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outubro - novembro - dezembro | 2010

Revista

O que Dilma vai escolher?


Revista

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© Greenpeace/Rodrigo Baleia

O que Dilma vai escolher?

Montagem de fotos, da esquerda para direita, de cima para baixo: © João Tallochi © Greenpeace/Rodrigo Baleia © Greenpeace/Rodrigo Baleia © Greenpeace/Daniel Beltra © Greenpeace/Rodrigo Baleia © Greenpeace/Marizilda Cruppe

sumário 4 8

Gerente novo, velhos desafios

Entrevista: Sérgio Abranches 10 O sinal que vem dos rios 11 Dinheiro sujo

12 14 15 16 18 19

A revolução brasileira A peteca não pode cair

carta aos colaboradores

capa

O

fechamento desta edição aconteceu no dia da abertura dos trabalhos da 16ª Conferência do Clima, em Cancún. E, muito embora não se tenha ainda seu resultado oficial, já dá para adiantar que ele será, infelizmente, medíocre para o tamanho da tarefa que é combater o aquecimento do planeta. O Brasil não pode e não deve aceitar nenhum retrocesso e não deve deixar os governos encararem a reunião como um período de férias à beira mar. No mínimo, nossos diplomatas devem trabalhar para garantir que continuará existindo, a partir de 2012, um compromisso obrigatório de redução de emissões de gases-estufa para os países ricos e voluntário para os emergentes como nós. Mas, aqui dentro, também podemos fazer bem mais. O governo anunciou que atingirá quatro anos antes do prazo as metas de redução de emissões com as quais se comprometeu no ano passado, em Copenhague. Isto apenas confirma que elas poderiam ser mais ambiciosas. O cientista político e comentarista da CBN Sérgio Abranches lembra, em entrevista a Bernardo Camara, que o Brasil se comprometeu a reduzir em 80% a taxa de desmatamento na Amazônia. Mas a única taxa de desmatamento aceitável, e para o país inteiro, é zero. “Já desmatamos tudo o que podíamos e até mais”, diz Abranches. E centralizar a redução das nossas emissões apenas no combate ao desmatamento, segundo ele, é pura miopia. As emissões provocadas por queimadas da agricultura e por outros setores da economia, como energia, estão crescendo, fruto de uma política que ignora o potencial de geração de fontes como eólica e solar, e que acha que nossa segurança energética será garantida por megahidrelétricas na Amazônia e térmicas a óleo. Nossa nova presidente, Dilma Rousseff, está com tudo na mão para decidir se vai embicar o Brasil no rumo do futuro verde e limpo ou se vai governar com um pé fincado no passado. A reportagem de capa, escrita por Ana Galli, mostra os parâmetros que definirão essas escolhas. Vamos continuar falando nas obras do PAC, sem salto para tecnologias de baixo carbono e contabilização de suas emissões futuras? E a aposta no desenvolvimento do pré-sal, onde os campos de exploração estão se proliferando sobre zonas que o próprio Ministério do Meio Ambiente considera fundamentais para a conservação marinha? Não podemos jogar fora a chance de dar um exemplo ao mundo, mostrando outros caminhos, mais seguros e mais baratos, para garantir a prosperidade e o bem-estar da população. Boa leitura.

De olho no futuro Zona de risco Portas fechadas Foto oportunidade

Marcelo Furtado Diretor Executivo Greenpeace Brasil

O Greenpeace é uma organização global e independente que promove campanhas para defender o meio ambiente e a paz, inspirando as pessoas a mudarem atitudes e comportamentos. Nós investigamos, expomos e confrontamos os responsáveis por danos ambientais. Também defendemos soluções ambientalmente seguras e socialmente justas, que ofereçam esperança para esta e para as futuras gerações e inspiramos pessoas a se tornarem responsáveis pelo planeta. O Greenpeace não aceita dinheiro de governos, partidos ou empresas. Ele existe graças às contribuições de milhões de colaboradores em todo o mundo. São eles que garantem a nossa independência. |3


capa

Área desmatada na Amazônia para plantio de soja.

Gerente novo, velhos desafios Ana Galli

Redução de emissão de gases de efeito estufa, desmatamento zero e investimento em energias renováveis são alguns dos desafios que Dilma enfrentará em seu mandato.

© Greenpeace/Daniel Beltra

O

Brasil está hoje entre as dez maiores economias mundiais. A previsão é que continuaremos crescendo, alcançando o PIB da Alemanha lá para 2029. Seguiremos também ampliando nossos investimentos no exterior, onde aliás já somos grandes. Na África, por exemplo, o dinheiro brasileiro já disputa espaço com o que sai da China. Esse poder econômico, naturalmente, vem levando o Brasil a brigar por maior reconhecimento nos fóruns econômicos e diplomáticos internacionais. Queremos ser parte do Conselho de Segurança na ONU, mandar mais no FMI e até influir no

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conflito do Oriente Médio. Poder maior, no entanto, acarreta mais responsabilidades. Dilma Rousseff, que recebe a faixa presidencial de Lula no dia 1º de janeiro, tem de estar alerta para esse detalhe nas questões ambientais. Se o governo anuncia que tem um compromisso com a redução de gases de efeito estufa, é preciso que o Brasil tenha leis que regulamentem e programas que viabilizem a redução de emissões. “Ela será cobrada a implementar aqui dentro tudo que promete lá fora”, diz o diretor executivo do Greenpeace no Brasil, Marcelo Furtado. Para ele, entre os desafios que

aguardam a nova presidente do Brasil está a ampliação da matriz energética com recursos renováveis e aplicação do desmatamento zero. “Enquanto o compromisso da candidata era com 80% de redução do desmatamento, o compromisso da presidente eleita deverá ser o desmatamento zero”, diz. Afinal, já está mais do que provado que para crescer a agricultura brasileira precisa investir em tecnologia e não na abertura de novas frentes de plantio. Quanto à matriz de energia, Furtado lembra que o país tem condição de garantir toda a geração futura de eletricidade que o Brasil


potencial das fontes de energia renováveis No Brasil, o total de energia que poderia ser aproveitada com tecnologias atuais é de 26,4 vezes a demanda nacional. Sol

20 vezes

Vento

3 vezes

Energia hídrica

3 vezes

Biomassa

0,2 vez

Energia oceânica

0,15 vez

Fontes: MME, EPE, outros

precisa para se desenvolver, com base em fontes renováveis, com os mesmos recursos que serão investidos em fontes poluentes, como o petróleo. E diz que é necessário ter cuidado com a exploração do présal. “Não basta ser dono de barris de petróleo. O mundo dá cada vez mais sinais de que não poderá conviver muito mais tempo com a agressão que a energia fóssil causa ao ambiente”, diz o diretor. Graças à riqueza ambiental, o Brasil, mais do que qualquer outra nação, tem condições de garantir a sua população um futuro próspero sem devastar seus recursos e suas belezas naturais. O novo governo

© Greenpeace/Rodrigo Baleia

O Brasil tem capacidade de crescer sustentavelmente. A energia eólica é um dos seus grandes potenciais.

pode e deve investir em uma matriz energética mais limpa, dando seguimento às ações do governo Lula no setor, que ajudou a ampliar o mercado de energia eólica no país em 41,5% em 2008 e 31,7% em 2009. É perfeitamente possível caminhar mais longe. Dados do Ministério de Minas e Energia e da Empresa de Pesquisa Energética apontam que o total de energia que poderia ser aproveitada com tecnologias atuais como a biomassa, energia oceânica, solar e dos ventos é de 26,4 vezes a atual demanda nacional e portanto, mais do que suficiente para suportar nosso

Agradeço a cordialidade e a oportunidade que esta nobre organização nos dá de manifestar a favor da vida em nossa tão depredada terra pelos ditos doutores do direito do capitalismo selvagem. Mário Trindade, colaborador Barão de Cocais - MG crescimento econômico. No passado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o Brasil tinha o direito de poluir para

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capa

O que é desmatamento zero? Parabéns pela luta em prol de um Brasil mais limpo e verde e também do mundo. Podem contar comigo, pois a bandeira de vocês também é a minha bandeira. Kiyoshi Ishimoto, colaborador São Paulo – SP se desenvolver e que somente após um patamar de crescimento poderia pensar no ambiente. O mundo mostrou a Lula que essa óptica não se aplica mais. Ele mesmo se corrigiu atrás em sua declaração durante a COP15 em Copenhague, em 2009, mas pouco fez depois. “Dilma deve agora dar o exemplo e deixar o retrocesso no passado. É a chance que ela tem de investir na liderança da corrida de um futuro verde: matriz renovável e floresta em pé”, diz Furtado.

MAIS AÇÃO

da organização de um evento que reuniu, em uma sala, governadores dos Estados do Nordeste para mostrar o quanto a energia gerada a partir da força dos ventos poderia ser economicamente viável. Entre os convidados estava Roberto Smith, presidente do Banco do Nordeste. Interessado na alternativa energética, Smith abriu uma linha de crédito mais vantajosa que permitiu que investimentos na energia gerada a partir dos ventos tivessem incrementos. Vários avanços foram alcançados após a contribuição do Greenpeace. Além de parques eólicos instalados no Nordeste, o Congresso Nacional passou a discutir o projeto de Lei de Energias Renováveis – hoje em tramitação na Câmara – e o governo organizou leilões de energia eólica – que antes não existiam. “Foi uma pequena ajuda para que investimentos em energias alternativas, como a dos

ventos, pudessem entrar de fato na pauta de discussão do Brasil”, diz o diretor de Campanhas do Greenpeace, Sérgio Leitão. A expansão do setor foi tão relevante que, segundo a Associação de Brasileira de Energia Eólica, hoje o Brasil sofre com a falta de

Acompanho as atividades do Greenpeace pelo mundo afora e acho muito importante. Vocês são corajosos mesmo! Enfrentar o ‘grande’ sistema não é mole! Acompanhei a manifestação que fizeram pedindo comprometimento dos candidatos com o desmatamento zero. Orestes Correia, colaborador Cubatão – SP

© Greenpeace/Felipe Barra

© Greenpeace/Felipe Barra

Substituir fontes energéticas poluentes por matrizes limpas é o grande desafio que a humanidade enfrentará pelos próximos anos. Foi para provar que essa substituição é sim, possível que o Greenpeace resolveu agir. O ano era 2008. O foco, energia eólica. O Greenpeace participou

Política de proteção do bioma amazônico, o desmatamento zero pretende assegurar a conservação da maior floresta tropical do planeta devido a sua relevante importância na manutenção do equilíbrio climático, na conservação da biodiversidade e na preservação do modo de vida de milhões de pessoas que dependem dela para sobreviver. A proposta, que já teve adesão de grandes grupos empresariais como a JBS-Friboi – maior exportadora de produtos bovinos do mundo –, não impede que árvores sejam cortadas, desde que de forma sustentável. Simplesmente pretende acabar com o corte raso e a degradação de grandes extensões de mata, gerindo cuidadosamente a floresta que ainda existe.

Ativistas encontram os então presidenciáveis Dilma e Serra para cobrar compromisso com o ambiente. 6

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O Greenpeace não pretende apenas conscientizar políticos sobre a importância do ambiente para o país e para as gerações futuras, mas também estimular os colaboradores a participarem. A meta foi atingida. Durante a campanha eleitoral foram registrados: • 26.000 assinaturas da petição; • 78.000 visualizações; • 7.400 cliques no link postado via Twitter; • 4.300 cliques no link postado via Facebook; • 14.000 visualizações dos vídeos.

profissionais especializados. Sinal de que não basta investir apenas na área ambiental. “Esse é um exemplo de que um dos grandes desafios da presidente eleita será equacionar a questão ambiental e energética com educação, distribuição de renda e questões sociais em geral”, afirma Furtado.

DILMA E SERRA RECUAM Durante a campanha do primeiro turno, o debate eleitoral praticamente não abordou a questão ambiental. Numa tentativa de preencher esta lacuna, o Greenpeace promoveu tanto com José Serra quanto com Dilma Rousseff a oportunidade para que os então candidatos dissessem claramente o que pensam e qual era seu projeto para

Maravilha a atuação de vocês por esse Brasil afora, em que vivemos atualmente, com este panorama político tão desanimador. Parece que este ano primou pela desesperança, mas vamos em frente. Vamos continuar firmes no nosso sonho de um mundo igual para todos, sem doenças, sem males, sem medos e rancores. Maria Amélia Leite, colaboradora Fortaleza - CE

© Ricardo Stuckert/PR

© Greenpeace/Alexandre Cappi

Eleitorado de olho

o futuro das florestas brasileiras e para a geração de energia, temas que estão diretamente ligados ao futuro do Brasil e do planeta. Dilma foi abordada em Brasília por ativistas do Greenpeace e Serra, em Ponta Grossa (PR). A proposta era que ambos assinassem um documento se comprometendo a adotarem o desmatamento zero e a Lei de Energias Renováveis, em tramitação na Câmara. Nenhum dos dois assinou a promessa, mas as ações do Greenpeace alavancaram o tema ambiental, que voltou à baila da discussão durante o segundo turno. Após pressão de diversos setores da sociedade e do resultado da votação do primeiro turno, a então candidata petista se comprometeu em documento a ampliar a matriz energética limpa e a preservar o ambiente. Resta saber se suas falas em período eleitoral ficarão somente na promessa ou se serão implementadas de fato no novo governo, para que o Brasil chegue a um futuro mais verde e limpo.

Dilma Rousseff (PT).

Promessas que serão cumpridas? O Brasil espera que sim Durante a campanha eleitoral, a presidente eleita Dilma Rousseff se comprometeu com alguns temas ambientais. Ajude-nos a cobrar: • Afirmou ser contra a anistia irrestrita para desmatadores, descrita no texto de mudança do Código Florestal em tramitação na Câmara; • Disse que ampliará a matriz energética limpa; • Prometeu viabilizar a recuperação de 60 milhões de hectares de pasto; • Afirmou que combaterá o “vazio” nas legislações ambientais dos Estados em relação ao manejo florestal; • Comprometeu-se a exigir a preservação da floresta em imóveis particulares; • Declarou que usará o Zoneamento Ecológico Econômico para nortear o uso das florestas nos Estados.

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entrevista

Tapa aqui, destampa ali Bernardo Camara

© Arquivo pessoal de Sérgio Abranches

Na esteira de um governo que anunciou níveis recordes de queda do desmatamento, a presidente eleita, Dilma Rousseff, chega ao cargo carregando louros. Mas, em tempos de crise climática, frear a devastação da Amazônia não basta. Enquanto as árvores deixam de cair, o Brasil continua lançando toneladas de gases-estufa com uma “política desarrumada” de energia. Quem diz é o cientista político Sérgio Abranches . Em entrevista ao Greenpeace, ele aposta que, cedo ou tarde, o mercado vai exigir fontes renováveis de energia. “Poderíamos ter um parque limpo complementar ao existente. Seria a coisa mais inteligente a se fazer. Mas o Brasil optou pelas termelétricas a óleo diesel, o que é um absurdo.”

Revista do Greenpeace O fim do desmatamento deixou de ser discurso de ambientalista. Políticos e empresas incorporaram o conceito. Por quê? Sérgio Abranches Porque é conveniente. A pressão internacional estava afetando a reputação deles. Só existe um número razoável para o desmatamento na Amazônia: zero. Já desmatamos tudo o que podíamos, e até mais. Tem muito setor que nem tem a ver com a Amazônia mas associa sua marca à defesa da floresta, pois faz muito efeito no mercado internacional e no interno. As ações do Brasil para frear suas emissões de gases-estufa são efetivas? Não. A Política de Mudanças Climáticas não foi regulamentada e a maneira como foi formulada foi insuficiente. Caiu o desmatamento, mas a participação dos setores energético e de transporte nas emissões aumentou muito. A política energé8

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Na hora que as emissões florestais forem zeradas, haverá outras fontes de emissão. tica embutida no plano está errada, pois continua baseada em hidrelétricas, sem contabilizar as emissões que vêm delas. É uma política toda desarrumada, porque parte do pressuposto de que podemos alcançar metas de redução de emissões de gases-estufa só reduzindo o desmatamento. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ainda vai lançar boas toneladas de gases do efeito estufa na atmosfera. Pois é. Na hora que as emissões florestais forem zeradas, haverá outras fontes de emissão. A economia brasileira se expande baseada em indústrias de alto consumo de car-

bono, como mineração, siderurgia e rodovias. O PAC é um programa de desenvolvimento ultrapassado. E ele ainda não andou: a maior parte das obras não foi executada e, sendo assim, os efeitos sobre a Amazônia ainda não foram sentidos. Que efeitos? O PAC vai criar vetores de desmatamento poderosos. Se fizerem todas as hidrelétricas e as rodovias que planejam para a Amazônia, vão criar uma série de polos de ocupação e vamos voltar, talvez, ao mesmo fenômeno de ocupação do passado. E aí estamos ameaçados a entrar em um novo ciclo do desmatamento no futuro. Apesar de ter aumentado suas emissões em setores como energia e transporte, o Brasil mantém uma boa imagem no exterior, nas discussões de clima. Por quê? A visão mundial a respeito do Brasil é distorcida e o governo se aproveita


Enquanto outros países tentam limpar sua matriz energética, o Brasil anda na contramão: há uma década, a matriz brasileira era mais limpa que é hoje. Se você pega o potencial eólico, fotovoltaico e de biomassa do Brasil, vê que é justamente no período de seca – quando os reservatórios das hidrelétricas estão baixos – que temos mais vento, insolação e mais produção de cana. Ou seja, poderíamos ter um parque limpo complementar ao existente. Seria a coisa mais inteligente a se fazer. Mas o Brasil optou pelas termelétricas a óleo diesel, o que é um absurdo.

Não existe uma pressão para quebrar a barreira às renováveis? Não. Mas o potencial hídrico brasileiro está acabando, pois ele se concentra na Amazônia e haverá pressão internacional para que não avance. Quem está comprando produto brasileiro vai perguntar: essa eletricidade vem de onde? Da Amazônia? E aí vai ficar conflituoso. Mas isso não deve mudar no governo Dilma: ela compartilha do paradigma das grandes obras. Um dos argumentos usados contra fontes renováveis é que elas são caras. É mentira. China, Alemanha, Estados Unidos investem em renováveis. Só o Brasil diz que eólica é coisa pequena, cara, que não dá para fazer. Biomassa e eólica são competitivas, já está provado. Quanto à fotovoltaica, nem governo nem setor privado reconhecem sua existência. Essas fontes estão à margem da política energética brasileira. Mas seremos forçados a evoluir para um sistema menos irracional. E isso vai nos obrigar a ter maior realismo tarifário, que significa explicitar os subsídios incluídos nas tarifas brasileiras, sobretudo nas de energia, e tirar subsídios do diesel e da hidroeletricidade. Com o realismo tarifário, essas diferenças de preço vão mostrar sua falsidade, porque hoje comparamos preço de subsidiadas com não subsidiadas. E mais: como você tem de contabilizar o custo de carbono, é evidente que vale a pena optar pelas renováveis.

O Greenpeace participou pela segunda vez, entre 25 a 27 de novembro, da ONG Brasil – Feira e Congresso Internacional de ONGs, que reuniu representantes do terceiro setor, do governo e da iniciativa privada em São Paulo. Mais de 500 ONGs participaram, com milhares de visitantes. O principal objetivo do evento é aproximar a iniciativa privada das ONGs, fundações e instituições e dos seus projetos, incentivando-a a ser ambiental e socialmente responsáveis. O Greenpeace participou com uma exposição sobre os perigos que uma mudança no Código Florestal, em discussão no Congresso, representa. As fotos mostram como é importante manter a floresta em pé, saudável, para a manutenção da vida que depende dela e do sistema climático do planeta. Ao invés disso, a Amazônia sofre com a derrubada e a queimada sem critérios. A taxa de desmatamento caiu nos últimos anos, mas não foi zerada. E alterações na lei ambiental, do jeito que a bancada ruralista deseja, só fragilizariam ainda mais a mata. /Daniel Beltra

disso. O Brasil vai chegar à COP16 dizendo maravilhas sobre a queda do desmatamento e não vai mencionar os demais setores. Há uma preocupação muito maior com a Amazônia do que com as emissões dos nossos setores de transporte ou indústria, e muita gente compartilha o mito de que energia baseada em grandes hidrelétricas é limpa. Mas, quando se tira o desmatamento do panorama, ainda temos problemas importantes. Mais de 60% do nosso transporte de cargas é movido a diesel, em rodovias ruins e com uma frota velha de veículos. Tudo isso significa mais emissões. Essas ineficiências acabam afetando a própria economia. Se esses problemas fossem resolvidos, o Brasil ficaria mais eficiente e competitivo. Não há medida de redução de emissões que não represente ganhos significativos para a economia do país.

Beleza e destruição

© Greenpeace

Seremos forçados a evoluir para um sistema energético menos irracional.

Há uma coalizão de interesses que quer manter a política de grandes hidrelétricas e termelétricas. Para as empreiteiras, grandes obras de engenharia são ótimas. Espetar turbina eólica não interessa a elas. O avanço das renováveis sempre foi bloqueado por esses interesses.

Foto que faz parte da exposição “Código Florestal”.

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O sinal que vem dos rios Bernardo Camara

Numa década de cheias e secas recordes na Amazônia, o Greenpeace alerta para os efeitos do desmatamento e o uso de energia suja podem causar ao planeta.

© Greenpeace/Rodrigo Baleia

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Ativistas protestam à beira do Rio Negro.

© Greenpeace/Rodrigo Baleia

Bancos de areia a 29 km de Tefé, Amazonas.

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m ano depois que o Amazonas enfrentou sua maior cheia da história, é a vez do Rio Negro, o segundo mais caudaloso do mundo, encarar a maior de todas as secas. No fim de outubro, o leito do Negro atingiu o nível mais baixo já registrado. Foi nesse cenário, onde imensos bancos de areia surgiram no meio do rio, largos canais viraram estreitos córregos e embarcações ficaram encalhadas, que o Greenpeace estendeu uma faixa: “Desmatamento zero e energias renováveis já”. “Está mais do que provado que o desmatamento e o uso de fontes sujas de energia estão umbilicalmente ligadas ao aquecimento global, que provoca mudanças climáticas”, diz o diretor da campanha Amazônia do Greenpeace, Paulo Adario. “E num contexto assim, eventos extremos como o que a Amazônia enfrenta agora acontecerão numa frequência cada vez maior.” Aparentemente, já estão em curso. Em apenas cinco anos, o Estado do Amazonas assistiu a duas secas dramáticas – em 2005 e agora – e a duas cheias acima da média – em 2008 e 2009. Para especialistas, a expectativa era que esses extremos ocorressem a cada 50 anos. Mas estão aí. E, cada vez que acontece, dezenas de municípios entram em situação de emergência, com fortes impactos sociais e econômicos. “O Brasil destruiu mais de 700

mil quilômetros quadrados da Amazônia e é hoje o quarto maior emissor de gases-estufa. Zerar o desmatamento é o caminho mais rápido para frear o aquecimento global”, afirma Adario. “Mas o esforço de derrotar o desmatamento pode ser insuficiente se a política energética brasileira continuar na contramão da tendência global, ao incentivar fontes sujas e finitas que jogam toneladas de CO2 na atmosfera.” Há uma década, a matriz energética brasileira era 92% baseada em fontes renováveis. Hoje, esse índice caiu para 80%, graças principalmente à participação de térmicas a óleo. Apesar do tamanho do problema, durante a campanha eleitoral, a presidente eleita, Dilma Rousseff, não parecia tão preocupada com essas questões. Sobre incentivo às fontes renováveis, Dilma não deu um pio. Em relação à Amazônia, após pressão da sociedade civil, ela resolveu se dizer a favor do desmatamento zero. Mas não assinou qualquer compromisso, tampouco disse como chegaria lá (leia texto na página 4). Enquanto isso, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a previsão para o Amazonas é que o volume de chuvas fique 45% acima da média nos próximos meses. O Rio Negro já começa a subir de novo. Será para uma nova cheia recorde?


© Martin Storz/Greenpeace

nuclear

Ativista é carregado em grande protesto em Gorleben, na Alemanha.

Dinheiro sujo Laura Fuser

A indústria nuclear mobiliza incontáveis recursos para provar que é uma alternativa limpa de geração de energia. Mas esconde muitos capítulos desta história.

D

ez mil pessoas e uma única mensagem: não à energia nuclear. Uma manifestação realizada na Alemanha, em novembro, reuniu a sociedade civil, moradores, políticos e estudantes na cidade de Dannenberg para tentar barrar pacificamente a passagem de um trem radioativo, com 123 toneladas de lixo proveniente de usinas nucleares. O lixo acabou por seguir seu destino, um depósito na pacata cidade de Gorleben, no interior do país. Apesar disso, a demonstração espontânea do povo alemão, e a ampla cobertura da imprensa, explicita que uma boa parcela da sociedade se opõe às usinas nucleares. A energia nuclear não é apenas perigosa, é também uma das mais caras. O dinheiro necessário para construir apenas um reator nuclear é tão vultoso que até governos não podem dar ao luxo de fazer isso sozinho. Para completar os muitos bilhões necessários para financiar esta indústria, órgãos públicos dependem de financiamentos privados para tocar suas obras. Como a maioria dos grandes

bancos comerciais diz que tem um compromisso com a sustentabilidade e responsabilidade social, esse envolvimento se dá por vias tortuosas, como empréstimos e títulos corporativos. É o que denuncia o relatório “Bancos nucleares: não, obrigado”, produzido com participação do Greenpeace. Ele aponta como os bancos financiam projetos nucleares com investimentos de seus clientes, ao invés de incentivarem a produção de energia limpa e renovável. É o caso do banco francês BNP Paribas. Quinto maior do mundo e primeiro da França, é líder em financiamento de projetos nucleares. Ele planeja investir, junto com o BNDES e com outros bancos, projetos como Angra 3. Sua participação é crucial em um consórcio de bancos franceses que aportará mais de € 1 bilhão no projeto brasileiro. A construção de Angra 3 começou em 1984, mas foi suspensa após 1986, ano do maior acidente nuclear da história, em Chernobyl, que fez o mundo rever os padrões de segurança. A maioria dos equipa-

mentos de Angra 3, cerca de 70%, que mofa na área desde então, está obsoleta tecnicamente e é altamente perigosa. Ainda assim, em 2007, o governo brasileiro anunciou que pretendia terminar a sua construção e, em dezembro de 2008, a empresa estatal Eletronuclear assinou um acordo com a empresa francesa Areva para completá-la. Agora, com dinheiro do BNP Paribas. A questão de segurança técnica e outras, como falta de destinação adequada para rejeitos e de medidas de retirada da população em caso de acidentes, são graves. Contudo, o mais incrível é como bancos e governos ainda preferem investir nesse tipo de fonte, em vez de privilegiar renováveis. Angra deveria ser conhecida apenas por suas belezas naturais. Porém, já é uma “cidade nuclear”, com uma história de medo por trás de suas paisagens, exatamente como a bucólica Gorleben. Visite www.greenpeace.org.br/revista para ler o relatório Bancos nucleares: não, obrigado.

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renováveis

A revolução brasileira Juliana Tinoco

© Greenpeace/Rodrigo Baleia

Segunda edição do relatório Revolução Energética prevê que o país do futuro cresce com energia limpa, empregos verdes e menos emissões de gases do efeito estufa.

A

té 2050, mesmo com a economia crescendo em seus níveis atuais, 93% da eletricidade produzida no Brasil pode muito bem estar sendo gerada por fontes renováveis como solar, eólica ou biomassa – o que nos deixaria praticamente a um pulo para transformar em realidade, ainda no século 21, o sonho de termos um país com matriz elétrica 100% limpa. Chegar lá é mais fácil e mais barato do que se imagina e é um bom caminho para garantir a geração de 3 milhões de empregos em área de tecnologia de ponta. Melhor ainda: essa revolução no setor de energia

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ajudaria o Brasil a reduzir mais rapidamente, e sem ameaçar seu desenvolvimento, as suas emissões de gases do efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global. Esse horizonte está longe de ser fantasioso, como comprova a segunda edição do relatório “Revolução Energética”, estudo elaborado pelo Greenpeace em parceria com especialistas do setor energético. O relatório traça dois cenários de geração de energia para os próximos 40 anos, partindo das mesmas projeções de crescimento da população e do PIB (Produto Interno Bruto) do país.

O primeiro cenário, bem pouco ambicioso, usa os dados do governo e mostra um futuro cheio de petróleo e fontes nucleares. O segundo, chamado de Revolução Energética, prevê a construção de um país a partir de mudanças na forma como a energia é gerada, distribuída e consumida. Em 2050, o Brasil pode aumentar em até três vezes a taxa de consumo de energia e em até 4% o PIB dispensando termelétricas a óleo diesel, a carvão e nucleares. E isso sendo conservador e considerando que apenas 10% do potencial eólico brasileiro e 1% do solar seriam


Dança das cadeiras

Parque eólico em Osório, Rio Grande do Sul.

Geração total de eletricidade cenário revolução energética 2050 (em %)

Fonte: Revolução Energética - Dezembro 2010

SOLAR (CSP) 4,01% SOLAR (PV) 5,25%

ENERGIA OCEÂNICA 0,77% GÁS NATURAL 7,33%

BIOMASSA 16,60%

EÓLICA 20,38%

HIDRELÉTRICAS 45,65%

aproveitados. “Os estoques de energias renováveis são acessíveis e abundantes o suficiente para fornecer mais energia do que a quantidade consumida no Brasil hoje e que virá a ser consumida no futuro. O potencial é inesgotável”, diz Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de Energia do Greenpeace, principal autor do estudo. Além de bom para o ambiente, investir em renováveis é ótimo para a economia. Seus preços estão ficando gradativamente mais atrativos e a tendência de queda certamente se consolidará ao longo dos próximos 40 anos. Somados os custos de implantação de novas usinas termelétricas ou nucleares, mais caras, e o crescente valor do óleo combustível no mercado, a economia do cenário Revolução Energética chega a cifra de R$ 1 trilhão. “No mercado internacional, a energia eólica e o mercado de painéis fotovoltaicos desafiaram a recessão econômica e cresceram em 2009”, explica Baitelo. No Brasil, o resultado do último leilão de energia renovável, em agosto de 2010, confirmou a tendência internacional. Foram contratadas 70 novas usinas eólicas, alçando essa fonte ao lugar de segunda energia mais barata do país. “Apesar do avanço no setor de eólicas, o Brasil tem um sistema de leilão para a ampliação da participação de energia renovável que não tem obrigatoriedade por lei, ou regularidade em sua realização”, diz Ricardo Baitelo. “Para criar efetivamente um mercado para as renováveis, o Greenpeace propõe que haja uma política para o setor, com pacotes de incentivos mais abrangentes.”

Acaba de sair a 16ª edição do Guia de Eletrônicos Verdes, publicação do Greenpeace Internacional que acompanha a performance das empresas de eletrônicos sobre seus impactos no ambiente e na saúde humana. O objetivo do guia, publicado desde 2006, é munir os consumidores com informações que ajudem a orientar suas compras e, assim, pressionar as empresas a adotarem práticas menos nocivas, como a ampliação da vida útil de seus equipamentos e a redução dos impactos inerentes à produção e ao descarte. Nesta lista, entraram 17 grandes empresas fabricantes de computadores, celulares, TVs e consoles de jogos eletrônicos. Três categorias foram avaliadas: químicos, energia e lixo, e quesitos como substâncias tóxicas usadas, pegada de carbono e reciclagem. Quem aparece mal desta edição são as gigantes Microsoft e Toshiba, que voltaram para as últimas colocações, com Nintendo e Lenovo. A Apple ficou em posição estável, em comparação com a penúltima edição, por não apresentar avanços e, assim, perder uma oportunidade de se apresentar melhor a seus consumidores. Nokia e Sony Ericsson são as marcas com mais produtos livres de PVC e de uma substância altamente tóxica, usada para inibir a combustão. Desde 2002, o Greenpeace investiga o rumo do lixo eletrônico, cuja produção varia de 20 e 50 milhões de toneladas por ano. O atual padrão de consumo e a velocidade de atualização dos equipamentos levam o consumidor a descartar os equipamentos com mais rapidez, principalmente celulares e computadores. Laura Fuser

Leia todo o relatório em www.greenpeace.org.br/revista

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A peteca não pode cair Juliana Tinoco

Olhos do mundo se voltam novamente para os países que participam da Conferência de Clima da ONU, este ano em Cancún. É uma nova chance para avançar acordos para controlar o aquecimento global. Há um ano, em dezembro de 2009, o mundo assistia ao desfecho frustrado de uma das mais importantes conferências ambientais das Nações Unidas, a COP15, na cidade de Copenhague, Dinamarca. Idealizada como a reunião em que os países chegariam a um acordo mundial para controlar o aquecimento global, a conferência terminou em um cabo-de-guerra entre chefes de Estado cujos olhos estavam voltados unicamente para seus próprios interesses. O resultado foi a derrota do planeta. É tempo de arregaçar as mangas e voltar ao trabalho. Afinal, as mudanças climáticas se tornam cada dia mais perigosas e a janela de oportunidade para controlá-las está se fechando. O palco desta vez será Cancún, no México, onde acontece a 16ª Conferência do Clima (COP16), entre 29 de novembro e 10 de dezembro. A vergonha de Copenhague teve um impacto negativo por mais de um ano nas negociações. Em Cancún, não há expectativas de se obter um consenso sobre o que cada país deve fazer, como havia em 14

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Copenhague. Porém, ainda é preciso avançar e preparar terreno para um acordo de redução do aumento da temperatura global. “Mais um ano se passou, as temperaturas voltaram a bater recordes, as catástrofes naturais, como a intensa seca na Amazônia, batem à porta, relembrando que o aquecimento global é um problema sério e urgente”, diz Nicole Figueiredo, da campanha de Clima do Greenpeace. “Infelizmente, enquanto as negociações não caminham, as populações mais pobres já sofrem com o aquecimento global.” O maior empecilho é a divisão de responsabilidades. Os países ricos precisam fazer mais, pois se desenvolveram às custas de muita emissão de gases do efeito estufa, principalmente para gerar energia. Já os países em desenvolvimento, especialmente os emergentes como China, Índia e Brasil, não podem se furtar de assumir metas de redução dessas emissões. Ainda que no passado tenha tido um papel menor no agravamento do efeito estufa, hoje a história é outra. Outro problema que carece de

solução é o destino do Protocolo de Kyoto, cujas metas vencem em 2012, pois alguns países que participam do protocolo não querem que ele seja mantido depois dessa data. Além disso, na COP16, os países ainda precisam detalhar como funcionará um fundo para aporte de recursos em mitigação (as ações que reduzem as emissões de gasesestufa), adaptação para os países em desenvolvimento já afetados pelos efeitos do aquecimento global e transferência de tecnologias limpas, das nações ricas para as pobres, para que possam crescer sem afetar tanto o ambiente. O Greenpeace defende que os países participantes da COP16 assumam metas ambiciosas de redução de emissões, reconhecendo que um aquecimento em 2ºC é perigoso para a vida na Terra e que, para isso, o pico de emissões globais deve ser alcançado até 2015, começando a decair logo em seguida. Acompanhe nossa atuação na COP16 em www.greenpeace.org.br

© Sataporn Thongma/Greenpeace

clima

Protesto em Bangkok, Tailândia, cobrando medidas efetivas para proteção do clima durante a COP16.


biodiversidade

© Greenpeace/Alcides Falanghe

© Greenpeace/Rodrigo Baleia

© Greenpeace/Daniel Beltra

© Greenpeace/Daniel Beltra

© Greenpeace/Paul Hilton

Samiri (Saimiri sciureus) na Amazônia.

© Greenpeace/John Novis

De olho no futuro Laura Fuser

Convenção de Biodiversidade empurra metas modestas de conservação para 2020. A boa notícia está em acordo contra biopirataria.

A

pós uma longa ressaca pelo fracasso da COP15 (15ª Conferência do Clima), no final de 2009, finalmente uma reunião da ONU acenou um acerto. A 10ª CDB (10ª Conferência da Convenção sobre a Diversidade Biológica) fechou em outubro em Nagoia, no Japão, com um aguardado acordo de combate à biopirataria e uma divisão mais justa dos benefícios gerados pelo uso de recursos genéticos. Mas fracassou no principal: o cumprimento de metas ambiciosas de conservação da biodiversidade marinha e terrestre. Os países estão longe de atingir as metas estabelecidas em 2002, com validade de dez anos. Por isso, a CDB prorrogou o prazo, com metas muito semelhantes às anteriores: até 2020, 10% da área marinha e 17% da terrestre do mundo devem estar sob proteção, um aumento de apenas 2% em comparação ao que já foi feito até hoje. “É muito pouco. Reivindicamos, até 2020, 40% de áreas marinhas conservadas, além da criação de uma rede global de áreas terrestres protegidas e o desmatamento zero para a Amazônia, uma das mais ricas fontes de recursos naturais do mundo”, diz Paulo Adario, diretor da campanha da Amazônia do Greenpeace. Idealizado pela ONU como o Ano Internacional da Biodiversidade, 2010 termina sem o cumprimento da

meta de zerar a perda da biodiversidade em áreas de alto valor de conservação. “Agora eles querem mais dez anos para tentar novamente. Ficamos menos ambiciosos”, afirma Adario.

AVANÇO A boa notícia ficou por conta da ratificação do protocolo de repartição de benefícios dos recursos genéticos de fauna e flora. O protocolo é resultado de antigo embate entre países ricos em biodiversidade, caso do Brasil, e os que usufruem dela. O acordo garante o pagamento de royalties tanto pela extração quanto pelo uso do conhecimento tradicional – de comunidades indígenas, por exemplo, acerca dos recursos naturais. Se, por exemplo, determinado povo conhece as propriedades de uma raiz para combater alguma doença, ele poderá ser beneficiado pelo uso desse conhecimento no desenvolvimento de um remédio por uma empresa farmacêutica. A meta é criar um fundo para investimentos em conservação e, em longo prazo, inibir a biopirataria no mundo. “O protocolo reconhece que existe tecnologia envolvida no saber antigo sobre o potencial da nossa biodiversidade e, portanto, essa tecnologia precisa ser paga”, explica Adario.

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oceanos

Peixe paru (Pomacanthus arcuatus) no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.

Zona de risco Danielle Bambace

Novo relatório de oceanos mostra o conflito entre áreas de conservação marinhas e a exploração de petróleo na costa brasileira.

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© Greenpeace/Alcides Falanghe

zona costeira e marinha brasileira ocupa aproximadamente 4,5 milhões de quilômetros quadrados e se estende por mais de 8.600 quilômetros de extensão. Os números são apenas um detalhe perto da beleza e da diversidade de espécies. Apesar disso, e de sua importância para ajudar a manter o planeta em equilíbrio, ela sofre com pesca além da conta, poluição, aquecimento global e exploração crescente de combustíveis fósseis. Esse último fator, aliado à falta de vontade política de governos federal e estaduais para promover ações de conservação e sustentabilidade, é uma bombarelógio. O relatório “Mar, petróleo e biodiversidade –

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A geografia do conflito”, que o Greenpeace acaba de lançar no Brasil, mostra o conflito que existe entre o que deve ser conservado e o que tem sido explorado no litoral do país. O relatório sobrepõe graficamente unidades de conservação e áreas prioritárias de preservação, por apresentarem alta biodiversidade, e blocos de exploração e produção de petróleo. O que se vê é o retrato de um governo que passa por cima da natureza sem pudores: muitos dos blocos de exploração de petróleo se encontram em áreas que deveriam ser preservadas. Hoje, apenas 0,4% da nossa zona costeira está protegida na forma de unidades de conservação federal.


Região Sudeste

Capital estadual Zona econômica exclusiva Limite estadual

Unidades de conservação

Se as unidades estaduais forem contabilizadas, esse número sobe para ainda míseros 1,5%. Isso apesar de as áreas marinhas protegidas serem a melhor ferramenta para permitir a manutenção e a recuperação da biodiversidade. “Hoje encontra-se pouca ou nenhuma vontade política para conservar a natureza de verdade, por meio da criação de novas áreas protegidas. As áreas importantes para a conservação vêm sendo ocupadas por atividades de exploração de combustíveis fósseis em nosso litoral”, conta Leandra Gonçalves, coordenadora da campanha de Oceanos do Greenpeace. Mares ameaçados e desprotegidos perdem suas principais funções ambientais, como a capacidade de absorver CO2 – o que ajuda a controlar o aquecimento global. O Brasil, portanto, segue na contramão dos esforços de proteção ambiental. Ao invés de investir em fontes de energias limpas e renováveis, acelera o desenvolvimento de tecnologias para a exploração de combustíveis fósseis no oceano.

ÁREAS SENSÍVEIS A região Sudeste é a que inspira mais preocupações, onde ficam a maior parte dos blocos de exploração, especialmente os do pré-sal

Tipos de unidade de conservação Proteção integral Uso sustentável

– reservas petrolíferas que se estendem do litoral do Espírito Santo até Santa Catarina. A atividade de exploração e produção de petróleo ocupa nessa faixa 21,81% das áreas prioritárias para a conservação marinha, enquanto apenas 0,59% foi destinado a unidades de conservação de proteção integral e 2,10%, a unidades de conservação de uso sustentável. Não há garantias de que impactos da exploração do pré-sal não sejam irreversíveis. Existem desafios técnicos (como perfuração da camada de sal, profundidade dos poços, logística das plataformas, entre outros) e ambientais (como impactos ao ecossistema marinho e aumento nas emissões de gases de efeito estufa) que ainda carecem de soluções provadas viáveis. O mar de incertezas não tem fim. “Está mais do que na hora de o governo se reunir com a sociedade e debater de que forma será ordenado o território marinho, antes que dele não sobre nada além de poluição”, afirma Gonçalves. O Greenpeace propõe a criação de 30% de áreas marinhas protegidas no litoral brasileiro, 40% de reservas marinhas em áreas oceânicas e um ordenamento territorial marinho que compatibilize o desenvolvimento econômico, social e ambiental.

Classificação de áreas prioritárias Muito alta e extremamente alta Alta Insuficientemente conhecida

Todas as informações usadas no relatório são públicas – o governo só não vê se não quiser. A organização ficou a cargo do Laboratório de Geoprocessamento do Greenpeace Brasil, localizado no escritório em Manaus, e realizada por meio do processamento de bases de dados disponibilizadas pelo Ministério do Meio Ambiente e o Ministério de Minas e Energia.

Gorgônia (Phyllogorgia dilatata).

© Greenpeace/Alcides Falanghe

Exploração e produção   Terminais de petróleo Campos de produção Blocos de exploração

Visite www.greenpeace.org.br/revista para visualizar os mapas e saber mais sobre o tema.

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cartas

Portas fechadas

Começa com você “Não deixem que te digam como o progresso do país deve ser, mas mostre ao mundo como a sustentabilidade deve acontecer. Envolva-se!”

ativismo

Bernardo Camara

Alguns meses após denunciar o desmatamento desenfreado que corre pela Indonésia, o Greenpeace é proibido de entrar no país com seu navio.

Gabriela Lucena Pereira, vencedora da promoção “Vá ao SWU com o Greenpeace”

Você também pode mandar seu comentário, dúvida ou sugestão.

© John Javellana/Greenpeace

REVISTA DO Greenpeace Rua Alvarenga, 2331 Cep: 05509 006 - São Paulo SP

ASSOCIAÇÃO CIVIL GREENPEACE Conselho diretor

Filipinos observam o navio Rainbow Warrior no primeiro trecho do tour “Virando a maré”.

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uma campanha contra o desmatamento e por fontes de energia renováveis, o navio Rainbow Warrior cruzou o Sudeste Asiático nos últimos dois meses. A tripulação do Greenpeace passou por cidades e vilarejos, conversou com autoridades e população e no dia 13 de outubro chegou à Indonésia. Ficou à deriva: o governo local proibiu o navio de atracar. Junto à proibição não veio explicação. A justificativa era a de que o navio não tinha as devidas permissões para ingressar no país, o que causou estranheza à organização. Cinco anos antes, o Rainbow Warrior já havia aportado na região para fornecer ajuda humanitária às vítimas do tsunami. E, há seis meses, o presidente do país, Susilo Bambang Yudhoyono, disse estar disposto a trabalhar com organizações ambientais para estancar o desmatamento que segue em larga escala por ali. “O Greenpeace está desapontado por não ter recebido a permissão para entrar na Indonésia e saudar o presidente Yudhoyono por sua intenção de declarar dois anos de moratória ao desmatamento”, afirma Bustar Maitar, que coordena a campanha de Florestas do Greenpeace no país. Yudhoyono fez o anúncio em maio, quando as discussões sobre a destruição de florestas indonésias estavam a todo vapor. Foi nessa época que o Greenpeace soltou um relatório mostrando como a Sinar Mas – maior produtora de óleo de dendê e de papel e celulose da Indonésia – derrubava enormes extensões de matas. A multinacional não parou a destruição e iniciou uma campanha de difamação contra o Greenpeace que parece ter influenciado o governo. “Esperamos que as autoridades providenciem as permissões para que possamos conversar sobre a questão do desmatamento, tema crítico não só para a Indonésia mas para o planeta e toda sua população”, disse Maitar. Não há previsão para a autorização ser dada ao Rainbow Warrior. Mas nem por isso o trabalho do Greenpeace na região vai ficar parado.

Presidente Conselheiros

Diretor executivo Diretor de campanhas Diretor de campanha da Amazônia Diretor de comunicação Diretora de marketing e captação de recursos

Marcelo Sodré Eduardo M. Ehlers Marcelo Takaoka Pedro Leitão Raquel Biderman Furriela Marcelo Furtado Sérgio Leitão Paulo Adario Manoel F. Brito Clélia Maury

REVISTA DO GREENPEACE É uma publicação trimestral do Greenpeace

Editora Editora de fotografia Redatores

Designer gráfico Prepress e impressão

Cristina Amorim (MTb 29391) Danielle Bambace Ana Galli Bernardo Camara Caroline Donatti Danielle Bambace Juliana Tinoco Laura Fuser Karen Francis W5 Criação e Design D’lippi

Este periódico foi impresso em papel reciclado em processo livre de cloro. Tiragem: 32 mil exemplares. www.greenpeace.org.br

O selo FSC garante que este produto foi impresso em papel FSC.

ATENDIMENTO telefone 11 3035 1151

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e-mail

relacionamento@greenpeace.org


No dia 4 de outubro uma maré de lama tóxica vazou de uma fábrica de alumínio na Hungria e inundou sete povoados, matou nove pessoas e feriu outras 150. O derramamento gerou uma catástrofe ambiental, contaminando até mesmo o Rio Danúbio, apesar da empresa Mal Rt, responsável pelo derramamento, afirmar que, pelos padrões europeus, a lama não era considerada perigosa. Estima-se que será necessário ao menos um ano para realizar toda a limpeza da região. Na foto, ativista do Greenpeace recolhe amostra da lama para análise.

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© Waltraud Holzfeind / Greenpeace

Lama movediça


© Luis Sandoval/Greenpeace

RAINBOW WARRIOR

Muito além do petróleo Quatro ativistas do Greenpeace nadaram ao encontro de um navio gigante de perfuração de petróleo operado pela Chevron. Os ativistas tentavam deter o progresso da embarcação rumo a um local de perfuração em águas profundas na Escócia. Os quatro deixaram o Esperanza a bordo de botes infláveis e dirigiram 100 milhas ao norte de Shetland, extremo norte do país. O esforço dos ativistas foi um pedido desesperado para que o mundo vá além do petróleo e para que políticos decretem a proibição de todas as perfurações em águas profundas.

© John Javellana/Greenpeace

ESPERANZA

ARCTIC SUNRISE

Cada vez mais branco Mergulhadores do Greenpeace alertam sobre a necessidade de proteger os oceanos com a criação de reservas marinhas. Em sua expedição pelo Golfo do México, o Arctic Sunrise constatou que altas concentrações de CO2 na atmosfera causam estragos nas profundezas do golfo. O cientista mexicano Hector Reyes Bonilla, que estava a bordo do navio, indica que grande parte do recife de Alakranes está embranquecendo. A perda de coloração das colônias de corais é resultado da morte de algas que coabitam os recifes.

Para acompanhar o paradeiro dos navios em imagens ao vivo acesse: entre em: http://www.greenpeace.org/international/photosvideos/ship-webcams

Energias limpas já Como parte da expedição “Virando a maré”, o Rainbow Warrior foi aberto ao público em Maasim, cidade ao sul das Filipinas. Para mobilizar milhares de filipinos, o navio fez várias paradas ao longo da costa esclarecendo os problemas gerados pelas energias sujas. Há planos para a construção de uma usina de carvão em Maasim, que vai interferir na saúde e na qualidade de vida das pessoas da região. O Greenpeace apoia comunidades no Sudeste da Ásia na luta contra o carvão e incentiva a população a pressionar por mais investimentos em energias limpas e renováveis no país.

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© Will Rose/Greenpeace


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