Dose de Cultura - 1ª Edição

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Cultural e Digital. Ano 00. Número 01. Julho de 2020

Dose de Cultura

O O efeito efeito da da quarentena quarentena na na produção produção artística artística Dançarinos e a pressão na incessante busca pela perfeição Pág. 14

Companhias

de teatro reinventam no formato das apresentações durante pandemia. Pág. 16

Artistas

buscam se manter ativos mesmo no isolamento Pág. 19


CÁ ENTRE NÓS

Receito-lhes doses de cultura

Capa Distanciamento físico (Physical distancing). Imagem criada por Samuel Rodriguez. Enviado para a United Nations Global Call Out To Creatives - help stop the spread of COVID-19. (Fonte: Unsplash)

DOSE DE CULTURA é uma publicação feita pelos alunos do 5º semestre da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, na disciplina Jornalismo Impresso, sob a supervisão da profa. Ciça Toledo, no ano de 2020. Editora de texto: Gabriela Pessanha Editor de arte: Elton Mateus Revisão e Orientação: Prof.ª Ciça Toledo

Uma dose de:

Em meio a quarentena, antes de iniciar a produção desse suplemento, pensamos: como poderíamos criar algo de relevância durante uma pandemia? A situação, inédita para todos, nos deixou receosos quanto a essa produção. Não foi fácil montar o suplemento, que nomeamos carinhosamente de Dose de Cultura, mas agora podemos colher os frutos do nosso trabalho árduo. Justamente por estarmos vivendo tempos tão difíceis queríamos que o nosso suplemento fosse um bálsamo em meio ao caos que os leitores estariam enfrentando e nada alivia mais do que a cultura. Nossa proposta é servir em altas doses a cultura necessária para seguir em frente. O Dose de Cultura traz os filmes que nos tocam, os livros que nos fazem refletir, séries que nos surpreendem e músicas que nos levam a lugares distantes da nossa realidade. Mais do que falar sobre o produto, queríamos abordar também os produtores. Contamos com a ajuda de diversos artistas para que o Dose ficassem como pensamos, eles foram nossas fontes e nossos ilustradores, trazendo mais vida para nossos textos com suas histórias, criatividade e dedicação. Quanto a nós, editores e produtores deste suplemento, esperamos que a cada página nossas palavras consigam te aproximar mais da cultura. São tempos sombrios, não há como negar, mas como já dizia Albus Dumbledore, diretor de Hogwarts na conhecida saga Harry Potter, de J.K.Rowling: “Palavras são, na minha nada humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de formar grandes sofrimentos e também de remediá-los”. Finalizo desejando que você, caro leitor, se cuide, resista e reaja quando chegar a hora. Lembre-se: A cultura nunca deve ser tomada em doses homeopáticas. Gabriela Pessanha Editora

GABRIELA ALVES

LIVIA LISBOA

CRISTIANE CAMPARI

GABRIELA PAULUCI

VITÓRIA BEATRIZ

Se encanta por todas as artes, mas seu maior amor sempre foi a dança.

Em 120 min ou em vários capítulos, acha que uma boa história sempre merece ser acompanhada

ELTON MATEUS

GIULIA RODRIGUES

ORIANA SUPRIZZI

Entre histórias, reais e fictícias, busca viver a vida sempre ao som de uma boa trilha sonora

Pensa constantemente nos póximos shows que vai, acha que música é conexão

ISABELA MATIAS Acredita que é necessário entender o passado para conhecer o futuro.

CIÇA TOLEDO

BRUNA NEVES

Gosta de aproveitar o tempo livre para embarcar nas aventuras dos livros

Vê os museus e a arte como guardiões da consciencia humana.

FERNANDA NAGLIATI

Cresceu amando os livros, e acredita eles são portas para evolução.

Desde sempre pensou que é nas palavras que estão a forma mais bonita de se expressar

Tudo fica melhor com uma boa trilha sonora, pois sempre usa música em sua vida

A cada música e filme encontra a porta aberta para uma nova história

Acredita que, na educação, respeito e amor são alicerces da aprendizagem


Convidados

Sumário Opinião pág.4 Livros são antídotos para desinformação Tendência pág.5 Escritoras brasileiras se tornam tendência nas procuras da internet

PAOLA A. CARRARO Nunca tinha se imaginado trabalhando na produção artística, mas se vê cada vez mais envolvida com esse universo que sempre amou. Pretende conseguir unir a história e a arte, seus dois amores. Instagram: @pa.loolaa

Lista pág.8 Conheça o cenário mundial pelos livros Coluna pág.10 O medo acende debates: reflexão sobre o terror psicológico Resenha pág.12 Séries espanholas fazem sucesso no Brasil Entrevista pág.14 Maria Cristina Lopes criou o primeiro curso de psicologia da dança no país

HEITOR LEAL Desde criança ele se destacava pelos seus desenhos, mas depois de entrar na Faculdade de Cinema e Animação, admite que ampliou seu talento. Curte o estilos de cartoons dos anos 90 e 2000 e recentemente resolveu aprender a grafitar.

Reportagem pág.16 Sobreviver durante o isolamento exige criatividade dos atores Reportagem pág.19 A arte de se reinventar: artistas buscam alternativas para continuar trabalhando

Instagram: @leal_heitor

Curiosidades pág.22 O punk não está morte: conheça o movimento em Campinas LIS CARRARA Sempre foi apaixonada por pintura e leitura. Quando decidiu cursar Letras, resolveu que aprenderia aquarela para poder ilustrar histórias, além de escrevê-las. Atualmente busca continuar se aprimorando também nas habilidades artísticas. Instagram: @myheartofblue

Reportagem pág.24 A música tanto pode ajudar como atrapalhar, se não for bem selecionada Crônica pág.25 A música é jovem


Estante | Opinião

CONHECIMENTO

Livros são antídotos para a desinformação

Imagem de Clker-Free-Vector-Images por Pixabay

E

Por Fernanda Nagliati

m um cenário de guerra química, varandas e janelas se tornaram os locais seguros para admirar o entardecer e perceber que mais um dia se passou. O confinamento é vivido com alívio e o controle social como dever. A distância com o outro é o mais novo sinal de amor e solidariedade. Diante do novo coronavírus, boa parte da população está passando mais tempo em casa, reinventando a vida e aumentando o consumo de produtos culturais como meio de entretenimento. No entanto, essa procura não respinga nos livros. Com as lojas ainda fechadas, o mercado editorial de livros apresentou uma queda de 33% nas vendas no mês de maio, comparado ao mesmo período do ano passado. Os dados apurados pelo Instituto de Pesquisa Nielsen e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) foram divulgados no 5º Painel do Varejo de Livros no Brasil Reflexo, no começo deste mês. A dificuldade também é enfrentada nas vendas de e-commerce em Campinas. De acordo com a plataforma de gestão de logística Intelipost, houve uma queda de 56% nas vendas online de livros e revistas desde o início da quarentena até o começo de junho. A falta de hábito de leitura de livros é um problema antigo no país: muitos brasileiros foram do analfabetismo à TV sem sequer entrar em uma biblioteca. Entretanto, é possível que um analfabeto ou alguém que não tenha lido um livro na vida possa revelar uma sabedoria natural ou até mesmo uma grande carga de experiências semelhantes às adquiridas por meio da literatura. Conheci algumas pessoas assim

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na minha vida. Contudo, o mais comum no país que não se lê é comprometer seu desenvolvimento presente e futuro, não apenas cultural, mas também político, econômico e social. Mais ainda: dificilmente o país estará em rankings mundiais quanto à modernidade e o progresso, o que o fará continuar refém das grandes potências econômicas. Os dados que revelam a falta de proximidade do brasileiro com os livros deve alegrar o governo atual, que já demonstrou centenas de vezes sua preocupação com o próprio reinado e outros objetivos, como fomentar o armamento da população em um país com taxas endêmicas de violência. Ao invés de promover o desenvolvimento cultural e educacional, o governo federal fortalece o discurso de que “povo armado jamais será escravizado”. Irônico, ele celebra a ditadura e propaga o ódio ao invés de estimular o hábito da leitura. Tudo indica que esse presidente teve pouca experiência com os livros, mesmo tendo estudado em um colégio militar, onde a prática da leitura é comum. Com a sua formação, ele deve saber os benefícios proporcionados pela leitura, além do estímulo à imaginação e o acesso à informação. Mas ele também sabe que a leitura pode se transformar em uma arma poderosa para combater não apenas o vírus invisível que assola o mundo e o Brasil, mas também a ignorância, o fanatismo e o ceticismo. A leitura já comprovou sua eficácia, quer o governo queira ou não. Ela é a vacina mais segura para os tempos sombrios que vivemos. E continuará sendo parte do novo normal que se acena para o futuro.


Tendências| Estante

“Eu era uma mulher casada. Agora sou uma mulher” - Clarice Lispector

TRENDING

Escritoras brasileiras se tornam tendência nas buscas da internet Nos últimos 12 meses, escritoras brasileiras aparecem no google trends como mais procuradas do país Por Giulia Rodrigues Nos últimos anos, o movimento feminista e a luta pelo empoderamento da mulher têm conquistado cada vez mais espaço na sociedade, tornando-se um dos assuntos mais debatidos na internet. Segundo uma pesquisa realizada pelo Google, em 2017 a busca pelo termo “feminismo” cresceu mais de 200% em relação ao mesmo período de 2016. Em março deste ano, o termo atingiu o seu pico de popularidade. A ascensão dos movimentos gerou curiosidade e mais buscas por aprofundamento, o que resultou em maior procura de grandes nomes femininos nacionais. No último ano, aparecem em destaque nas pesquisas as escritoras Clarice Lispector, Maria Firmina dos Reis, Cecília Meireles, Cora Coralina e Carolina Maria de Jesus.

CLARICE LISPECTOR

Nascida na Ucrânia, em 1920, Clarice Lispector e sua família encontraram refúgio em Pernambuco após serem perseguidos na Europa devido a sua origem judaica. Aos 14 anos, ela se mudou para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ), mesmo já demonstrando interesse pela literatura desde cedo, foi apenas aos 24 anos que lançou o seu primeiro livro, o romance “Perto do Coração Selvagem”, no qual ela cita a famosa frase “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. Clarice foi consagrada como escritora,

jornalista, contista e ensaísta, tonando-se uma das figuras mais influentes da Literatura Brasileira e da terceira fase do Modernismo A obra clariceana pode ser considerada um importante registro da condição da mulher no século 20, principalmente por ela escrever sobre empoderamento feminino quando esse tema não era comum. Protagonistas femininas em sua vida cotidiana, epifanias e revelações são marcas que a artista deixa em suas obras. Um exemplo disso é o conto A Fuga, no qual a protagonista, casada a 12 anos, resolve deixar o marido. “Eu era uma mulher casada, agora sou uma mulher”, diz a protagonista sobre sua decisão. Mesmo que no final ela retome o casamento, o livro aborda as reflexões que ela faz acerca da sociedade patriarcal dos anos 40 durante seu tempo fora de casa. Giovane Almeida, 26 anos, Jornalista e professor de Literatura: “As obras de Clarice eu tive acesso logo na infância. Começou aparecer em algumas atividades na escola e, depois, consequentemente, comecei a ir atrás de novos textos. Mas, acho que foi na adolescência, sem dúvida, que comecei a senti-los de outra forma. Hoje, depois de estudar Letras, vejo Clarice com uma profundidade tão grande que jamais alcançaria quando nos vimos pela primeira vez. Clarice tem aqueles textos que me fazem mergulhar em um universo de inúmeros sentidos e sentimentos. É intensa e, ao mesmo tempo, perspicaz. Seu texto me eleva, me faz sentir tudo de outra forma. Clarice é Clarice.”

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Ilustrações: Paola A. Carraro

Estante | Tendência

MARIA FIRMINA DOS REIS

Nascida no Maranhão em 1860, Maria Firmina dos Reis era negra, filha de mãe branca e pai negro, foi criada na casa de uma tia materna, onde teve contato com a literatura desde cedo. Seu primo, Sotero dos Reis, foi um popular gramático da época com o qual ela pode expandir suas referências culturais. Tornou-se professora de escola primária em 1847, após ser a aprovada em concurso público na cidade de Guimarães, no Maranhão. No dia 11 de agosto de 1860 anunciava-se o lançamento do conto “Úrsula”, o primeiro romance publicado por uma mulher negra em toda a América Latina. Ela não foi pioneira apenas na crítica antiescravista da nossa literatura, mas também escreveu o primeiro livro brasileiro a se posicionar contra a escravidão e contar a história do ponto de vista dos escravos. O livro evidencia a postura de Firmina contra a escravidão. É através de Suzana, uma mulher escravizada que frequentemente recorda-se de sua época de liberdade, que ela se posiciona na obra de forma mais evidente. Em “Úrsula”, ela também faz questão de mostrar a crueldade do senhor de escravos e vilão, Fernando. A autora publicou poesias, ensaios, histórias e canções abolicionistas. Ela usou a literatura como um instrumento de denúncia dos males escravidão, em uma época onde a mulher não tinha local de fala. Maria Firmina fez do papel e da caneta seu grito de liberdade. Alguns anos depois, quando o movimento abolicionista estava em ascensão, ela publicou outro conto ainda mais crítico. “A escrava” (1887) conta a história de uma mulher de classe alta que tenta, sem sucesso, salvar uma mulher escravizada. Ao longo das décadas, a história de Firmina se perdeu e hoje pouco se sabe sobre outras obras, detalhes de sua vida e até mesmo como foi sua trajetória sendo uma mulher negra e pobre. Giovane Almeida, 26 anos, Jornalista e professor de Literatura:“Maria Firmina, infelizmente, vi pouco durante o ensino médio na preparação para o vestibular. Fui estudá-la e conhecê-la, a fundo, na faculdade de Letras, em que tive o prazer de ler sua obra e entender a representatividade gigante e a grandeza que ela tem em nossa Literatura nacional. Sua resistência. Considerada a primeira romancista negra da nossa Literatura nacional, sua obra atravessou décadas e se consolidou. Acredito que ela dá voz há inúmeras vozes que foram caladas em nosso passado e que, hoje, lutam e resistem frente ao racismo, ao machismo. Maria Firmina é um dos grandes pilares da história de nossa Literatura. ”

“Que displicência! Não desperta uma hora! Já não tem sonhos, nem já sofre dor…” -Maria Firmina dos Reis

“Acredito que ela dá voz há inúmeras vozes que foram caladas em nosso passado” _Giovane Almeida

CECÍLIA MEIRELES

Nascida no Rio de Janeiro em 1901, Cecília Benevides de Carvalho Meireles foi criada pela avó e começou a se destacar no ensino fundamental, quando recebeu pelas mãos de Olavo Bilac, importante figura na literatura, uma medalha por seu ótimo desempenho ao longo do curso. Em 1917 formou-se professora e aos 18 anos lançou seu primeiro livro de poemas, “Espectros” com 17 sonetos de temas históricos e embora tenha mais reconhecimento como poetisa a artista também deixou contribuições do conto, da crônica, da literatura infantil e do folclore. Diferente das outras, Cecília não teve obras polêmicas e seguiu uma linha mais simbolista, com a presença de religiosidade, mas como professora, ela fez muito para promover reformas educacionais e defendeu a construção de bibliotecas infantis. É considerada um dos poetas mais importantes da segunda fase do modernismo brasileiro, conhecida pelo vanguardismo nacionalista. Beatriz Moraes, amante de literatura, 22 anos:“Aprendi sobre Cecília Meireles na escola, pude me aprofundar mais em suas obras no ano de vestibular. Acredito que ela foi uma figura muito importante para a educação brasileira, embora não seja muito lembrada ou comentada nesse aspecto. Suas obras carregam um simbolismo único, são dignas da importância que carregam até os dias de hoje. ”

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“Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta” - Cecília Meireles


Tendências| Estante

CORA CORALINA

Nascida em Goiás em 1889, Ana Lins dos Guimarães Peixoto cursou apenas até a terceira série do curso primário e começou a escrever poemas e contos quando tinha 14 anos, chegando a publicá-los, 1908, no jornal de poemas “A Rosa”, criado com algumas amigas. A partir daí, começa a escrever contos e crônicas com o pseudônimo Cora Coralina. Aos 22 anos fugiu com o advogado divorciado Cantídio Tolentino Bretas, indo morar em Avaré, no interior de São Paulo. Cora Coralina foi convidada para participar da Semana de Arte Moderna, mas foi impedida pelo marido. Em 1934, com a morte do marido, ela teve que sustentar os quatro filhos e encontrou nos doces uma fonte de renda. Viveu por muito tempo de sua produção de doces e embora continuasse escrevendo e produzindo poemas considerava apenas um hobby. Ao longo de sua vida ela escreveu para alguns jornais, foi dona de uma das cadeiras da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiá e até candidatou-se a vereadora. Com 70 anos, decidiu aprender datilografia para preparar suas poesias e entregá-las a editores. A autora publicou seu primeiro livro quando tinha 75 anos e tornou-se uma das vozes femininas mais relevantes da literatura nacional, ao escrever sobre o seu tempo e sobre o futuro, destacando a realidade das mulheres dos anos de 1900. A casa onde morou a poetisa Cora Coralina é hoje o museu da escritora. Gabriela Silva, estudante, de 17 anos: “Cresci ouvindo histórias da Cora Coralina, ela é uma inspiração para mim e graças a ela desenvolvi gosto por poesias, um hobby que carrego até hoje. Minha obra preferida com certeza é Meu livro de Cordel, pois a simplicidade e a sensibilidade presentes fazem dela uma obra fantástica. ”

“Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou” - Cora Coralina

CAROLINA MARIA DE JESUS

Nascida em Sacramento, em 1914, Carolina Maria de Jesus era filha ilegítima de um homem casado e foi maltratada durante toda sua infância. Aos sete anos passou a frequentar a escola, mas interrompeu os estudos no segundo ano, ainda sim já sabia ler, escrever e havia desenvolvido o gosto pela leitura. Após sua mãe falecer, em 1937, ela migrou para São Paulo, onde saía todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. Grávida e desempregada, Carolina instalou-se na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, naquele período começavam a surgir as primeiras favelas. Ao mesmo tempo em que trabalhava como catadora, ela registrava o cotidiano da comunidade onde morava nos cadernos que encontrava. Um destes cadernos era seu diário, ela havia começado em 1955 e mais tarde ele deu origem a seu livro mais famoso, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960. Nessa obra, ela conta relatos de seu dia a dia, abordando temáticas como fome e a falta de dignidade. A autora acostumava afirmar que “O Brasil tinha que ser dirigido por alguém que já passou fome”. Carolina não quis se casar para não ter que ser submissa aos homens e a gravidez de seus três filhos não foram planejadas. Ela foi a primeira a fazer uma obra sobre a favela a partir do olhar de moradora do local e conseguiu trazer à tona várias discussões que não aconteciam no contexto dos anos 1960. Carolina, mulher, negra, mãe, solteira e moradora da favela, teve sua obra traduzida em 13 línguas e tem sua imagem como um ícone de força graças a sua trajetória. Iara Goulart, estudante de jornalismo, 24 anos: “Carolina Maria de Jesus, a voz feminina da literatura afro-brasileira. Inspiradora e revolucionária, sou admiradora de sua força, bem como me sinto representada, como mulher negra. O “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, é retratado em um diário sobre a violência, fome e todos os problemas daqueles que vivem na favela. Uma obra emocionante e impactante para mim.”

“Me sinto

representada, como mulher negra” _Iara Goulart

“O Brasil tinha que ser dirigido por alguém que já passou fome” - Carolina Maria de Jesus

Dose de Cultura 07


Estante | Curadoria

LEITURA

Livros confrontam e explicam cenário mundial Clássicos e contemporâneos apontam caminhos para reflexão sobre a sociedade atual Por Elton Mateus No momento em que um livro é aberto, um convite sutil é realizado. A leitura cria espaços para o pensamento crítico e o confronto com sentimentos enraizados na sociedade. O Dose de Cultura preparou uma lista com obras de ficção e não-ficção, aclamadas pela crítica e fãs de literatura e que trazem na escrita olhares singulares sobre os temas recorrentes na mídia e na internet.

Imigração

Tensão racial

A dose de realismo mágico acrescentada em Passagem para o Ocidente pelo autor paquistanês Mohsin Hamid faz uma alusão à esperança de um novo caminho para pessoas que são vitimadas pela guerra, todos os dias. No romance, o jovem Saeed e sua amada Nadia tomam a decisão de deixar a terra natal não nomeada para se arriscarem em um caminho sem volta. O motivo foi a crescente onda de violência e conflitos religiosos da guerra civil. O livro foi um dos finalistas do Man Booker Prize e aclamado como um dos melhores de 2017, pelo jornal The New York Times.

Um olhar jovem sobre as abordagens racistas e mortais contra os negros nos Estados Unidos e que se repetem em outros lugares do mundo é o mote do livro O ódio que você semeia, da escritora norte-americana Angie Thomas. O romance ganhou notoriedade ao apresentar Starr, uma adolescente que vê seu amigo Khalil ser morto ao seu lado por conta de um movimento inocente, durante uma abordagem policial. Com medo, a protagonista lida com o dilema de falar ou não sobre o que presenciou. O livro ganhou adaptação cinematográfica pela FOX Filmes.

Passagem para o Ocidente Editora Companhia das Letras 176 páginas

O ódio que você semeia Editora: Galera Record 378 Páginas

A escritora nigeriana Buchi Emecheta passou longe de tentar romantizar um processo imigratório. Por meio de uma narrativa autobiográfica com traços ficcionais, Cidadã de segunda classe retrata o pensamento coletivo de um país ensinado a almejar a prosperidade de outro, que, por sua vez, se mostra resistente até mesmo para enxergar o próximo como um ser humano. O enredo é rico em aspectos culturais e discute temas como a xenofobia e o racismo a partir do ponto de vista de Adah, que nos anos 60 migra da Nigéria para Londres e passa a ter consciência do incômodo por sua presença.

Poético e contundente, Se a rua Beale falasse é uma das obras clássicas do autor norte-americano James Baldwin. Ambientado nos anos 70, no período pós segregação racial, o romance é inspirado na história real de um amigo próximo de Baldwin, e discute sobre o racismo presente no sistema prisional por meio do personagem ficcional Fonny, um jovem de 22 anos acusado injustamente por estupro e preso com base nas suas características físicas. Cabe a sua namorada Tish lutar pela liberdade e justiça para o jovem. O livro ganhou adaptação em 2018 e foi premiado com um Oscar, entre outros prêmios no ano seguinte.

Cidadã de segunda classe Editora Dublinense 256 Páginas

Se a rua Beale falasse Editora Companhia das Letras 224 páginas

08 Dose de Cultura


Curadoria | Estante

Política

Crise Ambiental

Segundo o Google Trend, a pergunta ‘O que é fascismo?’ foi uma das mais procuradas no site de buscas em 2018. No mesmo ano, o livro Como as democracias morrem ganhou destaque como uma das obras de não ficção mais vendidas em lojas virtuais. A relação não é casual, já que nos últimos anos os debates sobre extremismos, totalitarismo e direitos humanos estiveram na pauta das discussões sociais. Como as democracias morrem apresenta o estudo dos professores norte-americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, de Harvard. Eles mapearam os comportamentos de líderes que colocaram em risco ou retiraram o sistema democrático do seu país, como Hitler e Mussolini na década de 30, atuais partidos de extrema-direita na Europa e ditaduras militares na América Latina, nos anos 70.

A canadense Margaret Atwood é considerada uma das autoras de ficção especulativa mais influentes da atualidade. Muitos passaram a conhecer suas obras após a adaptação para série televisiva de O conto da Aia. Em sua obra Oryx e Crake, a autora apresenta um cenário mais futurista pelo ponto de vista de um personagem que acredita ser o último homem vivo na terra. Nesse ambiente, manipulações genéticas em animais e seres humanos levaram a humanidade à ruína e as mudanças climáticas desafiam a sobrevivência. O livro é o primeiro de uma trilogia e propõe uma reflexão sobre nossa relação com a natureza e o planeta terra.

Como as democracias morrem Editora Zahar 272 páginas O conceito de fake news surgiu em 2015, mas a verdade é que a desinformação sempre esteve presente na sociedade. No entanto, o uso de informações falsas para manipular cenários políticos, desacreditar a imprensa ou causar danos à imagem das pessoas ganhou ainda mais força com os avanços tecnológicos. Em A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump, de Michiko Kakutani, a crítica literária e vencedora do Prêmio Pulitzer em 1998 reflete sobre como o comportamento humano potencializa o uso da má informação na era da pós-verdade. A morte da verdade Editora Intrínseca 272 Páginas

Oryx e Crake Editora Rocco 352 páginas Conhecida como a dama da ficção científica, a norte-americana Octavia E. Butler trazia em suas obras questionamentos com narrativas afro-futuristas e fortes protagonistas mulheres. Em A parábola do semeador, o primeiro livro de uma duologia, há um planeta onde a violência e a pobreza são generalizadas. Nesse cenário, a uma crise ambiental leva a sociedade a se organizar em comunidades muradas, em busca de ajuda e proteção mútua. Quando o muro que protegia a vida da jovem Lauren caí, a narrativa de Butler ganha ainda mais peso em uma trilha que busca a fé e a sobrevivência em uma terra desolada. A parábola do semeador Editora MorroBranco 428 páginas

Relação mundial Um dos maiores pensadores críticos do cenário mundial atual, o historiador israelense Yuval Noah Harari reconhece em seu livro 21 lições para o século 21 o papel da arte, sobretudo da ficção, como ajuda para refletir sobre o caminho da humanidade. Nesta obra ele defende, por meio de ensaios, que o futuro diz respeito a todos e os problemas enfrentados hoje são globais, e não meramente isolados como muitos acreditam. Harari aponta como algumas das lições de sua lista a submissão humana à tecnologia e o papel das religiões na vida do homem. 21 lições para o século 21 Editora Companhia das Letras 432 páginas Dose de Cultura 09


Foto: Reprodução

Na Tela | Coluna

O ator Daniel Kaluuya como Chris Washington em uma das cenas mais impactantes do premiado suspense Corra!, de 2017, dirigido por Jordan Peele

SÉTIMA ARTE

O medo acende debates Corra!, Nós e outros filmes que abordam o temor através de ferramentas que mexem com o psicológico do espectador Por Gabriela Pessanha O medo, para todas as espécies, é uma forma de proteção. Presente no dia a dia em situações inesperadas e em outras previsíveis, ele costuma desencadear picos de adrenalina em nosso corpo, provocando taquicardia, sudorese e tremor, entre outras sensações. O medo chega a arrepiar. Mas há situações em que queremos experimentar o medo, principalmente nos filmes de terror. Mesmo sabendo que os filmes não representam situações reais, insistimos em vê-los. A explicação é simples: os sentimentos não são preto no branco, assim como o medo. Diretores como James Wan, de Invocação do Mal e Sobrenatural, entre outros títulos e Guillermo Del Toro, de Mama e Blade – O Caçador de Vampiros, para citar dois de seus sucessos, tornaram-se famosos entre os cinéfilos justamente por usarem o terror como pano de fundo em suas obras. O diretor Jordan Peele também faz parte desse time.

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Em Corra! (Get Out), lançado em 2017, Peele usou o terror psicológico para prender o espectador do começo ao fim em seu longa-metragem. Ao contrário de filmes como Tubarão, do diretor Steven Spielberg e Annabelle, de John Robert Leonetti – que levam até hoje o público ao desespero – em Corra! o medo não ocorre por meio de ferramentas óbvias e nem é identificado através de um peixe ou uma boneca. Em Corra!, Peele conta a história de Chris Washington, um jovem negro que vai conhecer os pais de Rose Armitage, sua namorada branca. A situação que já foi usada em comédias como O Pai da Noiva, dirigido por Charles Shyer e a trilogia Entrando Numa Fria Maior Ainda, de Jay Roach, gera desconforto em Corra! desde a cena inicial. O terror se mescla ao suspense, fazendo com que o público se prenda à história, que, aparentemente, é muito similar à de qualquer casal apaixonado que vai conhecer a família de um deles, mas que logo se transforma em um pesadelo. Jordan Peele, que passou a se aventurar pelo terror em 2017, conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Original no ano


Foto: Divulgação

seguinte com Corra!, tornando-se o primeiro negro a receber esta homenagem da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos. Corra! chocou o público e encantou a crítica por contextualizar o racismo em seu enredo. Logo no início do longa, Chris, interpretado pelo ator Daniel Kaluuya, questiona a namorada Rose, vivida por Allison Williams, se ela contou aos pais que ele é negro. A fala demonstra o receio do protagonista em relação à reação da família de Rose, fazendo com que o espectador perceba um de seus temores: a discriminação. Ele é um homem negro que namora uma branca. Essa cena, assim como muitas outras, fazem referência à violência sofrida pela população negra nos Estados Unidos. No agoniante Nós (Us) de 2019, também dirigido por Jordan Peele, o medo não é tão escrachado quanto em Corra!. Em Nós, o caminho é outro, mais tortuoso e desafiador, deixando a porta aberta para diversas interpretações. O longa trata principalmente da vingança dos excluídos, de como a retaliação pode ser violenta e a união assustadora para os repressores. Peele faz outro questionamento: como ser pacífico quando alguém tomou seu lugar de direito ou quando se é maltratado constantemente. De forma brilhante, Peele rompe com o estigma de que toda exclusão acontece por um motivo. Seu plot twist bem deixa claro que a bestialidade e violência não são ações naturais de nenhum ser humano. Para ele, elas são constituídas de acordo com suas necessidades e isso fica claro, tanto no desenvolvimento dos personagens como no desfecho da obra. Em ambos os projetos, Peele opta por trabalhar de forma direta ou indireta a questão racial. O diretor já deixou claro sua preferência em dar destaque para atores negros em suas produções, uma vez que geralmente eles sempre recebem papéis menores em produções dirigidas por brancos. Seus filmes, apesar de ficcionais, possuem um contexto muito real por trás. A discussão sobre a pacificidade que se espera durante um movimento de luta social é abordada por Peele em Nós e se torna pauta na vida real sempre que as minorias resolvem se unir e reagir. Essa aproximação do real é o que mais impressiona nas obras do diretor. Para além do cinema estadunidense, ainda na lógica da exclusão de quem é considerado ameaçador pelos opressores, o espanhol O Bar (El Bar), dirigido por Álex de la Iglesia, também retrata como a divisão enfraquece a luta em busca de um objetivo maior. Lançado

A tesoura era a arma usada pela personagem “clone” de Red, protagonista do filme Nós

Foto: Divulgação

Coluna | Na tela

O personagem principal de Nevoeiro, David Drayton, luta para manter a salvo seu filho Billy

“O ponto comum

em 2017, o longa mostra um grupo de pessoas confinadas em um bar, que se veem ameaçadas por algo que não conseguem descobrir o que é. Ao invés de se unirem, diferenças religiosas e sociais os separam, enfraquecendo o grupo. Ganância, medo e preconceito os levam a sucumbir pouco a pouco, dando força ao inimigo. Na mesma lógica de exclusão e o consequente enfraquecimento de um grupo por conta do medo, os filmes O Nevoeiro (The Mist), de 2008, e O Poço (The Plataform), de 2019, abordam a temática, porém de maneiras bem distintas. Em O Nevoeiro, de Frank Darabont, somos transportados para uma pacata cidade que se vê encoberta por uma névoa mortal. Acompanhamos de perto um grupo que fica isolado em um mercado e, conforme o tempo passa, a impaciência, o nervosismo e, mais uma vez, a intolerância levam o grupo a rachar e consequentemente à morte de diversos integrantes, impedindo-os de chegar ao objetivo final comum a todos: sobreviver. No espanhol O Poço, de Galder Gaztelu-Urrutia, um homem se vê preso em uma terrível plataforma onde todo seu alimento é provido pelas pessoas que estão nos andares superiores. Neste suspense, há uma analogia brutal e assustadora sobre o capitalismo e a péssima repartição de alimentos, comum nas sociedades. O ponto comum entre todas as obras é o clima de suspense e temor que as cerca. Não são filmes que desvendamos nos primeiros minutos e alguns até necessitam de uma reflexão ou debate após a exibição para uma maior compreensão. Isso ocorre porque eles estão cercados de metáforas, desde o papel dos personagens, passando por suas ações, até o cenário em que estão inseridos. São filmes que também fogem do estereótipo do terror, que costuma ter uma música marcada para denunciar os momentos de jumpscare. Quando há a presença de uma canção, ela geralmente representa algo que os personagens estão escutando ou são escolhidas a dedo para que a letra passe uma mensagem subliminar sobre o filme. Seja como for, amando ou odiando, os filmes de terror sempre estarão nas rodas de conversa de qualquer amante de cinema.

entre todas as obras é o clima de suspense e temor que as cerca. ”

Dose de Cultura 11


Na Tela | Resenha

MARATONAS

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Séries espanholas fazem sucesso no Brasil Netflix ajudou a popularizar produções assinadas por diretores e atores premiados

Em La Casa de Papel, um grupo de criminosos se une para realizar um roubo à Casa da Moeda da Espanha

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Por: Gabriela Pauluci

cinema espanhol é conhecido por sua tradição artística e originalidade nos roteiros e direção. Com a popularização da TV por assinatura, filmes e séries de diversos gêneros entraram definitivamente na casa de milhões de espectadores no mundo todo, conquistando a fidelidade de um público que aprecia o sotaque, a estética e os enredos apresentados. Desde 2011, quando a Netflix chegou ao Brasil, as produções espanholas têm se popularizado no país. Graças à distribuição global do serviço de streaming, que facilitou o acesso ao catálogo das produções espanholas, uma série de diretores, roteiristas e atores passaram a ser conhecidos pelos brasileiros. Confira algumas séries:

La Casa de Papel

Série criada pelo produtor e roteirista Álex Pina, La Casa de Papel começou a ser exibida na rede televisiva espanhola Antena 3 e, a partir de dezembro de 2017, foi adicionada internacionalmente no catálogo da Netflix. Em julho de 2018, o serviço de streaming fechou um contrato de exclusividade para as novas criações de Pina. A série conta a história de um assalto à Casa da Moeda da Espanha. O enredo se desenrola a partir de situações de tensão enfrentadas pelos assaltantes e como eles reagem para que o assalto seja bem sucedido.

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A corretora de imóveis Jakeline Pinheiro, 21 anos, é fã da série. “Tudo é muito planejado e a série consegue prender a atenção do telespectador porque tem muita emoção e um desfecho incrível”, diz. “Quando termino de assistir um episódio, já quero ver o próximo logo em seguida”. La Casa de Papel ficou tão famosa que até mesmo o uniforme usado pelos personagens – o macacão vermelho e a máscara com o rosto do pintor Salvador Dalí – se tornou um símbolo e são usados em diferentes países, em protestos de rua. O seriado chegou a ficar em segundo lugar do ranking das séries mais assistidas no mundo, em 2019.

PRODUÇÕES

La Casa de Papel: Produção de Álex Pina, estreou em maio de 2017.

Vis a Vis: Produção de Álex Pina, estreou em abril de 2015.

Vis a vis

Vis a vis é uma série de televisão espanhola, também assinada por Álex Pina, que foi originalmente produzida pelo estúdio espanhol Globomedia e exibida pelo canal Antena 3. Em julho de 2017, o canal anunciou o cancelamento da série, mas a Fox Espanha obteve os direitos de transmissão e anunciou uma terceira temporada, que estreou em abril de 2018. A quarta e última temporada foi lançada em dezembro de 2018. Logo após sua estreia na plataforma, a série rapidamente entrou para o ranking da Netflix como uma das 10 séries mais assistidas no Brasil. Esta série - que estreou em 2015, mas ganhou audiência quando passou a ser exibida pela Netflix, em 2019 - conta a história da personagem Macarena Ferreiro, que se apaixonou por seu chefe que cometia crimes fiscais. Pelo seu envol-

Elite: produção de Carlos Montero e Darío Madrona, estreou em outubro de 2018.

As Telefonistas: produção de Ramón Campos, estreou em abril de 2017.


Resenha| Na Tela

Elite

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A série espanhola Elite estreou em outubro de 2018 pela Netflix. Criada por Carlos Montero e Darío Madrona, a série foi produzida pela Zeta Producciones especialmente para a Netflix. A história se baseia na vida de três estudantes de escola pública que ganham uma bolsa de estudos e vão estudar na Espanha, na elitizada Las Encinas. O choque social é o mote para as tramas dos jovens com os alunos da nova escola. A partir delas, a vida de cada um dos novos estudantes começa a mudar e o momento de tensão e desfecho da série acontece quando uma das alunas – Marina - acaba sendo morta acidentalmente, dando início a uma investigação policial para encontrar o culpado. Temas como homossexualidade, doenças, tipos de relacionamento amorosos, religiões e preconceitos são discutidos na série, que chegou a ocupar a primeira posição das mais assistida da Netflix. Essa foi a primeira série espanhola do gênero teen e

Foto: Divulgação

vimento em alguns crimes, ela acabou sendo presa. O enredo se constrói a partir da vida de Macarena dentro da penitenciária, suas tentativas de se livrar das acusações e outras situações a que foi submetida na prisão, colocando sua vida e a de sua família em risco. A série, que tem um tom de suspense, aborda temas como assédio, aborto, drogas, violência dentro dos presídios e homossexualidade. Há cenas fortes e impactantes. “Acho que todo mundo deveria assistir, pois a série mostra um pouco da realidade nas penitenciárias femininas”, conta Rebeca Dias, 21 anos, que já assistiu toda a série. Vis a Vis acompanha “Maca”, uma jovem que está presa injustamente

foi gravada em apenas cinco meses. A estudante de jornalismo Marília Koga, 21 anos, é fã de séries desse gênero. “Elas retratam o dia-a-dia de adolescentes com realidades totalmente diferentes”, analisa.

As Telefonistas

As Telefonistas é uma série de drama de época produzida pela Netflix e criada por Ramón Campos e Gema R. Neira. Foi a primeira série espanhola da plataforma. A série conta a história de quatro moças de Madri dos anos 20 que começam a trabalhar em uma empresa de telecomunicações em busca de independência. O pano de fundo mostra o avanço da tecnologia das comunicações e a ascensão da profissão de telefonista, que contribuiu muito com avanços na área de intercomunicações. Naquela época, as mulheres viviam em uma sociedade opressora, que as impedia de falar, reivindicar seus direitos e até mesmo votar. A série mostra a luta das mulheres para conquistar o seu espaço, na Espanha e faz uma crítica social à sociedade vigente, abordando a união e a aliança entre mulheres. Temas como desigualdade social, violência doméstica, relacionamentos abusivos, homossexualidade, machismo e transexualidade são trazidos à tona em As Telefonistas. Esta é a série favorita da contadora Gabrielle Duarte, de 20 anos. Na sua opinião, tudo na série é bem feito. “Gosto dos detalhes nos cenários, dos figurinos e da trilha sonora”, conta. “Apesar de ter sido feita para uma série de época, as músicas têm um ritmo contemporâneo, o que reforça ainda mais a ideia do rompimento com o tradicionalismo”.

Imagens: Divulgação

O misterioso assassinato de uma estudante marca o início de Elite

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Palco| Entrevista

BALLET

“Não existe perfeição na dança”

Foto: Ahmad Odeh (Unsplash)

A psicóloga carioca Maria Cristina Lopes criou o primeiro curso de psicologia da dança no país, que tem como objetivo de trabalhar aspectos psicológicos na segunda arte Por Cristiane Campari

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Entrevista| Palco

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ara ela, que fez ballet na infância e construiu uma carreira na psicologia, muitos bailarinos têm dificuldades para lidar com suas emoções em meio a rotina de audições, apresentações, ensaios e aulas. Motivada por pedidos de profissionais ligados à dança, ela criou o primeiro curso de psicologia da dança no país, voltado a bailarinos e professores. Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade de Coimbra, Maria Cristina oferece consultorias à escolas e academias de dança nesta área desde 2016. Nesta entrevista feita por Skype, ela conta mais dessa experiência.

Dose de Cultura- O que motivou a senhora a criar o primeiro curso de psicologia da dança no país? Maria Cristina Lopes: Eu trabalho com a psicolo-

gia da dança, desde o início de 2013, mas o curso em si começou em meados de 2016. Criei o curso, porque algumas pessoas da dança e da própria psicologia chegaram até mim com essa demanda de ensinar sobre a psicologia da dança. Foi um projeto que até então, não tinha pensado, trabalhava só com escolas e dançarinos, aí essas pessoas começaram a ter essa demanda de ensinar psicologia da dança.

Como funciona o seu trabalho nas escolas e academias de dança? Depende do projeto, e do que me pedem. Eu posso ser chamada para fazer só uma palestra, ou seja, em uma hora está pronto, como também posso fazer reuniões com pais, e aí preciso programar a reunião, fazer a reunião, dar o feedback aos participantes. Às vezes preciso dar o retorno do que deve continuar fazendo. Se eu estiver nas academias e escolas em tempo integral, o projeto nunca acaba, sempre tento trazer coisas novas.

O que mais a fascina na psicologia da dança? A possibilidade de cuidar da mente dos bailarinos e professores na dança. A oportunidade de trazer mais saúde mental nas aulas e ensaios através de reuniões, terapia com os participantes, algumas vezes individual, e outras em grupo.

A senhora percebe alguma dificuldade ao oferecer seus estudos sobre a psicologia da dança aos professores? A dificuldade não é com o professor em específico, mas com uma política educacional, de formação de professores de dança. Não temos muitos espaços para pensar nela. A partir disso, percebemos a dificuldade do professor de dança no modelo de ensino, que às vezes é muito fechado, muito circunscrito ao que foi apreendido

na sua formação de bailarino. Então o ensinamento está muito fechado a técnica, e não fica aberto às outras questões que estão implicadas, como por exemplo, as questões pedagógicas e psicológicas.

Na opinião da senhora, falta conhecimento sobre a Psicologia da Dança nas academias e escolas do Brasil? Com certeza. A psicologia da Dança é uma área de estudo que já existe há décadas. Apesar de haver bastante pesquisa, muita gente pesquisando isso, sem nem saber o que é psicologia da dança. Apesar de haver bastante Algumas vezes pessoas da psicologia ou dança vão fazer um trabalho de conclusão de curso, e abordam questões mentais na dança, no entanto, na prática, em termos globais, é um área em ascensão. Não é toda escola e companhia que têm, mesmo as mais renomadas, a nível mundial, essa área de atuação. No Brasil não há escolas e academias que ofereçam o trabalho de um profissional da psicologia da dança. Falta espaço de formação nessa área. As escolas e companhias deveriam ter mais psicólogos trabalhando ali, nem que seja no treinamento de professores, workshops, palestras.

A perfeição é uma das maiores exigências para o bailarino. Qual a relação entre a isso e a dança? A dança técnica, não a dança em si como é ensinada em nas escolas de dança, tem intrinsecamente esse valor da perfeição. Ela é uma técnica perfeita e muito limpa. É um valor que é passado constantemente aos alunos e dançarinos. A perfeição na técnica que está infiltrada na dança e assim é como é ensinada na dança profissional. Muitas pessoas desistem da dança por não se verem como perfeitas, mas o que elas não sabem é que não existe perfeição. A relação que ela vê no outro não é a mesma que o outro não percebe em si. É um valor muito complicado de se levar, porque as pessoas nunca vão conseguir se adequar a esse valor padrão. Elas sempre têm algo a melhorar, mesmo com os melhores dançarinos do mundo

O que é psicologia da dança e a própria dança podem ajudar na ansiedade e depressão? Existem muitas pesquisas mostrando que a dança pode ajudar no combate à ansiedade e depressão. No entanto, as pessoas que pertencem à dança percebem, mas sem respaldo científico para isso. A psicologia da dança pode auxiliar informando e o que deve ser feito para ajudar amenizar a ansiedade e depressão. Muitas pessoas que estão na dança se sentem mais ansiosas, principalmente as que participam de audições, festivais. Mas tudo depende muito de como você utiliza a dança.

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Foto: DynamicWang (Unsplash)

Palco| Reportagem

SEM PALCO

Sobreviver durante o isolamento exige criatividade dos atores Companhias de teatro tiveram que se reinventar; apresentações ao público continuam suspensas Por Oriana Suprizzi

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Foto: Aquivo pessoal

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efinido pelos próprios artistas como a arte do encontro, o teatro foi um dos primeiros segmentos a interromper suas atividades durante a pandemia do novo coronavírus e, de acordo com o plano de reabertura econômica proposto pelo Estado de São Paulo, será um dos últimos a retornar. Diversos espetáculos que já estavam prestes a estrear tiveram que ser interrompidos. Sem bilheteria, grupos de teatro enfrentam dificuldades financeiras e precisam se reinventar. Para Paula Guerreiro, atriz do grupo de teatro campineiro Os Geraldos, um dos piores impactos sofridos pelos artistas na pandemia é a indefinição no planejamento de trabalho. O grupo trabalhava há meses nos ensaios do espetáculo Cordel do Amor Sem Fim, que é dirigido por Gabriel Villela, um dos renomados nomes do teatro brasileiro. Segundo ela, o projeto já havia sido aprovado para receber patrocínio do Sesi quando, às vésperas da estreia, precisou ser interrompido. “Cerca de seis meses antes da estreia já estamos estudando e ensaiando a peça. São seis meses de planejamento para chegar naquele mês e poder estrear”, afirma Ítalo Jonas, da Cia de Teatro Kokelinha. O grupo também estava com o espetáculo Os feijões mágicos de João, planejado para estrear em maio quando viu seus planos serem adiados, sem previsão de retorno,

Os Geraldos precisaram interromper os ensaios do espetáculo Cordel do Amor Sem Fim

em função da crise provocada no país pela pandemia. O Barracão Teatro, grupo campineiro formado desde 1998, também sofreu severos impactos ao precisar cancelar toda a programação de trabalho que foi produzida e planejada desde o ano passado. Segundo Cadu Ramos, ator do grupo, a estreia dos espetáculos envolve não só a criação, montagem e ensaio das peças, mas também todo um processo de negociação e inscrição em festivais e editais, para viabilizar a circulação dos espetáculos produzidos. Cadu Ramos ressalta também que outro importante impacto sofrido pelo teatro durante o isolamento social é a falta de contato com o público. A impossibilidade do encontro e do diálogo, tão presentes no teatro, dificultam o trabalho dos atores. “As artes cênicas partem da necessidade de uma

pessoa estar diante da outra. Para o artista, o espectador é mais do que um espectador, ele é um cúmplice do acontecimento cênico”, diz.

Reinvenção

Diante de tantos impactos e perdas, os grupos teatrais tiveram de se reinventar, mesmo longe do palco. Segundo Paula Guerreiro, Os Geraldos precisaram investir em uma nova forma de manter o Teatro de Arte e Ofício (TAO), administrado pelo grupo desde 2017, mesmo o local estando de portas fechadas. A estratégia encontrada pelo grupo foi criar a campanha “Ingresso Solidário do TAO”, que aceita arrecadações em qualquer valor, disponibilizando ingressos para futuras apresentações como recompensa para cotas acima de R$ 25,00. Os ingressos terão validade de um ano e


Foto: Aquivo pessoal

poderão ser utilizados em qualquer espetáculo do grupo. Além disso, de acordo com a atriz, Os Geraldos também tiveram que adaptar à mostra de teatro promovida pelo próprio grupo e realizada anualmente para o ambiente virtual. A Mostra Virtual Geral do Teatro – Memórias do Presente abriu as inscrições por meio de um edital, para que grupos de teatro, dança e outros gêneros relacionados às artes presenciais pudessem adicionar vídeos de seus espetáculos e oficinas. Após a curadoria do grupo, foram escolhidas doze companhias que tiveram seus trabalhos divulgados de 27 a 31 de maio, através Cia de Teatro Kokelinha no espetáculo A Princesa Dara e o Sapo que Fala, apresentado antes da chegado do Novo Coronavírus da disponibilização de um link. Segundo Paula, os links estarão disponíveis por no máximo cinco dias, como uma alusão à efemeridade do evento teatral. A mostra virtual, na opinião de Paula, tem a vantagem de atingir mais público, uma vez que a internet torna possível que pessoas dos mais diversos lugares do Brasil consigam ter acesso aos espetáculos e oficinas. Além disso, ela também funcionará como meio de divulgação das produções artísticas dos grupos. Entretanto, a questão do teatro filmado, apesar de ser uma possibilidade de apresentação dos espetáculos durante o isolamento social, também envolve uma questão polêmica. Por depender da presença dos espectadores, que possuem papel fundamental na construção da linguagem teatral, segundo os próprios atores entrevistados, o teatro filmado não é exatamente teatro. Mas também não se enquadra Barracão Teatro não viaja para as apresentações de seus espetáculos por causa da pandemia nas produções audiovisuais, como o cinema. O Barracão Teatro passou a investir ainda mais nos uso das ferramentas e plataformas recursos disponíveis para manter e divulgar seu tra- necessárias para viabilizar as exibibalho. Segundo Cadu Ramos, o grupo intensificou o ções. “Essa situação está demandanuso das redes sociais e das plataformas virtuais de do muito aprendizado para tornar comunicação para que fosse possível reinventar a ex- possível a utilização desses equipapressão artística e teatral dentro dos meios virtuais, mentos e plataformas”, ressalta. ou seja, através de novas ferramentas. “AnteriormenJá a Cia de Teatro Kokelinha, que te, o ambiente virtual era utilizado majoritariamente já trabalhava com a contação de como meio de divulgação e de comunicação, mas não histórias, decidiu adaptar o formacomo um instrumento da expressão cênica”, diz ele. to também para o ambiente virtual, Através da divulgação semanal de espetáculos te- conta Ítalo Jonas. A cada semana um dos atores da companhia grava a atrais realizados pelo grupo em suas redes sociais, contação de uma das histórias, em vídeo, e o grupo edita e ilustra com os artistas do Barracão Teatro estão conseguindo animações realizadas por eles. Depois, o material é divulgado nas redes manter uma relação à distância com seu público. sociais do grupo. O grupo intercala as exibições das peças com lives, As adaptações que precisaram ser pensadas às pressas configuram realizadas através do Instagram, que proporcionam o maior desafio enfrentado pelo teatro hoje: a sobrevivência. É necesum diálogo entre os espectadores e os artistas e sário reinventar para conseguir sobreviver. “Tudo isso que estamos diretores da última produção exibida. fazendo hoje é para manter espaços abertos e grupos em funcionaNo entanto, segundo Cadu Ramos, essa nova forma mento, para que esse período de isolamento não leve ao fim inúmeros de divulgação trouxe também algumas dificuldades projetos culturais que dependem exclusivamente da presença, o que quanto à parte técnica do teatro, que envolve desde a a internet jamais vai ser capaz de resolver”, finaliza Paula Guerreiro. necessidade de diversos equipamentos até o próprio

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Reportagem | Palco

“Tudo isso que estamos f azendo hoje é para manter espaços abertos” _Paula Guerreiro

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Esboรงo | Reportagem

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Monstro negro de Paulo Matiazi

Reportagem | Esboço

DE QUARENTENA

A arte de se reinventar Como forma de amenizar a crise, artistas buscam alternativas para continuar trabalhando por: Vitória Lima

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á mais de dois meses em quarentena, artistas têm usado a criatividade para driblar os impactos causados pela pandemia mundial de covid-19. Paulo Matiazi, de Limeira, é um deles O artista plástico e músico decidiu divulgar seu trabalho por meio de lives, em uma plataforma de streaming. “Comecei a desenhar nas transmissões ao vivo com o intuito de mostrar meu trabalho e acabei criando uma rede de pessoas”, comenta o artista. Segundo ele, apesar do pouco tempo no streaming, a ideia já trouxe alguns resultados, como conhecer pessoas que gostam do seu trabalho e outros artistas. “Acabei recebendo a encomenda de um espectador e também o dinheiro da plataforma dos inscritos em meu canal deram, que deram seu apoio. Também comecei a fazer posts patrocinados para levar meu trabalho a mais pessoas”, conta.

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Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Esboço | Reportagem

Obra Vermelho a direita, faz parte da série quarentena antropofágica de LeKings

Apesar dos benefícios do novo método de trabalho, não dá para escapar dos impactos negativos causados pelo pandemia. Um deles é a queda do poder aquisitivo da população, que impede a aquisição de bens, como os trabalhos artísticos. “As pessoas estão receosas e com medo de perderem seus empregos e, consequentemente, de ficarem sem dinheiro”, avalia. “Além disso, a arte em nosso país é colocada como algo não necessário para o cotidiano, o que não é verdade. A arte pode nos ajudar de diversas formas e, no final, estamos consumindo arte o tempo todo.” Leandro Ramos Reis, atualmente mora em Campinas, é artista plástico e produz obras do movimento afrofuturismo, que combina elementos da espiritualidade, da cosmologia, do místico e divino, da arte africana e diáspora. O movimento retrata os dilemas da comunidade negra. “A maneira que encontrei para continuar

“A arte em nosso

país é colocada como algo não necessário para o cotidiano” _Paulo Matiazi

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Amarelo a direita, compõe série quarentena antropofágica do artista LeKings

trabalhando foi parcelar em mais vezes as encomendas que recebo. Também coloquei as obras que restaram abaixo do valor original”, conta. Além dessa estratégia, o artista plástico também tem se dedicado a outros projetos. “Além dos trabalhos comissionados, que são capas de single ou de álbum de artistas independentes, tenho meu projeto pessoal, a ‘Quarentena Antropofágica’, são artes digitais, com referências do afrofuturismo, onde relaciono cores a estados de espírito do corpo preto, sentimentos, existências e resistências”, explica. Este projeto foi desenvolvido durante a quarentena e ainda não proporciona retorno financeiro a Leandro. O artista conta que é difícil se reinventar diante de uma pandemia mundial, já que existe uma tensão de morte em todos os lugares do país e, o que dificulta a certeza de estar vivo no futuro. “É como se tivéssemos a oportunidade de fazer algo pela última vez na vida, como fiz a música ‘Construção’ do Chico (Buarque de Hollanda)”. Apesar disso, ele tem muita fé e acredita que tempos melhores virão após a pandemia

passar. “É uma fase difícil, que me faz pensar cuidadosamente como aplicarei meu tempo, principalmente como artista. Tenho me permitido reflexões que fazem sentido para os eventos do agora”, analisa. O artista plástico holandês Kjell van Ginkel, mais conhecido pelo nome artístico Mesmo, utiliza a rua e espaços públicos para divulgar suas obras. O contato com o público desses locais nunca foi fácil, segundo ele. Agora está ainda mais difícil pelo isolamento social. “A rua não é apenas meu local de trabalho e de exposição, mas também de inspiração”, afirma. Atualmente, ele mora no Brasil. Em 2017 deu início ao mestrado de Educação na Unicamp, onde tem pesquisa sobre a arte de rua e a educação. Ginkel também é professor de artes, lecionou na Holanda, dando aulas para ensino infantil, fundamental e médio. Apesar de seus eventos e produções de rua terem sido adiados em função da pandemia, ele continua trabalhando. “Tenho um projeto em andamento chamado ‘My Street ABC’. O desenvolvimento do seu aplicativo é um desdobramento das interações


Reportagem | Esboço

com o meu livro, que também se chama ‘My Street ABC’”, conta. Segundo ele, o trabalho é uma verdadeira obra de arte. “O ponto de encontro entre público, aplicativo, livro e arte ocorre através de ações fotográficas extraídas de imagens da rua e formas que são parecidas com as letras do alfabeto. Estou melhorando este aplicativo para futuramente lançar oficialmente a versão final”, diz o artista. Para garantir a renda mensal, _Kjell Van Ginkel ele continua comercializando pela internet sua marca de roupas chamada MESMO “Vendo para todo o mundo e eu mesmo desenvolvo as artes das peças”, explica. Cumprindo as orientações das autoridades de saúde para ficar em casa enquanto a quarentena não terminar, Ginkel admite sentir falta da rua, que é o local onde busca inspiração para seus projetos e obras. “Estou analisando todas as minhas anotações, ideias, desenhos e os materiais que peguei na rua, antes da pandemia, para desenvolver futuros projetos”, diz. “É isso que tem ajudado a me manter criativo durante a quarentena.”

“A rua não é

Foto: Aquivo pessoal

apenas meu local de trabalho e de exposição, mas também de inspiração”

foto: Aquivo pessoal

Intervenção urbana feita com 300 copos, em Campinas, de MESMO

Paulo Matiazi

Instagram @pauloz_pauloz Twitch: www.twitch.tv/ pauloz_pauloz Portfolio: www.artstation.com/pauloz

Obra, Interrompida. Intervenção com a cor azul, do artista MESMO

Leandro Ramos Reis

Foto: Aquivo pessoal

Instagram @lekings.arts

Kjell van Ginkel

Instagram @bymesmo Site: www.bymesmo.com Obra Orelhão, intervenção urbana em São Paulo, do artista MESMO

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Ilustração: Heitor Leal

Fones | Curiosidades

ESPECIAL

O punk não está morto Movimento cultural chegou ao Brasil nos anos 80 e conquistou muitos fãs em Campinas

Por Isabela Matias

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s anos 70 foram marcantes para a música. No início da década, os Beatles se separaram e o rock se consolidou na cultura da época. Diversas cantores, conjuntos e bandas firmaram contratos com gravadoras reconhecidas. Com isso, os shows ao vivo foram perdendo espaço para a busca de novas experiências musicais de artistas dentro do rock, que passaram a formar uma vertente denominada de rock progressivo. Esse caminho privilegiava melodias mais longas, com extensos solos e novidades instrumentais. Como consequência dessa dinâmica, o mundo da música ganhou grandes discos, que marcaram história. Entretanto, a mudança trouxe algumas consequências. Uma delas é que o rock se distanciou de seu público, já que muitos jovens passaram a não se identificar mais com o gênero. O descontentamento do público também coincidiu com um momento político delicado em vários países, como os Estados

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Unidos, que foi marcado por protestos contra as posições políticas da época, além do próprio estilo de vida que privilegiava o espetáculo e o efêmero. Somado a essa conjuntura, os movimentos adversos à Guerra do Vietnã (1959-1975) também foram responsáveis para que muitas bandas norte-americanas começassem a criticar o governo em suas músicas. Já na Inglaterra, o caráter sensacionalista e patriota de uma sociedade marcada pelo conservadorismo também dava sinal de esgotamento entre os jovens, que passaram a enxergar a política e os costumes fixos durante décadas com certa descrença. Sob essa nova perspectiva, mudanças comportamentais começam a surgir em busca de uma originalidade


Curiosidades | Fones

expressa em comportamentos e gêneros musicais, que têm como foco a crítica à sociedade. A junção do descontentamento com a classe política e a possibilidade de se criar um estilo mais simples de se aprender a tocar, tecnicamente falando, fez com que os adolescentes - geralmente de zonas suburbanas londrinas e nova-iorquinas - tivessem a iniciativa de criar um uma linguagem mais agressiva, que pudesse representar toda a insatisfação reprimida até então. Foi nessa época que o mundo assistiu ao surgimento de um movimento social, musical e cultura: o punk. De lá para cá, o novo estilo se popularizou em vários países, inclusive no Brasil. No punk as letras das canções apresentam o cotidiano de uma maneira muito mais crua, quase que desprovida de sofisticações musicais. Cheias de metáforas, as músicas soam muitas vezes inteligíveis e são de difícil interpretação para a população em geral. Nas décadas de 70 e 80, bandas como The Stooges, The Clash, Sex Pistols, Ramones, The

72, Rota 54, Corazones Muertos, Faca Preta, Asfixia Social e Kob 82. Mas não é só nas grandes capitais do Brasil que o movimento se faz presente. Em Campinas, o gênero deu seus primeiros passos a partir da década de 90. A Concha Acústica do Parque Taquaral, somada aos extintos bares Alex Bar, Bar Ozz, Bar Noite Ilustrada e Espaço Antimatéria representaram o ponto de encontro de jovens que se identificavam com o movimento. Estes lugares também foram palco para bandas alternativas da cidade e alguns grupos campineiros se tornaram referência no leque musical alternativo do Estado de São Paulo, como Muzzarela, Leptospirose, Drakula, Linguachula e Coice de Mula. Entretanto, com o fechamento das casas noturnas de Campinas e com a inviabilidade burocrática dos lugares públicos, a cidade enfrentou enfrentou uma carência de eventos culturais de cunho a l t e r n a - tivo, como os shows das bandas de garagem realizados até meados dos anos 2000.

Exploited, Dead Ke nnedys e

Black Flag mostraram ao mundo que era possível fazer uma revolução por meio da música e do estilo. Essa sempre foi a proposta do movimento, que ainda hoje é musicalmente simples, mas que tem um valor ideológico de peso para expressar a rebeldia e a insatisfação com a política de Estado vigente. A crítica do punk também atinge a falta de emprego, de oportunidades e os costumes retrógados e antiquados da sociedade. Hoje, são expressivos do movimento punk bandas que surgiram na década de 90 e que ainda fazem parte do gosto de jovens e adolescentes, como The Offspring, Blink-182, Greenday, Anti-Flag e Bad Religion. Atualmente, no Brasil vestem a camisa do punk os grupos Flanders

Novos tempos

Em meados dos anos 2000, as atrações autorais em Campinas começaram a retomar o fluxo de intensidade musical do passado. Nos últimos 10 anos, a Prefeitura Municipal promoveu o Festival Autorock, que abriu espaço às apresentações independentes. Este ano, em função da pandemia do novo coronavírus, o evento não foi realizado. Para o produtor musical Artie Oliveira, fundador da banda Drakula, há uma safra de novas bandas punks em Campinas. Segundo ele, esse crescimento mostra que o movimento continua vivo na cidade. A valorização do trabalho das bandas autorais é, na sua opinião, fundamental para a sobrevivência dos artistas. “Elas precisam se valorizar para que o público dê valor ao seu trabalho, compareça aos shows e assim contribua para que o movimento cresça”, diz. A banda Drakula, formada por Oliveira e mais três integrantes lançou em maio deste ano, o EP O Diabo está Debaixo da sua Cama, disponível em todas as plataformas de streaming. Uma geração de artistas mais jovens também vem disseminando o estilo punk na região. Bandas como Funhouse, Replitikan Kids e Atittude Punk, formadas por músicos de 20 a 27 anos, se apresentam com frequência nos bares alternativos da cidade. Para João Paulo Furukawa, de 20 anosw, o punk vai além da música. De acordo com o estudante, “o punk não é só vestimenta, nem um corte de cabelo, mas atitude. É se rebelar contra o que você acha que está errado no mundo”, afirma. Para o fundador da banda campineira Attitude Punk, “Basta plugar o baixo, a guitarra e apartar os tons da bateria. O grito do underground ecoa pela sua cabeça como um zumbido depois de uma explosão.” Paulo Ranocchia, vocalista e guitarrista da banda Funhouse, reconhece que o cenário punk e alternativo da cidade está mais ativo, mas que, mesmo assim, os espaços que abrem as portas para esses estilos são escassos. “Alguns bares de Campinas dão oportunidades para esse tipo de banda se apresentar, porque são locais do underground”, afirma. Já outros, como os pubs do Cambuí, fecham as portas, segundo ele. “Isso acontece por uma questão de segregação de classe que sempre existiu na cidade. Por isso o punk é contrário à elite e nunca chegou a essa classe. Se chegou, ele deixou de ser punk”, analisa o músico. Além da falta de incentivo, Ranocchia também menciona a dificuldade que bandas e locais alternativos da cidade poderão sofrer no futuro. “A gente está bem preocupado com a cena pós-pandemia, porque se em outras épocas esse tipo de espaço já era difícil, agora as chances vão diminuir depois da crise causada pelo coronavírus”, avalia. Esperançoso, ele acredita que o movimento nunca será extinto “O punk é coletividade, é todo tipo de gente se esforçando para que tudo dê certo e a mensagem seja ouvida. Existe um perigo de restrição ao movimento, mas jamais de extinção”, finaliza.

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Ilustração: Lis Carrara

Fones | Reportagem

BEM-ESTAR

A trilha sonora de cada um

Especialistas alertam que a música tanto pode ajudar como atrapalhar se não for bem selecionada Por Bruna Neves

A música faz parte do nosso dia a dia. Em casa, nas ruas, no carro ou no ônibus, é fácil encontrar alguém ouvindo música. Relaxando no sofá ou correndo por um parque, pessoas de todas as idades podem ser vistas com seus fones de ouvido ou, até mesmo, cantarolando uma melodia. Você, inclusive, pode estar ouvindo uma playlist enquanto lê este texto. Nós nos acostumamos a realizar tarefas com uma música tocando ao fundo – como se ela nos desse disposição para encarar a rotina. E essa sensação pode ser explicada através da musicoterapia, que estuda o impacto da música em nosso aprendizado, saúde e emoções. Mas será que aquela playlist da sua adolescência pode trazer benefícios ao seu dia a dia? De acordo com os musicoterapeutas, depende. Para a psicóloga e musicoterapeuta Chiara Herrera, a música pode ser uma aliada no desempenho das tarefas rotineiras, afinal, ela tem a capacidade de transformar nosso estado mental, podendo nos deixar mais atentos e motivados. Isso acontece porque, ao ouvir uma música, o cérebro libera dopamina, substância que auxilia a manter o foco. Entretanto, Chiara explica que a música também pode causar dispersão, principalmente se ela remeter a alguma memória específica. Ou seja, a música ajuda a dar ritmo ao desenvolvimento de uma tarefa, mas isso vai depender do tipo de melodia e da atividade realizada. Por exemplo, se você estiver fazendo uma leitura que exige 24 Dose de Cultura

concentração, é melhor dar preferência à música instrumental, que não possui letra para ‘competir’ cognitivamente com a atividade principal. “Alguém que goste de música acelerada, contanto que seja instrumental, pode conseguir ler mais rápido”, explica a musicoterapeuta. Chiara também fala sobre a música minimalista, composta por sons repetitivos e cadências constantes, que deixam a mente mais tranquila para a produção das atividades. “Este estilo pode ajudar na concentração por ser mais previsível e interessante, ao mesmo tempo. É o tipo de música que cria um ambiente sem a necessidade de tentar entendê-la”, diz.

Seleção musical

Por outro lado, tarefas agitadas e dinâmicas – como fazer exercícios físicos ou uma faxina – pedem músicas animadas, que trazem lembranças da adolescência ou se adequem ao ritmo da atividade. “Nós, musicoterapeutas, não acreditamos em receitas generalistas quando o assunto é o uso da música. É preciso entender que tipo de música nos deixa mais confortáveis e experimentar”, explica. Enquanto muitos ouvem música estudando ou trabalhando, há aqueles que preferem fazer suas atividades em silêncio. “Antes de escolher uma playlist para estudar, é importante se conhecer e entender seu modo de trabalho e processo de aprendizagem, pois só assim será

possível ter a música como sua aliada”, orienta Chiara. Já o musicoterapeuta Diógenes Guerini acredita que cada pessoa tem a sua referência musical. Ele cita uma fala de Hervé Platel, pesquisador de neuropsicologia da Universidade de Caen, na França, ao dizer que os efeitos da música dependem amplamente dos hábitos de cada um. “Platel afirma que a música pode ser uma distração, especialmente entre a maioria dos músicos, que tendem a intelectualizar a música e analisar as composições que ouvem”, explica Guerini. No entanto, o musicoterapeuta discorda de Platel quando ele sugere uma ‘receita de bolo musical’ para melhorar a concentração. “Platel diz que músicas com um ritmo próximo à frequência cardíaca, com 80 batidas por minuto, podem ajudar a manter o foco”, conta. É o caso das músicas The Scientist, do Coldplay; Chasing Pavements, de Adele ou Thinking Out Loud, de Ed Sheeran. Mas Guerini contesta a fala do pesquisador “Tudo depende de como cada um ‘vive’ a música” explica, “Alguns conseguem se concentrar com Coldplay e outros com Metallica”.


Crônica | Fones

CLAVE DE SOL CRÔNICA

A música é jovem Por Livia Lisboa

Reconexão

A música não é usada apenas para auxiliar nas tarefas no dia a dia. A pedagoga e musicoterapeuta Daniela Ehrenwikler explica que a música é uma ferramenta que possibilita à pessoa se reconectar com a própria identidade. Daniela trabalha com cuidados paliativos e utiliza a música como meio de levar maior qualidade de vida aos pacientes com doenças incuráveis. Além disso, a musicoterapeuta também atende pessoas que buscam desenvolver a saúde psíquica. Segundo ela, por meio do canto e da música o paciente fortalece sua identidade e sentimentos, como a alegria e a autoconfiança, contribuindo ativamente para o bem-estar. Atualmente, no decorrer da pandemia mundial da covid-19, Daniela conta que a busca pelo atendimento aumentou. “Durante o isolamento algumas pessoas conseguem se ressignificar, mas outras não têm condição interna para isso”, explica. Na sua opinião, a música tem papel fundamental na vida das pessoas, pois pode impedir que elas adoeçam mentalmente. “Mas para que o atendimento seja efetivo, é importante fazer uma escolha meticulosa do material sonoro, já que a música está atrelada à memória emocional” afirma Daniela. Entrar em contato com nosso ‘mundo interno’ é um exercício diário. Para a musicoterapeuta, o convívio social pode ajudar nessa reconexão interior, principalmente entre as crianças, que precisam do contato com as pessoas para seu desenvolvimento emocional.

Em um sábado de manhã, em plena quarentena, decidi fazer a minha assinatura no Spotify, mesmo não entendendo muito como a plataforma funcionava. Sempre gostei de tecnologia, mas confesso que desde nova passei a adorar coisas mais retrôs, como as músicas dos anos 70 - de ABBA a Queen -, vitrolas e CDs. Mesmo tendo nascido nos anos 2000 e também gostado de músicas mais jovens e cantores como Justin Bieber e One Direction, as tecnologias antigas sempre me fascinaram. Estou descobrindo que, quanto mais velhos nos tornamos, fica cada vez mais difícil se acostumar com as novas tecnologias lançadas na velocidade da luz. Lembro-me de mostrar para meus avós como funcionava o Youtube e perceber suas reações de estranheza diante da novidade. Mesmo o Spotify tendo semelhanças com a Netflix em alguns aspectos, fiquei surpresa com o aplicativo do seu streaming de músicas. Acho até que pagamos pouco pelo que ele oferece: indicação de músicas, playlists personalizadas e até interação com os amigos que também utilizam a plataforma. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma série de playlists intituladas “As 50 músicas mais tocadas em X”, um ranking de músicas mais cantadas no mundo todo. Entrei na playlist, esperançosa em conhecer pelo menos algumas das canções e o resultado foi frustrante: não reconheci nem as 10 primeiras. Para minha decepção, percebi também que nunca tinha ouvida falar de boa parte dos artistas da lista. Fiquei intrigada com a constatação e fui pesquisar em meu notebook sobre os cantores e as bandas. Enquanto buscava informações, percebi a importância dos jovens no processo de divulgação cultural. Antes, sem as tecnologias modernas, o boca a boca, as rádios e os programas de TV faziam a propagação das músicas. Hoje, com a opção de um serviço de streaming de música e podcast como o Spotify, somos nós, os jovens, um dos principais responsáveis pela disseminação de gêneros musicais. Consecutivamente, faz sentido que o principal público dessa plataforma sejam os jovens. Concluo que temos um importante papel na viralização das músicas e por isso talvez o segredo para que uma música caia no gosto popular seja fazer com que um jovem a escute em primeiro lugar. Se ele a considerar boa, ela pode ter sucesso. Talvez a lista das 50 mais tocadas no mundo não encante a todos, mas algumas certezas nós temos. A música sobrevive ao tempo e por isso podemos dizer que ela sempre será jovem. O que pode mudar é a tendência, mas sempre vamos encontrar quem goste de Beatles ou de Justin Bieber. Afinal, gosto não se discute. Não vamos sempre apreciar as mesmas músicas, isso é fato, já que não existe um gênero musical superior a outro. O que há, sim, é música de qualidade. Gêneros musicais são diferentes, assim como as pessoas também o são. Um ponto em comum, no entanto, todos nós temos: a boa música nunca sai de moda. Dose de Cultura 25


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