/164005/pedido-de-confirmacao-aos-estudiosos-da-casa-de-argonca-ordem-lousada/ 4 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226273 (consulta a 19/2/2017). 5 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226273 (consulta a 19/2/2017). 6 Jornal de Lousada, 1/6/1929, p. 2. 7 Inf. da Prof.ª Fátima Lopes. 1 2

Vida Social | 67


Casa de Cam e capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Coleção particular de Carlos Mota.

Queda de avião No dia 7 de outubro de 1958 um avião militar, em voo de treino, depois de ter sobrevoado a vila de Lousada, caiu na zona do atual campo de futebol do Lagoas e os ocupantes ficaram carbonizados. Eram o Furriel Adriano Joaquim de Carvalho, de 23 anos, natural de Amarante, e o 1.º Cabo Serafim Augusto Freitas de Sousa Lopes, nascido a 27 de abril de 1935 na Casa do Cam, filho de Abel Freire de Sousa Lopes e de D. Maria José Pinheiro de Freitas. Aos 19 anos alistara-se como voluntário na Aeronáutica Militar na especialidade de radiotelegrafista, encontrando-se na altura da tragédia incorporado na Base Aérea de São Jacinto8. A família e a população assistiram ao acidente. Próximo do local, andavam várias pessoas em trabalhos agrícolas que foram atingidas pelas chamas do avião. Receberam tratamento no hospital e compareceram os bombeiros de Lousada, Penafiel e Paredes (RIBEIRO, 1999: 65). 8

Arq. da Família de José Maria Lopes.

68 | Vida Social

Pagela do óbito de Serafim Lopes. Coleção particular da Família de José Maria Lopes.


Casa de Barrimau

A

Casa de Barrimau, com o pátio de arvoredo e o belo portal de ferro forjado, é um bom exemplo de casa agrícola melhorada, no meio de campos, aumentada nos séculos XVIII e XIX. No século XVIII pertencia a Manuel Caetano Machado Ribeiro Pacheco e Silva1, casado com D. Joana Delfina Querizanda Neto Palhais, que teve Carta de Brasão de Armas a 20/10/1786 (NÓBREGA, 1999: 166). Transitou depois para o seu filho, Bernardino Machado Pacheco da Rocha Neto, nascido em 16/1/1798, que mandou esculpir a pedra de armas, embutida na parede de granito ao fundo do patamar da escada lateral, que dá acesso à entrada principal da casa, no 2.º piso. A propriedade passa para a atual família a 24/2/1833 quando Manuel de Sousa, de Penafiel, a vende a Luís Pinto de Almeida Soares, casado com D. Mariana Júlia de Sousa Freire Peixoto Vilas Boas. Estes mandaram, respetivamente, construir a capela da Casa, em honra de Nossa Senhora das Dores, que teve entre 1862 e 1863 autos de património e de bênção, e o jazigo da família no cemitério de Nevogilde, com um escudo de fantasia, feito em mármore na segunda metade do século XIX (NÓBREGA, 1999: 180). Pertence atualmente à bisneta D. Carolina Moreira Lobo de Almeida Lencastre, viúva do Eng.º Gabriel Ângelo Silos de Medeiros.

José e Luís Lencastre, cerca de 1902. Coleção particular de D. Carolina Lencastre.

Um bom exemplo de casa agrícola melhorada (FREITAS, 1980: 46). 1

Noutros documentos aparece também como Manuel Caetano Machado Pacheco da Silva Rocha.

Vida Social | 69


D. Laura Augusta, esposa de Luís de Almeida Soares Gavião (trisavós da atual proprietária) com os filhos José, Maria Carolina, Luís Lencastre e Maria das Dores, cerca de 1900. Coleção particular de D. Carolina Lencastre.

Contrato de emprazamento antigo casal de Barrimau1 .

1 ADP, Monástico-Conventual, Mosteiro de Paço de Sousa, Livro 4947, fl 468v.

Pedra de Armas no jazigo da Casa de Barrimau. Arq. da EB de Campo.

70 | Vida Social

do


Casa de Lagoas

P

ara contar a história da Casa de Lagoas devemos entrar primeiro na Quinta da Tapada, em Casais, e falar de António Pinto de Sousa Freire.

António Pinto de Sousa Freire com a segunda esposa e os filhos (CARDOSO, 2007: 41). Arq. de Manuel dos Santos, antigo feitor da Quinta da Tapada.

António Pinto de Sousa Freire Nasceu provavelmente em 1795, na Casa da Costilha (Cristelos), filho de Manuel José Pinto e Sousa e de D. Custódia Maria de Sousa. Foi Presidente da Câmara de Lousada (1843-1845) (MIGUÉIS, 2003: 21), Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e Fidalgo Cavaleiro da Casa Real. Mandou construir o Colégio de Vinça, em Casais, também chamado “Colégio de Nossa Senhora da Ajuda”, hoje casa particular, e que veio na sequência do estabelecimento de ensino criado em 1863, que funcionou inicialmente na Casa da Ribeira (Cristelos), cuja sociedade entretanto se dissolvera. Casou inicialmente com a sua sobrinha D. Maria Amália de Sousa Freire Peixoto Vilas Boas, de quem teve cinco filhos, entre os quais Manuel Peixoto de Sousa Freire, que fundou a Misericórdia de Lousada e mandou construir o primeiro hospital no concelho. Com o falecimento da esposa, ocorrido a 30/3/1855, casou em segundas núpcias com D. Joaquina Angélica Magalhães, de quem teve um filho conhecido, que batizou com o nome de António. Faleceu a 11/5/1873 (CARDOSO, 2007: 41-44).

A tradição oral da família Sousa Guedes e os suportes documentais convergem, na verdade, no facto de o senhor da Tapada, possuidor de grande fortuna, ter avançado com a construção da vistosa moradia de Lagoas, para a qual foi viver devido à consumação do seu segundo casamento. Aliás, a capela em honra de Santo António teve autos de património já a favor da nova esposa, D. Joaquina Angélica de Magalhães, a 30/1/1889.

Vida Social | 71


Capela com origem em 1789. Coleção particular de Duarte Xavier de Campos.

Atualmente a propriedade é de D. Maria Teresa de Sousa Guedes Guimarães Pestana, filha de António Maria Bartolomeu Guimarães Pestana de Magalhães (Porto, 24/8/1896-Porto, 1/10/1972) e de D. Maria Amália de Castro Neves de Sousa Guedes (Porto, 17/1/1897-Porto, 28/10/1985) e viúva de Fernando Mariares de Vasconcelos. O seu irmão, Engº José Joaquim de Sousa Guedes Guimarães Pestana (nascido a 18/4/1941), foi Tenente Engenheiro Maquinista Naval da Reserva Naval, Chefe do Departamento de Mecânica do Gabinete de Engenharia da Companhia Nacional de Petroquímica, Diretor Geral de Viação, Presidente do Conselho de Administração da Portugália, Vogal do Conselho Superior de Obras Públicas e do Conselho Fiscal da Carris de Lisboa (FERREIRA, 1995: 219).

Casa de Lagoas. Coleção particular de Carlos Mota.

72 | Vida Social

António, único filho conhecido de António Pinto de Sousa Freire e de D. Joaquina Angélica, que veio a ser senhor da Casa de Lagoas. Coleção particular de D. Maria Teresa Guimarães Pestana.


Casa do Vale do Mezio

A

Casa do Vale do Mezio chamava-se antigamente Casa ou Quinta de Lagoas, por estar situada no lugar deste nome. Quem lhe mudou o nome foi o ContraAlmirante Sebastião Pinto Garcês, que a mandou construir em 1910 ou 1911, encostada à capela já existente, em honra de Santa Ana (MOURA, 2009: 451). Informou-nos D. Cecília Soares de Moura, bisneta do Contra-Almirante e proprietária da Casa até 2015, que ouvira dizer de sua mãe que o tamanho grande da capela se explica por também servir a freguesia. As pessoas vinham assistir à missa e às procissões por um caminho que vai da Casa ao portão grande, onde perto havia um cruzeiro de granito, demolido talvez entre 1920 e 1936. A capela, que teve autos de património a 22/7/1752, deve ter sido construída, no máximo, em 1753, pelo Pe. Manuel Ribeiro da Silva, que faleceu a 4/11/1783, com 83 anos1. No pedido ao Bispo dizia que a sua família era nobre e servida por quatro pretos e dois criados brancos, e comprometeu-se a serem ali celebradas 13 missas por ano2. Desta Casa era também o Pe. Manuel de Sousa e Silva, formado em Direito Canónico e abade reservatário de Nevogilde quando em 1781 foi nomeado Vigário Geral da Comarca Eclesiástica de Penafiel, que exerceu até ao seu falecimento, em 1797 (D’ ALMEIDA, 2006: 106) A casa antiga e as propriedades à volta eram de D. Quitéria Paulina de Sousa3. http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=540244 tif 42 mencionando o testamento (consulta a 14/2/2017). Arq. de D. Cecília Soares de Moura. 3 Arq. de D. Cecília Soares de Moura. 1 2

Casa do Vale do Mezio em 1940 e em 1980. Coleção particular de D. Cecília Soares de Moura.

Vida Social | 73


Contra-Almirante Sebastião Garcês O Contra-Almirante Sebastião Maria Cardoso Pinto Garcês nasceu em São Lázaro e São José (Braga) a 3/5/1851, filho do Conselheiro General Belchior José Garcês e de D. Ana Carlota Pinto Cardoso, e sobrinho do Conde de Vinhais. Foi Cavaleiro e Grande Oficial de São Bento de Avis. Primeira página do testamento feito em 26/3/1816 por D. Quitéria Paulina de Sousa, proprietária da primitiva Casa do Vale do Mezio. Coleção particular de D. Cecília Soares de Moura.

Assentou praça a 19/3/1874 como Aspirante a Guarda-Marinha. Promovido a 2º Tenente da Armada a 12/2/1880, a 1º Tenente a 18/6/1887 e a Capitão-Tenente a 14 de Novembro do mesmo ano. A 20/5/1903 tornouse Capitão de Fragata e em 4/4/1905 foi condecorado com a Medalha Militar de Comportamento Exemplar e a 8 de Novembro desse ano com a Medalha de Socorros a Náufragos. A 20/12/1910 reformou-se como ContraAlmirante. Casou com D. Maria Adelaide de Sousa Castro Neves Pinto Garcês e faleceu a 29/3/1918 na sua Casa de Vale do Mezio, que mandou construir, sendo sepultado no cemitério de Nevogilde4 . 4

D. Maria Adelaide de Sousa Castro Neves, primeira senhora da Casa do Vale do Mezio. Data desconhecida. Coleção particular de D. Cecília Soares de Moura.

74 | Vida Social

Jornal de Lousada, 31/3/1918, p. 2; 7/4/1918, p. 2, e 9/1/1921, p. 1.

Sebastião Pinto Garcês, em datas desconhecidas. Fonte: Coleção particular de D. Cecília Soares de Moura.


Coronel Soares de Moura O Coronel Augusto Cândido Pinto Coelho Soares de Moura, filho do Dr. Augusto Pinto Coelho Soares de Moura e de D. Maria Alice de Castro Neves Pinto Garcês, nasceu a 28/9/1923, na Casa de Vale do Mezio. Ainda criança foi viver para a Casa da Lama, em Lodares, propriedade da família, onde faleceu a 11/2/2011. Frequentou a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e a Academia Militar, onde completou o curso de Aeronáutica. Serviu a Força Aérea durante 23 anos, e reformouse no Posto de Coronel. Em Angola, desempenhou uma decisiva ação militar na região do Negage e presidiu à Companhia de Madeiras de Cabinda.

Coronel Soares de Moura em data desconhecida e no dia do casamento com D. Maria Luísa, em 1953. Coleção particular de D. Cecília Soares de Moura.

Foi presidente do Grémio da Lavoura de Lousada e da Adega Cooperativa, e professor no Colégio Eça de Queirós, para além de escritor e historiador, publicando importantes obras sobre a História de Lousada (Pelouro da Cultura, 2002: 57).

Poder Local

Da Junta de Paróquia à Junta de Freguesia

A

tualmente, não subsistem dúvidas acerca das diferenças entre freguesia e paróquia: embora, na esmagadora maioria dos casos, haja coincidência no território, a primeira assume um caráter civil, político e administrativo, e a segunda tem apenas uma dimensão eclesiástica. Mas nem sempre foi assim, tornando, por vezes, bastante difícil distinguir a ação de ambas. Aliás, as autoridades civis não dispunham de serviços distribuídos pelo país, tendo, por isso, de recorrer às estruturas paroquiais, nomeadamente para divulgação de leis ou lançamento de impostos novos, como a décima, pois, mesmo sem a intermediação dos párocos, a divisão paroquial estava mais consolidada e conhecida, “prática que, de resto, teria longa continuidade no Liberalismo, através do projeto, que acabou por triunfar, de integrar a estrutura eclesiástica paroquial no sistema político” (MONTEIRO, 1996: 45). Além disso, a partir do Concílio de Trento (1545-1563) os párocos assumiram a responsabilidade de maior controlo das populações, nomeadamente através de registos de batismos, casamentos e óbitos, organizando um corpo doutrinário que se consolidou e vulgarizou, dotado de instrumentos destinados a impô-lo à sociedade (MONTEIRO, 1996: 45).

Vida Social | 75


O triunfo do Liberalismo (1834) vai alterar substancialmente este quadro, quer pelo confisco dos bens da Igreja, quer pelos sucessivos reordenamentos político-administrativos, que, a nível local, tiveram igualmente expressão visível.

1838 O documento mais antigo existente na sede da Junta de Nevogilde refere-se ao primeiro dia de janeiro de 1838 quando a freguesia ainda integrava o concelho de Paredes, após a extinção, em 6/11/1836, do concelho de Aguiar de Sousa, ao qual pertencia. É dito que, pelo presidente da Junta anterior, cujo nome desconhecemos, foi dado ajuramento aos novos membros, que assim ficaram empossados. De entre as assinaturas, é possível reconhecer os seguintes nomes: João Barbosa de Melo (que assumiu a presidência), José Joaquim de Meireles, António Freire da Cruz Pinho de Queirós, António Nunes de Magalhães, Joaquim de Sousa Freire e João António de Sousa. Como o concelho de Lousada foi restaurado a 17/4/1838, a ata da sessão de novembro já atualizava a nova ordem administrativa.

O documento mais antigo relativo à Junta de Freguesia, de 1/1/1838, refere Nevogilde no concelho de Paredes (Actas 1/1/1838 a 23/7/1879).

João Barbosa de Melo Professor particular e Regedor, faleceu a 24/6/1844 com cerca de 64 anos1 . Era casado com D. Matilde Rosa de Oliveira e morador no lugar de Aido Monte2.

1 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226285 47 tif (consulta a 23/11/2016). 2 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226254 29 tif (consulta a 24/2/2017).

Casa de Aido Monte1 . 1 http://casa.trovit.pt/listing/quinta.P1M1F1ln1bBk (consulta a 28/2/2017).

76 | Vida Social


1839 Presidente: José Joaquim Lopes. Vogais: José Ribeiro Camelo, João Moreira e João Ribeiro de Meireles. 1840 Presidente: José Joaquim Lopes, 1841 Presidente: João Barbosa de Melo. 1844-1846 A Lei de 29/10/1840 e o Código Administrativo de 1842 estabelecem que as Juntas são obrigatoriamente presididas pelo pároco. Presidente: Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira3.Vogais: António Machado de Meireles Brandão Lobo e Manuel Nunes da Caselha. 1847-1849 Presidente: Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira. Vogais: Bacharel Dâmaso de Barbosa Silva e Lemos4 e Joaquim Pinto de Barros. 1850-1852 Presidente: Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira. Vogais: Joaquim Pinto de Barros e Manuel Albino Pacheco. 1853-1857 Presidente: Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira. 1858-1860 Presidente: Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira. Vogais: Manuel Moreira de Sousa e Manuel Albino Pacheco. 1860-1862 Presidente: Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira. Vogais: João António de Sousa e Joaquim Pinto de Barros. Cf. notas biográficas em “Párocos”. Senhor da Casa do Carreiro de Cima, casado com D. Maria Emília Freire Pinto de Lemos (Jornal de Lousada, 9/9/1917, p. 2).

1862-1864 Presidente: Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira. Vogais: João António de Sousa e Joaquim Pinto de Barros. 1865-1867 Presidente: Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira.Vogais: Luís Pinto de Almeida Soares e Dâmaso de Barbosa Silva e Lemos. 1870-1871 Presidente: Pe. Manuel Ventura Martins Ferreira. Vogais: Manuel Albino Pacheco Cordeiro e José Mendes de Vasconcelos Aranha Pinto Ribeiro. 1875-1877 Presidente: Pe. Manuel Marques da Cunha5. Vogais: António Barbosa de Melo e João António de Sousa. 1878-1880 O Código Administrativo de 1878 estabelece novas responsabilidades para as Juntas, e a escolha do seu presidente passou a ser livre. Presidente: Pedro Lobo Machado de Sousa Meireles6. Vogais: Bernardino Duarte de Magalhães (que durante 70 dias a partir de 12/9/1880 substituiu o presidente, a pedido deste), Marcelino Barbosa de Melo (depois provisoriamente substituído por Joaquim Alves dos Santos), João da Rocha e Sousa e Manuel Ribeiro Meireles. 1880-1882 Presidente: Pedro Lobo Machado de Sousa Meireles. Vogais: Bernardino Duarte de Magalhães, Marcelino Barbosa de Melo, José António de Oliveira e António Francisco Dias. 1882-1886 Presidente: Luís Pinto de Almeida Soares. Vogais: João António de Sousa, Marcelino Barbosa de Melo e António Francisco Dias.

3 4

5 6

Cf. notas biográficas em “Párocos”. Cf. notas biográficas em “Casa do Carreiro de Cima”.

Vida Social | 77


Luís Pinto de Almeida Soares Gavião, nasceu em Alentém (Lousada) a 17/6/1812, filho de Martinho Faria de Andrade Castelo Branco Ribeiro e de D. Maria Antónia Inácia de Almeida Soares Gavião. Capitão-Mor do Unhão e Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, foi senhor da Casa de Barrimau, que comprou em 1833 (FREITAS, 1979: 46). Casou com D. Mariana Júlia de Sousa Freire Peixoto de Vilas Boas, da Casa da Ribeira, a 1854, em Cristelos (NÓBREGA, 1999: 166-169). Faleceu a 7/9/1888, no Porto, onde foi sepultado, sendo transladado para Nevogilde a 29/4/1895.

Justino Loureiro Chamava-se Justino José Rodrigues Loureiro e exerceu o cargo de escrivão da Junta em 1882. Nascido a 7/4/1863 em Castanheira (Paredes de Coura), foi tabelião em Rio Maior e em Lousada. Aqui lançou o jornal “O Louzadense” (1885), de que foi administrador, e correspondente do “Commercio de Penafiel”7. Regressado à sua terra, foi também escrivão e benemérito. Militante do Partido Regenerador, sofreu várias perseguições políticas. Faleceu a 22/11/19278.

de Coura). Coleção particular do Prof. Luís Ângelo Fernandes.

Commercio de Penafiel: 20/6/1885, p. 2, e 11/7/1885, p. 3. http://couramagazine.blogs.sapo.pt/arquivo/857909.html (consulta a 6/6/2016).

1887-1889 Presidente: João da Rocha e Sousa. Vogais: António Francisco Ribeiro e João Barbosa de Melo.

1893-1896 Presidente: António Francisco Ribeiro. Vogais: Belmiro Francisco Dias e António da Mota Machado.

1889-1890 Presidente: João da Rocha e Sousa. Vogais: António Francisco Ribeiro e João Barbosa de Melo.

1896-1908 O Código Administrativo de 1896 recoloca os párocos nas presidências das Juntas de Paróquia. Presidente: Pe. Joaquim Loureiro da Cruz10. Vogais: Belmiro Francisco Dias e Justino Ferreira Alves (substituído a partir de 25/1/1902, por razões de saúde, por António Ferreira).

7

Jazigo de Justino Loureiro no cemitério de Castanheira (Paredes

1890-1893 Presidente: Pe. Joaquim Gomes Pacheco de Carvalho9. Vogais: Manuel Ribeiro de Meireles e António Pereira do Lago. Como o pároco transitou para Pias a partir de 13/3/1892, Manuel Ribeiro de Meireles substituiu-o na presidência, entrando para vogal Francisco Alves dos Santos. 9

Cf. notas biográficas em “Párocos”.

78 | Vida Social

8

1908-1910 Presidente: Pe. Joaquim Loureiro da Cruz. Vogais: Alberto Moreira da Silva Lobo e José Francisco Dias. 10

Cf. notas biográficas em “Párocos”.


1911-1913 Com a Implantação da República, e a retirada de poderes aos párocos, foi sufragado um novo elenco. Presidente: Manuel Joaquim Camelo. Vogais: Cipriano Afonso Sistelo, Domingos Ferreira da Silva, José Carlos Ribeiro de Sousa e António Nogueira Quintela. O presidente a partir de 6/7/1911 interrompeu o mandato por razões de saúde, sendo substituído por Cipriano Afonso Sistelo. Manuel Joaquim Camelo, residente em Lagoas, teve uma brilhante carreira militar, aposentado na patente de Major. Em 1907, em Paços de Ferreira, celebrou-se uma Missa sufragando a alma dos militares portugueses, que ele acolitou em uniforme de gala, em cujo peito brilhava uma constelação de condecorações pelos serviços à pátria, sendo muito cumprimentado no final da cerimónia11 .

1913-1917 É neste período que a designação de “Junta de Paróquia” é substituída por Junta de Freguesia” (decreto de 23/6/1916). Presidente: Alberto Moreira da Silva Lobo. Vogais:António Francisco Ribeiro (que a partir de 13/2/1916 assumiu a presidência por falecimento do presidente), Agostinho Belmiro Dias, António Justino de Meireles e José Ferreira de Magalhães. Nascido a 16/12/1862 em Gondalães (Paredes)12, Alberto Moreira da Silva Lobo, filho de Joaquim Moreira Lobo e de D. Maria Coelho da Silva, faleceu a 6/2/1916, com 53 anos de idade, na sua Casa do Carvalhal13, quando era Presidente da Junta. Proprietário e cidadão bastante estimado, deixou viúva D. Luísa Moreira de Meireles e nove filhos, oito dos quais menores14 .

Luís Pinto de Almeida Soares Peixoto de Lencastre nasceu em Paredes a 7/12/1889, filho de Cristóvão Almeida Soares Peixoto e de D. Laura Augusta Malheiro de Almeida e Lencastre. Casou em Nevogilde, em 1927, com D. Joaquina Moreira Lobo e faleceu a 27/1/1942 na Casa de Barrimau, de que era senhor (FREITAS, 1979: 47).

Luís Lencastre. Coleção particular de D. Augusta Lopes.

1918-1919 Como a Junta foi dissolvida pelo Governo, procedeu-se a nova eleição em 17 de março. Presidente: José Joaquim da Cunha. Vogais: Francisco Duarte de Magalhães e Manuel Lopes Freire. José Joaquim da Cunha, nasceu em Pias (Lousada) a 4/9/1871, filho de Joaquim José da Cunha e de D. Maria Rosa da Conceição15. Residente em Lagoas, foi professor primário e casado com D. Adelaide Meireles da Cunha. Faleceu em 10/5/195416.

1918 Presidente: Luís Pinto de Almeida Lencastre. Vogais: José Joaquim da Cunha e Augusto da Silva Moreira. Jornal de Lousada, 13/10/1907, p. 2. http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=819994 11 tif (pesquisa a 20/10/2017). 13 Arq. da Paróquia de São Veríssimo de Nevogilde, Livro de Óbitos de 1916. 14 Jornal de Lousada, 13/2/1916, p. 2. 11 12

Prof. José Joaquim da Cunha. Arq. da EB de Campo. http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226416 24 TIF (consulta em 5/3/2017). 16 Jornal de Lousada, 15/5/1954, p. 2. 15

Vida Social | 79


1919-1922 Presidente: Luís Pinto de Almeida Lencastre. Vogais: José Joaquim Nunes "Rolindo" (que a partir de 26/9/1920 assumiu a liderança devido à demissão do presidente por não residir na freguesia), José Joaquim da Cunha e Augusto da Silva Moreira. José Joaquim Nunes “Rolindo” nasceu em Lagoas a 20/10/1856, filho de Joaquim Nunes e de D. Luísa Maria. Faleceu a 6/6/193617.

1923-1925 Presidente: Pedro Lobo Machado de Sousa Meireles.Vogais: Belmiro Francisco Dias, Tomás Augusto Pinto de Barros, Manuel Magalhães e Américo Moreira Lobo. 1926 Presidente: Tomás Augusto Pinto de Barros18. Vogais: Américo Moreira Lobo, António Martins e Ligardo Ferreira. Eleito em janeiro, o executivo foi dissolvido em julho devido à instauração da Ditadura, o que levou o presidente a lavrar um vivo e enérgico protesto pelo facto de a medida ser “uma violência contra as regalias populares”, no que foi secundado por todos os pares, terminando a sessão com vivas à pátria e à República. 1926-1927 Em 26 de agosto era empossada pelo Administrador do Concelho, Tenente António da Cunha, o seguinte elenco: Presidente: Salvador José Rodrigues. Vogais: António Nunes Teixeira e António Teixeira de Morais. A 1/5/1927 o presidente resignou por motivos de saúde, sendo substituído por Domingos Ferreira da Silva por ser o vogal mais velho.

17 18

Arq. da Paróquia de São Veríssimo de Nevogilde, Livro de Óbitos de 1936. Cf. notas biográficas em “Professores Míticos”.

80 | Vida Social

Salvador José Rodrigues nasceu a 28/3/1864, filho de Bento Rodrigues (natural de Tangil, Monção) e de D. Justina de Sousa Freire, residentes em Lagoas19. Foi Regedor e faleceu na Casa da Ponte, na margem esquerda do Mezio20, a 20/10/194121 . Domingos Ferreira da Silva “Rolindo” nasceu a 28/3/1884 no lugar do Vale, filho de José Ferreira da Silva e de D. Ana de Sousa Pacheco22. Carpinteiro de profissão, exerceu também o cargo de Regedor. Casou com D. Libânia de Jesus e faleceu a 25/10/195523.

1928-1929 Presidente: Luís Pinto de Almeida Lencastre. Vogais: José Joaquim da Cunha e António Nunes Ribeiro. Em 29/10/1929 o presidente demitiu-se alegando razões de saúde, sendo acompanhando pelos restantes membros. 1930-1931 Presidente: Domingos Ferreira da Silva. Vogais: José Ferreira e João Moreira dos Santos. O elenco demitiu-se a 30/6/1931 em solidariedade com a Câmara Municipal, liderada pelo Dr. Afonso Quintela, que havia sido exonerada pelo Governo. 1931-1935 Presidente: Luís Pinto de Almeida Lencastre. Vogais: José Joaquim da Cunha e Manuel Magalhães.

http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226254 6 TIF (consulta a 24/2/2017). 20 Inf. de José Pacheco. 21 Jornal de Lousada, 25/10/1941, p. 2. 22 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226258 5 TIF (consulta a 22/1/2016). 23 Arq. da Paróquia de São Veríssimo de Nevogilde, Livro de Óbitos de 1955. 19


1936-1945 Presidente: Gabino Moreira Lobo. Vogais: Justino Barbosa da Silva e Joaquim Moreira. Gabino Moreira Lobo, filho de Alberto Moreira da Silva Lobo e de D. Luísa Moreira Meireles, solteiro, era proprietário e residente na Casa do Carvalhal.

António de Freitas Barbosa nasceu em Penafiel a 2/12/1911 (VASCONCELOS, 2016: 131), filho de Antero Barbosa e de D. Maria Alves de Freitas. Industrial de panificação, casou a primeira vez com D. Emília de Jesus Magalhães Sistelo, de quem enviuvou, casando a segunda vez com D. Etelvina Sabença Soares24 . Faleceu a 21/2/1981. 24

Inf. de Rosinha da Covilhão.

António Freitas Barbosa. Coleção particular de Rosinha da Covilhão. Casa do Carvalhal em 2008 (agora em ruínas). Coleção particular do Prof. Luís Ângelo Fernandes.

1946-1959 Presidente: Gabino Moreira Lobo. Vogais: Joaquim Moreira e Abel Freire de Sousa Lopes.

1963-1971 Presidente: Júlio de Sousa. Secretário: Joaquim da Silva Campos (substituído em 1971 por José Ferreira da Silva). Tesoureiro: Américo Ferreira. Júlio Sousa nasceu a 24/2/1918 em Vila Boa de Quires (Marco de Canaveses), filho de José de Sousa e de D. Maria do Carmo. Comerciante com estabelecimento de mercearia no lugar da Lama, foi também agente de seguros e avaliador de propriedades. Casou com D. Clara Odete Vanzeler e faleceu a 4/5/2004.

Orçamento da Junta de Freguesia de 1946. Arq. da Junta de Freguesia de Nevogilde.

1960-1962 Presidente: António de Freitas Barbosa. Vogais: Adriano Barbosa da Mota e António Coelho de Bessa.

Júlio Sousa. Coleção particular da Prof.ª D. Dina Sousa.

Vida Social | 81


1972-1974 Presidente: José Belmiro Dias. Secretário: José Moreira da Silva. Tesoureiro: Bernardino Pinto Nunes. José Belmiro Dias nasceu a 9/12/1923, filho de Domingos Belmiro Dias e de D. Júlia Duarte Magalhães. Presidente da Junta em dois períodos (1972-74 e 1986-89), foi também presidente da Cooperativa Agrícola de Lousada. Faleceu a 19/10/1990.

1976-1979 Com a chegada do poder local democrático, as autarquias dispuseram de mais condições para investimentos, porque, até essa altura, as dificuldades eram acentuadas, inviabilizando qualquer projeto de envergadura. Em resultado das primeiras eleições, a lista do Partido Social Democrata (PSD) conquistou a maioria. Presidente: Francisco Ferreira. Secretário: António Dias Ferreira. Tesoureiro: José Augusto Rocha Martins. Francisco Ferreira, nascido na Casa das Vinhas a 22/10/1917, era filho de Francisco Ferreira e de D. Maria da Apresentação. Casou com D. Maria Martins e faleceu a 17/7/2001.

José Belmiro Dias. Coleção particular de António Belmiro Dias.

1974-1976 Devido à Revolução do “25 de Abril”, foi designada uma Comissão Administrativa a partir de dezembro de 1974. Presidente: Joaquim Moreira da Silva. Secretário: Manuel Nunes Sousa. Tesoureiro: Américo Freire de Sousa Lopes. Joaquim Moreira da Silva (Cunha) nasceu em Louredo (Paredes) a 4/12/1935, filho de Manuel Pereira da Silva e de D. Cândida Moreira. Industrial de mobiliário, casou com D. Júlia Quintela.

Joaquim Moreira da Silva (Cunha). Coleção particular de Joaquim Moreira da Silva (Cunha).

82 | Vida Social

Francisco Ferreira. Coleção particular de José Martins Ferreira.

1979-1982 Saiu vencedora das eleições a lista da Aliança Democrática (AD)25. Presidente: Francisco Ferreira. Secretário: António Dias Ferreira (substituído em 1983 por António Cândido Xavier Andrade). Tesoureiro: José Augusto Rocha Martins, substituído a partir de 1980 por Carlos Ribeiro Morais. 1982-1985 Triunfou novamente a lista da AD. Presidente: Francisco Ferreira. Secretário: António Cândido Xavier Andrade. Tesoureiro: Carlos Ribeiro Morais. Coligação eleitoral formada pelo Partido Social Democrata, Centro Democrático Social e Partido Popular Monárquico.

25


1986-1989 O partido vencedor foi o PSD. Presidente: José Belmiro Dias. Secretário: José Alberto Santos Ferreira. Tesoureiro: José Rodrigues, que se demite em 1986 sendo substituído por Arnaldo da Mota Sousa Dias, que por sua vez se demite em 1989, e substituído por José Maria Bessa. 1990-2001 A lista do PSD conquistou novamente a freguesia. Presidente: José Luís Magalhães Pacheco. Secretário: José Alberto Santos Ferreira. Tesoureiro: Arnaldo da Mota Sousa Dias.

2013-2017 A coligação PSD-CDS reconquista a Junta de Freguesia. Presidente: José Martins Ferreira. Secretário: Bruno Miguel Pereira da Silva. Tesoureiro: António Belmiro Barbosa Leão Dias. José Martins Ferreira, nascido no lugar de Poças a 15/12/1949, é filho de Francisco Ferreira e de D. Maria Martins. Desempenha o cargo já exercido pelo seu pai. Industrial de serralharia, casou com D. Maria Celeste Ferreira da Silva.

José Luís Magalhães Pacheco nasceu a 15/10/1951, filho de Inácio de Sousa Pacheco e de D. Luísa Rosa de Magalhães. Industrial do ramo de mobiliário, foi também fundador e presidente da Associação de Solidariedade Social de Nevogilde. José Martins Ferreira. Coleção particular de José Martins Ferreira.

José Luís Pacheco. Coleção particular de José Luís Pacheco.

2002-2009 A coligação local do PSD com o Centro Democrático Social/Partido Popular (CDSPP) foi a mais sufragada. Presidente: José Luís Magalhães Pacheco. Secretário: José Alberto Santos Ferreira. Tesoureiro: Alexandrino Batista Ferreira. 2010-2013 Triunfou uma lista de Independentes. Presidente: José Luís Magalhães Pacheco. Secretário: Vítor Paulo da Costa Pereira. Tesoureiro: Alexandrino Batista Ferreira.

Vida Social | 83


Sede da Junta

O

processo de construção da Sede da Junta, uma das primeiras do concelho de Lousada, iniciou-se em 1982. Em 9 de junho o executivo presidido por Francisco Ferreira aprovava a aquisição de terreno para a ampliação do adro da capela da Senhora da Ajuda e trabalhos de terraplenagem, com reserva de fundos ou subsolo a Carlos da Costa Lima de Sousa Guedes1. O parecer para a construção do edifício seguiu a 12/7/1983 para a Assembleia de Freguesia, que o aprovou por unanimidade, enquanto as comissões de festas da Senhora da Ajuda de 1982 e 1983, entregaram donativos num total de 100 contos, e em agosto de 1984 o Ministério da Administração Interna atribuiu um subsídio de 1.500 contos2. Mas as obras vieram a conhecer grandes atrasos, referidos em julho de 1988 num ofício à Câmara, solicitando materiais e obras de eletricidade e pichelaria3. Ultrapassado o impasse, os trabalhos prosseguiram rapidamente, permitindo a realização da primeira sessão do executivo no novo local a 17/1/1989, facto consagrado na ata como um momento histórico para a freguesia. Era presidente José Belmiro Dias4.

Processo de construção da sede da Junta iniciou-se em 1982. Coleção particular de Carlos Mota. Actas de 1982 a 1993. Actas de 1982 a 1993. 3 Actas de 1982 a 1993. 4 Actas de 1982 a 1993. 1 2

84 | Vida Social


Regedores

Os regedores tinham nas freguesias as competências dos administradores do concelho, de quem dependiam, devendo garantir o cumprimento das leis e dos regulamentos, assim como o policiamento local. Para os auxiliarem tinham funcionários conhecidos por "cabos de polícia", também conhecidos por “cabos de ordem”. A partir de 1940 passaram a ser representantes dos presidentes das câmaras municipais e nomeados por estes, sendo bastante temidos. O cargo foi extinto com a revolução do 25 de Abril de 1974. Foi possível apurar o nome de alguns e os anos em que desempenharam funções em Nevogilde.

1838: Prof. João Barbosa de Melo.

1918: Domingos Ferreira da Silva

1841: José Joaquim Lopes.

1926: Manuel Magalhães

De (pelo menos) 1862 a 1879: António Ferreira da Silva

1930: Cipriano Afonso Sistelo

1879: António Barbosa de Melo

1931-1935: João Moreira dos Santos

Cerca de 1885: Augusto Rocha de Sousa Carneiro

1969-1974: António Ferreira Marques

1907: Alfredo Baptista de Freitas 1908: Salvador José Rodrigues e José Belmiro Dias

Juízes da Paz

O Juiz da Paz, figura com grande tradição em Portugal, tinha por função tentar obter a conciliação entre partes desavindas. Pela Carta Constitucional de 1826 não poderia ser iniciado qualquer processo litigioso sem a sua prévia tentativa de conciliação. Nem todas as freguesias os possuíam, mas sabe-se que Nevogilde constituía um Círculo. Manuel Albino Pacheco, da Casa das Vinhas, era Vereador Fiscal (1848-1850), e em 1864 o Círculo era presidido por José Teles Meneses Pinto Sousa de Meireles (MIGUÉIS, 2003: 50), que foi novamento indigitado em 18781.

1 Commercio de Penafiel, 20/2/1878, p. 3.

Vida Social | 85


Saúde e Assistência

Quando os linhos eram doença...

N

o século XIX, as doenças eram muitas, e poucas as condições de higiene, afetando sobretudo os mais pobres e indefesos. A mortalidade infantil, elevadíssima, espalhava angústia e desespero. Bastará dizer que, em apenas 10 anos, entre 1849 e 1859, morreram na freguesia 75 menores1. Mesmo no século XX, o cemitério apresentava um canteiro só para crianças, os chamados “anjinhos”. Em 1884 registavam-se casos de cólera devido à colocação dos linhos no rio, pouco caudaloso, e por as estendas se alongarem até muito perto das povoações2. Poucos anos depois, em 1900, a gripe (à época chamada “influenza”) ia grassando com intensidade no concelho3, enquanto em 1901 surgiram vários casos de meningite, que vitimaram, nomeadamente, um rapaz de 21 anos de Lagoas, enquanto uma rapariga de 18 anos se encontrava em estado desesperado4. Já em dezembro de 1905 houve uma epidemia de varíola em Nespereira, onde “a higiene naqueles casebres é pouca ou nenhuma”5. A varíola preta e branca, em 1907 e 1908, prosseguia “de forma assustadora” em todo o concelho havendo casas onde todos os familiares se encontravam infetados6. Em 1901 surgiram no concelho vários casos de meningite, que vitimaram, nomeadamente, um rapaz de 21 anos de Lagoas, enquanto uma rapariga de 18 anos se encontrava em estado desesperado7. Outra maleita que afetou muitas pessoas na região era a doença do sono8, que, em 28/6/1907 conhecia um caso extremo. Um lavrador de Bustelo veio a Lagoas trazer uma pipa de vinho num carro de bois, acompanhado da sobrinha de 20 anos. No regresso, já de noite, a rapariga subiu para o carro, enquanto o tio ia à soga com os bois. Daí a pouco, ambos dormiam. Já em Souto (Lodares), caiu a chavelha, desprendendo-se o carro do jugo dos animais. Nem com o solavanco pela queda da cabeçalha os fez despertar: a rapariga ficou no carro a dormir, enquanto o tio prosseguiu, também a dormir, à frente dos animais. Já estava a grande distância quando a rapariga acordou.Vendo-se só e transida de medo, gritou, acudindo alguns moradores do local, que fizeram também acordar o tio, que assim regressou à retaguarda9. Tempos de extrema dificuldade, de pobreza e exploração, que só muito lentamente foram ultrapassados. Mesmo assim, há bem poucos anos, era habitual o recurso a “endireitas”, como a Miquinhas “Sendoa” e, mais tarde, a Ludovina Ferreira da Silva “Bazula” (31/10/1914-11/3/2001), ambas de Lagoas10, habilidosas que procuravam solucionar problemas no aparelho locomotor. Em 1987, no edifício da Casa do Povo, entrava em funcionamento a Farmácia Amândio, sob a direção técnica do Dr. Amândio Ilídio da Silva Barbosa. http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226285 (consulta a 12/10/2016). Commercio de Penafiel, 30/7/1884, p. 2. 3 Commercio de Penafiel, 7/4/1900, p. 3. 4 Commercio de Penafiel, 16/3/1901, p. 3. 5 Commercio de Penafiel, 6/12/1905, p. 3. 6 Commercio de Penafiel: 7/3/1908, p. 3, e 11/3/1908, p. 3. 7 Commercio de Penafiel, 16/3/1901, p. 3. 8 “O Penafidelense”, nº 4006, de 1/10/1909, p. 3: “O dr. Laveran afirmou dia 28 na Academia de Medicina de Paris que o emético Anitina dava excelentes resultados na cura da doença do somno”. 9 Commercio de Penafiel, 3/7/1907, p. 2. 10 Inf. de José Martins Nunes. 1 2

86 | Vida Social


Bininha “Bazula”. Coleção particular de Alberto Pereira.

Edifício da Casa do Povo, onde também chegou a morar a Miquinhas ''Sendoa''. Arq. da EB de Campo.

Dr. Manuel da Silva Brás Médico-dentista, nascido em Angeiras (Matosinhos), filho de Manuel da Silva Brás e de D. Albina Rosa de Oliveira, foi diretor clínico do Hospital de Lousada e vice-presidente da assembleia geral da Associação Desportiva de Lousada. Em setembro de 1951 abriu consultório na sua casa, no lugar da Ponte. A notícia foi muito saudada porque até ali a população “só podia acorrer a médicos de longe, o que, devido aos meios de transporte, muito agravava o preço da visita”11 . Casou com D. Maria da Glória Pinto de Barros e faleceu com 86 anos em 27/11/1997. Em 2002 a Câmara atribuiu-lhe, a título póstumo, a Medalha de Prata de Mérito Municipal. 11

Jornal de Lousada, 22/9/1951, p. 3.

Dr. Manuel da Silva Brás. Arq. da EB de Campo.

Casa do Povo Designava-se “Casa do Povo de Nespereira”, foi fundada em 1973 por iniciativa de António Basílio Carneiro Leão (18961979, da Casa do Cáscere), começou por funcionar junto ao apeadeiro, mas cerca de cinco anos depois transferiu-se para Lagoas ocupando um edifício mais espaçoso, contíguo à casa do Ferrador12. Para ali se dirigiam os trabalhadores agrícolas das freguesias limítrofes a fim de tratarem assuntos de previdência social e terem assistência médica, beneficiando do regime conferido desde 1933, integrando a organização corporativa do trabalho rural durante o Estado Novo. A partir de 1982 as casas do povo mudaram de estatuto e muitas tornaram-se associações de solidariedade social e cultural, mas a de Nespereira manteve o funcionamento anterior durante cerca de oito anos, dissolvendo-se em 1990. A extinção do posto médico foi comunicada à Junta em maio de 1989, e confirmada apesar da argumentação da autarquia.

12

Inf. de José Nunes.

Vida Social | 87


Medicina e farmácia popular

Quando não havia assistência médica nem farmácias, o povo encontrou maneiras de combater as doenças. São remédios caseiros, ainda hoje usados com sucesso, embora também possam ter efeitos secundários. PLANTA

EFEITOS CURATIVOS

Abóbora

As pevides combatem a bicha solitária.

Agrião

Suaviza a pele.

Alecrim

Desinflama e relaxa.

Alho

Um dente de alho no olho ajuda a curar o terçolho.

Carvalho

Ajuda a curar as frieiras. Os bugalhos reduzidos a pó servem de talco

Cebola

Chá de cascas de cebola com mel combate a constipação.

Cerejeira

Chá de pés de cereja combate as cólicas da bexiga.

Alho

Um dente de alho no olho ajuda a curar o terçolho.

Dedaleira

Cicatrizante e ajuda o coração.

Eucalipto

Inalar vapor de água quente com as suas folhas combate a tosse, catarro e rouquidão. Esfregando uma zona inchada do corpo com água quente, folhas de eucalipto e sabão rosa é anti-inflamatório.

Feto

Elimina os parasitas dos intestinos.

Funcho

Chá é bom para o estômago.

Hera

Cicatriza e alivia as dores.

Hipericão

O chá é bom para o fígado.

Hortelã mourisca

O chá ajuda a combater as lombrigas.

Laranjeira

Com as suas folhas faz-se chá para a tosse e constipações.

Limoeiro

O chá com as suas cascas e adoçado com mel combate as constipações.

Linho

As sementes (linhaça) aliviam irritações do aparelho digestivo. Aquecidas e aplicadas numa zona do corpo inchada, são anti-inflamatório.

Loureiro

Chá de folhas facilita a digestão e alivia as dores reumáticas.

Milho

Chá com barbas de milho combate as dores de barriga.

Nogueira

Chá de cacas de noz combate a tosse.

Oliveira

O seu chá é aconselhado para baixar a tensão arterial.

Salsa

É diurética (aumenta a produção de urina).

88 | Vida Social

Tília

O chá é relaxante.

Trevo

Contra a tosse e rouquidão.

Urtiga

Fustigado o corpo, combate a gripe.

Urze

Contra as infeções urinárias.

Videira

A uva é um contraveneno. Espremida verde ataca a mordedura de abelhas e vespas.


Ensalmos

O povo, devido à sua fé religiosa, acreditava que, rezando certas fórmulas e com determinados procedimentos, conseguia a cura de algumas enfermidades. A estas orações rituais, mágicas e religiosas, damos o nome de ensalmos, a que muita gente também chama “talhar”. Nem todos sabiam fazer os responsos. Por isso, em cada terra havia “especialistas” para rogar aos santos proteção e alívio.

Talhar a dor de cabeça

Talhar as aftas na boca/lábios

Deus te fez

Estrelinha lá de alguém

Deus te criou

tira estas aftas que este/a menino/a tem.

Deus te tire o mal

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo

Que contigo entrou.

Ámen. É pelo poder de Deus e de São Paulo,

Talhar o bicho

São Tiago, São João, São Silvestre

Eu te talho aranha, aranhão

e Jesus Cristo verdadeiro mestre

Sapo, sapão, cobra, cobrão

tudo o que lhe talho tudo lhe presto.

Toda a qualidade de bicho

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Que anda de rastos pelo chão

Ámen.

Em louvor de São Julião,

Rezar o Pai Nosso e Ave-Maria.

Que emagreças e que apodreças.

Fazer e dizer o sinal da cruz.

Talhar o bicho (variante)

Talhar aftas (variante)

Eu que te talhe bicho bichão

Estrelinha do além talha-me esta afta que a minha

cobra cobrão

boca tem.

sapo sapão bicho de qualquer nação

Talhar aftas (variante)

seco sejas tu

Estrelinha do lado de além,

como este carvão.

sare as aftas que esta menina tem, pelo poder de Deus da Virgem Maria, São Pedro, São Paulo, São Silvestre, E Jesus Cristo que é o verdadeiro mestre.

Vida Social | 89


Talhar a Erisipela1

Benzedura da dor de cabeça

“Pedro e Paulo foram a Roma, Jesus Cristo

Benzemo-nos em cruz e dizemos:

encontraram e Ele lhes perguntou: “– Que vai pela

“Pelo sinal da Santa Cruz

vossa terra?” E eles Lhe responderam: “– Ó Senhor

livre-nos Deus Nosso Senhor dos nossos inimigos

muita doença e muita zipela e muita gente more dela”.

em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo

Em louvor São Pedro e São Paulo, apóstolo São Tiago,

Amen

e milagroso São Silvestre, tudo o que eu faço, tudo

(Nome da pessoa), eu te benzo da dor de cabeça que

preste.”

tens

É talhada nove vezes cada dia, durante três dias

ou dos maus olhos que para ti olharam

seguidos.

ou vento ou sol, ou o mau tempo que por ti passou. Diz-se três ou cinco vezes. Põe-se água numa tigelinha e

Talhar o trasorelho

três ou cinco gotas de azeite e dois pauzinhos em cruz.

Coloca-se um jugo dos bois no cachaço do paciente e

Se o azeite espalhar é porque temos mau-olhado.

reza-se três vezes: Trasorelho, sai-te daqui

Benzedura da dor de barriga

Que vem vaca ou boi sobre ti

Jesus que é o Santo nome de Jesus

Em louvor de São Silvestre

onde está o Santo nome de Jesus não entra mal

O que eu fizer tudo preste

nenhum.

Nosso Senhor Jesus Cristo

Quando a Nossa Senhora pelo mundo andava

É o verdadeiro mestre.

chegou a casa de um homem manso

A seguir reza-se uma Ave Maria, Pai Nosso e uma

e de uma mulher brava,

Glória.

pedindo-lhes pousada.

O jugo é depois colocado sobre um boi ou uma vaca e ao

O homem dava e a mulher não.

doente envolve-se o pescoço com uma lã de ovelha por

Onde Nossa Senhora se foi deitar

lavar.

água por baixo e água por cima com estas mesmas palavras

Benzedura contra o mau-olhado

cura a dor de barriga

Linda estrela da manhã,

em louvor de Deus e da Virgem Maria

Que por aqui ando guiada,

Padre Nosso e Avé Maria.

É a toda a hora do dia

Esta oração diz-se nove vezes num dia

E a pino do meio-dia. Maus olhos me não possam ver. Pai Nosso. Ave-Maria.

1 Infeção da pele que ataca sobretudo os membros inferiores, provocando febre, dores de cabeça e vómitos. O povo chamava-lhe “zipela”.

90 | Vida Social


Vida Escolar

O longo caminho da Educação

E

m 1 de julho de 1862 a Junta da Paróquia reuniu-se para reivindicar a criação do ensino primário na freguesia, cuja ausência era considerada muito grave por afetar um elevado número de crianças, quase todas muito pobres. A escola mais próxima situava-se na Vila, para onde teriam de caminhar 5km por maus e perigosos caminhos, que ficavam intransitáveis no inverno, sobretudo devido às enchentes do rio Mezio. Deste modo, era proposta a criação de quatro salas, duas para cada sexo, havendo na altura 76 rapazes com idades entre os 7 e os 14 anos, e 57 meninas1. O pedido seguiu para o Rei D. Luís, Governador Civil do Porto e Administrador do Concelho, mas o processo prolongou-se por vários anos, vindo finalmente a ser criada por decreto de 8/1/1868 e apenas para o sexo feminino, no lugar da Afreita2.

Ata de 1/7/1879 da Junta de Freguesia, argumentando a necessidade de criação de uma escola primária.

Os problemas não terminaram, pois arrastou-se o atraso no pagamento da renda, que, em 1876, já totalizava 36 mil réis acumulados desde 18723, obrigando a Junta ao lançamento de uma derrama no valor de 20% da contribuição predial, industrial e pessoal. A localização, mais tarde referenciada “junto ao monte do Cabo”, era criticada por ser numa das extremidades da povoação, dificultando a frequência das crianças da própria freguesia, de 1

Actas 1/1/1838 a 23/7/1879, fl. 13.

Actas 1/1/1838 a 23/7/1879, fls. 18v e 19. 3 Actas 5/2/1875 a 31/5/1896, fl. 4. 2

Vida Social | 91


Jornal de Lousada, 6/8/1911, p. 3.

Casais e Nespereira, para a qual estava também vocacionada. A Junta defendia, assim, em 1877, a sua transferência para uma zona mais central, no lugar de Lagoas, equidistante das três freguesias, mandatando o vogal António Ferreira da Silva para encontrar o edifício mais adequado4. O lugar foi mesmo criado em Lagoas, mas entretanto subsistia o problema do pagamento da renda, novamente sentido em 18795, ficando orçamentados nove mil réis para o segundo semestre daquele ano6. Outra questão sobreveio em 1880: o Dr. Manuel Albino Pacheco Cordeiro, da Casa das Vinhas, solicitou que a Junta Geral do Distrito reprovasse o orçamento apresentado nesse ano pela Junta da Paróquia por nele não constar a verba da aquisição de mobiliário, que ele próprio teria desembolsado. No entanto, a Junta da Paróquia não só não reconheceu a dívida por não existirem quaisquer documentos comprovativos, como ainda referiu que Manuel Albino se apropriou indevidamente da mobília, levando o senhor da Casa da Jusam, José Pinto de Sousa Freire Malheiro, a comprar e oferecer mobiliário novo7. Em junho de 1881 o executivo tomou conhecimento da portaria que o obrigava a assumir os encargos da casa, mobília e biblioteca da escola, e deliberou por isso consignar 3% do orçamento para a construção de um edifício de raiz, ponderando, também, a possibilidade de uma das freguesias vizinhas se associar ao investimento8. Se em 1883 temos registo do funcionamento de uma escola feminina em Lagoas (MOURA, 2009a: 236), sabemos, também que em 1890 é feito o arrendamento da casa por D. Albina Peixoto de Sousa Freire, senhora da Quinta da Tapada9. Em 1901 a Junta solicitou à Câmara a criação de um lugar do sexo masculino, prevendo a frequência de cerca de 40 alunos10. Desta vez o mobiliário ficaria resolvido com o produto das vendas das sepulturas do cemitério, entretanto construído. Em 1902 é aprovada a criação das escolas masculinas de Lagoas e de Nevogilde11, e o funcionamento terá decorrido com normalidade, ao ponto de em 1911 os resultados dos exames gerarem muita satisfação, sendo sublinhado o trabalho dos professores Joaquim da Costa Machado e D. Maria Nazaré Luís Moreira dos Santos. Em 1914 foi mobilizado um professor e criado um curso noturno, que, no entanto, não registou qualquer frequência12. Actas 1/1/1838 a 23/7/1879, fls. 20 e 20v. Actas 1/1/1838 a 23/7/1879, fl. 25v. 6 Actas 1/1/1838 a 23/7/1879, fl. 25v. 7 Actas de 7/2/1875 a 31/5/1896, fls. 16v-17. 8 Actas de 7/2/1875 a 31/5/1896, fl. 25. 9 Actas de 7/2/1875 a 31/5/1896, fl. 59v. 10 Actas 10/2/1901 a 26/5/1905, fl. 9v. 11 Commercio de Penafiel, 18/6/1902, p. 2. 12 O Radical, 7/1/1915, p. 1. 4 5

92 | Vida Social


Festa da Árvore Foi muito animado o dia 9 de março de 1913: a turma feminina, dirigida pela Prof.ª Nazaré Moreira dos Santos, deslocouse à escola masculina, orientada pelo Prof. Joaquim da Costa Machado, ao som do Hino Nacional, interpretado pela Banda de Lousada. Já com a presença de figuras gradas da terra, e novamente ao som do Hino Nacional, da Maria da Fonte e do Hino das Árvores, seguiram todos em cortejo para o largo da Senhora da Ajuda, onde plantaram seis árvores13. Cada um dos cerca de 90 alunos levava uma bandeirinha nacional oferecida por Joaquim Teles Júnior, fiscal dos Impostos, enquanto o Major Manuel Joaquim Camelo orientou a parte recreativa, que, no final, decorreu na escola masculina14 . No entanto, em 1956, uma notícia percorreu a freguesia: estas mesmas árvores iriam ser cortadas, “vão cair, feridas pelo golpe de aço, sem têmpera, aço estúpido e rombo, com dentes mal feitos como os dentes da navalha dos contrabandistas da Virtude da Glória”15.

Em 15/7/1921 terminaram as provas finais dos alunos da 5.ª classe, sendo concedido “Diploma de Estudos” a Guilherme Alves Pais, Mário Virgínio Teles de Meneses e Elvira Cura de Sousa Correia16. A 9/6/1935 a Junta propunha a criação de um posto de ensino primário para o sexo feminino no lugar da Boavista, uma vez que a escola oficial se encontrava bastante afastada17. Solicitava, igualmente, que a regência fosse confiada a D. Júlia da Glória Moreira Lobo, da Casa do Carvalhal, e dispunha-se ainda a assegurar instalações e mobiliário. O certo é que nos princípios de março de 1937 entrava em funcionamento um posto móvel feminino em Penedo de Cima, com a regência de D. Justina Duarte Neto e a frequência de 20 alunas, sendo ainda anunciada a criação de uma escola particular no lugar do Carreiro, regida por D. Maria Engrácia Moreira Lobo, da Casa do Carvalhal18. Em 1938 estava colocado o Prof. Albano Morais que, transferido para Lodares, foi substituído nesse ano pelo Prof. Amândio Augusto Claro Sequeira19. Em 1940 registamos a docência do Prof. Joaquim da Costa Machado, e, na escola feminina, da Prof.ª Margarida de Sousa Magalhães20.

Jornal de Lousada, 16/3/1913, p. 2. Jornal de Lousada, 16/3/1913, p. 2. Jornal de Lousada, 17/1/1956, p. 2. 16 Jornal de Lousada, 24/7/1921, p. 2. 17 Actas 27/1/1923 a 22/12/1935, fl. 93v. 18 Jornal de Lousada, 6/3/1937, p. 2. 19 Jornal de Lousada, 29/10/1938, p. 2. 20 Jornal de Lousada, 10/8/1940, p. 3. 13 14 15

No rés-do-chão do n.º 271 da Rua da Padaria funcionou a escola feminina de Nevogilde. Arq. da EB de Campo.

Vida Social | 93


Tivemos de esperar até 1947 para o “Jornal de Lousada” referir que iria ser construído um edifício do Plano dos Centenários “num pendor de um outeiro barrento e corado”, permitindo, finalmente, ao Prof. Joaquim da Costa Machado, que sempre tinha trabalhado “numa sala escura, e de há anos mais acanhada”, encontrar “prévia alegria só de saber que a sua terra adoptiva progride no caminho da instrução”21. “A adjudicação da construção de um edifício escolar gémeo, de quatro salas, duas para cada género, data de outubro de 1947, com um custo de 207.609,84 escudos” (TEIXEIRA, 2016: 192). A obra decorreu rapidamente, sendo inaugurada a 1/10/1948, ficando o estabelecimento oficialmente conhecido por Lagoas n.º 1 para se distinguir de Lagoas n.º 2 que funcionava em casa particular na zona de Lagoas.

Antiga escola primária de Nevogilde. Arq. da EB de Campo.

Jornal de Lousada, 9/10/1948, p. 1.

Volvidos dois anos, registavam-se vários problemas devido ao desnível entre o logradouro e o caminho público a nascente, originando enxurradas para o caminho e terrenos circundantes, enquanto a falta de vedação facilitava a entrada de estranhos para jogar futebol22. Em outubro 1949 ficou colocado o Prof. António Afonso Sistelo, proveniente de Carvalhosa (Paços de Ferreira). Devido à pouca frequência, a escola feminina de Lagoas perdeu o lugar de professora, substituída por uma regente23. A 13/10/1952 entrava em funções o Prof. Luís Pinto da Silva24. No mês seguinte, devido à partida para Angola do Prof. António Afonso Sistelo, era nomeada a Prof.ª Maria Ester de Vasconcelos Lopes, de Lagares (Penafiel)25. O novo Centro Escolar entrou em funcionamento em setembro de 2008.

Jornal de Lousada, 2/8/1947, p. 1. Jornal de Lousada, 29/2/1951, p. 3. 23 Jornal de Lousada, 15/12/1951, p. 3. 24 Jornal de Lousada, 18/10/1952, p. 2. 25 Jornal de Lousada, 22/11/1952, p. 2. 21 22

94 | Vida Social


Em setembro de 2008 era inaugurado pelo Primeiro-ministro e Ministra da Educação o Centro Escolar de Campo. Coleção particular de Carlos Mota.

Escola de Lagoas O estabelecimento masculino de Lagoas funcionou no chamado edifício do “Talho de Lagoas”, onde exerceram, entre outros, António Sistelo e Tomás de Barros. Mais tarde transitou para outra casa de habitação, na atual Rua da Padaria, junto ao cruzeiro onde a procissão da festa da Senhora da Ajuda inverte a marcha, e, mais tarde, para outro edifício do mesmo proprietário, António Barbosa de Freitas, já na atual Rua dos Aidos, onde se manteve até à construção da nova escola, que entrou em funcionamento no ano letivo de 1991/92.

Jornal de Lousada, 6/8/1911, p. 3.

Turma da escola de Lagoas em 1986. Atrás: Anita Colaço, Prof.ª Dina Sousa e Aurora. De pé: Fátima Teixeira, Manuela Dias, Sandra Silva, Cecília Sousa, Patrícia Ferreira, Ana Rita Mota, Emília Mendonça e Sílvia Cunha. Em baixo: Marco?, ?, Paulo Cunha, José Mendonça e Carlos. Coleção particular da Prof.ª Dina Sousa.

Vida Social | 95


Jardins de infância O primeiro estabelecimento de educação pré-escolar na freguesia abriu a 2/12/1992 na escola de Lagoas, tendo por educadora Maria Irene Rocha Silva Ferreira Pinto. A Câmara Municipal assegurou o funcionamento até junho de 1996, passando para a rede pública no início do ano letivo seguinte26. O jardim de infância de Campo começou por funcionar num anexo da antiga escola primária, transitando para o edifício de raiz que veio a integrar-se no Centro Escolar.

26

Inf. da Educadora Irene Pinto.

A Escola Básica e Secundária de Nevogilde abriu em setembro de 1997 e o Dr. Guilherme d’ Oliveira Martins regressou em 8/9/2000, já como Ministro da Educação, para inaugurar o pavilhão polidesportivo. O estabelecimento passou em 2002/2003 passou a sede do Agrupamento Vertical de Escolas de Lousada Oeste, agregando Nevogilde, Figueiras, Covas, Casais, Nespereira e Lodares, tendo sempre até agora como Diretora a Dr.ª Luísa Maria Oliveira Lopes. Arq. da Câmara Municipal de Lousada.

96 | Vida Social


Professores míticos

O

desenvolvimento educativo da freguesia deve-se ao investimento das autoridades públicas e ao empenhamento dos professores, educadoras, funcionárias e comissões de pais. Pelas nossas escolas já passaram centenas de docentes, mas alguns ficarão para sempre na história da Educação do concelho e, alguns, até, do país. Se José Joaquim da Cunha1, pai dos também professores José e Manuel 2 Meireles da Cunha , foi um destacado agente educativo, devemos também relembrar Joaquim Nunes R. Júnior, de Lagoas, a quem foi confiada a regência da escola de Mós (Silvares), quando da sua criação, em 19343. Mas outros tiveram uma ação pública mais notória. 1 2 3

Cf. pequena biografia em “Da Junta de Paróquia à Junta de Freguesia”. Jornal de Lousada, 13/10/1951, p. 3. Livro de Sessões de Câmara de Lousada: António Barreto de Almeida Soares Lencastre, p. 46.

Prof. Joaquim da Costa Machado Nasceu em Freamunde em 10/2/1876, filho de Justino da Costa Machado e de D. Vitória Ribeiro de Sousa Neves. Foi professor em Nevogilde, Lustosa, Casais, Lodares e Nespereira; Delegado Escolar; presidente do 1.º Sindicato Concelhio de Professores e condecorado com a Medalha de Cavaleiro da Ordem da Instrução Pública. Faleceu em Lagoas em 26/4/19554 .

Prof. Joaquim da Costa Machado1 . 1

4

Jornal de Lousada, 14/5/1955, p. 2.

Jornal de Lousada, 24/6/1950, p. 1.

Prof. António Sistelo António Afonso Sistelo, professor (e diretor) na escola de Nevogilde e mais tarde em Angola, para onde embarcou em novembro de 19525 e onde faleceu6, era filho de Luís Afonso Sistelo e de D. Delfina Rosa de Magalhães7. Foi condecorado com a Medalha de Cavaleiro de Instrução Pública, esteve ligado à equipa de futebol da União Desportiva da Tapada e fundou a Sociedade Columbófila de Lagoas (FERNANDES, 2015: 178). Casou com a Prof.ª D. Maria Luísa de Sousa, que em 1950 era destacada para Beire8.

Jornal de Lousada, 22/11/1952, p. 2. Inf. de Nelinho da Padaria. 7 Jornal de Lousada, 5/11/1955, p. 2. 8 Jornal de Lousada, 22/10/1949, p. 2. 5 6

Prof. António Sistelo. Arq. da UD Lagoas.

Vida Social | 97


Prof. Belmiro Xavier Nasceu em Lagoas em 30/6/1877, filho de Manuel Joaquim Xavier e de D. Francisca Nogueira de Sousa Freire. Foi padrinho o tio materno, o seminarista Belmiro Nogueira de Sousa Freire, que veio a ser pároco de Paço de Sousa9. Docente

muito

respeitado,

exerceu em Amarante e depois em Jornal "A Escola Primária".

Penafiel, onde foi Presidente do Sindicato dos Professores Primários do concelho e interveniente em

várias sessões oficiais10. Em Abril de 1903 procurou criar uma “Caixa Económica”, a fim de garantir a escolaridade às crianças pobres. Fundou o semanário “A Escola Primária”, que dirigiu e editou, saindo o primeiro número a 16/11/1911. Em 1909 escreveu o jornal “Educação Nacional”: “A sua carreira de educador é constelada de admiráveis traços que a tornam credora de fervorosos elogios. (…) anda sempre nas horas vagas a pensar como há de arranjar dinheiro para dar livros aos seus alunos pobres, como há de conseguil-o para vestir as criancinhas farrapozas ou quasi despidas, como finalmente lhes há de dar uma merenda no intervalo de descanço das aulas.”11 Casou com D. Maria Júlia Pereira Guedes, em Vila Chã do Marão (Amarante), a 24/11/1898, falecendo em Penafiel a 27/1/1954.

9

http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=122625 90 tif (consulta 30/11/2016). O Penafidelense, 9/3/1915, p. 2. Jornal de Lousada, 4/7/1909, p. 2.

10 11

Prof. Tomás de Barros De seu nome completo Tomás Augusto Pinto de Barros, nasceu em Ferreira (Paços de Ferreira) em 23/2/1892, filho de D. Josefina Augusta Pinto de Barros e enteado do Prof. Joaquim da Costa Machado. Em Coimbra, cursou o Liceu e a Escola Normal. Além de professor do ensino primário em várias escolas do concelho, foi autor de numerosas obras didáticas e manuais escolares, que tiveram múltiplas edições. Ficou conhecido como “O professor dos professores”. Além disso, fundou a Editora Educação Nacional, foi diretor do “Jornal de Lousada” e do jornal "Educação Nacional", e Presidente da Junta de Nevogilde e do Futebol Clube Lagoense. Prof. Tomás de Barros1

Faleceu em Lagoas a 30/12/1948 (RIBEIRO, 1999: 57).

1

98 | Vida Social

Jornal de Lousada, 8/1/1949, p. 1.


“História de Portugal”: uma das muitas obras de Tomás de Barros. Coleção particular do Prof. Luís Ângelo Fernandes.

Prof. José Meireles da Cunha Nascido em Nevogilde em 6/3/1907, filho do também Prof. José Joaquim Cunha e de D. Maria Adelaide Freire Meireles, radicou-se em Baltar, onde exerceu durante 40 anos, foi secretário dos Bombeiros Voluntários, correspondente de “O Comércio do Porto”, assinava com o pseudónimo “Zé do Muro” e encontra-se perpetuado na toponímia local. Condecorado com a Medalha da Ordem da Instrução Pública, faleceu em 4/7/1972 na Casa da Herdade, Rio de Moinhos (Penafiel), terra de sua esposa, Profª Maria Adelaide dos Santos Rocha, e onde se encontra sepultado12, deixando um legado cultural em letras, músicas e peças de teatro para as associações locais. O seu irmão, Manuel Meireles da Cunha (25/10/1909- 30/11/1985), igualmente

Prof. José Meireles da Cunha. Coleção particular da Dr.ª Adelaide Merino.

professor, exerceu na vila de Lousada13 e radicou-se em Paço de Sousa, onde foi dirigente dos Bombeiros Voluntários. Era casado com D. Maria Máxima Vieira Monteiro. 12 13

Jornal de Lousada, 24/7/1972, p. 2. Jornal de Lousada 1/11/1930, p. 2.

Prof. Amâncio Machado Causou muita tristeza o falecimento a 10/12/1957 do Prof. Amâncio Machado, filho de outro pedagogo distinto, Prof. Joaquim da Costa Machado. Lecionou em Lustosa, transitando depois para o Porto, onde foi sócio-gerente na importante Editora Educação Nacional, pertencente ao seu irmão, Adolfo. A modéstia levou-o a solicitar à família que o seu falecimento não fosse divulgado. Foi a sepultar no cemitério de Agramonte, no Porto, deixando viúva D. Gracinda Cunha Carvalho14 .

14

Jornal de Lousada, 14/1/1958, p. 1.

Prof. Amâncio Machado1 . 1

Jornal de Lousada, 14/1/1958, p. 1.

Vida Social | 99


Prof. Fernando Soares O Prof. Fernando Soares Gonçalves nasceu a 1/6/1925, na freguesia de S. Gonçalo – Amarante, filho de Manuel António Gonçalves e de D. Florentina Soares da Cunha. Após lecionar em Nevogilde, transitou para o Colégio de São José de Espinho15. Poeta e jornalista, foi colaborador do “Jornal de Lousada”, diretor do boletim da União Desportiva da Tapada”, de que saiu apenas um único número (FERNANDES, 2015: 78), correspondente em Portugal da “Revista Branca”, mensário de Arte e Literatura do Rio de Janeiro16, e colaborador do “Jornal de Notícias”, “A Bola” e de vários órgãos da imprensa regional. Casou em 8/9/1956, em Arcozelo (Barcelos), com a Prof.ª Maria Salomé Alves Pereira17, que chegou a exercer em Nespereira (Lousada), falecendo a 28/12/1998. Jornal de Lousada, 29/10/1955, p. 2. Jornal de Lousada, 26/3/1955, p. 3. 17 Jornal de Lousada, 29/9/1956, p. 2.

Prof. Fernando Soares1 .

15 16

Jornal de Lousada, 18/9/1954, p. 2.

100 | Vida Social

1

Jornal de Lousada, 18/9/1954, p. 2.


Prof. Albano Morais O Prof. Albano Frederico Morais da Silva nasceu em Penafiel em 11/7/1934. Além de professor do ensino primário e Delegado Escolar em Lousada (19401951), foi autor dos teatros de revista “Em vez de alhos, só bugalhos” e “Pé de Vento”, que obtiveram grande êxito no Salão dos Bombeiros. Chefe da Missão Cultural do Distrito do Porto e, muito mais tarde, Vereador e Adjunto da Câmara de Penafiel, deixou colaboração dispersa em vários jornais da região. Faleceu a 30/12/1993 (Pelouro do Património Cultural, 2002: 37). Prof. Albano Morais (Pelouro do Património Cultural, 2002: 37).

Prof. Luís Pinto da Silva Nascido em Lodares a 2/1/1928, filho de António Pereira da Silva e de D. Engrácia Alves da Silva, Luís Pinto da Silva foi professor do ensino primário e do Colégio Eça de Queirós (Lousada), e Subdelegado Escolar. Exerceu ainda os cargos de presidente interino da Câmara Municipal de Lousada, Vereador (1972-1974 e 1989-1993) e Presidente da Cooperativa Agrícola. Foi agraciado com Medalha de Prata de Mérito Municipal. Casado com a Profª Olívia Tavares Ferreira, que também exerceu em Lagoas, faleceu a 12/11/2010.

Prof. Luís Pinto da Silva. Coleção particular da Prof.ª Olívia Tavares Ferreira.

Vida Social | 101


ATIVIDADES ECONÓMICAS


Eira e beiral na Aldeia de Baixo. Arq. da EB de Campo.

A Terra e o trabalho

S

e o solo fértil do vale do rio Mezio permitiu a fixação de populações desde a Pré-história, a cultura castreja e a romanização, também alterou profundamente a paisagem, pelo que, hoje em dia, pouca resta das florestas originais, constituídas sobretudo por bosques de carvalho alvarinho (LOURENÇO, 2008: 47). Na verdade, “a procura de madeira para lenha, habitações, forjas e utensílios levou a uma degradação progressiva da floresta, e, já na Idade do Bronze (2.º milénio antes de Cristo), as populações devem ser-se fixado nos vales por serem mais produtivos” (LOURENÇO, 2008: 47). Cerca de um milénio depois, já na chamada Idade do Ferro, a ocupação incidiu principalmente nas zonas mais altas (cultura castreja) devido às guerras constantes, mas, com a romanização, o regresso aos vales permitiu a melhor exploração agrícola do solo. Os ecossistemas agrícolas recebem o nome de agrocenoses, desenvolvendo-se, na nossa região, em regime de minifúndio, com campos normalmente inferiores a um hectare e culturas variadas, nomeadamente “milho, batata, fenos, hortícolas e pomares, que promovem uma grande diversidade de paisagem rural, mas também de habitats”, permitindo albergar uma fauna diversificada: insetos (borboletas, besouros, percevejos, aranhas), animais insetívoros (pássaros, morcegos, musaranhos), por sua vez presas de outros, como corujas ou raposas (LOURENÇO, 2008: 62). Não podemos, também, esquecer a cultura do vinho e dos melões de casca de carvalho, muito típicos e sempre procurados, principalmente na festa da Senhora da Ajuda. Em 1897 foi tal a abundância que os preços, habitualmente elevados, foram bastante mais baixos em relação ao tamanho e à qualidade1. 1

O Commercio, 1/9/1897, p. 2.

104 | Atividades Económicas


Moinhos Os moinhos eram engenhos muito associados à exploração agrícola. Um dos mais conhecidos é o da Devesa, na margem esquerda do rio Mezio, em estado de abandono. Em frente, na margem direita, existe outro moinho em ruínas, de planta quadrangular, sendo possível ainda ver duas portas, apesar da vegetação. A água era captada no açude através de um canal de pedra (NUNES, 2008: 170-171).

Maqueta de moinho por José Carlos Rodrigues (encarregado de educação).

Pecuária A freguesia, durante muitos anos, também era conhecida por ser de criação e de negociantes de gado, principalmente de gado bovino. Ainda hoje existem vacarias, para além de muitas famílias criarem animais para consumo caseiro.

Mina de quartzo Uma mina de quartzo, contendo ouro, prata e outros minerais, no lugar de Barreiros, em terreno do Dr. António Marinho Falcão de Castro Morais, da Casa da Jusam, foi registada em 1907 na Câmara Municipal por Luís Gomes da Silva, do Porto2. Não houve mais notícias sobre esta exploração.

2

Jornal de Lousada: 15/12/1907, p. 2

Indústria A maioria da população está empregada, principalmente em fábricas de mobiliário e de confeções. Lousada é um concelho com muita indústria de confeção de vestuário, que emprega sobretudo mão de obra feminina, enquanto as várias fábricas e oficinas de mobiliário se explicam pela proximidade do concelho de Paços de Ferreira, conhecido por ser a capital do móvel.

Atividades Económicas | 105


Alfredo de Sousa Freire Alfredo Nogueira de Sousa Freire nasceu em Lagoas a 19/3/1858, filho de António Nogueira de Morais e de D. Maria Rosa de Sousa Freire. Foi seu padrinho de batismo José Felisberto de Magalhães, senhor da Casa de Vila Meã, Silvares (Lousada)3. Importante mestre de obras (responsável pelo restauro da capela da Senhora da Ajuda em 1909 e 1910), negociante e Regedor em Silvares e membro da Junta de Freguesia, recusando em 1913 o convite para vereador, era um grande bairrista e devotado a todas as causas de desenvolvimento local.4 . No dia do seu aniversário, em 1907, fundou a Associação de Socorros Mútuos Lousadenses, em defesa da classe operária5. Casou com D. Francisca Freire de Oliveira. A sua filha Laura casou com António Campos Alves, comerciante em Lousada, com estabelecimento na Rua de Santo António, no espaço do atual Centro Comercial Edinor. Faleceu a 29/3/1929 e foi sepultado em Silvares6.

Alfredo Nogueira de Sousa Freire. Coleção particular da Prof.ª Fátima Vieira.

3 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226252 144 tif (consulta a 9/3/2016). 4 Jornal de Lousada, 6/4/1929, p. 1. 5 Commercio de Penafiel, 24/3/1909, p. 3; Jornal de Lousada, 28/3/1910, p. 2; 6 Jornal de Lousada, 6/4/1929, pp. 1-2.

No ramo da panificação, a padaria de Lagoas é conhecida desde há muitos anos, dando nome a um dos arruamentos principais de acesso à freguesia. Tudo terá começado por iniciativa de Francisco Duarte de Magalhães (31/5/1901-9/5/1939), casado com D. Emília de Jesus Magalhães Sistelo7. Esta, depois de viúva a 30/5/1940, casou com António de Freitas Barbosa, natural de Penafiel, que a partir de 1940 assumiu a gerência (VASCONCELOS, 2016: 131)8.

7 8

Jornal de Lousada, 13/5/1939, p. 2. Jornal de Lousada, 25/4/1953, p. 3.

106 | Atividades Económicas

Francisco Duarte de Magalhães. Arq. da EB de Campo.


Alguns metros mais acima abriu em dezembro de 1927 um novo estabelecimento, por iniciativa de José Mendes Soares e Alfredo da Silva Neto9, cuja sociedade se dissolveu em 1935. Está ainda em atividade no mesmo local, mas, desde há longos anos, transitou para a gerência do “Nelinho da Padaria” (Manuel Duarte Magalhães, filho de Francisco Duarte Magalhães). Entretanto, em 7/4/1951 era criada uma sociedade entre Arnaldo João Azevedo Xavier, José Mendes Soares e José Dias de Andrade constituinte da Fábrica do Vale do Mezio, com sede em Lagoas, para a indústria e comércio de colas para carpinteiros10.

Comércio Jornal de Lousada, 15/3/1930, p. 1.

O comércio e os serviços têm ainda pouca expressão, estando a maioria situada na zona de Lagoas, onde existem vários estabelecimentos. A concentração naquele local não é de agora e tem explicação, associada ao cruzamento de duas importantes ligações rodoviárias. Por isso, já em 19/4/1919 abria junto à escola oficial o Talho Belmiro, de José Domingos Dias11, enquanto em janeiro de 1937 iniciava atividade o estabelecimento de mercearia, vinhos e cereais de António Ferreira Marques, filho de Anselmo Ferreira Marques, de Nespereira. Ficou depois conhecido por “Loja do Toninho Velho”12, cujo largo fronteiro foi, durante muitos anos, local de paragem dos transportes públicos.

Jornal de Lousada, 12/6/1921, p. 2.

Jornal de Lousada, 26/7/1930, p. 4.

Jornal de Lousada, 24/12/1927, p. 3. Jornal de Lousada, 12/5/1951, p. 3. 11 Jornal de Lousada, 13/4/1924, p. 1. 12 Jornal de Lousada, 16/1/1937, p. 2. 9

10

Atividades Económicas | 107


Américo Freire de Sousa Lopes (em cima) junto à sua mercearia no lugar da Boavista com os funcionários Joaquim Barros e Francisco Moreira no início da década de 1970. Coleção particular de D. Angelina Moreira.

Jornal de Lousada, 26/7/1930, p. 4.

108 | Atividades Económicas

O Heraldo, 17/12/1932, p. 3.

Jornal de Lousada, 17/6/1939, p. 2.


Feira da Senhora da Ajuda A feira mensal, sempre no dia 29, no largo da Senhora da Ajuda, começou a realizar-se a 29/3/1923 e desde logo foi “extraordinariamente concorrida de tudo, principalmente de gado bovino”, tendo-se feito inúmeras e ótimas transações, surpreendendo todos os negociantes, alguns deles vindos de longe13. No mês seguinte, por coincidir com um domingo, o programa foi valorizado com muito fogo e a presença da Banda de Lousada, para além de vários prémios no concurso pecuário: O sucesso foi imenso, com os espaços totalmente em redor da capela e nos caminhos e ruas próximas totalmente preenchidos de público, ouvindo-se o carrilhão da torre da capela da Senhora da Ajuda a timbrar festiva e harmoniosamente. “Os negociantes de gado bovino não tinham mãos a medir; na feira dos cevados um extraordinário movimento; na dos ovos e galinhas, nem se fala, vendo-se as carroças irem saindo à cunha. Ourives, padeiros, tendeiros, tamanqueiros, sapateiros, Jornal de Lousada, quinquilheiros, doceiros, etc., tudo vendia, tudo fazia 22/4/1923, p. 2. 14 negócio.” Para além da animação e da diversidade dos artigos transacionados, o jornal apresentava outras razões para a feira se consolidar: “local esplêndido, espaçoso, bem arborizado, muito próximo do caminho de ferro, e caprichosamente talhado para as exposições das diversas mercadorias, com ótimas mercearias e magníficas casas de pasto”15. Tratou-se, pois, de um arraial festivo, que, no entanto, teve curta duração, pois, volvidos escassos meses, não houve mais referências à sua existência. Jornal de Lousada, 1/4/1923, p. 2. Jornal de Lousada, 6/5/1923, p. 1. 15 Jornal de Lousada, 6/5/1923, p. 2. 13 14

Serviços O serviço de correios, em 1893, era assegurado na freguesia a partir de um posto existente na Vila, e em 1904 já existia um estabelecimento autónomo em Nevogilde (MOURA, 2009a: 271). O posto de Correios de Lagoas entrou em funcionamento a 20/5/191516, mas encerrou nos princípios de 1924, sob o argumento de ser mais económica a expedição de encomendas e correspondência com a condução das malas através do apeadeiro de Meinedo, o que suscitou o

16

Jornal de Lousada, 23/5/1915, p. 2.

Atividades Económicas | 109


descontentamento da população17.A situação veio a ser revertida em finais de 192518, quer devido à insistência das autoridades locais, quer pela criação, em abril de 1924, de um serviço de camioneta de passageiros entre a vila de Lousada e a estação de Penafiel19. Jornal de Lousada, 13/4/1924, p. 2. Jornal de Lousada, 12/12/1925, p. 1. 19 Jornal de Lousada, 13/4/1924, p. 2. 17 18

Jornal de Lousada, 9/10/1910, p. 3.

Artesanato Em tempos houve artesãos dos mais variados ofícios. O mais célebre foi o “Ferrador de Lagoas”, que não foi apenas um único mestre do ofício de ferrar cavalgaduras, mas um conjunto de artesãos que se prolongaram por várias gerações. Em setembro de 1920 falecia Manuel Laño20. Seguramente seria Manuel Ribeiro, falecido a 11/9/1920 com 35 anos de idade, natural de Margaride (Felgueiras), casado com D. Felicidade Pinto de Carvalho21. Um dos que prosseguiu a atividade foi António Barbosa de Pinho, nascido a 2/2/1901 e falecido a 10/2/1981, o último ferrador, cujo filho, António Adolfo, nascido a 26/3/1929, apesar de ter também aprendido a arte, faleceu primeiro que o pai, a 4/12/1978, deixando viúva D. Maria José Bento de Pinho. Manuel Teixeira Pinto, com oficina de alfaiate na vila de Lousada, declarava em 27/9/1884 que passava a assinar-se por Manuel Teixeira Canavial. Em 1887 assegurava serviços em Penafiel às segundas-feiras, no estabelecimento Sá Pereira. Natural de Nevogilde, filho de José Teixeira Pinto e de D. Emília Rosa de Jesus, faleceu em Silvares a 28/9/1892, com 39 anos22. Registo também para Augusto Carneiro da Rocha, com oficina de ourivesaria em 1900 (MOTA, 2015: 191). Outro conhecido artesão foi João Moreira dos Santos (4/9/1908-10/1/1986) que mostrou a competência na arte Jornal de Lousada, 26/9/1920, p. 2. Livro de Óbitos do Cartório da Paróquia de Nevogilde, 1922. 22 Commercio de Penafiel: 27/9/1884, p. 3; 1/10/1884, p. 3, e 20/8/1887, p. 3. 20 21

110 | Atividades Económicas

António Adolfo, um dos ferradores de Lagoas. Coleção particular de António Belmiro Dias.


de trabalhar o ferro23. O mesmo dizemos de Francisco Nunes Meireles, de Lagoas (atual Rua da Padaria), latoeiro, funileiro e picheleiro, fabricante de máquinas de sulfatar, bacias, canecas e outros utensílios domésticos e de lavoura24. Igualmente Francisco Morais (nascido em 1933), da Senhora da Ajuda, se notabilizou na sua oficina de tamancaria, confecionando manualmente socos, chancas, tamancos e carteiras em couro muito utilizadas pelos negociantes de gado, em prática aprendida com seu pai, Salvador Morais Pacheco25. Bernardino Bombeiro26, do Penedo de Cima, era bem conhecido nas redondezas no final do século XIX pela sua perícia na construção e instalação de noras, bombas de água, encanações ou engenhos de maçar linho, ofício que o seu filho, José Ribeiro da Silva (4/4/1889-30/8/194327), igualmente prosseguiu28, enquanto Alberto Moreira da Silva (10/10/1918-14/8/1993), morador no lugar da Costa, foi um habilidoso mestre canteiro, autor, entre outros trabalhos, da imagem da Senhora do Rosário junto à igreja de Novelas29.

Jornal de Lousada, 29/1/1922, p. 2.

Inf. de José Martins Nunes. Inf. de D. Alice Dâmaso. 25 Inf. da Educadora Felisbina Pacheco. 26 Natural de São Martinho, Penafiel, filho de António Francisco e de Maria Isabel. 27 http://pesquisa.adporto.pt/viewer?id=1226263 tif 8 (consulta a 23/1/2017). 28 Jornal de Lousada, 29/1/1922, p. 2. 29 Inf. de José Martins Nunes. 23 24

Atividades Económicas | 111


TEMPOS LIVRES


Celebrar a Vida

Festa da Senhora da Ajuda

A

festa da Senhora da Ajuda é o principal acontecimento da freguesia. Todos os anos, no último fim de semana de Agosto, acorrem milhares e milhares de pessoas, provenientes de todos os concelhos da região, elogiando a grandeza das festividades e apreciando o programa sempre muito atrativo. Já se realiza, pelo menos, desde 1758, mas nem sempre foi na mesma data. Nessa altura decorria até duas vezes por ano: a 25 de março e a 15 de agosto. Era organizada pela confraria e já era bastante participada. No entanto, a fixação no final de agosto deve datar de 1830, uma vez que as comemorações do centenário ocorreram em 19301. Em 1884 houve missa solene a grande instrumental, presidida pelo abade de Lodares, Pe. Manuel José Leite Pereira de Meireles, sermão pelo pároco local, Pe. Manuel Marques da Cunha, procissão, arraial, música filarmónica de Augusto Pereira, de Freamunde, oferecida por José Pinto de Sousa Freire Pitta Malheiro, da Casa da Jusam, e fogo do pirotécnico João José Ferreira2. 1 2

Jornal de Lousada, 30/8/1930, p. 2. Commercio de Penafiel, 23/8/1884, p. 3.

Também foi muito concorrida a festividade de 1899, com atos religiosos, arraial, variado fogo de artifício e concerto das bandas de Vizela e Paços de Ferreira. No ano seguinte, pregou o Pe. Loureiro da Cruz e atuaram as bandas de Lousada e de Paços de Ferreira e a tuna de Lagoas. Houve também bazar de prendas e tourada à vara larga3. Cantores, procissão e marcha luminosa são agora os mais importantes elementos de um programa que enche de orgulho toda a população. 3

Jornal de Lousada, 18/8/1907, p. 3.

114 | Tempos Livres

Commercio de Penafiel: 30/8/1899, p. 3.

Jornal de Lousada, 30/8/1930, p. 2.


Procissão da festa de 1983. Coleção particular de D. Angelina Moreira.

Cantor Anselmo Ralph (ao centro) na festa de 2015. Coleção particular de Carlos Mota.

Procissão da festa cerca de 1970. Alberto Pereira à frente do andor e o casal de pequenos juízes, entre eles José Dias Pereira. Coleção particular de Alberto Pereira.

Festa do Santo Amaro

A

festa em honra de Santo Amaro tem registos conhecidos desde 1758, realizando-se a 15 de Janeiro, participando bastante povo (MOURAb, 2009: 440) que acorria junto da imagem, na capela da Senhora da Ajuda. Ainda hoje é organizada pela Confraria. Em 1910 também se realizava a festa do Menino Deus, enquanto de 24 a 29 de junho de 1922 decorreram no lugar na Lama festejos com bombos, iluminação, fogo e cantares ao desafio1. Jornal de Lousada, 19/1/1908, p. 3

1

Jornal de Lousada, 11/6/1922, p. 1.

Jornal de Lousada, 16/1/1910, p. 2

Tempos Livres | 115


Cultura e Lazer

À

semelhança da larga maioria das localidades do país, a cultura nunca ocupou um lugar destacado em Nevogilde. Nos séculos passados, devido ao analfabetismo e ao atraso económico e social, para além de não haver muitos tempos livres – o trabalho agrícola era de sol a sol, com total ausência de direitos laborais e de proteção social –, o lazer resumia-se praticamente às tardes de domingo e às romarias, nas quais as danças e cantares tradicionais exprimiam a beleza e a alegria da alma popular. Um tema tratado noutra secção desta obra. A festa da Senhora da Ajuda de 1900 foi especialmente concorrida e conheceu um programa variado: concerto das bandas de Lousada e de Paços de Ferreira, atuação da tuna de Lagoas, bazar de prendas e tourada à vara larga1. Foi preciso esperar por meados do século XX para obtermos um registo de realização de uma peça de teatro. Aconteceu a 31 de maio e 1 de junho de 1952 no salão da União Desportiva da Tapada, com a representação do drama “Adão e Eva” pelo Grupo Cénico de Lagoas2. No mesmo local, pelo Carnaval de 1954, foi levado à cena “O Lubis Homem”, de Camilo Castelo Branco, por iniciativa do grupo “Os Bairristas de Lagoas”. Completou o programa o ato de revista “As regueifas são de cá”, intercalado com fados e guitarradas3. Em janeiro daquele ano tinha passado a companhia de teatro “Moiron”, de Lisboa4. Ainda em 1954 encontrava-se em atividade a Orquestra de Lagoas, que abrilhantou várias festividades, inclusive no cortejo para construção do monumento do Cristo Rei em Nogueira (Lousada)5. O panorama evoluiu substancialmente já no século XXI, nomeadamente com a realização de concertos na igreja e no salão paroquial, havendo a assinalar o Festival Harmos, que reúne os melhores músicos das melhores escolas superiores de música da Europa, a atuação dos Pequenos Cantores de Andorra em 8/7/2013, e, já em 2015, o concerto da Banda de Vila Boa de Quires e o Dia da Freguesia, este realizado no Largo e Avenida da Senhora da Ajuda com muitas atividades recreativas. Commercio de Penafiel, p. 15/8/1900, p. 3. Jornal de Lousada, 31/5/1952, p. 2. 3 Jornal de Lousada, 27/2/1954, p. 2. 4 Jornal de Lousada, 23/1/1954, p. 3. 5 Jornal de Lousada, 13/3/1954, p. 3. 1 2

116 | Tempos Livres

Jornal de Lousada, 15/12/1928, p. 2.

Coronel João Ferreira Nascido em Nevogilde a 25/4/1842, filho de Caetano José Ferreira e de Maria Rosa Ribeiro, foi proprietário e capitalista, emigrante em Pernambuco e elemento da Guarda Nacional do Brasil. A 26/7/1890 casou com D. Maria Amélia Peixoto Pereira, da Casa de Serradelo (Casais), freguesia onde faleceu a 18/9/19201 . 1

Jornal de Lousada, 19/9/1920, p. 2


Princípios de desmoralização “Há muito que aos domingos, de tarde, se presencia em algumas freguesias d’ este concelho certos jogos de cartas ao ar livre, nos caminhos. Pouco edificante é este passatempo que não raras vezes serve de exemplo para as creanças que d´elle se acercam pelas obscenidades que proferem desatenciosamente os jogadores. Alguns parochos, nomeadamente o rev.º Loureiro da Cruz, de Nevogilde, tem procurado reprimir e evitar taes liberdades mas vêem baldados os seus esforços. Ao digno e zeloso administrador deste concelho, o sr. dr. José Camillo, pedimos se digne expedir as necessárias ordens e providencias aos regedores seus subordinados para acabar com estes princípios de desmoralização.” (“Commercio de Penafiel”, 18/8/1900, p. 3)

Desportos

Do jogo do pau ao andebol

N

o ambiente aristocrático das casas senhoriais da freguesia, a caça era um passatempo marcante. Em 1884 decorreu uma caçada à lebre, promovida por José Pinto de Sousa Freire Pitta Malheiro, ficando hospedados na sua Casa da Jusam todos os caçadores, sendo servidas cem opíparas refeições1. No final do século XIX, princípios do século XX, era habitual o jogo do pau. No Campo do Sobreiro (antigo recinto de jogos, situado em terreno junto ao Apeadeiro), repleto de público, chegou a realizar-se em julho de 1934 um grande duelo entre António Quintela, de Nevogilde, e João Quinteiro, campeão do Norte (FERNANDES, 2015: 14). A modalidade perdeu importância desde a década de 1930, com as autoridades a proibirem a entrada de paus nas feiras e romarias para evitar lutas sangrentas, enquanto a saída de muitos homens para a cidade ou para o estrangeiro, e o aparecimento das armas de fogo, ajudaram também a tornar o jogo antiquado. 1

Commercio de Penafiel: 12/11/1884, p. 3.

Jogo do pau em 1910 na Casa do Cam. Arq. da Fotografia Orpheu.

Tempos Livres | 117


As atividades pré-desportivas das classes populares consistiam nos jogos tradicionais, como o partir o cântaro ou a subida ao pau ensebado. O primeiro constava de um cântaro de barro cheio de água, suspenso numa árvore, que o jogador, com os olhos vendados, tentava partir com um varapau. O segundo consistia em subir a um pau com cerca de três metros de altura, ensebado com gordura, a fim de alcançar os prémios colocados no topo: presunto, salpicões, regueifa ou uma garrafa de vinho. Havia ainda o jogo da malha e a corrida do galo à malha, que em 30/4/1950 decorreu junto ao estabelecimento de Joaquim da Silva Neto, em Lagoas2. A partir da década de 1930 começaram a enraizar-se na freguesia os programas desportivos, em grande parte devido à fundação do FC Lagoense e à construção do Campo do Sobreiro. Neste recinto decorreu a 20/5/1934 o primeiro torneio de Tiro aos Pratos disputado no concelho, constituindo um grande êxito: “viram-se muitas famílias da nossa melhor sociedade, deste e doutros concelhos, entre as quais avultava e se distinguia o elemento feminino, cujas «toilettes» vistosíssimas e vaporosas davam ao recinto um extraordinário tom de fidalguia e distinção”3. No mesmo local decorreu a 11/8/1935 uma gincana de automóveis, seguida de animada verbena. O ciclismo foi outra das modalidades que rapidamente se popularizou. A primeira prova realizou-se a 17/5/1908 numa volta a Lousada, passando por Lagoas4. Em 1930 uma tragédia traumatizou toda a comunidade. Nessa altura Nevogilde tinha um ciclista que, apesar dos seus 17 anos, era já muito considerado. Chamava-se António Ferreira da Silva “Rolindo” e era filho do Presidente da Junta. Em abril daquele ano participou numa prova em Lousada que terminou em tragédia, ao chocar com um automóvel em Várzea (Pias), morrendo no dia seguinte5. Ao longo dos anos, várias provas velocipédicas aqui ocorreram, nomeadamente na festa da Senhora da Ajuda, mas na reta de Lagoas já passou a Volta a Portugal e, na década de 1960, também na zona de Lagoas, realizou-se uma competição que deu a volta ao concelho e reuniu corredores da terra. Jornal de Lousada, 29/4/1950, p. 1. Jornal de Lousada, 16/5/1934, p. 2. 4 Jornal de Lousada, 10/5/1908, p. 3. 5 Jornal de Lousada: 19/4/1930. 2 3

Corrida de bicicletas em Lagoas, no início da década de 1960. Da esquerda para a direita: ?, ?., ?, Armando Bessa de Casais, António Lobão, Francisco Cristina e João Cristina (na missão de batedor). Coleção particular de António Cristina.

118 | Tempos Livres

Jornal de Lousada, 26/5/1934, p. 2.

Jornal de Lousada: 19/4/1930, p. 2.


Ribeiro da Silva No dia 9 de Abril de 1958, cerca das 19h00, deu-se um trágico acidente de viação no cruzamento de Lagoas. Ribeiro da Silva, que tinha 23 anos e era um grande ciclista, conduzia uma moto, chocou de frente com uma camioneta e teve morte quase imediata. No ano anterior foi o vencedor da Volta a Portugal. Tinha sido 4.º classificado na Volta à Espanha e venceu uma etapa no Tour de França. Por isso, a notícia do trágico acontecimento causou um grande choque e emocionou o país. O funeral estava repleto de gente. O corpo seguiu da morgue de Lousada num carro dos Bombeiros e foi a sepultar em Lordelo (Paredes), terra da sua naturalidade (RIBEIRO, 1999: 64).

Ribeiro da Silva. Arq. da Fundação A Lord.

A columbofilia também se afirmou através da Sociedade Columbófila de Lagoas, que, embora criada a 4/10/19506, já estava em atividade anteriormente. Sabe-se, por exemplo, que em abril desse mesmo ano obteve bons resultados com os amadores Carlos Nunes, Américo Brito, Manuel Brito, Antero Ferreira e João Moreira7. Manuel Brito, no concurso de Évora de 1952, também foi vencedor8. Mas, passado pouco tempo, o entusiasmo diminuiu e a coletividade que o Prof. António Sistelo tanto se empenhou acabou mesmo por desaparecer, sendo reativada em 1987 por iniciativa de Manuel Lopes Xavier. Possuía uma sede, na atual Rua do Apeadeiro, e ainda pensou em instalações próprias nas imediações, mas o projeto não vingou e o grupo cessou novamente atividade em 2002 (FERNANDES, 2015: 178-179).

Entrega de prémios na Sociedade Columbófila de Lagoas, na EB local, em 1998: Américo Martins, Mário Ribeiro (falecido), Manuel Lopes Xavier, Alexandrino Ferreira, Borges de Louredo e Fernando Nunes (Arq. da Sociedade Columbófila de Lagoas).

A freguesia conhece ainda importantes competidores nos desportos equestres. Manuel Fernandes foi jóquei revelação em 2011, venceu provas internacionais e representou Portugal no Campeonato Diário do Governo, 2.ª Série, 14/10/1950, p. 6020. JL, 12/4/1952, p. 2. 8 JL, 10/5/1952, p. 3. 6 7

Tempos Livres | 119


do Mundo de Jóqueis Aprendizes que decorreu nos Estados Unidos em 2015, e na final do mesmo campeonato, disputada no Dubai, país onde ainda se encontra (FERNANDES, 2015: 199). O jovem Dinis Ferreira, atualmente a competir em Espanha, já percorreu todos os hipódromos portugueses, arrecadando importantes vitórias, enquanto o seu pai, Fernando Ferreira, após uma carreira igualmente interessante, enveredou em 2006 pela variante de Trote Atrelado, marcando boa presença em muitas competições (FERNANDES, 2015: 199).

José Dias

Dinis Ferreira no Grande Prémio de Portugal em 2014. Coleção particular de Dinis Ferreira.

Nascido em Nevogilde a 22/10/1955, filho de José Dias e de D. Albertina Ferreira, José Fernando Ferreira Dias estreou-se como piloto em 1981, vencendo a prova do Campeonato Nacional de Velocidade, em Iniciados, na Serra das Meadas, em Lamego. Depois especializou-se na categoria de todo-o-terreno do autocrosse, com um veículo de duas rodas motrizes, por si construído. Pentacampeão nacional de autocrosse na década de 1990, conquistou também cinco títulos de ralicrosse, sempre com a marca Peugeot (FERNANDES, 2015: 128).

O motociclismo integrou o programa da festa da Senhora da Ajuda, a 27/8/2012. A romaria já conheceu outros desportos, como provas de ciclismo e jogos tradicionais. Coleção particular de Carlos Mota.

José Dias em 1997. Coleção particular do Dr. José Carlos Carvalheiras.

120 | Tempos Livres


Equipa do Nevogilde Andebol em 2012. Atrás: Ricardo (treinador adjunto), Renato, Henrique Sousa, Armando, Prof.ª Maria José Rocha, Leandro, Paulo Sousa, Horácio Sousa e Tiago (treinador adjunto). À frente: Rúben, Bruno Costa, Mauro, Bruno Leão, Zé Carlos e Rafael. Arq. da Escola Nevogilde Andebol.

Finalmente, o andebol. Tem a designação de “Escola Nevogilde Andebol” a equipa da Escola Básica e Secundária de Lousada Oeste, criada em 2009 pela Prof.ª Maria José Rocha, sendo o único clube do concelho em competições oficiais na modalidade.

Lagoense, Tapada e UD de Lagoas

O

futebol começou a ser praticado em Lagoas em 1931 pelo Futebol Clube Lagoense, dirigido por João Moreira dos Santos. O primeiro campo era junto à atual Rua da Padaria, entre o antigo Café Totobola e o cruzamento das “Machas”, passando depois para um terreno junto ao Apeadeiro: era o chamado Campo do Sobreiro, inaugurado em 29/10/1933 (FERNANDES, 2015: 70). Foi aqui que vieram jogar o Vitória de Guimarães e o FC Porto, na altura campeão nacional. O desafio entre o Vitória de Guimarães e o Sport Clube de Penafiel disputou-se a 9/5/1935 perante numerosa assistência. Os minhotos, treinados por António Augusto, ex-guarda-redes do Benfica, eram já uma equipa consagrada, tendo na baliza o guardião Ricoca, mas o Penafiel, contra todas as previsões, acabou por triunfar por 2-1. O jogo foi antecedido por um Lagoense-Guimarães (reservas), que os vimaranenses venceram por 3-1 e uma sessão protocolar, com Porto de Honra, discursos e muito fogo (FERNANDES, 2015: 72). A retribuição da equipa de Lagoas ocorreu a 16 de junho, num encontro recheado de peripécias e uma arbitragem considerada deplorável, a tal ponto de os próprios dirigentes vitorianos terem intervindo para que o guarda-redes Toneca, indevidamente expulso, regressasse ao jogo (FERNANDES, 2015: 72).

Jornal de Lousada, 8/6/1935, p. 3.

Tempos Livres | 121


A visita do FC Porto Outro facto histórico sucedeu a 8/9/1935: o FC Porto, campeão nacional, defrontou uma seleção regional, onde se integrava o guardião Oliveira, do Lagoense, que entrou na segunda parte. Venceram os portistas por 9-1. Mais tarde, foi construído novo campo de jogos, no local onde agora a UD Lagoas disputa os seus desafios, chegando a haver uma equipa a participar no campeonato da Associação de Futebol do Porto, em 1948: era a União Desportiva da Tapada, fundada por André Mayer (FERNANDES, 2015: 74). Mas só competiu durante cinco anos. Ainda hoje é recordada com muita saudade pelos mais antigos.

Construção do campo do Lagoas, na década de 1940. Coleção particular de Francisco Xavier.

Jornal de Lousada, 14/9/1935, p. 2.

Equipa da UD Tapada em finais da década de 1940. Em cima: Eduardo Xavier, Júlio Bombeiro, António Bessa “Carriço”, Manuel Quintela, Zé Viana, Toninho Novo e Henrique. Em baixo: Mayer, Joaquim Casimiro Soares, Manuel Afonso Sistelo, António Sistelo e Luís Sistelo. Arq. da UD Lagoas.

A UD de Lagoas, herdeira histórica dos dois clubes anteriores, disputa atualmente o campeonato da Associação de Futebol Amador de Lousada.

122 | Tempos Livres

Jornal de Lousada, 5/6/1948, p. 2.


Associação de Solidariedade Social

A

Associação de Solidariedade Social de Nevogilde foi fundada a 11/10/2007, registando atividades desportivas, sociais e culturais. No desporto, a equipa de futebol iniciou atividade regular em 2009, classificando-se logo em 2.º lugar no torneio de futebol amador de Lousada e vencendo a Taça D´Trivela, para, na temporada seguinte, conquistar o campeonato. Inscreveu-se nas competições oficiais da Associação de Futebol do Porto e subiu na época de estreia em 2014/2015. Disputa os desafios no chamado campo da Lameira, que lhe foi cedido em regime de comodato pela Câmara Municipal durante 25 anos. Dedica-se também ao futsal e organiza a Festa do Emigrante, com um desafio entre a equipa local e outra constituída por naturais da freguesia radicados no estrangeiro (FERNANDES, 2015: 316). Também já manteve em atividade o Rancho Folclórico Senhora da Ajuda e um grupo de bombos, entretanto constituídos em associações autónomas. Atuação do grupo de bombos em Lousada em 5/12/2009. Arq. da Câmara Municipal.

Equipa da Associação de Solidariedade Social que subiu à 2.ª Distrital da Associação de Futebol do Porto em 2014/2015. Atrás: Luis Morais (diretor), Paulo Mota, Pedro Bessa, Hugo Rasteiro, Keia, Sérgio Meireles, Emanuel Nunes, João Ribeiro, Manu, Ricardo, Luis Nunes (treinador adjunto) e Hélder Andrade (treinador). À frente: Leandro Leal, Miguel Nunes , João, Diogo Mota, Zé Carlos, Nélson Meireles, Chinês e Tinaia. Arq. do jornal TVS.

Tempos Livres | 123


A força do futebol Além das coletividades legalmente organizadas, foram surgindo grupos e equipas que ficaram na história do futebol da freguesia. São os casos dos Diabos Negros, na década de 1960, Piratas de Nevogilde, na década de 1970, e do Campelos, entre finais de 1990 e princípios da primeira década de 2000.

Diabos Negros, em finais dos anos 60: Sousa e Silva, Nelo Peixoto, Zequinha da Luísa, Ferreira Pinto, Alberto Barbosa e Toninho Leal. Em baixo: António Bernardo, Quim Sousa, Nelo Bicho, Afonso de Marlães e José Leal. Arq. de Alberto Barbosa.

Os “Piratas de Nevogilde”, em 1975: Amadeu, Cavém, Serrão, Zequinha da Luísa, Nelo Peixoto e Sousa e Silva. Em baixo: Panca, Maximino, Paula, Alexandre, Ernesto e José Dias. A equipa conseguiu vários êxitos em torneios de futebol popular. Coleção particular de Alexandrino Ferreira.

No entretanto, surgiram a equipa da Juventude, ligada ao Café Pomar de Achas (chegando a constituir-se em associação com o nome de Juventude Desportiva e Recreativa de Nevogilde em 16/6/1995), e o Grupo Desportivo de Campelos, do café homónimo da freguesia, que, em julho de 2003, conquistava o Torneio de Lagoas em Futebol de 7 e atingia a impressionante marca de 33 desafios sem perder, ponderando mesmo vir a constituir-se em associação1.

1

TVS, 10/7/2003, p. 18.

124 | Tempos Livres

Grupo Desportivo de Campelos. TVS, 10/7/2003, p. 18.


Tempos Livres | 125


COSTUMES E TRADIÇÕES


Rancho Folclórico da Senhora da Ajuda

T

udo terá começado em 1957 por iniciativa de António Bessa (29/9/1914-14/7/1993), motivando a população para a recuperação de danças e cantares tradicionais1. Com o apoio técnico de Rodrigo Fernandes (17/3/191125/11/1999, músico e compositor da Banda de Lousada) e do chamado Nequinha da Policarpa, ambos de Lousada, os ensaios arrancaram no lugar da Ponte, nos baixos da habitação para onde iria morar o Dr. Manuel da Silva Brás2. Assim nascia o Rancho Folclórico da Senhora da Ajuda, fundado a 6/6/1958. O sucesso foi grande e imediato, surgindo convites para atuações em vários pontos do país, sendo mesmo estudada a possibilidade de uma gravação, recebendo para o efeito, a 22/3/1959, a visita de Mário Afonso, do Rádio Clube Português, que terá ficado surpreendido com a qualidade apresentada3. Alguns números do reportório foram transmitidos naquela estação a 26 de junho4.

António Bessa. Coleção particular da Prof.ª Paula Silvestre.

Rodrigo Fernandes. Coleção particular do Prof. Luís Ângelo Fernandes.

Cartão de associado. Coleção particular de José Ribeiro.

No entanto, o início da guerra colonial, em 1961, mobilizando muitos jovens – o primeiro a embarcar para Angola foi José Martins Nunes, atualmente residente na Rua Visconde de Lousada, em Boavista (Nespereira) – e o acidente cardiovascular que incapacitou a mãe da dona da casa onde decorriam os ensaios esmoreceram a Inf. de José Martins Nunes. Inf. de José Martins Nunes. 3 Jornal de Lousada, 4/4/1959, p. 4. 4 Jornal de Lousada, 20/6/1959, p. 2. 1 2

128 | Costumes e Tradições


dinâmica. Mesmo assim, Pedro Homem de Mello, poeta e autor de letras de canções bem conhecidas, como “Povo que lavas no rio”, “Havemos de ir a Viana” e “O rapaz da camisola verde”, e um grande entusiasta do folclore, deslocou-se a Nevogilde a 21/10/1962 para apreciar o Rancho, comentando: “O povo do concelho de Lousada e sobretudo a freguesia de Nevogilde desconhecem o valor e a riqueza que este grupo representa dentro do folclore nacional5.” E ficou agendada uma atuação na RTP para o dia 4 de Dezembro. Meninas trajadas e com o estandarte ainda lançaram flores na receção ao então Presidente da República, Almirante Américo Tomás, na Casa da Bouça (Nogueira), a 3/7/1963, mas o caminho já era em declínio: os jovens na guerra e a falta de pares para as danças precipitaram o fim do grupo.

Felicidade Martins com o estandarte, ladeada por Lídia Bessa e Alice Dâmaso representando o Rancho na receção ao Presidente da República, Almirante Américo Tomás, na Casa da Bouça (Nogueira, Lousada), em 1963. Na fila da frente, reconhecem-se ainda Maria do Céu Coelho e Carolina Morais, à esquerda, e Maria José Teixeira, à direita. Coleção particular de D. Alice Dâmaso.

Persistiu, contudo, na memória coletiva, sendo motivo de saudade e de orgulho. E, em 2009, por iniciativa de José Luís Magalhães Pacheco, na altura presidente da Junta e da Associação de Solidariedade Social, veio mesmo a ser reativado, usando a antiga escola primária, no lugar do Campo, como local de ensaios. Reorganizou-se em 2012 ao constituir-se em associação própria a 22 de março desse ano e elegendo José Ribeiro como presidente da Direção6.

Rancho Folclórico em 2017. Arq. do Rancho Folclórico.

5 6

Jornal de Lousada, 27/10/1962, p. 2. Inf. de José Ribeiro.

Costumes e Tradições | 129


Entre o trabalho e a festa

A

s gentes de antigamente cantavam e dançavam em vários momentos da sua vida de trabalhos do campo, de lazer e a caminho das festas e romarias. Aos domingos de tarde, à sombra de um carvalho ou de uma árvore de grande porte, ou então no adro da igreja, dançavam sobretudo viras e malhões. Também era um bom pretexto a caminho das festas e romarias: Santa Águeda em Sousela, Senhora Aparecida, Santa Rita em Ermesinde, Santo Tirso de Meinedo, mas, principalmente, do Senhor da Pedra. Para além dos malhões e viras, havia também as “Marchas”: por exemplo “O Regadinho” e o “Senhor da Pedra”. Faziam-no ainda aos serões, somente alumiados com candeia a petróleo. A caminho das feiras ou no meio dos campos a trabalhar não se usava muito a dança, mas sim alguns cantares. As feiras eram quase só para os homens, e as mulheres que iam tinham trabalho importante: “chamar os bois” ou transportar à cabeça os géneros cultivados para venda. A trabalharem nos campos de sol a sol, nem olhavam para o lado… Que modas eram interpretadas? Malhões propriamente ditos e outros tipos de Malhões (Malhão da Nossa Terra, Malhão Roubado, Rusga,Verdegar ou Cana Verde) são mais domingueiros, e interpretados a caminho das festas, tornando assim o percurso mais curto e alegre. “O Verdegar” e a “Cana Verde” também eram executados nos finais dos trabalhos do campo. Viras, com inúmeras variantes, tanto musicais como na maneira de o dançar:“Vira do Linho”,“Vira Velho”, “Dobadoira “, etc. Marchas, do género malhões e viras, como “Regadinho” ou “Senhor da Pedra”. Chula, característica das vindimas, por ser cantada ao desafio. Saia Velhinha, dança de salão (valseada) interpretada pelos senhores da terra nos bailes dos solares da região. Os senhores ricos também gostavam de vir ao terreiro mostrar as suas danças, ou então os trabalhadores do campo viam e copiavam-nas. O Vira Vareiro e a Rabela do Douro vinham de outras paragens trazidas pelos romeiros. Assim se construiu o folclore da nossa terra. (Colaboração do Prof. Altino Magalhães) Malha na Quinta da Aldeia em 1972: Adelino Alves, Ludovina Barbosa Leão, Francisco Ferreira, Emília Dias, Delfina Ferreira, Elisa Dias, Lurdes Dias, Maria Dias e Domingos Belmiro Dias. Coleção particular de António Belmiro Dias.

130 | Costumes e Tradições


Canções

Algumas canções populares, interpretadas pelo Rancho de Nossa Senhora da Ajuda:

MARGARIDA MOLEIRA Ó Margarida moleira como se chama o teu homem Ai ai ai Chama-se batata assada Ai ai ai Que ele crua não a come.

NO ALTO DAQUELA SERRA No alto daquela serra Está um lenço Está um lenço a acenar Está dizendo viva viva Morra quem, morra quem Não sabe amar.

Ó Margarida moleira Dá-me da tua farinha Ai ai ai Que eu a quero peneirar Ai ai ai Com a nova peneirinha.

Ajoelha-te aos meus pés e reza Faz a tua oração Levanta-te e vem dançar Amor do meu coração.

Ó Margarida moleira Empresta-me o teu crescente Ai ai ai Que eu amanhã vou cozer Ai ai ai Vou fazer pão quente. Ó Margarida moleira Que é da outra Margarida Ai ai ai A outra ficou em casa Ai ai ai Com a espinhela caída.

No alto daquela serra Está um lenço Está um lenço de mil cores. Está dizendo viva, viva Morra quem Morra quem não tem amor.

REGADINHO Água leva o regadinho, água leva o regador enquanto rega e não rega, vou falar ao meu amor (e virou) Ó balancé balancé, balancé da neve pura (e troca o pé) Ó minha Salve Rainha, ó minha Virgem doçura. Vamos dar a meia volta, meia volta vamos dar Vamos dar a outra meia, adiante e troca o par. Água leva o regadinho, água leva e vai regar Enquanto rega e não rega, ao meu amor vou falar Vamos dar a meia volta… Água leva o regadinho, vai regar o alecrim Enquanto rega e não rega, vira-te pra mim Joaquim Vamos dar a meia volta… Água leva o regadinho pela minha porta abaixo Arregacei e caí e parti o fundo ao tacho Vamos dar a meia volta…

Lídia Bessa, Felicidade Martins e Alice Dâmaso, trajadas em 1963. Coleção particular de D. Alice Dâmaso.

Costumes e Tradições | 131


Poesia popular

O

povo sempre teve muita sensibilidade e poder criativo. De modo simples, conseguia exprimir amores, paixões, ensinamentos e até maldizer. Algumas destas quadras eram cantadas.

Se tu visses o que eu vi No largo de Guimarães Um barbeiro pequenino A fazer a barba aos cães.

Senhor Padre Manuel Faz faltinha aos meninos Que lhes ensinou a doutrina Na capela aos domingos.

A cana verde navega Navega e navega bem É como o rapaz solteiro Enquanto namoro não tem.

Na campa de São Francisco Estão flores amarelas São Francisco está no céu A pedir pelas donzelas.

Coração por coração Amor não troques o meu Olha que o meu coração Foi sempre leal ao teu.

Na campa de São Francisco Estão flores floradas São Francisco está no céu A pedir pelas casadas.

O meu amor coitadinho Cuida que eu o adoro Por me ver estar a chorar Deus sabe por quem eu choro.

Na campa de São Francisco Está um cachinho de uvas São Francisco está no céu A pedir pelas viúvas.

Menino que vai no barco Erga o pé que molha a meia Vá casar à sua terra Não case na terra alheia.

Ó morte tirana morte De ti tenho mil queixas Quem hás de levar não levas Quem hás de deixar não deixas.

A viola quer que eu cante A prima quer qu’ eu padeça O tocador de viola Quer que por ele endoideça. Estes mocinhos de agora São franguinhos de vintém Prometem dez réis às almas A ver se a barba lhes vem.

132 | Costumes e Tradições


Superstições

O

s espíritos malignos, o mau-olhado, a crença em rezas, defumadouros e benzeduras ajudavam a explicar muitos fenómenos. Nesta mentalidade entram também as superstições: situações casuais que as pessoas interpretavam como bom ou mau sinal. Uma criança não deve passar por baixo da mesa ou por baixo das pernas de ninguém porque pode não crescer. Ver um gato preto é sinal de azar. Quem matar um gato vê a sua vida andar sete anos para trás. Não se deve pôr dinheiro numa mesa onde haja pão. Dá sorte vestir por acaso uma peça de roupa do avesso. Ver passar uma aranha por cima da roupa é sinal de fortuna. Virar vinho na mesa significa alegria. Ouvir uma vareja é sinal de notícia ou visita. Se uma pessoa for muita chata e faladora e quisermos que ela se vá embora, pomos uma vassoura virada para cima atrás duma porta. As crianças não devem brincar com lume porque à noite podem urinar na cama. Se uma pessoa tem a orelha esquerda quente é porque alguém está dizer bem dela; se for a direita, estão a dizer mal. No dia 1 de março as crianças devem colocar uma fita vermelha no braço para não se crestarem. Se o 5.º filho for um rapaz deve receber o nome de Adão; se for rapariga, deve ser Eva. Quando alguém vai viver para uma casa nova, a primeira refeição deverá ser uma galinha preta. Se cantar uma coruja, alguém vai morrer. Chover no dia do casamento significa felicidade. Colocar uma ferradura na porta ajuda a afastar o mau-olhado.

Costumes e Tradições | 133


Um ano de fé e de vida

A

o longo do ano o povo cumpria certos usos e costumes, muitos deles ainda hoje bem presentes. É uma espécie de calendário rústico, quase sempre ligando a religião e a vida, com cada data aguardada com muita expectativa, para aliviar as agruras de um dia a dia feito de imensos sacrifícios.

JANEIRAS E REIS Depois do Natal e durante o mês de janeiro é habitual ouvirmos à noite belas melodias interpretadas por grupos de cantadores, anunciando o nascimento do Deus Menino e pedindo ajuda para determinada causa. “Santa Maria, Sant´Ana / São José, São Joaquim / Toda a Família Sagrada / Peça ao Senhor mim. // Cantemos, cantemos todos / ao Deus um hino / Cantemos, cantemos todos / Ao Deus Menino.”

Mascarados em 1978. Coleção particular de António Belmiro Dias.

Grupo de Janeiras da Comissão de Festas da Senhora da Ajuda em janeiro de 2017. Coleção particular de Bruno Cunha.

ENTRUDO A palavra “Entrudo” significa “entrada”. É a festa do “adeus à carne” (Carnaval) porque a seguir vem o tempo de jejum e de penitência. Os mascarados, também chamados “entruidos”, usavam disfarces feitos de roupas velhas, e carvão para enfarruscar a cara, podendo em alternativa meterem pela cabeça uma meia de vidro. Os brilhantes (pedacinhos de papel colorido) eram atirados às raparigas. Tudo isto provocava risotas, sustos e correrias.

QUARESMA O tempo quaresmal, que dura 40 dias, começa na Quarta-feira de Cinzas. O padre, na testa de cada um, fazia o sinal da cruz com cinza, dizendo: “Lembra-te homem que és pó e em pó te hás de tornar”. Às sextas-feiras não era permitido comer carne.

134 | Costumes e Tradições


SERRAGEM DA VELHA Era uma crítica às raparigas solteironas que ainda não tinham noivo. Uma boneca ficava dependurada num sítio onde todos vissem, e na quarta-feira da 3.ª semana da Quaresma os rapazes reuniam-se em procissão pela freguesia, fazendo ruído com tachos, panelas, gaitas e guizos. O cortejo acabava com o auto da serração da velha, em versos divertidos, e no fim, a boneca era queimada (FERNANDES, 2007: 122). DOMINGO DE RAMOS Neste Domingo, que marca o início da Semana Santa, todos iam à Missa com raminhos de oliveira, que o senhor abade benzia. Os adultos guardavam os ramos em casa para afastar a trovoada. Os mais novos iam nesse mesmo dia oferecê-lo aos padrinhos, que, no Dia de Páscoa, lhes darão o folar. PÁSCOA José Belmiro Dias, Juiz da Cruz em 1941. Atrás, o Pe. José Vieira Pinto. Coleção particular de António Belmiro Dias.

Visita Pascal de 2011: Nuno Garcês, Vítor Sousa, Henrique Sousa, Agostinho Magalhães, Toninho Magalhães, José Luís Ribeiro (Juiz da Cruz) e Manuel Fernando. Coleção particular do Prof. Luís Ângelo Fernandes. Jornal de Lousada, 30/4/1911, p. 2.

Costumes e Tradições | 135


1 DE ABRIL É o Dia dos Enganos. As pessoas pregavam partidas umas às outras com falsas informações. E o povo dizia: “No primeiro de abril, vai o tolo onde não deve ir”. AS MAIAS Na noite de 30 de abril para 1 de maio colocava-se giestas em flor à porta das casas para afastar o carrapato, associado ao mal e à doença. MÊS DE MARIA Durante o mês de maio há novenas e procissão de velas em honra da Virgem Maria. LIMPEZA DAS PRESAS Aproveitando todas as águas para regar os campos, os lavradores construíam represas, uma espécie de cova com pequenas paredes em pedra. No dia de São João (24 de junho) era habitual procederem à sua limpeza. Durante o ano, os consortes, ou seja, cada um dos lavradores, tinha direito à água em certo número de dias e a horas combinadas. COMUNHÕES A Primeira Comunhão e, sobretudo, a Comunhão Solene (Profissão de Fé) eram dias muito festivos, havendo mesmo ocasiões em que era contratada uma banda de música. VINDIMAS E DESFOLHADAS As colheitas eram muito aguardadas porque delas dependia a subsistência da população. Colher as uvas e esmagá-las no lagar e recolher as espigas para depois as descamisar, isto é, retirar-lhes as folhas, eram momentos muito importantes do ano agrícola. Quem encontrasse uma espiga de milho-rei (milho vermelho) ganhava o direito de abraçar todos os participantes. A animação concluía-se com cantares e bailaricos ao som da viola, concertina, cavaquinho, tambor e ferrinhos. FIÉIS DEFUNTOS Lembrar e homenagear os que já faleceram é uma prática habitual a 2 de novembro, com especial asseio das sepulturas e missas e orações pelo seu descanso eterno. Quando, ao longo do ano, alguém morre, os sinos tocam em “carreiras”, permitindo saber se é homem ou mulher. MAGUSTOS “Pelo São Martinho vai à adega e prova o vinho” é um ditado antigo. Castanhas assadas e vinho novo transformam cada magusto numa festa intensamente vivida. MATANÇA DO PORCO “Pelo São Martinho mata o teu porquinho”, diz outro provérbio. Não era apenas o sacrifício do porco, mas um dia transformado em autêntica boda. A carne seguia depois para a salgadeira ou para ser defumada, a fim de se manter conservada, servindo de alimento para todo o ano. NATAL Em ambiente de paz e de harmonia, o nascimento do Menino Jesus ainda hoje constitui um encontro de toda a família. Mantém-se a tradição dos presentes, mas perdeu-se a Missa do Galo, à meia-noite. No dia de Natal, de roupa nova, ia-se à igreja beijar o Menino.

136 | Costumes e Tradições


Gastronomia: Da Fome à Fartura

A

palavra “gastronomia” é de origem grega: “gastrós”, que significa “estômago”, mais “nomós”, que significa “leis” ou “normas”. Refere-se, portanto, às leis do estômago. No entanto, há outras definições mais modernas, mencionando os dicionários o conhecimento teórico e prático acerca da arte culinária, refeições apuradas ou prazer da mesa. Cada povo tem o seu modo próprio de preparar os alimentos, o que, aliado a tradições gastronómicas, nos encaminha para um património cultural muito específico e cada vez mais apreciado. Se recuarmos no tempo, encontramos nas terras húmidas de Entre Douro e Minho o milhomiúdo e o painço como base de uma alimentação que incluía também a castanha, chegando os castanheiros a ser conhecidos como “árvores do pão” por em épocas de penúria alimentar as castanhas substituírem o milho e até a batata. As classes pobres, as que sempre sofreram maiores privações, consumiam ainda frutas (peras, maçãs, cerejas), favas, ervilhas, grão-de-bico, tremoços, lentilhas ou couves (MACHADO, 2014: 17). A carne raramente entrava, servindo para pagar os tributos aos senhores das terras, enquanto o peixe, como a sardinha e o atum, trazido pelos almocreves, era consumido especialmente em épocas festivas ou por “imposições de jejuar durante certos ritos religiosos católicos” (MACHADO, 2014: 18). Já na Idade Moderna, e em consequência do comércio ultramarino, a alimentação sofreu várias influências, para chegarmos a finais do século XIX e encontrarmos o bacalhau já com forte afirmação nos hábitos alimentares devido ao seu custo mais acessível, contrariamente à carne de vaca, cujo preço era exorbitante. Durante a Segunda Guerra Mundial (19391945) a alimentação em certas regiões do Norte Há 50 anos ainda se cozinhava em fogão de serrim. não atingia sequer as 1300 calorias diárias e Coleção particular de António Belmiro Dias. tomava-se somente duas refeições por dia, algumas vezes apenas pão com azeitonas. Quanto às carnes, a de porco e a de aves de capoeira passaram a ser as mais consumidas (MACHADO, 2014: 20). No dia a dia, broa de milho, azeitonas, cebola crua, caldo de unto e arroz de feijão faziam parte de uma ementa pobre e repetitiva. Com a revolução do “25 de Abril”, a extraordinária melhoria do poder de compra e a globalização dos géneros permitiram melhorar e diversificar a dieta. No entanto, a gastronomia enquanto património coletivo continua a assinalar importantes registos, sobretudo em épocas festivas ao longo do ano.

Costumes e Tradições | 137


PATRIMÓNIO NATURAL


Um vale encantado

A

paisagem sobre o vale do Mezio é das mais belas da região. “Diz-se que Soult, ao chegar ao convento de Bustelo, na sua retirada do Porto, contemplando o formoso vale que de lá se desfruta, exclamara: – Que belo país habitam estes bárbaros!”1 “Que luxuriante planície! Esses campos regados pelo rio, essas veigas viridentes, esses prados atapetados de verdura, divididos por cômoros e renques de árvores, matizados por bem-me-queres e boninas, são canteiros de um belo e extenso jardim!”, escrevia o Pe. Francisco Peixoto, pároco de São João de Covas, em 19152.

Garça-real ou garça-cinzenta, fotografada no Aqueduto em maio de 2016. É talvez a maior ave aquática avistada no vale do Mezio e, por isso, de fácil observação. Coleção particular de Carlos Mota.

O vale do Mezio no nevão de 15/2/1983. Foto de Francisco Dias. Coleção particular de D. Cármen Dias.

O rio Mezio nasce na serra de Campelos e desagua no rio Sousa, já no concelho de Paredes.Apresenta uma fauna rica em espécies típicas dos rios de pequena dimensão. Nos peixes podem ser observados o escalo, o ruivaco e a truta-de-rio. Já entre os anfíbios destacam-se a rã-ibérica, o sapo-comum, e em alguns locais, o ameaçado tritãopalmado. Os répteis mais adaptados aos meios aquáticos, como o lagarto-d’água e a cobra-d’água-viperina, são também frequentes, assim como a lagartixa-de-bocage, que habita nos muros e paredes de pedra. A diversidade de aves ao longo do Mezio é elevada, contando com espécies ribeirinhas como o guarda-rios, a garça-real, o rouxinol-bravo e a fuinha-dos-juncos.

Finalmente, entre os mamíferos que aqui habitam destaca-se a lontra, que apesar do seu aspeto brincalhão é uma exímia predadora de vertebrados e invertebrados fluviais. Todas estas espécies desempenham um papel importante no ecossistema do rio Mezio, contribuindo para a sua estabilidade e para o bem-estar das populações locais.

(Colaboração do Dr. André Couto, biólogo) 1 2

Francisco Peixoto, Jornal de Lousada, 11/4/1915, p. 1. Francisco Peixoto, Jornal de Lousada, 11/4/1915, p. 1.

140 | Património Natural


Flora No vale do Rio Mezio surgem espécies arbóreas e herbáceas típicas de bosques ripícolas, quer dizer, que existem nas margens do rio. A nível das árvores temos o amieiro (o seu nome científico é Alnus glutinosa), salgueiro (Salix atrocinerea) e carvalho-alvarinho (Quercus robur). Nas plantas herbáceas registam-se o ranúnculo (Ranunculus ficaria), pão-de-leite (Primula acaulis), violetas-bravas (Viola riviniana) e várias espécies de fetos (e.g. Athyrium filix-femina (feto-fêmea), Osmunda regalis (feto-real), Polystichum setiferum (fentanha), Blechnum spicant feto-pente)), todas estas espécies são típicas de bosques ripícolas e caducifólios, ou seja, de folha caduca. Registam-se ainda espécies que ocorrem nos terrenos de pastagens, como o saramago (Raphanus raphanistrum) e pampilho-do-micão (Coleostephus myconis). Dada a pouca densidade de exemplares das espécies arbóreas, bem como a existência de espécies herbáceas típicas de bosques ripícolas caducifólios e o registo de espécies típicas de pastagens, concluise que o vale do Mezio foi, em tempos, rico em bosques caducifólios e galerias ripícolas densas. No entanto, atualmente, esses bosques foram transformados em terrenos de cultivo e as espécies típicas dos bosques caducifólios encontram-se em núcleos populacionais relíquia restritos aos muros e margens do rio, indicando o elevado potencial de algumas destas zonas serem recuperadas para floresta autóctone, onde estes núcleos populacionais poderiam começar a crescer.

(Colaboração do Dr. Rafael Marques, biólogo)

Aspetos geológicos A geologia (do grego geo, terra, e logos, estudo) é a ciência que estuda a crosta terrestre, a composição da sua matéria e modificações registadas ao longo dos tempos, bem como a textura, aspetos e estrutura que a sua superfície apresenta atualmente. Podemos considerar em Nevogilde três sítios de geodiversidade: o castro, a escarpa de falha e a caixa de falha. Quer isto dizer que, sob o ponto de vista geológico, a freguesia apresenta alguma riqueza. No castro salientam-se duas rochas granitoides, classificadas como granito de Paços de Ferreira e granito de Nevogilde, sendo este mais resistente por se encontrar numa zona mais elevada e em terreno irregular (NOVAIS, 2016: 151). Já na escarpa, observável a partir de um miradouro nos lugares de Penedo de Cima/Boavista, numa extensão de 180m por uma área de 3,15ha, encontramos indicadores de atividade tectónica recente (NOVAIS, 2016: 152), enquanto na caixa de falha, observável no cruzamento da estrada municipal 1132 com a Rua das Castanheiras, encontra-se um filão de quartzo já com algumas brechas (NOVAIS, 2016: 153). Essencialmente os terrenos mais antigos da freguesia são formados por um microgranito de grão fino de tons acinzentados. Em alguns locais, e por alteração, poderá apresentar um tom acastanhado. No vale do Mezio encontram-se os terrenos mais recentes, resultantes da alteração das rochas por onde o Rio corre e por sedimentos por ele transportados. Será interessante referir também a existência de locais com nomes derivados ou próximos de termos relativos à existência de materiais, como o barro: Barrimau, Barreiro e Barroco (NOVAIS, 2016: 87-90).

(Colaboração do Dr. José Luís Pereira Gonçalves, geólogo).

Património Natural | 141


Aqueduto A construção do Aqueduto parece datar do princípio do século XIX. Tem cerca de 100m de comprimento, é composto por 27 pilares quadrangulares (16 na margem esquerda do rio Mezio, 10 na margem direita e um no leito), e encontra-se situado numa área de cultivo, junto à chamada Ponte de Lagoas. A altura mínima dos pilares é de 2m, nas extremidades do aqueduto, onde o desnível do terreno é menor. O vão médio entre os pilares é de 2,30m. Apesar de atualmente já não se encontrar em funcionamento, destinava-se antigamente à rega dos campos, a partir de presas de água situadas em pontos elevados da freguesia (NUNES, 2008: 169). O monumento e a natureza envolvente foram considerados como um dos 15 sítios de interesse no património das terras do Sousa (LOURENÇO, 2008: 123).

 

Aqueduto tem cerca de 100m de comprimento. Coleção particular de Carlos Mota.

O inverno de 1909 foi de chuva torrencial. Em dezembro o rio Mezio transbordou para os campos, arrancando árvores e destruindo sementeiras. Alguns campos ficaram cobertos de areia. Não se recordam os mais velhos de uma cheia igual, incluindo a Ritinha da Lavandeira, que tinha cerca de 80 anos1. (Crédito fotográfico: O Occidente, 10/1/1910, p. 5) 1

142 | Património Natural

Commercio de Penafiel, 29/12/1909, p. 3.


Jornal de Lousada, 22/1/1944. p. 2.

Patrimรณnio Natural | 143


“Uma geração passa, outra lhe sucede, mas a terra subsiste sempre.” Eclesiastes, 1,2


Agradecimentos Pais e Encarregados de Educação da Escola Básica de Campo (Nevogilde); Associação de Pais; Patrocinadores; Câmara Municipal de Lousada (Vereador da Cultura, Dr. Manuel Nunes; Gabinete do Património, Dr. Cristiano Cardoso; Gabinete de Arqueologia, Dr. Luís Sousa); Junta de Freguesia de Nevogilde (Presidente, José Martins Ferreira; Secretário, Bruno Miguel Pereira da Silva; Tesoureiro, António Belmiro Barbosa Leão Dias; funcionária D. Natália da Silva Campos); Padre José Ribeiro da Mota (Pároco de Nevogilde); Fedra Santos; Eng.ª Natália Pacheco (Casa das Vinhas); Francisco Malafaia de Oliveira Sá (a título póstumo) e Dr.ª Maria Antónia Bettencourt Cyrne (Casa de Carreiro de Baixo); D. Ana Rita Beça e Luiz Megre Beça (Casa da Jusam); Prof.ª Maria de Fátima Santos de Sousa Lopes (Casa do Cam); D. Carolina Lencastre e Luís Miguel Lencastre Medeiros (Casa de Barrimau); D. Maria Teresa de Sousa Guedes Guimarães Pestana (Casa de Lagoas); D. Cecília Augusta Soares de Moura Fonseca (Casa do Vale do Mezio); D. Angelina Moreira e José Pacheco (Penedo de Baixo); D. Augusta Lopes (Rua da Igreja); Alexandrino Ferreira (Ponte); António Cristina e Nelinho da Padaria (Rua da Padaria); D. Marta Estefânia (JI de Campo); Augusto Ribeiro Moreira (Rua dos Aidos); Joaquim Ferreira Pacheco e D. Júlia Pacheco (Caminho do Carreiro); José Ribeiro (Rancho Folclórico da Senhora da Ajuda); Prof.ª Dina Sousa, José Mendonça, D. Ana Rita Mota e Dra. Cândida Silva (Lagoas); Alberto Silva Pereira (Reta de Lagoas); Prof.ª Paula Silvestre (Aldeia); Rosinha da Covilhão; Prof.ª Maria José Cruz (EBS de Lousada Oeste); Fedra Santos (Freamunde); Eduardo Ribeiro, Dr. José Luís Pereira Gonçalves, Educadora Felisbina Pacheco, D. Alice Dâmaso, Francisco Soares Xavier, Dr. José Carlos Carvalheiras, D. Cármen Dias e Prof.ª Fátima Alves Barbosa Vieira (Lousada); Prof.ª Graça Coelho (Escola Secundária de Lousada); José Martins Nunes, José Nunes e Dr. Pedro Magalhães (Nespereira); Dr. Teixeira Lopes, Prof. Altino Magalhães, Dr. Teixeira Lopes e Duarte Xavier de Campos (Meinedo); Drs. André Couto e Rafael Marques (Universidade de Aveiro), Delfim Carvalho (Amarante TV); Padre António de Sousa Alves (Pároco de Paço de Sousa, Penafiel), Pais Cunha (Fonte Arcada, Penafiel) e Educadora Adelaide Merino (Rio de Moinhos, Penafiel); Fundação A Lord (Lordelo, Paredes); Drs. Belmiro da Costa Pinto e João Paz (Arquivo da Diocese do Porto); Dr.ª Margarida Moreira (Farmácia Saúde, Porto); D. Celeste Soares (Ovar) e Junta de Freguesia de São Martinho da Gândara (Oliveira de Azeméis).

Da Terra de Leovigildo ao Concelho de Lousada| 147


Fontes e Bibliografia DOCUMENTOS MANUSCRITOS E FOTOGRÁFICOS Actas da Junta de Freguesia de Nevogilde [1838-2013]. Arquivo da Câmara Municipal de Lousada. Arquivo da Diocese do Porto (Párocos). Arquivo da Escola Básica de Campo (Nevogilde). Arquivo de D. Cecília Soares de Moura. Arquivo de Frei Geral de Coelho Dias. Arquivo Distrital do Porto, Monástico-Conventual, Mosteiro de Paço de Sousa, Livro 4947, fl 468v. Arquivo do Cartório Paroquial de São Veríssimo de Nevogilde. Arquivo do Cartório Paroquial de São Salvador de Paço de Sousa. Arquivo do Mosteiro de Singeverga (Bustelo). DOCUMENTOS POLICOPIADOS [NETO, Fernando Nélson Mendes] [Coord.] (1989). Lousada: Subsídios para a sua Monografia. Lousada: Coordenação Concelhia de Lousada da Direcção Geral da Extensão Educativa. SILVA, Leonel Domingos Reis Vieira da (2004). Cruzeiros de Lousada. Seminário. Ciências Históricas – Ramo Património. 4º ano. Porto: Universidade Portucalense Infante D. Henrique. DOCUMENTOS DIGITAIS José Guilherme Pacheco [em linha]. In https://pt.wikipedia.org. Disponível em https://pt.wikipedia.org/ wiki/Jos%C3%A9_Guilherme_Pacheco. Consulta em 18/1/2017. Nevogilde (Lousada) [em linha]. In https://pt.wikipedia.org. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/ Nevogilde_(Lousada). Consulta em 9/11/2016. Nevogilde (Lousada) [em linha]. In http://www.ngw.nl. Disponível em http://www.ngw.nl/heraldrywiki/index.php?title=Nevogilde_(Lousada). Consulta em 7/12/2016. Nevogilde. Arquivos: 1537-02-09 – 1898-12-30: Paróquia de Nevogilde. Disponível em http://tombo.pt/f/ lsd15 Nevogilde. História da freguesia [em linha]. In http://freguesia-de-nevogilde.blogspot.pt. Disponível em http://freguesia-de-nevogilde.blogspot.pt/2009/11/historia-da-freguesia.html. Consulta em 16/11/2016. PIZARRO, José Augusto Sotto-Mayor. Linhagens Medievais Portuguesas (1279-1325).Vol. 1. Dissertação de Doutoramento em História da Idade Médida apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto [em linha]. In http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/18023 (consulta a 8/1/2017). SILVA, José Carlos Ribeiro da (2007). A Casa Nobre no Concelho de Lousada. Dissertação de Mestrado em História de Arte em Portugal. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. [em linha]. In https:// repositorio-aberto.up.pt. Disponível em https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/30726/4/ tesemestcasanobrev3000074659.pdf. e https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/30726/2/ tesemestcasanobrev1000074655.pdf (consulta em 20/4/2016).

148 | Da Terra de Leovigildo ao Concelho de Lousada


PERIÓDICOS Jornal de Lousada. Lousada [1907-1991]. Lousada. Jornal Escolar de Lousada. Lousada, n.º 10, Outubro de 1999, p. 6. Lousada. O Commercio [1894-1897]. Penafiel. O Commercio de Penafiel [1881-1907]. Penafiel. O Heraldo [1930-1939]. Lousada. O Penafidelense, 3/8/1909, p 2. Penafiel. O Radical [1911-1915]. Lousada. Occidente. Revista Illustrada de Portugal e do Extrangeiro. Lisboa, XXXIII Volume. N.º 1117. 10 de janeiro de 1910. Lisboa. Presença de Singeverga, n.º 87, julho-dezembro de 2011, p. 24. Roriz (Santo Tirso). TVS, Terras do Vale do Sousa, 21/11/2014, p. 12. Lousada. Vida Nova, n.º 427, 12/8/1927, pp. 1-2. Senhora Aparecida (Lousada). Joaquim José Monteiro Bastos [em linha]. In http://revista.spcir.com Acedido em 15/12/2016 (Revista Portuguesa de Cirurgia, 2ª Série, Março de 2013, pp. 93-94). Disponível em http://revista.spcir.com/index.php/spcir/article/view/9/8 (consulta em 19/3/2016). MOTA, Rosa Maria (2011). "Ouro popular": uma vivência do Norte e o seu reflexo no concelho de Lousada. In Oppidum, Revista de História, Arqueologia e Património. N.º 8. Lousada: Câmara Municipal de Lousada. TEIXEIRA, Daniel (2016). Lousada e o Plano dos Centenários (1943-1969. In Oppidum, Revista de História, Arqueologia e Património. N.º 9. Lousada: Câmara Municipal de Lousada. DOCUMENTOS IMPRESSOS CAPELA, José Viriato, MATOS, Henrique e BORRALHEIRO, Rogério (2009). As Freguesias do Distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758. Memórias, História e Património. Braga: Barbosa e Xavier Artes Gráficas. CARDOSO, Cristiano, MAGALHÃES, Pedro e MOREIRA, Carla (2007). A Casa do Carregal e a Quinta da Tapada. 800 Anos de História. Paredes: Reviver. COSTA, Américo (1943). Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular. Vol. 7. Porto: Livraria Civilização. COSTA, Francisco Barbosa da (2004). História do Governo Civil do Distrito do Porto. Porto: Governo Civil do Distrito do Porto. COSTA, Francisco Barbosa da (2005). Instituições do Distrito do Porto. Porto: Governo Civil do Distrito do Porto. D’ ALMEIDA, António (2006). Descripção Historica e Topografica da Cidade de Penafiel. Edição fac-similada do original de 1830. Penafiel: Biblioteca Municipal de Penafiel. FERNANDES, Hermenegildo (2006). D. Sancho II. Rio de Mouro: Círculo de Leitores e Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa.. FERNANDES, Luís Ângelo (Coord.) (2007). Covas: Viagem na História. Lousada: EB1 de Monte Sines – Covas. FERNANDES, Luís Ângelo (2015). Uma História do Desporto em Lousada. Lousada: Câmara Municipal de Lousada.

Da Terra de Leovigildo ao Concelho de Lousada| 149


FERREIRA, Damião Vellozo e SOUSA, D. Gonçalo de Vasconcelos e (1995). Os fundadores do Club Portuense e a sua Descendência.Volume 2. Porto: s/n. FERREIRA, Damião Vellozo e SOUSA, D. Gonçalo de Vasconcelos e (1997). Os Fundadores do Club Portuense e a sua descendência.Volume 3. Porto: s/n. FERREIRA, José Fernando Coelho (2000). O Caminho-de-ferro de Penafiel à Lixa e Entre-os-Rios (3.ª ed.). Lousada: Câmara Municipal de Lousada. FERREIRA, José Fernando Coelho (2008). Anais de Penafiel. Vol. 1. 1900-1925. Penafiel: Livrofiel. FREITAS, Eugénio de Andrea da Cunha e, et al (1980). Carvalhos de Basto: A Descendência de Martim Pires Carvalho, Cavaleiro de Basto.Vol. 2. Porto: ed. dos autores. FREITAS, Eugénio de Andrea da Cunha e, et al (1982). Carvalhos de Basto: A Descendência de Martim Pires Carvalho, Cavaleiro de Basto.Vol. 4. Porto: ed. dos autores. FREITAS, Eugénio de Andrea da Cunha e, et al (2002). Carvalhos de Basto: A Descendência de Martim Pires Carvalho, Cavaleiro de Basto.Vol. 9. Porto: ed. dos autores. GOMES, Paulino (Coord.) (1996). Lousada: Terra Prendada (3.ª ed.). Paços de Ferreira: Anégia. LOURENÇO, Alexandre et al (2008). Terras do Sousa. Natureza Rural. Felgueiras: Ader-Sousa. LOPES, Eduardo Teixeira (2004). Lousada e as suas freguesias na Idade Média. Lousada: Câmara Municipal de Lousada. MAGALHÃES, Pedro; CARDOSO, Cristiano; MOREIRA, Carla e SOUSA, Luís (2009). Silvares, Um Percurso pela sua História. Paredes: Reviver. MAIA, António Carmindo de Sousa (1990). José Guilherme Pacheco, Rei de Paredes. Paredes: Livraria Maia. MAIA, Fernanda Paula Sousa (1991). O Mosteiro de Bustelo: Propriedade e Produção Agrícola no Antigo Regime (1638-1670 e 1710-1821). Porto: Universidade Portucalense. MEIRELES, Fr. António d’ Assunção (2007). Memórias do Mosteiro de S. Miguel de Bustelo. Introdução, fixação do texto e índice: Fr. Geraldo J. A. Coelho Dias, monge beneditino de Singeverga. Penafiel: Museu Municipal de Penafiel. MIGUÉIS, Cristina (2003). Presidentes da Câmara Municipal de Lousada desde 1838 até 1900. Lousada: Câmara Municipal de Lousada. MONTEIRO, Nuno Gonçalo (1996). In OLIVEIRA, César (Dir.) História dos Municípios e do Poder Local (dos finais da Idade Média à União Europeia). Lisboa: Círculo de Leitores. MOREIRA, Paula (2016). As Ruas e Freguesias de Lousada, 3.ª ed. Braga: PTE – Publitrabalho Edições, Lda. MOURA, Augusto Soares de (2009a). Lousada Antiga. Das Origens à Primeira República. 1.ª parte: Do Concelho. Ed. do autor. MOURA, Augusto Soares de (2009b). Lousada Antiga. Das Origens à Primeira República. 2.ª parte: Das Freguesias. Ed. do autor. NÓBREGA, Artur Vaz-Osório da (1959). Pedras de Armas do Concelho de Lousada. Porto: Junta de Província do Douro Litoral. NÓBREGA, Artur Vaz-Osório da (1999). A Heráldica de Família no Concelho de Lousada. Lousada: Câmara Municipal de Lousada. NUNES, Manuel; SOUSA, Luís e GONÇALVES, Carlos (2008). Carta Arqueológica do Concelho de Lousada. Lousada: Câmara Municipal de Lousada. OLIVEIRA, Rosa Maria (1999). Portões e Fontes do Concelho de Lousada. Lousada: Câmara Municipal de Lousada. Pelouro da Cultura (2002). Colectânea de Autores Locais. Volume II. Lousada: Câmara Municipal de Lousada. Pelouro do Património Cultural (2002). Colectânea de Autores Locais. Volume I. Lousada: Câmara Municipal

150 | Da Terra de Leovigildo ao Concelho de Lousada


de Lousada. PIMENTA, Alfredo (Org.) (1942). Memórias do Mosteiro de Paço de Sousa. Índice dos Documentos de Arquivo. Lisboa: Academia Portuguesa de História. RIBEIRO, Lígia (1999). O Século XX em Lousada. 100 Factos e Personalidades. Lousada: Câmara Municipal de Lousada. SÁ, Isabel dos Guimarães (1996). In OLIVEIRA, César (Dir.) História dos Municípios e do Poder Local (dos finais da Idade Média à União Europeia). Lisboa: Círculo de Leitores. SERRÃO, JOEL (Dir.) (1976). Pequeno Dicionário de História de Portugal. Lisboa: Iniciativas Editoriais. SILVA, Isabel Luísa Morgado de Sousa e MONTEIRO, Isilda Maria Braga da Costa (2008). Lousada: Percursos de Memória. Paredes: Reviver. VASCONCELOS, Carlos Maria e (2016). A Ascendência Paterna e Materna de Carlos Maria e Vasconcelos. s/n.

Da Terra de Leovigildo ao Concelho de Lousada| 151


ÍNDICE DA TERRA DE LEOVIGILDO AO CONCELHO DE LOUSADA Uma origem germânica ...............................................12 Memórias Paroquiais ...................................................18 Toponímia .........................................................................24 Rede viária ........................................................................27 Transportes ......................................................................30

Vida escolar O longo caminho da Educação .................................91 Professores míticos ......................................................97

ATIVIDADES ECONÓMICAS VIVÊNCIA RELIGIOSA

A terra e o trabalho ......................................................104

A paróquia de Nevogilde .............................................34 Confrarias .........................................................................44 Igreja paroquial e cemitério ......................................45 Capela da Senhora da Ajuda ......................................49

TEMPOS LIVRES

VIDA SOCIAL Protagonistas da sociedade local Elites locais .......................................................................54 Casa das Vinhas................................................................56 Casa do Carreiro de Baixo.............................................59 Casa do Carreiro de Cima ............................................61 Casa da Afreita ................................................................63 Casa da Jusam ..................................................................65 Casa de Cam .....................................................................67 Casa de Barrimau ...........................................................69 Casa de Lagoas ................................................................71 Casa do Vale do Mezio ..................................................73 Poder Local Da Junta de Paróquia à Junta de Freguesia ...........75 Sede da Junta ...................................................................84 Regedores .........................................................................85 Juízes da Paz .....................................................................85

Celebrar a vida Festa da Senhora da Ajuda .......................................114 Festa de Santo Amaro ................................................115 Cultura e Lazer ..............................................................116 Desportos Do jogo do pau ao andebol ......................................117 Lagoense, Tapada e UD Lagoas ...............................121 Associação de Solidariedade Social .......................123

COSTUMES E TRADIÇÕES Rancho Folclórico da Senhora da Ajuda ...............128 Entre o trabalho e a festa ..........................................130 Canções ...........................................................................131 Poesia popular ..............................................................132 Superstições ..................................................................133 Um ano de fé e de vida ...............................................134 Gastronomia ..................................................................137 PATRIMÓNIO NATURAL Um vale encantado .....................................................140

Saúde e assistência Quando os linhos eram doença…..............................86 Medicina e farmácia popular......................................88 Ensalmos ...........................................................................89


JUNTA DE FREGUESIA DE NEVOGILDE


05 157

Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida, no todo ou em partes, por qualquer processo eletrónico, mecânico, fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização escrita dos autores. Este livro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.


Profile for EB1 Campo - Nevogilde - Lousada

A Terra de Leovigildo  

Trabalho da turma do 4.º ano da Escola Básica de Campo (Nevogilde), realizado ao longo dos anos letivos 2015/2016 e 2016/2017, no âmbito do...

A Terra de Leovigildo  

Trabalho da turma do 4.º ano da Escola Básica de Campo (Nevogilde), realizado ao longo dos anos letivos 2015/2016 e 2016/2017, no âmbito do...

Advertisement