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Celso Eluan empresário celsoeluan@ig.com.br

REVOLUÇÃO

HUMANA

A natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade deprava-o e o torna-o miserável. Rousseau

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Eis aí, no século XVIII, auge do Iluminismo e da volta à razão, Rousseau assinando esse atestado de bons antecedentes do ser humano. Nós somos bons, nascemos bons, a natureza nos criou bons, mas a sociedade nos corrompe e nos dilacera. Esse monstro vil e carniceiro que, como um bicho papão, povoa os pesadelos da adolescência e o caminho da maturidade. É incrível como nos apossamos de entidades abstratas para nos redimir. Assim é com os governos, os patrões, a sociedade, a natureza, os outros. Até Sartre se encantou com isso e afirmou que o ‘inferno são os outros’. O problema é que eu sou um dos outros para muitos. Eu sou parte de uma sociedade. Eu (ou você que está me lendo) sou (somos) parte do problema e querer me omitir pelo complexo de vitimização é a melhor maneira de nunca encarar e resolver uma questão. Quando vemos um bebê, somos tentados a pensar “que coisinha fofa, tão inocente, tão puro, que pena que vai crescer!”. Não há quem não se sensibilize. E uma criança, de fato, está em estado puro: uma página em branco que a vida escreverá nela. Mas, se formos analisar melhor em estado natural (de novo Rousseau), o homem só se interessa por sua sobrevivência: alimentação, repouso e reprodução (bem, nesse caso, um bebê ainda não pensa ‘naquilo’). Para obter o que necessita, uma criança chora, grita, resmunga, esperneia, inferniza os outros (ué, mas não são os outros que são o inferno?). É seu estado bruto, como qualquer animal. Não há pureza de gestos e intenções; logo, se for preciso, agredirá para ter o que deseja. Na medida em que cresce, cabe aos adultos domesticar alguns exageros, estabelecer limites, educar. O adulto que não cresceu é a criança cheia de desejos e incapaz de entender limites. Nesse caso, a sociedade que corrompe é a que não estabeleceu limites – tarefa dos pais, principalmente.

Desde que o homem desceu das árvores e se agregou, começaram a nascer os códigos de conduta, as leis, a moral, as religiões, a comunicação, a ética. Foram se definindo padrões de comportamento que evoluíram drasticamente ao longo dos séculos e milênios. Não é uma curva constante de crescimento. Na realidade, há muitas idas e vindas, muitos erros e acertos ao longo da história, mas não podemos negar que, no século XXI, o homem se encontra num patamar de civilidade bem superior a qualquer outro período. Está perfeito? Não, certamente há ainda muito por evoluir. Como as ciências exatas e biológicas evoluem em conhecimentos e conquistas, as ciências sociais também evoluem, talvez não no mesmo ritmo e velocidade, mas é incontestável que nos organizamos melhor socialmente do que há cem ou mil anos. Então, quem corrompe? Que sociedade é essa que nos deprava e nos torna miseráveis?A mesma na qual estamos inseridos e que possibilita tantas conquistas e feitos notáveis. Somos frutos dela e por ela também somos responsáveis. São nossas atitudes que servem de espelho para outros se mirarem e, se quisermos que tudo seja melhor, basta colocar um espelho na nossa frente. O que você vê no espelho é o responsável por tudo de bom e de mal que ocorre consigo e com os outros e depende das suas escolhas. Desculpe-me Rousseau, mas quase trezentos anos depois não dá pra jogar a culpa na sociedade e nos redimir. Nós é que somos responsáveis pela Revolução Francesa (que você inspirou), pela Revolução Industrial, pela Revolução Gloriosa, pela internet, pela eletricidade, pela crescente evolução do tempo médio de vida, pelas grandes guerras mundiais, pela Guerra Fria, por tantos erros e acertos, mas é inegável que vivemos melhor hoje que no seu tempo. O saldo tem sido positivo e foi essa sociedade, da qual você, eu e bilhões de pessoas fazemos parte, que nos trouxe até aqui.

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Revista Leal Moreira nº 35  

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