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Sinopse Causa mortis: coração partido. Às vésperas de completar 16 anos, Aubrie Eagan tem tudo que uma adolescente pode desejar. Ela vive em uma casa linda com os pais, o irmão caçula e um adorável cachorro na tranquila Half Monn Bay, na belíssima costa da

Califórnia, faz parte da bem-sucedida equipe de mer-

gulho de plataforma da Pacific Crest High School, tem um grupo de melhores amigas daquelas para toda a vida e está apaixonada pelo lindo Jacob Ficher, estrela do time de atletismo da escola. Mas quando, no que deveria ser o jantar mais romântico de todos os tempos, ele diz para Brie as quatro palavras que nenhum garoto jamais deveria falar para a namorada – “Eu não te amo” –, o coração da menina literalmente racha em duas partes. Em A catastrófica história de nós dois, a

autora Jess Rothenberg traça com muita sensibilidade e humor a

trajetória de Brie após a morte... e antes do destino final.

Morrer não foi uma experiência agradável para Brie. Afinal, seu coração partiu de verdade. Além do órgão em dois pedaços que seu pai, Daniel, um cardiologista de renome mundial, estuda obsessivamente na tentativa de entender como a filha morreu, dentro do peito da adolescente há um vazio penetrado apenas por uma dor imensa. Jacob era seu primeiro amor, o menino dos beijos mais deliciosos do mundo, a promessa de uma paixão perfeita, que não terminaria como tantas outras histórias. Mas, como Brie logo aprende, a morte está longe de ser o fim. O lado de lá é bem parecido com o de cá e tem até sua pizzaria favorita, a Pedacinho do Céu, onde Brie costumava ir com a família e pode, agora, ~2~


passar a eternidade

comendo sua pizza preferida. Mas a Pedacinho do Céu do

além é diferente. Lá é um lugar onde outros mortos, todos jovens, ficam à espera de que algo aconteça, algo que nem eles sabem o que é.

Também é lá que Brie conhece Patrick, a alma penada

residente, um

garoto de 17 anos com um visual no melhor estilo Tom Cruise no filme Top gun, atraente, inteligente e irritante. Patrick dá a adolescente o manual M&E – Morto & Enterrado, com tudo que ela precisa saber sobre a nova fase, mas Brie não quer aceitar qualquer tipo de ajuda. A jovem está processando as diversas perdas que sofreu, sobretudo a vida que deixou para trás e a que deveria ter tido, e vivenciando a primeira das cinco etapas do luto: a negação, que será inevitavelmente seguida por raiva, barganha, tristeza e aceitação. E é esse caminho difícil, pontilhado por muitos erros e grandes descobertas, que o leitor é convidado a compartilhar com Brie, dos mergulhos do topo da Golden Gate Bridge, em São Francisco, caminho para os mortos visitarem o mundo dos vivos, ao horror ao ver sua família esfacelada, incapaz de lidar com a morte prematura da menina; da tristeza de não poder estar com Emma, Sadie e Tess, suas grandes amigas, à raiva que sente por Jacob, para ela o grande culpado pela situação em que se encontra.

Jess Rothenberg aborda com delicadeza ímpar a rebeldia de uma adolescente morta, explorando com vívida imaginação o universo após a morte, seus perigos e tentações. Com mão segura, ela mostra como Brie fica determinada a se vingar de Jacob e a mudar o passado, e como pela chance de salvar o casamento dos pais a jovem arrisca sua alma imortal e tudo que ainda pode ter, mesmo no além. Sempre recheado de referências pop, tema no qual Brie é uma expert e dividido em capítulos que levam nomes de grandes sucessos musicais, sobretudo ~3~


da década de 1980, A catastrófica história de nós dois é leitura obrigatória para quem quer rir e se emocionar com uma tocante jornada de autoconhecimento e entender um pouco mais sobre perda e recomeços.

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“O amor é um piano jogado do quarto andar em alguém que está no lugar errado, na hora errada.” – ANI DIFRANCO

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Parte I DAS CINZAS ÀS CINZAS

Capítulo 1 don’t you (forget about me)

Sempre existe aquele cara que te pega. Não como o

irmão do seu

melhor amigo, que te dá àquela chave de braço. Nem a criança de quem você toma conta que gruda na sua perna. Estou falando de uma coisa épica, que transforma a sua vida. Aquela coisa do tipo “não consigo comer, dormir, fazer o dever de casa, parar de sorrir, pensar em outra coisa que não seja o sorriso dele”. Tipo Wesley e Buttercup. Harry e Sally. Elizabeth Bennet e Mr. Darcy. O tipo de relação de que falam todas as suas músicas preferidas dos anos 1980, tipo “Must Have Been Love”, “Take My Breath Away”, “Eternal Flame” – aquelas que você cantava com as melhores amigas numa noite de sábado usando a escova de cabelo como microfone. Aquele tipo de relação de que você ouviu falar lendo o diário da sua irmã mais velha, que ela descrevia sempre que saía com o namorado, e que você espera, reza e implora que aconteça com você, mas que quando acontece você fica

completa e totalmente maluca, perde a noção da

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realidade ou qualquer lembrança de como as coisas eram antes de ele entrar na sua vida e destruir tudo. O amor é mesmo sorrateiro. Ele se instala no minuto em que você vira a cabeça para conferir se seu bumbum está bonito naquela calça jeans nova. No segundo em que você se desconcentra pensando na prova, ou em quem ficou com quem na festa de 15 anos da sua melhor amiga, no fato de não ter conseguido o papel principal na peça do colégio (te odeio, Maggie Elliot) e por isso ter que interpretar a Cinderela, quando todo mundo sabe que o personagem da bruxa é muito melhor. Até que, de repente, você acorda um dia e se dá conta da verdade: aquele garoto — um garoto que você conhece desde sempre e nunca imaginou que pudesse ser um namorado em potencial; um garoto que você nunca achou bonitinho; um garoto que é meio idiota e sempre usa a mesma camiseta de skate; um garoto que é obcecado por O senhor dos anéis e pela tatuagem de dragão que vai fazer na perna quando tiver 18 anos — vira, de repente, a única coisa em que você consegue pensar. O problema é que se apaixonar não tem nada de “divertido”. Não. Na maior parte do tempo você simplesmente fica enjoada, louca, nervosa e ansiosa com a possibilidade de tudo acabar de uma maneira terrível e sua vida ser arruinada por completo. E adivinha? É exatamente isso que acontece. Tudo bem, é, ele tem um cheiro incrível. E, é verdade, você se derrete toda vez que ele manda um torpedo dizendo “Boa noite”, e, é isso mesmo, os olhos dele são tãaaao azuis. E, sim, ele pega na sua mão no caminho para a aula de geometria e entende seus segredinhos estranhos e faz você rir tanto que o refrigerante espirra pelo seu nariz na frente de~7~


le, mas você não liga, apesar de ser a coisa mais constrangedora do planeta. E, sim, é verdade, quando ele te beija o resto do mundo desaparece, seu cérebro desliga completamente e você só consegue sentir aqueles lábios, e nada mais importa. E, sim, ele diz que você é linda e, de repente, você é. Mas atenção: isso tudo é uma enorme confusão e um pesadelo gigante, e está prestes a explodir bem na sua cara e você não faz a menor ideia de onde está se metendo. O amor não é um jogo. As pessoas cortam as orelhas por causa desse troço. Se jogam da Torre Eiffel, vendem tudo que têm e se mudam para o Alasca para viver com ursos-pardos, são comidas vivas por lá, sem ninguém por perto para escutar seus gritos de socorro. É isso mesmo. Se apaixonar é quase a mesma coisa que ser engolida viva por um urso-pardo. Pode acreditar em mim, eu sei. Porque, não sei se cheguei a comentar… mas aconteceu comigo. Não, não estou dizendo que fui comida viva por um urso-pardo. O que aconteceu comigo foi muito, muito pior. Eu tinha 15 anos quando morri de coração partido. Isso não é nenhum mito ou lenda urbana, não. Estou falando de Morte por Coração Partido, de verdade. Não, eu não me matei. Não, não fiz greve de fome. Não peguei pneumonia vagando aos prantos pelas ruas debaixo de chuva, ao estilo Razão e sensibilidade, apesar de ser meio obcecada pela Kate Winslet. Não, fiz bem como antigamente. Meu coração, literalmente, SE PARTIU AO MEIO. Eu sei. Também não achava que uma pessoa pudesse morrer disso de verdade. Mas sou a prova viva (bem, não exatamente viva). Mesmo ~8~


que a maioria das pessoas ache que a culpa da minha morte repentina tenha sido o sopro no coração com que nasci. Mesmo que crescer com isso não tenha sido um sofrimento tão grande assim e eu tenha sido sempre perfeitamente saudável — nunca precisei tomar remédios ou ficar sem praticar esportes ou coisas do gênero. Na verdade, eu era o extremo oposto disso. Eu era forte. Enérgica. Meio levada. Até fui escolhida para fazer parte da equipe de mergulho do ensino médio da minha escola quando ainda estava no sétimo ano. Não que isso importasse. No fim das contas, meu coração se partiu mesmo assim. Meu nome era Brie. Isso, feito o queijo. É engraçado, todo mundo sempre acha que meus pais eram, tipo assim, apaixonados por queijo — tendo uma filha chamada Brie e um filho chamado Jack —, mas meu nome era, na verdade, Aubrie, e o do meu irmão, Jackson. Tudo ia maravilhosamente bem para mim no ano em que morri. Eu morava no lugar mais lindo do planeta, no norte da Califórnia. O lugar chamava-se Half Moon Bay, uma cidadezinha litorânea aninhada entre florestas de sequoias e a acidentada costa do Pacífico, 45 quilômetros ao sul de São Francisco. A praia era, literalmente, o quintal da minha casa. Eu tinha a família perfeita: mamãe, papai, Jack e Hamloaf (nosso basset hound). Eu tinha melhores amigas perfeitas: Sadie Russo, Emma Brewer e Tess Hoffman. E tinha o namorado perfeito: astro do atletismo, vice-representante de turma, o Mais Gato dos Gatos, Jacob Fischer. ~9~


Antes de morrer, eu tinha tudo e mais um pouco. Eu era feliz. Mas tudo isso mudou na noite de 4 de outubro de 2010 – quando senti uma dor lancinante no peito e tive um colapso na mesa de um restaurante, sentada de frente para o Jacob. A noite da qual nunca acordei. Simples assim. BUM. Fim da linha. Jogo encerrado. Nada a receber. Era o fim de uma vida. Minha vida. Nas duas primeiras horas depois da minha morte, acho que pensei que finalmente estivesse prestando contas por todos os anos correndo, mergulhando, escalando árvores, subindo e descendo as colinas de São Francisco de bicicleta em velocidades absurdas. Meu coração devia ser mais fraco do que todos pensavam que fosse. Afinal, devia haver algo muito, muito errado comigo. Alguma coisa que nem o meu pai tinha sido capaz de prever. (E ele é um cardiologista internacionalmente conhecido.) Meu último suspiro aconteceu numa segunda-feira. Um dia da semana nada ruim para se partir, na verdade, já que todo mundo já está de péssimo humor desde a noite de domingo. Quero dizer, pelo menos não arruinei grandes planos de uma noite de sexta ou de sábado, certo? Não sou legal? Depois de alguns dias, os vizinhos começaram a deixar todo tipo de coisa na varanda da minha casa. Cozidos, quiches, pode escolher. Alguém até deixou um peru, totalmente dia de Ação de Graças, recémsaído do forno, quase explodindo de tão fresco. Acho que é isso que se faz quando alguém morre: as pessoas deixam uma porção de comida na ~ 10 ~


porta para que o restante da família não se esqueça de comer. Pena que ninguém lembrou que lá em casa todo mundo era vegetariano. Bem, menos o Hamloaf. (Aposto que ele comeu muito bem naquela noite.) Jack resolveu se encarregar de conferir a varanda todas as manhãs, principalmente porque Hamloaf tinha o hábito de comer tudo que via pela frente. Meu irmão era legal assim, sempre tomando a frente sem que ninguém precisasse pedir. Jack só tinha 8 anos quando eu morri e, apesar de eu não ter certeza se ele entendia o motivo de eu não estar mais ali, era grandinho o bastante para entender que eu não ia voltar. Ah, o rosto dele. Olhos verdes, grandes, o cabelo escuro ondulado, como o meu. Ele ainda tinha uma covinha na bochecha esquerda — absolutamente adorável quando ria, coisa que fazia bastante. Meu irmão e eu éramos melhores amigos desde o segundo em que minha mãe e meu pai chegaram em casa da maternidade e ele dormiu nos meus braços. Tem uma foto nossa na geladeira – ele, todo enroladinho num cobertor azul, de gorro, e eu, com meu pijama de Scooby-Doo, o cabelo preso em marias-chiquinhas bagunçadas. Daquele dia em diante, viramos companheiros. Camaradas. Éramos inseparáveis. Ele era o único capaz de me vencer no Lig 41. Meu funeral foi horrível, é claro, mas acho que a parte mais difícil foi ver o Jack olhando para o vazio. Ele não chorou. Não precisava. O colégio inteiro compareceu. A sra. Brenner, minha professora loura e bonita que morava do outro lado da rua desde que eu tinha 6 anos, 1

Tipo de jogo de tabuleiro que consiste em um tabuleiro bilateral e vertical com fichas vermelhas e azuis. Suas regras assemelham-se ao jogo da velha. Fabricado no Brasil pela empresa de manufatura de brinquedos Estrela.

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ficou o tempo todo do lado da minha mãe, segurando a mão dela. Meu pai estava de blazer cinza e usava a gravata que eu dei para ele de aniversário de 40 anos — com estampa de elefantes rosa e roxos. O rosto dele estava duro, cansado, e dava para ver pelas olheiras que não dormia havia dias. Estava sentado do lado direito da mamãe, com o braço em volta dela. Ele segurava com força, como se tivesse medo de largar. Como se ela pudesse se quebrar em pedaços. Ou talvez como se ele pudesse. Eu não consegui deixar de observar minha mãe, em particular. A maneira como ela encarava um arranjo de flores do outro lado da sala. O jeito como a pele dela parecia rachada, como se a tristeza de me perder tivesse aberto caminho pelos poros. O esmorecido aroma do seu perfume de rosas, resistindo no espaço entre nós. Mamãe. Passei os olhos pela multidão, pensando em como era surreal estar diante de tanta gente. Prestando atenção em todos os detalhes e me perguntando por que tantas daquelas pessoas, que mal se preocupavam em me dar bom-dia quando eu estava viva, estavam ali. Aaron Wilsey, um garoto que fez aula de geografia comigo no sétimo ano, que nunca fazia o dever de casa e desenhava tubarões no caderno a aula toda. Lexi Rhodes, que tinha começado a usar delineador preto no primeiro dia do nono ano. Mackenzie Carter, que começara com essa história de Jesus alguns verões antes e nunca mais voltara atrás. Eu me perguntei se ela acreditava que eu estava com ele agora. Perguntei-me se pensar nisso fazia com que se sentisse melhor.

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Centenas de adolescentes, amigos, pais e professores ocupavam as fileiras do auditório da Pacific Crest High School, onde eu tinha acabado de começar o penúltimo ano do ensino médio. Então, lembrei: o meu não era o primeiro velório que acontecia ali. Era o segundo. O primeiro foi de uma menina poucos anos mais velha que eu, chamada Larkin Ramsey, que morreu num incêndio provocado por uma vela que ela acendeu no próprio quarto. Eu não falava com Larkin havia pelo menos dois anos quando ela morreu, mas nossas famílias se revezavam na carona para o colégio quando nós éramos pequenas, e eu e ela éramos bem amigas nessa época (brincávamos juntas no jardim, andávamos de patins depois da aula, esse tipo de coisa). Ela tinha um lindo cabelo preto e me ensinou a fazer trança embutida, coisa que aumentou meu charme no quarto ano em mais ou menos 39 por cento. Depois, quando ela estava no nono ano e eu no sétimo, tivemos uma briga por causa de alguma coisa idiota que nem sei mais o que era e nos afastamos. Eu comecei a mergulhar e ela começou a se interessar por fotografia, e só. Quando finalmente entrei no ensino médio, ela já tinha se tornado apenas mais um rosto no corredor amontoado de gente. Isso me entristecia, lembrar das coisas divertidas que fazíamos juntas quando éramos crianças. Mas acho que a verdade é que às vezes amigos vão embora e outros entram na nossa vida como acessórios de moda — uns numa estação, outros na próxima. Mais ou menos como namoradas, não é, Jacob? Lembro da manhã em que fiquei sabendo da Larkin. Nosso técnico tinha convocado o time para um treino às 6 horas da manhã e eu tinha acabado de terminar um mergulho – um giro quase perfeito saindo de ~ 13 ~


um trampolim a 3 metros de altura. Algumas das minhas companheiras de equipe estavam cochichando enlouquecidamente na porta do vestiário, então cruzei a piscina nadando e saí para ver o que era. Ainda sentia a adrenalina no meu corpo quando tirei a touca de natação e comecei a me secar com a toalha. — E aí, Mo, o que é que está acontecendo? As Cyclones amarelaram do nosso encontro, é isso? Os olhos dela me diziam que eu não estava nem perto. — Houve um incêndio, ontem à noite — disse ela. — Uma garota do segundo ano morreu. Eu parei de me secar, a toalha pendurada na mão. — Quem? Quem morreu? Ela colocou a mão no meu ombro e as outras meninas me encararam. — Ela era sua amiga de infância, acho. Larkin Ramsey. Ainda me lembro da sensação no meu estômago quando as palavras saíram da boca da Morgan. Ainda me lembro das gotas geladas de água rolando pelas minhas costas como se fossem lágrimas. Minha amiga de infância. Larkin Ramsey. Todos nós fomos ao funeral como uma família. Quem imaginaria, alguns anos antes, que estaríamos ali novamente — dessa vez por minha causa? As mesmas lâmpadas brancas estavam penduradas em todo o auditório, e uma foto enorme do meu rosto — devia ter pelo menos uns 3 me~ 14 ~


tros — tinha sido colocada no centro do palco. Fora tirada uns seis meses antes, na casa da Judy, durante a comemoração do aniversário do Jack. Na foto, eu usava um suéter azul por cima da camisa cinza de estampa de girassol, e estava com um meio rabo de cavalo, com minhas presilhas brilhantes azuis. Meu pai deve ter me contado uma das suas piadas idiotas e eu estava rindo quando ele tirou a foto. Não era exatamente a foto minha de que mais gostava, mas pelo menos eu não estava com uma espinha medonha no nariz nem comida nos dentes, ou qualquer outra coisa realmente constrangedora. Mesmo assim, era muito estranho ver meu rosto naquele tamanho gigantesco de frente para um auditório lotado, tipo, na frente de milhões de olhos. Depois, veio aquele momento em que as pessoas se levantam e começam a compartilhar lembranças. Meu professor de química, dr. O’Neil, contou da vez em que eu quase incendiei minha mesa tentando criar um eletroímã (um erro inocente de cálculo) e lembrou que eu era sempre a primeira pessoa a se oferecer quando um estudante mais novo precisava de ajuda com deveres de casa. Meu técnico de mergulho, Trini, se levantou com duas companheiras minhas de equipe, Alli e Mo, e contou a história da final do ano anterior contra o San Mateo Prep, quando acrescentei, de última hora, um movimento que levou a equipe ao primeiro lugar e garantiu nosso posto na competição regional. Alli falou do meu amor incondicional e meu conhecimento enciclopédico de todos os estilos musicais (principalmente dos anos 1980), minha obsessão absoluta por sorvetes Wendy e da falta que eu ia fazer no time. Minha professora de espanhol, a sra. Lopez, usando um de seus tradicionais vestidos de linho, contou para todo mundo que uma vez eu ~ 15 ~


traduzi um episódio inteiro de Friends para o espanhol e cantei “Smelly Cat” (“Gato Maloliente”) para a turma. Ela cantou um pouquinho da música e todo mundo riu, até meus pais. Na verdade, todas as histórias eram engraçadas. Todas as lembranças, doces. Por um segundo foi quase possível esquecer que aquilo era um velório. Eu não tinha a sensação de que alguém morrera. Não era mórbido, deprimente ou assustador. Na verdade, era meio divertido ouvir o quanto as pessoas gostavam de mim. Lembro de me sentir boba por ter me preocupado com isso, por ter achado que seria difícil assistir. Mas o clima estava leve. Como se fosse uma comemoração ou uma festa. E, ali, eu era a estrela. Depois, Sadie, Emma e Tess se levantaram. Vi as três caminharem até o palco de mãos dadas. Todas pareciam tão jovens. Tão vivas. Sadie, baixinha, bonita e de cabelo escuro, estava usando o anel do humor que eu tinha dado para ela no aniversário de 13 anos. O cabelo louro de Emma estava preso para trás e os olhos da minha amiga estavam inchados de tanto chorar. Tess, o cabelo ruivo bagunçado e cheia de sardas, segurava um lírio branco na mão esquerda. Minha flor preferida. Era louco ver as três juntas sem mim, como se, de alguma maneira, o universo estivesse desequilibrado. Nossas iniciais juntas diziam BEST. Quando éramos pequenas, meu pai costumava nos chamar de As Quatro Temíveis. Agora, nosso quarteto estava desfalcado. Elas não tinham como saber que eu estava ali no palco, assistindo, a alguns metros de distância. Querendo dizer para elas que ia ficar tudo ~ 16 ~


bem, mesmo que eu não tivesse tanta certeza. Mas os mortos não falam, afinal de contas. Minhas amigas se entreolharam e respiraram fundo. E Sadie começou a cantar. Sozinha. Uma voz linda. I will remember you. Will you remember me? Don’t let your life pass you by. Weep not for the memories. Ela hesitou por um segundo na palavra memories, a voz de soprano tremendo. Então, Emma e Tess se juntaram a ela, e as três deram os braços. Minhas melhores amigas no mundo inteiro. A harmonia daquele trio de coração partido ecoando no total silêncio do auditório. Meu Deus. Olhei em volta. Minha mãe começou a chorar, o corpo tremendo. Meu pai estava tentando ser forte. De qualquer forma, lágrimas rolavam pelo seu rosto. Os braços da minha mãe em volta do Jack. Os olhos dele, vazios, olhando para frente. O rosto escondido pelo cabelo. Depois das primeiras frases da música, o auditório inteiro desabou. Professores, amigos. Adolescentes que eu amava, que eu odiava, que eu nunca conhecera de verdade. Todos chorando. Chorando por mim. Então, eu o vi. O cabelo escuro, meio comprido, despenteado. Os olhos lindos azuis fixos no chão de linóleo. A jaqueta velha e macia que eu já sentira na minha pele tantas vezes. Os lábios perfeitos. Os lábios que beijei todos os dias durante quase 11 meses. Ele estava nos fundos do auditório, como se fosse um fantasma. Mas não era ele o fantasma. ~ 17 ~


Era eu. Foi aĂ­ que perdi o controle.

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Capítulo 2 take another little piece of my heart now, baby

Quando desci da minha maca de rodinhas no hospital e li meu atestado de óbito — aquele que preenchem logo depois que você morre — , vi onde o médico tinha anotado a hora da minha morte (20h22) e, então, três palavras que nunca vou esquecer. Insuficiência cardíaca aguda. Também conhecida como falência do coração. Não sabia disso na época, mas aquele médico estava errado. Meu coração não falhou. Alguém fez meu coração falhar. Primeiro, fiquei com muita raiva de mim mesma. Deveria ter sido mais cuidadosa. Deveria ter ido ao médico com mais regularidade, feito check-ups frequentes, tomado algum remédio, ou então não ter sido tão exigente comigo nos treinos de mergulho, como se eu fosse invencível ou qualquer coisa do gênero. Porque no momento em que me sentei e percebi que tinha morrido, eu teria feito qualquer coisa — qualquer coisa mesmo — para ter uma segunda chance. Tive a sensação de que tinham mentido para mim. Todos me prometeram que eu teria uma vida boa, saudável, normal. Meu pai prometeu. Mas enquanto eu observava o grupo de médicos e enfermeiros em volta da radiografia do meu peito — pendurada numa parede com prega-

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dores na frente de uma caixa iluminada –, não consegui deixar de ficar confusa. Todos os especialistas olhavam fixamente para ela. Sussurrando. Apontando. Discutindo. — O que está acontecendo? – perguntei. Ninguém me respondeu, então fui até a caixa iluminada, tentei olhar por entre aqueles jalecos brancos e estetoscópios para ter uma visão melhor de mim mesma. Eu já tinha visto muitas radiografias de tórax (meu pai costumava trazer as chapas para casa e perguntar a mim e ao Jack quais eram as partes do coração), mas aquela era nova. Nenhum dos outros corações em nenhuma das outras radiografias se parecia com o meu, agora. Alguma coisa, definitivamente, não estava certa. E enquanto aquela foto do meu coração me encarava com frieza, como um filme antipático, me dei conta de que todos estavam errados. O sopro no meu coração não me matou. A rachadura no meu coração, sim. Em um instante, a noite inteira voltou a minha cabeça, esmagando minha memória como uma tonelada de tijolos. A força da pancada me jogou para trás e tentei me equilibrar segurando o braço de um dos médicos, mas minha mão passou por ele e eu caí no chão. Não que ele tenha percebido. De repente, lembrei da última coisa que Jacob me disse, do outro lado da mesa. As últimas palavras que ouvi enquanto estava viva. As quatro piores palavras na história da língua portuguesa. ~ 20 ~


Eu não te amo. Isso aconteceu imediatamente antes de tudo ficar estranho, borrado, esverdeado. Antes de a sala desaparecer. Antes que aquela dor terrível, avassaladora, esmagadora, apertasse o meu peito, uma dor maior do que qualquer coisa que eu já tenha sentido ou imaginado. Levei a mão ao peito e prestei atenção. Esperei. Mas não ouvi nenhuma batida. Nenhum tum-tum tum-tum familiar. Nada. — Um coração não para espontaneamente assim. — Ouvi um médico dizer. Hum, quer apostar? Eu teria pedido que todos se sentassem para que eu pudesse explicar, se tivesse tido tempo. Talvez, se estivessem no meu lugar naquela noite e escutassem o que escutei, ou sentissem o que senti, compreendessem como uma morte desse tipo é possível. Talvez então pudessem colocar os diplomas médicos de lado por um segundo e pensar com o coração uma vez na vida, em vez de usarem a cabeça. Se fizessem isso, talvez eu não precisasse ter um perito me rasgando ao meio para investigar meu interior e provar o que já estava na cara de todo mundo, bem ali no meu raio-X. — Vocês todos vão se sentir uns imbecis — falei, indo atrás dos médicos que me empurraram na maca de rodinhas para dentro do elevador e apertaram o botão N, de NECROTÉRIO. Lugar onde ninguém gosta de ir parar. O necrotério já é assustador em si, mas, podem acreditar em mim, é muito mais assustador quando é para VOCÊ que todos olham, o corpo absolutamente frio e duro — e, ah, é, nu — numa mesa. ~ 21 ~


Não que aquilo fosse, na verdade, eu. Meu eu verdadeiro estava sentado numa outra mesa, do outro lado da sala, chutando o metal do móvel, roendo as unhas. Observando. Esperando. Desejando que alguém me escutasse. — Está aí, preto no branco, muito claro! — gritei. — Não é o suficiente para vocês? Acho que não. Não gostei nada daquilo. A coisa toda parecia uma tremenda invasão de privacidade. Não queria que algum estranho me cortasse para olhar dentro do meu corpo, descobrir todos os meus segredos. Meu coração partido era problema meu. Não deles. Mas isso tinha a ver com meu pai, com sua necessidade de entender. Meu pai, o cientista louco. Para ele, minha morte era um quebracabeça. Não fazia sentido, ele precisava ver com os próprios olhos. Mesmo que minha mãe tivesse implorado para ele não fazer isso, mesmo tendo implorado para que ele deixasse para lá. Ele não poderia enterrar a filha sem saber a verdade. Infelizmente para mim, só existia uma maneira de descobrir. E, no final das contas, admito, acho que foi preciso que me abrissem ao meio para que eu também acreditasse. Não consegui olhar quando o patologista finalmente fez a incisão. Fechei os olhos e prendi a respiração enquanto o instrumento fazia um passeio lento, horrível, no meu peito. Eles me abriram. Toda. Cada pedacinho cavernoso. Olharam o mais profundamente que os olhos curiosos conseguiram. Fizeram todas as ~ 22 ~


medições. Registraram todas as descobertas e conclusões. Não que nada daquilo pudesse me ajudar. Mas quando finalmente atravessaram minhas costelas e desencavaram meu coração de adolescente, acho que talvez, só talvez, tenham sentido os próprios corações se partindo também. Lá estava, exatamente como a radiografia indicava. Apesar de toda a ciência não ser capaz de explicar. Mesmo que aquilo fosse o tipo da coisa que só acontece em músicas românticas. Olhei por cima do ombro do meu pai, por cima do meu cadáver, e encarei os fatos. Lá estava ele. Meu coração. Dormindo. Silencioso. E partido ao meio, duas metades extraordinariamente iguais.

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Capítulo 3 the cheese stands alone

Fui enterrada dois dias depois do memorial no colégio. Sabe aquela sensação horrível que temos quando sábado e domingo — aqueles dois dias perfeitos, felizes e totalmente mágicos de liberdade — estão prestes a acabar? Bem no momento em que o grande relógio começa a fazer aquele tique-taque torturante e você se dá conta de que nem começou a fazer os deveres de casa? Foi bem igual, só que cinquenta mil vezes pior. Estou falando daquela depressão derradeira e devastadora dos domingos. Minha mãe tinha pedido que Sadie escolhesse para mim meu vestido e meu sapato favoritos, já que ela era minha estilista desde o segundo ano do fundamental. O vestido era lilás escuro, de algodão, salpicado de florzinhas roxas e brancas, tinha bolsos internos escondidos e um laço que amarrava atrás. Os sapatos eram sapatilhas pretas, simples, mas que eu adorava porque brilhavam no sol. (Não que fossem brilhar muito no lugar para onde eu estava indo.) Decidiram deixar meu cabelo solto, emoldurando meu rosto. (Bem Ofélia.) Eu quase o cortei no verão, mas agora que o via todo esparramado daquele jeito, fiquei feliz por não ter feito isso. Finalmente, as meninas pediram para que eu fosse enterrada com meu colar dourado, com pingente de coração — um dos quatro que compramos numa lojinha ~ 24 ~


charmosa de São Francisco, chamada Rabbit Hole, no verão antes de começarem as aulas do ensino médio. Lembro muito bem desse dia. Tínhamos discutido os resultados do nosso importantíssimo teste Que princesa da Disney você é?, maravilhadas com os resultados “cientificamente exatos”. Prova A: Sadie era, obviamente, a princesa Jasmine. Era linda e exótica ao mesmo tempo (a mãe era israelita; além de ex-top model, para completar), e podia cantar “Um mundo ideal”, a música de Aladin, como ninguém. Prova B: Emma era Aurora, de A Bela Adormecida, o que fazia todo sentido, já que ela era a) loura, b) viciada em dormir e c) tão absolutamente doce que pássaros começavam a cantar, de verdade, aonde quer que ela fosse. Prova C: Tess era Ariel, o que não podia ser mais perfeito, porque seu cabelo era ruivo e ela era totalmente obcecada pelo único menino da nossa sala chamado Eric. Sem falar que até teve um caranguejo eremita de estimação quando era pequena. Existe coisa mais Ariel do que isso? (Resposta: acho que não.) E chegou a minha vez. Prova D: Bela. Resultado zero surpreendente, já que eu tinha gostado de dois garotos de cabelos compridos e cheios desde que o Garibaldo entrara na minha vida na época da pré-escola. Eu também era a maior rata de biblioteca e planejava a viagem que nós quatro faríamos pela Europa antes de entrarmos para a faculdade desde o primário. ~ 25 ~


Quero dizer, por favor. Eu com certeza queria mais do que essa vida do interior. Depois de cada uma cantar a música tema da sua princesa da Disney, demos de cara com a Rabbit Hole — literalmente um buraco no centro da Mission District que vendia todo tipo de bugigangas e roupas usadas, tipo luvas de renda, velhos chapéus de palha, joias antigas e bules de porcelana. Coisas que você provavelmente nunca procura, mas com certeza não consegue deixar para trás depois de ter visto. Coisas como nossos colares. Eram bastante parecidos — dourados, delicados, nem muito compridos nem muito curtos —, mas cada um tinha um detalhe diferente. O da Emma tinha um passarinho (como disse, passarinhos cantantes), o da Tess, uma sereia (penduricalhos, guizos? O dela tinha vinte!), e o da Sadie, uma estrela dourada. O maior sonho dela era ir para a Juilliard School e se tornar uma atriz famosa, e eu tinha a sensação de que ela chegaria lá. Era uma dessas pessoas que fazem com que você se sinta incrível, só por ter o prazer de conhecê-las. Com Sadie, tudo era iluminado e fácil. Eu amava Tess e Emma como se fossem minhas irmãs, mas minha ligação com Sadie era uma dessas coisas que a gente não sabe descrever. Ela era muito mais do que uma melhor amiga ou uma irmã. Era minha alma gêmea. O meu detalhe era um coraçãozinho dourado, porque eu era, de longe, a mais melosa e mais romântica de nós quatro – a única que acreditava que todo mundo encontra seu par perfeito, seja lá como for. Eu mal podia esperar pelo final feliz. (Oh, ironia do destino.)

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E, no final das contas, eu estava muito, muito feliz de ter meu colar comigo. Ele me lembrava das minhas amigas, da minha casa. Era reconfortante e fazia com que me sentisse segura. Principalmente quando fecharam meu caixão. “… da terra à terra…” Espere. “… das cinzas às cinzas…” Por favor. “… do pó ao pó…” Não. Por favor, parem. “… que esteja em paz…” Tchau, luz rosada do auditório do colégio. Tchau, pisca-piscas. Tchau, casa; tchau, respiração; tchau para o toque e para os sentimentos e abraços e para vida. Hora do apagar das luzes. Hora do escuro. De repente, fiquei com medo. Então, a multidão se dispersou e Jack se dirigiu para frente. Ele puxou o casaco do pastor. — Posso falar? O homem fez que sim com a cabeça. Engraçado ter um cara que eu nunca vi na vida enviando-me para o esquecimento. Jack olhou para a multidão de amigos e familiares; todos de óculos de sol, lenços por toda parte, seus sapatos afundando na areia. Comparado a eles, Jack parecia muito pequeno. Um homem pequeno vestindo ~ 27 ~


um terno pequeno. Quis correr até ele. Pendurar meu irmão no ombro como se fosse um saco de batatas, do jeito que fazia sempre, e voltar correndo para casa. Ele começou a chorar. Meu pai se aproximou e ajudou no discurso que ele tinha escrito para mim, intitulado: “Querida Cheddar.” (Apenas um dos muitos apelidos relacionados a queijos que tive ao longo dos anos.) Olhei para eles uma última vez. Mamãe, papai e Jack. Três patinhos enfileirados. Três patinhos em vez de quatro. Baixei os olhos. Isto está realmente acontecendo. Um buraco do tamanho de uma menina no lugar onde eu costumava estar. Um buraco do tamanho de uma menina onde deveria existir vida. Um buraco do tamanho de uma menina no chão vazio, silencioso. Meu Deus. Eu realmente, realmente, realmente não queria entrar ali. Mas entrei.

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Capítulo 4 excuse me while I kiss the sky

Eu estava caindo. Caindo no tempo e no espaço, nas estrelas e no céu, e em tudo que existe entre as coisas. Caí durante dias, semanas, e sentia como se fossem vidas e mais vidas. Caí até esquecer que estava caindo. Quando pousei, o mundo me recebeu como uma cama sem fim — um oceano feito de lençóis incríveis, cobertores quentinhos e travesseiros de penas. Dormi um sono sem sonhos e sem memórias. Cruzei cidades, montanhas, fotografias de viagens de família, aniversários, joelhos machucados, manhãs de Natal. Melhores amigas, balés, patins. Primeiros encontros. Primeiros beijos. Primeiro amor. Depois, em algum lugar muito profundo no meu peito, senti uma dor latejante. Um vazio estranho. Uma dor onde, em algum lugar do passado, ficava o meu coração. Abri os olhos.

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Parte II NEGAÇÃO

Capítulo 5 the long and winding road

Tudo escuro. Tudo voando e passando por mim a milhões de quilômetros por hora. Árvores, desfiladeiros e oceanos, tudo iluminado por flashes de luz, como quando você troca os canais muito rápido. Meu rosto estava comprimido a um vidro gelado, tudo zumbia e tremia. O assento quicava, a cada topada ricocheteando no meu bumbum. Quicando. Quicando. Quicando. Sentei. Lentamente, desgrudei meu rosto do vidro. Uau. Meu corpo inteiro doía. Como se eu tivesse acabado de correr uma meia maratona ou feito cinco aulas seguidas de aeroboxe. Toquei na minha bochecha e senti uma coisa molhada. Que nojo. Será que me babei toda?

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Esfreguei os olhos, levantei os braços bem em cima da cabeça e me alonguei. Meu estômago reclamou quando voltei a me sentar e olhei em volta. — Última parada, cinco minutos. — Ouvi uma voz rouca dizer através de um alto-falante. Olhei para cima e vi um velho num grande espelho retrovisor. Óculos fundo de garrafa. Supercareca, superenrugado. Vestido com uma capa azul-marinho. Parecia ter uns 150 anos. Definitivamente, velho demais para dirigir um ônibus. Espera um segundo. O que estou fazendo dentro de um ônibus? Dei uma rápida olhada. Tudo bem, estranho. Eu era a única pessoa no ônibus. Filas e filas de bancos vazios a minha volta. Comecei a sentir uma angústia, como se meu pulso estivesse disparado e meu coração batesse loucamente. Mas… isso não estava acontecendo. Coloquei a mão no peito e não senti nada. Senti um vazio estranho. — Hum, desculpe? — Minha voz estava rouca, então, limpei a garganta. — Senhor? Onde estou, por favor? — Na via expressa. — Sombras cortavam o rosto dele enquanto corríamos pela rodovia. — Para onde estamos indo? — Do Big Sur para o Coyote Point Park. Coyote Point? Isso era, tipo, a vinte minutos da minha casa. Olhei pela janela e tentei entender que cenário era aquele, mas estava muito

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escuro lá fora e estávamos andando rápido demais. Limpei um pouco da neblina que tinha embaçado o vidro, mas não ajudou. — Como eu vim parar aqui? Ele riu. — Você está perguntando isso para mim? – A voz dele meio que me lembrava a do meu avô Frank. Doce e sarcástica. Eu não estava a fim de piadas. — Um segundo. — Espremi os olhos e olhei novamente pela janela, achei ter visto uma coisa familiar. Aquilo ali, lá longe, era um farol? Talvez fosse Pigeon Point, onde papai nos levava para jogar frisbee. Pressionei meu nariz no vidro. É! Não é? Chamei o motorista do ônibus. — Moço? O senhor pode me levar para casa, por favor? Não é muito longe. Minha mãe e meu pai vão pagar, eu juro. Ele continuou dirigindo. Não respondeu. — Moço? — Tentei me levantar para me aproximar um pouco dele, mas o ônibus de repente fez uma curva e fui jogada de volta ao banco. Quicando, quicando. Tentei novamente, avançando aos poucos. — Moço? Moço, por favor. — Eu me agarrei nas alças dos bancos, fui de um em um, tentando chegar lá na frente do ônibus e tentando não tropeçar no caminho. Meus sapatos grudavam um pouco no chão, como se alguém tivesse derramado refrigerante e nunca se preocupado em limpar. ~ 32 ~


Demorei um pouco, mas finalmente cheguei até o banco atrás do dele, um pouco zonza e enjoada por causa daquele balanço todo. — Desculpa — disse de novo, agora mais alto. — Perguntei se o senhor poderia, por favor, me deixar na minha casa? É na Avenida Magellan, número 11, logo depois da Cabrillo. — Não tenho permissão para fazer nenhuma parada não programada. De repente, fiquei nervosa. Como eu chegaria em casa? Não tinha telefone, dinheiro, nada. — Onde está todo mundo? Quicando, quicando, quicando. — Todo mundo já saltou. — Quanto tempo eu dormi? Quicando. — Muito. — Por que o senhor não me acordou? — Não tenho nada a ver com isso. — Ele alcançou o microfone. — Última parada, dois minutos. — Um guincho agudo saiu do alto-falante. Eu me encolhi, tapando os ouvidos. Continuamos em silêncio, a noite passando, até que senti o ônibus diminuir a marcha e andar mais devagar. Os pneus cantaram quando entramos num estacionamento com chão de pedrinhas, uma luz neon brilhando à nossa frente. Finalmente, o ônibus parou. Deixou escapar um longo suspiro, como se fosse uma última respiração, até se acomodar na vaga. ~ 33 ~


Esfreguei mais um pedaço do vidro embaçado e tentei ler o sinal neon, que me parecia estranhamente familiar. Espera. O quê? Em um instante, minha cabeça começou a rodar e paisagens, sons e cheiros me rodearam de maneira esmagadora. Um furacão de dor avassaladora, quente, estrelas cadentes e buracos negros sem fim. Gargalhadas e lágrimas, ecos dos gritos de um menino chamando meu nome atravessavam uma estrada enevoada coberta de restos de motocicletas. Velas, claustrofobia, terra, fogo e lama atravessando as rachaduras do chão. Segurei minha cabeça. Senti como se meu cérebro fosse explodir. Cavando. Me deixem sair daqui. Arranhando. Socorro. Unhando. Por favor. Silêncio. Inércia. O nada. A escuridão. Sem fim. A voz do velho interrompeu o vazio, me trazendo de volta. — Chegamos. Todo mundo para fora. Engoli o choro, tremendo. O fogo e a dor desapareceram na mesma velocidade com que chegaram. — Onde estou? — sussurrei. ~ 34 ~


Em lugar nenhum. Estou em lugar nenhum. — Última parada. — Ele puxou uma alavanca amarela com um grunhido. Senti um sopro de ar frio quando a porta do ônibus foi aberta, o cheiro conhecido do mar se misturando ao de flores do campo. Só que agora aparecia um elemento novo. Uma espécie de poeira. Cruzei os braços e desejei ter um casaco. Não, meu moletom. O de estampa de pinguins. Eu ainda tinha uma pergunta, mas algo me dizia que não gostaria da resposta. — Senhor? Seus olhos embaçados se fixaram nos meus e eu respirei profundamente, nervosa. — O que é a última parada? Ele fez um gesto afirmativo em direção à porta aberta. — Bem-vinda à vida eterna.

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Capítulo 6 ooh, heaven is a place on earth

Océu. (Mais ou menos?) Não tenho muita certeza do que esperava dessa história toda de Vida após a morte, mas certamente achei que teria algo a ver com nuvens fofinhas, cachoeiras enormes, filhotinhos de golden retrievers e galopes em cima de um lindo cavalo o tempo todo. Mas não. Saltei do ônibus e observei os arredores. Tudo bem, definitivamente não era a Terra. Quero dizer, era como se fosse. Parecia a Terra. Até tinha gosto de terra, por mais estranho que isso pareça. Só que era muito, muito mais doce, como se o ar fosse feito de xarope ou de milk-shake. Hamloaf, acho que não estamos mais no Kansas. Mas, enquanto olhava o ônibus ir embora – quando realmente comecei a me dar conta de que estava sozinha de verdade num estacionamento assustador, sem um casaco ou telefone, sem um amigo no mundo –, comecei a sentir algo mais enterrado debaixo de toda aquela doçura deliciosa. Uma coisa azeda e cheia de decadência. Um gosto disfarçado. Então, entendi o que era. O ar cheirava a flores mortas. Não, rosas mortas.

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Como as flores do meu velório. Exatamente as mesmas que estavam espalhadas sobre o do meu túmulo depois de me mandarem para debaixo da terra. Ainda podia ouvir o som abafado dos caules espinhosos batendo na madeira do meu caixão de carvalho quando as flores pousavam, uma a uma, em cima de mim. Podia me lembrar do jeito que o cheiro começou a se transformar ao longo das horas, dos dias, das semanas que tinham passado. Enjoativo, podre, doce. Quanto mais eu pensava, mais me dava conta de que o gosto estava em toda parte. Na minha língua, no meu nariz, na minha garganta – me sufocando com a ideia da morte, do apodrecimento das pétalas de rosa. Fiquei com vontade de vomitar, apesar de não ter nada no estômago. Não importava. Vomitei do mesmo jeito. Tossi e engasguei, me revirei no asfalto, pedrinhas e poeira entrando nos meus olhos, cabelos e pulmões, até que a única coisa que pude fazer foi abraçar meus joelhos e esperar que aquilo tudo passasse. Todas as partes do meu corpo doíam, e era como se o universo inteiro estivesse explodindo dentro do meu crânio, ou como se meu corpo estivesse sendo partido ao meio para que pudesse ser reconstruído de dentro para fora. Recriando uma imagem distorcida de mim. Nem todos os homens e cavalos do rei conseguirão juntar Brie outra vez. Quando o pior passou, tudo que podia fazer era ficar ali deitada no chão, quase perdendo os sentidos, passeando numa mistura estranha ~ 37 ~


de flashbacks. A maneira como a ponta do nariz do Jack levantava quando ele sorria. O jeito como Hamloaf sempre arfava e soltava pum enquanto dormia. Arfpum. Arfpum. O Pacífico, frio, verde e constante. Era como se eu estivesse em todos os lugares e em lugar nenhum ao mesmo tempo. Tinha 12 anos e andava na autoestrada no conversível vermelho do papai, cantando “God Only Knows”, dos Beach Boys. Aos 9, tomando banho nos irrigadores com Sadie, Emma e Tess, rindo enquanto Hamloaf corria atrás da gente no jardim, mordendo nossos biquínis. Aos 15 anos, andando de bicicleta com Jacob até a praia, na última noite do verão. A noite em que ele segurou meu rosto nas mãos e disse que me amava. Uma lufada súbita de calor me forçou a abrir os olhos, e eu pisquei várias vezes, sentindo as pupilas dilatando e contraindo. Por um momento, tudo ficou preto. Mas, em seguida, um brilho suave vermelho começou a abrir caminho na minha direção, como um par estranho de mãos, fazendo sinais para que eu as seguisse. Finalmente, do outro lado do estacionamento, meus olhos se fixaram na origem da luz: um conhecido letreiro neon, piscando e iluminando a escuridão. Espremi os olhos quando o mundo voltou ao foco. Então, li: Pedacinho do Céu — Ahn? — Minha garganta parecia arranhada, cheia de cinzas. — A pizzaria? Fiquei ali, deitada no asfalto um tempo, hipnotizada pelo brilho fantasmagórico do neon que se formara a minha volta. Aquele lugar era a pizzaria preferida da minha família desde sempre. Uma tradição dos Eagan durante anos e anos, apesar de o chão azulejado ser meio nojento e ~ 38 ~


as mesas um pouco estreitas, coisas dos anos 1970 — tudo laranja listrado de marrom, com rachaduras tapadas milhares de vezes com fita adesiva. Não era a melhor pizza do sul de São Francisco. Era a melhor pizza de toda a Costa Oeste dos Estados Unidos. Talvez do mundo. E como ficava na rua do outro lado do oceano, cerca de 240 metros acima do nível do mar, a vista era incrível. Ou, como meu pai costumava dizer, “celestial”. Isso é só um pesadelo, disse para mim mesma. Estou na minha cama, totalmente segura, totalmente embarcada no sono. Hamloaf está do meu lado. Jack no final do corredor. Está tudo bem. Mas por que esse pesadelo maluco? Eu devo ter comido alguma coisa estragada. Talvez a prova de História esteja se aproximando. Talvez eu tenha me esquecido de passar fio dental. Então eu me lembrei. Jacob. Briguei com Jacob. Enfiei as mãos nos bolsos. Vazios. Olhei em volta, freneticamente, procurando um orelhão. Tenho que ligar para ele. Sei que se arrependeu. Sei que ele não quis dizer… Meu estômago soltou um ronco esquisito, descontrolado, e interrompeu meu pensamento. Caramba. Acho que estava com mais fome do que imaginava. Devagar, bem devagar, consegui me levantar. Coloquei ~ 39 ~


um pé na frente do outro, caminhando até aquela porta de vidro conhecida. Cada passo me afastava da minha velha vida na terra. Um passo mais distante dos meus amigos e da minha família, mais perto da luz vermelha, radiante, neon. Tentei não pensar no assunto. Quando cheguei bem perto, olhei pela janela. Olhando do lado de fora, o lugar parecia o de sempre. O chão quadriculado cheio de rachaduras, mal iluminado, ventiladores de teto barulhentos, a pintura amarela descascando, um milhão de caixas de pizza empilhadas nos fundos. Tentei ignorar o fato de que a mesa preferida da minha família estava vazia, apesar de quase poder vê-los ali sentados. Lembrei da gargalhada da minha mãe enquanto meu pai e Jack atiravam pacotinhos de açúcar de um lado para outro na mesa. Lágrimas fizeram meus olhos arderem e olhei para baixo, para minhas sapatilhas. Logo vou me encontrar com eles. Logo, logo, vou para casa. Eu não tinha certeza de que queria entrar, mas como meu estômago roncava e minhas opções eram limitadas, me pareceu a melhor coisa a fazer. E o cheiro de pizza recém-saída do forno estava me matando. Sem trocadilhos. Respirei fundo, empurrei as portas de vidro e entrei. Quase imediatamente, o cheiro de molho de tomate, de massa torrada e mussarela derretida tomou conta de mim. Uau, que delícia. Respirei o perfume daquele lugar, deixei que ele me aquecesse. Hum, nham-nham nham-nham. ~ 40 ~


Na mesa à minha direita, vi uma menina que parecia ter a minha idade folheando uma revista Cosmo. Ela era uma mistura da Avril Lavigne com modernidades de São Francisco: cabelo encaracolado louro com mullet2 despenteado, óculos grossos pretos, os mais incríveis do mundo, e o braço completamente tomado de pulseiras cor-de-rosa que chacoalhavam toda vez que ela virava uma página. Tchec. Tchec. Revirei os olhos. Do outro lado da mesma mesa estava um garoto com suéter de Harvard, que parecia alguns anos mais novo que Jack. O rosto dele — completamente afogado em sardas — estava grudado num Nintendo DS, parecia estar numa espécie de transe. Não consegui deixar de sentir pena, vendo aqueles dedinhos apressados no teclado. Cinco ou seis anos era muito pouca idade para um ser humano acabar num lugar como aquele. Mas eu tinha 15. Do outro lado do salão, uma menina de chapéu florido estava concentrada num livro com pinta de romance barato e, três mesas depois, um menino com uniforme de futebol americano conversava com uma garota de cabelo roxo que usava uma gargantilha de tachas e batom preto. Bom, esquisito. Nunca tinha visto nenhum deles. Não reconheci um rosto sequer, apesar de ter sido frequentadora assídua daquele lugar a minha vida inteira. Eu me senti meio esquisita observando um ambiente cheio de es2

Estilo de corte de cabelo muito usado na década de 80. Curto na frente, em cima e nos lados, mas comprido atrás. Ex Tipo Chitãozinho & Chororó.

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tranhos, principalmente porque nenhum deles pareceu notar a minha presença. Andei até uma mesa menor no canto do salão, onde alguém tinha esquecido uma Magic 8 Ball3. Sorri. Pelo menos ALGUMAS coisas nunca mudam. A família que gerenciava o estabelecimento tinha um dom para colecionar objetos — abajures, cinzeiros, baleiros, quadros estranhos, cabeças de coelho com chifres de veado grudados nelas —, todo tipo de bugiganga. Ao longo dos anos, a pizzaria se tornara um santuário de velharias que ninguém queria, mas também não jogava fora. Era meio incrível. Encarei a bola mágica e fiz a única pergunta que me ocorreu. Já posso voltar para casa? Peguei a bola e a balancei gentilmente, atenta ao pequeno prisma de plástico que se mexia dentro do líquido azul borbulhante. Depois de um segundo, uma resposta apareceu no pequeno visor transparente. NÃO CONTE COM ISSO. Coloquei a bola de volta na mesa, com menos cuidado dessa vez. Dane-se. Bolas mágicas são uma idiotice. De repente, me senti invisível. Esquecida. Como se o universo estivesse fazendo uma brincadeira de muito mau gosto comigo, apesar de eu não ter feito nada para merecer isso. Fechei os olhos, rezando para que alguém – qualquer pessoa – entrasse por aquela porta e me levasse para casa, para que aquele pesadelo terrível chegasse ao fim. — Quero ir para casa. Quero encontrar a Sadie. Quero passar o resto dos meus dias fazendo a prova mais difícil de Álgebra II. Quero estar 3

Brinquedo que lê a sorte.

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em qualquer lugar, menos aqui — implorei silenciosamente ao universo. — Por favor. Mas, quando abri os olhos, o garotinho ainda jogava video-game. As pulseiras ainda chacoalhavam. O Jogador de Futebol ainda tentava conquistar a Dama Gótica. Achei que o chão estivesse se abrindo debaixo de mim. Na verdade, desejei que estivesse. O chiado de uma televisão me tirou do transe de autopiedade e olhei na direção dos fundos do restaurante, perto de uma pilha gigantesca de caixas de pizza. No canto — os coturnos gastos chutando uma pequena mesa quadriculada — um menino de uns 16 anos, ocupado com um controle remoto velho, estava tentando mudar o canal da TV. Nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo e senti um ligeiro estremecimento nos ombros, como se eu tivesse passado por uma nuvem de estática. Os olhos dele eram escuros — nem castanhos nem verdes —, como se ainda não tivessem decidido de que cor queriam ser. Ele era bronzeado, como bom californiano, um bronzeado que só se consegue depois de vários verões surfando. O cabelo era castanho-escuro e bem curtinho, um misto de corte militar e do corte daquele garoto do Crepúsculo (o lobisomem, não o vampiro). Prestei atenção nele um tempo, tentando descobrir o que me parecia tão familiar. Coturnos, certo. Jeans lavado e camiseta desbotada cinza, certo. Óculos de aviador pendurados na gola, certo. Mas o mais impressionante de tudo: a jaqueta. Couro marrom antigo, bolsos aparentes, punhos sanfonados… até lapela de pele falsa. ~ 43 ~


Então me toquei. Não era o rosto que eu reconhecia, era a roupa! Esse garoto era totalmente anos 1980. Totalmente piloto de combate. Totalmente Tom Cruise em Top Gun, também conhecido como o MELHOR FILME DE TODOS OS TEMPOS. Tentei disfarçar a risada, me sentindo uma idiota. Uma música começou a tocar dentro da minha cabeça e não consegui me impedir de cantar em silêncio. Hiiighway… tooo the… danger zone! Mas aí vi a cicatriz. Profunda e feia, ela começava no topo da mão, ia até o pulso e desaparecia sob a manga. Eca. — Todas as almas novas precisam fazer o check-in no balcão. — Uma voz feminina interrompeu repentinamente meu karaokê mental. Eu me virei e vi uma asiática de cabelo grisalho sentada num banquinho atrás do balcão. Estava diante de um jogo de palavras cruzadas e usava óculos vermelhos apoiados bem no meio do nariz. — Nome? — Agora ela olhava diretamente para mim, a voz entre o tédio e a irritação. Olhei para a esquerda, depois para a direita. Ninguém mais ali pareceu se preocupar. Ela estava, definitivamente, falando comigo. — Hum, Brie Eagan? — Você está atrasada. — Estou? Ela apontou para um relógio na parede que, aparentemente, estava parado. ~ 44 ~


— Desculpa. A Senhora das Palavras Cruzadas acenou para mim. — Não tem problema. Venha aqui. Papelada. E você pode me ajudar com as palavras cruzadas. Meu estômago roncou novamente, agora mais alto que antes. Olhei de novo para o cara meio Tom Cruise, que trocou o controle remoto por um pedaço de pizza aparentemente delicioso. Ahh, o que é isso? Alcachofra com tomate seco? Ele ficou me encarando enquanto mordia devagar — e deliberadamente — um grande pedaço de massa. Nhoc. Nhoc. Nhoc. A Senhora das Palavras Cruzadas pigarreou para mim de seu lugar no balcão. — Primeiro, você assina, depois pode comer. Uau. Ela leu meus pensamentos? Saí da mesa e caminhei devagar até o balcão, um pouco irritada. Puxei um banco e me sentei, depois observei a mulher, que pegou uma pasta branca novinha e então escreveu meu nome nela. Suas mãos eram tão pálidas que pude ver as veias debaixo da pele quando ela retirou um papel de dentro do armário, colocou sobre a pasta e empurrou para mim. — Só preciso que você preencha isso. — Acho que talvez tenha havido algum engano. Ela me encarou, sem piscar. — Duvido. ~ 45 ~


— Mas isso está errado. Estou me sentindo bem. Ela riu. — Você e todo mundo aqui. Agora, papelada. Cruzei os braços e travei o maxilar, sentindo minha criança interior de 5 anos prestes a se apresentar. — Eu. Não. Tenho. Caneta. Ela apontou para a minha mão direita. — Você. Tem. Sim. Antes que eu pudesse argumentar, me dei conta de que era verdade, eu tinha uma caneta. Na minha mão, pronta para usar. Quase caí do banco. Como foi que isso veio parar aqui?! E quer saber o mais estranho de tudo? Eu conhecia aquela caneta. Não é possível. Era a mesma caneta que eu tinha no terceiro ano. Quando era ainda mais idiota do que hoje e ficava tão animada na véspera do dia de compras do material escolar que não conseguia dormir. A caneta era branca em cima e azul-turquesa em baixo, e tinha seis (seis!) opções de cores, dependendo do botão que você apertasse. Dava até para apertar dois ao mesmo tempo e misturar os tons. (Eu sei.) Para uma nerd do terceiro ano que passava o verão inteiro treinando a assinatura, era uma maravilha absoluta.

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Deixei a caneta em cima da mesa numa sexta-feira, mas quando procurei por ela na segunda seguinte, tinha desaparecido. Estamos falando de uma verdadeira tragédia grega no ensino fundamental. Então, de maneira bem suspeita, Chloe Lutz — uma menina que usava marias-chiquinhas todos os dias, pelo amor de Deus — apareceu com uma caneta semelhante (e com isso quero dizer idêntica) alguns dias depois. Até tu, Chloe? Eu sabia que ela tinha roubado. Emma, Sadie e Tess sabiam. Mas dedurar não era uma opção, porque nossa professora, a sra. Arden, tinha uma atitude muito severa em relação a dedos-duros. Quis confrontar Chloe no recreio, mas achei que seria má ideia considerando que: a) ela era mais alta que eu e b) era faixa marrom no caratê. Acabei passando o resto do ano vendo Chloe usar e abusar dos meus preciosos botões coloridos. Vermelho! Não, azul! Ah, isso não é divertido? Isso, Chloe Lutz, claro que é divertido. Obviamente foi por isso que comprei essa caneta. Agora, tantos anos depois, aqui estou eu, numa pizzaria fajuta em Half Moon Bay, morta desde segunda-feira, segurando a mesma Caneta Mais Legal do Mundo. MUITO estranho. Olhei para o pedaço de papel na minha frente. Apertei o botão verde e comecei a responder as perguntas. NOME: Aubrie Elizabeth Eagan. ~ 47 ~


DATA DE NASCIMENTO: 1°- de novembro de 1994. DATA DE MORTE: Fiz uma pausa e olhei para a Senhora das Palavras Cruzadas, que tinha voltado para seu passatempo, o rosto contorcido de concentração. Passei para a próxima pergunta. CAUSA DA MORTE: Parei novamente, mordendo a parte interna do lábio. Depois de alguns segundos, rabisquei a resposta. Garoto malvado que merece sofrer. Abaixo, havia: PAIS, IRMÃOS, ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO, OUTROS. Ah, Hamloaf. Queria que você estivesse aqui para morder essa mulher que está me obrigando a preencher este formulário idiota. Mais coisas para escrever depois de listar o restante da minha família. PASTA DE AMENDOIM OU GELEIA: Pasta de amendoim (extracrocante) CAFÉ OU CHÁ: Chai Depois, na última linha: DESEJOS, SONHOS, SORVETE FAVORITO: E fui tomada por uma lembrança.

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Capítulo 7 your love is better than ice cream

Jacob Fischer e eu nos conhecemos quando eu tinha 4 anos e ele 5, mas, de alguma forma, conseguimos não conversar de verdade até eu ter 11 e ele, 12. Quando éramos pequenos, tudo que eu sabia sobre ele era que era um “garoto típico” (monstros, caubóis e peidos, meu Deus). Era barulhento e bagunceiro, sempre subindo nos brinquedos que a mãe da Sadie montava para a gente depois do colégio. Um desses meninos que você odiaria ter ao seu lado em restaurantes, aviões etc. Crescemos. Nunca conversávamos. Não que eu pensasse nele ou qualquer coisa do gênero. Meninos não estavam no meu radar, já que eram criaturas nojentas com quem eu e minhas amigas basicamente não queríamos contato. De qualquer forma, vivíamos muito ocupadas andando de bicicleta e fazendo coisas muito mais legais como mergulho (eu), ginástica olímpica (Tess) e balé (Emma e Sadie). Isso até uma tarde de setembro, anos mais tarde, quando a irmã mais velha do Jacob, Maya, tocou a campainha lá de casa. Fui eu que abri a porta. Idiota, idiota, idiota. — Oi, Brie! Maya Fischer: cabelo comprido, encaracolado, bagunçado. Aparelho nos dentes. Argolas enormes prateadas. Crocs laranja. ~ 49 ~


Ah, eu quero. — Oi, Maya — respondi, lambendo um pirulito de melancia. Estava tentando fazer com que demorasse o máximo possível até chegar na parte do chiclete. — Sua mãe está em casa? — Está. — Posso falar com ela? — Claro. Para quê? — Estou abrindo uma empresa de babás. Parei para ver se seus pais precisam de alguém. Inclinei o tronco um pouco além da porta. — Gostei dos seus Crocs. — Obrigada. — Brie? — chamou minha mãe do alto da escada. — Meu amor, quem é? — É Maya Fischer! — gritei de volta. — Ela quer saber se você precisa de alguém para tomar conta da gente! — Depois, caí na gargalhada e corri para dentro. Acabou que, coisa do destino, minha mãe e meu pai precisavam de alguém para tomar conta do Jack e de mim naquela sexta-feira à noite. Meu pai tinha um daqueles jantares de médicos na cidade, então minha mãe combinou com Maya para que ela viesse naquela noite. — Só preciso saber — disse Maya — se posso trazer meu irmão menor. Disse para minha mãe que ia tomar conta dele também. ~ 50 ~


— Claro! — exclamou minha mãe. — A gente pede uns sanduíches do Bo-bo’s para eles. Fiquei obviamente mais animada com os hambúrgueres do Bo-bo’s e com a possibilidade de assistir a Procurando Nemo (pela octogésima sétima vez) do que com Maya e o irmão, Jacob, na minha casa. Jacob Fischer: nada demais. Só um garoto do colégio. Só um garoto do parquinho de quando a gente era criança. Isso foi antes de eu saber alguma coisa sobre qualquer coisa. Minha mãe e meu pai estavam atrasados, como sempre, quando a campainha tocou na sexta-feira à noite. Eu estava deitada na cama, falando ao telefone com a Tess, escutando seus motivos para estar apaixonada por Eric Ryan. — Você viu o que ele fez na piscina, no aniversário da Bethany? Não achou o nado de costas dele incrível? (O que foi que eu disse? Totalmente Ariel.) Ouvi minha mãe dizer “oi” para eles lá embaixo. Ouvi a porta bater quando Maya e Jacob entraram e fizeram o tour básico pela casa. Ouvi a porta da garagem ranger enquanto abria e fechava quando mamãe e papai saíram para o jantar. Finalmente, quando desci, encontrei Maya jogada no sofá, assistindo The Real World e meu irmão de 4 anos sentado no carpete, brincando com LEGO. Maya se virou quando entrei na sala. — Oi, Brie! — Grande sorriso. — Você está com fome? — Ela conferiu o relógio. — Os hambúrgueres devem chegar já, já.

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— Oi — respondi. — Valeu. Que bom. — Fui até Jack e agachei ao lado dele. — E aí, Jackson Hole, fazendo o quê? Jacob estava do lado do meu irmão, também brincando com LEGO. Você pode imaginar: eu, meio gordinha, cabelo meio frisado, com um short e óculos de armação roxa três vezes maior do que meu rosto. Ele, alto (tudo bem, para um garoto de 12 anos, gente), cabelo castanho encaracolado, uma sarda à direita na ponta do nariz, dentinho quebrado. Só um garoto. Só um garoto de camiseta de skatista. Só um garoto com camiseta de skatista brincando com LEGO. Ele não olhou para mim e não tomou conhecimento da minha existência. Apesar de estar na minha casa. No carpete da minha sala. Brincando com meu irmão mais novo. Argh, típico garoto das cavernas. — Estou fazendo uma nave espacial — respondeu Jack, orgulhoso. Ergueu um amontoado de LEGOs que parecia mais um dinossauro do que uma nave. Eu ri. — Boa ideia, Jack. Talvez eu faça uma estação espacial do Wendy’s para os astronautas poderem pedir um picolé quando pousarem na lua. Jacob riu e fez uma careta. — Um sorvete Ben and Jerry seria melhor. Virei para ele, olhos arregalados. Como assim? Você se atreve a rir da minha escolha de sobremesa? — Hum, me desculpe — falei —, mas picolé é muito melhor. — Não mesmo — disse Jacob. Os olhos dele encontraram os meus. — Nada é melhor que sorvete de cereja. ~ 52 ~


E foi assim que, BUM, estava feito. A paixão perversa, terrível, ameaçadora, encontrara sua próxima vítima. Se eu soubesse, naquele momento, que aquele era o garoto — aquele, cheio de dentes, cabeludo, querendo ser skatista —aquele era o garoto que cresceria e partiria meu coração além da possibilidade de conserto, talvez eu tivesse ficado lá em cima, falando no telefone com a Tess. Talvez eu tivesse ido dormir cedo. Talvez eu tivesse implorado para meus pais me levarem com eles — mesmo que aqueles jantares de médicos fossem as coisas mais chatas do mundo. Mas eu não sabia. Não podia saber. Então, em vez disso, encolhi os ombros como se não desse a mínima e disse alguma coisa genial do tipo: — É. Tanto faz. — E fui em frente, construindo minha estação espacial do Wendy’s. E, na sequência, me apaixonei louca, total e completamente por ele.

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Capítulo 8 only the good die young

Uma semana se passara. Uma semana desde que deixei de existir. Uma semana desde que deixei o universo e aterrissei numa outra e estranha dimensão da minha cidade, com a mesma roupa e amaldiçoada a comer pizza por toda a eternidade. Até que não era uma maldição tão ruim assim, na verdade. Ali, a pessoa poderia comer pizza o dia inteiro, todos os dias, e nunca engordar um grama. Sadie morreria de inveja. — Você vai comer isso? Uau, ele fala. Assisti, surpresa, o cara com a jaqueta de couro caminhar até a minha mesa e se sentar. Ele bocejou e coçou a cabeça. Depois, pegou um pedaço da minha pizza vegetariana. — Não consigo ver uma coisa boa indo para o lixo. — À vontade — falei, assumindo minha identidade de princesa Bela da Disney. — Eca, vegetariana? — disse ele, examinando um pedaço de berinjela. — Você é chata assim? — Melhor reclamar com meus pais. — Dei de ombros. — Eles me educaram para ser vegetariana. ~ 54 ~


— Jura? — Ele olhou para mim com pena. — Uau. Meus pêsames. — Valeu — respondi. — Então — disse ele, em meio a mordidas desapontadas —, permita-me ser o primeiro a lhe dar as boas-vindas ao Mundo do Além, mocinha. Mundo do Além? Ele estendeu a mão. — Meu nome é Patrick. Alma perdida residente. Apertei a mão dele. — E você é? — Brie. Ele me encarou como se eu tivesse um pepperoni gigante grudado no rosto. — Seu nome é Brie? Tipo… o queijo? Revirei os olhos. — Meu Deus, até parece que eu nunca escutei isso. — Obrigado — disse ele, com um meio-sorriso. — Me orgulho da minha originalidade. Ficamos uns instantes em silêncio e me flagrei encarando as outras pessoas do salão. Então, me veio um pensamento. O Jogador de Futebol. A Dama Gótica. A Garota das Pulseiras. O Garoto do Nintendo. Patrick. Até mesmo eu. Todos nós, com exceção da Senhora das Palavras Cruzadas, éramos jovens. ~ 55 ~


— Você parece confusa — disse ele. Como era observador! Eu me inclinei para frente e baixei a voz. — Quem são essas pessoas? Ele deu de ombros. — Você sabe. Nada além de mortos comuns. — Mas, tipo assim, cadê os velhos? Onde foram parar todos os adultos? — Hum… — Ele coçou a cabeça. — Provavelmente num restaurante mais caro? — Novamente aquele meio-sorriso. Encarei o garoto. — Você é sempre assim tão charmoso? — Você é sempre assim tão linda? — Muito engraçado. Agora, sério, o que todo mundo está fazendo aqui? O que você está fazendo aqui? Ele deu de ombros novamente. — Eu não sou especialista em nada. Alguns deles — apontou para o Garoto do Nintendo — estão completamente fora de contato com a realidade. Outros — sinalizou em direção à Garota das Pulseiras — estão aqui há gerações. No meu caso, eu gosto muito de pizza. Cada um segue no seu tempo, faz o que gosta — disse ele. — Tem muita diversão por aqui. — Piscou e sorriu para mim. — Falando nisso, quer se divertir um pouco? Ah, LEGAL. ~ 56 ~


Ergui uma sobrancelha. — E a que tipo de diversão você estaria se referindo? Ele levantou as mãos, se defendendo. — Ei, mocinha, vamos manter as coisas permitidas para menores, tudo bem? Primeiro, porque existem crianças no recinto. Segundo, porque a gente acabou de se conhecer. Então, vamos continuar assim, saindo com outras pessoas, deixando as coisas se desenvolverem de maneira natural, certo? — Ele balançou a cabeça e assobiou. — Caramba, parece que não importa o que eu faça, as meninas não resistem a mim. Senti meu rosto corar com vários tons de vermelho. Não dava para acreditar naquele garoto. Ele estava falando sério? Não podia ser. Podia? Limpei a garganta, sem jeito, e tentei pensar em alguma coisa para dizer. — Então, há quanto tempo mesmo você disse que estava aqui? — Minha voz saiu aguda, num misto de burro com doninha. Ele riu. — Eu não disse. — Depois, pegou outro pedaço da minha pizza e comeu em três dentadas. — Impressionante — comentei. — Você devia competir profissionalmente. — Garotos precisam comer. Empurrei o restante da pizza na direção dele.

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— Pode comer tudo. Eu, com certeza, já comi o suficiente para a vida toda. Ele fez uma pausa, olhando fixamente para mim. — A vida toda é muito tempo. Talvez mais do que você imagina. Eu não tinha certeza do que ele queria dizer, então fiquei em silêncio. — Falando de vida e morte… — O tom dele ficou reticente. — O que aconteceu com você? — Como assim? — Você sabe. De que você morreu? Senti um aperto no peito. — Não quero falar sobre isso. — Ah, vai — disse ele. — Não precisa ficar tímida. Eu não mordo. — Mastigou com bastante força e sorriu. — Quero dizer, só um pouquinho. Eca. Meninos são TÃO nojentos. — Olha. — Pus uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Vamos mudar de assunto, tá? — Olhei para a Senhora das Palavras Cruzadas, debruçada sobre a mesma cruzadinha que tentava resolver havia dias. — Nove letras — murmurou para si mesma. — Pode servir de cobertura de pizza. Berinjela? Cogumelo? — Começou a apagar, ferozmente. — Almôndega! — Patrick girou o corpo. — Tenta almôndega! A Senhora das Palavras Cruzadas parou de apagar e, depois de contar as letras, soprou um beijo do outro lado do salão. — Obrigada, meu amor. ~ 58 ~


— Meu amor? — sussurrei, incrédula. — Parece que alguém tem uma paixonite. — O que foi que eu disse? — Ele fez uma pose. — Ela ama minha jaqueta. Revirei os olhos. — Com certeza. Meus pensamentos vagaram e por um segundo não consegui deixar de pensar na minha mãe e no meu pai. Em como tentávamos fazer as palavras cruzadas do New York Times juntos todos os domingos de manhã, comendo waffles com banana. Em como eles sempre deixavam que Jack e eu ajudássemos com algumas respostas. Bem, com as mais fáceis, mas deixavam. De repente, olhei para Patrick. — Você tem algum telefone para me emprestar? — Por quê? Precisa ligar para o namorado? — Deus me livre — falei, cruzando os braços. — Para sua informação, quero chamar um táxi. Patrick debruçou-se na mesa, se aproximando. — Ah, é? E para onde você pensa que vai? — Para casa — respondi, segura. — Vou para casa. — Peraí. — Ele baixou a fatia de pizza. — Você não está falando sério, está? — Ela — apontei para a Senhora das Palavras Cruzadas — disse que minha papelada levaria alguns dias para ser processada, ou qual~ 59 ~


quer coisa do gênero. Mas já faz quase uma semana. — Peguei meu copo e suguei o resto do Sprite pelo canudo. — Então? — perguntei. — Por que as coisas demoram tanto por aqui? Ele se recostou na cadeira, com um olhar abismado no rosto. — Qual é a pressa? — Estamos perdendo tempo. Ele riu. — Meu anjo, desculpa eu te dar essa notícia, mas você não tem mais nada a não ser tempo. É melhor você relaxar e curtir. — Ele colocou os braços atrás da cabeça e respirou fundo. — Viu? Você precisa aprender a sossegar e sentir o cheiro da pizza. Ah, não, não preciso. Informação para você, seu palhaço. Nunca diga a uma garota para relaxar. Isso nos deixa loucas. Olhei para a jaqueta dele, detestando-a cada vez mais. — Você alguma vez já tirou essa coisa do corpo? — Por que eu faria isso? Fico tão bem com ela! — Você parece um idiota. — Ih, cuidado. Ela está nervosinha, hoje, companheiros. Fiz uma careta. — Não estou nervosinha. — Ah, espera — ele riu. — Entendi. Você está querendo me fazer tirar a roupa, não está? Você quer ver meu peitoral sexy nu! — Ele puxou o zíper da jaqueta. ~ 60 ~


— Eca! — Joguei um pedaço de massa nele. — Por favor, poupe-me dos detalhes sórdidos. — Tem certeza? — Ele fez uma pausa. — Você realmente não sabe o que está perdendo. Balancei a cabeça. — Tudo bem… — Mas, antes de fechar novamente o zíper, Patrick enfiou a mão dentro da jaqueta e pegou um livrinho. Jogou-o na minha direção, e ele caiu na minha frente, fazendo barulho. — Você tem alguma pergunta? — perguntou ele. — Este livro tem respostas. Dei uma olhada mais de perto. Passei meus dedos sobre a capa mole, com as seguintes letras douradas: O Manual M&E — M&E? — eu disse. Ele riu. — Morto & Enterrado, o manual. A única literatura necessária daqui para frente. Abri lentamente a capa, virei as páginas e cheguei na descrição dos capítulos. Capítulo 1: Você Está Aqui. E Agora? Eu gostaria de voltar para casa, isso sim. — Eu sei que não parece importante — disse Patrick. — Mas pode acreditar, tem bastante informação útil aí. Algumas ótimas ideias para ocupar o tempo. — Ele lançou uma azeitona no ar e acompanhou sua aterrissagem no chão. — O tempo engana muito, Cheetos. A gente tem que aprender a se distrair. ~ 61 ~


Hesitei. Cheetos? Papai e Jack eram os únicos que tinham permissão para usar apelidos relacionados a queijo. E, às vezes, melhores amigas. Mas só. — O problema com o tempo — continuou ele, antes que eu pudesse impedir — é que às vezes ele é demais. — Apontou para o livro. — O M&E realmente nos ajuda a se ajustar. — Se ajustar? — Uma sensação desconfortável começou a abrir espaço no meu estômago. — Se ajustar a quê? — Faça um favor a si mesma e leia o livro. — Ele sorriu. — Porque, pode acreditar, você vai ser testada. Alguma coisa nos olhos dele me fazia duvidar se estava falando sério. Na verdade, ele só podia estar brincando. Certo? — Com certeza — disse eu, na esperança de que ele percebesse o sarcasmo no meu tom de voz. — Mal posso esperar para meter a cara nele. — Enfiei o livro no bolso do meu vestido, mas, no último segundo, deixei-o cair debaixo da mesa, aos meus pés. Tossi para encobrir o barulho do livro caindo no linóleo. Ops! O que houve? Eu não diria ao meu querido sr. Almôndega que não tinha a menor intenção de ler aquele livro idiota, assim como não tinha a menor intenção de ficar por ali mais tempo do que já tinha ficado.

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— Uau! — De repente, Patrick pareceu impressionado. — Você deve ser o pior caso que eu vejo desde que o New Kids On The Block se desfez. Talvez mais ainda. — Pior caso de quê? — Dei um peteleco numa migalha na direção dele. Acertei em cheio. — Na verdade, é meio bonitinho. Senti que estava começando a ficar realmente irritada. — Eu não sou bonitinha. — Pensando bem — disse ele, rindo —, você me lembra um pouco alguém. Devem ser seus olhos. Fiz uma careta. — Ah, é? Quem? — Cleópatra. — Por que cargas d’água eu lembro a Cleópatra? — Não sei… — Ele parou de falar. — Talvez seja porque ela era, você sabe, a Rainha da Negação. Cruzei os braços. — Eu não estou em negação. — Falou como uma novata de Fase Um. — Ele se escondeu debaixo da mesa por um instante. Quando voltou, jogou o M&E na minha frente. — Boa tentativa, aliás. Droga. — Não que você possa fazer alguma coisa — continuou ele. — Pode acreditar, já vi muita gente feito você cruzando essas portas. ~ 63 ~


Fiz uma pausa. — Você não sabe de nada a meu respeito. — Brie. — O quê? — Estava ficando cansada daquela lenga-lenga. Patrick ficou em silêncio. — Você sabe por que está aqui? A pergunta me pegou de surpresa. Senti uma coceirinha na ponta do nariz. Outra nos cantos dos olhos. Não chore. Não chore. Fiz que sim com a cabeça. — Ah? — disse ele. — E por que? Quem esse garoto pensa que é? Ele me conhecia havia cinco minutos e agia como se fosse um especialista no assunto. O assunto sendo eu. — Sabe de uma coisa? — falei. — Realmente não é da sua conta. — Depois dessa, saí da mesa e fui até outra, do outro lado do salão, perto da janela. — Exatamente como pensei. — Ele se levantou e foi até a máquina de refrigerantes, onde encheu meu copo de Sprite. Depois me seguiu até a mesa onde eu estava e puxou uma cadeira. — Você é um caso clássico. — Eu realmente preferiria ficar sozinha, se não se importa. — Mentira. Você gosta de companhia. — Ele aproximou o corpo. — Escuta, anjinho, o que você está sentindo agora é completamente normal. Aconteceu comigo. — Ele pegou um guardanapo e limpou a boca. ~ 64 ~


Não respondi. Só peguei meu refrigerante e comecei a morder o canudo. Hábito antigo. — É assim — disse Patrick. — Vou te mostrar. — Ele desamassou o guardanapo, alisou-o em cima da mesa e começou a escrever. Quando terminou, empurrou o papel na minha direção. — Leia. Olhei para baixo. Entre um pingo de molho de tomate e manchas de gordura, com a caligrafia confusa totalmente de menino, estavam escritas as seguintes palavras: Negação Raiva Barganha Tristeza Aceitação Ele lentamente fez um círculo em volta da palavra negação, com a caneta. — Está vendo isso? Olhei para ele, oficialmente de saco cheio da nossa conversa. Não fale comigo. — É você. Virei o rosto, porque lágrimas quentes e raivosas começaram a rolar pelas minhas bochechas. Limpei o rosto com as costas da mão. — Você vai compreender, meu anjo — disse ele. — Um dia desses você entende. — Pegou o guardanapo, dobrou-o e enfiou-o no bolso. — Vou guardar isso só por segurança. ~ 65 ~


Ficamos em silêncio por alguns minutos. Continuei a morder meu canudo, olhos fixos no oceano. Patrick se tocou e mudou de assunto. — Então. Quase dezesseis, hein? Fiz que sim, ainda sem olhar para ele. — Quase. — E está aqui há uma semana. Fiz que sim novamente, apesar de não ter certeza. O tempo agora estava estranho. Conseguia senti-lo passando por mim. Via o sol nascer e morrer como sempre, mas os minutos pareciam se estender para sempre. Não de maneira tediosa, como quando eu costumava ficar babando no caderno durante as aulas de História Europeia, esperando o sino tocar. Este lugar é meio fast-forward e slow motion4 ao mesmo tempo. — Então, beija-flor? — Ele sorriu, esperançoso. — Já está se divertindo? — Divertindo? — respondi imediatamente. — Deveria estar me divertindo? — Por que não? — Ele olhou para a porta. — É como eu disse. Você sabe que a gente pode ir embora na hora que quiser, não sabe? — Ir embora para onde? Ele riu. — O que você acha, queijo coalho? Que você vai ter que ficar aqui comendo pizza todos os dias até o fim dos tempos? 4

Efeitos de gravação de áudio ou vídeo. Fast-forward = velocidade alta e Slow motion= velocidade quadro a quadro.

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— Não vi nenhum de vocês ir embora em momento algum — reclamei, olhando para a Senhora das Palavras Cruzadas. — É irritante ela ser a chefe. Ele me olhou de um jeito engraçado. — Quem disse que ela é a chefe? Não entendi. Éramos só um bando de crianças. Alguém tinha que ser a chefe. Não? — Mas se ela não é — disse eu, lentamente —, quem é? Ele se debruçou na mesa, se aproximando de mim como se tivesse um segredo que não pudesse mais guardar. — Você, Cheetos — disse Patrick. — Você é a chefe.

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Capítulo 9 i was walking with a ghost

Minha mãe com certeza teria me matado se soubesse que eu estava cruzando a Pacific Coast Highway na garupa de uma moto com os braços em volta da cintura de um garoto que tinha acabado de conhecer. Teria me matado de verdade, tipo homicídio. Mas ela não sabia. E, por mais estranho que pareça, eu não me importava. Era bom esquecer de tudo que acontecera comigo, e era bom parar de chorar. De qualquer maneira, não era como se eu pudesse fazer alguma coisa mesmo. Isso eu aprendi rapidinho. Você pode ficar obcecado com a maneira como as coisas acabam — o que você fez de errado ou poderia ter feito diferente –, mas não faz muito sentido. Não é como se pudesse mudar algo. Então, sério, por que se preocupar? E mais, a vida depois da morte era tipo, bem, divertida. Parecia aquele lugar estranho, entre mundos, de quando você sabe que está sonhando, mas também sabe que ainda tem dez minutos até seu despertador tocar. (No meu caso, o alarme está programado para não tocar nunca. E o sonho dura para sempre.) No início, Patrick não queria me deixar subir na moto com ele. — Hum, acho melhor não. — Deixa, vai. — Não. ~ 68 ~


— Por que não? — Porque eu não sou seu motorista, por isso. — Por favor? Ele me encarou profundamente e ficou em silêncio. Tive a sensação de que não estava para brincadeiras. — Não acho uma boa ideia, tudo bem? — Engraçado, porque eu acho uma excelente ideia. Mal sabia ele que eu morria de medo — com M maiúsculo — de motos desde sempre. Eram barulhentas e perigosas, e meu pai tinha me contado mil histórias de acidentes e acidentados terríveis que ele tinha visto na emergência do hospital. Mas meu medo real — meu medo de verdade — vinha de outro lugar. Um lugar mais profundo. Eu não contaria para Patrick, mas a razão de eu ter tanto medo de motos era porque, desde que me lembro, tinha um pesadelo recorrente, horrível, de estar na garupa de uma motocicleta — meu rosto e meus braços para cima, para o céu mais azul e calmo do mundo — e, de repente, BANG, tudo dava errado. O céu escurecia. O vento ficava muito forte. Eu sentia o motorista perder o controle. E então escutava o barulho de pneus cantando e metal se despedaçando. Sentia meu corpo sendo arrancado da moto, voando em meio a muita fumaça e calor até que, de repente, sempre no último segundo possível, eu abria os olhos e acordava, sem ar. Exatamente assim. Era sempre o mesmo sonho. Sempre a mesma sensação de perda de controle, falta de gravidade, nenhuma chance de sobrevivência. Além ~ 69 ~


do fato de eu nunca ter tocado numa moto, o mais estranho era que parecia que todas as vezes que eu tinha esse pesadelo era o mesmo dia do ano: o quatro de julho. E, às vezes, passava o dia inteiro sentindo cheiro de fumaça e óleo queimado, mesmo durante a queima de fogos. Mas minha fobia idiota não tinha mais a menor importância. Porque, seja lá como for, uma pessoa não pode morrer duas vezes. Em outras palavras, eu não tinha mais nada a perder. — Por favor? — pedi. — Só uma voltinha. — Que parte da palavra não você não entende? — Que parte da palavra não sua mãe não entende? — Espera aí, você está fazendo de conta que é minha mãe? — Talvez sim, talvez não. Então ele abriu um sorriso e eu soube que tinha ganhado a discussão. — Tem certeza de que não está com medo? Fiz um sinal afirmativo. Mentiras, mentiras, mentiras. Ele me encarou, os olhos cheios de preocupação. — E você vai continuar falando comigo, mesmo que odeie o passeio? — Não vou. — Não vai falar comigo? — Não vou odiar. ~ 70 ~


No final das contas, eu estava errada. Não odiei. Eu amei o passeio. Foi a sensação mais incrível do mundo. Até melhor do que a mistura de calma total e felicidade absoluta que eu sempre sentia na primeira fração de segundo depois de pular do trampolim. O momento em que me dava conta de que era livre. Na verdade, existia um mundo inteiro esperando por mim atrás daquelas portas conhecidas da pizzaria — exatamente como prometera Patrick —, um mundo feito de memórias antigas e de sonhos, alguns deles pertencentes a mim, outros não. Os cheiros eram mais evidentes. As cores, mais vibrantes. O chocolate tinha mais chocolate. Os dias eram mais longos e as noites, envoltas em estrelas de um jeito que eu nunca tinha imaginado. O lugar inteiro era um grande jogo, tipo Escolha a sua aventura. Dormia quando estava cansada (mesas de pizzaria são bastante confortáveis, na verdade), comia quando tinha fome, pulava quando tinha vontade. Tinha um cinema na rua da pizzaria que só passava meus filmes prediletos: Harry e Sally, Sintonia de amor, Mensagem para você, Across The Universe e (por favor, não me julguem) A Bela e a Fera. Tinha também um parque aquático nas proximidades, com milhares de escorregas, uma piscina de ondas gigantesca e o mais incrível riachinho, que eu podia atravessar cochilando na minha boia o dia inteiro, enquanto flutuava e era levada pela corrente debaixo do sol. Mas a verdadeira diversão começou quando aprendi a fazer pedidos. Estou falando de pedidos de verdade. Tipo você fecha os olhos e imagina a praia mais incrível do mundo, a rede mais absurdamente perfeita, e quando abre os olhos, está tudo ali, na sua frente. Pedi um porquinho~ 71 ~


da-índia. Pedi uma cavalgada por campinas verdejantes e pedi para dormir sob as estrelas. Até pedi que Patrick me ensinasse a surfar – hilário, considerando que na verdade ele era o menino menos surfista do mundo. Ficamos sentados nas nossas pranchas ao amanhecer, vendo o sol nascer, dourado e perfeito, cheio de paz. A melhor parte era que todo e qualquer desejo virava realidade. E cada um era melhor do que o outro. Preocupação era uma coisa que não existia. Nada de problemas ou pesadelos ou confusões ou medos. Não era vida real. Era melhor. Então, um dia, no meio do café da manhã — que nesse caso foi milk-shake de Oreo —, Patrick me fez uma pergunta que mudou tudo. — E aí, você quer se vingar dele? Parei, no meio de um gole. Olhei para cima. — Como assim? Me vingar de quem? Ele gemeu e se jogou na mesa. — Falando sério, Cleópatra. Você realmente esqueceu? Hein? De que eu deveria me lembrar? E por que ele está me chamando de Cleópatra? Ele bateu a cabeça na mesa quando não respondi. — Minha querida, você não para de me impressionar. — Por quê? Ele esticou o braço e pegou meu milk-shake.

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— Você entendeu mal a Fase Um, garota. Realmente mal. Por sorte, você é meio fofa quando está em negação. — Ele tomou um gole da minha bebida. — Nossa, isso é BOM. — Ei! — Eu bati nele. — Bebe a sua! — Meus olhos passearam pela roupa dele, como acontecia de vez em quando, e me flagrei sorrindo. Ele me pegou olhando. — O que é tão engraçado? — Nada. — Balancei a cabeça. — Deixa para lá. — Não. — De repente, ele estava interessado. — Pode dizer. Mordi o lábio. — É essa jaqueta. Ele olhou para baixo. — Qual é o problema com ela? — Ah, nada. — Reprimi uma risada. — Quero dizer, você é um piloto de caça. De 1982. Ele ficou de boca aberta. — Fiquei magoado. De qualquer forma, estou recebendo conselhos de moda de uma garota vestida como um saco de batatas. Dei um sorriso sarcástico. — Você só está com inveja, porque comprei esta roupa na Sacks da Quinta Avenida. — Uau. Que coisa feia, Cheetos. Feia mesmo. — Ele balançou a cabeça. — Seja como for, eu ia dizer uma coisa antes de você bancar ~ 73 ~


o Esquadrão da Moda comigo. A palavra troco significa alguma coisa para você? Fiz uma pausa. — Tipo vingança? — Afiada feito uma faca, hoje, não é, bola de queijo? — Tudo bem, chega dessas piadinhas com queijo — respondi. — Qual é o caso da vingança? — Bem — disse ele, rindo. — Eu só pensei que talvez você quisesse se divertir um pouco, só isso. — E contra quem, se você me permite perguntar, nós vamos nos vingar? — Ah, você sabe… o Docinho de Coco — disse Patrick. — O gut-gut. Qual-é-o-nome-dele? — O tom era debochado. Provocativo. Irritante. — Hein? — respondi, fazendo careta. — Quem? — Um segundo, já sei — disse ele. — Jason? O quê? — Droga, não é isso — resmungou ele. — Jonah? Espera. — Jeremy? MeuDeusdoCéu. — Caramba, isso vai me deixar… — Jacob — sussurrei. Minha garganta fechou com um nó e uma dor antiga e familiar — uma dor que eu tinha esquecido quase completamente — voltou a se instalar lentamente no meu peito. ~ 74 ~


— Isso! — Patrick estalou os dedos e se recostou novamente na cadeira. — Graças aos céus você lembrou, Brie. Isso ia me deixar acordado a noite inteira, com certeza. Eu estava chocada demais para perceber seu sarcasmo. Jacob. Não pensava nele havia séculos. Coloquei a mão no coração. Absolutamente parado. — Ele meio que merece um troco, você não acha? — disse Patrick. O rosto de Jacob apareceu na minha mente. Os olhos. Os braços. Os lábios. Os beijos. As palavras. As últimas palavras que ouvi na vida. EU. NÃO. TE. AMO. Senti um calafrio na espinha. — Ei. — Patrick se aproximou e cutucou meu braço. — Tudo bem com você? — Há quanto tempo…? — Tropecei nas palavras enquanto me dava conta da realidade. — Há quanto tempo estou aqui? Ele levantou as mãos e contou silenciosamente nos dedos. — Pelos meus cálculos extremamente científicos… dezessete dias. Só ISSO? Patrick leu a expressão do meu rosto. ~ 75 ~


— Parece mais, não é? — Passou as mãos pelo cabelo escuro. — Eu também me sentia assim. Quando cheguei aqui. Meu estômago ficou embrulhado de repente. Dezessete dias. — O que me faz lembrar, já que fiz as contas. — Ele pegou um velho chapéu de caubói na prateleira em cima da gente, colocando-o na cabeça. — Feliz Halloween! Uhu! Halloween? — Se isso é verdade — sussurrei —, amanhã é meu… — Aniversário? — Patrick terminou a frase para mim. — Eu sei. Feliz Quase 16 Anos. Inacreditável. De alguma forma, eu tinha perdido completamente a noção do tempo. Da minha família. Dos meus amigos. Do meu mundo. Como posso ter esquecido meu mundo inteiro? Comecei a sentir a ponta dos meus dedos formigando. Um zumbido estranho na cabeça; pequenas ondas de eletricidade na nuca, debaixo do cabelo. Jacob. Ele era o motivo. ELE tinha feito isso comigo. Era culpa dele. Tudo isso. Tudo. Mais do que tudo. Um sentimento antigo e esquecido voltou a se insinuar devagar. Uma coisa que eu não sentia havia algum tempo. Eu não estava triste. Não estava só. Estava louca de raiva. — E então? — disse Patrick.

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Encarei profundamente o garoto descabelado com cara de anjo ali na minha frente e, pela primeira vez, sorri de leve, mas com vontade. — Acabou para ele.

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Capítulo 10 yeah I’m free, free fallin’ —

Ei, Quesadilla, pode abrir os olhos agora.

— Sabe de uma coisa? Acho que prefiro ficar de olhos fechados. — Ah, para — disse Patrick. — A vista é inacreditável. Você tem que olhar para baixo. — Tenho certeza de que a frase certa seria você não tem que olhar para baixo. — Não precisa se preocupar. — Ele riu. — Estou bem aqui. Não vou te soltar. Mesmo com Patrick tentando me confortar, não consegui abrir os olhos. Na verdade, tinha acabado de aprender que a única maneira de voltar à Terra – o que significa o mundo dos vivos, dos que respiram — era caindo. De um lugar muito, muito alto. — Valeu — respondi. — Isso é tão reconfortante. Ou não. — Você não acha que está sendo um pouquinho dramática? — Você não acha que essa jaqueta está um pouco fora de moda? — Fala sério, você não é uma espécie de atleta olímpica? — Ele riu. — Basta pensar nisso como um mergulho realmente radical. Deixei escapar uma tremenda gargalhada.

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— Certo. Até parece que é a mesma coisa. — Mesmo assim, eu não podia negar que estava curiosa. Respirei fundo enquanto o vento chicoteava meu cabelo para todos os lados. Finalmente, me atrevi a abrir os olhos. E, quando fiz isso, quase desmaiei com a vista. Estávamos no topo do mundo. De alguma forma, no tempo de uma simples respiração, Patrick tinha me levado para o meio das nuvens, para o ponto mais alto da ponte Golden Gate – a plataforma da torre norte, quase 300 metros acima do Pacífico. O sol estava se pondo sobre a baía, as colinas onduladas e a luz dourada se misturando a enevoadas faixas de cor lilás. Um espesso cobertor de neblina se estendia em todas as direções, e do outro lado da baía eu vislumbrei São Francisco, brilhando como um parque de diversões mágico. Mais distante ainda, pequenas estrelas começavam a despontar no céu. — Ai. Meu. Deus. — É, acho que se pode dizer isso. — Isso é simplesmente… incrível. Ele sorriu. — Eu te disse. — A luz iluminou o rosto dele e, por um segundo, seus olhos ficaram dourados, incendiados pelo pôr do sol da Califórnia. Certo, tudo bem. Eu estava pronta para admitir. Patrick era bonitinho, fofo. Não tão fofo como Jacob, rebelde de cabelos ao vento. A beleza dele era mais certinha, de cabelo curto, estilo James Dean, tipo nãopreciso-me-esforçar-para-ser-gato.

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Ele deu um passo, se aproximando da beira do abismo, e dobrou os joelhos como se estivesse prestes a mergulhar para nadar. — Você me desafia? — Deus! — Estendi a mão e agarrei a jaqueta, puxando-o para trás. — Nem brinca com isso! — Por favor. — Ele sorriu. — Me chama de Patrick. Balancei a cabeça e gemi. — Jesus, estou começando a achar que meu irmão mais novo é mais maduro que você. E ele tem 8 anos. — Oito anos é mais do que o que normalmente acham que tenho. E aí, pronta? Ignorei-o. Dane-se que ele era bonitinho, ou que tivesse olhos que brilhavam ao sol. Não tinha como, nem no céu nem no inferno, nem naquele lugar, fosse o que fosse, eu pular daquela ponte. SEM chance. — Como é que a gente veio parar aqui? — perguntei, procurando outra maneira de descer. — A gente voou. — Voou? — Olhei para ele. — Isso aqui é o quê? Um filme da Pixar? — Bem, acho que alguém assistiu muito desenho da Disney quando era pequena. — Não existe isso — murmurei, tentando não desmaiar ou vomitar ou as duas coisas ao mesmo tempo. Nossa, isso era terrível. Meus dentes

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começaram a bater. Eu conseguia ouvir e sentir a vibração da ponte sob meus pés. Ouvi os ruídos do metal e dos cabos de suspensão, os ecos daquele oceano profundo e assustador, em algum ponto muito, muito lá embaixo. Não dava nem para saber a altura em que estávamos. Mergulhar de um trampolim de 10 metros no treino depois da aula era uma coisa, mas esse mergulho não estava nem no mesmo CEP que eu. Ou no mesmo sistema solar. Ajoelhei e disse para mim mesma que deveria ficar calma. Campeã de mergulho ou não, minha cabeça rodava só de pensar em escorregar, cair e me espatifar na baía de São Francisco numa velocidade estonteante, depois ir parar direto na boca de um tubarão cheio de dentes brancos e enormes. — Sabe — resmunguei —, eu realmente gostaria que você tivesse me explicado melhor essa coisa de pular da ponte antes de me trazer para cá. Porque com certeza eu não teria vindo. — Bem — disse Patrick —, e eu gostaria que você tivesse dado uma olhada no capítulo seis do M&E. E no capítulo doze, “Voe como se realmente quisesse”. Está tudo lá, Cheetos, preto no branco. Talvez alguém devesse ter feito o dever de casa. — Valeu, pai. — Não gostei do sermão. Mesmo sabendo que, no fundo, ele estava certo. Talvez, se eu não tivesse ignorado aquele livro idiota lá na pizzaria, tivesse sido capaz de encontrar alguém com poder de verdade. Uma pessoa que me escutasse e me deixasse explicar que tinha acontecido um erro terrível.

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Eu não devia estar aqui. Eu não devia ter morrido. Ainda não. Não dessa maneira. Patrick riu alto. — Lembra quando eu disse que você ia ser testada? — Ele se levantou e estendeu os braços. — Surpresa! Chegou a hora! — Então viu o pânico no meu rosto. — Não precisa se preocupar. Dá medo na primeira vez, mas depois fica mais fácil. E depois… — Os olhos dele brilharam. — Depois começa a ficar divertido. — Eu não posso fazer isso. Não posso, não posso e não posso. — Crede quod habes, et habes. — Em que língua você está falando, seu nerd? Ele sorriu. — Latim. “Acredite que pode, e você pode!” O tom dele era leve. Brincalhão. Como sempre, não ajudava. — No dez. — Tá, no dez. Você é uma garota engraçada, Aubrie Eagan. — É Brie. — Um… dois… três… — Espera, espera, espera, não precisa contar tão rápido! — Quatro. — Sério, para! — Cinco…

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— Já disse que não vou! — Meus joelhos começaram a amolecer e minha visão foi tomada por aquele tom horrível de verde, o verde que significa que você vai desmaiar em dois segundos. O barulho das ondas quebrando lá embaixo misturado ao som dos carros me deixou de estômago embrulhado. — Ei, tudo bem? — Patrick se aproximou de mim. — Você parece um pouco pálida. — Tudo bem — menti, segurando no aço com todas as minhas forças, desesperada para me apegar a alguma coisa. — Nunca me senti melhor. — Tentei afastar o cabelo do rosto. Não que isso ajudasse grande coisa, do jeito que ventava ali em cima. Podíamos muito bem estar no topo do Everest. — Então, isso é a sua imagem perfeita do céu ou coisa do gênero? Ele me encarou. — Agora é. Senti meu rosto corar, apesar de estar enjoada de medo. Não fazia ideia do que responder e resolvi dizer a coisa mais imbecil do mundo. — E você, é… você vem sempre aqui? Meu DEUS, eu não disse isso. Quem DIZ isso? — Venho aqui sempre que preciso pensar, ou esvaziar a cabeça. — Ele fez uma pausa. — Ou quando a espera começa a me enlouquecer. — Espera? O que você está esperando? Ele hesitou um instante e olhou para as montanhas. — Um amigo. Acho que estou esperando por um velho amigo. ~ 83 ~


A luz do sol mudou novamente de posição, lançando um raio em cima do punho esquerdo dele. Por um segundo não consegui não olhar para a cicatriz. Nunca tinha realmente reparado a intensidade dela, já que a jaqueta estava sempre cobrindo o braço todo. Mas com aquele raio de sol — e como as mangas estavam um pouco puxadas —, finalmente pude ver melhor. Pela primeira vez vi como ela era profunda. Quase como se ele tivesse sido rasgado com um pedaço de vidro quebrado. Não sei o que aconteceu com ele, mas não deve ter sido nada bom. Então me dei conta de que ele sabia muitas coisas a meu respeito, mas eu não sabia nada sobre ele. De onde vinha. Quem era. Até mesmo como, apesar disso me deixar um pouco enjoada, ele morrera. Patrick me flagrou olhando. Puxou as mangas o máximo que pôde para baixo. — O que aconteceu com você? — Assim que as palavras deixaram a minha boca, percebi que deveria tê-las guardado comigo. — Acidente de moto — disse ele. — Eu estava dirigindo muito rápido. Nada demais. Exatamente como meu pai sempre dizia. Motocicletas são MUITO PERIGOSAS. Baixei o rosto. — Eu sinto muito. — Não precisa. Já superei. Foi há muito tempo. Uma rajada de vento repentina me pegou de surpresa. Perdi o fôlego quando ela me desequilibrou e tentei me segurar. Mas não tinha em que me segurar. ~ 84 ~


— Tudo bem, acabei de mudar oficialmente de ideia — anunciei. — Acho que vou deixar pra lá essa história de vingança. A gente tem muito tempo para dar o troco em quem quer que seja. Para que apressar uma coisa tão boa? — Lentamente, com muito cuidado, me apoiei na grade de metal, tentando relaxar e pensar em coisas boas, como sorvete de coco. Manhãs de sábado. Estar viva. — Então é isso, retiro o que disse. Não quero fazer isso. Hoje não. Gostaria de voltar para a pizzaria, por favor. — Detesto ter que dizer isso — gritou Patrick, mais alto que o vento —, mas tem um probleminha. — Ele se sentou do meu lado. — Como assim, um probleminha? — Senti a ponte envergar sob os meus pés. Respire, Brie. Basta respirar. — A questão é que você não vai gostar muito disso. — Fala. — Bem… — Fala. — Só existe um caminho de volta. Olhei para ele por alguns segundos, depois caí na gargalhada. — Ah, certo! Alguém já te disse que você é hilário? Ele não estava sorrindo. — Infelizmente — disse, com voz culpada —, eu não estou brincando. Parei de rir. — Espera. Como assim? — É isso. ~ 85 ~


— Não. — Não adianta lutar contra. — Vou lutar contra você. — Pode segurar a minha mão. — Ele estendeu o braço e pegou a minha. — Não! — Brie, você tem que fazer isso. — Ou o quê? — Ou vai ficar morrendo de frio aqui em cima por um bom tempo. De qualquer forma, você sabe que quer mostrar uma coisinha ou outra para aquele seu namoradinho. E, francamente… — Ele riu. — Eu também quero. — Não, não, não, eu realmente quero. Só que, por enquanto, não — implorei. Se tivesse um coração, ele estaria batendo fora de controle no meu peito. — Não posso — falei. — Não estou dizendo nunca. Só hoje. — Esperei que ele pudesse ouvir o pânico na minha voz. — Por favor, Patrick. Tire a gente daqui voando, ou sei lá como. Eu quero voltar para a pizzaria. Bum-crass-xiiii, fazia o oceano lá em baixo. — Lamento, Cheesecake. — Ele balançou a cabeça. — Mas não funciona assim. Você já saberia disso se tivesse lido o manual. E, de qualquer maneira, não acredito nas suas desculpas. — Ah, não? E por quê? — perguntei. Não brinque comigo, Anjinho, eu acabo com você. ~ 86 ~


— Você está com medo. — Ele fez um sinal em direção à beira do abismo. — Mas é hora de abandonar o ninho, passarinho. É hora de mergulhar. Meu Deus, ele está falando sério. — Não precisa se preocupar, vou ficar com você o tempo todo. — Ele riu. — Você cai, eu caio. Dei um passo para me afastar dele. — Não se aproxime de mim. — Segura minha mão. — Patrick, estou falando sério. Os olhos dele se fixaram nos meus. — Segura a minha mão. Antes que eu pudesse discutir, ele me pegou nos braços e me prendeu. — Não! Para! — Hora de abrir os olhos — sussurrou ele, atrás de mim. Balancei negativamente a cabeça e tentei me livrar dele. — Anda, vai. Você realmente não deveria perder isso. — Sua mãe não deveria perder isso. — Eu estava ficando sem frases de efeito. Não que alguma vez tivesse tido alguma, para começo de conversa. — Pontas dos pés na beirinha. — Vou te matar. ~ 87 ~


— Um pouco tarde para isso, meu Anjo. — Os lábios dele se encostaram à minha orelha. — Olha para baixo. Tentei lutar, mas era em vão. Ele era muito forte. Gritei, chorei e me forcei a olhar. Ah, o maior equívoco do mundo. Não existia nada, a não ser ar. Nada além da baía sem fundo de São Francisco, gigantesca, mortal, pronta para me engolir e despedaçar mil vezes. Meu Deus, lá estávamos nós, tão mais alto do que eu imaginara. Cinco centímetros. Pressionei minhas costas contra ele. — Não, não, não, não, NÃO. Três centímetros. Eu me debati. Um centímetro. Eu queria acordar. Queria acordar imediatamente. O único problema daquele cenário? Não era um pesadelo. Acordar não era uma alternativa. Senti minhas sapatilhas escorregarem um pouco na grade de metal. Senti o vento beijar meu rosto. — Por favor — gemi, agarrada à camiseta de Patrick. — Não faz isso. — Não precisa ter medo — sussurrou ele. E então me empurrou.

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Capítulo 11 send me an angel —

Cheesecake?

— Mais cinco minutos. Não quero acordar. — Engraçado, você disse isso cinco minutos atrás. — Não, mas agora é sério. — Boa tentativa, Anjo, mas não vai funcionar. — Você não manda em mim. — Como você quiser, mocinha. Então, um balde de água gelada foi despejado no meu rosto. Meus olhos se abriram imediatamente. — Que… — Acordando, acordando, tá na hora de levantar — cantarolou Patrick. — Ai meu Deus, vou matar você! — Dei um pulo e tentei agarrá-lo, mas ele era muito rápido. — Lá vem você de novo com esse papo de assassinato. Muita agressividade reprimida. Acho que talvez fosse melhor encontrar um bom psicólogo para você.

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Eu estava encharcada, com a respiração acelerada. Virei o corpo no chão e esfreguei os olhos. Cada centímetro do meu corpo estava sendo percorrido por arrepios. — Toma, quer minha jaqueta? — perguntou Patrick. — Não quero nem que você fale comigo — respondi. — Você é horrível e deve ser destruído. — Meus olhos finalmente recuperaram o foco e vi que estava anoitecendo. O céu estava lilás, tingido de azul, preto e amarelo em alguns pontos, como um hematoma desbotado. Em toda parte, lanternas de abóbora de Halloween nos encaravam, e postes de rua emanavam uma luz fantasmagórica, iluminando casa por casa. — Doce ou travessura? — perguntou Patrick. Deu um pulo e agarrou um galho de árvore acima da cabeça. E começou a fazer barra. — Travessura — respondi, percebendo um portão familiar do outro lado da rua. A porta vermelha. Paredes brancas. A entrada arborizada onde eu costumava parar a bicicleta quase todos os dias depois do colégio. — Isso é definitivamente uma travessura. — Resposta errada — resmungou ele. — A penalidade para isso são várias barras de chocolate e três pacotes de M&M’S de amendoim. — Ele soltou o galho e caiu no chão. — Nossa. Realmente estou fora de forma. Mas eu não escutei o que ele disse. Estava ocupada demais tentando não vomitar. A casa de Jacob. Estávamos sentados no chão, do outro lado da rua, em frente à casa de JACOB. Como? Como isso era possível?

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Em todas as explorações que fizera com Patrick, nunca tinha sido capaz de voltar àquele lugar. No meu pedaço de céu, algumas coisas eram diferentes do meu mundo antigo. As ruas não se conectavam exatamente da maneira como me lembrava. Os nomes não batiam. Existiam buracos, falhas. Faltavam pedaços. Pedaços importantes. Minha casa não estava onde deveria estar. O colégio estava mais velho, mais decadente. Até a casa de Jacob estava diferente — como se alguém tivesse entrado nas minhas lembranças e bagunçado tudo que fazia sentido para mim quando eu era viva. Depois de um tempo, eu simplesmente parei de tentar encontrar as coisas. Como se tivesse esquecido o que procurava. Mas, agora, lá estávamos nós, de volta ao Mundo Real de Verdade Verdadeira. Minha cabeça doía como se eu tivesse acabado de acordar de uma concussão mortal. Virei para Patrick. — Onde a gente está? O que aconteceu? — Ah, você está falando dessa porcaria de dor de cabeça? Vai passar, não precisa ficar preocupada. — Não é isso. Eu quero dizer, eu e você. Aqui. Agora. Pode explicar. — Com prazer. — Ele fez uma pequena reverência. — Essa foi a sua primeira Queda da Graça. Espero que tenha tido um voo agradável e se lembre de nós para todas as suas futuras viagens. Divirta-se na sua estada na Terra ou em qualquer que seja seu destino final.

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Queda

da

Graça?

perguntei.

Não

tem

nada

de gracioso nisso. Patrick sorriu. — Nem todo mundo alcança a perfeição. Cruzei os braços. Ele não se livraria de mim facilmente. — Tudo bem, tudo bem, eu peço desculpas — disse Patrick. — É verdade que a primeira queda é meio intensa. Mas depois fica mais fácil, e pelo menos agora a gente vai poder se divertir um pouco. Além do mais, existem poucas coisas de que eu gosto mais do que de mexer com quem merece. Mas ele não estava falando sério, não consegui deixar de pensar. Talvez ele tenha me ferido por medo de que eu o ferisse primeiro. Então, em tom baixo e profundo, misturados a gargalhadas e gritos, ruídos de quem estava se divertindo ecoaram do outro lado da rua. Vi corpos se movendo para frente e para trás através das janelas mal iluminadas. Dançavam. Patrick fez menção à música. — Quer ir a uma festa? De repente, fiquei angustiada. — Mas eu… eu não fui convidada. —Cara. — Ele me olhou seriamente. — A gente vai nessa festa. Eu me vesti e tudo. — Não se vestiu nada. Ele me olhou como se eu o tivesse magoado profundamente. ~ 92 ~


— Passei semanas preparando esse figurino. — Ah, é? E a sua fantasia era para ser o quê? Um corte de cabelo ruim dos anos 1980? — Fiquei magoado. Então, alguns meninos — meninos de verdade — apareceram na entrada da casa, completamente fantasiados. Patrick riu de um garoto da idade do Jack, vestido de lagarto. — Ei, bafo de dragão — brincou Patrick. — Como anda o seu refluxo gástrico? Não consegui segurar a risada. A situação era inacreditavelmente absurda. Ali estávamos nós, dois adolescentes mortos, prestes a entrar de penetra na festa de Halloween do meu ex-namorado. Era quase demais para entender. Mantive os olhos grudados na casa do outro lado da rua. Vou ver Jacob. Finalmente vou ver Jacob de novo. — Opa — disse Patrick, olhando preocupado para mim. — Pensando melhor, talvez você já tenha se divertido o suficiente por hoje. — Ficou de pé e mudou o tom da conversa. — Por favor, diz para mim que você não esqueceu o motivo da nossa visita. Isso é uma vingança. Não uma segunda chance. Certo? Olhei para ele, mas não respondi. — Estou falando sério. — Tudo bem, tudo bem, entendi. — Não. — Ele balançou a cabeça. — Preciso ouvir você dizer. Por que nós estamos aqui? ~ 93 ~


— Para nos vingarmos dele — resmunguei. — Não ouvi. — Para dar o troco nele — respondi, um pouco mais alto. — Eu te levo de volta para a pizzaria… — PARA DAR O TROCO NELE! — Certo. — Ele pareceu satisfeito. — Aceito. Vou ser seu par na festa. Mesmo que a fantasia não seja muito original. Revirei os olhos. — Você tem sorte de eu ainda deixar que me vejam com você, depois de me empurrar da porcaria da ponte Golden Gate. Eu me aproximei para bater nele, mas Patrick escapou do golpe. Nossa, como ele era rápido. — Retiro o que disse — respondeu ele. — Vou ser seu antipar na festa. Mas é só. Não adianta inventar coisas malucas. — Coisas malucas como o quê? — Como ficar com ciúme quando todas as meninas da festa tentarem ficar comigo. Sorri com sarcasmo. — Não se segure por minha causa, querido. Ele fez uma pausa. — Uau. Você me chamou de querido? — Hum, ficou lisonjeado?

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— Meu Deus. — Os olhos dele brilharam. — Você realmente quer ficar comigo, não quer? — O quê? — Soquei o braço dele com todas as minhas forças. — Pode continuar sonhando, Sr. Lisonjeado. Rá. Segura essa. Patrick ignorou minha piada incrível e me lançou seu sorriso marca registrada. Então, senti o chão tremer debaixo dos meus pés quando a voz dele ecoou na minha mente, falando comigo sem dizer uma palavra. — Nunca diga nunca, Anjo. Existe uma primeira vez para tudo.

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Capítulo 12 it’s in his kiss

Quando você gosta de alguém — tipo gosta de verdade —, o segredo está na primeira vez de tudo. No primeiro olhar. No primeiro sorriso. Na primeira dança. No primeiro beijo. Meu primeiro beijo não foi com Jacob Fischer. Tecnicamente, foi com Matt Thompson — um garoto completamente imbecil que conheci numa colônia de férias quando tinha 12 anos. Matt e eu namoramos por aproximadamente 37 minutos, durante o almoço. Ele me convidou para sair num telefone sem fio que percorreu dez mesas. Alex Grand, amigo dele, perguntou a Charlie Frazier, que perguntou a Angela Bell, que perguntou a Rachel Goldman, que finalmente perguntou à minha amiga Zoe Michaelson se eu gostava dele. Eu nunca tinha sequer falado com o garoto, mas fiquei completamente encantada, porque era a coisa mais romântica que já acontecera com qualquer uma das meninas do meu grupo, então, obviamente, eu disse que sim. Mas, quando chegou a hora da sobremesa, me dei conta de que era muito nova para me prender a qualquer menino. Deixei Matt me beijar uma vez, um beijo de mais ou menos dois segundos, atrás da máquina de sorvete — ele estava com um pedaço enorme de cheeseburguer gru-

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dado no aparelho fixo — e, em seguida, terminei com ele. Não foi meu melhor momento. Mas não se preocupem. Meu segundo beijo compensou a experiência desastrosa. Totalmente. Esse beijo foi com o Jacob. Um beijo que eu podia reviver mil vezes sem enjoar. Na verdade, foi assim que sobrevivi três dias no pedacinho do céu logo que cheguei. Revivendo aquele beijo. Uma das coisas legais do céu é que você pode reviver todos os seus momentos preferidos quantas vezes quiser – uma espécie de DVD da sua vida inteira. Pause, rewind, fast-foward, slow motion, todo dia, o dia inteiro. Àquela altura, eu já tinha revivido meu primeiro beijo com Jacob um milhão de vezes. Era uma coisa fácil de lembrar, porque aconteceu na noite do meu aniversário de 15 anos. Na noite da Festa de Outono do PCH. Emma, Sadie, Tess e eu estávamos muito animadas, porque era o primeiro baile formal das nossas vidas. Além disso, os anos 1980 eram o tema da festa, o que era melhor ainda. Fomos fazer compras depois da aula na Luna (minha loja preferida) e compramos os vestidos mais lindos do mundo. O meu era um tubinho preto, meio brilhante, com detalhes dourados na bainha. Depois, nós três fomos à manicure e voltamos para casa para meu jantar de aniversário. Papai fez meu prato favorito, seu mundialmente famoso “espaguete especial”, e depois subimos correndo a escada até meu quarto para nos aprontarmos para a festa. Ia ser a Melhor Noite do Mundo.

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Mamãe nos levou até o colégio às 20h30 e cruzamos o gramado em direção ao auditório a mil por hora, descalças, rindo sem parar. (O mesmo auditório onde fizeram o velório para mim, diga-se de passagem. Não que uma coisa anule a outra.) Não tínhamos acompanhantes, mas Tess estava convencida de que o “príncipe” Eric ia finalmente convidá-la para sair, depois de anos de paixonite, e Emma tinha detalhado seu plano na minha casa para fazer o Aluno Novo/Estrela do Futebol, Nate Lee, dançar com ela. O plano era assim: 1) Esbarrar nele. (Literalmente.) 2) Derramar ponche ou a calda do bolinho de chocolate (tinha que ser de chocolate) na camisa dele. 3) Se candidatar para ajudá-lo a se “limpar”. 4) Durante a caminhada até o bebedor, falar sem parar sobre a Idiotice, com I maiúsculo, das festas de colégio. (E da Chatice, com C maiúsculo, de perder o jogo de futebol entre Brasil e Espanha na ESPN!) 5) Voltar para o salão na hora exata em que começasse a tocar a música romântica perfeita. (Muito obrigada, Sr. DJ.) 6) Reclamar claramente por ter sido abandonada pelas amigas. “E bem na hora da minha música favorita!” (A fala seria acompanhada por um ligeiro gesto de apertar o peito, fazendo com que o decote se pronunciasse um pouco mais, seguido de piscada fatal de olhos.) 7) Ele pergunta: Quer dançar? Hum, não sei, quer dizer, acho que sim. 8) Pronto. O garoto está no papo!

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No meu caso, eu estava meio que esperando que Ben Handleman fosse finalmente me convidar para dançar. Ele tinha um cabelo encaracolado lindo de morrer e, desde que pedira minhas anotações de Álgebra II, eu tinha quase certeza de que gostava de mim. Ah, meninos se acham tão enigmáticos. — Com certeza o Ben é a fim de você — provocou Sadie enquanto corríamos para o auditório. — Vocês dois fazem o casal mais fofo do planeta. — Os óculos dele são lindos demais — concordou Tess. — Acho que já está mais do que na hora de você botar a mão no Handleman. — Todas nós caímos na gargalhada, absolutamente animadas com os momentos românticos e mágicos que certamente a noite nos renderia. Então, quando vi Ben beijando Anna Clayton no meio de todo mundo, digamos que não tenha ficado exatamente feliz. A música estava altíssima. Milhares de adolescentes conversavam em rodinhas. Milhões de luzes amarelas piscavam e brilhavam nas paredes e no teto. Acima das nossas cabeças um globo espelhado girava – lançando pontinhos brilhantes em forma de diamante nos nossos rostos. E ali, bem no meio da pista de dança, Ben e Anna eram os astros do reality Projeto Línguaway. Fiquei arrasada. — Ai, ele não te merece — disse Sadie, ajeitando o salto do sapato preto com uma das mãos e se apoiando em Emma com a outra. — Meninos não valem nada — disse Emma. — E você é mil vezes mais bonita que ela, é claro — disse Tess, me puxando para a pista. — Vamos! ~ 99 ~


Dançamos durante a hora seguinte, cantando e rindo em todas as músicas, até ouvirmos uma voz masculina no meio de “Girls Just Wanna Have Fun”. — Oi, Brie. Girei o corpo e dei de cara com Jacob Fischer — um garoto que eu conhecia praticamente desde que nasci e que era amigo da Sadie havia anos. Mas até ali tínhamos trocado basicamente umas três palavras a vida inteira, então, o fato de ele estar de repente falando comigo era, bem, estranho. — Ah, oi, Jacob — respondi, jogando o cabelo. — Ui! — gritou Tess. — Valeu, Brie, você quase me cegou com essa juba. Eu estava nervosa, era isso? Hum, Brie, controle-se. É só Jacob Fischer. — Desculpa — resmunguei. — É esse corte novo. Acho que meu cabelo tem vida própria. — Você está muito bonita — gritou Jacob, mais alto que a música. — O quê? — perguntei. — Quer dizer, valeu! Você também. Meu Deus. Acabei de dizer que ele era bonito?! Ele me olhou de uma maneira estranha. Mas, antes que tivesse chance de dizer alguma coisa, Sadie interrompeu. — Jacob, você sabia que hoje é aniversário da Brie? 15 anos, baby! Ela pegou minha mão e girou comigo.

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— Dia de todos os santos — acrescentou Emma. — Porque a Brie é tão santinha. – As três caíram na gargalhada. — Ah, é? — perguntou Jacob. — Legal. Parabéns, Brie. Graças a Deus estava escuro no salão, porque juro que naquele momento fiquei da cor de um tomate. — Valeu. E então, porque de vez em quando a vida é realmente perfeita, começou a tocar uma música lenta. — Meu Deus, “It Must Have Been Love”! — gritou Emma, aos pulos. Assisti, apavorada, aos pares se formando em toda parte e olhei em volta procurando alguém, qualquer um, para dançar comigo, apesar de ter um menino plantado na minha frente. Levei uns 36 segundos para me dar conta de que não tinha nenhum pretendente, e resolvi sumir dali o mais rápido possível. — Acho que vou comer alguma coisa… — Quer dançar? — disse Jacob de repente. Nós quatro o encaramos, de olhos esbugalhados, queixo caído, paralisadas. Acho que até babei um pouquinho. — Claro! — Sadie finalmente deixou escapar com um gritinho, me empurrando para os braços dele. — Ela quer! Ela quer! — Uau! — gritei, me apoiando nos ombros dele em busca de apoio. Em segundos, minhas amigas tinham desaparecido milagrosamente na pista de dança. Emma abandonou o plano de ataque e agarrou a mão de Nate, levando-o para longe dos amigos do futebol. Tess se esgueirou por trás de Eric e deu um beijo no rosto dele. Sadie foi até a mesa do ponche ~ 101 ~


para conversar com Dr. O’Neil, por quem era loucamente apaixonada apesar de ele ter 30 anos e dois filhos. — AimeuDeus, isso é tão constrangedor… — resmunguei, confusa e desequilibrada nos braços do Jacob. Ele riu e me ajudou a recuperar o equilíbrio. — Legais, essas suas amigas. — Nem me fale… — Balancei a cabeça e olhei Jacob diretamente nos olhos. E de repente, BAM. Antes mesmo de me dar conta do que tinha acontecido, A Pegada Ameaçadora tinha me fisgado completamente. De repente, eu não conseguia mais desviar os olhos. E ele também não. Hum, um segundo. O que é que estava acontecendo ali? Jacob Fischer não era meu tipo. (Quero dizer, não que eu realmente soubesse qual era meu tipo, mas…) Primeiro, ele fazia o gênero skatista. Segundo, quando foi que aprendeu a falar? Terceiro, ele nem era tão gato assim. — Brie? — disse ele, os olhos ainda grudados em mim. Engoli em seco. — Oi? Bem, ele tinha um cabelo fofo. E um sorriso talvez, digamos assim, meio lindo. E tinha ficado tão, bem, alto. — Vamos dançar? — disse ele.

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— Dançar? — sussurrei, meus olhos brilhando mais a cada segundo. Tudo bem, tudo bem. Admito. Eu tinha ficado completamente apaixonada por ele no primário. Absolutamente apaixonada. Mas ele tinha perdido a chance! O quê? Ele achava que eu ia ficar esperando para sempre, como se fosse um bichinho de estimação? Nunca! — Hum, isso foi um sim? — perguntou ele, se mexendo de maneira estranha. Jacob Fischer acabara de me tirar para dançar! Duas vezes! Tentei me lembrar da estratégia da Emma. Primeiro passo, esbarrar nele? Bom, missão cumprida. Já consegui isso, graças às minhas amigas incríveis. Qual era o próximo passo? Piscada fatal? Chamar atenção para o decote? Olhei para baixo. Hum. Eu não tinha muito decote para mostrar… De repente, percebi que minha única opção seria usar o que tinha. No caso, um monte de cabelo. Então, dei uma ligeira olhada em volta para ter certeza de que não tinha ninguém na linha de tiro e balancei a cabeça da maneira mais charmosa que consegui. Dessa vez deu certo. Porque Jacob sorriu. — Claro — respondi, dando de ombros. — Acho que uma dancinha não vai me matar. (Mal sabia eu.) A música lenta mais perfeita na história do universo continuava ecoando suavemente pelas caixas de som. It must have been love, but it's over now… ~ 103 ~


Ele pegou a minha mão. It must have been love, but I lost it somehow… De repente, o auditório inteiro desapareceu. Tess, Sadie e Emma. Sumiram. Professores e acompanhantes. Sumiram. E todos os outros adolescentes dentro daquele auditório. Sumiram. Naquele momento, só existia ele. E eu. E um milhão de luzinhas piscando e brilhando enquanto a gente dançava, as mãos dele na minha cintura, as minhas nos ombros dele. E quando a música terminou, a gente continuou dançando. Amo Jacob. Estou apaixonada por ele. Meu Deus, eu o amo. Ele desviou o olhar, encarou o chão. — Brie? Eu estava me perguntando uma coisa. Se você pode pegar minhas anotações de História para segundafeira? Se pode pegar carona para casa depois da festa? Se eu poderia parar de pisar no seu pé? Meu Deus, será que estou pisando no pé dele?! Baixei o rosto no momento em que ele se inclinou para a frente e nossas cabeças se chocaram. — Ai! — gritamos. As mãos dele abandonaram minha cintura e as minhas os ombros dele. ~ 104 ~


Parabéns, Brie. Ótima maneira de estragar um momento perfeito. — Cara — disse Jacob, passando a mão na testa. — Não sabia que você era boa de cabeçada. AiMeuDeus. Morri de vergonha. Ele sorriu. — Talvez você devesse pensar na possibilidade de se candidatar para as Olimpíadas. A piada me pegou de surpresa. Ri e relaxei um pouco. — É, eu devia fazer isso. Ele colocou as mãos em volta da minha cintura novamente. Olhou para mim com aqueles olhos profundos, lindos, azuis até não poder mais. Começou a tocar outra música. Sometimes you picture me, I’m walking too far ahead… — Então… — falei, tomando coragem. — O que você queria perguntar? If you fall I will catch you, I’ll be waiting, time after time… Jacob sorriu. Estendeu o braço, tocou no meu rosto e disse cinco palavras perfeitas. — Se eu posso te beijar. E aí ele me beijou.

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Capítulo 13 r-e-s-p-e-c-t, find out what it means to me —

Oque é aquilo? Ponche? — Patrick apontou para um copo

cheio de um líquido que parecia Sprite tingido com corante vermelhosangue. — Olhou a sala lotada dos Fischer. — Seu amigos realmente… se superaram. — Você é tão esnobe… — respondi. — Desculpa se isso não corresponde aos padrões da sua amada pizzaria. — Circulei pela sala, feliz e zonza. Não porque estivesse bêbada. Mas porque pela primeira vez não precisava me preocupar em conversar com gente que não conhecia. Não tinha que me estressar por não ser a garota mais popular do ambiente, nem pensar se era legal o bastante para ter sido convidada, para começo de conversa. Isso era lindo. Ninguém podia me ver. Ninguém podia me escutar. Para eles, eu já tinha ido embora havia muito tempo. O engraçado das festas de colégio é que, normalmente, ninguém se diverte de verdade. Menos naquela. Naquela festa eu estava me divertindo mais que todo mundo. Procurei para ver se Emma, Tess e Sadie estavam ali, mas não vi nenhuma delas. Provavelmente ainda estão sofrendo, de luto. Diferente de ALGUMAS pessoas.

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Vários amigos do Jacob estavam ali, além de um monte de gente que eu não conhecia e que deviam ser convidados da Maya. Vi os dois melhores amigos dele, Will e Milo, dupla que Sadie sempre chamava de clave de sol e clave de fá. Estavam vestidos de zumbis – o que parecia perfeito, dadas as personalidades dos dois. A casa inteira estava coberta de enfeites de Halloween. O corredor da frente, coberto de teias de aranha, e a sala tinham se transformado numa versão realmente engraçada do Massacre da serra elétrica, com carne de hambúrguer e ketchup em toda parte. O jardim estava totalmente às escuras, fora a luz fraca da piscina, decorada com globos oculares brilhantes flutuando. Não posso mentir, em alguns momentos a emoção daquilo tudo tomava conta de mim; e eu ficava triste de repente, pensando nos tempos em que a gente se beijava no sofá, ou ia nadar com a família na piscina, ou se agarrava no quarto dele enquanto os pais achavam que a gente estava fazendo dever de casa. Mas fiz de tudo para não me prender à parte triste. Não fazia sentido. A proposta da noite era diversão. Era ver Jacob e fazê-lo provar do próprio remédio. Apontei para uma pilha de dentes de vampiro de plástico, dispostos como brindes da festa. — Legal! — Tentei pegar, mas minha mão atravessou a mesa. Olhei desafiadoramente para Patrick. — Seria melhor para você se eu pudesse colocar um desses. — Por quê? — Porque eu poderia morder você. — Anjo, por favor. — Ele inclinou a cabeça para trás, expondo o pescoço. — Não se sinta acanhada. ~ 107 ~


Eu me aproximei. — Vou morder. — Morde. Nossos olhos se encontraram e, por uma fração de segundo, nenhum dos dois desviou o olhar. Eu me aproximei do pescoço dele, mas parei. O que estou fazendo? Ele percebeu minha hesitação. — Não está com sede, no final das contas? Acho que vou ter que procurar outras vampiras para oferecer meu pescoço. — Ele vasculhou rapidamente a sala. — Ela, por exemplo. Virei o rosto e não acreditei na garota para quem ele apontava. — Anna Clayton? Por que todos os meninos do planeta são a fim dela? Ela nem é tão bonita! — Pode parar — Patrick levantou as mãos. — Pode se acalmar, Bruxa do Queijo. Foi só uma observação. Não precisa ficar toda maluca por causa disso. — Sua mãe é que não precisa ficar maluca… Então, ouvi um barulho em outro cômodo. — Caramba. Isso não pode ser coisa boa. — Graças a Deus — disse ele. — Talvez finalmente a festa fique interessante. Seguimos os outros pelo corredor até a cozinha, onde algumas pessoas tentavam quebrar um boneco de Frankenstein. Vi Maya aparecer ~ 108 ~


com a cara irritada, mas, por estranho que pareça, o irmão não estava em lugar nenhum. Por um segundo, considerei a possibilidade de subir correndo as escadas para checar o quarto dele, mas então me dei conta de que seria bem melhor flagrá-lo no meio de um grupo. Assim ele ficaria publicamente constrangido. Muito, MUITO melhor. — Então, precisamos lembrar as regras mais uma vez? — perguntou Patrick. — Você se lembra do que eu ensinei? Basta a intenção. Não funciona a não ser que você esteja absolutamente concentrada. — Podemos repassar essa parte da concentração? — falei, sarcástica. Ele cruzou os braços. — Você claramente não precisa mais da minha ajuda. — Ele se virou e saiu da cozinha. — Não, para, não vai embora! — gritei. — Você é muito sensível. Eu só estava brincando. Patrick me encarou, sorrindo. Seu olhar me pegou de surpresa. O jeito que a camisa se ajustava ao corpo dele. O jeito como o cabelo escuro emoldurava os olhos profundos. O jeans apertado… Ele estava meio, hum, sexy. Quero dizer, para um garoto morto. Tudo bem, muito obrigado, a voz dele ecoou dentro da minha cabeça. Você também não está nada mal. Congelei, completamente mortificada por ele ter ouvido aquilo. Ainda não estava acostumada a compartilhar meus pensamentos com outra

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pessoa. Principalmente quando a pessoa em questão era um cara meio atraente… — Meio? — Ei! — respondi depressa. — Sério, me deixa em paz! Patrick simplesmente riu. Mas, de repente, vi a porta da frente sendo aberta atrás dele. Vi um corpo familiar entrar na cozinha. Um rosto que eu conhecia tão, tão bem. Senti meu corpo ficar tenso. Usei todas as minhas energias para ficar firme. Precisei de todas as minhas forças para não correr para os braços dele. Lá estava ele. O garoto dos meus sonhos, em carne e osso. Ou melhor, até meu sonho virar um pesadelo. Agora, eu precisava me concentrar no pesadelo. Então é esse o cara, hein? Patrick olhou na direção da porta. Fiquei paralisada. É ele. Agora, sério, qual é o caso? Por que todas as garotas do planeta são a fim dele? Nem é tão bonito assim. Odeio você. Você me ama. VOCÊ se ama. Justo. Então, o que está esperando? Dei alguns passos para a frente. Parei. Algumas pessoas estavam se juntando em volta dele. Não perca o foco.

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Abri caminho no grupo, invisível, silenciosa. Jacob. Meu Jacob. Os olhos cansados. Tristes. E apesar de estar rodeado por gente que conhecia – gente que se importava com ele e entendia pelo que passara recentemente –, parecia só. Perdido. Senti minha raiva se desfazendo. Ele sente falta de mim. Brie, não faça isso. Mas, e se for verdade? O que isso muda? Talvez esteja arrependido. É bom que ele esteja arrependido. Abri a boca, mas não disse nada. Senti o cheiro da colônia dele. Só um pouquinho. Nossa, como é gostoso esse perfume. Quis que ele me abraçasse. Que me dissesse que ia ficar tudo bem. Que tudo isso não passava de um sonho ruim e que ficaríamos juntos novamente. Talvez para sempre. Você não está se concentrando. Não posso fazer isso. Ele não te ama. Cala a boca, Patrick. Eu me aproximei, as pontas dos dedos a centímetros do casaco do Jacob, pequenos raios de energia saindo deles. Os pelos dos meus braços e do meu pescoço em pé, tomados de eletricidade. ~ 111 ~


Milo e Will o alcançaram antes de mim. — E aí, cara — disse Milo. — Tudo bem? Estamos te esperando há mais de uma hora. — Mandei mil torpedos — disse Will. — Tudo bem com você? Não está com a cara nada boa. Jacob balançou a cabeça. — Eu… eu precisava de espaço. Não estava no clima de festa. Não queria que a Maya fizesse isso. Pedi para ela cancelar. Will e Milo trocaram olhares preocupados. — Tudo bem, tudo bem — disse Will. — As pessoas estão se divertindo. Jacob fez que sim, os olhos ainda fixos no chão. Pobre Jacob. Está sozinho. Ninguém entende o que está passando. Ninguém, a não ser eu. — Você esteve com ela, hoje? — perguntou Milo. Congelei. Ela? Eu me virei para encarar Patrick, caso eu não tivesse entendido direito. — Do que ele está falando? Patrick simplesmente balançou a cabeça e se afastou. — Não pergunte isso para mim. Eu me virei para os três rapazes. ~ 112 ~


— Ela ainda está muito chateada? — perguntou Will, baixinho. — Está. — Jacob fez que sim com a cabeça. — Não para de chorar. Senti como se uma dose letal de veneno tivesse sido injetada na minha corrente sanguínea e lentamente abrisse caminho até o meu tórax. — Ela? Quem é ela? — Encarei Jacob. — De quem você está falando? — Se meus olhos pudessem desmaterializar alguém, ele teria se transformado numa pilha de cinzas no chão. Eu ainda não entendia por que terminara comigo tão de repente. Será que existia outra pessoa o tempo todo? Outra garota? Uma garota de quem ele gostava mais do que de mim? De repente, uma parede de fogo e fumaça cheia de lava quente apareceu no meio do cômodo, me forçando a dar um passo atrás. Brie! Cuidado! Eu preciso saber. Preciso saber quem ela é. Você precisa se concentrar. Não. NEM se atreva a falar comigo. Eu preciso ouvir. Preciso ouvir o Jacob dizendo isso. — É realmente um saco, cara — disse Milo, balançando a cabeça. — Mas acho legal vocês dois se ajudarem nisso. Se ajudarem? Lá estava eu, praticamente pronta para perdoá-lo. Pronta para fazer o que fosse preciso para voltar me arrastando pelo tempo e pelo espaço, por outro mundo de existência para poder estar com ele de novo. Mas is~ 113 ~


so? Isso era demais. Uma dor terrível renasceu dentro de mim, dilacerando meu peito. Patrick estava na minha cabeça: Concentração. Use a concentração. Que se dane. Ótimo. Isso. Canalize! — É — disse Jacob, passando as mãos no cabelo. — Ela está bem. Isso tudo foi muito difícil para ela. Como você OUSA? Difícil para ELA? Não está esquecendo alguém? Meus punhos estavam cerrados. Fumaça irradiava da minha pele. Eu estava pegando fogo. Agora. Vá agora. Abri caminho entre Will e Milo. — Uau — disse Will, dando um passo atrás. — Cara, você sentiu isso? — Caramba, que coisa estranha — disse Milo. O rosto pálido. Eu estava a 8 centímetros do rosto de Jacob. Os olhos dele estavam confusos. Ele olhava através de mim, mas havia algo ali. Uma pista, por menor que fosse, de reconhecimento. Era tudo de que eu precisava. Você o pegou. — Brie? — sussurrou Jacob, alto o bastante para que eu o escutasse. Pude sentir o desconforto das batidas do coração dele. Em pânico. Pulsando. Vivo. Deve ser bom.

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Eu me aproximei ainda mais, diminuindo o espaço entre nós. Labaredas azuis e cor de laranja atravessavam a minha pele. Ele arregalou os olhos. Então, com a leveza de uma pluma, passei meus lábios no rosto dele. Levemente. — Isso, sou eu — sussurrei. Concentração. Patrick ainda estava comigo. Pude sentir os olhos dele em mim. — Jacob, cara, é sério, tá tudo bem com você? — Milo tremia. O resto da festa percebeu que alguma coisa estava acontecendo. Alguém desligou o som. Jacob estava de pé no meio do cômodo, como se tivesse visto um fantasma. Não sei se visto, mas com certeza escutado um. Vi os olhos dele vasculhando o ambiente. As palmas das mãos suavam, e eu sabia que estava com medo. Bem feito. Mas eu ainda não tinha terminado. Ainda precisava tirar um peso do meu peito. — A culpa é sua — sussurrei no ouvido dele, agora mais alto. Num instante, o sangue sumiu do rosto de Jacob. — Quem quer que esteja fazendo isso, não é engraçado! — gritou ele. As pessoas na sala ficaram em silêncio. Todos os olhos voltados para ele. — Calma, cara, está tudo bem — disse Milo, tentando acalmá-lo. Pegou Jacob pelo braço. — Vem, vamos lá fora para você pegar um ar fresco. ~ 115 ~


Agora. Ele está nas suas mãos. Agora. Aguentei firme e me aproximei ainda mais. Devagar, passei meus braços em volta da cintura dele. Senti seu corpo inteiro tensionar com o meu toque. Então, sussurrei três palavras perfeitas no ouvido dele. Três palavras que eu escondera desde aquela noite. — Você me matou. Ele começou a gritar. E não parou até que todo mundo tivesse ido embora.

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Capítulo 14 nothing compares 2 u

Patrick e eu descemos lentamente a rua, lado a lado sob a luz do luar. O ar era um misto do perfume do oceano e eucalipto da floresta. Não tínhamos um destino específico em mente. Eu só sabia que íamos em direção ao norte, para longe da casa de Jacob, rumo à cidade. Andamos muito tempo sem dizer nada. — Foi impressionante — ele finalmente quebrou o silêncio. — Eu não tinha certeza de que você era capaz, Queijo Ralado. Forcei um sorriso. — Eu fui incrível, devo dizer. Mesmo assim, não conseguia afastar a sensação de que as coisas não tinham acontecido como deviam. Por um lado, sabia que deveria me sentir muito bem por ter assustado Jacob daquele jeito. E sabia que deveria sentir alívio, sensação de missão cumprida. Afinal, eu fiz com que ele parecesse um doido na frente da maior parte do colégio e de uma porção de amigos de Standford da irmã dele. Nada disso fazia a menor diferença. Eu ainda estava presa àquele lugar idiota e ainda muito longe de chegar em casa. Acho que parte de mim esperava que Jacob tivesse sofrido uma mudança súbita. Que talvez ele tivesse se dado conta do tamanho da besteira que fizera. De como tinha sido idiota para jogar fora alguém como eu. ~ 117 ~


Mas isso não acontecera. Na verdade, ele só pensava nela. Em outra garota. Alguém mais bonita, mais engraçada, divertida, e, quem eu quero enganar, provavelmente mais peituda do que eu jamais seria. Alguém que o conquistara de um jeito que eu nunca seria capaz. Alguém que, eu não conseguia me impedir de desejar, partiria seu coração exatamente como ele partira o meu. — O amor é um saco, não é? — falou Patrick. Fiz que sim. — É. Um saco. Ele passou o braço em volta dos meus ombros. — Vai passar. Eu quis dizer, essa sensação. Antes que perceba, você vai esquecer que ele existe. Parei de andar. — E se eu não quiser esquecer? Caí de joelhos. Eu fora tão idiota de acreditar que ele me amava. Estive tão errada de pensar que aparecer na festa de Halloween da irmã dele mudaria o que tinha acontecido entre nós. Que provaria alguma coisa. Não existia nada que eu pudesse ter feito diferente. Nada que eu pudesse alterar. As letras no meu túmulo não eram temporárias. Haviam sido cravadas para durar para sempre. AUBRIE ELIZABETH EAGAN AMIGA. FILHA. ANJO. PARA SEMPRE EM NOSSOS CORAÇÕES. 1º DE NOVEMBRO DE 1994 – 4 DE OUTUBRO DE 2010 ~ 118 ~


Então, eu senti. Senti de verdade. Eu não voltaria. Estava vivendo num mundo de fantasia cheio de promessas de que um dia, de alguma maneira, eu voltaria para minha antiga vida. Uma vida que estaria esperando por mim de braços abertos. Cheia de esperança e gargalhadas, de amor e segundas chances. Mas a verdade finalmente me alcançou, exatamente como Patrick dissera que aconteceria. E não era justo. Patrick se sentou ao meu lado. Vi-o enfiar a mão no bolso da jaqueta envelhecida e tirar o guardanapo amassado — aquele da pizzaria —, onde ele escrevera uma lista de palavras. Ele puxou a tampa da sua caneta com a boca e desdobrou o guardanapo. Então, sem olhar nos meus olhos, riscou cuidadosamente a primeira palavra da lista. Negação Lutei tanto para combater a raiva, as lágrimas de amargura. Mas elas vieram mesmo assim. — Por que eu? — gritei para os céus. — POR QUÊ? O que foi que eu fiz para merecer isso? Para merecer qualquer uma dessas coisas? — Caí nos braços dele, aos soluços. Lágrimas quentes e raivosas saíam de mim e aterrissavam no chão úmido e arenoso. — Está tudo bem — disse Patrick, com voz suave e sóbria. Pela primeira vez. — Estou bem aqui. Ele me deixou chorar em seu colo por não sei quanto tempo, bem debaixo de uma árvore na beira da autoestrada. Afagou meu cabelo e me disse que ficaria tudo bem. As estrelas estavam expostas no céu, piscando e brilhando, e o chão umedecera sob nossos corpos. Senti que ele se inclinava e abria a jaqueta. Colocou-a sobre mim e se aproximou ainda

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mais. Eu estava tão triste e com tanta raiva que mal conseguia manter os olhos abertos, como uma criança depois de uma crise de choro. — Aposto — sussurrei — que, em algum momento, você fez alguém muito, muito feliz. Se Patrick respondeu, eu não ouvi. Já tinha caído num sono sombrio, pesado, tempestuoso.

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Parte 3 Raiva

Capítulo 15 You ain’t nothing but a hound dog

Nunca fui, na verdade, dessas pessoas que se lembram dos sonhos. Tentei de tudo, literalmente — diários, fitas gravadas, pedir que minhas amigas prestassem atenção e me dissessem se eu falava dormindo —, mas, neca, nada, zero. Fora a assustadora exceção do meu sonho recorrente com a moto, nada realmente ficava na memória. Mas não foi assim desta vez. Por alguma estranha razão, nesta noite em particular, algo me dizia que aquele sonho seria lembrado. E quando finalmente acordei no dia seguinte – ainda enroscada no colo de Patrick —, adivinhem? Lembrei. Sonhei com Hamloaf. Ou, mais especificamente, com o dia em que Hamloaf comeu meu bichinho de pelúcia preferido — uma coelha que eu chamava de Sra. Fluff. Chorei feito louca quando subi na minha cama e não encontrei mi~ 121 ~


nha adorada Sra. Fluff debaixo das cobertas, como sempre. O nariz rosado e fofo. As orelhinhas cor-de-rosa. Coisa mais fofa do mundo. Desaparecida, sem deixar rastro. Primeiro, minha mãe e meu pai disseram que talvez eu a tivesse deixado em algum lugar. Na casa de Sadie. Na lavanderia. Debaixo da cama. Neguei todas as acusações. Porque eu sabia a verdade. Sra. Fluff não estava desaparecida… Sra. Fluff fora raptada. O caos se transformou em pandemônio quando papai percebeu uma estranha trilha de flocos de algodão que vinha do corredor do segundo andar, descia a escada, entrava na sala e ia parar na portinhola por onde Hamloaf entrava e saía. Isso. É verdade. O cachorro comeu minha coelha. Comeu o nariz rosado, gasto de tantos beijos dados por mim. Comeu as orelhas cor-de-rosa. Comeu até os lindos olhos azuis de vidro. (Um dos quais apareceu alguns dias depois, diga-se de passagem, um pouco menos azul e um pouco menos brilhante.) — Tudo — sussurrei, ainda semiacordada. — Lembro de tudo. Lembrei da Sra. Fluff. Lembrei da barriga estufada do Hamloaf enquanto ele se espichava debaixo do céu estrelado, desmaiado, com a pança cheia de coelha. Lembrei de ter tido mais raiva do que jamais sentira na minha vida jovem e curta, e dos olhos doces, caninos e cheios de remorso dele, quando me viu chorando. Lembrei de como pressionou o nariz preto e macio no meu rosto, como se pedisse desculpas. Então, por algum motivo, lembrei da maneira como minha mãe me abraçou naquela noite, me dizendo que Hamloaf era só um cachorrinho. Que ele não tinha tido intenção de me chatear. Lembro do cheiro do cabelo dela e do calor do robe atoalhado. Lembro de como ela fez com que ~ 122 ~


me sentisse melhor, daquela maneira especial que ninguém no planeta jamais conseguiria. Mas isso era mais que uma lembrança. Era desejo. Inesperado, sufocante. Nós duas de mãos dadas quando eu era pequena, nossos pijamas idiotas nas manhãs de sábado. Era o sofrimento de magoarmos uma a outra porque podíamos, era sermos melhores amigas e deixarmos de ser, era a raiva e o ressentimento pelo que nenhuma das duas foi capaz de defender com todas as forças, porque — no final das contas — crianças um dia devem crescer. Esses eram os sentimentos que eu guardara e enterrara numa cápsula, trancados num cofre, num lugar profundo e secreto, inviolável para qualquer pessoa. Um lugar esquecido por mim ao longo do tempo. Sentia falta da minha família. Sentia falta da minha mãe. Abri os olhos inchados de choro e encarei Patrick. — Anjo? — disse ele. — Quero ir para casa. — Quer falar por quê? Balancei a cabeça. Eu me espreguicei e fiquei de pé. Sentia um peso no peito, como se um bloco de concreto tivesse se acomodado ali enquanto eu dormia. Mas alguma outra coisa também surgira. Um plano, que eu não via a hora de colocar em prática. Mas, primeiro, casa. — Então. — Ele parecia animado, como se tentasse levantar o astral. — Pensei em te mostrar um lugar bem legal, não muito longe daqui. — Eu quero ir para casa — repeti. — Agora. ~ 123 ~


Ele me olhou, divertido. — Está um pouco mandona, hoje, não? — Se é o que você diz… Ele coçou a cabeça. — O negócio é o seguinte… — O quê? — perguntei. — O negócio é o quê? — Isso pode ser um pouco problemático — respondeu ele. — E por quê? Ele suspirou e enfiou as mãos nos bolsos. — Companheira, eu sei que você não gosta de ouvir isso, mas as coisas são diferentes agora. Você não pode simplesmente sair fazendo tudo que costumava fazer… — Quem disse? — Sério? Encarei-o. — Estou com cara de quem está brincando? — Caramba — disse ele. — Alguém acordou do lado errado da rua. Ele cruzou os braços. — Permita-me lembrá-la de que não sou seu motorista particular. — Engraçado — respondi. — Porque eu acho que é exatamente isso que você é. — Você é realmente uma figura — murmurou Patrick, antes de segurar minha mão. ~ 124 ~


Senti uma descarga de eletricidade atravessar meu corpo. — Ai! — gritei e puxei a mão. — Você vai me eletrocutar? — Uau — disse Patrick. — As centelhas estão rolando entre nós. Supimpa. Esfreguei meu braço, reclamando. — Ninguém diz supimpa, hoje em dia, idiota. — Olha — disse ele. — Não desconte em mim, tá? Você tem todo direito de estar revoltada, mas não se esqueça. — De quê? — respondi. Ele chutou uma pedra grande e mandou-a para o outro lado da rua. — Não se esqueça de que sou tudo que você tem agora, certo? As palavras arderam, mas não consegui deixar de ficar maravilhada com o que vi. De alguma forma, Patrick fizera a pedra se mover. Com o pé. Fizera contato com um objeto que existia no Mundo Real. Apesar de ele não existir. Fiquei completamente chocada. — Como você fez isso? — Oi? Você está me dizendo que não sabe tudo sobre estar Morto & Enterrado? Isso não é incrível? — Tudo bem, tá — gemi. — Entendi. Desculpa. — Primeiro, quero que você repita. — Você é a única coisa que eu tenho — resmunguei. — Não escutei… ~ 125 ~


— Você é a única coisa que eu tenho! – Senti meu rosto corar. — Tá? Agora, será que você pode me mostrar como foi que você fez isso? Ele sorriu. — Primeiro, as coisas importantes. — Ele segurou minha mão e me puxou para perto. Antes que eu pudesse saber o que estava acontecendo, senti como se estivéssemos na montanha russa mais louca do mundo, girando no ar numa velocidade tão insana que tive vontade de vomitar. Meu estômago foi parar na boca, meus pés estavam em chamas, e eu não conseguia nem ouvir a minha voz com o barulho do vento, enquanto gritava pedindo para ele parar. Então, de repente, ele parou. — Lar, doce lar — disse Patrick. Abri os olhos. Senti meu corpo inteiro tremer, em espasmos, quando a inércia e a gravidade voltaram a fazer parte de mim. — Nunca mais faça isso. — Vou anotar seu pedido, Anjo — disse Patrick. Não gostava que ele me chamasse de Anjo. Assim como também não apreciava os apelidos relacionados a queijo, nem da maneira como ele sempre parecia arrancar informações de mim sem nunca me contar qualquer coisa sobre ele. Mas, por enquanto, estava disposta a deixar tudo isso de lado. Porque estávamos parados na entrada da minha casa. Avenida Magellan, número 11.

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A casa estava tomada de sombras. Todas as janelas fechadas. Todas as cortinas fechadas. Como se quem morasse ali tivesse se mudado havia muitos anos. Ou simplesmente deixado de se importar. Só haviam se passado algumas semanas desde a minha morte, o que não era muito tempo, principalmente quando pensamos nos planos da Eternidade. Mas, ao ver como a luz do outono tingia o telhado — e o jardim enlameado, descuidado; as folhas secas em toda a sua decadência; o sussurro fantasmagórico do oceano a alguns quarteirões dali —, de repente me pareceu que fazia muito mais tempo. O lugar estava estranho. Alterado. Um fantasma de sua antiga aparência. Assim como eu. Não consegui desviar o olhar. — O que aconteceu aqui? — perguntei. — O que sempre acontece — disse Patrick. — Eles perderam alguém. O som de uma porta sendo aberta chamou minha atenção. Um menino de cabelo escuro despenteado, jeans e suéter preto saiu e desceu os degraus, sem se importar de fechar a porta. Colocou a bola de futebol na entrada e chutou-a com toda força na porta de metal da garagem. BAM! BAM! BAM! Era Jack. Em um segundo, meu corpo inteiro se arrepiou. Ele estava tão perto. Era tão real. As bochechas rosadas e o nariz entupido por ~ 127 ~


conta do ar frio do outono. Quis correr até ele, dar um abraço gigante de urso no meu irmão. Vi quando limpou o nariz na manga do suéter. Depois acomodou a bola e chutou-a novamente. BAM! Dei um passo à frente, mas parei, percebendo a total atmosfera dickensiana daquilo tudo. — Ele não pode me ver. — Verdade — respondeu Patrick. — O lado bom é que seu cabelo está um pouco assustador agora, então talvez seja melhor assim. Passei a mão nos meus cachos despenteados, tentando amansá-los, mas parei quando me dei conta de que Patrick só estava me provocando. De novo. Me preparei para discutir, como sempre, mas parei ao ouvir a porta se abrindo mais uma vez. — Jack! A voz da minha mãe. Então a vi, metade do corpo para fora da porta. O suéter verde, supermacio, que minha avó lhe dera de presente no Natal passado. Os óculos de tartaruga. O rabo de cavalo escuro, ondulado. Estava um pouco mais baixa de como me lembrava dela? Mamãe. Senti um aperto na garganta e arrepios na nuca. Quis correr até ela. Quis tanto correr até ela. — Jack, meu amor, por favor, não chute a porta da garagem com tanta força. Faz muito barulho. Seu pai está tentando dormir. — Dormir? — disse eu. — Ainda? Que horas são? ~ 128 ~


Deviam ser pelo menos 11 da manhã. E meu pai era do tipo que acordava cedo. Sempre ao amanhecer, para poder encaixar uma horinha de surfe antes de ir para o trabalho. Como ele podia ainda estar dormindo? Costumava ficar irritado se a gente passasse das 9 horas, mesmo nos finais de semana. — Tá. — A voz de Jack estava distante. Como se não estivesse prestando a menor atenção ou não desse a mínima. Sem olhá-la nos olhos, baixou a bola, deu alguns passos para trás e chutou novamente. Com mais força dessa vez. BAM! Mamãe balançou a cabeça. Estava irritada, dava para ver, mas não teve forças de pedir de novo. Deixou a porta bater atrás de si quando voltou para dentro de casa. — Família feliz — disse Patrick. Ignorei-o. Fui até a entrada e me sentei bem pertinho de onde Jack estava chutando a bola. Jack Cheddar. Ele era bonito. Um menino bonito, doce e triste. Faria 9 anos dali a alguns meses. Um pensamento passou pela minha cabeça. E se tiver se esquecido de mim? Ele tirou o suéter e deixou-o no chão. Sentou de pernas cruzadas na grama, enfiou a mão no bolso e pegou um baralho. Eu lhe ensinara várias maneiras de embaralhar no último verão. Ele estava ficando bom nisso. Mas as mãos eram ainda muito pequenas para manejar as cartas com maestria. Dividiu o baralho em dois, como eu lhe mostrara (com ~ 129 ~


menos cartas fica mais fácil), mas, quando fez o movimento – tentando envergar as cartas de maneira suave, fazendo um arco –, elas escorregaram de seus dedos e se espalharam pela grama. — Droga — resmungou ele. — De novo — disse eu. — Usando os dedões desta vez. Ele repetiu exatamente os mesmos passos, mas, como da primeira vez, as cartas se espalharam. — Porcaria! — Ele desistiu e voltou a chutar a bola de futebol. Não há nada que eu possa fazer. Sou completamente inútil. Um total e absoluto desperdício de espaço. — Bem, não tecnicamente, já que, tecnicamente, não está ocupando espaço nenhum — disse Patrick. — Já que estamos sendo técnicos. Bati na testa com a mão. — Meu Deus, você NUNCA cala a boca? Ele sorriu. — Na verdade, não. Eu teria respondido com alguma frase inteligente, mas um grito chamou minha atenção. Levantei e andei em direção à janela da cozinha, para ver melhor. Lá estavam eles. Minha mãe e meu pai. Sentados um de frente para o outro na mesa. Uma xícara intocada de café diante dele, um prato vazio e o jornal não lido diante dela. Mamãe chorava. Meu pai estava com a cabeça enterrada nas mãos. — Você tem que parar — disse ela. — Quanto tempo mais vai fazer a gente passar por isso? Quanto tempo mais vai fazer Brie passar por isso? ~ 130 ~


Eu? Estão brigando por minha causa? — Eu preciso entender — disse ele. — Não posso esquecer enquanto não entender. — Você está obcecado — disse minha mãe, a voz embargada. — Não pode consertar as coisas. Ela morreu, Daniel. Quando você vai aceitar isso? — Não faz sentido, Katie. — Ela morreu, Daniel, escute o que você está dizendo. — Ela se levantou da mesa e levou o prato até a pia. Ligou a água quente, e a fumaça começou a embaçar o vidro da janela pela qual eu espiava. Eu me aproximei. — Ela era saudável — prosseguiu Daniel. — Tínhamos tudo sob controle. O coração estava saudável. — Talvez não. — Minha mãe estava chorando de novo. Fez uma pausa para secar as lágrimas. — Talvez todos nós estivéssemos errados. — Não! — Papai deu um soco na mesa, de repente, derrubando o açucareiro. — Um infarto fulminante numa menina de 15 anos? O tecido não se rompe, simplesmente, Katie. Um coração não se parte em dois assim, de repente, caramba! — Calma — disse mamãe. — Jack pode escutar. Meu pai respirou fundo. Parecia tentar se controlar. — Minha equipe nunca viu uma coisa dessas — disse, esfregando os olhos. — Brie pode nos ajudar a salvar outras pessoas… Fazer com que uma coisa desse tipo não aconteça novamente.

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— Não é culpa sua, Daniel — sussurrou minha mãe. — Não é culpa de ninguém. — Aquele garoto tem alguma coisa a ver com isso. — Papai balançou a cabeça. — Eu sei que tem. Você está certo, pai. Está chegando lá. — E o que você vai fazer? — indagou minha mãe. — Mandar prender um menino de 16 anos por ter brigado com a sua filha? Ele é uma criança, Daniel. Você viu o coração dela… — Sua voz estremeceu. — Você viu com seus próprios olhos. Todos nós vimos. Não se atreva a dizer que Jacob Fischer é responsável por isso. — Ela desmontou, aos soluços. Mais do que você pensa. — Você tem dormido no consultório há semanas. — Minha mãe se virou para encará-lo, lágrimas rolando pelo rosto. — Precisamos de você aqui, Daniel. Jack e eu precisamos de você. — E Brie? — disse ele. — Ela não precisa de mim? — Ela MORREU! — gritou ela, com todas as forças, os ombros tremendo. Não, não, não, por favor, não briguem, por favor, não briguem. Quis tapar os olhos e os ouvidos — quis sair correndo e nunca mais voltar. Mas não consegui desgrudar da janela. — Estou muito perto — disse papai. — Tenho uma teoria. — Você tem a nós — soluçou minha mãe. — Isso não basta? — Tentou abraçá-lo, mas ele se afastou. — Não. — Meu pai ficou de pé. — Neste momento, não. — Ele pegou a chave do carro no balcão. — Sou um dos maiores cirurgiões cardí~ 132 ~


acos do mundo, Katie. Como você acha que isso soa? Como você acha que isso soa quando não tenho uma resposta para o que aconteceu com minha própria filha? Esse é meu pai. Sempre realista. Era o que fazia melhor, afinal. Lidava com fatos. Esclarecia a verdade. As pessoas vinham de todas as partes do país — até do mundo —, em busca de sua ajuda. Não ter sido capaz de reviver a mim, sua própria filha, devia estar enlouquecendo-o. Mamãe era diferente. Era a artista da família. O espírito livre. Ensinava desenho no Instituto de Arte de São Francisco. Quando os dois se conheceram, as diferenças os fortaleciam. Agora, elas estavam separando-os. — Estão precisando de mim no hospital — disse papai. — Nós precisamos de você aqui — disse minha mãe. Parem, parem, por favor, não briguem, não por minha causa. Eu sinto muito. — Vou tentar não chegar tarde. — E o jantar? — perguntou minha mãe, com amargura. — É o aniversário dela, Daniel. Você vai mesmo trabalhar até tarde? Congelei. Meu aniversário. Olhei para Patrick. — Dezesseis — disse ele. — Parabéns, Brie. Meu pai suspirou. — Vou fazer o possível. — O possível não é o suficiente.

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— Eu tenho que fazer isso, Kathryn. — A voz dele estava fria. Raivosa. Eu não me lembrava da última vez em que chamara minha mãe pelo nome. Ela saiu enfurecida da cozinha. — Faça o que você quiser. Dane-se. Corri da janela da cozinha para o jardim. Desci os degraus da varanda de dois em dois, voando até a porta da frente. Tinha que tentar falar com eles. Tinha que fazer com que soubessem que não precisavam se preocupar comigo. Eu entraria e ficaria tudo bem. Encontraria uma maneira de fazer com que ficasse tudo bem. Era a minha família. E eles precisavam da minha ajuda. Você não pode, sussurrou Patrick dentro da minha cabeça. Não posso o quê? Chega de me dizer o que eu posso e o que não posso fazer. Eu me adiantei, preparada para sentir o toque gelado e suave do metal, como acontecera tantas vezes. Mas quando segurei a maçaneta e tentei girá-la, nada aconteceu. O que…? Tentei novamente. E novamente. Eu estava trancada do lado de fora. — Odeio essa porcaria de casa! — Explodi, tentando chutar a porta. Nada. Não importava o quanto eu chutasse, socasse, jogasse meu corpo contra a porta, ela não se movia. — Odeio isso! Odeio isso! Odeio isso! — gritei com todas as forças, as palavras queimando minha garganta como carvão aceso. Depois de ~ 134 ~


um minuto, caí nos degraus da varanda, sem fôlego. Estava com tanta raiva que uma fumaça discreta emanava de meus braços e das minhas costas. Estava, literalmente, pegando fogo. Patrick subiu a escada lentamente. — Melhor? Eu tenho que entrar. Você NÃO PODE. — Isso é loucura! — gritei. — Por que não? – Girei o corpo, fiquei de pé e tentei mais uma vez girar a maçaneta. Gritei pedindo que alguém, qualquer pessoa, me deixasse entrar, pelo amor de Deus. — Você não está pronta, Brie. Ainda não. — Como assim, ainda não? — respondi. — Fui na festa do Jacob. Por que não posso entrar em casa? Olha só, estou concentrada. — Espremi os olhos em direção à porta e me concentrei o mais que pude. — Estou concentrada. Nada disso faz o menor sentido. Patrick falou baixinho: — Não é para fazer isso, Anjo. Jack passou por mim e abriu a porta com um movimento rápido, sem esforço algum. Tentei me esgueirar atrás dele. Tentei enfiar meu pé pela fresta. Faria qualquer coisa para entrar. Mas a porta bateu na minha cara. Não era bem-vinda. Caí de joelhos, apoiando a cabeça no vidro estreito e comprido ao lado da porta. Eles estavam gritando de novo. A voz do meu pai ecoava ~ 135 ~


pela casa em alto e bom tom, e ouvi Hamloaf latir desesperadamente. Soquei minhas coxas. — Estou aqui! Parem! Parem de brigar! Olhei pela janela. Lá dentro, as coisas pareciam iguais. O mesmo piso de madeira, o mesmo armário de casacos, a mesma cristaleira na sala de jantar, os mesmos sofás confortáveis na sala de TV, as mesmas inúmeras prateleiras de livros. Os lindos vasos de planta da minha mãe enfeitando as laterais da porta de vidro do quintal, maltratados e provavelmente precisando loucamente de água. Odeio isso. Odeio isso com todas as minhas forças. É muito injusto. Um choro baixinho chamou minha atenção. Depois um gemido, seguido de um espirro. Olhei para cima e desmontei. Ali, olhando para mim através da janela, as orelhas compridas e peludas, a cara deliciosa a centímetros da minha, estava Hamloaf.

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Capítulo 16 total eclipse of the heart

Isso não podia ser realidade. Aqueles grandes olhos castanhos não podiam estar olhando para mim. Girei o corpo para ver a rua. Devia haver um esquilo, um gato ou outro animal que tivesse chamado sua atenção. Talvez alguém correndo? Ou um frisbee perdido no jardim da frente da casa da família Brenner? Mas nada se destacou. Nada parecia estar se movendo. Bem, isso é estranho. Olhei novamente para a janela, e lá estava Hamloaf, sentado no mesmo lugar de antes, ainda olhando para mim. Não se movera um milímetro. O peito peludo estufado, a cabeça inclinada de curiosidade para o lado. Ele cheirou o ar e deixou escapar um latido profundo, incerto. — Ei, bonitão — sussurrei. Ele inclinou novamente a cabeça, daquele jeito inacreditavelmente fofo que os cachorros têm quando estão intrigados, e vi que seu rabo começou a espanar de leve o chão. Isso não é nem um pouco possível. Não consegui evitar e, lentamente, estendi a mão em direção ao vidro. Ele deu um pulo para trás e começou a latir. ~ 137 ~


— Shh! — eu disse. — Quieto! Ele levantou as orelhas assim que as palavras saíram da minha boca. — Bom garoto — disse eu, olhando fixamente para aquela cara fofa de basset hound. — Vem aqui, garoto. Vem. — Estendi a mão na direção dele mais uma vez. Apoiei-a na janela. Hamloaf ficou parado. O rabo parou de se mover e ele aproximou o focinho para mais uma fungada. — Hammy? — Procurei os olhos dele. Mas não houve reconhecimento. Não havia nada ali. Ele não pode me ver. Quem estou querendo enganar? — Sinto muito — disse Patrick, baixinho, de pé nos degraus da escada. — De verdade. — Eu sou tão idiota — falei. — Você estava certo. Estou presa aqui para sempre, pelo resto dessa porcaria de eternidade, sem família, sem amigos… — Poxa, valeu — disse Patrick, me interrompendo. — Meu namorado, meu cachorro… — Brie, calma… — Até, sei lá, minha alma desintegrar ou o universo explodir… — Brie, olhe… — Ou seja lá que porcaria vier primeiro. — Deus, será que dá para você OLHAR? — Oi? — Olhei para cima. ~ 138 ~


Hamloaf estava arranhando a janela. Exatamente onde eu tinha colocado a mão. — Meu Deus — sussurrei. Não conseguia acreditar no que via. Aquela tinha sido a única coisa que conseguimos ensinar para Hamloaf. Ele está tentando me cumprimentar. Lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto e deixei escapar uma gargalhada. — Seu cachorro maluco, você CONSEGUE me ver! — Por um momento, toda raiva que existia dentro de mim desapareceu. Comecei a pular, batendo palmas e rindo enquanto Hamloaf me olhava, latindo e ganindo, andando em círculos do outro lado do vidro. — Bom garoto! — gritei. — Bom garoto! Ele respondeu tentando lamber o vidro. Patrick balançou a cabeça. — Maldição. Nunca tinha visto uma coisa dessas. — Hamloaf, chega de latir. — Ouvi minha mãe gritar da cozinha. — Quem está na porta? — Sou eu! — gritei. — Mãe, sou EU! Ela veio até a porta e ouvi o barulho da fechadura. De repente, ali estava ela. Mamãe. Estávamos cara a cara. Estendi o braço, mas minha mão atravessou o corpo dela. Não, por favor. Por favor, me veja. Estou aqui. ~ 139 ~


Ela estremeceu ligeiramente e puxou o suéter no ombro. Mas Hamloaf aproveitou a oportunidade, atravessou a porta aberta e me cobriu de beijos. Ele poderia ficar ali para sempre. Nunca tive tanta vontade de ficar coberta de baba canina na minha vida. — Chega, Hamloaf. — Minha mãe puxou-o pela coleira e tentou fazer com que entrasse, se afastasse de mim. Vi pela expressão no rosto dela que estava um pouco assustada. Algo estava errado. Ela só não sabia o quê. Antes que eu pudesse alcançá-la, antes que pudesse fazer com que me visse, ela deu um passo atrás, em direção à porta. Senti uma raiva e um ressentimento antigos voltarem à tona. — Mãe, mãe, mãe, não… — Para dentro, Hamloaf. Vamos entrar para comer. — Não! Fiquem comigo! Não é justo. Eu só queria entrar um pouco. Por que não posso entrar? — Dei um passo à frente e Hamloaf voltou a latir, o pelo do pescoço eriçado. — O que foi que deu em você? — disse minha mãe. — Chega de latir, agora. Ele não se moveu. Não queria me deixar. — Hamloaf Eagan, entre imediatamente. — Minha mãe apontou para a sala. Ele deixou escapar um uivo alto, agudo, como se soubesse que estava em maus lençóis, e olhou para mim, buscando apoio. Também não entendia por que eu não podia entrar. E eu queria que alguém pudesse dar uma explicação para nós dois. ~ 140 ~


— Tudo bem, Hammy — falei, com delicadeza. — Pode entrar. Pode ir com a mamãe. — Fiquei de joelhos. Peguei o focinho dele e enchi de beijos. — Pelo menos, isso já é alguma coisa — falei. — Pelo menos a gente ganhou alguma coisa. — Depois, empurrei-o para dentro. Minha mãe fechou a porta, me trancando lá fora para sempre. Olhei para ela através do vidro frio. — Odeio isso. — Todos nós — disse Patrick. — Todos nós. De repente, o barulho da porta da garagem se abrindo chamou minha atenção. — Estou indo para o hospital. — Ouvi meu pai dizer. Seu tom não era amistoso. Nem um pouco. Não, pai. Não saia assim. Sequei meu rosto, fiquei de pé e desci correndo a escada. Se alguém fosse deixar aquela casa, teria que me derrubar primeiro. Dei a volta pela lateral da casa, passei pelas roseiras vermelhas da mamãe. — Pai! — gritei. — Não vá embora! Ele colocou a chave na ignição, ligou o carro e saiu de ré. Vi seu rosto enquanto conferia os carros na rua, virava à direita e se afastava às pressas do nosso quarteirão. Como se não pudesse ir mais rápido. Mas me senti péssima ao ser deixada para trás. E comecei a andar em direção à rua. Depois, comecei a correr, a toda, o mais rápido que minhas pernas permitiam. Brie, o que é que você está fazendo? Seguindo meu pai, o que você acha? ~ 141 ~


Imediatamente, Patrick apareceu do meu lado. Segurou minha mão. Segure-se. Segundos depois, meus pés se chocaram contra a entrada de concreto do hospital da Universidade de São Francisco. Fui lançada uns 6 metros para trás. — Ai — gemi, assim que o ar voltou aos meus pulmões. — Essa doeu de verdade. — Sete e meio — disse Patrick. — Boa altura, boa distância, mas três pontos a menos por conta da aterrissagem ruim. — Dá um tempo. — Esfreguei meus joelhos feridos. — Tinha neblina. A visibilidade era ruim. E eu queria ver você tentar fazer isso de vestido. Exijo recontagem. — Ai, ai, ai, não vamos ser gananciosos. Você tem sorte de eu ter te dado meio ponto extra. Ele me puxou, rindo. Espanei a poeira do meu corpo e manquei até a calçada. Esperamos. Quinze minutos depois, vi finalmente o BMW do papai descendo a rua. Ele ligou a seta, virou à esquerda e estacionou bem longe da entrada do hospital. Eu me levantei quando ele começou a caminhar na minha direção. Pai, estou aqui. Estendi o braço para tocar nele, mas, exatamente como aconteceu com mamãe, minha mão atravessou seu corpo. Papai continuou andando. Segui-o. Passei pelas portas de vidro e entrei na emergência com ele, atravessamos o corredor que tinha cheiro de plástico e desinfetante, al~ 142 ~


cançamos o elevador. Ele apertou o botão para o quarto andar e apoiou o corpo na parede, fechando os olhos. Finalmente pude olhar para ele com atenção. Estava despenteado e sem se barbear. Olheiras permanentes marcavam seus olhos e ele parecia mais magro. Mas ainda era muito bonito. Tentei segurar sua mão. Pai, sou eu. Ele se afastou, enfiando a mão no bolso. O elevador parou. Apitou duas vezes. As portas se abriram. Patrick e eu o seguimos num corredor fluorescente e passamos através das portas de vaivém. Passamos pela UTI e finalmente dobramos à esquerda para a área de cardiologia. Estremeci e senti uma tensão na boca do estômago. Na última vez que eu passara por ali estava numa maca. Meu pai segurava minha mão. Apesar de eu já ter ido embora. Viramos mais uma vez à esquerda e chegamos à porta do consultório. Ele remexeu o bolso, pegou um molho de chaves e girou a maçaneta. Patrick e eu entramos atrás dele, apesar de não conseguirmos ver muita coisa, já que a sala estava às escuras. Ele trancou a porta conosco lá dentro. Espera, por que ele trancou a porta? Então, acendeu a luz. E engasguei ruidosamente. Era como se uma bomba tivesse explodido. Ou um furacão tivesse passado. A sala estava uma bagunça total. Coberta de papéis do chão ao teto. Matérias de jornal. Radiografias. Fotos. Páginas de anotações. De~ 143 ~


zenas e dezenas de cadernos. Não havia uma molécula de espaço livre ali dentro. O que será tudo isso? Talvez ele agora tenha um novo hobby? A verdade era que Patrick tinha razão. E o novo hobby era eu. Passei as mãos pelas paredes lotadas, olhando as manchetes. ADOLESCENTE DE HALF MOON BAY SOFRE INFARTO FULMINANTE JOVEM LOCAL, 15 ANOS, MORTA POR FALHA NO CORAÇÃO – SEU FILHO PODE ESTAR CORRENDO RISCOS? Mais e mais artigos emoldurados, além de compilações espalhadas, ocupavam as paredes, juntamente com capas de revista com meu rosto estampado. Tudo aquilo era sobre MIM? Eu não sabia o que dizer. — Olha só! — disse Patrick. — Você é famosa. Caminhei até meu pai, que agora estava sentado à sua mesa. Observei-o enquanto vasculhava pilhas e pilhas de jornais, às vezes recortando uma matéria, às vezes puxando um livro de referências nas prateleiras empoeiradas, bagunçadas, para procurar alguma coisa. Fazia anotações intermináveis em cadernos — perguntas e teorias e histórias que descobrira em todas aquelas pesquisas. Nunca tinha visto meu pai daquele jeito. Era uma versão esquisita, alterada, dele mesmo. Completamente enlouquecido por conta do que a ~ 144 ~


medicina não podia explicar. Não conseguiria parar enquanto não resolvesse o enigma. Ah, papai, foi só um coração partido. Nada científico. Eu me enrosquei no sofá de couro, o mesmo onde eu e Jack costumávamos nos sentar para criar um baralho de previsões com pedaços das anotações do papai e, depois, ler em voz alta como se fosse o futuro do outro. Três filhos. Um animal de estimação, um peixe dourado chamado Flipper. Você vai morar numa mansão. Vai ser astronauta. Mas jamais teríamos sido capazes de prever o que aconteceria comigo. Nem em um milhão de anos. Vê-lo daquele jeito fazia meu peito doer. Eu tinha causado tanta confusão na vida de tanta gente. Mesmo assim, de alguma maneira, ver o quanto ele se importava comigo fazia com que o amasse ainda mais. Ver o quanto estava empenhado em resolver o maior mistério de sua carreira: eu. O telefone tocou. Ele atendeu. — Alô? — Fez uma pausa. — Meu amor, não chore. Eu sei. Eu também sinto muito. Sentei. É a mamãe. Estão fazendo as pazes. — Ok — disse ele. — Ótimo. Estarei em casa daqui a pouco. Ele vai para casa, ele vai para casa, ele vai para casa! Dei um pulo. Parecia uma criança numa manhã de natal. Papai terminou de digitar um e-mail, arrumou a pasta, apagou a luz e trancou a porta da sala. Seguimos seus passos até o estacionamen~ 145 ~


to e entramos no banco de trás do carro. Estava feliz de termos saído do hospital. — Não acredito que você está me fazendo andar nessa geringonça — resmungou Patrick. — Vou virar a piada dos céus se alguém descobrir. Voar é tão mais eficiente. Ri. Era divertido vê-lo irritado. Seguimos pela rua e meu pai ligou o rádio. Bon Jovi. — Meu deus do céu amo essa música! — gritei, sentindo mais esperança do que já sentira desde minha chegada à pizzaria. — Aumenta, pai! — Comecei a cantar com força total. — “Whoa-oh, livin’ on a prayer!” — Uau. Minha audição nunca mais vai ser a mesma — lamentou Patrick. — Me lembra de pagar aulas de canto para você no seu próximo aniversário. — Ah, tá — ridicularizei. — Como se você fosse MUITO melhor. Ele ergueu a sobrancelha. — Preste atenção no mestre. — Então, jogou a cabeça para trás e começou a cantar. — “Take my hand and we’ll make it, I swear! Whoa, livin’ on a prayer!” O mais louco era que ele era bom. Tipo, muito, muito bom. Fiquei absolutamente impressionada. — Caramba! Você devia se inscrever no American Idol! Ele sorriu e me passou um microfone invisível. — Será que a gente consegue harmonizar?

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Fiz o que pude, mas depois de uns cinco segundos de grunhidos, caímos numa gargalhada histérica. E daí que ele tinha descoberto minha única falha? Rir era muito bom. Não, era maravilhoso. Tudo bem agora. Vai ficar tudo bem. Patrick sorriu para mim. Sorri de volta. Brie? Ouvi-o sussurrar. Você se lembra… — Ei! — gritei ao ver o mercado de comida orgânica passar por nós. Olhei para trás, confusa. — Pai, o que você está fazendo? Passou da entrada. Estava usando um caminho novo para ir para casa? Estranho. Ele acelerou e passamos por várias ruas familiares. Talvez pare em algum lugar para comprar flores para mamãe ou alguma coisa assim. Paramos num sinal vermelho e meu pai ligou a seta. — Pai, por que vamos virar aqui? Ele esperou que dois carros passassem, depois virou rapidamente à esquerda e chegou ao Hotel Hilton. O que tem no Hilton? Ele estacionou, colocou o carro em ponto morto e desligou o motor. Destravou o cinto de segurança e saltou. O que é que ele está fazendo? Patrick não se atreveu a adivinhar. Estava tão sem pistas quanto eu.

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Seguimos papai até o lobby e seus funcionários atenciosos, grandes lustres e palmeiras falsas. Fomos atrás dele até o elevador e subimos até o 11º andar. Onze, meu número de sorte. Atravessamos o corredor comprido e acarpetado atrás dele, até que meu pai parou na frente da porta do quarto 1108. Bateu duas vezes. Ouvi um barulho na fechadura do lado de dentro. A porta foi aberta. Era uma mulher. Congelei. Não. Cabelo louro, curtinho e moderno. Olhos azuis brilhantes. Não. — Daniel? — Sarah. Sra. Brenner? Fiquei sem ar. Minha professora. Minha vizinha. Melhor amiga da minha mãe. Papai deixou a pasta no chão. Afrouxou a gravata. Antes que me desse conta do que estava acontecendo, ele começou a chorar. Primeiro, só um pouquinho, até se derreter completamente nos braços dela. Não, por favor. Por favor, não. — Inacreditável — sussurrou Patrick. Meu Deus do céu, vou vomitar. E eles se abraçaram. ~ 148 ~


E começaram a se beijar. E eu saí correndo pelo corredor sem olhar para trås.

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Capítulo 17 shot through the heart, and you’re to blame

Minha cabeça estava rodando. Não tinha muita certeza do que estava fazendo, para onde estava indo, que horas eram ou em que ano estávamos. Tudo que eu sabia era que haviam mentido para mim. Meu mundo inteiro, minha identidade completa, minha existência inteira parecia uma piada enorme e nem um pouco engraçada. Se seus pais — duas pessoas completa e profundamente apaixonadas que parecem insanamente perfeitas uma para a outra diante dos olhos alheios —, se ELES não conseguem fazer as coisas direito, como uma garota como eu pode continuar acreditando em conceitos como amor, família e para sempre? Eu estava absurdamente, incrivelmente irritada. Com raiva do papai por estragar tudo. Com raiva de Jacob por ter entrado na minha vida fácil e feliz, sem que eu tenha pedido. Estava com raiva até de Patrick, por ter me trazido de volta para ver aquilo tudo. Não podia nem olhar para ele, de tanto ódio que estava. Enquanto isso, no meio daquela ira por ter acabado de ver meu pai beijando outra mulher, aparentemente voei do Hilton para o centro de Half Moon. Nem mesmo tinha me espatifado na aterrissagem, o que era impressionante. Que pena que não estava no clima de me gabar. ~ 150 ~


— Você quer conversar? — perguntou Patrick, assim que descobriu onde eu estava. — Não. Curta. Seca. Direta. Do outro lado da Main Street, um coroa hippie começou a cantar uma música do Neil Young que eu conhecia. Era uma das favoritas do meu pai. “Because I’m still in love with you, I wanna see you dance again. Because I’m still in love with you, on this harvest moon.” — Cala a boca! — gritei para ele. — Ninguém quer ouvir isso! — Acho que provavelmente não é um momento muito bom — disse Patrick quando passamos pelo Past Moon, um dos restaurantes favoritos de Sadie —, mas acho que tenho uma surpresa para você. — Odeio surpresas. — Engraçado, não foi isso que ouvi dizer. — Você se enganou. Estava indo para o Pilarcitos Creek Park. Precisava desaparecer por um tempo. Sentar na grama. Respirar ar fresco. Ver os doidões discutindo energia solar ou alguma coisa parecida. — Para, vai — resmungou Patrick quando percebeu aonde eu estava indo. — Você não sabe que tenho alergia mortal a sol e felicidade? — É meu aniversário, eu tomo as decisões. — Ok – disse ele. — Mas não hoje à noite. A noite de hoje é por minha conta. ~ 151 ~


Dei de ombros. — Como quiser. Caminhamos bastante no parque, passeamos por caminhos de arbustos sinuosos, até eu encontrar um descampado bom o suficiente. Boa vista, sol, excelente proporção entre grama e terra. Fui até uma árvore centenária, deitei de costas e olhei para o céu. Tentei apagar a imagem mental do meu pai nos braços de outra mulher. De alguém em quem eu confiava. De quem gostava. Pensar nela me dava enjoo. Será que minha mãe desconfiava? Havia quanto tempo isso acontecia? Aquele beijo entre meu pai e a sra. Brenner definitivamente não parecia o primeiro. Eca, que nojo. Ali estava um homem que eu havia admirado a vida inteira. Um homem que sempre fora meu herói. Um herói para todos nós, em algum momento. Ainda era, para Jack. Foi então que decidi que jamais o perdoaria. Era imperdoável o que ele estava fazendo. Traíra mamãe. Traíra Jack. Traíra até mesmo Hamloaf. Traíra todos nós. — E hoje. Hoje dentre todos os dias possíveis. — Minha voz embargou e lágrimas queimaram os cantos dos meus olhos, mas não chorei. Estava com muita raiva para chorar. — O amor é uma porcaria total. Pensei na separação temporária dos pais de Jacob no ano anterior. Eu ficara ao lado dele, passando por aquilo tudo, e ele literalmente chorara nos meus braços na tarde em que o pai se mudou. Nunca vou es~ 152 ~


quecer o rosto de Jacob naquele dia. Parecia um menino, assustado e confuso, achando que talvez pudesse ter feito alguma coisa para impedir. Lembro de ter voltado de bicicleta para casa de noite e abraçado meus pais, mesmo enquanto brigavam comigo por ter voltado uma hora depois do horário combinado. Abracei-os com força naquela noite. Eu me senti tão sortuda por ter uma família tão diferente das outras. Éramos felizes. Seguros. Nada poderia nos separar. Mas eu estava errada. Estava errada em relação a muitas coisas, na verdade.

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Capítulo 18 16 candles make a lovely night

Patrick e eu ficamos naquele gramado o resto da tarde. Não falamos muito. Ficamos debaixo do sol frio de novembro, deitados lado a lado, vendo as nuvens que passavam sobre nossas cabeças. — Poodle — disse Patrick, apontando para uma delas, bem fofinha. Ri. — Você é cego? Essa é a nuvem com menos cara de poodle que eu já vi. — Uau, essa foi dura, Cream Cheese, fala sério. — É tão óbvio que parece um coelho — falei, revirando os olhos. — Fala sério você. As horas passaram. Vimos os skatistas passando, as cuecas totalmente à mostra por conta daqueles jeans caídos. Vimos todas as babás empurrando carrinhos com bebês e seus chihuahuas com casaquinhos mais chiques do que qualquer roupa minha. Mesmo com todas essas distrações, minha cabeça idiota continuava voltando para Jacob. Pensei nos intermináveis dias de verão que passamos juntos naquele mesmo parque. Passeando. Jogando cartas. Cochilando abraçadinhos. Acordando e sentindo os lábios dele nos meus. Isso um dia vai parar de doer tanto? ~ 154 ~


Patrick não tinha uma resposta atrevida para isso. Talvez estivesse finalmente fora da minha cabeça, como eu pedira, ou talvez soubesse que eu não ia gostar da resposta. Aos poucos, o dia foi acabando. A névoa subiu e o sol começou a desaparecer lentamente na baía. — Acho que chegou aquela hora do dia, mocinha — disse Patrick, espreguiçando-se. Ficou de pé e limpou o jeans. — Hora de quê? Não vou a lugar nenhum. Vou dormir no parque hoje. — Mas não vai mesmo — Ele riu. — Ah, não seja estraga prazeres. Ele pegou meu braço, me levantou numa velocidade estonteante e senti aquela descarga de eletricidade tão familiar debaixo das minhas sapatilhas. — Isso de novo, não — resmunguei, fechando os olhos. Levantamos voo como se fôssemos um foguete e senti a terra se afastando sob nós. Não abri os olhos. Preferi não saber o quão alto estávamos. Você nunca vai melhorar nisso, Anjo, se não der uma olhadinha em volta de vez em quando. Aí, tudo bem. Abri um pouco um dos olhos. E confirmei que sim, estávamos de fato a 3 mil metros acima do chão. — Não se atreva a me largar — murmurei com os dentes cerrados. Patrick nos levou para longe do parque, na direção da pizzaria. ~ 155 ~


Ou foi o que imaginei. Quando nossos pés tocaram o solo, um instante depois, senti areia enchendo os sapatos, ainda quente do sol da tarde inteira. Mesmo em novembro a areia permanecia aquecida. Isso é a Califórnia. Reconheci os penhascos — altos, majestosos — e a maneira como as ondas quebravam na beira da praia em linhas perfeitas, paralelas, enfeitadas de espuma branca. Conhecia aquelas flores do campo de olhos fechados, as pequenas pétalas vermelhas, laranja e lilás dançando no ar marítimo, a maneira como surgiam em lugares engraçados, como entre pedras e debaixo de conchas. Era Mavericks. Um lugar aonde tinha ido milhares de vezes na vida. Um dos meus preferidos em Half Moon Bay. A praia aonde Jacob me levou para vários encontros românticos, e onde dormimos num saco de dormir na última noite do verão passado. Mavericks foi o lugar em que ele me seguiu no mar e onde me beijou sob três estrelas cadentes, uma depois da outra. Onde ele realmente roubou meu coração. P.S. Quero meu coração de volta. De todos os lugares aonde Patrick poderia ter me levado – de todos os que significavam alguma coisa para mim –, Mavericks seria o único que não revisitaria por conta própria. Apesar de ser talvez o lugar que mais precisava rever. — Como você sabia? Patrick encolheu os ombros e me lançou aquele sorriso peculiar. — Palpite. — Apontou para algo atrás de mim. — Vire.

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Virei. E não acreditei no que estava vendo. Na praia, as silhuetas recortadas pelo pôr do sol perfeito da Califórnia — incrível por conta da neblina — estavam minhas três amigas prediletas. Emma, Tess e Sadie, todas de jeans e suéter, carregando travesseiros e sacos de dormir, abraçadas juntas numa canga. Perto delas, uma pequena fogueira acesa e crepitante, emoldurada pelo céu cor de laranja. Vê-las juntas ali novamente trouxe lágrimas de novo aos meus olhos. Olhei para Patrick. O que significa isso? Ele riu. É uma festa de aniversário. Para você. Fiquei completamente sem palavras. Não fazia ideia do que dizer nem de como agradecer a ele. Até tentei abrir a boca, mas não consegui dizer nada. Ele levou o dedo aos lábios. — Estão te esperando. Hoje, minha querida, a noite é sua. Aproveite. Então, antes que eu tivesse tempo de entender o que estava acontecendo, Patrick inclinou o tronco. Devagar, suavemente, encostou os lábios no meu rosto. Meus olhos se fecharam, e, por uma fração de segundo, juro que senti um formigamento dentro do meu peito – borboletinhas delicadas batendo as asas no lugar onde devia estar meu coração. Apesar de isso ser impossível. Uau.

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Quando abri os olhos, segundos depois, Patrick tinha sumido. Desaparecido completamente no ar da noite, como se nunca tivesse estado ali. Nossa, eu precisava mesmo aprender a fazer aquilo. Fui caminhando devagar pela areia, em direção a minhas amigas. Desejei tanto poder correr até elas. Abraçá-las e me enroscar com elas, nós quatro ali, assistindo o sol afundar lindamente nas ondas. Quando me aproximei, escutei suas vozes com bastante clareza. Falavam de mim. — Ainda não acredito que ela não está mais aqui — disse Tess. Abraçou com força os joelhos e enfiou o nariz no suéter azul. — Não parece que aconteceu de verdade. Sadie concordou. — Acho que nunca vou acreditar. — Olhou para o mar por um momento, depois enterrou o rosto nas mãos. — Sinto tanta saudade dela. Meninas, estou aqui. Estou aqui. — Nem consigo olhar para ele — disse Emma. — Cada vez que a gente se cruza no corredor… — Ela balançou a cabeça. — Que tipo de cara não vai ao memorial da namorada? Dei um passo atrás. Então elas não tinham visto Jacob escondido nos fundos do auditório. Acho que ninguém viu. Tess travou o maxilar. — Que canalha.

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— Então, o que vocês trouxeram? — interrompeu Sadie, a fogueira ardendo atrás dela. Emma tirou uma camiseta da bolsa. Azul-marinho, mangas compridas, rasgadinha na frente. Era do Jacob. Ele deixou na minha casa e eu “esqueci” de devolver, já que era quente, fofinha e tinha o cheiro dele. Dormi muitas noites com ela. Devia ter jogado no lixo quando tive a chance. — Perfeito — disse Sadie. — Tessie? Tess levantou, o cabelo vermelho ao vento, e enfiou a mão no bolso traseiro da calça. Pegou uma foto. Eu me aproximei para ver melhor. Era a fotografia que eu tinha colado no meu armário do colégio, eu e Jacob no parque de diversões. Ele tinha tirado a foto quando a gente estava lá em cima, na Twister, a melhor e maior montanha russa da cidade, segundos antes de começar uma descida enorme. Meus olhos estão fechados e estou gritando e rindo ao mesmo tempo. Ele está dando um beijo no meu rosto. De longe a minha foto favorita de nós dois. Aposto que, a esta altura, a nova namorada dele colocou uma igualzinha no armário dela. — Agora eu — disse Sadie. Ela se debruçou sobre Emma e pegou sua frasqueira, a da L.L. Bean, com suas iniciais costuradas na frente: STR, Sadie Taylor Russo. Sempre uma estrela, desde que nasceu. Sadie procurou lá dentro e pegou uma caixa que reconheci imediatamente, porque era minha. Uma caixa antiga de charutos, gasta nas pontas e coberta de florzinhas que fui colando ao longo dos anos. Abriu a ~ 159 ~


tampa e tirou um diário de capa de couro vermelha, amarrada com um laço preto de renda. Ai. Meu. Deus. Caí na areia do lado das minhas amigas, mortificada. — Sério, meninas? Vocês estão realmente fazendo isso comigo? Era o diário do meu namoro com Jacob. Cheio de poesias ruins e cartas melosas de amor que eu escrevera mas nunca mandara — porque a) teria sido constrangedor demais e b) não eram realmente para ele, eram para mim. E porque assim ele teria provas concretas de que sou uma Imbecil Completa. Gemi e fiquei vermelha como um tomate. Definitivamente não queria ver aquela porcaria de diário novamente. — Meninas, vocês me permitem as honras? — perguntou Sadie. Uau, ela realmente vai fazer isso. Está pronta para ler! Cobri os ouvidos, me preparando para ser humilhada como nunca. — À vontade — disse Emma, apertando a mão de Tess. Sadie desamarrou cuidadosamente o laço e guardou-o no bolso do casaco. Depois ficou de pé e foi até a fogueira. Abriu o diário e sorriu. — Brie — disse ela. — Isto é para você. Então, começou a rasgar o caderninho. Fiquei de queixo caído, vendo minha amiga lançar página a página na fogueira, as fagulhas subindo no céu noturno enquanto as labaredas

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devoravam minhas palavras, meus desejos, meus pensamentos mais secretos sobre o garoto que eu amava. Foi lindo. Mágico. E, pela primeira vez desde minha morte, alguma coisa começou a se encolher e a mudar. Senti que estava mais leve. Mais calma. E, aos pouquinhos, comecei a me sentir livre. — Isso! — gritou Emma. Pulou para a beira do fogo, embolou a camiseta do Jacob e jogou. — Pode queimar, sua camiseta horrível, pode queimar! — gritou, sacudindo os braços no ar. Caí na gargalhada enquanto assistia à camiseta se debatendo no calor intenso das chamas. Finalmente, Tess ergueu a minha foto com Jacob. Beijou meu rosto, respirou fundo, depois rasgou a foto no meio. Uma vez. Duas vezes. Depois uma terceira vez, até que o que restasse da minha memória perfeita de antigamente fosse uma pilha de pequenos e furiosos pedaços de papel. Ergueu as mãos e vi, impressionada, a brisa fria do outono espalhar todos os pedacinhos — pequenas centelhas de memória, música, cor e tempo dançando a nossa volta. Nós quatro vendo os pedaços de papel queimando contra o violeta perfeito do céu — vendo aquilo tudo pegar fogo e cair no chão como estrelas cadentes. — Feliz aniversário de 16 anos, Eags — sussurrou Tess. — A gente morre de saudade de você — disse Emma, a voz embargada. — Muita saudade. — A gente te ama, Brie! — gritou Sadie com todas as forças. ~ 161 ~


Uma dor esmagadora — mas, dessa vez, uma dor boa — tomou conta do meu peito. Eu estava tão feliz de tê-las tido como amigas. Não, mais do que feliz. A mais feliz do mundo. Amo vocês também. Então, as três deram os braços. Foram até a beira d’água. E, quando os últimos raios de sol sumiram no oceano — lá longe, no horizonte — , minhas melhores amigas me mandaram beijos, secaram as lágrimas e, finalmente, se despediram de mim.

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Capítulo 19 every breath you take

A

fogueira queimou noite adentro. Vi as estrelas piscarem e desa-

parecerem enquanto as pessoas dormiam, e senti uma paz estranha tomar conta de mim. Acho que estou pronta. Pronta para quê? Para voltar para a pizzaria. Eu gostaria que fosse fácil assim, Anjo. Um pouco antes do amanhecer, me debrucei sobre Sadie e apertei sua mão. Os olhos dela se mexeram. Para minha surpresa, ela se sentou. Espreguiçou. Inclinou o tronco à frente e conferiu seu celular. Depois, esfregou os olhos, vestiu outro suéter e saiu rápida e silenciosamente de seu saco de dormir. Com cuidado para não acordar Emma e Tess, Sadie calçou seus All Star Converse e foi caminhar. Andei ao lado dela. Fomos em direção ao norte da praia, até finalmente darmos a volta nas dunas. Ela pegou um caminho familiar até as mesas de piquenique. Um lugar onde havíamos ido milhões de vezes, onde meninos e meninas do colégio se reuniam para fazer churrascos e jogar vôlei em feriados e finais de semana durante o verão. ~ 163 ~


Sadie escolheu uma mesa e se sentou, cruzando as pernas. Sentei ao lado dela no banco. Mesmo com sono ela era linda. Cabelo escuro, encaracolado, comprido. Pele bronzeada, perfeita. Os olhos castanhos mais calorosos do mundo. Cheios de brilho. Cheios de vida. Queria que você pudesse me ver. Queria que soubesse que estou aqui. Juntas, Sadie e eu vimos as primeiras luzes da manhã cruzarem o céu em tons pastéis – uma sinfonia de violetas, azuis e rosas de bailarinas. Um nascer do sol perfeito. Emma e Tess ficariam tristes por terem perdido isso. Preguiçosas. Aquelas duas provavelmente seriam capazes de dormir para sempre se pudessem. — É tão bonito — disse Sadie, quebrando o silêncio. E começou a chorar. — Sadie? — Eu me aproximei quando ela começou a soluçar de uma maneira que eu jamais vira. — Ah, minha linda. — Senti um nó na garganta. — Não precisa chorar. Estou bem aqui. — Brie. — Sua voz estava cheia de dor. — Eu sinto tanto. Tanto. Foi então que me dei conta de como minha morte fora dura para ela. Para todas elas. Ir embora era uma coisa. Mas ser deixada devia ser muito pior. — Está tudo bem, está tudo bem, calma, não precisa ficar assim — sussurrei, acariciando as costas dela. Envolvi-a com os braços, mesmo sabendo que ela não podia sentir, enquanto lágrimas quentes rolavam pelo seu rosto e escorregavam nas frestas da mesa de madeira. ~ 164 ~


Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Talvez fosse porque meus olhos estavam fechados. Ou talvez porque ela chorava muito alto. Seja como for, não percebi a pessoa vindo pelas dunas. Não ouvi passos na areia. — Sadie? Aquela voz. Virei o rosto e senti minha amiga se desvencilhar do meu abraço. Ouvi-a chorar e soluçar ainda mais alto. Depois, assisti, em movimentos devastadores de câmera lenta, minha melhor amiga no mundo inteiro correr diretamente para os braços estendidos de Jacob Fischer.

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Capítulo 20 what becomes of the broken hearted?

Minha alma ficou completamente dormente. É ela. É Sadie. — Não — sussurrei, caindo de joelhos enquanto assistia meu primeiro amor pegar as mãos da minha melhor amiga. Não tenho certeza de quanto tempo ele a abraçou, não sei ao certo quando eles finalmente se afastaram e ele voltou para o carro e ela para o lado de Emma e Tess. Não sei nem mesmo quanto tempo Patrick demorou para me encontrar ali, enroscada em posição fetal, os olhos fixos no horizonte a muitos quilômetros de distância. O tempo não tinha mais a menor importância. Porque eu estava no inferno. — Você deve tentar não pensar nisso, Anjo — disse Patrick quando finalmente me pegou no colo como se eu não fosse nada e me levou de volta para a pizzaria. Tudo que eu conseguia enxergar eram os braços de Sadie entrelaçados aos de Jacob. Os olhos dela apertados com tanta força. As mãos dele na base das costas dela. Sadie provavelmente sempre fora apaixonada por ele. E ele por ela. Não. Chega. Vocês pertencem a MIM. Os dois. É estranho descobrir-se de repente obcecada por cada momento passado com a melhor amiga. Revivendo as milhões de vezes em que ~ 166 ~


uma dormiu na casa da outra, as gargalhadas, os papos de menina, o assunto garotos, os assuntos bobos (a falta de assuntos bobos), a conversa sobre sexo, as brigas, as pazes cheias de soluços, os passeios de bicicleta nos finais de semana, os abraços de aniversário, as músicas da Britney Spears cantadas em conjunto, os torpedos na hora do almoço, as compras depois da aula, os telefonemas de quatro horas sobre Tudo e Nada ao mesmo tempo. Todas essas lembranças ainda tão familiares. Tão significativas. Fora o fato de que nenhuma delas significava o que você imaginava significar. Que, na verdade, tudo não passava de uma grande M.E.N.T.I.R.A., com letras maiúsculas. Não significavam nada. As coisas boas, as coisas ruins, as mais ou menos, as coisas que você não conta nem para sua irmã (se tiver uma). E apesar de você ainda querer desesperadamente acreditar que, no fundo, nada, NUNCA se interporia entre você e sua melhor amiga, agora tem que encarar a realidade de que a amizade, do começo ao fim — tudo, absolutamente tudo —, não passava de uma grande piada. E o que é pior? A piada era você. Aquela era Sadie. Minha melhor amiga. Minha amiga mais antiga. A amiga que me conhecia há mais tempo e melhor do que qualquer um. Ela me conhecia de trás para frente, de cabeça para baixo, praticamente melhor do que eu mesma. No ombro de quem chorei quando meu periquito Crackers fugiu e nunca mais voltou. A amiga que deitava comigo no telhado de casa e fazia pedidos para as estrelas cadentes depois que meus pais iam dormir. A amiga com quem eu ri uma noite inteira uma ~ 167 ~


vez, quando descobrimos que infelizmente (hum, felizmente?), uau, os pais dela assinavam o Playboy Channel. A amiga que me ensinou um milhão de truques com o baralho, que foi comigo no enterro da minha avó Rita e que sempre me apoiava, não importava a situação. Sadie foi a pessoa para quem liguei imediatamente depois que entrei flutuando pela porta da frente e subi para o meu quarto naquela noite do verão passado: 11 de agosto de 2010. Cinquenta e cinco noites antes de eu deixar a terra, quando meu coração ainda batia, minhas bochechas ainda eram quentes e, por mais que eu tentasse impedir, não conseguia parar de tremer. No bom sentido. A noite em que perdera minha virgindade. Sadie atendeu o telefone e adivinhou imediatamente, sem que eu precisasse dizer uma palavra. — Rolou, não rolou? — sussurrou ela. — Talvez sim. — Ri. — Talvez não. — Meu Deus do céu, rolou. Como foi? Caramba, Brie, como foi? As mãos dele. AimeuDeus, as mãos dele em cima de mim. Os beijos. Doces, delicados, profundos, afobados, perfeitos. — Bom assim? — disse ela, parecendo impressionada. Deixei escapar uma gargalhada, mas tapei a boca com a mão, caso minha mãe, Jack ou meu pai estivesse ouvindo atrás da porta. — Doeu? Jesus, doeu. — Não. ~ 168 ~


— Safadinha, não acredito! — Bem, talvez um pouco. — Um pouco quanto? — Sadie! — gritei. — MUITO, tá? Satisfeita? — Meu Deus do céu. — Pude imaginar minha amiga balançando a cabeça do outro lado da linha. — Estou morta de inveja de você agora. Sem brincadeira. Com tanta inveja que resolveu roubar meu namorado de mim. Olhei meu reflexo no espelho do quarto para ver se eu estava diferente. Minhas bochechas estavam quentes e rosadas. Minha pele, pulsando. Será que as pessoas descobririam? — Ele disse? — perguntou ela. — Disse o quê? — Fala sério, Brie, o que você acha? As mãos dele no meu cabelo. Os olhos me olhando profundamente demais para ser verdade. As palavras queimando dentro de mim. Eu te amo. Ele tinha dito. Disse e era de verdade. Ou não? — Alô? Deitei na cama, sorrindo. — Disse. Disse, sim.

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Ela não falou por alguns segundos e imagino o motivo. Pela primeira vez na vida, uma coisa muito importante acontecia na minha vida antes de acontecer com ela. Durante todo o tempo em que fomos melhores amigas, Sadie sempre vivia as coisas primeiro. Perdeu o primeiro dente antes de mim. Aprendeu a andar de bicicleta antes de mim. Ficou menstruada um ano antes de mim, no sétimo ano. E, apesar de nenhuma de nós precisar dizer nada, sabíamos que ela seria a primeira a se apaixonar. Mas não foi assim. Não dessa vez. Porque eu ganhei. Eu fui a primeira. Uma vez na vida, cheguei lá antes de Sadie Russo. Uma única vez. Passamos a hora seguinte papeando e rindo, comentando c-a-d-a detalhe – apesar de eu ter treino de mergulho às 7 horas da manhã no dia seguinte. Mas eu não estava nem aí. Podiam me fazer dar um milhão de voltas numa piscina olímpica e eu ainda teria aquele mesmo sorriso idiota no rosto o dia inteiro. Por quê? Porque quando você está apaixonada o mundo fica mais brilhante. O ar tem perfume de flores, seu cabelo fica mais sedoso, e, de repente, você se pega sorrindo para bebês, estranhos, casais de velhos caminhando de mãos dadas na praia. Você sorri porque agora conhece um dos Maiores Segredos da Vida. Está graduada com nota máxima. Entrou oficialmente para o grupo dos modernos e maneiros. E, de repente, quando as pessoas olham para você, não conseguem deixar de reparar que alguma coisa está diferente. — Você mudou o penteado? Não. ~ 170 ~


— Roupa nova? Nada disso. — Lentes de contato? Tente novamente. Você sorri para as pessoas e nem assim elas conseguem identificar o que é. E quando se afasta, perguntam-se secretamente desde quando é tão bonita. “It must have been love, but it's over now. It must have been good, but I lost it somehow”. Lágrimas quentes rolaram pelo meu rosto, queimando minha pele. Incontroláveis. Inesgotáveis. — Shh — sussurrou Patrick. — Estou aqui, Anjo. Estou aqui. Como podiam? Como podiam fazer isso comigo? A dor no meu peito voltou — a ferida aberta, fresca e pesada. Na verdade, descobri que o inferno não é uma chama queimando, fogo e miséria. É muito, muito pior do que isso. O inferno é quando as pessoas que você mais ama alcançam a sua alma e a arrancam de você. E fazem isso porque podem. Senti meu peito apertar. Há quanto tempo isso vem acontecendo? Uma semana? Um mês? Talvez mais? Senti um terremoto acontecendo dentro da minha cabeça, sirenes piscando atrás dos meus olhos. Bati com punhos cerrados na areia, gritei, mas minhas palavras se perderam entre os guinchos famintos dos ~ 171 ~


albatrozes e as ondas matinais do Pacífico. E havia areia grudada entre os dedos dos meus pés. Realmente odeio isso. De repente, tudo começou a fazer sentido. Cada olhar estranho e cada silêncio que Jacob e eu compartilhamos. Cada vez que ele se afastou quando tentei pegar sua mão ou enfiar a minha no bolso de trás do seu jeans. Soube ali que estava certa. Tinha sentido que alguma coisa mudara entre nós nas semanas que antecederam a minha morte — lenta e progressivamente —, mas não quis admitir. Uma distância se avolumava, fria e cinza. Escolhi esperar e assistir enquanto as nuvens de tempestade se agrupavam, em vez de buscar abrigo diante do primeiro sinal de chuva. E paguei o preço da espera, porque a tempestade se transformou num furacão. Meu instinto tentou me avisar o tempo todo. Eu não era paranoica nem louca. Jacob mentiu para mim. Sadie mentiu para mim. Ouviu, esperou e observou durante meses e meses enquanto eu me apaixonava por ele. Colecionou meus segredos, um a um, para usá-los contra mim mais tarde. — Dói — sussurrei. — Dói tanto. — Shhh, estou aqui com você — disse Patrick, com voz suave. Senti o vento no meu rosto e no meu pescoço enquanto ele me levantava nos braços. Meus olhos estavam grudados no lugar, a poucos metros de distância, onde as pegadas de Sadie e Jacob se misturavam na areia. Não consigo respirar.

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— Consegue. — Patrick beijou delicadamente a minha testa. — Você precisa. — Então, num movimento ágil, seus pés deixaram o chão e senti a terra se afastar de nós. Aubrie, abra os olhos. Respirei fundo e abri. Então, encostei a cabeça no peito de Patrick e vi meu antigo mundo perfeito pegar fogo lentamente.

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Capítulo 21 1, 2, 3, 4, tell me that you love me more

No meu pedaço de céu, todos os dias tinham o mesmo cheiro. Minhas horas eram preenchidas com berinjela assada, cogumelos, Sprite borbulhante e picolés Wendy’s (pedido pessoal meu). Meus minutos eram feitos de pisos de linóleo, manchados e gastos nos pontos onde cadeiras eram arrastadas décadas após décadas. Meus segundos chiavam como a estática naquela televisão pequena e velha, de imagem de péssima qualidade – a mesma para a qual eu vira Patrick olhar fixamente por horas infindáveis, sem piscar. Os ventiladores do teto giravam e rangiam preguiçosamente acima da minha cabeça, lembrando-me das férias de verão, das festas na piscina e das limonadas supergeladas que jamais compartilharia com minhas melhores amigas. Não que eu me importasse. Melhores amigas são superestimadas. Claro, havia muitas coisas que me distraíam da minha recente descoberta. Ensinei a mim mesma a cortar guardanapos em pedaços bem pequeninhos, como se fossem flocos de neve. Aprendi a jogar futebol americano e a passar lápis nos olhos, graças aos meus novos amigos, o Jogador de Futebol e a Dama Gótica. A Senhora das Palavras Cruzadas até passou a me proteger e me ajudou a completar meu primeiro quebracabeças. ~ 174 ~


A verdade era que, no meu pedaço de céu, sempre havia um monte de pizza para comer. Sempre muitas ondas para surfar. Sempre muito tempo para perder. Mas o que era meio chato é que isso não necessariamente curava minhas feridas. Às vezes, tudo isso até fazia com que piorassem. — Quer dar uma volta, ou qualquer coisa do gênero? — Patrick estava inquieto. Entediado. — Não. — Quem sabe nadar um pouco? — Negativo. — Um passeio de pônei? — Não, obrigada. — Quer namorar? Tirei os olhos do meu livro. — Oi? Patrick riu. — Achei que isso talvez chamasse a sua atenção. — Você é doido. — Ah — soltou ele —, que amor. Você é um amor. — Olhou para o Garoto do Nintendo e para a Garota das Pulseiras. — Viu? Ela gosta de mim. Vocês dois são testemunhas. — Tenho certeza de que ela te odeia — respondeu o menino monotonamente, os dedos flutuando no teclado do jogo. Patrick bufou e voltou a olhar para mim. ~ 175 ~


— Crianças. Não sabem de nada, não é? Ignorei o comentário e li o último parágrafo. Fechei o M&E e empurrei o livro na mesa. — Pronto. Terminei. — E? — perguntou ele. — O que você aprendeu hoje, Gafanhoto? — Você quer dizer, além do fato de você cheirar a pepperoni? — Muito engraçado. — Nem me fale. — O que mais você aprendeu? — Que sua ma… — Não vem dizer que minha mãe tem cheiro de pepperoni. Fiz uma careta. — Bem, ela tem. Ele suspirou e apontou para o meu colar. — Gostei, diga-se de passagem. Já estava para te dizer isso há um tempo. Segurei meu colar e balancei o coraçãozinho de ouro nos dedos. Ele me observou, em silêncio. — Onde você o conseguiu? Não respondi. — Tema difícil? — Quero ir na ponte — falei, de supetão. — Oi? — Ele pareceu assustado. — E para quê, exatamente? ~ 176 ~


Encolhi os ombros. — Acho que já estou pronta. Ele bateu na própria testa e balançou a cabeça. — O quê? — Senti meu rosto corar. — Estava me perguntando — disse ele, com dose extra de sarcasmo — se você GOSTA de dor e sofrimento. Encarei-o. — E aí? Gosta? — Não — resmunguei. Ele arqueou a sobrancelha. — Engraçado. Porque eu acho que você gosta. Acho que você ama dor e sofrimento. — Bem, e eu acho que você é um idiota. — Sou? — É — respondi. — Um idiota completo. — Idiota ou não, você não vai. Não está pronta. — Ah, não? — respondi. — E quem te deu autoridade para isso? — Eu — disse ele, inclinando o tronco à frente. — Eu me dei essa autoridade. Desde que você resolveu jogar fora toda a lógica e toda a razão. — Eu só quero…

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— O quê? — Ele me interrompeu. — Você só quer o quê? Ver todo mundo de novo? Ver que estão felizes sem você? Acha que pode aguentar isso? — Recostou na cadeira. — Eu não. — Não lembro de ter pedido sua opinião — respondi. — Bem, e eu não lembro de você me pedindo nada quando resolveu ficar se deprimindo por aí, meses e meses. Porque isso tem sido muito divertido para mim. Meses e meses. Ele tinha razão. O tempo estava passando a nossa volta. Uma árvore fajuta de natal, de plástico, ainda podia ser vista no canto da janela da pizzaria, apesar de já ter passado a festividade. Eu estava morta havia tempo suficiente agora para que as pessoas já estivessem se esquecendo de mim. Podia ver meninos mais novos vendo minha foto no anuário do colégio. Pensei neles achando que eu parecia um pouco datada. Expirada. Como uma calça pink que comprei e amava no oitavo ano, mas que jamais usaria agora, nem morta. Droga. — Tudo bem — retruquei. — Mil perdões por acabar com a sua diversão. Porque, obviamente, deve ter tanta coisa acontecendo nessa sua agenda lotada… Ele ergueu as mãos. — O quê? Você quer amarrar essas pobres crianças no trilho do trem? Afogar todo mundo no mar? Jogar de um abismo? Eu lhe dei um enorme sorriso. — Que bom que a gente finalmente está falando a mesma língua. ~ 178 ~


— Fala sério — resmungou ele. — Eu sei que você está magoada, com o coração partido e tudo mais, mas não acha que já é hora de superar, deixar para lá? De viver e deixar viver, qualquer coisa por aí? — Superar? Deixar para lá? — perguntei. — Como você pode dizer uma coisa dessas? Você sabe o que eles fizeram comigo. — Balancei a cabeça, contrariada. — Não importa o que você diga, não vou deixar que escapem ilesos. Eles não merecem escapar ilesos. — Escuta aqui, Pequena Miss Atração Fatal. — Patrick me encarou, sério. — Sou totalmente a favor de trocos, mas você já se divertiu. O que está feito, está feito. Você precisa aceitar isso, mais cedo ou mais tarde, e não vou continuar encorajando seus métodos de espionagem nem seus hormônios enfurecidos enquanto isso. — Fez um sinal indicando o livro. — Você não aprendeu nada, não é? — Ah — respondi. — Pelo contrário. Acabei de ler que Interação Básica do Objeto tem menos a ver com controlar a coisa do que controlar a si mesmo. E qualquer objeto encontrado e coletado na terra se torna propriedade da “alma” de quem o encontra. É uma regra bem legal, na verdade. Provavelmente explicaria várias meias desaparecidas e diamantes roubados do mundo. — Como você é astuta — disse Patrick. — E também aprendi que você nunca deve voar de estômago vazio. — Peguei meu picolé e dei uma lambida generosa, fazendo bastante barulho e estardalhaço. — Então, agora que cuidamos disso… — Agora nada — falou. — Vou dizer pela última vez: você não vai voltar ainda. — Pela última vez, VOCÊ não manda em mim. ~ 179 ~


— Quem disse? — Você. Eu faço as regras, lembra? Estou pronta quando disser que estou pronta. Se você não quiser ir comigo, tudo bem. Porque não preciso de você. — Dei outra lambida lenta no sorvete, queimando minha língua com o chocolate gelado e doce. — Não preciso de ninguém. — Uau. — Patrick balançou a cabeça. — Quanto sangue-frio, Cheetos. — Irônico, não é? — Ah, dane-se — respondeu Patrick. Ele tirou o picolé da minha mão, enfiou-o na boca e comeu o último pedaço. — Não há lugar como a nossa casa.

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Capítulo 22 every time I see you falling, I get down on my knees and pray

Dizem que quando você cai de algum lugar muito alto – tipo avião, arranha-céu ou ponte, por exemplo –, não tem muito tempo para ficar em pânico. Não tem tempo de processar o que realmente está acontecendo enquanto cai, e quando finalmente bate o chão (eca), já está praticamente morto, por conta do choque da queda. Bem, adivinhem meninos e meninas. Isso é mentira. Grande mentira. Desta vez, enquanto eu caía, os segundos pareciam andar mais devagar. Eu sabia que o vento gritava em volta de mim, mas não conseguia ouvir. Sabia que meus braços e pernas estavam pendurados no espaço vazio, mas não conseguia sentir. Sabia que aquela água escura se aproximava rapidamente de mim como um estacionamento, mas estava com medo demais para olhar. Na minha vida inteira, nunca passei por nada tão apavorante. Finja que é um jogo, ouvi Patrick sussurrar. E assim será. Um JOGO? Você PIROU? — Coma vento, Cheetos! — gritou. E passou zunindo na minha frente, me dando uma fechada. ~ 181 ~


— Ei! — gritei. — Cuidado! De repente, tive uma sensação familiar crescendo debaixo da minha pele e tomando conta das minhas veias. Minha velha tendência competitiva voltara, automaticamente. Você não teve cuidado. Vai ser derrubado, Garoto Morto. Estendi meus braços na frente do corpo e fui adiante, girando além dos cabos de suspensão cor de laranja e das barras gigantescas de ferro com rebites do tamanho da minha cabeça. — E mais uma coisa! — gritei, me aproximando dele. — Não me chame de Cheetos! O oceano continuou vindo em minha direção, cada vez mais perto. Cem metros. Trinta. — Uhuuuu! — uivou Patrick. — Eu preciso tanto, Cheeseburger! Preciso tanto de velocidade! Vinte e cinco. — Lá vamos nós! — Ele puxou os joelhos ao peito e apontou o queixo para baixo. — Bola de canhãããão! Ele estava totalmente enlouquecido. Caímos com força total e rapidez estonteante. Eu sabia, por conta da prática de mergulho, que se não atingisse a água no ângulo certo, a situação ficaria preta. Tentei fazer meu corpo ficar o mais reto e vertical possível. Cabeça para baixo, braços juntos, dedos do pé apontando para a lua. Dez metros. ~ 182 ~


Fechei os olhos e me preparei para a queda. Um metro. Por um breve momento, tudo que consegui ouvir foi o som das batidas do meu coração — ou do que eu lembrava dele. Então, de repente, eu estava me precipitando dentro de um buraco, um vórtice feito de planetas, estrelas e do Pacífico atemporal, girando de cabeça para baixo para dentro de uma noite negra, sem estrelas. Uma máquina de lavar intergaláctica em velocidade máxima. Mas, enquanto me deixava ir — enquanto me entregava à escuridão total —, um pensamento único e furioso iluminou minha mente. Jacob. Se eu não podia tê-lo, ninguém poderia. — Ei, Cheetos, você está viva? Bem, não viva-viva. Você sabe o que eu quero dizer. Pressionei meu estômago e gemi. — Por que você nunca para de falar? — Meu corpo inteiro estava dormente. Meu cabelo ensopado e embaraçado, meus braços e pernas tortos, moles como geleia. Tentei abrir os olhos, mas a luz ainda estava forte demais. — Como você se sente sendo um ovo estragado? — provocou Patrick. — Eu diria que a forma foi boa no geral, mas seu canivete não chega aos pés do meu canhão. Da próxima vez, você devia tentar ser um pouco mais criativa. — Vou pensar nisso, pode deixar. — Tirei um bolo de algas do meu rosto. Abri devagarzinho os olhos e me dei conta de que havíamos sido ~ 183 ~


levados pelas ondas até a praia de Crissy Fields, quase na porta do Presídio. — Bem, isso é interessante — disse Patrick. — O quê? — Eu não fazia ideia de que aqui era uma praia de nudismo. A Califórnia realmente mudou muito da minha época para cá. — Do que você está falando? Não é uma praia de nudismo. Mas, de repente, senti uma ligeira brisa refrescar meu bumbum. Meu DEUS, estou NUA. — Cadê minhas roupas? — gritei, tentando desesperadamente me cobrir. — Vire o rosto, Patrick! — Não precisa se preocupar. — Ele fechou os olhos. — Eu não vi nada. Levei a mão ao pescoço e respirei bastante aliviada quando percebi que meu colar ainda estava onde deveria estar, graças a Deus. Então, um caranguejo pequenininho saiu de debaixo do meu braço, fazendo com que eu estremecesse e desse um pulo. — Viu? Eu disse que você não estava pronta para voltar — disse Patrick. — Mal chegamos e você já está toda apavorada. — Ele suspirou. — Mulheres. Levei uns segundos para vasculhar a praia com os olhos, mas finalmente vi meu vestido, molhado e amassado, enrolado num pedaço de madeira, alguns metros de onde as ondas me deixaram na areia. Olhei furtivamente para Patrick. ~ 184 ~


— Fique exatamente onde está, meu amigo, ou vai sofrer consequências. Ouviu bem? — Oi? — Eu perguntei: ouviu bem? — Ouvi o quê? — Você é surdo? Perguntei se você ouviu o que eu disse! Ele riu meio de lado. — Ouvi, Cheetos, ouvi. Você realmente precisa relaxar. Fiquei de pé e fui cuidadosamente até onde estava minha roupa, fazendo o possível para cobrir meus peitos. Não que tivesse muita coisa para esconder, mas, mesmo assim. Peguei meu vestido ensopado e sacudi para tirar a areia, as algas. Depois de torcer e balançar, espremer e abanar, finalmente consegui colocá-lo no corpo de novo. O único problema foi que o vestido encolheu. Muito. — Você está… linda — disse Patrick quando permiti que abrisse os olhos. Fiz uma careta. — Não que você não seja. Sempre bonita, eu quis dizer. Porque você é. Senti meu rosto corar quando cobri meu bumbum com o vestido, agradecendo cada minuto por não ter engordado depois de tanta pizza e tanto picolé. Patrick podia ser irritante, mas continuava sendo um menino. E, eu não podia negar, bem gatinho. Eu me acostumara às provoca~ 185 ~


ções constantes, mas essa era a primeira vez que ele me elogiava de verdade. Sem falar que me vira nua. Pode me matar. — Será que você poderia, é, fechar para mim? — resmunguei, segurando as costas do vestido. — Claro — concordou ele. — Com certeza eu posso fazer isso. — Ele deu a volta e senti seus dedos no meu pescoço quando levantou cuidadosamente meu cabelo. De repente, o ar cheirava a fumaça. E minha pele pegava fogo. — Não banque o engraçadinho. — Avisei. — Nada que eu não tenha visto antes — disse ele, seguro. — Afinal, eu tive três irmãs. Três irmãs? Por um breve momento, quase pude vê-las. Duas mais velhas, as duas de cabelo castanho claro, e uma mais jovem, loura. Os nomes flutuaram na minha cabeça. Julia, Kate e Alex. Mas como eu poderia saber disso? — Acho que estou… quase… conseguindo. — Com um puxão final, ele fechou meu vestido. Patrick saiu de trás de mim, parecendo satisfeito. — Seu desejo é uma ordem. Tentei pensar numa resposta razoavelmente tranquila, mas minhas bochechas coraram ainda mais. ~ 186 ~


Brie, não seja boba. Diga alguma coisa. Diga alguma coisa. — Tudo bem com você? — perguntou ele. — Está com uma cara meio estranha. — Tudo bem — falei. — Só um pouco tonta. Da queda. O sol se escondeu atrás de uma nuvem, fazendo sombra no rosto dele. Estremeci levemente e olhei para cima. Em breve teríamos neblina. — É melhor a gente ir andando. Ele fez uma pausa. — Tudo bem, Queijo Ralado, você manda. Estendi lentamente o braço e peguei a mão dele, visualizando nosso destino específico, como ensinava o M&E. — Lá vamos nós. — Eu me concentrei no lugar exato onde queria que aterrissássemos. Queria ter comido mais um pedaço de pizza antes de partir. Mas o vento ganhou força, o sol desapareceu e senti o mundo girar debaixo dos meus pés, e, BUM! Caímos num gramado, um em cima do outro. — Boa — gemeu Patrick. — Você tem talento para a coisa. Agora, será que dava para sair de cima de mim? — Desculpa. — Rolei para o lado e tentei me endireitar. Respirei fundo e passei os olhos pelo campo, absorvendo a terra, a grama e o céu. — Estamos de volta. — Sorri. — Deu certo.

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A viagem foi um tanto tortuosa, mas o que importava era que eu tinha sido bem-sucedida em nos trazer de volta a Half Moon. Eu me senti incrível. Totalmente livre e 100 por cento no controle. Melhor. Voo. De todos. — Não quero me gabar — disse eu —, mas estou ficando muito boa nisso. Patrick estava ocupado demais conferindo os arredores para me responder. Não o culpava por isso. A costa da Califórnia estava acordando de seu sono invernal. As montanhas começavam a florescer e as pétalas das flores brilhavam à luz do sol. Amores-perfeitos, papoulas, lírios, não-me-esqueças azuis e amarelos. Rá. Posso pensar em duas pessoas em particular que poderiam receber um buquê gigante DESSAS FLORES na porta de casa. As árvores pareciam estar mais altas, espichando seus galhos dorminhocos em direção à luz. O ar estava doce e cheio de primavera. Primavera. E agora não havia mais nada no meu caminho. Quer dizer, fora as filas e filas de lápides. — Destino alcançado — falei, sentindo-me em casa. Não que devesse estar surpresa. Havíamos aterrissado no cemitério.

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Capítulo 23 hey, hey, you, you, I don’t like your girlfriend

Fui até meu túmulo e ajoelhei. Lá estava meu nome, talhado em pedra branca. — Não parece real — murmurei. — O engraçado — disse Patrick — é que não sei se um dia vai parecer. Arranhões. Gritos. Sufocamento. Senti uma ligeira coceira nos olhos. — Não chore — eu me censurei. — Não chore. Dor. Raiva. Partida ao meio. Mas não consegui evitar. Uma lágrima solitária desceu pelo meu rosto e caiu sobre a grama sem corte, onde flores do campo se juntavam em punhados espalhados. — Alguém vem me visitar? — Limpei meu nariz e tentei afofar a terra, mas não consegui contato. Minhas mãos não deixavam marcas. — Por que eu não consigo fazer isso? Por quê? — Aqui — disse ele, ficando de joelhos. Colocou a mão sobre a minha. — Sinta o chão. Sinta a pulsação dele. — Aumentou a pressão do toque. — Sinta a luz tocando nele. Sinta sua respiração. ~ 189 ~


Tentei fazer o que ele dizia. Encarei nossas mãos, enfiadas na terra. — Não consigo — sussurrei. — Não sinto nada. — Você precisa se controlar — falou. — Lembre do que diz o livro. Não se trata de controlar a coisa em si. E sim de controlar a si mesmo. Mas como? Como posso controlar o que sinto? — Finja, se for o caso — disse ele. — Finja até sentir de verdade. Passei as costas da minha mão livre no rosto e respirei fundo. Concentrei-me para sentir. Concentrei-me para ter consciência de tudo ao meu redor. Controle. Senti os dedos de Patrick entrelaçados aos meus. Nossas mãos eram uma mistura enlameada de terra, areia e lágrimas. — Não consigo. — Consegue. — Estou tentando. — Tente com mais vontade. Fiz tanta força para me concentrar que achei que fosse ter um aneurisma. Olhei fixamente para o chão, sofrendo desesperadamente para me conectar com meu mundo antigo. Viajei profundamente dentro de mim, usando todas as forças que tinha. Mesmo assim, não consegui. Baixei a cabeça, me odiando. Então, de repente, alguma coisa me mordeu. — Ai! — Puxei minha mão. — O que foi isso? — Formiga? — sugeriu Patrick. ~ 190 ~


Olhei para a pequena marca no meu dedão, já inchado e vermelho. Olhei para Patrick, com olhos arregalados. — Ela me mordeu. Me mordeu e eu senti. Ele sorriu. — Legal, não é? Eu sabia que você ia conseguir… Eu me joguei em cima dele, surpreendendo aos dois. — Uau — sussurrou ele. Deixou que eu o abraçasse por uns instantes, depois, lentamente, também me abraçou. Por meio segundo, nossos rostos ficaram a poucos centímetros de distância, e eu não conseguia me lembrar do motivo de termos voltado a Half Moon. Só conseguia pensar na sensação do coração dele batendo contra o meu peito. Quente e constante. E, enquanto nos abraçávamos em frente ao meu túmulo, uma lembrança cruzou minha mente. Um menino e uma menina, correndo juntos por um campo infindável de flores do campo. O som da gargalhada deles ecoando num céu noturno, um céu espelhado. De repente, senti um calafrio. A memória não era minha. — Temos companhia. — A voz de Patrick me fez dar um pulo e senti os braços dele afrouxarem. Segui seu olhar e vi uma silhueta se aproximando. Ela tinha cabelo escuro e corpo esguio. Aqueles olhos castanhos, vivos. Brilhantes. Eu conhecia aqueles olhos de algum lugar. Sadie. — O que ela está fazendo aqui? Patrick balançou a cabeça. ~ 191 ~


— Acho que você tem mais visitas do que imaginava. As mãos dela estavam carregadas de flores do campo e margaridas. Desejei poder jogá-las no rosto dela. — Pratique um pouco. — Ouvi Patrick dizer. — Quem sabe? Fiquei de pé e encarei Sadie. Senti meu rosto corar enquanto ela se aproximava. — O que você quer? Ela parou a um metro do meu túmulo, olhando através de mim. — Oi, Brie — sussurrou ela. — Sei que você deve me odiar… — Verdade — respondi. — Odeio. — Mas sinto muita saudade de você. Eu sinto tanto, tanto. Odiei ter que esconder as coisas de você. Mas não era eu quem devia contar. — Nem ouse pensar em pedir desculpas. Nem… — Ela está tentando — interrompeu Patrick, com voz suave. — Você devia ouvir. Encarei-o. — Tudo bem. — Ele balançou a cabeça. — Guarde a mágoa. A festa é sua. Ela parecia a mesma de sempre. O mesmo cabelo perfeito. A mesma pele perfeita. As sobrancelhas lindas de morrer. Odiei ter que admitir, mas ela era linda. E, apesar de estar nitidamente chateada, dava para ver que os meses haviam feito bem a ela. Dava para ver que estava feliz. Droga. Eu me pergunto por quê.

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Observei Sadie encarar minha lápide. Procurei qualquer sinal de emoção — culpa, sofrimento ou alguma outra coisa — e me perguntei como eles dois tinham conseguido manter segredo. Debaixo do meu nariz. E, provavelmente, do nariz de todo mundo. Emma e Tess claramente não faziam ideia de nada disso na noite da fogueira. Senti enjoo ao pensar nisso; na traição de Sadie a elas também. Enjoo ao pensar que ela fingia me amar. Porque, me desculpe, mas não é assim que a gente trata alguém que ama. Não deve ter sido fácil. Eles devem ter tido que se esconder muito. Devem ter mentido muito. Beijos roubados. Beijos que ela roubou de mim, muito obrigada. Nossa, ela tinha muita coragem para aparecer aqui. Para tentar falar comigo quando eu não podia responder. Quando não poderia dizer que ela não era nem um pouco bem-vinda em meu território. — Território? — Patrick me gozou. — Está falando sério? Cheetos, você acabou de sair do Amor, sublime amor. — E começou a fazer uma dancinha, cantando uma música conhecida da Broadway. — “Toniiiight, we’ll get them back toniiiight.” Não pude evitar um sorriso. Pequeno, mas… um sorriso. Então, o telefone de Sadie tocou. Ela enfiou a mão dentro da bolsa marrom da Coach que tinha comprado comigo no ano passado. — Um pouco fora de moda, não, Sádica? — eu disse. Patrick levantou uma sobrancelha. — Eu posso ver uma sádica aqui, e definitivamente não é ela. ~ 193 ~


Sadie finalmente puxou o iPhone. — Oi, amor. E aí? AMOR? Um segundo de silêncio. — Nada demais, só uns compromissos. Ah. Então agora eu sou um compromisso, não é? Calma, garota. Patrick parecia com medo de que eu entrasse em combustão espontânea. — Claro. — Sadie olhou em direção ao portão do cemitério. — Legal. Estou com o carro da minha mãe. Te encontro em 15 minutos. — Ahhh, encontro secreto — disse Patrick. — São meus favoritos. Lancei-lhe um novo olhar malicioso. Meu plano era ir direto para a casa de Jacob depois de conferir meu túmulo. Mas esta era uma boa ideia. Não, isso era muito melhor. Pegar os dois juntos. Pegar os dois sozinhos. — Você é da pá-virada, garota. — Patrick balançou a cabeça. — Totalmente. Observei Sadie colocando as flores ao lado da lápide, ajeitando-as com cuidado. Como se pudessem compensar qualquer coisa pela qual eu pudesse ter passado. Bem, eu tinha novidades para Sadie Russo. Eu posso ter caído, mas desta vez ela ia comigo.

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Capítulo 24 losing my religion

Viajamos no banco de trás do Jetta da mãe de Sadie durante dez minutos. — Dirigindo um pouco rápido demais, não? — Dei uma olhada no velocímetro. — Parece que você anda quebrando todas as regras ultimamente, não, Russo? — Cara, na verdade não é ilegal roubar o namorado da melhor amiga. — Patrick me lançou um olhar que dizia que eu estava enlouquecendo. — Talvez não — respondi. — Mas deveria ser. Passamos pela Sam’s Chowder House à direita e The Half Moon Brewing Company à esquerda. Depois pela Artichoke Farm e pelo Frenchman’s Creek. — A cidade não mudou grande coisa em 27 anos, não é? — comentou Patrick. Fiquei de queixo caído. — Como assim? Você também é daqui? Ele deixou escapar um tremendo gemido.

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— Você está falando sério, mocinha? Uau, me lembre de não contratar você da próxima vez em que eu precisar de um detetive particular. O que você acha? Que eu estava curtindo a eternidade na pizzaria porque a pizza é boa? — Eu, é… — Tropecei nas palavras, repentinamente constrangida. Mas Patrick tinha razão. Eu não fazia ideia de que éramos da mesma cidade. Como eu posso ter me esquecido de descobrir essa informação fundamental? — Desculpa — eu disse. — Sou uma idiota. Ele me deu uma cotovelada de leve. — Compre um picolé para mim e estamos quites. — Picolé? Onde? — Olhei para cima e me dei conta de que Sadie tinha saído da estrada principal e parado no estacionamento do Wendy’s. — Hum — disse Patrick, saboreando o cheiro de hambúrguer e batata frita. — Faz muito tempo que eu não como uma coisa dessas de verdade. — Quantos anos você tinha? — perguntei. — Quero dizer, quando… — Quando morri? — completou ele. — Dezessete. Bem, quase dezoito, eu acho. — Então, todo esse tempo… você está dizendo que estou andando com um cara de 45 anos? — Ri. — Minha mãe vai me matar. Ele sorriu. — Pelo menos eu não aparento a idade que tenho. O som da porta de um carro batendo do outro lado do pátio chamou nossa atenção. Pulamos para fora atrás de Sadie antes que ela trancasse a porta, e me preparei para o que eu sabia que viria a seguir. ~ 196 ~


Em três segundos, estaria vendo o Saab verde-escuro de Jacob, que eu tinha apelidado de Wasabi. Estaria vendo Jacob. E Sadie. Juntos. Arght. Eu não tinha certeza de como lidaria com isso. Na última vez, me sentira destruída. Seis meses não era tanto tempo assim. Esperei ser capaz de me controlar. Controle, disse a mim mesma. Controle. Mas o carro do qual Sadie se aproximou não era verde-escuro, e definitivamente não era um Saab. Era um Honda azul. O carro da Emma? O que ela está fazendo aqui? — E aí? — cumprimentou Sadie. Perdi o ar quando vi que o cabelo dela estava super curto. Tess saltou do carro e se juntou a elas. Parecia ainda mais alta, se é que isso era possível. Já tinha quase 1,85 metro. O cabelo comprido, acobreado, estava preso num rabo de cavalo apertado. Primeira bailarina. Sadie cruzou os braços, encarando-as. — Bem? Vocês queriam me ver? Emma e Tess se entreolharam. — Uh-oh — disse Patrick. — Tenho a ligeira impressão de que isso vai ser bom. Queria tanto que vendessem pipoca no Wendy’s. Mandei que calasse a boca, não queria perder uma palavra. Emma olhou nervosamente para Sadie, antes de falar. — Eu só queria dizer… Desculpa. ~ 197 ~


— Oi? — deixei escapar. — Por que Emma está se desculpando? Sadie arregalou os olhos. Ela também não estava acreditando, é óbvio. — Não foi certo acusar você assim — continuou Emma. — Mas — ela fez uma pausa e olhou novamente para Tess —, todo mundo está falando, a gente precisava saber a verdade. — Tomara que você nos perdoe — acrescentou Tess. — A gente realmente sente muito. Não compreendi. Estava completamente confusa com o desenrolar dessa história. O que foi que eu perdi, caramba? Não peça desculpas a ELA. Ela é a vilã. Ela é a mentirosa! Sadie olhou para baixo. — Só para deixar registrado, quero que vocês duas saibam que eu e Jacob Fischer somos amigos. Sempre fomos apenas amigos. Desde antes de eu e Brie nos conhecermos. — Sua voz titubeou. — Vocês acreditam em mim, não acreditam? Emma suspirou. — Sim, acreditamos. Mas você tem que admitir… — Não sou idiota. — Sadie secou os olhos. — Eu sei o que as pessoas andam falando de mim. Mas descobrir que vocês também acreditaram… — Não! Não! NÃO! — gritei, desejando poder sacudir Emma e Tess. — Ela está FINGINDO. Não acreditem numa palavra que ela diz! — … Isso realmente me magoou. ~ 198 ~


Ah, vagabunda. Completa e totalmente vagabunda. Eu não suportava mais aquilo. Nem mais um segundo. Eu me virei, ali mesmo, e chutei o pneu do carro com todas as minhas forças, gritando com tudo: — DEUS!!!!!!!!!! O carro sacudiu e eu caí no chão de cimento, arfando de dor. — Aiiiii — gritei, segurando meu pé. — Ai, ai, ai, ai, ai. Patrick ficou de boca aberta. Olhou para o carro, para mim, de novo para o carro, cheio de orgulho. — Muito bem. Valeu, EAGAN! — Uau — disse Tess, afastando-se do carro. — Vocês sentiram isso? — Com certeza eu senti alguma coisa — respondeu Emma. Ela ajoelhou e conferiu o pneu. — O que foi isso que aconteceu? Sadie olhou em volta para ver se alguém mais tinha percebido. — Talvez tenha sido um terremoto, será? Eu me sentei, me dando conta do que fiz. Meu Deus do céu. Meu Deus do céu. Meu Deus do céu. Um sorriso enorme rasgou meu rosto. — Eu fiz. Eu fiz de novo. Eu FIZ CONTATO. — É, isso aí! — Ele fez um gesto positivo em direção ao carro, sorrindo. — Repita. Concentrei-me nas minhas emoções. ~ 199 ~


Controle. Dei outro chute, agora mirando a porta. — Droga! — Tess deu um pulo para trás. Meu pé deixara uma pequena marca. Joguei a cabeça para trás e gritei: — Estou com tudo! Patrick levantou a mão para me cumprimentar. Girei. E não acertei a mão dele. — Hum — disse Patrick. — Acho que vamos ter que treinar esses cumprimentos. Ri, sem me importar. Sentia-me totalmente poderosa, capaz de fazer qualquer coisa, fora esses cumprimentos de menino. Vendo Sadie descer tão baixo e ter coragem de mentir, eu estava oficialmente Mais que Pronta para testar minhas novas e recentes habilidades. Sentia uma necessidade incontrolável e desesperada de causar um dano sério. Porque toda garota conhece o Primeiro Mandamento relativo à melhores amigas: NÃO ROUBARÁS O NAMORADO DA MELHOR AMIGA Pulei no capô do carro de Emma e dei vazão a mais um chute poderoso. Só que, dessa vez, quando meu pé fez contato, fez uma mossa no para-brisa. As meninas ficaram de boca aberta diante dos estilhaços de vidro caindo no asfalto. Começaram a gritar. Emma e Tess entraram correndo no carro e Sadie correu para o seu. ~ 200 ~


— Falo com você depois! — gritou Emma para Sadie enquanto todas se apressavam em sair do estacionamento. — Droga, lá se vai nossa carona — disse Patrick. Eu não estava ouvindo. — Que dia é hoje? Ele olhou para o sol no céu. — Usando o que aprendi no capítulo 13 do M&E — Aprimorando Habilidades de Sobrevivência —, diria que hoje é 28 de abril. — Quis dizer que dia da semana. — Um segundo. — Vi que ele tentava pegar algo. — O que foi? — perguntei. O rosto dele desenhou um sorriso culpado e ele ergueu o celular de Sadie. Macacos me mordam, Batman. Ele pressionou um botão e o visor ganhou vida. — Correção. — Anunciou um segundo depois. — 29 de abril. Sextafeira. Sexta-feira. Vasculhei minha memória. Jacob tinha treino de atletismo todos os dias depois da aula, mas as sextas eram quase sempre reservadas para as corridas. Patrick conferiu se alguém vivo estava olhando. Depois, enfiou o celular no bolso, tornando-o invisível ao mundo dos mortais. Agora era oficialmente nosso. Um Objeto Encontrado. — Passe para mim. — Estendi a mão. ~ 201 ~


— Um segundo — disse ele. — O que você está pensando em fazer, Queijo Coalho? — Quem, eu? Ora, ora, senhor, não sei do que você está falando. — Escute. — A voz dele ficou séria. — Eu vou brincar disso mais um pouco. Mas não quero ver você completamente tomada. Existem regras para esse tipo de jogo, Cheetos. — Ah, é? — desafiei. — Tipo quais? — Tipo esquecer esses idiotas para seguir seu caminho, e Descansar em Paz, finalmente. Outra coisa. — Ele me olhou nos olhos. — Logo a gente vai ter que voltar para o pedacinho do céu. Logo, você vai ter que deixar essas pessoas para trás. Você sabe disso, não sabe? Encarei-o, sem dizer uma palavra. Patrick era um cara legal, e eu tinha passado a gostar dele. Mas ele nunca ia me entender. Como poderia? Era só um cara dos anos 1980 que teve muito azar dirigindo a moto em alta velocidade. O que poderia saber sobre amor, ou perdas ou o que realmente significava ter o coração partido ao meio? Absolutamente nada, era o que podia saber. Convenci-me ali mesmo de que não voltaria para a pizzaria. Nem agora, nem nunca. Fiz o possível para esconder esse pensamento, caso Patrick estivesse se esgueirando por dentro da minha cabeça. Fiz o possível para parecer que eu dizia a verdade. — Sei. — Fiz que sim com a cabeça. — Eu sei que a gente tem que voltar.

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Acho que Sadie não era a única capaz de mentir bem. Porque Patrick comprou minha mentira. Ele sorriu. — Tudo bem, então. Senti culpa, claro, mas não o bastante para mudar de ideia. Porque, mesmo que o inferno tomasse conta da terra, não havia quem pudesse me fazer não voltar. Nem Patrick. Nem a Senhora das Palavras Cruzadas. Nem o demônio em pessoa. Ninguém.

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Capítulo 25 Permanently black and blue, permanently blue, for you

Decidi esperar por Jacob a sete quarteirões da escola, no mesmo lugar por onde ele andava todos os dias (Bo-Bo’s), na mesma bicicleta de sempre (uma Raleigh Performance Hybrid preta), na mesma hora de sempre (14h42). A qualquer momento, eu tinha certeza, ele estaria a caminho do Belcher Field — que todo mundo chamava de Arroto —, onde a equipe de atletismo do colégio fazia as provas. Não que eu fosse obsessiva ou algo do gênero. Pelo contrário, amigos. Para deixar registrado, gostaria de ressaltar que NÃO é obsessão decorar a agenda do namorado para encontrá-lo casualmente. Isso é ser eficiente. Por que perder tempo e energia correndo de um lado para outro na cidade tentando adivinhar onde um cara vai estar, se, em vez disso, você pode ter certeza? Então, você pode estar lá. Abordagem muito direta, tendo a acreditar. Ah, sim, porque você é uma stalker5. Patrick me olhou como quem diz que não está de brincadeira. 5

É uma pessoa obcecada que mantém uma vigilância exacerbada, geralmente, sobre outra pessoa, muitas vezes forçando contatos indesejados. Leia mais em: http://www.tecmundo.com.br/privacidade/5411-o-que-sao-stalkers-e-por-que-sao-tao-perigosos.htm#ixzz2Y2L3d9s3

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— Fac ut vivas. Também conhecido como vá procurar o que fazer. Dispensei o comentário e vasculhei o quarteirão pela décima sétima vez, para não perder a chegada de Jacob. — Não é como se eu corresse na frente da casa dele a cada meia hora, ou qualquer coisa do tipo. — Certo. Com certeza de hora em hora já era o bastante. Dei um tapinha no braço dele. Mais alguns minutos se passaram e Patrick começou a ficar sem paciência. — Ele não vem, Cream Cheese. Somos dois idiotas. Ou melhor, você está sendo idiota. Encarei-o. — Bem, você pode ir embora se quiser. Aliás, me faria esse favor? Está atrapalhando minha concentração e quero estar pronta. — Ah, tentando se livrar de mim, é isso? — Ele se encostou no poste de telefone. — Detesto te dar uma notícia desagradável, mas não vou a lugar nenhum. Balancei a cabeça, irritada. — Pode ficar, ir embora, seja o que for. Não estou nem aí. De repente — meus sentidos em alerta —, ouvi o ruído de rodas de bicicleta. Senti um suor frio e nervoso se espalhar por todo o meu corpo. Ele estava se aproximando. Eu podia sentir. Então, vi o pneu da frente virar à direita, na Mill Street.

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Congelei. Era realmente ele. O cabelo revolto como se não cortasse havia meses, e ele parecia estar com os ombros mais largos. Está ficando mais velho. O pensamento doeu um pouco. Todo mundo estava ficando mais velho. Menos eu. — Pronto? — Eu me agachei, me preparando. — Ainda acho que você é maluca — resmungou Patrick. — Engraçado, porque não me lembro de ter pedido sua opinião. Ficamos de frente um para o outro, uns 2 metros de distância — Patrick no poste, eu encostada na janela do Garden Deli Café, onde os professores do colégio costumavam almoçar. O plano era dar um grande susto em Jacob antes da corrida. Ele era muito supersticioso, principalmente no que dizia respeito ao esporte, então eu queria fazer alguma coisa que realmente o apavorasse e — tomara — o derrubasse na frente de toda a escola. Eu precisava constrangê-lo. Não, eu precisava humilhá-lo. — E o jogo vai começar — sussurrei. Ele se aproximou pedalando até que, finalmente, pude ver o branco de seus olhos. Minha Guerra Pessoal de Independência. Ah, levando isso um pouco longe demais, não? — Espere para ver — respondi. — Mais um pouco… tá, agora! — Pulamos na frente do Jacob, usando nossos braços para formar uma corrente. Fechei os olhos exatamente quando Jacob me atravessou. Pude ouvir o coração dele batendo dentro do peito. Pude sentir sua pulsação nas minhas veias. Pude sentir o cheiro de poeira debaixo das ~ 206 ~


unhas dele. Por meio segundo, me atrevi a abrir os olhos. Foi incrível, uma versão ficção científica da vida real, atravessar um corpo humano. Vi seu sangue, as células, as artérias, tudo vivo e respirando, me rodeando num ritmo pulsante, perfeito. Tudo o que Jacob Fischer era tomou conta de mim de uma só vez, e a força disso quase me derrubou. Firmei mais ainda meus calcanhares. Não iria a lugar algum. Sou forte. Sou poderosa. Tenho controle. — Que droga! — gritou Jacob, perdendo o controle da bicicleta. Ouvi a correia se partir e ele derrapar para a esquerda, indo cair na pilha de sacos de lixo que eu arrastara dos fundos do café. A bicicleta se chocou contra o poste e caiu na rua. Um carro desviou, mas acabou passando por cima da roda traseira. TUMP! — Homem ao chão! — Levantei meus braços em comemoração e fiz uma coreografia da vitória. Jacob gemeu e rolou por cima de um monte de salame estragado e restos de sanduíche. — Parabéns — disse Patrick. — Feliz? Saltei em sua direção e lhe dei um beijinho no rosto. — É. Ele me olhou como se eu fosse doida. — O que foi isso? Sorri. — Um agradecimento por você ser um excelente parceiro no crime.

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Jacob se levantou lentamente, livrando-se da pilha de lixo. Parecia absolutamente confuso e — exatamente como eu genialmente previra — muito apavorado. — Ei, tudo bem com você? — Um cara do café apareceu na porta. — A gente viu sua queda, cara, pareceu bem ruim. — Ele fez um sinal na direção dos sacos de lixo e riu. — Mas você teve sorte. Normalmente a gente não coloca o lixo aí até a hora de fechar. Parece que tem alguém tomando conta de você. Ah, você não faz ideia. — É — disse Jacob. — Não entendi o que aconteceu. Acho que me distraí um segundo. — Olhou para sua bicicleta e para a calçada suja. — Desculpa a bagunça, cara. Vou arrumar. — Isso mesmo — respondi. — Você fez uma tremenda bagunça, Fischer. E estou aqui para garantir que você arrume tudo. Patrick bateu na própria cabeça. — Mulheres. — Vamos nessa! — Segurei a mão dele. E voamos diretamente para o Arroto.

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Capítulo 26 You oughta know

O

Arroto estava lotado (ou seja, perfeito para o que eu estava

prestes a evidenciar). Meninos e meninas de todas as esferas do colégio estavam ali. Os idiotas; os drogados; as tietes; os moderninhos com seus topetes e óculos estilo anos 1950; até mesmo os alunos de teatro tinham comparecido. Conferi o quadro de resultados e entendi o motivo. Estávamos disputando com o San Mateo Cyclones. Uma rivalidade que existia desde sempre, pelo menos desde os anos 1990. Finalmente as coisas começaram a conspirar a meu favor. Minha nossa, como o jogo vira. Ri feito uma maluca diante da minha sorte. Isso com certeza seria a MCDTOT (Melhor Corrida De Todos Os Tempos). — Só uma informação básica, você está parecendo o Conde Drácula — disse Patrick. — Dá para fazer o favor de parar com esses sons monstruosos? Você está começando a me assustar, Bafo de Queijo. Como tinha virado hábito, ignorei-o. — Cadê o celular? — Estendi a mão para enfiar no bolso dele, mas Patrick me impediu. — Não tão rápido, mocinha. — Ele pegou o iPhone de Sadie e acenou acima da minha cabeça. — É isso que você está procurando? Pulei, tentando roubar o aparelho. ~ 209 ~


— Deixa de ser estraga-prazeres. Me dá. — Só se você prometer não fazer nada estúpido. — Tá, prometo. — Ele me entregou o telefone e digitei a senha de Sadie, a mesma que sempre usara. Juilliard. Então, tentei pensar com a cabeça dela e digitei uma mensagem para Jacob o mais parecido com minha amiga possível. JF! Indo p o Arrotão! Vc já chegou? Força nas pernas! Ri de mim mesma e Patrick me encarou, suspeito. — O que é tão engraçado? — Acho que essa informação é confidencial. — Então, apertei SEND. Ele resmungou. — Lembre-me de nunca ficar de mal com você. Alguns segundos depois, o telefone apitou. Jacob respondera. Indo. Bike ferrada. Me dá carona mais tarde? xx. Li o torpedo algumas vezes. Lá estava. O indisfarçável X duplo. Significando amor. Senti uma onda de excitação atravessando meu corpo — a mesma sensação que eu costumava ter quando ele me mandava uma mensagem dizendo oi, ou quando me lembrava o quanto eu era adorável. — Notícia fresca, Cara de Queijo, o torpedo não é para você — disse Patrick. — Ele acha que está mandando mensagem para ela. Encarei-o. — Ah, jura? Muito obrigada por esclarecer o incrivelmente óbvio. ~ 210 ~


Um minuto depois, vi Jacob arrastando a bicicleta detonada até os racks e, depois, jogando-a no chão sem se incomodar em trancá-la. Segui-o até o lugar onde todos os corredores se alongavam e fiquei assistindo seu aquecimento. Não havia dúvida de que ele era o melhor atleta do colégio. Olheiros das universidades rodeavam Jacob como mosca em volta do mel desde o oitavo ano, quando ele quebrara o recorde de um garoto do terceiro ano chamado Mike Remy. A Universidade de Princeton já tinha mais ou menos lhe garantido uma vaga no time, desde que mantivesse suas notas altas até a formatura. Ele era uma estrela. Popular de um jeito discreto. Sempre sociável, fácil, doce, um cara do bem. Todo mundo gostava dele. Sempre foi assim. Não era o tipo de camarada que se envolve às escondidas com a melhor amiga da namorada. E certamente não era do tipo que trai as pessoas de quem mais gosta. Por isso foi tão difícil acreditar na história do coração partido, tão completamente fora de cogitação. O chão firme, seguro, confiável, se abriu debaixo dos meus pés. Sem aviso. Sem alarmes de incêndio. Sem elefantes fugindo desvairados dias antes de um tsunami. Para ser absolutamente honesta, mesmo depois de tanto tempo, parte de mim ainda não conseguia acreditar. Jacob e Sadie. Simplesmente não fazia sentido. Mas algo estava diferente agora, como se os planetas tivessem mudado de lugar. Eu conseguia enxergar isso na maneira como os outros garotos o olhavam e se moviam em volta dele. A maneira como seus cole~ 211 ~


gas de equipe estreitavam os olhos e baixavam a voz quando ele se aproximava. O que está acontecendo? Jacob alongou o braço direito na frente do peito, depois fez o mesmo com o esquerdo. — Ei, Fischer, você está atrasado — disse o treinador Bobby. — Faça um aquecimento. Você é o próximo. — Desculpa. — Jacob baixou a cabeça e correu em direção à sua equipe. Vi sua expressão ao se juntar a eles. É, alguma coisa estava definitivamente errada. Os olhares não eram amistosos. Nada de sorrisos ou cumprimentos. Nada além de um silêncio estranho, desconfortável. Minha pele foi tomada de um arrepio de pura satisfação quando me dei conta. — Eles sabem — sussurrei. — Todos eles sabem o que ele fez comigo. — Então, o que você está dizendo é — respondeu Patrick — que nosso trabalho aqui está finalmente encerrado. Ri, sarcástica. — Pode continuar sonhando, Patrícia. Os atletas se encaminharam às respectivas raias, Jacob ficando na última pista da parte de dentro do campo. Perfeito.

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— Corredores, para suas marcas! — O treinador gritou, erguendo a arma de largada acima da cabeça. Os meninos ficaram de joelhos. — Corredores, preparar! Todos se posicionaram. — Corredores, agora! Ouvi o estampido da arma e vi os meninos darem a largada, os músculos tensionados, os corações batendo. Era uma corrida curta — apenas 100 metros. Jacob estava na frente, vi seus olhos se estreitarem em direção à linha de chegada enquanto a plateia incentivava o time da casa. P-C-H! P-C-H! P-C-H! Estavam todos prestes a ver do que eu era capaz, diretamente do Grande e Desagradável ALÉM. Todos estavam assistindo. O colégio inteiro. Todos os professores e diretores, todos os pais. Na lateral da arquibancada, lá no alto, uma menina bonita, de cabelo escuro, estava sentada, sozinha. Pude ver perfeitamente seu rosto, como se as nuvens tivessem aberto um espaço e ligado um holofote em cima dela. Sadie. Sorri novamente, vendo Jacob correr na minha direção na pista. — Pode engolir seu coração, Russo — sussurrei, agachando na posição final. Ele estava quase me alcançando. Eu quase conseguia ver o reflexo da minha imagem brilhando nos olhos azuis dele. ~ 213 ~


Por um instante, lembrei do som do coração dele e tive vergonha do que estava prestes a fazer. Mas também lembrei do meu coração. Eu me abaixei, estendi a perna e me concentrei como nunca antes. Me preparei para o impacto, porque, sim, provavelmente sentiria dor. Apesar de que doeria muito mais nele do que em mim. 3-2-1-CONTATO. Num segundo, o mundo parou de repente. Ouvi o som de ossos se quebrando. Ouvi a multidão silenciar quando seu grande atleta deu de cara no chão. Então, como se fosse música, ouvi a doce e esplêndida vitória da bolsa do meu ex-namorado para Princeton desaparecer no ar.

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Capítulo 27 Cry me a river

Patrick não estava falando comigo. Ele estava me “punindo”. Porque eu “fui longe demais”. — Sem querer ofender — falei —, mas gostaria de dizer que uma perna torcida em troca da destruição de um coração é bastante justo. Ele franziu o cenho. Torcida? — Tá, tudo bem — relevei. — Quebrada. Tanto faz. A multidão ainda estava completamente desnorteada quando a ambulância chegou para levar Jacob ao hospital para radiografar e engessar a perna. Além dos paramédicos, de mim e de Patrick, só uma pessoa entrou na ambulância e ficou perto dele o tempo todo. Sadie. Sério, esses dois poderiam ser mais clichê? Nós quatro ficamos ali em silêncio enquanto a ambulância acelerava em direção ao hospital. — E isso é muito esquisito — disse Patrick. Não respondi. Estava muito ocupada lançando olhares mortais para Sadie, na esperança de que ela entrasse em combustão espontânea. — O que aconteceu, Jacob? — Sadie segurou carinhosamente a mão dele. — Em que você tropeçou? ~ 215 ~


— Cuidado — disse ele, bruscamente, para um paramédico que o enfaixava. Ele estendeu as mãos, irritado. — Eu não sei, tá? Em nada. Não tropecei em nada. Ela balançou a cabeça, confusa. — Não é possível, você só pode ter tropeçado em alguma coisa. Todo mundo viu. — Então por que está me perguntando? — gritou ele. — Se todo mundo viu, talvez você possa me dizer o que aconteceu. — Ele deitou a cabeça na maca e ficou com a voz embargada. — Caramba. Isso muda tudo. Isso… — apontou para a perna — … estraga tudo. — Talvez não, quem sabe? — Ela tentou animá-lo. — Vamos esperar para ouvir o que o médico vai dizer… — Quebrou — disse ele, com amargura. — Isso era meu bilhete de saída. A única chance de começar de novo em outro lugar. E agora já era. — Fechou os olhos e fez uma careta de dor. — Juro por Deus, foi como se tivesse uma espécie de força agindo sobre mim hoje. Primeiro a bicicleta, depois isso. Sadie estendeu a mão e tirou um cacho de cabelo dos olhos dele. Vontade de vomitar. — Como assim? O que aconteceu com a sua bicicleta? — Como assim? Eu é que pergunto como assim. Mandei uma mensagem de texto para você, antes da corrida — falou ele, irritado. — Você me disse para ter força nas pernas. Sadie balançou a cabeça, confusa.

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— Jacob, do que você está falando? Eu não te mandei nenhuma mensagem. Jacob encarou-a por um longo segundo, depois pegou a bolsa e começou a procurar lá dentro. Finalmente, pegou o celular, conferiu os torpedos e entregou o aparelho para ela. — Ah, não? Vi Sadie esbugalhar os olhos ao ler. — Eu não escrevi isso. Não sei quem escreveu. Perdi meu telefone no Wendy’s, acho. Alguma coisa estranha estava acontecendo com o carro da Emma e eu devo ter deixado cair. Alguém deve ter encontrado. Foi outra pessoa que escreveu essa mensagem. Patrick me lançou um olhar perverso. Ops. — Emma — disse Jacob, a voz tomada de ressentimento. — Com certeza foi Emma. Sadie balançou a cabeça. — Ela não faria isso. Emma e Tess me pediram desculpas hoje. Ele levantou o olhar. — Pediram? Sadie fez que sim com a cabeça. — Estou ligando para o seu telefone — disse ele, ainda em dúvida. — Vamos ver se alguém atende. Uh-oh.

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Encarei Patrick quando o telefone de Sadie começou a vibrar no bolso do meu vestido. — Você vai atender? — perguntou Patrick. — Hum, acho que não — falei, corando. — Acho que vou deixar cair direto na caixa postal. Ele sorriu, sarcástico. — Boa ideia. A ambulância parou alguns segundos depois e a porta de trás foi aberta. Patrick e eu pulamos para fora e dois caras de jalecos cor de laranja mandaram Jacob sentar. Depois, contaram até três, levantaram a maca, tiraram-na da van, a colocaram no chão e o transferiram para uma cadeira de rodas. — Vou esperar sua mãe e seu pai aqui fora — disse Sadie. — Te vejo lá dentro. — Deu-lhe um beijinho no rosto. — E nada de se preocupar, tudo bem? Vai ficar tudo certo. O pessoal de Princeton não vai tomar nenhuma atitude drástica. Eu não vou deixar. Prometo. Deu para ver que Jacob não acreditou nela. Mas sorriu, mesmo assim. — Valeu, Sades — disse carinhosamente, e começaram a empurrálo para dentro do hospital. — O que eu faria sem você? Ah, não sei. Talvez ainda namorasse comigo? — Meu Deus, chega! — gritou Patrick. — Ei! Não grite comigo! — Puxei acidentalmente a manga da jaqueta dele, expondo sua cicatriz. Ele puxou o braço. ~ 218 ~


— Desculpa, desculpa — falei. — Sempre esqueço que você é cheio de frescura com essa roupa. A expressão no rosto dele deixava claro que não estava para brincadeiras. — Escuta — implorei. — Desculpa de verdade, tá? Eu não quis… — Quis, sim — respondeu ele. — Você não está nem um pouco arrependida. Eu me senti péssima. Nunca tinha sido uma menina má. Nunca nem mesmo matei uma barata, pelo amor de Deus. Era a primeira vez que me vingava, ponto. Mas eu tinha meus motivos. Estava cansada de ser sempre a boazinha. Estava cansada de ser sempre a boa amiga de quem todo mundo se aproveita. Então, pelo menos uma vez, tomei providências quanto a isso. E, tudo bem, sim, talvez algumas pessoas tenham ficado feridas no caminho. Mas e daí? Elas mereciam ser feridas. Senti vestígios de fumaça negra atravessando minha pele. Eu me senti mal por ser uma imbecil, mas, afinal, isso realmente não era da conta de Patrick. Ao ver a expressão de santo Tom Cruise cheio de dignidade no rosto dele, comecei a ficar irritada. Irritada por ele estar irritado. Como se atrevia? — E se eu não estiver arrependida, hein? — Desafiei-o. — Não devo desculpas a ninguém. — Comecei a caminhar em direção à entrada da emergência. — Muito menos a você. Patrick segurou meu braço. — Brie, não faça isso. ~ 219 ~


Tentei me afastar. — Me larga. — Eu não devia ter apoiado isso — disse. — Foi um grande erro. Você está muito apegada. Agora consigo enxergar. — Ele apertou mais meu braço. — Eu entendo, tá? Pode acreditar em mim, sei que pode parecer divertido, mas só está piorando as coisas. Você precisa se livrar desse desespero. Nunca vai ter a chance de se libertar se continuar fazendo isso. — E daí? — gritei, me desvencilhando. — Talvez eu não queira me libertar. Talvez esteja mais feliz assim do que em qualquer momento na pizzaria. Talvez eu não dê a mínima para o próximo estágio da sua lista idiota. Talvez eu prefira ficar com meus amigos e minha família do que passar a eternidade com VOCÊ. Ele me olhou, abismado. — Amigos? Sei que eu e você crescemos em épocas diferentes, mas com certeza não é assim que as pessoas tratam os amigos. — Eles estão tendo o que merecem! Os dois! Você sabe disso! — Eles estão pagando pelos seus erros, Brie. Os dois estão sofrendo o suficiente desde que você foi embora, provavelmente mais do que você consegue imaginar. — Ele tentou me segurar uma segunda vez. — É hora de parar. O jogo acabou. Dei um passo atrás, a raiva começando a ferver dentro de mim. — Qual é o seu problema? Por que você, de repente, passou a se importar tanto com o que eles sentem? Não me diga que … você está apaixonado pela Sadie? ~ 220 ~


— Não seja ridícula — respondeu ele. — Por que você simplesmente não pode deixar as coisas acontecerem como devem acontecer? — Porque não estou a fim — respondi. — Porque morri e eles não. Porque não é justo, e ela não merece o Jacob, tá? Ele era meu. — Minha voz embargou e eu estava à beira das lágrimas. — Ele era meu. Não dela. — Como você pode se importar tanto com duas pessoas que nunca te mereceram, para começo de conversa? — disse Patrick, me encarando. — Por que você não pode superar isso e seguir em frente? Ele te feriu. Ela te feriu. Você não vê? — As mangas da jaqueta se ergueram, revelando mais ainda suas cicatrizes. Eu me retraí. Ele realmente tinha passado por alguma coisa pavorosa. Mas o quê? — Ele roubou seu coração… — A voz de Patrick ficou triste. — Roubou seu coração doce, divertido, perfeito… e o destruiu. Por que você continua deixando que faça isso com você, de novo e de novo? Só existia uma resposta. Era simples, mas era tudo que eu tinha. — Porque eu amava o Jacob — respondi, lágrimas de raiva começando a rolar pelo meu rosto. — E ele me amava. Eu sei que amava. Eu sei. — Uma trovoada forte chacoalhou o céu à distância, e o ventou ganhou velocidade. Não me movi. — Amor? — desdenhou ele. — Você acha que aquilo era amor? — Talvez, se algum dia você tivesse se apaixonado — falei —, talvez soubesse como é perder sua alma gêmea. — Fiz uma pausa. — Perder suas duas almas gêmeas. ~ 221 ~


Os olhos de Patrick ficaram mais sérios e sombrios do que eu jamais vira. — Anjo — sussurrou ele. — Não fale daquilo que não compreende. Foi o bastante para mim. Senti pequenas labaredas incendiando meus dedos dos pés, viajando coluna acima e incendiando meus braços, minhas costas e meu peito. Senti que começava a queimar. — Se afaste de mim — falei. — Fique longe de mim. Ele não se deu o trabalho de me responder em voz alta. Como você quiser. Então, desapareceu.

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Capítulo 28 Don’t dream it’s over

Quando cheguei na Cabrillo Drive percebi que tinha andado até minha casa. A briga com Patrick me deixara ansiosa e confusa, e eu não prestara atenção nos nomes das ruas até levantar a cabeça e ver o BMW do meu pai estacionado na nossa porta, alguns quarteirões à frente. Chutei as pedrinhas no chão enquanto andava. Estou certa. Estou certa e Patrick está errado. Que droga ele sabe? Nunca passou por algo desse tipo. Tirei o telefone de Sadie do bolso. Até agora ela se safou, mas o mundo estava prestes a descobrir que eu ainda tinha algumas cartas na manga, sim, senhor. Pressionei alguns botões e, em segundos, a página dela no Facebook estava aberta. Guarde isso, eu podia imaginar Patrick me dando bronca. Nem pense nisso, Queijo Coalho. Espantei-o da minha cabeça como se fosse um mosquito irritante e vasculhei o perfil de Sadie. Ela não alterava seu status havia mais ou menos um mês, o que me pareceu um ato extremo no caso dela. Cliquei nas mensagens para ver se tinha alguma coisa que valesse uma espionagem, mas fiquei chocada ao encontrar a inbox vazia. Difícil de acreditar, já que estamos falando de uma menina que tem mais de mil amigos. Ela deve ter apagado as evidências. ~ 223 ~


O que você está escondendo, Sadie? Mesmo que os últimos meses tivessem feito sua popularidade cair, eu tinha a sensação de que muita gente do colégio ainda estaria muito interessada em saber o que Sadie Russo andava aprontando ultimamente. — Você não deve deixar seu público adorado esperando — falei. E digitei o Status Mais Perfeito do Mundo. Os rumores são verdadeiros Sr + Jf = 4ever p.s. Quem é Brie, mesmo? — E, como dizem, é isso. Sorri, saí da página e guardei o telefone novamente no meu bolso. Missão cumprida. Andei até a varanda de trás da nossa casa e dei uma olhada furtiva na casa dos Brenner e em seu jardim florido e rodeado de cerca branca. Fiz uma careta, enojada com aquela falsidade. Eu me perguntei se o sr. Brenner já teria descoberto a verdade sobre o meu pai. Ou se minha mãe tinha descoberto. Só de pensar no meu pai com Sarah Brenner ainda ficava enjoada e percebia que minha vida toda não passara de uma grande mentira. Por que eu e Jack não tínhamos nascido numa família normal, sem tanto drama? Suspirei. Talvez na próxima vida. Pensei um pouco sobre reencarnação e em como eu gostaria de voltar à Terra, se é que existe esse tipo de coisa. Um golfinho, talvez. Ou um coala. Mas, agora é sério, quem gostaria de voltar? A vida dá muito tra~ 224 ~


balho. É muito dolorosa. Eu não precisava fazer tudo de novo, com um novo elenco de problemas. Uma vez já era demais. Então meus pensamentos se voltaram para Jacob, e não consegui deixar de pensar em como ele reencarnaria. Um porco. Não, porcos são fofinhos demais para ele. Talvez uma minhoca. Ou um rato. Ah, um rato, definitivamente. E Sadie? Essa era bastante óbvia. Seria uma cobra. Uma cobra horrenda, grande, escorregadia e traiçoeira. Pensar em Sadie se arrastando pelo chão quase me fez rir alto, uma distração monumental daquilo que realmente estava me incomodando. Querendo ou não admitir — e eu não queria —, não conseguia me livrar da sensação de que talvez Patrick estivesse certo sobre o fato de eu ter ido um pouco longe demais. Ou muito, imaginei-o dizendo. — Ah, cale a boca — resmunguei. Momentos desesperados precisam de atitudes desesperadas. Do meu ponto de vista, os dois tinham se safado muito facilmente. Jacob, por exemplo. Eu tinha certeza de que existia alguma faculdade que o quereria em seu time de atletismo. E no caso de Sadie, eu não tinha dúvidas de que ela ainda entraria para a Juilliard e conseguiria chegar a Broadway, depois de tanta prática sendo uma mentirosa de mão cheia.

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Porque todo mundo sabe que mentir e atuar são basicamente a mesma coisa. Parei na entrada da minha casa, de repente me dando conta de que tinha um problema maior ainda para resolver. Ou melhor, uma pergunta. E agora? Patrick tinha razão. Meu trabalho estava encerrado. Fora bemsucedida na tarefa de dar a Jacob uma prova de seu próprio veneno. Mas agora não tinha certeza do que fazer comigo. Será que devia ficar por ali, assombrando meus amigos e minha família até que eles se juntassem a mim do outro lado? Será que eu devia oferecer meus serviços voluntários de Anjo Guardião Adolescente para garantir que a minha mãe e Jack levassem a vida o mais suavemente possível? Para ser honesta, essa não me parecia a melhor das ideias, já que a vida de guardiã-sem-na-verdade-ser-capaz-de-fazer-alguma-coisa deve cansar muito rápido. Por um segundo, voltei minha atenção para alguns verões atrás — para o dia em que eu e minhas amigas encontramos os colares na cidade. A loja parecera surgir do nada, quase como se estivesse ali esperando por nós, e por mais ninguém. Rabbit Hole. O lugar onde Alice escorregou e caiu, indo parar no seu País das Maravilhas particular. Visualizei a loja. O chão escuro de tábuas corridas gastas. O cheiro de incenso de jasmim. A luz baixa e aconchegante das luminárias de papel iluminando as paredes amarelo-claras. Enquanto ~ 226 ~


me vinham à mente todos aqueles detalhes, percebi que meu colar esquentava sobre minha pele. Coloquei os dedos entre o colar e o pescoço, tentando esfriar as coisas. Foi então que me dei conta. Seu País das Maravilhas particular. Olhei para o céu anoitecendo. Depois para o norte, em direção a São Francisco. Meu buraco do coelho. Onde eu podia desaparecer. Ou, pelo menos, me enterrar e esperar até descobrir o que fazer com o resto da minha vida. Ops, morte. Um latido repentino e um par de patas brancas com pintinhas me tirou de dentro da minha própria cabeça e me trouxe ao gramado da frente de casa. — Hamloaf! Ele pulou em cima de mim, lambendo meu rosto como se eu fosse biscoito de cachorro. — Chega! — gritei. — Desce, desce! Ele latiu e ganiu, feliz, andando em círculos animados pelo jardim, as orelhas voando para cima e para baixo. Finalmente, se cansou e sentou do meu lado na grama, abanando loucamente o rabo. — Calma, garoto, calma. — Acariciei a cabeça e o pescoço dele, até que relaxasse um pouco.

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Hamloaf colocou a pata no meu peito e me deu mais uma rodada de beijos melados. — Acho que você ficou feliz de me ver, né? — Eu me sentei e olhei para o jardim. — Mas o que você está fazendo sozinho aqui fora? Cadê a mamãe? Cadê o Jack? Ao ouvir o nome do meu irmão, Hamloaf começou a uivar, pequenos gemidos agudos destinados a derreter o coração de uma pessoa. Ele se levantou com um pulo e se encaminhou para sua portinhola de entrada. Depois, virou-se para mim e latiu uma única vez, convidando-me a segui-lo. — Desculpa, amigo. — Balancei a cabeça. — Você sabe tão bem quanto eu que não passo aí. Ele espirrou. — Também acho. Hamloaf voltou e começou a rolar na grama, parecendo mais uma hiena que um cachorro. Fui até a casa e espiei pela janela dos fundos. Era como se um furacão tivesse passado por ali. Pratos empilhados na pia. Revistas e jornais velhos espalhados. Pouca luz e algumas caixas de comida chinesa em cima da bancada. — Uau — falei, olhando para Ham. — O que aconteceu? —Mamãe nunca deixaria a casa ficar essa bagunça. Nunca. Corri até a garagem e espiei pela janelinha redonda. O carro da minha mãe não estava ali. Dava para saber que era quase hora do jantar, já que a luz do dia estava indo embora. Ela certamente já deveria estar em casa. Olhei mais uma vez, para ter certeza de que meus olhos não estavam me enganando. ~ 228 ~


Nenhum Subaru. Fiquei preocupada. Se minha mãe não estava em casa, Jack não estava em casa. Repassei a lista de possibilidades. Talvez estivessem visitando meus avós em Vancouver. Talvez estivessem com meus tios em Portland. Mas ainda não tinham chegado as férias da primavera, tinham? E se tivessem, não teriam levado Hamloaf? Nós sempre levávamos o Hamloaf. Sempre. Meu cachorro se afastou um pouco e ficou sentado me olhando. — Cadê a mamãe? — perguntei novamente. — Cadê o Jack? — Mais uma vez, quando ouviu o nome do Jack, ele começou a latir desesperadamente. — Ok, ok! — Tapei os ouvidos com as mãos. — Entendi, o assunto não é agradável. Ele se acalmou e descansou a cabeça nas patas. Seus olhos diziam exatamente o que eu não queria ouvir. Embora. Eles tinham ido embora. — Ela sabe — sussurrei. — Mamãe descobriu, com certeza. Olhei para a casa. Era tudo culpa do meu pai. Tudo. Ele tinha destruído a minha família. Era o culpado do afastamento da mamãe e do Jack. Era um monstro por destruir tudo que tínhamos. E eu nunca o perdoaria por isso. Meus olhos se fixaram numa pedra a alguns metros de distância. Não muito grande, não muito pequena. Hamloaf seguiu meu olhar e foi até ela, como se fosse um graveto ou uma bola de tênis, mas tentei dissuadi-lo. ~ 229 ~


— Não! Isso não é uma brincadeira. Ele parou no meio do caminho, mas dava para ver que ainda pensava que estávamos brincando. Concentração. Controle. Visualizei meus dedos envolvendo a superfície fria e lisa da pedra. Lentamente, estendi o braço, dizendo a mim mesma que mantivesse a calma. A firmeza. Mandei a única mensagem possível ao meu cérebro. Pegue a pedra. E, de repente, peguei. Rolei-a entre as mãos por uns instantes. Senti suas partes macias e ásperas, e me perguntei como uma coisa tão pequena poderia ser tão pesada. Depois, levei o braço para trás e lancei a pedra na direção da nossa casa. O mundo pareceu ficar mais devagar enquanto a pedra flutuava no ar e finalmente batia na grande janela dos fundos. Ouvi barulho de vidro quebrado antes de ver a janela se partir. A voz assustada do meu pai ecoou lá dentro. — O que foi isso? Ei! Quem está aí? A última coisa que eu queria era vê-lo. Eu precisava que ele continuasse sendo um monstro dentro da minha cabeça. Se ele se parecesse com o meu pai — o pai de quem me lembrava e que amava —, não sei se teria forças para fugir correndo. Então, zarpei, dando a volta na casa, indo para o mais longe possível. — Eu te odeio! — gritei. – Te odeio! ~ 230 ~


Somente quando minhas sapatilhas pisaram a areia, um ou dois minutos depois, e quando senti a brisa no meu cabelo, me permiti parar e recuperar o fôlego. Eu me ajoelhei na praia e enterrei a cabeça nas mãos enquanto lágrimas rolavam pelo meu rosto. Fechei os olhos e senti o peso do mundo sobre mim novamente. Agora eu estava realmente, absoluta e irrevogavelmente sozinha. Mamãe e Jack foram embora. Meu pai é um monstro. Minha família morreu. Então, ouvi um espirro. Senti um nariz quentinho e molhado na minha bochecha. E quando abri os olhos, percebi que não estava sozinha. Não completamente. Porque Hamloaf tinha me seguido.

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Capítulo 29 In the arms of an angel —

Você não pode ficar aqui, seu cachorro bobo — eu disse para

ele quando o sol começou a se pôr. — Tem que voltar para ficar com papai. Você tem que ir para casa. — Ele inclinou a cabeça para o lado e eu soube que estava pensando a mesma coisa que eu. Que casa? Ele estava certo. Mas como isso poderia funcionar? Se o mundo visse um cão andando pela estrada sozinho, não demoraria muito para que alguém tentasse pegá-lo — ou para levá-lo a um canil (o mais provável) ou para adotá-lo. Quero dizer, por que não fariam isso? Ele era ridiculamente fofo. — Provavelmente vão mudar seu nome para alguma coisa terrível tipo Buster ou Sparky. — Funguei. — Acho melhor não. Ele bocejou, a boca toda aberta, depois deitou de barriga. — Exatamente, meus pêsames. Ficamos juntos ali por um tempo, vendo as ondas indo e vindo, as estrelas despontando uma a uma no céu. Contei para Hamloaf por onde eu tinha andado e o que eu tinha visto. Falei do Patrick e da Senhora das Palavras Cruzadas, do salto da ponte Golden Gate — das duas vezes — e disse que preferia morrer de novo do que ter que comer mais um pedaço

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de pizza. Ele deitou a cabeça fofa no meu colo e suspirou, como antigamente. Eu sabia como ele se sentia. Com Hamloaf ao meu lado era quase fácil fingir que éramos somente uma menina e seu cachorro — em vez de uma alma perdida e um cão de rua. Não consegui não desejar que o M&E tivesse um capítulo sobre voar com cachorros. Provavelmente não era a melhor ideia, na verdade. Olhei para ele e beijei seu nariz. — Era só o que faltava. Alguém chamando a polícia por conta de um cão voador não identificado. — Ele chegou o nariz mais perto e me atrevi a fechar os olhos por um segundo. A luz já havia quase ido embora. Era tão bom relaxar um pouco. Então, do nada, senti arrepios se espalhando pela minha pele, fazendo cócegas nos meus braços. Meu sistema interno de alerta disparou imediatamente e sentei. Hamloaf cheirou o ar, o rabo batendo na areia. Tum. Tum. Tum. — Shh. — Olhei em volta mas não consegui ver muita coisa. Comecei a sentir medo. O que eu estava fazendo sozinha ali, no escuro? — Aqui, garoto. — Abracei Hamloaf. Ele não era exatamente um pastor alemão, mas, com sorte, se alguém estivesse rondando por ali, não notaria a diferença. — Será que dá para você rosnar um pouquinho? — sussurrei. Ele coçou a orelha e bufou. Tudo bem, isso vai assustá-los, com certeza.

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Uma luz amarela piscou na minha frente, fazendo com que eu desse um pulo. Prendi a respiração e vi a luz piscar uma segunda vez. Aí, outro ponto se iluminou a alguns centímetros do meu ombro, suspenso no ar. O que é isso? Um ou dois no começo. Mas logo apareceu outro. E mais outro. Fiquei impressionada porque o ar começou a se encher deles — pequenos pisca-piscas, dançando sobre nossas cabeças. Vaga-lumes. Logo, eram incontáveis. Centenas e centenas deles. Eu nunca vira nada igual. Não na vida real. Nem mesmo nos meus sonhos. Uma coisa incrível. Não, uma coisa mágica. Nós dois ficamos olhando, hipnotizados, enquanto os vaga-lumes tomavam conta da praia, lentamente. Indo em direção ao norte. Iluminando o caminho para São Francisco. — É um sinal — sussurrei. — Só pode ser um sinal. — Eu sentia a pulsação das suas asinhas delicadas no ar, esfriando gentilmente meu colar. Vi os rastros de luz que deixavam para trás cada vez que acendiam e apagavam, engolfando a orla num brilho amistoso. Hamloaf deu um pulo e se sacudiu, caçando-os na beira d’água. Imitei-o, rindo enquanto meus pés entravam em contato com o oceano frio, iluminado. Dançamos sob as fagulhas, seguindo-as quando migravam pela beira. Pela primeira vez em séculos, um sentimento há muito esquecido encontrou um caminho de volta ao meu peito. Esperança. ~ 234 ~


A sensação de que qualquer coisa ainda era possível. Então eu peguei Hamloaf nos braços, ainda que de forma desajeitada, e sussurrei em seu ouvido para que aguentasse firme. Depois me concentrei no Rabbit Hole, com seu grande vitral azul e lanternas brancas de papel penduradas no teto. Eu imaginava as velas tremeluzindo e as frases sobre as paredes de cerejeira em uma elegante tinta preta — frases dos melhores livros infantis. Hamloaf estava ganindo e eu o apertei com ainda mais força contra o peito. Ele não ia ficar longe de mim agora. Eu lhe dei o único conselho que pude: — Aguente firme, Ham. Aguente firme. Então começamos a girar, dando voltas por uma montanha-russa de mar, areia, névoa e uma nuvem de vaga-lumes tão espessa que eu quase não conseguia respirar. Senti meus pés saírem do chão e ouvi Hamloaf começar a uivar como louco enquanto decolava rapidamente em direção ao centro de São Francisco. O ritmo do tempo diminuiu como num antigo filme mudo, e tudo ao meu redor se dissolveu. E, nesse momento, apenas um pensamento ficou na minha cabeça. Queria que Patrick estivesse aqui.

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Parte 4 Barganha

Capítulo 30 California dreamin’

A

cidade estava escura e cheia de sombras. Não havia ninguém.

Não pulsava. Era quase como se alguém tivesse passado por ali com um aspirador de pó gigante e sugado toda a vida existente. Não aterrissamos no lugar exato onde eu planejara — mais para Fisherman’s Wharf do que para Haight. Não que isso realmente importasse. Todas as ruas estavam vazias. Todos os prédios estavam lacrados. Nem uma alma para contar a história. Rodei e ziguezagueei pelas ruas carregando Hamloaf, às vezes virando à esquerda, às vezes à direita. Estranhas árvores retorcidas lançavam sombras no asfalto, e estremeci, me perguntando quanto tempo o sol levaria para se levantar. Mas, quanto mais andávamos, mais escuro o céu parecia ficar. E mais brilhantes pareciam as estrelas acima de nossas cabeças.

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Em algum momento, peguei o telefone de Sadie no bolso e conferi que horas eram, mas o visor estava apagado. — Porcaria de bateria. — Joguei o iPhone numa lixeira próxima, onde ele caiu fazendo barulho. O som fez com que Hamloaf rosnasse, e, por um segundo, tive medo, como se tivéssemos ido diretamente para o cenário de Madrugada dos mortos, filme em que a garota e seu cachorro acabam virando jantar de zumbis. — Nada como o lar — sussurrei e fechei os olhos. — Nada como o lar, nada como o lar, nada como o LAR. Juntei minhas sapatilhas na esperança de efeito extra, caso isso pudesse ajudar. Mas quando abri novamente os olhos, ficou muito claro que o velho truque de Dorothy não funcionaria com a gente. Imaginei Patrick revirando os olhos. Cheio de sarcasmo, dizendo: Ótima tentativa, Cérebro de Queijo. Até Hamloaf riu de mim, como se eu fosse uma idiota. — Ah, é? — falei. — Alguma ideia melhor? Continuamos a andar pelas ruas, indo do Wharf até Cow Hollow, depois para North Beach, onde minha família costumava comer num restaurante italiano. Continuava tendo esperança de encontrá-los — talvez aparecessem no carro do papai, as janelas abertas, prontos para nos levar para casa. Continue sonhando. Mas quem eu estava tentando enganar? Era só eu. Só Ham. Só a lua cheia e um céu cheio de estrelas.

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Como não estávamos muito longe, resolvi que iríamos para Macondray Lane, uma ruela escondida que já fora um dos meus lugares prediletos — cheia de árvores, flores e hera, com uma das vistas mais lindas que a cidade tinha a oferecer de Alcatraz e da baía. Mas a razão verdadeira do meu amor por aquele lugar era o fato de que Macondray Lane havia sido o cenário do meu primeiro encontro com Jacob. Um dia depois da formatura do PCH e nosso primeiro beijo. Quando chegamos, me permiti lembrar daquela tarde de outono. O cheiro doce no ar, o som das folhas das árvores sussurrando umas para as outras enquanto se espalhavam no chão de pedras. Lembrei de como aquele dia tinha sido quente, maravilhoso, uma surpresa absoluta. Jacob Fischer — louco por sorvete, mais do que tudo —, na verdade, gostava de mim. Assisti, encantada, enquanto a lembrança se reproduzia na minha frente em tempo real. As sombras deixaram o chão. As flores começaram a se abrir e esticar seus caules. Senti pontadas de calor na pele, e a rua foi iluminada pelo sol. De repente, lá estávamos nós. Ele e eu. Ou melhor, meu antigo eu. Meus olhos se esbugalharam quando viram Jacob andando pela rua, vestindo um jeans surrado e o meu moletom preferido, seus dedos entrelaçados nos meus. — Aonde a gente está indo? — Meu Velho Eu riu, de olhos vendados. — Ainda não chegamos? — Você vai ver — disse o Jacob de antigamente. — Só falta um pouquinho.

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Hamloaf ergueu os olhos, o rabo batendo na rua desigual de paralelepípedo. Ele inclinou a cabeça e ganiu, sem compreender como, de repente, podiam existir duas de mim. Então, entendi. O cachorro também podia vê-los. O cachorro podia ver minhas lembranças. — Então você está dentro da minha cabeça, agora, é isso? Você é o quê? Uma espécie de cão espião? Ele respondeu lambendo minha mão. Acho que isso foi um sim. — Acho bom essa surpresa ser boa — disse Meu Velho Eu, rindo. — Não se preocupe — Jacob me provocou. — Prometo que você vai estar em casa antes de começar America's Next Top Model. Eu não conseguia tirar os olhos do rosto da menina. Ela era eu. Eu era ela. Mas, de alguma forma, não era. Eu conhecia sua memória como a palma da minha mão. Mas, por alguma razão, vendo aquilo acontecer de novo na minha frente, tive a sensação de estar espionando a vida de outra pessoa. Como se nada daquilo tivesse me pertencido, para começo de conversa. Lembro do quanto fiquei impressionada com Jacob naquela tarde. Impressionada com a confiança na voz dele, com o tanto que ele me pareceu consistente. Mas vendo-o deste ângulo agora, pude perceber como estava nervoso, na verdade. Talvez como se tivesse medo de que eu não gostasse dele também. — Espere aqui — disse ele, soltando minha mão. Abriu a mochila e pegou um cobertor azul-marinho. Vi-o estender o pano sobre o gramado ~ 239 ~


e, com as mãos tremendo, pegar vários petiscos. Pelo menos cinco tipos de queijo, sem falar nas framboesas e no pão francês fresquinho, além de torta de maçã para a sobremesa. Minha preferida. Vi quando ele respirou fundo ao tirar lentamente a venda do meu rosto. — Tá. Pode abrir agora. A Velha Brie ficou sem ar quando seus olhos se acostumaram com a luz. — Você fez tudo isso para mim? Ele baixou a mão e pegou uma florzinha vermelha, e senti um aperto no peito ao vê-lo entregá-la. Eu sabia o que vinha a seguir. A Velha Brie sorriu timidamente, pegou a flor e inclinou o rosto para cheirá-la. Mas talvez tenha sugado o ar com muita força, porque as pétalas se desprenderam imediatamente e foram parar no seu nariz. — Nossa. Isso, sim, é uma narina potente — brincou Jacob quando conseguiu parar de rir. — Acho que uma parte do seu ser é um aspirador de pó, é isso? Meu Antigo Eu balançou a cabeça e jogou a flor para ele. — Acho que você quis dizer cortador de grama, não? Vi um brilho doce nos olhos dele. — Feliz aniversário, Brie. Então, os dois se perderam num mar de beijos.

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Senti meus olhos se encherem de lágrimas e precisei desviar o rosto. Num instante, as sombras voltaram, esgueirando-se pelo paralelepípedo como se fossem cobras. O menino e a menina desapareceram e a luz do sol evaporou. — Meninos são tão idiotas — sussurrei, sentindo-me mais só do que nunca. Hamloaf ganiu. — Você, não — corrigi. — Você é o único menino de quem gosto. Em segundos, estávamos novamente sozinhos. Lado a lado numa ruela. — Vamos, Hamloaf. Vamos sair daqui. Seguimos. Parecia que, por onde andávamos, eu encontrava alguma coisa que me fazia lembrar da minha vida antiga. Hera nos muros, como na casa da minha tia, em Seattle. Grafites de símbolos de paz, arco-íris, esqueletos dançantes, como nos cartazes do meu pai, guardados na garagem. Toldos listrados de preto e branco, muito parecidos com o papel de parede do banheiro que eu e Jack dividíamos no segundo andar de casa. Era como se minha memória tivesse atravessado São Francisco, deixando uma espécie de marca por onde Brie passara. Viramos à esquerda na Beulah, depois à direita na Shrader. Meio quarteirão adiante, chegamos. Mas, para minha surpresa, quando olhei para cima, o Rabbit Hole tinha desaparecido. Ou melhor, estava caindo aos pedaços. O lugar estava totalmente abandonado. A vitrine, antes linda, agora estava destruída. A porta estava aberta, pendurada pelo que restava das ~ 241 ~


dobradiças, como se alguém com problemas de comportamento a tivesse chutado. Tinta preta – símbolos estranhos, que não reconheci – atravessava as paredes de fora, e o velho poste de luz da rua parecia não ser utilizado havia bastante tempo. Para onde quer que eu olhasse, a rua estava coalhada de pedaços de vidro estilhaçado. A cena me deu arrepios e me fez desejar estar de volta em Half Moon Bay. — Olhe só aonde eu trouxe a gente, o lugar mais estranho do universo — falei. Por outro lado, pelo menos não escorreguei numa casca de banana ou perdi todas as minhas roupas acidentalmente, o que, me conhecendo, não eram possibilidades totalmente remotas. Corei por um instante, lembrando de Patrick fechando meu vestido depois do meu segundo pulo da ponte. Era a minha cara ter a sorte de ser vista completamente nua por um cara morto e vindo diretamente dos anos 1980. Tudo bem, sim, um gatinho morto vindo diretamente dos anos 1980, mas… — Vamos, lobão. — Ajoelhei para pegar Hamloaf nos braços e voar com ele de volta para Half Moon. — Não tem mais nada para a gente ver aqui. Uma voz atrás de mim me paralisou. — Indo embora tão rápido? Fiquei com o ar preso na garganta enquanto virava e dava de cara com uma menina da minha idade. Era pequena, tinha aparência atlética, um rosto lindo e olhos da cor do carvão. Uma trança comprida e escura caía no seu ombro e sua pele era tão lisa que ela me lembrou uma bone~ 242 ~


ca de porcelana. Na verdade, se não fossem as cicatrizes de queimaduras que começavam na testa na altura da linha dos cabelos e se espalhavam como pequenas labaredas em todo o lado esquerdo do seu rosto, a menina poderia ter sido modelo. Com certeza. Encarei-a, completamente confusa. Mas não porque era bonita. Porque a reconheci. — Oi, Brie. — Ela sorriu e seus olhos faiscaram, iluminando a escuridão. — Sou eu. Larkin.

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Capítulo 31 Enjoy the silence —

Larkin? Larkin Ramsey?

Bati com força no braço dela, punindo-a por ter me assustado. — O que é que você está FAZENDO aqui?! — Ai! — gritou em resposta, rindo. — Meu Deus, eu queria que você pudesse ver a sua cara agora. Impagável. Eu simplesmente não conseguia acreditar. Era loucura demais para ser verdade. Mas, não, essa menina era, definitivamente, Larkin. Não tinha mudado nada, ainda era exatamente como eu me lembrava dela no nono ano. Bem, fora o fato de estar “morta”. Nem me fale em mundo pequeno. Ou em pós-mundo pequeno. Ela falou com Hamloaf. — Quem é o beagle? — Basset hound — corrigi. — Você não se lembra dele? Ela o encarou por uns trinta segundos sem dizer uma palavra. — Hamloaf? — Abaixou-se e pegou a pata dele. — Não acredito. — Seu tom era de choque verdadeiro. — Você está brincando. Nunca vi um caso de travessia ao contrário. — Travessia o quê? ~ 244 ~


— Ao contrário. — Ela acariciou a orelha do cão e ele deu um bocejo de felicidade. — Você ainda tem pulso, garotão — disse para Ham. — Não devia estar aqui. De jeito nenhum! — Ah, isso — falei. — É. Ele me seguiu. — Típico de cachorro caçador. Não é, garoto? Não é? É, sim, cachorro caçador. Ele rolou no chão, ganindo animado. Depois, soltou um pum. — Meu deus, Hamloaf — resmunguei. — Que nojo! Larkin ficou de pé e tapou o nariz. — Uau. O que é que ele tem? — Foi mal. — Eu me desculpei por Hamloaf. — Isso só quer dizer que ele gosta de você. Ela riu. — Bom saber. Diante dela, sob a luz enevoada do luar, eu ainda não conseguia acreditar no que via. — O que você está fazendo aqui? — perguntei, maravilhada. — Andei sozinha a noite toda. Achei que a cidade estava vazia. — É disso que eu gosto. — Ela sorriu. — Mas a pergunta que não quer calar é: o que você está fazendo aqui? Fiz uma pausa de alguns segundos e encolhi os ombros. — Acho que precisava dar uma escapada. Mudar um pouco de cenário.

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— Não, boba, eu quero dizer, o que você está fazendo morta? O que aconteceu? Você não era tipo a rainha da equipe de natação, alguma coisa assim? Ri. — Equipe de mergulho, acho que foi o que você quis dizer. — Natação, mergulho… — Acenou com a mão. — Todos os dois deixam o cabelo verde. Então, o que aconteceu? O que derrubou Aubrie Eagan, a invencível? Invencível. Rá, essa foi boa. — Não sei — respondi, tentando encontrar as palavras certas. — Acho que eu tive um problema com… — Espere, espere, espere, vou adivinhar! Vai ser mais divertido. — Ela me rodeou, devagar, de braços cruzados. — Pode ter sido… um acidente de avião? Fiz que não com a cabeça. — Assalto a banco? — Não. Ela encarou Hamloaf. — Morte provocada por pum de cachorro? — Ei! — Ri. — Um pouco de gentileza, por favor! — Tá, tudo bem. — Ela suspirou. — Só estava explorando todas as possibilidades. — Ela me encarou com olhos de detetive. — Acidente de balão? De carro? Problemas com um garoto?

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Seu último palpite chamou minha atenção. Eu me encolhi um pouquinho. — Problemas com um garoto! — exclamou ela. — É isso, não é? Fiz que sim. — Mais ou menos. Ela ergueu a mão. — Eu sou incrível. Toca aqui. Ri. — Eu sei, eu sei. — É sério! — disse Larkin. — Toca aqui, amiga! Adivinhei na quinta tentativa. Muito bom. — Ah, tá — falei. — Claro. — Estendi rapidamente a mão e toquei na dela. — Nossa, foi o cumprimento mais caído do mundo. — Ela ergueu a mão mais uma vez. — De novo. Encarei-a, ligeiramente envergonhada pela minha falta de habilidade. — Anda, vai — disse ela. — Finja que está dando um tapa na cara dele. Ri, mas resolvi tentar. Pensei no rosto dele. Naquele rosto irritante de mentiroso. Lembrei que ele sempre gostava de escolher o lugar quando a gente saía, que os lanchinhos na casa dele nunca eram tão bons quanto na minha, que eu tinha sido tão boa namorada que jamais mencionei que às vezes ele tinha bafo de Doritos. ~ 247 ~


— Estou esperando. — Larkin bateu o pé, impaciente. Pensei em Sadie nos braços dele naquela manhã na praia. Pensei na traição dos dois. E bati na mão de Larkin com toda força. CLAP! — Caraca! — gritou Larkin. Deu um passo para trás e soprou a pele para refrescar. — Tá. Isso sim é um cumprimento decente. Sorri e não consegui deixar de pensar que gostaria que Patrick tivesse presenciado a cena. — Valeu. Ela chutou alguns estilhaços de vidro no chão e se sentou na calçada, um pouco mais à frente. — Então. Foi tão ruim assim, é? – Enfiou a mão no bolso e pegou um maço de cigarros amassado. — Foi. — Fiz um gesto afirmativo. — Foi ruim mesmo. Ela estendeu o maço na minha direção. — Quer? — Não, obrigada. Estou bem. — Como você quiser. — Depois de um rápido movimento do dedão, uma pequena chama saiu de dentro do seu punho, sem a necessidade de um isqueiro. Uau. Acho que perdi esse capítulo do M&E. Por um instante, não consegui evitar meu olhar fixo. O brilho da chama dava um ar fantasmagórico ao rosto de Larkin e iluminava as ~ 248 ~


marcas de suas queimaduras. Não consegui não lembrar da cicatriz de Patrick. Da maneira como ele se esquivava por conta dela. Acidente de moto, dissera ele. Nada demais. A lembrança daquela voz me deu certo enjoo, e senti culpa por ter dispensado meu amigo. Pior ainda. Eu me senti egoísta. Ficamos ali, juntas, sentadas em silêncio até que o cigarro dela virasse quase nada. Eu me dei conta de que não sabia o que lhe dizer, já que nossa última conversa tinha acontecido no carro, a caminho do colégio, quando estávamos no quinto ano. — Eu me apaixonei, uma vez — disse Larkin. — O pobrezinho nem sabia que eu existia. — Riu e passou cuidadosamente a mão nas cicatrizes do rosto. — Quero dizer, não que eu tenha existido por muito tempo, na verdade. — Depois, piscou para mim. — Bem. Pior para ele. Pareceu-me difícil acreditar que alguém tão linda quanto Larkin — com ou sem cicatrizes — pudesse um dia ter sofrido por causa de um menino. Claro, ela sempre foi meio solitária, mas era um pouco demais imaginar que Larkin Ramsey já tivesse tido problemas com garotos. Mas, quem sabe?, pensei. Talvez coração partido seja uma possibilidade igual para todos. — Quem foi? — perguntei, querendo saber mais. — Quem era o garoto? — Promete que não vai rir? — Prometo. Ela sorriu, sem graça. ~ 249 ~


— Dr. O’Neil. Fiquei de queixo caído. — O professor de química? — Eu sei! — resmungou ela. — Mas, fala sério. Ele era sexy! Não pude discordar. Conhecia várias garotas que achavam a mesma coisa. Inclusive Sadie. Falamos e falamos, o assunto parecia não acabar. Contei da pizzaria, de minha briga com Patrick. Falei que quase venci meu medo de motocicletas, do caso do meu pai com a sra. Brenner. Falei até do meu coração partido idiota e do garoto mais idiota ainda, culpado pela minha morte. Falei do cabelo idiota dele, do sorriso, do skate idiota e do time idiota de atletismo – contei até sobre sua obsessão mais idiota ainda por O senhor dos anéis. — Sei lá — disse ela. — Esse Jacob aí está me parecendo o Rei dos Imbecis. Acho que você está melhor sem ele. Foi bom desabafar. Bom mesmo. Inspirei bem devagar, sentido-me totalmente livre enquanto o cheiro da praia, das ondas e do sol enchia meus pulmões. Ah, finalmente, a luz do dia. Olhei para o céu, mas me surpreendi quando não consegui ver nem um pouquinho de dourado, de azul ou de violeta, surgindo no horizonte. Só um preto infinito. — Não precisa se assustar — disse Larkin. — O sol já não nasce aqui há séculos. — Ela se levantou e espreguiçou. — Ei! — Riu. — Pelo menos a gente não tem câncer de pele. ~ 250 ~


— Boa. Bem lembrado — disse eu, também me levantando. Antes que me desse conta, ela me abraçou com toda força. — Estou tão feliz que você está aqui, Brie. — Ela olhou para Hamloaf, que roncava pacificamente na calçada, do outro lado da rua. Por um instante, seus olhos pareceram mais brilhantes sob a luz das estrelas. — Vocês dois.

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Capíulo 32 Just like a prayer

Sempre que as pessoas falam na morte, ficam muito apegadas à última coisa que aparece diante dos seus olhos. Ao último pensamento. À última memória. O último sentimento ou beijo ou a última música que ouviu no rádio — seja lá qual for a ÚLTIMA coisa significativa que, de alguma maneira, deva encapsular toda a sua existência num único momento, envolta num flash perfeitamente embalado, o último sopro iluminado da vida. Mas aqui vai um momento sobre esse último grande flash. Ele não existe. Não. Na verdade, é tudo muito mais simples. Passo um: você está aqui. Passo dois: não está mais. Então, as luzes se apagam para sempre. Uma coisa assustadora, eu sei. Podem acreditar em mim, eu costumava ter medo do escuro. Mas não tenho mais. Não desde que Larkin me mostrou o que significa deixar as coisas para trás. Libertar sua mente. Viver um pouco, digamos assim.

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No ano do Garoto que Prefiro Não Mencionar, eu costumava passar horas cantando músicas românticas mil vezes, me perdendo na melodia ou na letra, como se cada palavra tivesse sido escrita especialmente para nós. Mas Larkin me ensinou a desligar o som. Ela me ajudou a criar uma nova playlist. Uma muito melhor. Era inacreditável o tempo que tinha perdido na pizzaria. Tudo naquele lugar estava tão morbidamente voltado para o passado. Desde as lembranças que revi repetidamente até os lugares com os quais sonhei, as coisas que desejei. Aqui, tudo era diferente. Nesta parte do céu, não existem preocupações com nada nem ninguém que já existiu em outro tempo que não AGORA. O sol nunca nasce nem nunca se põe, então não existe ontem nem amanhã. O Mundo dos Vivos estava completamente fora do campo de visão e completamente fora da mente. Nada de ficar no passado. Nada de redes de segurança. Eu estava livre, acho que pela primeira vez. E a cidade era nosso parque de diversões. Depois de um tempo, comecei a me sentir em casa. Larkin e eu designamos Hamloaf nosso Mestre Farejador de Refeições. Um latido significava que algo era perfeitamente comestível; dois latidos, nem tanto assim. Admito que fiquei um pouco mimada depois da pizzaria, depois de ter comida infindável num estalar de dedos, e precisei de algum tempo para me ajustar à nova categoria de Mergulhadora de Lixo. Mas Larkin me ensinou que, se a pessoa tiver paciência — e estômago —, encontra mais do que o suficiente.

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Não era um sistema perfeito, mas nós três nos virávamos. Tudo que eu sabia era que amava a energia dali, a lua cheia emanando sua luz sobre nosso pequeno mundo mágico. Senti que finalmente tinha encontrado meu lar, fosse o que fosse aquele lugar. Mesmo desejando, de vez em quando, que Patrick estivesse comigo. Patrick? Você está por aí? Sem resposta. A linha fora cortada. Por fim, parei de tentar me conectar. Nós três dormíamos em parques e trens abandonados, em telhados, no Presídio, no Palace of Fine Arts, esparramados como se fôssemos donos do lugar já que, basicamente, éramos. Sobrevoávamos as ruas em velocidade estonteante, quebrávamos janelas e revirávamos latas de lixo por onde passávamos. Larkin se mostrou a melhor ouvinte que já conheci. Sempre queria saber mais sobre minha história e como eu imaginava meu futuro. Nunca me interrompia nem desviava os olhos quando eu falava. Às vezes ria, às vezes chorava; às vezes simplesmente me deixava deitar a cabeça em seu colo, como se fosse a irmã mais velha que eu não tive, me fazendo cafuné até eu dormir. Depois de um tempo, quando finalmente cansei de falar de mim, ela começou a se abrir em relação à própria vida – principalmente sobre os anos depois que perdemos contato. Ela me disse que nunca teve amigos próximos de verdade no PCH e que se envolvera com fotografia porque se sentia bem por trás das lentes da câmera. Falou que era sua maneira de voltar o foco para todos os idiotas que a julgavam por ser diferente deles.

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E me contou como se sentira feia depois do incêndio, quando acordou desse lado completamente envergonhada da própria aparência e desesperada para encontrar um lugar onde ninguém a olhasse. Contou como, depois de meses vagando, a cidade a chamou, e ela ouviu. Na cidade, ela me disse, não era um problema estar perdida. Não era um problema ser esquisita. E duas esquisitas juntas, concordamos, era muito melhor que uma sozinha. Quando ficávamos muito entediadas, pulávamos do prédio mais alto da cidade, o Transamerica Pyramid, e apostávamos quem caía mais rápido. Começávamos com uma corrida na escada até o quadragésimo oitavo andar, passávamos pelo restaurante e pela loja de lembrancinhas, que tinha um papel de parede horroroso e de um carpete pior ainda. Depois, corríamos até o deque de observação abandonado — com vista para cada centímetro de São Francisco. — Sabe de uma coisa? — Larkin disse uma noite, lá de cima, nossas pernas penduradas por sobre a cidade. Ela desfez a trança e começou a pentear o cabelo comprido e preto com as mãos. — Acho que fiquei tempo demais sozinha. Esqueci como é melhor ter uma parceira no crime. — Riu para mim. — Amo a gente. Nós duas somos the best. Best, pensei. Brie. Emma. Sadie. Tess. Toquei no meu colar, o pequeno coração esquentando entre meus dedos enquanto minha mente se voltava para as três. Minhas meninas. Não disse para Larkin que daria tudo para tê-las comigo como antigamente. — Também amo a gente — respondi, tirando minhas amigas da cabeça. Não havia motivo para trazer o passado de volta. ~ 255 ~


— Esse colar é lindo — disse Larkin. — Já estava para dizer isso há um tempão. — Valeu — falei. Pela primeira vez, reparei numa tatuagem pequenininha no ombro esquerdo dela. Um círculo minúsculo com um X em cima. Mas não parecia uma tatuagem convencional, feita com tinta. Parecia ter sido entalhada no braço dela como algum tipo de lâmina. Alguma coisa naquele símbolo me pareceu familiar, mas não sabia exatamente o motivo. — Quando você fez isso? Ela olhou para o próprio ombro e deixou o cabelo cair em ondas. — Ah, isso? Foi só uma coisa idiota que eu fiz nas férias de julho, no primeiro ano. Fui com um grupo para Cancun e a gente escapou quando nossos pais estavam dormindo. Um garoto, Justin Chance, fez uma e me desafiou a imitá-lo. Acho que sou péssima nesse tipo de desafio, não? — Revirou os olhos. — Adolescentes. Olhei para o horizonte. De repente, uma sombra na baía chamou minha atenção. — O que é aquilo? — Meus olhos se fixaram numa pequena ilha sozinha, bem longe de Alcatraz, perto de Sausalito (uma cidadezinha litorânea que tinha uma das melhores lojas de queijo do mundo). O lugar parecia selvagem. Nada além de florestas e praia, pelo que eu conseguia ver. — Ilha do Anjo — respondeu Larkin. — Já ouviu falar? Vasculhei a memória, mas nada me veio à mente. — Não. ~ 256 ~


— Bem, não é exatamente o que se pode chamar de lugar legal. Você acha a cidade assustadora? A Ilha do Anjo é para onde se vai quando não resta mais nada. É para onde os mortos vão na hora de morrer. Aquelas palavras me deram calafrios. Para onde os mortos vão na hora de morrer? Por uns instantes, tive certeza de ouvir uma voz sussurrando para mim — suave, flutuante, distante. Cuidado, Anjo. Será que era imaginação minha? Retraí o corpo, desacostumada à sensação da presença de outra pessoa na minha cabeça. Muito cuidado, agora. Larkin segurou minha mão e a voz desapareceu feito fumaça. — Promete que vai ficar comigo, Brie. Ficou tudo tão melhor desde que você chegou. — Ela se levantou e estendeu os braços em direção à paisagem insanamente panorâmica. — O que poderia ser melhor do que isso? Ela tinha razão. Pensei em como me sentia mais feliz desde que chegara ali, em como era bom ter encontrado Larkin. E em como era bom ter encontrado, finalmente, um novo lar. — Nada — respondi. — Nada poderia ser melhor. — E estava falando sério. Ela me puxou para que me levantasse e ficamos lado a lado. — Corrida para baixo. ~ 257 ~


Sorri. — Tem certeza de que quer desafiar a rainha do mergulho? — Garota — respondeu ao desafio —, posso totalmente ganhar de você. Então, contamos até três e nos jogamos da lateral do prédio, rindo como malucas enquanto o vento zunia a nossa volta durante a descida. Alguns dias depois — apesar de ser muito difícil contar os dias sem um nascer do sol de verdade —, estávamos num dos nossos lugares preferidos em Tenderloin: o playground do Sergeant John Macaulay Park, perto da esquina entre O’Farrel e Larkin Street. — Aqui é de longe a rua mais linda de São Francisco, não acha? — comentou Larkin, de cabeça para baixo no trepa-trepa. Ri, no balanço. — Narcisista. — Dei um impulso mais forte, empurrando as pernas para a frente e esticando o corpo para trás, além do banquinho de metal e das correntes de sustentação. Quando alcancei uma velocidade boa o bastante, fechei os olhos e fingi que estava voando, o ar frio e delicioso da noite em volta do meu corpo. Em algum lugar distante, ouvi Hamloaf cavando na areia. Passamos algumas horas brincando do que Larkin mais gostava: verdade ou consequência. Ela me desafiou a descer a Lombard Street rolando em cima de uma lata de lixo e eu a desafiei a acordar uma foca, que quase lhe deu um tapa na cara com uma nadadeira. Então era minha vez de novo. Minha vez. ~ 258 ~


— Verdade ou consequência? — perguntou Larkin. — E acho melhor você dizer consequência. Balancei a cabeça. — Nem pensar. Já me ferrei o suficiente com aquela lata de lixo. Então vou de… verdade. — Sério? — resmungou ela. — Meu Deus, como você é chata. Sorri. — Só vai ser chato se você me fizer uma pergunta chata. Larkin ficou em silêncio por uns instantes e me perguntei o que ela poderia estar tramando. Ela tinha muita imaginação. Provavelmente, eu estaria em maus lençóis. — E aí? — pressionei. — Quero ver seu potencial, Ramsey. Ela desceu rapidamente do trepa-trepa e passou pela areia até os balanços. Parou no brinquedo vazio ao meu lado. — Se você pudesse voltar para sua vida antiga — disse, finalmente —, só por um dia… — Seus olhos cinzentos encontraram os meus. — Voltaria? Hein? De cara a pergunta me pareceu muito óbvia. Mas quando abri a boca para responder, para minha surpresa, não consegui dizer uma palavra. E comecei a chorar. Ela me observou com cautela, mas não falou nada.

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Limpei o nariz com as costas das mãos, mortificada pela minha atitude infantil. — Acho que sim. Quero dizer, você não voltaria? Ela sorriu tristemente. — Na verdade, já fiz isso. Senti uma ligeira carga de eletricidade atravessar meu corpo. — Como assim, você já fez isso? — Desci do balanço, repentinamente na defensiva. — Do que você está falando? Ela me encarou, mas não respondeu. Debaixo da pálida luz do luar, quase consegui imaginar as queimaduras dela ganhando vida. Imagineias se debatendo e girando como pequenas cobras de fogo. Dei um passo atrás. Mas é só a Larkin. Não tenho medo da Larkin. — Escute, Brie. — Sua voz estava calma e suave, e ela manteve os olhos firmemente focados nos meus. — Ouvi suas histórias. E é óbvio que você não fez o seu encerramento. Minha pergunta é: e se eu pudesse dar isso para você? E se eu pudesse oferecer mais um dia para a sua despedida… viva, em carne e osso? Minha mente se encheu de perguntas. Balancei a cabeça, sentindo quase todas as emoções tomarem conta de mim. Raiva. Confusão. Excitação. Medo. ~ 260 ~


— Não entendo — disse eu, tentando manter a calma. — Isso não é possível. — E se fosse? Desviei o olhar. — Mas não é. Ela sorriu. — Nunca diga nunca. Lembrei da voz de Patrick. Nunca diga nunca, Anjo. — Chega — respondi. — Isso não é engraçado. — E quem disse que eu estou brincando? — Ela estendeu o braço e pegou minha mão. — Não precisa se preocupar. A gente não precisa falar disso agora. Talvez você não esteja pronta… — Como — interrompi. — Como você fez? Como você voltou? Ela soltou minha mão, saiu do balanço e deu uma voltinha. — Na verdade, a questão não é como, é quanto. — Como assim? Quanto o quê? Larkin limpou as mãos e encolheu os ombros. — Você sabe. Quanto você está disposta a pagar. — Pagar? A quem? — Cruzei os braços. — O que eu poderia ter que alguém quisesse? Alguma coisa começava a parecer errada naquilo tudo. Errada com E maiúsculo.

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— Que tal seu colar? — disse Larkin, casual. — Você trocaria? Eu poderia arranjar tudo para você reviver o dia que quiser, por exemplo, o dia do aniversário do Jack na casa da Judy. Ou uma sexta-feira qualquer, numa balada com Emma e Tess… a escolha é sua. Levei a mão ao pescoço. Meu colar? Por que ela iria querer meu colar? — Ele provavelmente ficaria melhor em mim, de qualquer maneira — disse ela, rindo. — Dourado não é uma cor boa para você. O tom da voz de Larkin estava realmente começando a me aborrecer. Era doce demais, parecia que ela estava fazendo muito esforço, uma espécie de biscoito amanteigado com cobertura de sorvete. Uma mordida e já era. — Ahhh. — Larkin arregalou os olhos, como uma criatura da floresta eternamente feliz. Um coelho, talvez. Ou um cervo. Meu Deus, ela é o Bambi, pensei, momentaneamente distraída. O personagem da Disney para ela é com certeza o Bambi. — Que tal a noite do baile de formatura? Não ia ser bom? Você poderia rejeitar o Jacob de cara, no meio da pista de dança. Ele ia morrer de vergonha! Aquilo me tirou do eixo. Não queria que ela ficasse falando de todos os meus melhores momentos como se fosse dona de parte deles, quase como se me conhecesse melhor do que eu mesma. Estávamos falando da minha vida. NÃO da dela. — Eu já voltei — respondi logo. Os olhos de Bambi brilharam. ~ 262 ~


— Não do jeito que estou falando, com certeza. O mundo de repente pareceu fora de esquadro. Como se, talvez, eu fosse vomitar. — Chega — falei. — Não quero mais brincar. — Não é um jogo, Brie. A gente pode fazer um acordo, aqui e agora. — Ela sorriu. — É mais fácil do que você imagina. E depois que você tiver se divertido em casa, vai voltar e a gente vai farrear para sempre. Só nós duas. O que você acha? O que eu acho? Eu mal conseguia enxergar direito. — Um dia inteirinho para reviver? — sussurrei. — Qualquer um? — Meu corpo começou a tremer enquanto lembranças de casa tomavam conta de mim — as memórias de dias tediosos que só eu poderia ter. Minhas amigas cantando Lady Gaga a caminho do colégio. Minha mãe fazendo panquecas no dia do meu aniversário enquanto meu pai cantava Bob Dylan para ela. Jack me perseguindo, gargalhando, com a mangueira no jardim, nas férias de verão. O calor dos lábios de Jacob nos meus. — Você está falando sério? — sussurrei. — Eu realmente posso voltar? Sem compromisso? — Bem… — Larkin riu, apontando para o meu colar. — Só esse pequeno compromisso. — Deu outra voltinha. — É um ótimo negócio se você pensar bem. Ergui a mão e toquei de leve no colar delicado em volta do meu pescoço. Senti o fecho pequenininho de metal atrás, escondido pelo meu cabelo. Mas quando tentei abri-lo, senti leves choques quentes na pele, como elásticos invisíveis. Pequenas labaredas azuis queimaram os cantos dos meus olhos. ~ 263 ~


Num segundo, outra lembranรงa brotou diante de mim. E quando ergui os olhos, a cidade desapareceu.

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Capítulo 33 You must be my lucky star

O

vidro era cristalino e macio e manchou um pouquinho quando

passei o dedo sobre ele, devagarzinho, com cuidado. Bem me quer. Mal me quer. Bem me quer. Mal me quer. — Por favor, não toque na vitrine, meu amor — disse a mulher atrás do balcão, o cabelo para trás, num rabo de cavalo baixo e frouxo. — Acabei de limpar. Saí imediatamente do meu sonho romântico. — Ah. Desculpa. Do outro lado do salão, ouvi o som abafado de uma gargalhada. Senti meu rosto corar e fui até onde estavam Emma e Tess, perto do porta-chapéus antigo. — Valeu — falei. Tess mostrou uns óculos escuros pretos e colocou no rosto. — E? — Amei — disse Emma. — Totalmente Audrey. Apoio totalmente a compra. — Meninas, o Rabbit Hole é tudo! — Sadie saiu do provador de roupas com um vestido roxo tomara que caia. — De agora em diante a gente ~ 265 ~


vai vir aqui todo fim de semana. — Ela tirou os óculos do rosto de Tess e experimentou. — Ei! — protestou Tess. — Nem vem que não tem. — Ahh. — Sadie fez uma pose na frente do espelho mais próximo. — Fiquei maravilhosa com eles. — O quê?! — exclamou Tess. — Nem pensar, você está parecendo um gafanhoto. Seu rosto é muito pequeno. — Ergueu a mão e bateu o pé no chão. — Me dá. Sadie riu ao entregá-los. — Tudo bem, tudo bem. Mas acabei de tirar você do meu discurso de agradecimento no Oscar, fique sabendo disso. — Posso correr esse risco. — Tess colocou os óculos de volta. — Ahhh, meninas, vocês têm que ver isso! — Emma acenou para nós de um canto da loja, segurando uma caixinha de música preta, antiga, com margaridas pintadas à mão nas laterais. — Linda! — Sadie correu até lá, ainda com o tomara que caia. — Olha só o que eu encontrei dentro. — Emma ergueu o queixo. Uma corrente delicada de prata em volta do pescoço, com um pingentinho de beija-flor pendurado. — Ems, é perfeito! — Inclinei o tronco para ver de perto. — Não é? — Ela sorriu. — E tem mais. — Abriu a caixa, espiamos lá dentro e fomos cumprimentadas por uma mistura de ouro e prata. Colares.

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Todos brilhando. E todos implorando para que os experimentássemos. — Sério, meninas, são a nossa cara, não são? — disse Tess. Pegou dentro da caixa uma pequena sereia de cobre, quase da cor do cabelo dela. — Sem chance de eu não comprar isso. — Estendeu para mim. — Você coloca em mim, please? Abotoei o colar no pescoço dela. A corrente tinha o tamanho perfeito; nem muito comprida nem muito curta. — Perfeita. — Tess se iluminou, parecendo mais Ariel do que nunca. Sadie tirou uma mecha de cabelo dos olhos. — Agora eu. — Passou um minuto ou dois fuxicando os colares, parecendo desapontada. — Ah, não tem nenhum legal para mim. — E esse? — Peguei um de ouro, com uma estrelinha linda, ligeiramente torta. — Brie! — Sadie se jogou em cima de mim. — É perfeita. Amei! — Vasculhou a caixinha de joias. — Que tal essa para você? — Mostrou um colar para mim. Ele brilhava na palma da mão dela e, quando peguei, foi como se o colar tivesse me escolhido. Um coração. Sadie foi para trás de mim e afastou meu cabelo para que eu pudesse fechar o cordão. Depois, passou o braço pela minha cintura e me deu um beijo no rosto. — Amei!

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— Já sei — disse Tess. — Vamos usar esses colares o tempo todo. E vamos estar sempre juntas, seja lá como for. — Certo — concordou Sadie, dramaticamente. — Vou colocar você de volta no meu discurso do Oscar. Nós nos encaramos por uns segundos, depois caímos na gargalhada. — Sempre — disse eu. — Para sempre. — Sadie olhou para mim e sorriu. Seus olhos castanhos brilhavam e dava para ver o quanto ela me amava. Ah, Sadie. Sinto tanta saudade de você. De repente, senti o gelado do ouro na minha pele. Senti o cheiro de poluição da cidade enquanto a loja se desmanchava e o Macaulay Park reaparecia. Larkin estava de novo na minha frente, de mãos estendidas. — Oi? Alô? Terra chamando Brie… Senti uma coisa estranha na boca do estômago. Não. Não posso dar para ela. — Toma. — Ela enfiou a mão no bolso de trás do jeans e pegou um canivete enferrujado. Onde ela conseguiu isso? Larkin deu um passo na minha direção. — Vou te ajudar a tirar o colar. Hamloaf deve ter lido a minha mente, porque começou a rosnar do outro lado do parquinho. ~ 268 ~


Prestei atenção em Larkin. — Para que você precisa de um canivete? — Não precisa ter medo — disse ela. — Não vou te machucar nem nada. Você consegue o que quer, eu consigo o que quero. Aí — ela sorriu docemente —, vamos ser melhores amigas para sempre. Bem, stalker, acho que você está levando as coisas um pouco ao pé da letra demais. De repente, fiquei completamente apavorada. — Olha só — disse, me afastando. — Acho que não estou muito a fim de fazer isso… — Mas antes que eu me desse conta do que estava acontecendo, senti que meus braços e pernas estavam fora do meu controle. Senti que me ajoelhava na areia diante dela, como se fosse uma espécie de ovelha de sacrifício. O que é isso? Assisti, apavorada, ela acionar a lâmina do canivete e andar na minha direção. Espera um segundo. Que espécie de troca é essa? Eu era só uma menina. Só uma menina feita de fumaça, pó e memórias esquecidas. O que ela poderia querer de mim? — Salvação. — Pensei ouvir a voz de Patrick sussurrando. — Ela quer sua salvação eterna. — Minha o QUÊ eterna? — Comecei a suar frio. — Eu corto o cordão e você chega em casa. — Larkin aproximou a lâmina do meu pescoço. — Simples como tirar uma foto. Então, Xissss. ~ 269 ~


Senti meu pulso inexistente acelerar enquanto eu tentava encontrar sentido no que ela dizia. Estava falando a verdade ou não? — Casa? — repeti. — Você está falando sério? Ela assentiu. — Com certeza. Tremendo, levei a mão até o fecho do colar, apesar de o meu pingente de coração começar a esquentar e queimar minha pele. Agora, mais quente, mais selvagem do que antes, gritei quando a dor se intensificou. De repente, fiquei com medo de não ser capaz de tirar o cordão antes que fizesse um buraco na minha pele. Mas quando olhei para cima e encarei os olhos de Larkin, vi uma coisa que me apavorou ainda mais. Seus olhos estavam frios. Vazios. Mortos. Corra, Brie. Corra AGORA. Voz imaginária ou não, não correria o risco. Assobiei chamando Hamloaf. Saltei para ficar de pé. E corri.

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Capítulo 34 To die by your side is such a heavenly way to die

Aterrissamos no jardim da casa de Jacob e rolamos pelos arbustos, uma massa embolada de garota fantasma e cachorro. — Ai — falei, cuspindo um bocado de folhas e gravetos. — Acho que ralei o bumbum. Falando em bumbum, o de Hamloaf estava bem na minha cara. — Ah, que nojo, Ham, sai daí! — Ele ficou de pé com um ganido e se sacudiu, a coleira balançando. — Estou ficando velha para isso — resmunguei, levantando. Minhas costas estalaram bem alto quando fiquei de pé, e jurei que faria uma Aula de Voo assim que tivesse um tempo livre. Fui na ponta dos pés até o solário dos Fischer e espiei lá dentro. Quando meus olhos se acostumaram com a luz, me dei conta de que estava de cara para as costas do sr. Fischer — uma cabeça enorme e careca, para ser mais precisa —, enquanto ele e a mãe de Jacob assistiam a American Idol. — Ah, ele é horrível — disse sra. Fischer, se referindo à performance esganiçada de um cara cantando “Hooked on a Feeling”. — Não tanto quanto o que veio antes dele — respondeu sr. Fischer, folheando o jornal. — Você ligou novamente para o colégio hoje à tarde?

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A sra. Fischer se endireitou na poltrona e parecia um pouco abatida. — Liguei. — E? — Não me prometeram nada. O técnico está péssimo, mas com Jacob fora dos jogos no restante da temporada, ele não pode fazer muita coisa. Disse que vão rever a questão no verão, assim que ele tiver mais tempo de recuperação. — Ela tomou um gole de chá. — O máximo que Jacob pode fazer por enquanto é manter as notas altas e continuar com a fisioterapia… — Meu filho vai para Princeton! — Sr. Fischer bateu na mesa, fazendo com que eu lembrasse que nunca gostara dele. Tinha um humor terrível desde sempre e sempre fora muito duro com Jacob e com Maya. Um pai completamente militar: duro, tirano, careta. Uma vez, nos pegou dando uns amassos no sofá e achei que ele fosse, literalmente, subir pelas paredes. — Esse menino já se esforçou demais, Mary, e foi bastante longe. Não há de ser um machucadozinho que vai tirá-lo da parada. — Baixe a voz — disse ela. — Você sabe o quanto ele está chateado. Você sabe o quanto este ano está sendo duro para ele. Primeiro, a história da Brie… — Fez uma ligeira pausa. — E agora o acidente. Se fizermos muita pressão, talvez ele até desista completamente do atletismo. — Só passando por cima do meu cadáver. — Sr. Fischer baixou o jornal. — Ele só precisa se esforçar mais. Desistir não é uma opção. — E saiu esbaforido da sala. ~ 272 ~


De repente, fui tomada pela culpa. Em que espécie de confusão eu enfiara Jacob? Minha intenção fora só balançar um pouco as coisas. Não arruinar completamente a vida dele. Agora eu sabia que fora um erro querer puni-lo. Fora um erro me esgueirar por aí e roubar o telefone de Sadie, espiar as conversas particulares dos dois. Fora um erro odiá-los. É claro, eu tinha meus motivos. Mas também tinha deixado a raiva tomar conta de mim. Sadie fora uma boa amiga – minha melhor amiga — em algum momento. E Jacob foi um namorado incrível. Mas nós só tínhamos 16 anos. O que eu esperava que acontecesse? Que ele fosse meu único amor? Que um dia nós dois seríamos felizes para sempre? A verdade é que, se eu pensasse seriamente no assunto, nosso relacionamento nunca tinha sido perfeito. Nunca tinha sido um encaixe exato. Jacob era engraçado, lindo, inteligente e sensível — mais do que qualquer garoto que eu conheci. Mas também era frio. Instável. Duro demais consigo mesmo quando as coisas não aconteciam como ele esperava. Algumas vezes — por mais que eu odeie admitir — não gostei tanto dos beijos dele. Tivemos beijos incríveis, com certeza, mas também existiram os ruins, os que me faziam sentir que faltava alguma coisa. Mesmo que eu nunca tenha realmente compreendido o quê. Ver meus pais se separando me fizera repensar algumas coisas. Talvez, só talvez, Jacob nunca tivesse sido o menino dos meus sonhos. E talvez não fosse justo continuar punindo-o por isso. Se Sadie e Jacob tivessem encontrado o que todo mundo no céu e na terra procura, quem era eu para me colocar entre eles? Talvez eu não tivesse todos os truques para consertar as coisas que desajustei, mas eu ~ 273 ~


podia tentar. Não queria acabar como a Senhora das Palavras Cruzadas, fazendo uma atrás da outra nos próximos quinze milênios. Eu sabia o que tinha que fazer. Era hora de fazer as pazes com Jacob Fischer. Atravessei o jardim dos fundos, dei a volta na piscina e passei pela enorme sequoia do lado esquerdo da casa. Tentei voar, mas a viagem da cidade tinha me deixado completamente exausta e eu não tinha a energia necessária. Minha melhor opção — minha única opção — era escalar. Hamloaf me olhou curioso quando agarrei o galho mais alto que alcancei e subi nele. — Volto num segundo — sussurrei. — Você fica aí. Ele gemeu baixinho. Abriu a boca como se fosse latir. — Não se atreva, Hamloaf Eagan — falei —, ou os pais do Jacob vão mandar você para casa. Busquei o próximo galho e continuei subindo. Chamei meu macaco-aranha interior, mas era óbvio que só estava conseguindo contato com meu chihuahua. Não sei bem por que achei que estando morta escalaria árvores melhor. — Nossa, sou péssima nisso —resmunguei. O laço do meu vestido, agora castigado depois de tantos pulos de ponte, banhos na baía e aterrissagens ruins, ficou preso na ponta de um galho. Consegui puxá-lo, mas com isso acabei dando uma olhada para baixo. Hamloaf estava do tamanho de um dedinho. — O que andam colocando nesta árvore? — perguntei-me. — Está muito maior do que era. — Mas não tinha como voltar atrás. Escalei ~ 274 ~


mais e mais até chegar no terceiro andar da casa. Recostei num galho para recuperar o fôlego e tirei o cabelo dos olhos. Contei até três, estendi os braços como se fosse uma equilibrista e, lentamente, comecei a atravessar o galho — um passo de cada vez — em direção à janela iluminada a alguns metros de distância. Não caia, não caia, NÃO caia. Quando cheguei no final do galho, só me restou uma coisa a fazer. Pular. Respirei fundo novamente e me joguei no ar até dar de cara, com estrondo, na hera. Hamloaf começou a rosnar em algum lugar lá embaixo. — Não faça isso — eu disse. — Não me faça ir até aí. — Agarrei a treliça com os dedos e imaginei Patrick rindo diante da cena, cantando para mim como uma Miley Cyrus louca. Ain’t about what’s waiting on the other siiiide… it’s the climb. Fui até a janela de Jacob e espiei lá dentro. Lá estava ele, debruçado sobre a escrivaninha, de cabeça baixa, livros e papéis espalhados na sua frente. Mas, quando prestei atenção, percebi outra coisa. Ele estava chorando.

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Capítulo 35 Who will save your soul if you won’t save your own?

Para minha sorte, a janela estava aberta o bastante para que eu me esgueirasse sem causar confusão. Ele ouvia música bem alto — o álbum Save Me, San Francisco, do Train —, então, acho que não escutaria mesmo que eu tivesse feito barulho. Olhei em volta e vi que tudo estava do jeito de sempre no quarto. Cartazes de atletismo nas paredes brancas, colcha e carpete azulmarinho, troféus das corridas que ganhara, um grande mapa-múndi com alfinetes pregados nos lugares onde ele queria correr um dia. Havaí. Austrália. A Muralha da China. Então, começou a tocar “Half Moon Bay” e me lembrei da época em que passeávamos juntos no centro da cidade. Tomando milk-shake, olhando discos antigos na Music Hut, nossas voltas de bicicleta na Main Street. Meus olhos se depararam com um par de muletas encostado na cama e estremeci. Passeios de bicicleta com certeza não seriam possíveis por um tempo. Não que ele tivesse uma. Eu também estragara essa parte. Patrick estava certo. As mulheres são loucas. Jacob limpou o rosto com as costas da mão e tossiu. Escutei os pais dele discutindo lá embaixo. ~ 276 ~


Uma grande família feliz. — Ei, Jacob — disse, baixinho, do outro lado do quarto. — Estou aqui. — Não queria assustá-lo, então mantive distância. Mas a melodia da música continuou e os ombros dele começaram a tremer com ainda mais força. Olhei culpada para as muletas, depois ouvi o celular dele tocando. Jacob pigarreou e atendeu. — Oi. E aí? O som da voz dele ainda me balançava, mesmo que meus sentimentos tivessem começado a se transformar. — Nada. Sei lá. — Ele fez uma pausa e consegui ouvir os agudos da voz de Sadie do outro lado da linha. — Estou preocupada com você… você precisa contar para eles. — Eu não tenho que fazer nada — argumentou Jacob. — Ele vai me expulsar de casa, você não entende? Está com ódio dessa história do atletismo. Ninguém pode saber, Sadie. Eu não posso… A voz dela voltou, ainda mais quente. — Não é justo. Eles que se danem. Quem se importa com o que eles pensam? — Eu me importo! — respondeu Jacob. — Eu me preocupo com isso, tá? Olha só o sofrimento que eu já causei em todo mundo. Eu nunca devia ter te contado, então, esquece. Não é problema seu. Você não entende. — Jacob, eu… ~ 277 ~


— Olha só, eu tenho que desligar. — E desligou, jogando o telefone na cama. Fiquei completamente perdida. De que problema ele estava falando? Que assunto era aquele, afinal de contas? A galera do colégio não podia estar com raiva ainda porque ele estava saindo com a Sadie, podia? Já tinha se passado quase um ano. Já deviam ter se ocupado de alguma fofoca nova. Certamente existiam outros escândalos além do garoto que namora a melhor amiga da ex-namorada morta. Sem dúvida existiam coisas piores na vida. Bastava ver o noticiário, pelo amor de Deus. Ele aumentou mais ainda o som e passou a mão no cabelo. Atravessei o quarto, fazendo de tudo para não emanar minhas vibrações assustadoras de morte. Fiquei atrás dele. Concentrei minhas energias. Então, devagar, coloquei uma mão no ombro dele. Depois a outra. Jacob. Estou aqui para te ajudar. Ele desmontou e enterrou o rosto nas mãos. Soluços de solidão intensa começaram a sacudir seu corpo, abafados pelo som da música. Sua dor estava em toda parte. Eu podia sentir seu gosto, seu cheiro; podia sentir os ombros dele se encolhendo. — Shhh — sussurrei. — Vai passar. Vai ficar tudo bem. — Acariciei o cabelo dele com os dedos. — Seja o que for, prometo que vai ficar tudo bem. — Eu não entendia. Em todos os anos desde que o conhecera, nunca tinha visto Jacob tão triste. Nunca. Deixei que minha mão percorresse as costas dele lentamente, sentindo o calor do seu corpo debaixo da camiseta. Depois, me abaixei, qua~ 278 ~


se com medo de respirar, e beijei seu rosto, suavemente. Um beijo para consertar tudo. Um beijo para me desculpar por tudo que lhe causara. Esperei que ele pudesse senti-lo. Desculpa, Jacob. Mas, quando afastei meus lábios, o mundo estava exatamente como antes. Ele ainda estava péssimo. E eu não passava de uma sombra esmaecida na parede daquele quarto. Ele se endireitou na cadeira e secou o rosto com a manga da camisa. Depois, pegou o caderno e voltou a fazer o que estava fazendo. Vi a ponta da caneta se mover sobre a página, sem me importar em traduzir aquela mistura de letras de garoto e manchas de lágrimas. Mas quando prestei atenção em seus dedos, resolvi olhar novamente. Em que ele poderia estar trabalhando com tanta intensidade? Uma redação para o colégio? Talvez estivesse com algum trabalho atrasado? Debrucei sobre seu ombro para ver mais de perto e me dei conta de que não era nada disso. Era uma carta. Mas, quando vi exatamente que tipo de carta era, senti o quarto girar em volta de mim. Não posso mais viver assim. Não posso mais me esconder, nem fingir ser alguém que não sou. Tentei mudar. Tentei ser outra pessoa. Mas este sou eu. Eu sou O QUE eu sou. Parei de ler. O que você é? ~ 279 ~


Minha mente voltou para a noite do nosso último encontro. Quatro de outubro de 2010. A noite em que suas palavras causaram a falha definitiva no meu coração. A verdade é que eu sabia que ele estava prestes a terminar comigo. Eu vi o medo e a tristeza nos olhos dele quando me buscou para sairmos. Só não quis encarar a verdade. Não faça isso comigo. Lembro de ter implorado silenciosamente do outro lado da mesa. Não faça isso comigo. Por favor. Claro, no final, ele disse aquelas palavras. EU NÃO TE AMO. Mas ali no quarto de Jacob, observando-o, me ocorreu que nunca cheguei a ouvir seus motivos. Desde aquela manhã na praia, presumi que me trocara pela Sadie. Mas e se eu estivesse completamente errada? E se tivesse cometido um erro terrível? Minha cabeça disparou. Eu me dei conta de que vira Jacob e Sadie se abraçando naquela manhã depois da fogueira, mas nada além disso. Eu me dei conta de que vira trocas de olhares, sussurros e torpedos entre os dois, mas nenhum beijo. Eu me dei conta de que vira os dois em silêncio enquanto nossos amigos os puniam. E o tempo todo eu fora a chefe da matilha. Caí na cama enquanto a verdade se apoderava de mim. — Você me amava — sussurrei. — Mas não da maneira como eu amava você. Precisei de um século depois de morta, mas finalmente entendi a diferença. Tudo se encaixava. Tudo fazia sentido.

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Jacob não se apaixonara por Sadie. Ele simplesmente abrira o coração para ela. Seu segredo mais profundo. E no fim, o único crime de Sadie foi guardá-lo. — Por favor, não faça isso — implorei, lágrimas rolando pelo meu rosto. — Escute, por favor… Mas ele não me escutou. Nem podia. Porque estava muito ocupado, terminando seu bilhete suicida. Eu prefiro estar morto a contar que sou gay. Então, vou facilitar as coisas para todos nós.

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Capítulo 36 Always something there to remind me

Era uma queda longa, a do telhado de Jacob, mas pulei mesmo assim. Mal senti o contato das folhas ou a torção do meu tornozelo quando alcancei o chão. A casa da Sadie. Tenho que ir à casa da Sadie. Não consegui pegar a velocidade necessária para voar, então fui mancando pela rua. E se não encontrar Sadie? E se ela não conseguir falar com ele a tempo? Minha cabeça latejava. Eu estava enjoada. Relâmpagos pintaram o céu da noite e parei de correr. Quando olhei para cima, tive certeza de quase poder ver o rosto de uma menina escondido atrás das nuvens, me observando. — O que eu posso fazer? — gritei. — Tenho que salvar o Jacob! Por favor, eu preciso de ajuda! Mais um relâmpago e o rosto desapareceu. Olhei novamente para a entrada da casa do Jacob, pensando nas lágrimas dele. Depois, novamente para a frente, na direção do bairro da Sadie, do outro lado da cidade. Eram pelo menos quinze minutos de distância, e isso de carro. Uma sensação de pânico começou a tomar conta

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de mim como um cobertor de névoa cobrindo em câmera lenta o meu corpo. Eu estava absolutamente presa. Não, eu estava absolutamente ferrada. Não podia seguir adiante, mas também não podia voltar. — Por que você não pode ser de verdade? — implorei, usando as mãos inúteis. — Por que você não me deixa consertar isso? Ouvi um farfalhar de folhas bem baixinho, a hera balançando ao vento ao longo da rua. De repente, a voz da Larkin estava em toda parte. Suas palavras abriram caminho à força pela minha garganta e desceram em direção ao meu peito como um parasita. É mais fácil do que você imagina. Toquei no meu colar, lembrando da oferta. Finalmente, entendi por que ela queria tanto meu colar. Ele representava tudo o que eu tinha deixado na terra. Representava as pessoas que eu mais amei e o amor que compartilhávamos. Minha salvação. Minha garganta ficou dormente. Achei que não seria capaz de ir em frente. — Não tenha medo. — O rosto de Larkin apareceu no céu. E se tivesse chegado? A minha única chance? Talvez eu pudesse voltar por mais um dia e conseguir dar ao Jacob a ajuda de que ele precisava. Talvez eu pudesse limpar a bagunça que fiz e garantir que ninguém mais que eu amava tivesse que morrer tão desnecessariamente quanto eu. Talvez este fosse o dia a mais que faltava para fazer com que

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Jacob enxergasse que não estava sozinho. Para ajudá-lo a se perdoar por ser complicado, a entender que valia e merecia o amor das pessoas. Por ser HUMANO. E isso só custava minha alma imortal. Respirei fundo. — Para que servem melhores amigos? Cuidadosamente, tirei meu cabelo comprido do caminho e abri o fecho do meu colar. Ergui-o na minha frente e vi o coração dourado — perfeitamente imperfeito — balançar e girar no cordão. Quando finalmente olhei para cima, Larkin estava de pé ao meu lado. — Que bom que você se tocou. — Ela tocou levemente no meu braço. — Então. Quanto vale para você? Eu soube a resposta antes mesmo de Larkin terminar a pergunta. Só havia uma maneira de barganhar sua saída do céu. E era esta. — Tudo — respondi, entregando meu colar. — Vale tudo para mim.

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Capítulo 37 Listen to your heart, before you tell him good-bye

É

um mercado terrível, o do tráfico de almas. O M&E chama isso

de “Profano Absoluto”. O pior crime contra o céu, a terra, a humanidade e toda e qualquer coisa que exista entre eles. Para minha sorte, também era, aparentemente, a atividade extracurricular da Larkin. — Que dia você escolheu? — perguntou ela. O tom de sua voz era casual e leve, como se estivéssemos falando do cabelo dela ou do último lançamento de biquínis para o verão. — Não é da sua conta — respondi, sem me preocupar se estava sendo rude. Definitivamente, eu NÃO estava com clima para conversa fiada. — Como você quiser. — A voz parecia mais doce do que nunca, mas a maneira como ela puxou a manga do meu vestido não foi nada amistosa. Ficou de joelhos ao meu lado e apontou o canivete para o meu braço. — Ei! — gritei. — O que é que você está fazendo? Já te dei o colar. — Tentei afastá-la, mas sua pegada era mais forte do que eu imaginava. — Calma, não vai doer — disse ela. — Pense nisso como a sua iniciação para entrar para um clube muito legal. — Apontou orgulhosa para sua própria tatuagem. — Viu? Agora a gente vai ficar combinando. ~ 285 ~


Fiquei de queixo caído. — Você disse que tinha feito isso em Cancun. — Disse? Acho que minha memória não é mais tão boa como antigamente. — Então, começou a enfiar a lâmina na minha pele. Larkin estava mentindo. Isso ia doer, sim, com certeza. Tentei me concentrar no lado positivo. O ganho da nossa barganha: mais um dia para respirar novamente no mundo dos vivos. Depois, eu pertenceria completamente a ela. Nem me fale em relacionamentos saudáveis. — Vou contar até dez de trás para frente para você saber exatamente a hora de gritar — disse Larkin. — Valeu. — Dez — começou. — Nove. Oito… Vai valer a pena, pensei. Vou salvar uma vida. Vou consertar o que está errado. Mais um dia — para ter e guardar — para sempre, amém. Por isso, eu seria eternamente grata. Abri os olhos e vi o brilho da lâmina sob o luar. — Cinco… quatro… Apertei os olhos bem fechados e me preparei para a dor. Mas exatamente antes de sentir a ponta da lâmina cortando minha pele, outra coisa passou pela minha cabeça. Ou melhor, outra pessoa. Pensei naquela jaqueta e nas piadas inacreditavelmente sem graça. Pensei na raiva que senti dele quando me empurrou da ponte Golden ~ 286 ~


Gate e em como ficava revoltada sempre que ele me chamava de Cheetos. Lembrei que ele sempre enchia meu copo de refrigerante sem que eu precisasse pedir e que sempre me levava de volta à pizzaria quando eu não conseguia fazer isso sozinha. Pensei no som da voz dele sempre que me chamava de Anjo e em como — sempre que eu passava meus braços em volta da cintura dele quando estava na garupa da moto — me sentia em casa. — Um — sussurrou Larkin. Patrick. Desculpa. De repente, algo voou do meu lado a 100 quilômetros por hora e me derrubou na rua como se eu fosse um pino de boliche. Aterrissei de cara numa vala, sem ar e totalmente coberta de folhas, lama e grama. Consegui rolar de barriga para cima e alguns segundos depois senti a língua de Hamloaf me lambendo furiosamente, tentando limpar o meu rosto. — Eca, bafo de cachorro. — Empurrei-o e levantei a manga do vestido para dar uma olhada no meu ombro. O canivete da Larkin mal encostara na minha pele. Um barulho súbito desviou minha atenção, dei um pulo e corri na direção do som. Uns 30 metros adiante, Patrick e Larkin estavam frente a frente, se enfrentando. Ele estava com o canivete na mão. Apontado diretamente para a garganta dela. — Seus serviços não são mais necessários — disse ele. — Pode ir embora e nos deixar em paz. — Ela fez uma escolha — respondeu Larkin. — A gente tem um acordo. Então, por que você simplesmente não vai para a sua pizzaria idiota e deixa a gente em paz? ~ 287 ~


Parece que Larkin realmente prestou atenção nas coisas que contei sobre Patrick. Ou então tinha reconhecido a jaqueta de couro. Ele deu um passo à frente, se aproximando, para deixar bem claro que estava falando sério. — Por favor, não — implorei baixinho. — Eu preciso fazer isso. Pelo Jacob. Eu preciso voltar, pelo Jacob. — Viu? Ela quer voltar — disse Larkin. — Devia deixar. De qualquer forma, o fato de você não ter suportado não significa que ela não vá conseguir. Olhei para Patrick. — Do que ela está falando? — Então, alguém tem segredos, é isso? — insinuou Larkin. — Isso não é educado, sabia? Por que você não compartilha com a turma toda? — Ah, você que se dane — respondeu Patrick. — Ela não é propriedade sua. A Brie tem coisa melhor para fazer do que dar sentido a sua meia-vida patética. Então, as queimaduras de Larkin pareceram ganhar vida sob a luz do luar. — Coisas melhores para fazer com você, foi isso que quis dizer? — Ela cruzou os braços. — Escuta aqui, Bon Jovi, eu sei tudo sobre você. Sei que tem essa moto cafona e que morre de paixão por uma garota que definitivamente não está nem aí para você. Então, faça um favor a si mesmo e vá babar por outra pessoa, tá? Porque isto — desenhou um coração no ar com a ponta dos dedos — não vai acontecer. Ui. Maldade. ~ 288 ~


Os olhos de Patrick encontraram os meus. Moto cafona? Essa foi forte, Queijo Ralado, forte à beça. Eu nunca disse isso. Juro. Ele deixou o insulto para lá e voltou-se novamente para Larkin. — Olha só, Periquito, Papagaio, Pardal ou seja lá qual for o seu nome. Não vou deixar que ela faça isso. Simples assim. — Já está feito — disse Larkin, olhando para mim. — Melhor você dizer para ele. — Engraçado — respondeu ele. — Mas eu acho que você está errada. — Patrick enfiou a mão no bolso e tirou dali meu colar. — Ei, isso é meu! — Corri e peguei meu colar. — Você tem razão. — A voz de Patrick demonstrou cansaço. — É seu. Nunca entregue para ela. Nada vale a troca que você estava prestes a fazer. Nada. — Melhor você ficar fora disso — implorei. — Por favor. Ele voltou a apontar o canivete para o pescoço de Larkin. — Vai me desafiar? Os olhos dela se voltaram para mim, num pedido de ajuda, mas, neste exato momento, eu realmente não sabia do lado de quem estava. — Tudo bem — disse Larkin, percebendo minha incerteza. Olhou para Patrick. — Pode acreditar em mim quando digo que não existe nada pior no mundo do que esperar por alguém que não gosta de você. Detesto ter que dizer isso, Pizza Boy, mas sua garota já te esqueceu. — Deixou

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escapar uma gargalhada amarga. — Então, você perde de um jeito ou de outro. Sua garota? Te esqueceu? — Do que vocês estão falando? — perguntei, completamente confusa. — Será que dá para alguém, POR FAVOR, falar a minha língua um minuto? — O caso é: — Larkin sorriu para Patrick. — Acho que você é realmente tão idiota quanto parece. — Chega! — disse eu. — Não fale assim com ele. Ela me segurou pelos ombros e se aproximou tanto que, por uma fração de segundo, senti o calor do fogo que desfigurara seu rosto adorável. — Eu realmente não acredito que você vai ficar do lado dele, Brie. Não acredito que você vai defender esse cara, você me conhece desde sempre. Isso não significa nada? — Larkin… — Você é igual a todo mundo. — Não. Você sabe que isso não é verdade. Escuta… — Não. Escute você — disse ela. — Você não sabe absolutamente nada sobre dor ou solidão. Mas vai saber. Vai ver como é saber que todo mundo no mundo esqueceu de você, como se nunca tivesse existido. Vai ver como é não ter ninguém. — Ela começou a se afastar. Não, não, não, não.

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Não podia deixar que fosse embora. Precisava que me ajudasse a chegar em casa. Se não, sabe-se lá o que Jacob faria. Ou quantas outras vidas seriam arruinadas. — Aqui. — Estendi a mão com meu colar, em total desespero. — Por favor, pode pegar. Faço o que você quiser. Ela olhou para o objeto por um bom tempo, depois secou uma lágrima solitária do rosto. — Esquece. Vocês dois se merecem. E, de uma hora para outra, ela desapareceu. Não! Comecei a correr, agarrando o ar, tentando alcançar a silhueta dela, que desaparecia. Mas, em segundos, não havia mais nada dela além de fumaça. Como se ela nunca tivesse estado ali. Caí de joelhos. Era tarde demais. Tinha perdido minha única chance de salvar o Jacob. De salvar a mim mesma. — Isso não pode estar acontecendo — sussurrei. Ouvi o som do canivete de Larkin caindo no chão. — Anjo — disse Patrick com suavidade, colocando a mão no meu ombro. — Me desculpe. De repente, meu corpo inteiro estava em chamas. Cada partícula e memória atômica da minha pele, do meu sangue, das minhas lágrimas e dos meus ossos queimava atrás do meu vestido. Senti como se fosse ex~ 291 ~


plodir em chamas, cinzas e nada. Parte de mim quase desejou que isso acontecesse. Pelo menos assim eu não teria mais que sentir. Meu Deus, eu estava tão cansada dos sentimentos. Tão cansada de sofrer. Mas não conseguia acreditar. Não conseguia entender por que Patrick tinha arruinado minha única chance de consertar as coisas. Ele estragara tudo. Mais do que tudo. Me desculpe, Jacob. Eu sinto tanto, tanto. Tirei a mão de Patrick de cima de mim e fiquei de pé. — Qual é o seu problema? O que eu faço ou deixo de fazer não é da sua conta. Você não tem nada a ver com a maneira que eu escolho passar a eternidade. Eu faço o que quiser com ela! A dor adormecida no meu peito se transformou numa coisa enorme e insuportável que eu mal podia suportar. Apertando, tirando o ar dos meus pulmões até eu me sentir um balão vazio. Logo, não haveria mais nada para me manter de pé. — Não pude deixar você ir. — Patrick baixou a cabeça. — Você não entende o que estava prestes a fazer. Não consegue ver isso agora, mas juro que ia se arrepender. — Sua voz era baixa, calma. Cheia de desespero, culpa e uma tristeza avassaladora. Mas eu não me preocupei. Que ele se sinta mal. Que se sinta culpado! Eu estava com tanta raiva que mal podia olhar para ele. Talvez eu possa tentar novamente, talvez não seja tarde demais. Talvez eu possa tentar me desculpar com ela…

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— Não! — Patrick me agarrou de repente e me sacudiu com força. — É sério que é isso que você quer? Desistir da sua única oportunidade de ter paz? Ser prisioneira daquela controladora maluca para sempre? Implorar por uma nova morte, porque o que você vai conhecer como vida será tão insuportável? — Seus olhos estavam ensandecidos. — Me desculpe, Anjo. Me desculpe, mas me recuso a ficar parado assistindo sua escolha de passar a eternidade no inferno. Lutei contra ele, finalmente me libertando. — Então, não precisa assistir. Basta ir embora. — Por favor, faça um esforço. — Ele passou a mão no meu rosto. — Por favor, tente se lembrar. Você não vê que eu desisti de muita coisa por você? Não sabe há quanto tempo estou esperando? Não sente? — Ele me encarou uma última vez, minha garganta se fechou e senti gosto de óleo queimado. Senti o calor do fogo e a fumaça irritando meus olhos — como se estivesse sendo queimada viva, de dentro para fora. — Não toque em mim! — gritei. — Eu nunca pedi a sua ajuda! Por que você simplesmente não fica longe da minha vida, ou pós-vida, seja lá o que for? — Eu me livrei dos braços dele. — Por que você não me deixa em paz? — Brie, não… — Não o quê? — Encarei-o, dura. — O que você quer, Patrick? O que é que você quer de mim, de verdade? Ele não conseguiu responder. Balancei a cabeça e me afastei, apressada. — Esquece. ~ 293 ~


— Não. — Ele segurou minha mão novamente, num rompante. — Eu… quero dizer, a gente… — A gente nada — interrompi-o. — Existe VOCÊ e existe EU. E só. Isso é tudo que a gente vai ser. — Mas, Anjo. Você não entende… — Eu não acredito que você esteja transformando isso tudo numa coisa que tem a ver com você. Larkin tinha razão. Não acredito que você ia arruinar a minha única chance de consertar as coisas por causa de uma paixonite idiota, patética, que nunca vai se concretizar! Parecia que ele tinha levado um soco na boca do estômago. — Como? — sussurrou. — Como você pode ter esquecido de tudo? — Não fui eu que esqueci — respondi. — Basta olhar para você! Está aqui há tanto tempo que nem lembra mais o que significa ainda ter gente que se preocupa com você. Esqueceu o que significa prometer para alguém que sempre vai cuidar dele. Minha voz fraquejou, mas continuei falando. — Você perde tanto tempo fazendo piadas idiotas, pensando em si mesmo que esqueceu completamente que o amor tem a ver com todas as pessoas, menos com você. O amor tem a ver com amar uma pessoa mais do que a si mesmo. — Sequei, irritada, uma lágrima de raiva. — Não que eu tenha esperado que você compreendesse isso um dia. Ele não respondeu imediatamente, mas deu para ver o efeito das minhas palavras. O brilho fugiu de seus olhos. — Desculpa — disse, finalmente. — Eu só quis que as coisas fossem melhores. Eu só quis proteger você. ~ 294 ~


— Bem, eu não preciso que ninguém me proteja. — Revidei. — Especialmente você. Assim que as palavras saíram da minha boca, desejei terrivelmente poder voltar atrás. Não acreditei na crueldade do meu gesto. O problema é que, às vezes, as palavras são como flechas. Depois que a gente dispara, não tem como voltar atrás. Fiquei chocada com o quanto eu podia magoar. Mas o que ele disse em seguida me chocou mais ainda. — Você não sabe que eu te amo? Não enxerga que eu sempre… — Bem, eu não te amo. Ouviu? — Olhei-o nos olhos e lancei a última flecha de que dispunha. — Mesmo que você fosse o ÚLTIMO garoto do universo eu não te escolheria. A expressão no rosto dele dizia que ele não poderia saber que eu estava mentindo. — Dulce bellum inexpertis. — Eu realmente não estou com paciência para as suas… — A guerra é doce para aqueles que nunca guerrearam — disse ele. — Não que eu esperasse que você compreendesse. Então, não havia nada mais a ser dito. Ele enfiou as mãos nos bolsos. — Obrigado pela honestidade. Vou parar de te perturbar agora. Vou parar de te fazer perder tempo. Deixei meu cordão cair no chão, o pingente ainda brilhando levemente, e vi a silhueta dele se desfazer aos poucos sob a luz da lua. O ~ 295 ~


marrom da jaqueta de couro de repente me pareceu muito envelhecido; gasto como se fosse de outra década. Porque era, me dei conta. Pequenos raios de luz atravessaram seu corpo quando ele começou a desaparecer, quase como se fosse uma fotografia Polaroid. Primeiro, as botas de exército passaram do preto ao verde, depois amarelo, depois branco. O mesmo aconteceu com o jeans. Depois os braços, os ombros e os olhos — aqueles olhos doces, cheios de sentimentos —, até que não restasse quase nada. Meu corpo gritava para que eu me desculpasse — que implorasse para que ele ficasse —, mas me controlei. Finalmente, ele ergueu o rosto e sorriu para mim. Vi sua boca se mover ligeiramente, mas não consegui escutar o que dizia. Não importava. Eu já sabia do que se tratava. Adeus. Mordi o lábio e desviei o olhar. Fechei os olhos e desejei por um momento jamais tê-lo conhecido. Desejei que nunca tivesse falado comigo na pizzaria, para começo de conversa. Que nunca tivesse me empurrado da ponte, ou me ensinado a voar, ou que não tivesse me levado de moto pela orla. Mas era tarde demais para tantos desejos irrealizáveis. O que estava feito estava feito. E de repente eu estava só novamente. Mas no fundo sabia que não seria mais como antes. Agora, o silêncio era opressor — sufocante — e me senti escorregando pelo vácuo até

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um lugar que jamais imaginara. Um espaço tão escuro e parado que poderia muito bem ser o fundo do mar. Larkin tinha razão. Eu não podia ajudar Jacob. Não podia nem mesmo me ajudar. Eu era inútil, vazia de amor, uma perda de tempo e espaço. E por isso, no final das contas, eu só podia rastejar de volta ao jardim da casa da minha família, encostar a cabeça na grade da varanda e esperar que o sol nascesse. — E agora? — sussurrei. — O que acontece agora? Era uma pergunta idiota, porque eu já sabia a resposta. Nada. Agora não acontecia nada. Baixei a cabeça no peito. Respirei, solitária, assustada. E senti meu coração — não, a memória do meu coração — se partir em pedaços novamente.

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Parte 3 Tristeza

Capitulo 38 Since u been gone

Eu era assombrada pelo cheiro de flores apodrecendo. Pela imagem de limusines pretas e pelo som dos pneus no chão de pedrinhas, de pás cavando a terra, de chuva caindo em lápides, dos portões gradeados e gelados do cemitério, me trancando ali para sempre. Não conseguia comer. Não conseguia dormir. Meu velho e bom pesadelo estava de volta como uma vingança — às vezes, três ou quatro vezes numa mesma noite. Começava assim que eu pegava no sono, com o som de aceleração de motores. Depois vinha o vento no meu cabelo, até debaixo do capacete, enquanto eu cruzava a estrada de moto. O calor do sol no meu rosto. A sensação de que qualquer coisa era possível. Mas era aí que o sonho sempre terminava e onde o pesadelo começava. Exatamente quando eu me sentia a menina mais feliz do mundo, a sensação de desconforto aparecia. Era então que eu percebia um perfume novo e estranho no ar. Gasolina e metal queimado. Sentia que a moto saía do meu controle. E, de repente, sabia como tudo terminaria. ~ 298 ~


Com meus gritos e a lembrança da mão de alguém escapando de mim. Então — BUM! —, meus olhos se abriam e eu acordava suando, em pânico, encolhida na minha mesa da pizzaria. Correção. Nossa mesa. Eu sinto a sua falta. Lamento tanto. Toda noite era a mesma coisa. Eu ficava deitada de olhos fechados e esperava que o pesadelo me engolisse e me cuspisse de volta. Lava, enxágua, repete. Não havia nada que eu pudesse fazer a não ser sentir a mesma dor pavorosa no peito, me perguntando quando aquilo teria um fim. Apesar de estar começando a compreender a verdade da eternidade. Nunca tem fim. Jamais me senti tão só. Não existia ninguém por ali com quem eu tivesse vontade de conversar. Já fazia tempo que Patrick partira, provavelmente estava o mais longe de mim possível. Eu não tinha nem mesmo Hamloaf. Porque eu vira os avisos no meu bairro. Vira-os em todos os postes de telefone, sinais de trânsito e caixas de correio num raio de 16 quilômetros da minha casa, era impossível não ver. PERDIDO: O CÃO MAIS MARAVILHOSO DO MUNDO ATENDE PELOS NOMES: HAMLOAF, HAMSTER, HAMMY E HAMINATOR POR FAVOR, POR FAVOR, POR FAVOR, DEVOLVAM-NO PARA: DR. DANIEL EAGAN, AV. MAGELLAN, 11.

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No final, decidi fazer a coisa certa. Sabia que Hamloaf não me pertencia mais. Na verdade, sempre fora o cachorro do meu pai. Meu pai o escolhera quando era filhote. Meu pai era quem Hamloaf adorava mais do que tudo. Ham e meu pai eram uma dupla especial. Um pacote. Por mais que eu detestasse admitir, não podia mantê-lo comigo, ele não era meu. Então, levei-o para um passeio de despedida na praia, depois de volta para a varanda da frente da nossa casa, lágrimas rolando pelo meu rosto. — Você tem que ir para casa agora, garoto. Ele rolou no chão, deixando escapar um ganido que era um convite à brincadeira. Sempre brincalhão. Sempre tentando levantar o astral. — Não, Hamster. — Balancei a cabeça. — Não é hora de brincar. Papai está desesperado atrás de você. Ele está morrendo de saudade. — Abracei-o, depois segurei o rosto dele e enchi seu focinho de beijos. Ele me encarou com aqueles olhos grandes e castanhos, e me lambeu em retribuição. — Seja bonzinho, tá? Não vá fazer suas necessidades no gramado de ninguém. — Depois pensei melhor e olhei furtivamente para o outro lado da rua, para a casa da família Brenner. — Bem. Eu te dou permissão para fazer as necessidades naquele gramado. No de ninguém mais, tá? Não, seus olhos pareciam dizer. Não vá embora. Vamos brincar. De repente, ele disparou, latindo e ganindo feito doido — ganidos que todo mundo num raio de 5 quilômetros consegue escutar. ~ 300 ~


Hora perfeita. Eu sabia que papai estava em casa. — Isso mesmo. — Forcei um sorriso. — Te amo, seu maluquinho. — Usei toda a concentração que me restava, subi a escada até a porta e toquei a campainha. Era hora de dançar conforme a música. Era hora de encará-lo. Mas, quando a porta da frente se abriu, instantes depois, não era meu pai na minha frente. Era ela. A pior pessoa na face da terra. — Você deixou essa mulher entrar? — eu disse, enojada. — Você deixou essa mulher entrar na NOSSA casa? — Ah, por onde você andava, seu tonto? — disse Sarah Brenner. — Vem aqui! Senti meu sangue fervilhar, esquentando violentamente enquanto via aquelas mãos de unhas pintadas envolverem o pescoço do Ham. Imaginei que a arrancava dali e batia com aquelas unhas odiosamente vermelhas na porta mil vezes, para ela entender como era ter sua família devastada. Ela estendeu a mão e coçou o pescoço do Hamloaf atrás da orelha. — Essa nem é a favorita dele — resmunguei. — Impostora. — Danny? — Ela se virou, chamando meu pai dentro de casa. — Ele voltou! O cachorro voltou! Por um segundo, considerei a possibilidade de arrancá-lo das mãos dela e voar com ele de volta para a pizzaria. Talvez tivesse cometido um grande erro. Talvez Hamloaf realmente devesse ter ficado comigo. Mas,

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quando ouvi meu pai descendo a escada e vi Hamloaf abanando o rabinho, tive certeza da resposta certa. Por mais que odiasse. Então me afastei sem dizer mais uma palavra, chorando pelo jardim até pegar velocidade bastante para que meus pés saíssem do chão. E enquanto cruzava de volta para o meu pedaço de céu, a minha pizzaria — lágrimas rolando no rosto —, decidi nunca mais olhar para trás. Estava encerrando minha carreira de ir e vir no tempo e no espaço. Era hora de assentar para sempre, para o desespero longo e duradouro. Assistir às voltas do mundo era muito difícil. Não havia nada que pudesse fazer. Nada que eu pudesse dizer. Não havia mais nada para mim na Terra, ponto final. Pelo menos na pizzaria eu podia fazer o que me dizia respeito. Ficar sentada dia e noite sem ninguém se preocupar. Podia sair para longas caminhadas que não levavam a lugar nenhum. Via os mesmos filmes tristes mil vezes até saber de cor as falas mais deprimentes. Alguns dias, quando o cheiro de pizza realmente me dava enjoo, eu saía e ficava na beira de um abismo, do outro lado da estrada. Ficava olhando para o oceano e me permitia pensar em Jacob. Se teria ido até o fim com seu plano ou não. Não o vira ali no pedaço de céu, o que parecia um bom sinal. Apesar de supor que ele poderia ter ido parar em outro lugar. Algum lugar pior. Como a Larkin. Tentei não pensar no assunto.

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Em vez disso, fechei os olhos bem fechados e mergulhei de cabeça no mar, deixando-me afundar nas profundezas escuras e arenosas. Era silencioso lá embaixo. Quieto e pacífico. Não tenho certeza de quanto tempo passei submersa. Talvez dias. Talvez semanas. Não fazia diferença. Passava o tempo contando grãos de areia, brincando de Marco Polo com eventuais caranguejos eremitas, fazendo pulseiras de algas e quase sempre fingindo ser a Pequena Sereia. Apesar de meus seios não serem grandes o bastante para segurar conchas. (Razão nº 3.714 que explica por que morrer antes dos 16 anos é um saco.) Em alguns momentos eu quase pensava ter visto o rosto de Patrick boiando nas redondezas, como uma água-viva, e imaginava seus braços se mexendo enquanto ele nadava até a superfície. Não conseguia deixar de pensar em como a vida poderia ter sido diferente se eu e ele tivéssemos nos conhecido na Terra. Se talvez fôssemos da mesma idade na mesma década. Se ele tivesse sido o meu primeiro beijo na pista de dança naquela noite, nós dois rodeados de luz estroboscópica para sempre. Finalmente, me dei conta de que a coisa boiando era realmente uma água-viva, então encerrei o expediente e nadei de volta para a praia. Voltei à mesma e velha rotina de me afogar em autocomiseração. Na verdade, esse tipo de coisa é altamente viciante. Até fui a São Francisco algumas vezes, na esperança de encontrar Larkin. Visitei todos os meus lugares preferidos — o parquinho, o porto, até o topo da pirâmide de brinquedo —, mas não cruzei com ela. Era como se tivesse imaginado todo o tempo que passamos juntas. Como se eu fosse a única alma naquela porcaria de lugar. ~ 303 ~


Quem sabe? Talvez eu fosse. Talvez a solidão eterna fosse minha punição por ter sido tola o bastante para ter acreditado no amor, para começo de conversa. Não que isso importasse. Não que eu me importasse. Por quê, adivinhem? Eu não acreditava mais no amor.

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Capítulo 39 Hit me with your best shot

Lá estava eu, andando por uma floresta brasileira. Quente, úmida, um calor de enlouquecer, uma nuvem de mosquitos barulhentos. Cobras preguiçosas e besouros do tamanho da minha cabeça, tigres dormindo debaixo de árvores. Ai. Espera, mas não existem tigres no Brasil. Melhor apagar essa parte. Lá estava eu, andando numa floresta indiana. Quente, úmida, quentíssima… Ai. Abanei o ar. Alguma coisa estava tentando me atingir. Aranha? Macaco? Macaco-aranha? Uma serpente, prestes a morder meu rosto? Eu me joguei num arbusto, buscando esconderijo debaixo de uma árvore. Nenhuma pata. Nenhum dente. Nada de garras ou pernas compridas. Caminho livre. Conseguira escapar. Ufa. Ai. Ai. Ou não. — Chega — resmunguei. — Estou ocupada. — Hum, você não parece ocupada. — Mas estou. ~ 305 ~


— Fazendo o quê? Sentei e dei de cara com a Garota das Pulseiras. — Estou tentando meditar, tudo bem? — Ah. — Ela deu um passo atrás. — Desculpa. — Colocou o cabelo louro atrás da orelha, as pulseiras chacoalhando no pulso, como de costume. Cruzei os braços. Essa menina nunca falara comigo antes. O que ela esperava, que virássemos melhores amigas de repente? — Desculpa — falei, sem me preocupar em disfarçar a irritação. — Mas por que você estava me cutucando? Pulseiras tilintando. — Eu só queria saber se você me daria um autógrafo. — Pulseiras tilintando. — Não queria interromper seu momento zen. — Meu autógrafo? — Cocei o nariz. — Por que você quer? — Até parece. — Ela riu. — Porque você é famosa! – Apontou para a televisão em volta da qual alguns frequentadores da pizzaria se agrupavam. — Dê uma olhada, você é manchete total! O que ela andava fumando? Alguma porcaria muito forte, com certeza. Levantei e caminhei lentamente até a TV, já que imaginava que essa seria a única maneira de fazê-la calar a boca. Mas, quando finalmente olhei para o cara sendo entrevistado na tela, não acreditei nos meus olhos. Era meu pai. ~ 306 ~


— Pode aumentar? — Pedi ao gatinho Jogador de Futebol. — Por favor. Todo mundo já teve o coração partido de uma ou outra maneira ao longo da vida. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que um coração partido pode ser fatal. Estamos hoje aqui com dr. Daniel Eagan, cardiologista renomado do hospital da Universidade de São Francisco, que passou o último ano debruçado em estudos sobre a Síndrome do Coração Partido — uma condição clínica que se parece com um ataque cardíaco em quase tudo, o que acaba, na maioria das vezes, mascarando um diagnóstico mais exato. Meu pai estava sentado em silêncio, as mãos cruzadas no colo. Parecia não se barbear ou sorrir havia semanas. — Então — perguntou a repórter de olhos azuis, animada. — A Síndrome do Coração Partido é muito comum? — Não muito — disse ele. — Estima-se que somente 1 ou 2 por cento das pessoas que imaginam ter tido um enfarte tenham sido acometidas, na verdade, de SCP. É uma coisa bastante rara e normalmente afeta mulheres da terceira idade. Não é tipicamente uma condição que põe em risco a vida, mas pode ser. — Ele olhou diretamente para a câmera e senti um nó na garganta. A voz explicativa da mulher continuou. Mas dr. Eagan tem uma ligação mais pessoal com a Síndrome do Coração Partido do que a maioria das pessoas pode imaginar. No outono passado, ele perdeu tragicamente a filha adolescente, Aubrie, acometida do que ele acredita ser o primeiro caso documentado de alguém tão jovem morrendo de coração partido. ~ 307 ~


Minha pele foi tomada de arrepios enquanto via meu próprio rosto na tela. Primeiro, minha foto do anuário escolar. Depois, uma com as minhas amigas. Finalmente, uma do papai comigo, os dois às gargalhadas. Senti minha garganta fechar. O nó aumentou. Mas não me permitiria chorar. Na sexta-feira, uma nova ala do hospital da Universidadede de São Francisco foi aberta em honra a Aubrie — um Centro Infantil do Coração —, e dr. Eagan foi nomeado diretor. — Viu? — a Garota das Pulseiras deu um tapinha no meu braço. — O que foi que eu falei? A câmera voltou para o meu pai. — No começo — disse a repórter —, ninguém acreditou no senhor. Meu pai confirmou. — A comunidade médica achava que a morte de Brie só podia estar relacionada a alguma condição preexistente. Mas as evidências não sustentavam esse argumento. O mal causado era pequeno. Em nenhum momento acreditei que sua morte estivesse relacionada ao nível de estrago que seu coração havia sofrido. — Qual era seu objetivo? — perguntou gentilmente a repórter. — O que o senhor esperava provar com sua pesquisa? Sente que poderia ter feito algo mais para salvar sua filha? Ele fez uma longa pausa. — Não sei se poderia ter feito alguma coisa. Acho que também não sei exatamente o que queria provar. O amor fere a nós todos, não impor~ 308 ~


ta se somos velhos ou jovens. — Tirou os olhos da câmera por alguns instantes e, quando voltou o rosto, seus olhos estavam tomados de lágrimas. — Mas acho que meu ponto aqui é que nós, pais, devemos falar com mais frequência com nossos filhos sobre o que eles sentem. Sobre o que realmente está acontecendo na vida deles. — Ele sorriu, tristemente. — E devemos escutar com atenção. Menos quando se está muito ocupado tendo um caso extraconjugal, você quer dizer. A câmera mostrou uma imagem do meu colégio e a voz em off da mulher prosseguiu. Palavras sábias as do dr. Eagan. Principalmente diante do trágico incidente ocorrido poucas semanas atrás… — O quê? — Senti que começava a entrar em pânico. — Que incidente? … quando o estudante do último ano do Pacific Crest, ex-namorado da srta. Eagan… o rapaz que as amigas da menina diziam ter partido seu coração… Senti uma tontura. — Não, não, não, não. … a estrela da equipe de atletismo, Jacob Fischer… — Por favor — implorei. — Não, por favor. … foi encontrado inconsciente em casa… As paredes pareciam se aproximar de mim. Não consegui ouvir um segundo mais. Minha garganta se fechou e comecei a rodar loucamente, cega pelas lágrimas. Tentei atravessar por entre as pessoas aglomeradas ~ 309 ~


ali, desesperada para ir lá para fora. Ar. Eu precisava de ar IMEDIATAMENTE. — Ei! — Ouvi a Garota das Pulseiras gritar. — Tudo bem com você? Dói. Dói demais. Patrick, cadê você? Estava perdendo o chão. Minha visão ficou turva e perdi o controle do tempo e do espaço. Então meu rosto foi de encontro ao chão frio de linóleo. Com força.

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Capítulo 40 What a girl wants —

Uau. Ela vai ter uma baita dor de cabeça.

— Ela morreu? Parece morta. — Detesto te dar essa notícia, meu amigo, mas todo mundo aqui já morreu. Abri os olhos. A Garota das Pulseiras e o Garoto do Nintendo estavam me olhando como se eu fosse uma espécie de projeto científico naufragado. Frankenbrie. Ou Eaganstein. Toquei na testa e notei, imediatamente, um galo enorme. — Ai. — Ui. — Ela riu. — Você caiu com toda força. Não foi tão ruim quanto quando aqueles idiotas me jogaram no meio da multidão, mas mesmo assim foi impressionante. — Debruçou-se sobre mim e encostou alguma coisa gelada no meu rosto. Gemi. — Picolé. A coisa mais próxima de gelo que consegui encontrar. Vai ajudar a não inchar nem doer tanto. Lentamente, consegui me levantar. Voltei para minha mesa e disse: — Valeu. ~ 311 ~


Os dois me seguiram e se sentaram na minha frente. — Imagina. — Ela cutucou o Garoto do Nintendo. — Esse é o Sam. E meu nome é Riley. Sorri, pateticamente, para os dois. — Brie. — A gente sabe quem você é. — Ela me lembrou. — Celebridade local e tudo mais. — Ah, claro — falei. — Esqueci. — Falando nisso — ela riu —, cadê seu amigo? Estranhei. — Como assim? — Ele é uma graça, aliás. Você acha que, sei lá, de repente… podia me apresentar para ele? — Ela hesitou. — Tipo, um dia? O QUÊ? Ela pegou sua bolsa, animada. — Preciso dizer, sou louca por ele, tipo… desde sempre. Mas juro que acho que ele nem sabe que estou viva. — Parou de falar e riu. — Você sabe o que eu quero dizer. — Pegou um pedaço de papel amassado e colocou na minha frente, na mesa. — Eu sou tão idiota. — Riu. — Acho a letra dele a coisa mais fofa do mundo. Letra dele? Senti meu rosto corar. Desdobrei lentamente o papel amassado, desamassando-o o melhor que pude. Ali, rabiscado entre algumas manchas

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de gordura de pizza, estava uma lista de palavras das quais me lembrava muito bem. Cada uma delas riscada de maneira organizada e meticulosa. Menos duas. Negação Raiva Barganha Tristeza Aceitação — Onde você conseguiu isso? — perguntei baixinho. Depois, enfiei a mão no bolso e encontrei a caneta, aquela incrível do terceiro ano, e risquei tristeza. Porque, honestamente, estava me sentindo muito triste. — Meu Deus! — exclamou ela, cheia de afetação. — Você acha que eu sou uma stalker maluca, não acha? É, hum, meu Deus. ACHO. Patrick tinha razão. Garotas SÃO loucas. Ela riu novamente, emitindo um ruído entre o de um chimpanzé e um golfinho. — Juro que eu… — Não acho que você seja o tipo dele — falei. — Sem querer ofender. Ela ficou de queixo caído. — O quê? ~ 313 ~


Encolhi os ombros. — Foi o que eu disse. Riley cruzou os braços. — Ah, jura? Olhei de volta. — JURO. — O quê? — Ela riu sarcasticamente. — E você é? Talvez. Provavelmente. Com certeza. Ela se levantou e saiu, dramática. Pela primeira vez em bastante tempo, sorri. Olhei para o Garoto do Nintendo. Aquele cabelo ruivo e o rosto doce me fizeram lembrar imediatamente do Jack. Não consegui evitar pensar no que teria acontecido com aquele menino para terminar naquela pizzaria, sozinho. Apontei para o suéter dele. — Harvard? Ele assentiu. — Michael estuda lá. Hesitei antes de falar. — Quem é Michael? — Meu irmão. Ele perdeu o irmão. Exatamente como Jack me perdeu. ~ 314 ~


O som da risada do Jack encheu minha cabeça — uma risada daquele tipo incontrolável, de quando a gente corria um atrás do outro pela casa nas manhãs de sábado. Eu sentia falta do sorriso dele, da mecha espetada do cabelo. Senti saudade até de quando ele soltou pum no meu travesseiro porque tinha ficado com raiva de eu ter permissão para ficar acordada até mais tarde. Esquece. Melhor pensar em outra coisa. — Então. — Fiz o possível para tirar aquelas lembranças da minha cabeça. — Finalmente dando um tempo do jogo, hein? Sam coçou o nariz. — Acabou a pilha. — Pelo tom da voz, dava para ver que eu tocara num ponto ultrassensível. E de repente me ocorreu o motivo. Talvez o vídeo game o ajudasse a esquecer alguma coisa na qual ele não gostava de pensar. — Ei — eu disse. — Quer pilhas novas? O rosto dele se iluminou como se fosse uma árvore de natal. — Claro! Você consegue? Com certeza ninguém tinha se dado o trabalho de dar uma cópia do M&E para Sam — provavelmente porque ele era novo demais para ler e entender. Sorri. Estava prestes a deixar aquele menino pirado. Balancei as mãos no ar, misteriosamente, como já fizera milhões de vezes quando Jack e eu ensinávamos truques de mágica um para o outro. A grande diferença agora era que eu estava fazendo mágica de verdade. — Hocus Pocus. Abraaa cadabraaa…

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Sam arregalou completamente os olhos. Balancei as mãos mais um pouco, coloquei-as para trás e fiz o primeiro pedido que fazia em séculos. Exatamente como Patrick me ensinara. Pilha, por favor. Alcalina. Sorri para Sam um segundo depois. — Escolhe uma mão. Qualquer uma. Ele apontou para a esquerda. — ESSA! Mostrei minha mão vazia. — Não. De novo. Ele fez uma careta, como se tivesse sido trapaceado, mas, finalmente, apontou para minha mão direita. — Essa? — Ahá! — gritei, colocando as pilhas na frente dele. Sam olhou para mim, depois para as pilhas. Pegou as duas na mesa e, cuidadosamente, revirou-as nas mãos, como se pudessem desaparecer de repente. Colocou-as depressa dentro do joguinho e apertou power. Os velhos e bons ruídos de jogo começaram a apitar em segundos. — Obrigado — disse ele, totalmente maravilhado. — Você consertou. Então, começou a chorar. — Não, não, meu amor — disse eu, me sentindo péssima. Levantei e fui para o lado dele. Abracei-o, puxando-o para perto de mim. Ele se ~ 316 ~


aninhou nos meus braços e pude sentir as lágrimas ensopando a frente do meu vestido enquanto o ninava. — Ahh — falei. — Está tudo bem. Vai ficar tudo bem. — Não, não vai! Não está! — gemeu ele. — Eu quero ir para casa. Lembrei da manhã em que vi Sadie e Jacob na praia. Lembrei da maneira como Patrick me segurara nos braços até que eu não tivesse mais lágrimas para chorar e como ele me levara de volta para a pizzaria sussurrando no meu ouvido que tudo ficaria bem. Lembrei da dor nos olhos dele quando tentou me dizer o que sentia e eu jogara seus sentimentos fora como se não significassem nada. Como se ele não importasse. Porque, naquele momento, eu só estava pensando em mim. Isso me atingiu, enquanto deixava que um menino que eu mal conhecia soluçasse nos meus braços. Eu partira o coração do Patrick. Exatamente como Jacob fizera comigo. E me odiei por isso. De repente, eu quis saber tudo. Quis — não, eu precisei — entender quem era Patrick, quem ele tinha sido e por que eu sentia que ele levara um pedaço de mim quando desaparecera. Porque eu estava realmente cansada de ficar no escuro. Estava realmente cansada de sentir tristeza e solidão, e de sentir que faltava alguma coisa dentro de mim. Algo, agora tenho certeza, que sempre faltara. Mesmo quando eu estava viva. Esperei que Sam parasse de chorar. Beijei seu rosto e acariciei sua cabeça. ~ 317 ~


— Já volto. — Levantei, com os ombros abertos, cabeça ereta, e fui até a pessoa que finalmente me daria algumas respostas, gostasse ou não. A Senhora das Palavras Cruzadas.

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Capítulo 41 Let us die young, let us live forever —

Cadê ele? — Sentei-me num banquinho na frente dela e me

apoiei no balcão. Ela encolheu os ombros, sem tirar os olhos das palavras cruzadas. — Por favor — falei. — Me diz. — Essa informação é confidencial. A-há. Então ela sabe de alguma coisa. — É importante. Ela me encarou duramente um bom tempo, como a galinha idosa de um desenho animado. Não me deixei abater. Finalmente, colocou o lápis no balcão e cruzou as mãos. — Feliz, agora? — Vou ficar feliz quando me disser onde o Patrick está. — Por que eu saberia? — Porque — sorri meu sorriso mais sincero — você sabe de tudo. Ela me encarou, desconfiada. — Você está tentando me amolecer. Droga, não fui sincera o suficiente.

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— Não estou — insisti. — De qualquer forma, qual é o problema? Eu só quero que me diga onde ele está. Ela balançou a cabeça. — Eu estava falando a verdade. Suspirei, irritada. A morte era tão ruim quanto a vida! Toneladas de regras idiotas que não faziam o menor sentido. — Estou perguntando com jeitinho — falei. — Ele sumiu há semanas. Estou preocupada. Ela deixou escapar um risinho irônico. — Engraçado, já que ele sumiu por sua culpa. — Apontou para as palavras cruzadas. — Aliás, agora também não tenho ninguém para me ajudar com a linha 18. — Pegou novamente o lápis. De repente, lembrei da papelada que tive que preencher quando cheguei na pizzaria. Seria possível que Patrick também tivesse preenchido formulários, alguns anos antes? Será que a Senhora das Palavras Cruzadas tinha um arquivo dele também? Debrucei sobre o balcão e puxei as palavras cruzadas. — Ei! — reclamou a Senhora das Palavras Cruzadas. Balancei a cabeça. — Não devolvo até você me entregar o arquivo do Patrick. — Peguei minha caneta, ela me olhou apavorada e comecei a colocar minhas próprias respostas. — De caneta não! — disse ela. — Tinta é uma coisa permanente!

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— Vamos ver… — Ignorei-a enquanto buscava pistas. — Palavra de quatro letras para queijo mediterrâneo, comumente utilizado em saladas gregas. — Feta! — gritou. — Eu sei! — Comecei a rabiscar por conta própria uma resposta ainda melhor. — B-R-I-E! — Não! — Ela tentou puxar as palavras cruzadas de mim, mas desviei sua mão. — Devolve! Você está estragando tudo! Saí do banquinho, ainda no começo da brincadeira. — Palavra de cinco letras para pessoa que não come carne. — Humm… — Fingi estar na dúvida. — Essa é difícil. — Vegan. — Ela sacudiu os braços. — VEGAN! — Eu sei! — Estalei os dedos, depois enfiei a caneta no papel com mais força ainda. — EAGAN! — Ah, como você pode fazer isso? — resmungou ela. — Todo o trabalho que eu tive, para nada! — O que foi? — perguntei. — Desculpa, você disse alguma coisa? — Não dei a ela um segundo para responder e voltei às dicas. — Nossa, agora uma realmente difícil. Palavra de oito letras para prato de carne assada preferido das famílias. — Fechei os olhos, balancei o corpo como quem está pensando, como um mestre de ioga. — Claro! — Fui soletrando enquanto escrevia. — H… A… M… L… O… A… — Parei. — Droga, não é isso, é? Hamloaf tem sete letras, não oito! — Bati na testa e gemi para aumentar o efeito dramático. — Deve ser outra coisa! Mas não posso apagar! Ah, que idiota, por que não usei um LÁPIS? ~ 321 ~


O rosto da Senhora das Palavras Cruzadas estava agora tão roxo que ela parecia mais uma berinjela do que uma mulher. Que pena! Do meu ponto de vista, não havia motivo nenhum para que eu não tivesse acesso ao histórico do Patrick. Certamente ele tinha tido acesso ao meu. — Você quer o arquivo dele? — Ela abriu uma gaveta, tirou um envelope e jogou no balcão. — TOMA! Peguei. Sorri, agora de verdade. — Obrigada. Depois, baixei as palavras cruzadas e saí da pizzaria tão rápido que quase quebrei a porta de vidro. Abracei o arquivo do Patrick no peito e voei na maior velocidade que pude até o lugar onde eu sabia que poderia ler em paz, sem que ninguém me interrompesse. A ponte. Quando meus pés tocaram o metal laranja e tão familiar da ponte Golden Gate alguns segundos depois, achei que Patrick ficaria orgulhoso de mim. — Pouso perfeito — sussurrei. Meu peito se encheu de maresia e relaxei. Não estava ventando muito e o céu tinha adquirido tons de cinza e roxo. As montanhas se estendiam na minha frente, majestosas e misteriosas, e o sol me esquentou enquanto baixava no horizonte. — Lá vamos nós — falei. — Chega de segredos. — Abri o arquivo com cuidado. Havia um punhado de papéis dentro do envelope e passei os olhos rapidamente pela primeira folha. Um questionário, exatamente

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como o que eu preenchera um ano antes. A escrita a lápis estava bastante apagada, mas consegui entender algumas respostas. NOME: Patrick Aaron Darling Darling? O sobrenome dele era Darling? Como é que eu não sabia disso? Continuei. DATA DE NASCIMENTO: 1º de agosto de 1965 DATA DE MORTE: 11 de julho de 1983 Uau. Uma coisa era ter brincado com ele a respeito disso, mas era muito diferente ver aquilo escrito, preto no branco. Eu realmente andava por aí com um cara de 45 anos. Mais ou menos. Continuei lendo. CAUSA DA MORTE: Sui Caedere6 Aparentemente, o hábito irritante do Patrick de ficar falando frases em latim era coisa antiga. — Sui Cadere? — resmunguei. — O que é isso? Opa? Totalmente minha moto? — Balancei a cabeça. — Que cara de pau. Tentei adivinhar algumas das outras respostas, mas o resto estava tão apagado que não dava para saber o que era o quê. Fora as duas últimas perguntas no final da página. ESPERANÇA: Que Lily me encontre SONHOS: Que ela me perdoe Finalmente. Ali estava. Alguma coisa real. Alguma coisa em que me apegar. 6

Sui Caedere do latim suicídio.

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Um nome. — Lily — disse a palavra devagar, deixando que passeasse pela minha língua. Então era essa a garota que ele tinha amado, havia muito tempo. — Patrick e Lily. — Soava bem. Soava certo. Por meio segundo, parte de mim sentiu uma pontinha de ciúme, apesar de saber o quanto isso me transformava numa maluca de carteirinha. Como eu poderia ter ciúme de alguém que ele conhecera séculos atrás, muito antes até mesmo de eu nascer? Não fazia sentido. Sentido nenhum. — Não seja ridícula, Brie — briguei comigo mesma. — Controle-se. Fiz o que pude para afastar o pensamento da minha cabeça, tentando me concentrar em vez disso em como eu era uma detetive particular incrível. Ainda não estava exatamente no nível do Sherlock Holmes, mas duas pistas novas era melhor do que nada. Mas o que ele fez com ela? Por que precisava que o perdoasse? Típico de garoto: estragar tudo. Vasculhei uma parte da papelada com mais cara de oficial — nada que valesse a pena um estudo mais atento — e vi a fotografia de um bebê de cabelo escuro, olhos escuros e um sorriso inconfundível. Bem, tá, acabamos de receber a informação de que Patrick nasceu gatinho. Dei de cara com um jornal dobrado. Olhei a data no canto superior direito. 12 de julho de 1983. Desamassei o jornal, sem querer rasgar nenhuma página e estendi-o no colo. Depois, agradeci silenciosamente aos

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céus por manterem o vento longe e comecei a vasculhar as manchetes. Uma delas se destacou. ADOLESCENTE DE 17 ANOS TIRA A PRÓPRIA VIDA Parei. Li novamente. E de novo. — Não pode ser ele — disse, perdida. — O Patrick morreu num acidente de moto. Ou não? — Meus olhos passearam pela história breve logo abaixo. Um adolescente de 17 anos tirou a própria vida aqui em Half Moon Bay, informou a polícia na noite de domingo. O corpo de Patrick A. Darling, 17, foi encontrado aproximadamente às 21 horas de domingo na Breakers Beach, onde acreditam que ele tenha saltado para a morte depois de esfaquear-se repetidamente. Darling deixa mãe, três irmãs e pai, e diz-se que andava absolutamente devastado pela recente perda da namorada, Lilian R. Thomas, 16, morta em um trágico acidente de moto no fim de semana da independência. Senti uma força estranha me sacudir por dentro. Vozes, confusão, som de sirenes e metal se chocando enquanto meus pulmões eram tomados de fogo. Um fogo tão alto e tão intenso que minha visão ficou embaçada. Socorro. Por favor, socorro. Não consigo respirar. Gritos de menino, as mãos dele, a boca pressionada na minha, tentando forçar um pouco de vida dentro de mim, apesar de ser tarde demais. Lágrimas, gritos e beijos, e o portão do cemitério se fechando, me trancando lá dentro. Não me deixe aqui. Por favor, não me deixe aqui sem você. ~ 325 ~


Meu corpo inteiro tremia. Voltei ao questionário e olhei novamente. CAUSA DA MORTE: Sui Caedere — Sui caedere. — Li de novo e de novo, até que as palavras se juntassem e formassem uma só. S-U-I-C-A-E-D-E. O papel escapou dos meus dedos. — Ele mentiu para mim — falei. Patrick não tinha morrido num acidente. Tinha se matado. Meus olhos se encheram de lágrimas. Mas, por quê? Por que ele mentiria sobre isso? Cavando. Me deixem sair. Arranhando. Socorro. Agarrando. Por favor. Silêncio. O tempo parado. Podridão. Escuridão. Infinito. A voz de um menino escorrendo por entre as fendas. Silêncio, primeiro, depois tudo misturado com o cheiro enjoativo de gasolina e lágrimas. Por favor, a voz dizia, não me deixe. Não posso viver sem você, Anjo. Pelo canto do olho, vi outro pedaço de jornal no arquivo do Patrick. Minha mente foi tomada de pânico, peguei o jornal e conferi a data. ~ 326 ~


5 de julho de 1983. Uma semana anterior ao outro. Perdi o ar quando vi a foto central e assustadora. Uma pilha de metal ardendo em chamas, guidão esmagado, pneus queimados, o assento desfigurado na minha frente, numa fotografia apagada. Um passeio dos sonhos numa tarde na Highway 101 que se transformara em pesadelo. Minha voz estremeceu quando li a manchete. UMA COMUNIDADE EM LUTO NAMORADOS SEPARADOS POR ACIDENTE DE MOTOCICLETA Mas meus olhos não conseguiam deixar de pular para outra coisa. A foto menor de um menino e uma menina. A tinta já quase totalmente apagada, eu precisei apertar bem os olhos para ver direito. Patrick. Lá estava ele, com a mesma jaqueta de couro, o jeans surrado e um sorriso de matar. Atrás dele — os braços em volta da sua cintura — estava o seu amor. Lily. Lá estava ela. A garota que Patrick amara tanto que esperava por ela havia 27 anos numa pizzaria nojenta deste lado do céu —, desejando, implorando, rezando para que ela entrasse por aquela porta e fosse direto para seus braços. Olhei mais atentamente e segurei o jornal tão perto dos olhos que meu nariz praticamente tocou nele. Não tinha certeza do que estava procurando, até que, de repente, eu vi.

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O cabelo escuro e ondulado dela. O sorriso feliz. O rosto tão livre, tão frágil, tão cheio de possibilidades. Não consegui desgrudar os olhos. Porque a garota na fotografia era eu.

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Capítulo 42 Wake me up inside —

Isso não faz sentido. Simplesmente não faz sentido.

Me concentrei tanto na fotografia que pensei que meu cérebro fosse explodir ou que meus olhos fossem pular para fora, talvez as duas coisas ao mesmo tempo. — Como pode ser? Como ELA pode ser eu? Como? Como eu — uma garota comum com uma vida comum — poderia ser duas pessoas ao mesmo tempo? Será que eu fui reciclada? Reformada? Como quando minha mãe e meu pai reformaram o sofá da sala? (Ou, esperem, será que o termo é reestofada?) Deus, a morte é tão confusa! Respirei fundo, tentando me acalmar. — Deve existir uma explicação lógica — disse para mim mesma. — Deve existir uma explicação racional. — Então, lembrei que estava sentada no ponto mais alto da ponte Golden Gate e morta havia quase um ano. Explicação não exatamente racional. Ou talvez estivesse morta havia trinta anos. Levei a mão ao coração, como num juramento à bandeira.

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— Bata — ordenei a ele. Bati com a mão direita no peito. — Bata. — A resposta foi um som surdo, oco. Tentei novamente. — Bata! — E novamente. — Mandei bater, coisa idiota. BATA! — Mas nem sinal de pulsação, nem uma centelha, nem um suspiro ou movimento. Só um nada triste e silencioso. Joguei a cabeça para trás e gritei com toda força: — Cadê você? Por que não me disse nada? Patrick não respondeu. A linha telefônica entre nossas mentes estava definitivamente fora de serviço. Deixei meu corpo pesar sobre os cotovelos e baixei a cabeça sobre a plataforma de metal. No fundo, eu sabia a verdade. Ele tinha me dito, ou tentado me dizer. Eu simplesmente não quis escutar. Detestava

a

ideia

de

ser

incapaz

de

me

comunicar

com

ele. Detestava não saber para onde tinha ido. Mas procurei em toda parte. Fui a todas as extremidades do meu pedaço de céu — vasculhei cada estrada, cada floresta, cada ponte e cada montanha que me veio à cabeça. Onde mais ele poderia estar se escondendo? Qual seria o lugar onde ele teria certeza de que eu não pensaria em procurar? Fiquei assistindo ao mundo se movendo e gemendo a mil pés abaixo de mim, através das barras de metal cor de laranja. Virei para o lado — nordeste — e percebi uma ilha isolada a quilômetros de distancia, logo depois de Sausalito, logo abaixo de Tiburon. O sol poente tinha coberto a baía de um brilho etéreo e, por instantes, a ilha pareceu se iluminar — uma chama flutuante de vermelho e laranja sobre águas profundas, cinzentas. Em seguida, o sol respirou fundo e afundou entre as ondas e a cor do céu mudou de dourado treme~ 330 ~


luzente a azul-escuro. Nuvens de chuva começaram a se aproximar, vindas do norte — de lugares como Oregon e Vancouver —, e a ilha mergulhou em sombras. Uma silhueta de árvores. Fiquei de pé, hipnotizada. Que lugar é aquele? De repente, as palavras de Larkin voltaram para mim, pequenos sussurros trazidos pelo vento. E naquele momento, eu soube onde encontrá-lo. Ilha do Anjo. Para onde os mortos vão na hora de morrer. Não havia tempo para me perguntar se era tarde demais. Eu me posicionei na beirada da torre do norte, ergui os braços acima da cabeça, numa pose perfeita de mergulho, e deixei meu corpo ir. Mas dessa vez eu não caí. Eu flutuei. Voei como louca, contra o vento, contra a neblina e os últimos vestígios da luz do dia, até meus pés tocarem, como patas de gato, a praia fria e rochosa. Na penumbra, podia ver as silhuetas dos carvalhos gigantes circundando a borda mais alta da praia, suas cascas avermelhadas descascando como papel. Não sabia muito bem para onde ir ou onde o encontraria, mas resolvi ficar pela praia por um tempo, pelo menos até que conhecesse um pouco melhor a ilha. Aquela aglomeração de árvores realmente não parecia muito amigável. — Isso — disse para mim mesma. — Com certeza é melhor ficar pela praia. ~ 331 ~


Principalmente no escuro. Mas, quando comecei a caminhar, com a lua escondida atrás de uma cortina de névoa, foi impossível não reparar na quantidade de destroços espalhados por toda parte. Troncos, pedregulhos, pedaços de madeira, tudo isso fazia com que andar sem tropeçar fosse cada vez mais difícil. Era como se um tornado tivesse destruído completamente aquele lugar. O barulho dos meus sapatos amassando as pedras e a areia também começava a me enlouquecer. O medo começou a se alojar na minha mente como se cada ruído ecoasse cinco vezes mais alto. De repente, tive a sensação de que minha empreitada tinha sido uma péssima ideia. Então, meu pé direito encostou em alguma coisa — talvez um galho — e eu quase caí de cara na areia, mas consegui me equilibrar sobre os joelhos. Foi então que percebi uma coisa estranha. A areia tinha um cheiro… esquisito. Quase metálico. Peguei um punhado e senti os grânulos nos dedos. — O que é isto? — Então reconheci o odor e joguei a areia fora o mais rápido que pude. Sangue. A areia tem cheiro de sangue. Veio uma onda que ensopou minhas mãos, meus joelhos e meus sapatos. O cheiro se intensificou. — Meu Deus. — Fiquei de pé e vi a água deixar rastros vermelhos na areia, recuando. — Está… está na água. Em todo lugar. — Uma sensação de ameaça tomou meus braços e pernas, paralisando-os. Eu queria sair correndo daquela ilha. Agora. ~ 332 ~


Tentei me virar, mas tropecei num pedaço enorme de madeira e caí para trás. Ouvi um gemido na escuridão e, naquele momento, tudo o que consegui saber era que o gemido não era meu. Congelei, me sentindo tão tonta e enjoada de medo que mal conseguia respirar. — Que-que-quem está aí? — Forcei as palavras a saírem da minha boca depois de um segundo de puro terror. Devagar e o mais silenciosamente possível me ergui, limpando das mãos os pedaços endurecidos de areia. Ninguém respondeu. Será que tinha sido minha imaginação? A lua escapou da neblina e lançou um clarão fantasmagórico sobre a orla. Olhei mais atentamente para os pedaços de madeira trazidos à praia pela água. Mas não eram pedaços de madeira. Eram corpos. Centenas e centenas deles, espalhados pela areia — os membros torcidos e enroscados como galhos partidos de árvores; as costelas e escápulas completamente visíveis através das peles finas como papel; os rostos pálidos, sem vida, brilhando como neve ao luar. Fiquei sem ar e comecei a tremer violentamente, tentando absorver aquela cena. Era pior do que qualquer coisa que já tivesse lido em qualquer livro. Para onde quer que eu olhasse, ao longo de quilômetros, havia um mar de rostos. Um mar de almas partidas, miseráveis — nuas, sangrando, monstruosas, virando pó diante dos meus olhos. Ou areia. Comecei a espanar a sujeira do meu vestido, dos braços e do rosto, freneticamente. Mas, quanto mais eu tentava me livrar, mais a areia pa~ 333 ~


recia grudar na minha pele. Nos meus sapatos, no meu cabelo, debaixo das minhas unhas, na minha boca. Tossi e cuspi, de novo e de novo, tentando tirar os vestígios daquilo da minha língua, mas só consegui sentir gosto de terra e ferrugem. Só sentia a umidade saindo dos meus poros, minhas mãos ficando vermelhas. — Cadê você? — gritei. — Patrick, por favor, responda! Foi então que comecei a ouvir vozes. “Sou inocente… juro pelo que há de mais sagrado que não fiz isso.” “Você tem que me perdoar. Por favor, ninguém vai me perdoar?” “Mãe? Mãe, é você?” “Você mentiu para mim. Você mentiu bem na minha cara…” Falavam e gritavam ao mesmo tempo — vozes altas, incoerentes e displicentes demais para que eu entendesse metade do que diziam. Andei em meio a elas, procurando um sinal dos olhos ou do sorriso dele. Meus pés continuaram a esmagar e chutar enquanto eu caminhava, mas agora eu sabia que não estava pisando em conchas do mar. — Patrick? — chamei, desesperada. — Você está aí? — Cuidado — disse alguém quando meus pés se aproximaram demais. — Desculpa! — Pulei, saindo do caminho, mas acabei passando por cima de outra pessoa. — Ei! — Desculpa, desculpa. Não foi minha intenção…

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Continuei vasculhando aqueles rostos, na esperança de uma centelha de reconhecimento. — São todos iguais. — Entrei em pânico, virando os corpos endurecidos para conferir se não eram de um menino de 17 anos. — São todos absolutamente iguais! — Não somos. — Ouvi a voz de uma menina murmurar baixinho. Levantei a cabeça e vasculhei a praia com os olhos. — Oi? — gritei. — Quem está aí? — Caminhei na direção do som, passando por cada alma até chegar a uma silhueta de cabelo comprido e crespo, preso numa trança. Eu me ajoelhei e virei o corpo. E, quando os olhos solitários dela encontraram os meus, caí em prantos. Larkin. — Brie. — A voz quase um sussurro. — Achei que nunca mais fosse ver você. — O que você está fazendo aqui? — Fiquei de joelhos e fiz o possível para ajeitar a cabeça dela no meu colo. — O que aconteceu? Ela me encarou sem piscar e, por um minuto, pensei ter imaginado o som da sua voz. Então seus lábios tremeram novamente e percebi que tentava falar. — Eu não podia ficar sozinha novamente. Não havia mais nada para mim na cidade. — Me desculpe — falei, arrasada. — Eu não quis magoar você. Não queria que nada disso tivesse acontecido. — Jura? — disse ela. — Verdade? ~ 335 ~


Tirei a areia de seu rosto e vi em que ela se transformara. Não passava de uma sombra da menina que pulava de arranha-céus. Da menina que me ajudara a tomar conta de mim mesma e que me mostrara que eu era mais forte do que pensava. Não sobrara quase nada de Larkin Ramsey. Ela estava se transformando em pó diante dos meus olhos. — Vai ficar tudo bem. — Tentei animá-la. — Vou tirar você daqui. — Brie — sussurrou ela. — Eu incendiei a minha casa naquela noite. Você sabia? Olhei para ela, confusa. — Você não tem que se culpar, Larkin. Todo mundo sabe que foi a vela. Todo mundo sabe que foi um acidente. Um acidente horrível. Só isso. Ela balançou a cabeça. — Fui eu, não foi acidente. Eu fiz de propósito. Eu queria morrer. — Não. — Sacudi a cabeça. — Por favor, não diga isso. — É verdade. — Larkin sorriu, tristemente. — Eu sempre fui muito sozinha. Sempre me senti só. E resolvi tomar uma providência. — Ela deixou escapar uma ligeira gargalhada. — Depois, é claro que descobri que o outro lado é mil vezes mais solitário. — Seu tom ficou amargo. — Mas agora não dura uma vida, dura para sempre. — Ela estendeu a mão e segurou a minha. — Chato ser eu, não é? — Mas, no seu enterro… — disse eu, lembrando da noite no auditório, alguns anos antes da minha morte. — Tinha tanta gente lá que gostava de você.

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— Eles não gostavam de mim — disse ela. — Eu estava lá. Eu vi a expressão de culpa no rosto das pessoas. A maioria mal tinha se dado o trabalho de me conhecer melhor. As palavras dela me impactaram. Lembrei de reparar a mesma coisa no meu próprio enterro; eu não conhecia muita gente que apareceu para demonstrar respeito. E isso me pareceu muito estranho. Exatamente como Jacob, Larkin fez com que me desse conta de que não importa o quanto você imagina conhecer alguém — não importa o quanto a pessoa é bonita, ou o quanto parece equilibrada, popular, nunca se sabe realmente como é a vida dela. A não ser que você pergunte. A não ser que você seja capaz de escutar. — Por que você não me contou? Por que não me contou o que tinha acontecido? O corpo dela se tornara tão translúcido que começava a se misturar à areia. — Eu não sei — disse ela, baixinho. — Acho que, às vezes, lembrar dói demais. — Larkin, eu… — Por isso eu voltei — interrompeu ela, segurando meu braço com mais força do que antes. — Por isso eu resolvi entregar minha alma para voltar e tentar consertar as coisas. Mas era uma armadilha. Eu tentei fazer escolhas diferentes, juro por Deus, mas isso não mudou nada. As pessoas continuaram não me enxergando. Continuaram agindo como se eu fosse invisível. — Começou a soluçar. ~ 337 ~


— Tudo bem — falei baixinho, com suavidade, tentando confortá-la. — Estou aqui. — Foi como eu consegui isso. — Apontou para a tatuagem. — Foi assim que virei uma Alma Perdida. Um minuto. Alma Perdida? Onde eu tinha ouvido isso? De repente, algo me ocorreu. As pinturas de grafite que eu vira pela cidade, como no muro perto do Rabbit Hole. Era o mesmo símbolo tatuado no braço da Larkin. — O pior — o queixo dela começou a tremer enquanto falava — é que eu ia fazer a mesma coisa com você. — Tremia tanto que eu mal podia ouvi-la. — Eu ia tentar roubar a sua alma, Brie. Ia usar a sua alma para tentar me salvar. Recomeçar… viver novamente… de verdade. Minha cabeça estava rodando. — Você quer dizer… você está falando de reencarnação? Ela concordou lentamente. — Almas perdidas ficam se esgueirando pela Terra desse jeito por milhares de anos. Barganhando uma essência de alma nova, uma possessão que possa fazer uma conexão com a vida antiga, para recomeçar como outra pessoa. — Sorriu, desanimadamente. — Como se fosse uma carta de alforria. A essência de outra pessoa. Uma possessão que as conecte com a vida antiga. Toquei no meu pescoço. Meu colar. — Mas o chato — continuou ela — é que alguém tem que dar a alma de presente, para funcionar. E se a pessoa não dá… você tem que ~ 338 ~


pegar. — Fez uma pausa, e percebi a vergonha velada na sua voz. — Você tem que roubar. Roubar? — Desculpa — disse ela. — Eu queria tanto uma segunda chance. — Seus olhos imploravam pelo meu perdão. — Eu queria ser qualquer pessoa, menos eu. Eu não entendia. Como uma garota tão linda, inteligente, divertida pode ter se sentido tão sozinha por tanto tempo? Pior, como pode ninguém ter notado? Meus olhos se encheram de lágrimas. — Se eu soubesse, as coisas poderiam ter sido diferentes. Eu queria poder ter estado do seu lado. Queria ter feito alguma coisa… — Mas você fez. Você fez alguma coisa. — Não. — Balancei a cabeça. — Não fiz. — Eu sempre quis — prosseguiu ela —, mais do que tudo, ter uma irmã. E depois que você me encontrou na cidade, eu tive uma. Tive meu desejo atendido. Obrigada. — Ela apertou minha mão e tentou sorrir. Então, tocou no meu rosto, a mão mal conseguia estar ali. — Você faria mais uma coisa? Por favor? Assenti. — Qualquer coisa. — Não se esqueça de mim. — Seus olhos brilharam e pude ver que ela estava com medo. — É muito fácil esquecer das pessoas aqui. Não se esqueça de mim, Brie. ~ 339 ~


— Shh. — Silenciei-a. — Não fale assim. Vai ficar tudo bem. Você vai ficar bem. Mas, enquanto as palavras saíam da minha boca, eu senti que ela começava a ir embora. Senti sua mão relaxar, escapando da minha, caindo na areia. Vi seus olhos flutuarem uma vez, depois ficarem imóveis. — Larkin? — Minha voz ecoou pela praia. — Larkin? — Sacudi-a, mas ela não se moveu. Debrucei-me sobre ela e a envolvi nos meus braços, lágrimas rolando pelo meu rosto. — Por quê? Por que todo mundo sempre vai embora? Naquele momento, senti um calor no pescoço. Olhei para baixo e percebi uma luz suave, azul. Meu colar estava brilhando. Um relâmpago iluminou o céu a distância e o vento ganhou força. As vozes à minha volta estavam em silêncio, como se devessem respeito à morta. Toquei no rosto dela e beijei-a na testa. — Não vou esquecer — eu disse. — Prometo. Então, usei meu dedo para escrever seu nome na areia. Larkin Ramsey Amiga e irmã Peguei uma florzinha no meio das pedras e coloquei na mão dela. Depois, limpei a areia do meu rosto e vasculhei a praia com os olhos. Eram tantas almas destruídas. O que acontecera com elas? Amor, me dei conta. O amor aconteceu. ~ 340 ~


Qualquer uma delas poderia ser Patrick. Eu tinha que encontrá-lo, mas como? Não seria possível conferir cada rosto. E, mesmo que eu conseguisse fazer isso, não suportaria vê-lo no estado deplorável em que encontrara Larkin. Não sabia o que aconteceria comigo, caso tivesse que me despedir num lugar como aquele. Olhei para o céu e imaginei-a voando em outra galáxia. Brilhando. Talvez no momento em que estivesse nascendo de novo como outra pessoa. Alguém com uma vida inteira pela frente e um novo começo. Já que, aparentemente, a opção era essa. Olhei para as estrelas e me perguntei se ela poderia me ver agora. Desejei que estivesse feliz, fosse onde fosse. E desejei que estivesse livre. De repente, vi alguma coisa se mover ali perto. Virei-me e focalizei o lado oeste da ilha, onde uma montanha enorme se projetava sobre o oceano. — É você? — sussurrei. — É você, de verdade? Você cai, eu caio, lembra? Lá, de pé na ponta do mundo, o rosto na direção do céu, estava Patrick.

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Capítulo 43 We belong to the light, we belong to the thunder.

Corri. Corri o mais rápido que pude debaixo da chuva, atravessando ondas numa orla cheia de mortos-vivos. Por onde eu pisava, corpos em agonia tentavam agarrar minhas pernas, querendo me puxar, para que me juntasse a eles. Via a mim mesma sufocando em suas bocas abertas, nos braços invisíveis, em milhões de sonhos e memórias esquecidos. E eu sabia que, se não corresse rápido o bastante, logo seriam milhões… mais uma. Não consegui velocidade suficiente para voar diretamente para ele, e o ar estava estranho — pesado e estagnado, como se as regras fossem diferentes ali. Corri para a floresta, me escondendo nos arbustos até chegar na estrada. O asfalto estava quase todo coberto de folhas e as árvores dos dois lados tinham se juntado e formado uma copa enorme que escondia a lua. Mas uma estrada é melhor do que nada. Fui até o meu limite, abrindo caminho até a única montanha da ilha. Finalmente, cheguei numa clareira que dava para um espaço aberto onde se via a noite sobre o Pacífico em um panorama completo. E ali, bem na minha frente, um garoto. ~ 342 ~


As costas completamente nuas – não consegui evitar uma careta quando vi como ele estava transparente –, a chuva literalmente molhando seus ossos. Como se a luz dentro dele tivesse se apagado quase completamente. Suas palavras ecoaram dentro da minha cabeça. Você não sabe que eu te amo? A resposta era sim. Porque eu também o amava. Ele não me viu logo, e fui até ele lentamente, sem querer assustá-lo. — Patrick? Mas ele não ouviu minha voz. A tempestade agora fazia barulho demais. Fui até ele. Estendi meu braço, mesmo com a chuva e o vento atacando meus ombros. Quando as pontas dos meus dedos finalmente tocaram seu braço, senti uma onda de calor inacreditável. Olhei para baixo e vi que minha mão refletia o mesmo brilho azulado, pálido, da minha gargantilha, como se minhas veias fossem poeira estelar. Senti o corpo de Patrick retesar em resposta ao meu toque. — Sou eu — falei. — Estou aqui. — Por quê? — A voz dele estava rouca. — Eu não te pedi que viesse. — Patrick, eu… — Melhor você ir embora. Aqui não é seu lugar. — Espera — eu disse. — Você não entendeu. — Entendi. — Ele baixou a cabeça. — Foi besteira minha esperar tanto tempo. Aguentei tantos anos — disse. — Não valeu a pena. — Não diga isso. Por favor. Senti seus ombros se curvarem. ~ 343 ~


— Eu sabia que um dia você ia atravessar aquelas portas — sussurrou ele. — E finalmente você apareceu. Finalmente voltou para a minha vida, depois de quase trinta anos… e não me reconheceu. Não me reconheceu de maneira nenhuma. — Como eu poderia? — implorei. — Patrick, eu não era mais a mesma menina. Ele fez um gesto afirmativo. — É verdade. Não é a mesma. Agora sei. — Não foi isso que eu quis dizer. Você não está escutando. — Foi idiotice minha achar que um dia teria você de volta. Que as coisas poderiam ser como eram. — Fez uma pausa, olhando para o horizonte. — A culpa é minha. Eu estraguei tudo. — Você não entende? — falei. — Você não tem que se desculpar de nada. Você não fez nada errado. — Eu fiz tudo errado. Você não queria sair de moto naquele dia… Você estava apavorada. Mas eu sabia que ia adorar a sensação, se experimentasse. Então, te convenci a ir. — Sua voz ficou embargada e ele baixou a cabeça. — Você morreu por minha causa. E, se nós dois não pudemos ficar juntos, a culpa é minha. — A motocicleta — sussurrei. — O pesadelo era real. — Encostei minha cabeça nas costas dele e passei os braços em volta daquela alma transparente. — Você pode me perdoar um dia? — murmurou ele. Apertei-o o mais que pude. — Você não precisa do meu perdão. Precisa do seu. ~ 344 ~


Um trovão gigantesco ecoou sobre nossas cabeças e senti que ele se virava na minha direção. Senti suas mãos no meu rosto. E quando abri os olhos, não acreditei no que vi. Finalmente vi o que ele escondera por tanto tempo, debaixo da camiseta e da jaqueta de couro. Finalmente compreendi por que ele quase nunca tirava aquele casaco na minha frente. Agora eu via que a cicatriz no braço dele — por mais profunda, desigual e horrível que fosse — não era NADA. Nada, se comparada ao resto. O peito de Patrick era todo coberto de terríveis ferimentos de faca. Como se ele tivesse sido atingido mil vezes por uma lâmina afiada — e isso não fora um acidente. — Meu amor — sussurrei. — O que foi que você fez? — Lágrimas quentes ardiam nos meus olhos enquanto eu passava os dedos nas cicatrizes, beijando-as uma a uma. — Sui caedere — disse ele. — Eu não podia viver sem você. Toquei seu rosto. Aproximei minha testa, de maneira que ficássemos a pouquíssimos centímetros de distância. Olhei profundamente nos olhos dele, tentando diminuir a distância entre nós. — Desculpa, Patrick, eu nunca quis ferir… O céu se iluminou com um relâmpago e um raio atingiu a praia abaixo de nós, queimando algumas árvores. Em segundos, a ilha começou a pegar fogo. — Você não me reconheceu — disse Patrick. — Eu queria tanto te contar, mas tive medo de que achasse que eu era louco. — Fez uma pau~ 345 ~


sa. — Você sabe, mais louco do que você já achava. — Sorriu bem de leve, e naquele sorriso eu vi toda a nossa catastrófica história diante dos meus olhos. Todos os dias que passamos juntos. Todos os planos que fizemos. A maneira como ele chorou e me carregou nos braços minutos depois do acidente, como implorou aos céus para morrer no meu lugar. Revivi cada momento e cada lembrança, e lembrei das palavras de Patrick quando a minha vida se esvaía naquele dia lindo de verão de 1983 — o que sobrara da motocicleta ainda em chamas na estrada, do nosso lado. Espere por mim, para sempre. Espere por mim, sempre. — Sempre e para sempre — sussurrei. A mesma promessa que fiz para minhas melhores amigas, numa vida completamente diferente. Sadie, Emma e Tess. Todas prestes a descortinar seus caminhos, suas dificuldades e suas dores do coração. Senti meu colar esquentar em volta do pescoço, como sempre acontecia quando eu pensava nelas. Mas agora não doía. Agora, a memória me deixava feliz. — É você, de verdade? — Patrick me apertou. — Achei que nunca ia lembrar. A guerra é doce para aqueles que nunca lutaram. — Agora eu lembro. — Olhei dentro daqueles olhos profundos, escuros, familiares. — E nunca mais vou esquecer. — De repente, senti uma parede de concreto dentro de mim se abrir, finalmente. Senti que meu interior congelado finalmente começava a derreter. — Talvez a gente possa recomeçar — falei, estendendo a mão. — Oi, meu nome é Brie. Ele riu um pouco, depois apertou minha mão. ~ 346 ~


— Patrick. — É um prazer conhecer você. Ele sorriu. — Mais uma vez. Eu me aproximei devagar para o que imagino que seria, literalmente, O Melhor Beijo de Todos Os Tempos. Mas, um segundo antes de nossos lábios se encontrarem, outro raio atingiu a terra e nos separou. Agarrei a mão dele, mas era tarde demais — a força do raio já jogara Patrick de costas na beira do abismo. Fora do meu campo de visão. — NÃO! Eu me arrastei o mais rápido que pude até lá. E, quando olhei para o lado, vi que estava pendurado. Segurei a mão dele com todas as forças. — Patrick! O fogo começou a se espalhar abaixo de nós. Mesmo com a chuva constante, a orla agora estava quase totalmente tomada pelas chamas – centenas de pobres almas à morte se debatendo em agonia. Larkin. A Larkin está lá embaixo. O fogo lambeu os pés de Patrick e vi a dor no rosto dele. — Não posso, Brie! Estou caindo! Senti que seus dedos começavam a escapar dos meus enquanto eu chorava. Busquei forças dentro de mim, fechei os olhos para arrancar as últimas energias que tinha. Depois do que pareceram horas, finalmente consegui trazer metade do corpo dele para cima do abismo. Dei mais um puxão forte até trazê-lo inteirinho para o chão. Ficamos os dois ali deita~ 347 ~


dos, recuperando o fôlego, a chuva caindo sobre nós como um lençol gelado. — Se você queria sair comigo — disse ele, tossindo —, bastava pedir. — Vou lembrar disso da próxima vez — respondi. Patrick se sentou e, pela primeira vez, olhei atentamente para o ombro dele. Ali, cravada na pele, estava a mesma marca que Larkin tinha — um círculo pequenino com um X bem grande no centro. Minha mente voltou ao dia do nosso primeiro encontro. — Meu nome é Patrick… Alma Perdida Residente. — Você é um deles — disse eu, triste. — Eu faria tudo outra vez se fosse preciso. Então era verdade. Ele entregara sua alma. E fizera isso por mim. Agora eu entendia que estava preso, era um prisioneiro eterno do Além. Nunca andaria para a frente. Nunca encontraria aceitação. Nunca teria paz. Ele baixou a cabeça. — Era minha única opção, Anjo. Sua vida tinha acabado de começar. Você merecia uma segunda chance. — Ele passou a mão no meu cabelo, grudado no rosto pela chuva. — Era a única maneira de compensar você, Lily. Você nunca quis subir naquela moto idiota.

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Senti o cheiro do fogo se aproximando. Quase na beira do abismo. Em menos de um minuto, não importaria mais se a tempestade nos destruísse. Ainda assim teríamos que lidar com o inferno. Quando olhei nos olhos de Patrick, finalmente entendi por que ele me pareceu tão familiar desde o primeiro momento. Por que a voz dele me pareceu tão familiar. Não era porque ele me lembrava o Tom Cruise em Top Gun — Ases indomáveis e não era porque ele tinha uma queda por apelidos relacionados a queijo. Era porque — na vida, na morte e em tudo que existe no meio — Patrick sempre estivera ali. Sempre estivera ali por mim. E, de repente, eu soube o que tinha que fazer. Sem um segundo para pensar, tirei o colar do meu pescoço e estendi-o para o céu. Era a minha vez de fazer o sacrifício. Ele desistira de tudo por mim e era a minha vez de desistir de alguma coisa por ele. Porque o amor vale a pena. — Meu coração pertence a você — sussurrei. — Sempre pertenceu a você. — Espere — disse ele, buscando a minha mão. — Não, Anjo! Um raio cheio de calor atingiu em cheio o colar, mandando bilhões de volts para dentro dos nossos corpos. Senti que fui apartada dos braços de Patrick e caí mais uma vez, atravessando o tempo, o espaço, as estrelas, o céu e tudo mais que existisse no meio. Caí até esquecer que estava caindo.

~ 349 ~


Então, a Baía de São Francisco — o céu acima e o inferno abaixo — explodiu em luz.

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Capítulo 44 Somewhere over the rainbow

Eu me sentei, buscando ar. Mas o único som que escutei foi o ruído arranhado do meu ventilador de teto, a correntinha dourada balançando e batendo nas pás de forma ritmada. Bate-gira, bate-gira, bate-gira. Dei um pulo na cama, arfando, exausta e absolutamente feliz por estar a salvo, quentinha, na minha própria cama, com meu travesseiro de penas de ganso. Meu estômago roncou e senti o cheiro delicioso que vinha da cozinha. Hum, a Melhor Lasanha do Mundo. Esfreguei os olhos, bocejei e percebi o brilho suave da noite atravessando as cortinas brancas de linho do meu quarto. Nada de tempestade. Nada de trovões ou raios ou ilhas em chamas. Só meus lençóis limpinhos de algodão e meu travesseiro perfeito. Tudo sedoso, macio e maravilhosamente suave debaixo da minha pele. Meus lençóis. Minha cama. Minha cama maravilhosa, incrível. Ei, um segundo.

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Sentei-me com tanta rapidez que quase desmaiei. Meus sentidos estavam em chamas, meu pulso acelerado, meu coração batendo a quilômetros por hora, e eu… Esperem. Levei a mão ao peito e apertei. Lá estava. Um calor que irradiava, seguido de batidas extremamente determinadas, bastante audíveis. — Ah. Meu. DEUS. Meu coração batia. Isso, eu tinha um coração. E ele estava BATENDO. Antes que pudesse começar a processar o que estava acontecendo, uma voz familiar me chamou, lá de baixo. — Brie? Meu amor? Você tiraria os pratos da lavadora antes de sair, por favor? Congelei. Mãe? Dei um pulo da cama, ainda de vestido. Abri a porta do quarto e desci em direção à voz dela. Tudo parecia exatamente igual. O barulho abafado dos meus sapatos pisando o chão acarpetado do segundo andar da casa. A luz aconchegante do abajur antigo que meus avós nos deram de presente anos atrás. Os porta-retratos do corredor. Jack no aniversário de 6 anos, eu fazendo 12. Mamãe e papai na lua de mel. Hamloaf filhote. O mesmo rangido na mesma tábua de sempre, as toalhas brancas fofinhas me encarando do banheiro. Tudo no lugar certo.

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Desci a escada correndo, pulando os dois últimos degraus, como sempre fazia. Lírios na mesa de jantar, arrumados no vaso verde horrendo feito por mim para minha mãe quando estava no sétimo ano. Os óculos escuros do papai na mesa da entrada. O cheiro das flores misturado ao do amaciante de roupas — o cheiro mais gostoso do mundo. A voz do Paul Simon saindo das caixas de som. “Hearts and Bones”. A favorita da minha mãe. Ouvi as unhas de Hamloaf arranhando o chão da cozinha, depois o da sala de TV, depois o da sala de estar, correndo na minha direção, absolutamente incontrolável. De repente, ele estava nos meus braços, me cobrindo de beijos caninos e pensei que fosse desmaiar de tanta felicidade. — Hammyyyyy! Ele arfava, gania e latia como se não me visse naquela casa havia muito, muito tempo. Porque isso era verdade. — O que foi que deu nele? — Jack entrou na sala de TV e se jogou no nosso sofá grande e confortável com o Nintendo nas mãos. Ah, Jack. Meus olhos se encheram de lágrimas quando pensei no Sam — naquele rostinho cheio de sardas —, sentindo tanta saudade do irmão. Num segundo, cruzei o tapete, aterrissei em cima dele e ataquei meu irmão com mais abraços e beijos do que já lhe dera a vida inteira. (E dera muitos.) Ele gritou de tanto rir e caímos no chão, lutando, nenhum dos dois sentindo nenhuma dor. ~ 353 ~


— Brie e Jack Eagan, chega! — Mamãe ria na porta da cozinha, secando as mãos com uma toalha. Olhei para cima. O cabelo escuro dela e os óculos de grau, as bochechas rosadas e os olhos verdes. Era tão linda. Imediatamente, saí do tapete e abracei minha mãe com toda força, como não fazia havia anos. E ela percebeu. — Meu amor? — Colocou a mão na minha testa. — Você está se sentindo bem? Tudo que pude fazer foi concordar. Estava chorando muito para dizer qualquer outra coisa. Ela se afastou um pouco e segurou meu rosto. — Ah, meu amor. — Tirou o cabelo dos meus olhos. — Por que você está chorando? É você mesmo? De verdade, honestamente, é você? Balancei a cabeça. — Desculpa — falei, engasgada. — Eu só estava com muita saudade de você. — Abracei-a novamente, sem querer largá-la. Nunca mais. — Você sentiu saudade de mim? — Ela riu, pega de surpresa por aquela demonstração súbita de carinho. — Meu amor, eu realmente espero que você não esteja doente. Balancei a cabeça, confirmando que não. — Você vai usar esse vestido hoje à noite? — murmurou ela no meu ouvido. — Fica lindo em você. — Como assim? — perguntei, sem me mexer. — Usar o vestido para quê? Ela riu. ~ 354 ~


— Uau. Você realmente está esquisita. Hoje à noite não é o grande encontro? Com um certo namorado? Namorado? Minha mãe apontou para o relógio de parede da cozinha. — Minha flor, o Jacob não vem te pegar às 20 horas? Eu me afastei e senti que meu rosto empalidecia. — Que dia é hoje? Dessa vez, devo ter feito uma cara realmente esquisita. — Quatro de outubro. — Ela cruzou os braços. — Tudo bem, agora eu fiquei preocupada. O que está acontecendo com você? Corri até a cozinha e peguei o jornal no balcão. Quatro de outubro, exatamente como ela dissera. Olhei novamente e uma sensação de pavor tomou conta da minha garganta. 4 de outubro de 2010. Ano passado. Então, me dei conta. Estou revivendo tudo. Estou REALMENTE revivendo a noite da minha morte. Larguei o jornal e me afastei lentamente. — Não estou me sentindo muito bem. — Dá para notar. — Mamãe se aproximou e começou a juntar as páginas espalhadas do jornal. — Escute, meu amor, eu posso resolver isso para você. Que tal telefonar para o Jacob e cancelar? Jacob. ~ 355 ~


— Ele está vivo? — sussurrei. Ela me olhou, estranhando. — Brie, isso não é engraçado. Não se brinca com uma coisa dessas. — Ela começou a tirar os talheres da máquina de lavar louças. — Olhe só, eu vou fazer isso, mas realmente gostaria que você arrumasse a cozinha na volta, tá? — Começou a guardar os talheres na gaveta. — E não se esqueça de que eu e seu pai queremos você em casa às 23 horas, no máximo. Estou falando sério, se for se atrasar, nem que seja um minuto, precisamos saber. — Mas eu não… — Nem mais nem meio mais — disse em tom firme. — Compramos um celular para você por um motivo. Não foi para que pudesse mandar torpedos para Sadie e as meninas durante a aula. Por favor, ligue para a gente se for chegar mais tarde. Ou melhor… — Cruzou os braços. — Não chegue mais tarde. Jack entrou na cozinha feito um furacão, Hamloaf trotando às suas costas. Ele abriu a geladeira e pegou um refrigerante aberto, que eu tirei imediatamente das suas mãos. — Hummm! — disse, ainda engolindo. — Delícia! Meu Deus, como isso é bom. — Ei! — Jack cruzou os braços. — Mãe! — Brie, pare de provocar seu irmão. Tem uma caixa cheia aí dentro, você pode pegar uma inteira, meu amor. Devolvi a bebida para Jack. — Foi mal. Mas tinha uma cara tão boa que não resisti. ~ 356 ~


Então, ouvi o barulho da porta da garagem se abrindo. O som de um carro entrando, seguido do som do motor sendo desligado. Depois passos, porta abrindo e… — E aí, campeão? O que foi que a gente combinou ontem? — Papai entrou na cozinha carregando algumas sacolas de compras, ainda de jaleco branco. Hamloaf pulou em cima dele. — Oi? — resmungou Jack, terminando de tomar o refrigerante. — Sua bicicleta? Jack parou por um segundo, tentando lembrar. Depois seu rosto se abriu no sorriso mais fofo do mundo. — Ih! Esqueci! — Correu lá para fora para guardar a bicicleta na garagem. — Como foi o dia, amor? — Mamãe deu um beijo rápido na boca do meu pai e pegou as sacolas que carregava. — Obrigada. — Ela olhou o conteúdo das bolsas. — Você trouxe minha berinjela, amor? — Ahã. — Ele fez que sim, sem se dar o trabalho de levantar o rosto, enquanto conferia a correspondência. Papai. Encarei-o duramente, de braços cruzados. Lá estava ele, como antigamente. O cabelo curto, o rosto barbeado. E, apesar de parte de mim estar morrendo de vontade de atravessar a cozinha correndo para dar um abraço gigante nele — afinal de contas, era meu pai —, simplesmente não consegui fazer isso. Sentei no balcão da cozinha e comecei a chutar a porta do armário debaixo da pia. Alto o bastante para que ele erguesse o olhar. Quando ~ 357 ~


seus olhos encontraram os meus, sorriu. Veio até mim e me deu um beijo na testa. — Boa noite, srta. Mussarela. Eu me afastei. Valeu a tentativa. Ele pareceu confuso e um pouco ferido com a frieza da minha atitude. — O que foi? — Olhou para mamãe. — Uh-oh. Estou sentindo cheiro de confusão com meninos? Ah, nem se ATREVA a falar sobre isso. Nem se atreva. Ela balançou a cabeça, revirando a geladeira. — Não sei muito bem. Mas, com certeza, ela está meio esquisita hoje. Fiz o que pude para encarnar a Adolescente Rebelde. — Não estou. — Olhei para meu pai, com raiva adiantada por conta do que eu sabia que ele acabaria fazendo com a nossa família. Então, a campainha tocou. Olhei para cima e, de repente, tive medo. Minha mãe foi em direção ao corredor. Não. Por favor, não abram a porta. — Eu vejo quem é! — Ouvi Jack atravessar a sala correndo até a porta. — Queijo! — gritou. — É o Jaaaacob! — Não sei se eu deveria ir… — Deixei escapar, me sentindo absolutamente falsa. — Eu tenho muito dever de casa. ~ 358 ~


Minha mãe e meu pai pareceram ter subitamente um terceiro olho na testa. — Minha flor, você passou a semana inteira falando sem parar no encontro de hoje — disse minha mãe. — Vai ser ótimo. Hum, não exatamente. Então, fui acometida de algo estranho. Meus braços e minhas pernas começaram a se mover sem meu comando, como se eu tivesse virado um brinquedo guiado por controle remoto. Não consegui me impedir de pular do balcão. Não consegui me impedir de ir até a sala, em direção à porta. — Não, não, não — sussurrei. Vi uma sombra familiar através das cortinas claras de linho. Ele estava na varanda. Alguém que não esperava ver outra vez. Mesmo sendo só a silhueta, dava para ver que estava nervoso. Como se talvez não quisesse que o encontro fosse até o fim. Eu não o culpava. Minha mão tocou na maçaneta. Pare. Comece a virar lentamente. Por favor, não. Eu quero ficar. Mas, quando eu finalmente abri a porta — não importava o quanto tentasse lutar contra o que sentia —, perdi o fôlego. Os olhos dele eram como o oceano. Logo antes da tempestade.

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Capítulo 45 How to save a life

Ele dirigiu em silêncio até o restaurante. O percurso todo foi tão surreal que eu, literalmente, fiquei me beliscando para acreditar que estava realmente acontecendo. Estou no carro dele. BELISCÃO. Realmente no carro dele. BELISCÃO. Ali está ele. E aqui estou eu. Estamos aqui, juntos, dentro do carro. BELISCÃOBELISCÃOBELISCÃO. — Ai! — gritei. O último beliscão foi um pouco exagerado. Jacob olhou para mim, estranhando. — Tudo bem com você? Fiz que sim com a cabeça, tensa. — Claro. Tudo ótimo. Mas eu estava mentindo descaradamente. Minhas mãos estavam suando, meu coração aos pulos, meus pés inquietos e… tenho certeza de que meu olho estava tremendo.

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— Tem certeza? Você está estranha. — Ele pigarreou e me lançou vários olhares enquanto dirigia para o Pasta Moon. Tentei me controlar. Eu sabia o que estava por vir e fiquei com medo. Minha única chance. Minha única chance. E se eu disser a coisa errada? E se ele não quiser escutar isso de mim? Prestei bastante atenção nele, atenta a todos os detalhes nos quais não tinha reparado da primeira vez. Como o fato de que ele pigarreou várias vezes. O fato de ter ficado mudando a estação do rádio. O fato de ele mal conseguir olhar para mim. Finalmente, chegamos no estacionamento, encontramos uma vaga e entramos no restaurante. Ele não segurou a minha mão. A hostess nos levou até nossa mesa e sentei no mesmo lugar de sempre, bem no canto do salão, de onde dava para ver todo o restaurante. Pedimos bebidas e entradas — lulas fritas e espetinhos de mussarela, mas eu estava tão nervosa que mal consegui comer. Eu não era a única. Jacob tremia de um jeito que eu nunca tinha visto. Estava nervoso, atrapalhado, derramou vinagre balsâmico na camisa e deixou cair mais molho na mesa do que na própria boca. Quando nossos pratos chegaram, vi que ele remexeu a massa com camarão durante dez minutos antes de finalmente começar a falar. — Brie? Lá vem. — Oi? ~ 361 ~


— Preciso te dizer uma coisa. Encarei-o, sem dizer uma palavra. A voz dele tremeu e vi o medo crescer dentro de seus olhos. Vendo a cena se desenrolar pela segunda vez, ficava muito óbvio o pavor que ele tinha de me magoar. Mas havia muito mais coisas agora — todo um outro lado do medo que não percebi da primeira vez. Vi ele enrolar o macarrão no garfo várias vezes e não consegui deixar de me perguntar se Sadie já sabia do segredo que ele planejava me contar durante o jantar. Algo me dizia que a resposta era sim. E, honestamente, foi o que mais me feriu. Saber que Jacob, um dos meus melhores amigos na vida, não foi capaz de confiar em mim. Porque meu velho coração entrou no caminho antes que ele fosse capaz de dizer as palavras. Bem, não seria assim agora. Agora, eu ouviria. Talvez alguma coisa que eu fizesse ou dissesse fosse capaz de mudar o futuro, ou o passado. Larkin não conseguira reescrever sua história para melhor. E, obviamente, Patrick também não. Mas eu tinha que tentar. Estendi o braço sobre a mesa e segurei a mão dele. — O que foi? — perguntei baixinho. — O que está acontecendo com você?

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Ele me encarou, a mão gelada e úmida, e quase consegui ver as palavras flutuando por ali, como se fossem fumaça. — Oi? — disse ele. — Como assim? Olhei-o nos olhos e tentei me concentrar. Tentei fazer com que soubesse que ficaria tudo bem. Que ele estava seguro. Tudo bem. Você pode me contar. Ele fez uma longa pausa. Seu rosto começou a ficar vermelho e percebi que suas mãos tremiam. — Brie? — Jacob? Lá vem. Lá vem. — Eu não te amo. Fechei os olhos, deixando as palavras se assentarem dentro de mim. Elas feriam, mas não da mesma maneira, não como na minha memória. Agora a dor era mais amarga do que avassaladora. Senti que relaxava enquanto me dava conta de que, na verdade, o mundo não acabara. Abri os olhos. — Eu quero dizer — ele se interrompeu. — Eu te amo. De verdade, juro. Mas não… não da maneira que você imagina. — Ele baixou os olhos. — Acho que o que eu estou tentando dizer é que não estou apaixonado por você. Respirei fundo e fiz o possível para escolher as palavras certas. Exatamente como deveria ter feito da primeira vez.

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— Eu sei, Jacob. Tudo bem. Eu também não sou apaixonada por você. Ele arregalou os olhos. — O quê? — Isso que eu disse. O que você disse. Eu também não sou apaixonada por você. — Não entendi. — Ele me encarava como se eu estivesse falando japonês. — Tem outra pessoa? — Tem — respondi, incapaz de esconder o sorriso. — Tem, sim. Por um segundo, ele não olhou para mim. — Ei? — Debrucei na mesa, me aproximando. — Tudo bem com você? — Levantei o queixo dele cuidadosamente. Nossos olhos se encontraram e eu vi que ele estava à beira das lágrimas. — Desculpa — disse ele. — Eu estraguei tudo. — Não. — Balancei a cabeça. — Não estragou nada. — Sou uma pessoa horrível. — Não é, não. — Você não entende. — Entendo. — Apertei a mão dele. — Você pode me contar qualquer coisa. Eu sou sua amiga. Sempre vou ser sua amiga. Ele fungou e limpou o rosto com o guardanapo. — Não sei como dizer isso. ~ 364 ~


— Pode dizer como você quiser. Ele baixou a cabeça, olhou para os tênis tentando reunir coragem. — Eu acho… acho que talvez eu seja gay. Então, eu fiz uma coisa que deveria ter feito havia muito tempo. Arrastei minha cadeira no chão azulejado. Sentei ao lado dele na mesa e o abracei. — Que bom que você me contou. Ele balançou a cabeça algumas vezes, como se não acreditasse em mim. Ou como se não entendesse. — É? Jura? Assenti. — Juro. — Você está querendo dizer que… que não me odeia? — Bem… — Fiz o possível para parecer aborrecida. — Talvez um pouquinho. O rosto dele mostrou preocupação. — Ah. — Ele se mexeu na cadeira, desconfortável. — Isso faz sentido. Eu vou… Segurei seu braço e sorri. — Estou falando sério! Você comeu todo o macarrão sem me oferecer nem uma garfada. Ele olhou confuso para o prato vazio. Finalmente, deixou escapar uma gargalhada. ~ 365 ~


— Tá. Você me pegou. Boa. Ri. — Se me pagar um picolé de sobremesa, estamos quites. Seus olhos azuis encontraram os meus e vi o quanto ele estava agradecido. E aliviado. — Valeu, Brie. — Ele se aproximou, me deu um beijo no rosto e relaxou na cadeira ao meu lado, suspirando aliviado. — Eu estava com tanto medo de te contar. Tinha certeza de que você nunca mais ia falar comigo. Que ia me odiar para sempre. Balancei a cabeça. — Impossível. Ele sorriu e segurou minha mão. — Você é realmente a melhor namorada do mundo. — Não — respondi baixinho, a imagem de Patrick abrindo caminho dentro de mim. — Não sou. Então, uma dor súbita assolou meu peito e caí na cadeira. Esperem. Não. O que está acontecendo? Isso não era para acontecer. Senti meu coração bater descontroladamente. Mas eu consertei. Eu fiz diferente, dessa vez! — Brie? — A voz de Jacob parecia mais preocupada. — O que foi? Tudo bem com você? De repente, a dor ficou tão intensa que eu mal conseguia falar. Minha vista embaçou e todo mundo no restaurante começou a olhar para nossa mesa. Vozes estranhas começaram a ecoar a minha volta — como ~ 366 ~


na praia da Ilha do Anjo — e senti as mãos dele nos meus ombros, tentando me trazer de volta. — Brie? — gritou Jacob. — Me diga o que fazer. O que é que eu tenho que fazer?! — Seja você mesmo — sussurrei, apertando a mão dele mais uma vez. — Só isso. Seja você mesmo. — Mais uma pontada, a dor me atravessando, e o rosto do Patrick apareceu na minha mente. Você não sabe que eu te amo? Não sabe que eu sempre te amei? Num instante, o mundo ficou em silêncio. Abri os olhos. O restaurante não existia mais. E eu estava de pé num jardim luxuoso, bem na beirinha da estrada, olhando para o oceano cheio de brilho. O sol brilhava em cima da minha cabeça, aquecia meus ombros, e o céu era azul de um jeito que eu jamais tinha visto — somente duas ou três nuvenzinhas de algodão no horizonte. Um dia perfeito de verão. O que é isso tudo? Será que eu tinha voltado para o meu pedaço de céu? Só podia ser. Um dia tão lindo assim não podia existir na vida real. — Anjo? — A voz de um menino me chamou. — Sua carruagem já está pronta. Virei lentamente o rosto e vi um garoto numa motocicleta usada, amada. Reconheci o cabelo curto, castanho. Aquela camiseta velha e cinza. A jaqueta de couro surrado. ~ 367 ~


— “Hiiiighwaaay to the daaanger zone” — cantou, tocando uma guitarra imaginária. Depois, tentou ligar a moto, mas uma nuvem de fumaça o encobriu. — Droga. — Ele tossiu, abanando o ar. — Não era isso que devia acontecer. Caí na gargalhada. — Espero que você não esteja contando que eu vá subir nesse troço. Porque, com certeza, não vou! — Vamos, minha flor — disse ele. — Só uma voltinha. Você vai amar! Minha flor. Então, me dei conta. Minha flor, de lírio, de Lily. Ele sorriu e seus olhos enrugaram um pouco nas extremidades. Ah, aquele sorriso. Senti que começava a ceder. — Não — falei. — Nem pensar. Me recuso a sentar nessa máquina mortífera. — Ah, vai — disse ele, vendo sua chance. — Só uma voltinha e eu compro um milk-shake para você. — O que é que você acha? Que pode me subornar? — Balancei a cabeça. — Não vai dar certo. — Pensando bem — ele piscou os olhos —, te dou um picolé. Foi demais para mim. Nem me fale em gente insistente. Corri até ele e o abracei, rindo. Eu me afastei e olhei-o nos olhos — hoje mais verdes que castanhos — e beijei seu nariz. — Tá — falei. — Uma voltinha. Mas é só! ~ 368 ~


Ele abriu um sorriso. — Você não vai se arrepender, Anjo. — Ele me entregou um capacete e subi na moto, passando meus braços em volta da cintura dele com o máximo de força que eu tinha. — Melhor você ir devagar, Patrick Darling. Senão vai ver. — Senão vou ver o quê? — Ele me provocou. Devolvi a provocação. — Senão vou arranjar outro namorado. Ele virou o rosto e me deu o sorriso mais lindo do mundo. — Desculpa, Anjo. Não vou deixar você escapar com essa facilidade toda. — Então, girou a chave e eu senti a moto ganhar vida debaixo do meu corpo, seguindo adiante. — Devagar! — gritei, batendo de leve nele. — Estou falando sério! Mas, em segundos, assim que começamos a ganhar velocidade, relaxei. Senti meus ombros mais leves, e fechei os olhos para imaginar que estávamos voando. A mistura de sol e mar era completamente intoxicante. Inclinei o tronco e beijei o meio das costas de Patrick, me sentindo a garota mais sortuda do mundo. Porque naquele instante eu era. Tinha conquistado o melhor dos dois mundos. Voltara e consertara as coisas numa vida para que ficasse tudo bem com Jacob. E agora era quem deveria ser, abraçando o menino que eu nascera para amar. Então, um pensamento me ocorreu.

~ 369 ~


O sol. O ar. A estrada à beira do mar, alongando-se por quilômetros. O som de nuvens de tempestade vindo do norte. Um segundo. Meus olhos se abriram. Por favor, nuvens de tempestade, não. Mas elas estavam lá. Sigilosamente escondidas atrás das montanhas, cinzentas e assustadoras, sobre nós, como monstros. Exatamente como no meu pesadelo. Não. Deus, por favor, não. A verdade caiu sobre mim como uma tonelada de metal. Eu fora tola de achar que podia escapar revivendo somente uma morte. Porque eu vivera duas vezes. — Patrick! — gritei contra o vento. — Vire! A gente tem que voltar! — O quê? — respondeu ele. — Não estou ouvindo nada! — Ele virou o rosto para mim por uma fração de segundo, tentando entender o que eu dizia. Infelizmente, bastou um segundo. Ouvi uma buzina e o som de pneus cantando antes de ver a van vindo na nossa direção. Senti o sangue congelar nas minhas veias enquanto assistia ao mundo inteiro cair sobre nós em câmera lenta. Uma chuva de vidro, calor e metal queimando, como se a moto tivesse sido arrancada debaixo de mim. Então, lá estava eu no ar, o cheiro de combustível queimado, meu cabelo queimado, nossos sonhos queimados. ~ 370 ~


— Anjo. — Ouvi Patrick me chamar como se estivesse a milhas de distância. — Cadê você? Por favor, não vá embora. Enquanto o ardor das chamas escorregava da minha boca para a garganta — e eu me preparava para o fim —, meus pensamentos se voltaram para a lista de palavras do Patrick. Para a última palavra que ele escrevera. Aceitação Vi a lâmina de Larkin brilhando sob o luar, a centímetros da minha pele. — … das cinzas às cinzas… Por favor. — … da terra à terra… Não, por favor, pare. — … dê a ela paz… Vi o raio atingir a única coisa que ainda tinha. Meu coração. Minha alma. Senti a velha onda de calor tomar conta de mim e gritei, implorando pelo fim — implorando para que alguém, por favor, fizesse aquilo parar. Então, de algum lugar distante, um barulho agudo, uma sirene. Cada vez mais alto, até que o barulho fosse tão intenso que pensei que meus ouvidos fossem explodir. Até que senti as mãos de alguém segurando as minhas. Um barco salva-vidas enviado para me resgatar daquele calor desesperador. Quentes, seguras, mãos conhecidas. ~ 371 ~


Mais uma vez, abri os olhos. Meu pai. Ele estava chorando. — Você vai ficar bem, minha menina. Vai ficar tudo bem. Ouvi a ambulância gritando CUIDADO! CUIDADO! enquanto cruzávamos as ruas de São Francisco em alta velocidade. Vi o medo nos olhos do meu pai e ouvi a urgência na voz do motorista que avisava ao hospital, através do rádio, que estávamos a caminho. Sexo feminino. Quinze. Cardiopatia aguda. — Pai? — Estou aqui, Brie. Não vou sair daqui. Eu passara tanto tempo com raiva dele. Tanta, tanta raiva. A ideia de que podia preferir outra família à nossa partiu meu coração novamente. O que eu, mamãe, papai, Jack e Hamloaf éramos se partira; tudo que havíamos sido e tudo o que seríamos. Mas olhando para ele, ali, nos fundos daquela ambulância, tive uma noção melhor do porquê ele tinha feito o que fizera. Eu continuava não gostando da ideia — ainda não concordava com ela —, mas, graças a Larkin, finalmente entendi. Às vezes, lembrar dói demais. Vendo meu pai daquela maneira — o quanto ele se importava comigo, o quanto me amava, independentemente dos erros que cometera —, não pude deixar de perdoá-lo. Perdoá-lo por não ser perfeito. Porque, na verdade, quem é? ~ 372 ~


Resolvi, então, que, se eu merecia uma segunda chance, ele também merecia. Apertei sua mão o mais que pude. Senti uma lágrima final percorrer minha bochecha, aninhando-se no meu colo. E, enquanto as batidas do meu coração começaram a diminuir de intensidade no monitor, olhei meu pai nos olhos e me atrevi a fazer um último pedido. Sabia que provavelmente não poderia mudar nada. Mas podia ter esperanças. — Cuidem-se. Então, assim, eu morri.

~ 373 ~


Parte 6 Aceitação

Capítulo 46 All you need is love

Atravessei a noite, a neblina, a chuva e céus estrelados até chegar em casa. Avenida Magellan, número 11. A entrada da minha casa. Eu ainda precisava fazer mais uma coisa. Devagar, comecei a subir a ladeira. Passei pelas begônias brancas e amarelas que ladeavam o caminho. Pelos arbustos onde uma vez meu pai nos mostrara um ninho de pardais. Pelo carvalho onde Jacob entalhara nossas iniciais com seu canivete suíço. JF+BE = E um a um, como pequenos pontos de luz, todos os fantasmas entraram no jogo.

~ 374 ~


Vi Jack andando no velocípede que a vovó e o vovô deram para ele de aniversário. Eu, aos 13 anos, praticando manobras de patins. Emma, Tess e Sadie, numa batalha infinita de bambolê. Papai lavando o carro e molhando a mamãe com a mangueira, num ataque surpresa quando ela saiu para pegar a correspondência. Eles dois, encharcados. Rindo. Felizes. O brilho do sol de verão aparecendo por trás das nuvens da Califórnia. Hamloaf, correndo na grama, latindo e mordendo a água dos irrigadores do jardim. Pude ver, ouvir e sentir tudo isso – as memórias brilhando e girando à minha volta. Meu ontem, meu agora, meu sempre e meu para sempre. Virei o rosto e vi Patrick me observando no final do jardim. Senti meu estômago dar cambalhotas enquanto caminhava até ele. — Como? — perguntei, a voz tremendo. — Como você chegou aqui? — Digamos que a Senhora das Palavras Cruzadas me devia um grande favor depois de uma eternidade ajudando-a com palavras cruzadas. — Ele me olhou, divertido. — Apesar de ela ter falado alguma coisa sobre não esquecer de sempre usar lápis. Seja lá qual for o significado disso. Não acreditei no que estava ouvindo. Patrick estava livre, finalmente? Livre de verdade? — Ela perdoou sua alma perdida ou algo do gênero? — perguntei, sem ar. — Ela pode fazer isso? — Não. — Ele balançou a mão. — Eu estava brincando. Ela não fez nada. — Uma pausa. — Você fez. Senti meu rosto corar e, rapidamente, olhei para baixo. Patrick levantou meu queixo, cheio de carinho. Nossos olhos se encontraram. ~ 375 ~


— Acho que às vezes o universo sabe reconhecer uma coisa boa quando ela acontece — disse ele sorrindo. — Isso ou o carma terrível de um deve ter anulado o carma terrível do outro. Ri. — Gosto mais da primeira opção. — Então, ficamos com a primeira opção. — Ele levantou as mãos, em comemoração. — Agora temos uma história para contar para os netos. — Achei que a gente devia manter tudo censura livre — provoquei. — Bem… — ele me puxou para perto —, talvez 13 anos. Então, me beijou. E uau. Simplesmente uau. Tudo bem, SIM, eu vou, definitivamente, precisar de um replay. Sim, sim, sim. Por mim, tudo bem. Patrick disse, dentro da minha cabeça. Eu me aproximei para mais um beijo. — Ei! — Desviei um segundo antes. — Não vale beijar e espiar. — Não posso fazer nada, mocinha — disse ele. — Essa sua cabecinha é muito interessante. — Ele se aproximou novamente e, dessa vez, como se fosse destino, eu não escapei. Depois de muitos replays, finalmente nos viramos juntos para encarar minhas memórias antigas. Eu sabia que ele também podia ver. Sabia que ele entendia. Ele assentiu para que eu seguisse adiante. ~ 376 ~


— O tempo que você quiser. Vou esperar aqui. — Não — falei. — Quero que você venha comigo. Subimos a escada da varanda, degrau por degrau, finalmente ficando de frente para a porta. Era estranho. Eu ficara tanto tempo trancada do lado de fora que não sabia exatamente o que esperar. Respirei fundo e estendi o braço, lentamente. Agora, a maçaneta de metal girou na primeira tentativa. A casa estava quieta. Ainda era muito cedo. Passamos pela sala e subimos para o segundo andar, onde eu vi a porta do quarto dos meus pais se abrir. Olhei lá dentro e, imediatamente, notei que três pares de pés (bem, quatro, se contarmos Hamloaf) estavam para fora do cobertor bege debaixo do qual eu me enfiara milhares de vezes. Mas ver de quem eram aqueles pés fez com que lágrimas brotassem dos meus olhos. Mamãe. Jack. E papai. — Ele está aqui — sussurrei. — Ele está aqui, onde deveria estar. Meu desejo se realizara. Fizera a diferença. Debrucei e beijei o rosto dele, depois fui até o lado da mamãe na cama. Ah, mãe.

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Ela parecia tão bonita e dormira com os óculos no rosto pela milionésima vez. Concentrei minha energia e tirei-os devagar, com cuidado para não fazer nenhum barulho. Ela se mexeu um pouco enquanto eu os colocava na mesa de cabeceira, mas continuou abraçando Jack, que estava todo encolhido, com seu pijama de Batman — o pijama que eu tinha dado para ele no meu último Natal. Quase não cabia mais, as mangas e a calça deixando aparecer braços e pernas demais. Lembrei da Alice, quando comeu aqueles cogumelos mágicos. Por alguma razão, não consegui deixar de sentir alívio, sabendo que, talvez, meu irmão não fosse me esquecer, afinal de contas. Mesmo quando estivesse adulto, morando em algum outro lugar com sua própria família, ainda se lembraria daquele pijama. (Mas, só para garantir, tentei fazer uma nota mental para me lembrar de mandar um pacote anônimo para a casa dele na época do Natal.) Fiz cócegas na pata do Hamloaf. — Bom garoto. — Suas orelhas tremeram e ele rolou na cama, roncando. Esperei que estivesse sonhando comigo. Naquele momento, vendo seu peito subir e descer em ritmo perfeito, fui tomada por uma sensação de paz. De alguma singela maneira, eu tinha ajudado a reescrever a história da minha família. Eu ainda estava longe, mas meu pai encontrara outra maneira de lidar com a sua dor. Uma maneira que não envolvia outra mulher. Eles ficariam bem. Nós ficaríamos bem. — Aqui. — Patrick me entregou meu colar, tão brilhante quanto no dia em que eu o comprei, apesar de tudo por que passou. — Por que você não deixa o colar para eles? ~ 378 ~


De repente, fiquei confusa. Eu tinha trocado aquele colar pela liberdade — para que Patrick pudesse finalmente seguir adiante. Como ele poderia me devolver? — Mas é seu — falei. — Eu dei para você. — Eu não preciso dele. — Ele colocou a mão no meu coração. — Eu tenho o de verdade agora. Muito melhor. Corei pela décima oitava vez e passei os dedos pelo coração dourado. Quentinho. Macio. Beijei o colar e coloquei-o na cômoda dos meus pais, ao lado do porta-retrato com a foto da família. Achei que eles saberiam que tinha sido eu. Antes de me virar para ir embora, uma coisa chamou minha atenção. Uma fotografia em preto e branco que eu tinha certeza de nunca ter visto. Eu me aproximei para ver melhor. Um segundo. Isso é impossível. Não é? Ali, sorrindo para mim, estavam Emma, Sadie e Tess — todas de roupa de gala, rindo debaixo de luzes de festa. Acima delas, uma faixa feita a mão (decorada com o que pareciam ser milhares de tipos de queijo), atravessava o salão. BAILE DE FORMATURA PCH 2011 EM HOMENAGEM A BRIE EAGAN (AMAMOS VOCÊ, BRIE!!!) — Meu. Deus. Do. Céu. — Girei para encarar Patrick e joguei a foto nas mãos dele. — Eu acho… acho que minhas amigas fizeram uma festa de formatura com tema de queijos. — Nossos olhos se encontraram e, em ~ 379 ~


segundos, estávamos às gargalhadas. Era, sem dúvida, a festa mais absurdamente incrível que qualquer pessoa já tinha dado para mim. Ponto. Patrick finalmente recuperou o fôlego e apontou para a foto. — Então, quem é o cara de sorte? — Quem? — perguntei, ainda rindo. — Que cara? – Debrucei para olhar mais uma vez. Então, tirei o porta-retrato das mãos dele. — Fala sério. — Eu me belisquei algumas vezes para ter certeza de que não estava dormindo e babando na minha velha mesa da pizzaria. Mas, não. Os beliscões doeram. Eu estava definitivamente acordada. E definitivamente ainda no quarto dos meus pais, olhando para a fotografia mais maravilhosa de todos os tempos. Por que ela era maravilhosa? Porque ali, logo atrás das minhas amigas, de braços esticados e sorriso no rosto, para sempre, estava Jacob. Eu estava absolutamente abismada. Como eu não tinha reparado? O smoking. Ele está de smoking. Meus olhos se encheram de lágrimas de felicidade. — Que dia é hoje? Que mês?! Patrick olhou rapidamente para o relógio despertador do meu pai, na mesa de cabeceira. — Junho. Doze de junho. 12 de Junho. 12 de junho. 12 DE JUNHO. Olhei a foto mais uma vez para ter certeza de que não estava tendo uma alucinação. ~ 380 ~


— É ele — sussurrei. — É ele mesmo. Meu primeiro amor estava sorrindo. Estava feliz. E o mais importante de tudo, estava vivo. A foto era a prova de que eu precisava. Nossa formatura já passara. E Jacob Fischer estivera vivo para participar dela. Ele sobrevivera. Abracei Patrick, respirando na jaqueta de couro dele, me sentindo como se tudo estivesse, finalmente, em ordem no mundo. Meu mundo esquisito, meu mundo perfeito. Ele me beijou docemente na testa. — Ecce potestas casei. Vejam só o poder do queijo. Ficamos mais um tempo vendo a minha família dormir, mas acabamos fazendo o caminho de volta até o corredor, fechando a porta silenciosamente ao deixarmos o quarto. Passei pelo banheiro e pelo armário de roupa de cama, depois pelo quarto do Jack. Só havia mais uma. Uma única porta esperando pacientemente no final do corredor. Fechado para balanço. Em obras. Ninguém em casa. Mas estou em casa agora. Empurrei a porta do meu quarto e imediatamente fui recebida por uma rajada de ar gelado. O carpete cor-de-rosa estalou ligeiramente sob meus pés quando entrei. Meu quarto. Minha cama. Minhas janelas, minhas estantes com livros e livros, o edredom sob o qual eu dormia todas as noites, desde pequena. Minha pequena manta de bebê, amarelada e gasta, com aqueles pelinhos que eu costumava enrolar enquanto pegava no sono.

~ 381 ~


O quarto estava escuro, empoeirado e assustadoramente quieto. Um túmulo do sono, trancado em pesadelos, corações partidos e memórias tristes. Parecia que ninguém entrava ali desde a minha morte. Fui até o banco debaixo da janela, antes um lugar aconchegante e cheio de almofadas, onde Jack e eu costumávamos jogar Connect Four. As almofadas estavam arrumadas num canto. As cortinas fechadas. Janelas trancadas. Destranquei-as. Abri as cortinas, tentei suspender o vidro. As roldanas estavam travadas, enferrujadas, então, empurrei, puxei, soquei até que finalmente, finalmente, ouvi uma das roldanas ceder. Anda, anda. Senti que cedia um pouco mais. Abre, abre. Gotas de suor apareceram na minha testa. Agora. Abrindo agora. Ouvi um ruído súbito e dei um grito quando a janela se abriu, a brisa da manhã me alcançou e inundou o quarto — girando, vibrante —, cheia de cores, música, energia, gargalhadas e perdão. As paredes gemeram e rangeram, o teto tremeu como se fosse desabar. A casa inalou, exalou, depois inalou novamente o novo ar de vida, calor e amor que voltava a preencher seu esqueleto. Depois, batidas de coração. Pulsando. Lembrando. Acordando. Caí no carpete, respirei fundo. Fechei os olhos e tentei me agarrar à minha história. Tentei capturar cada pequeno detalhe. Para jamais es~ 382 ~


quecer. Nem por centenas de eternidades. Memorizei o som dos sininhos que meu pai pendurara na minha janela anos atrás balançando ao vento. A textura enrugada e fria do carpete de encontro às minhas costas. O cheiro suave de maçãs. Minha mãe sempre dizia que meu quarto tinha cheiro de maçã. De repente, senti uma luz passar por mim. Abri os olhos e percebi um raio de sol dançando na parede. Refletia na moldura dourada em cima da minha cômoda. Atrás do vidro, um pedaço de papel, e no papel, um poema escrito para mim pelo meu avô no meu último aniversário. Quinze. Levantei e fui até lá. As pontas da moldura eram douradas, familiares. Eu mal via meu reflexo no vidro. Vi meu cabelo comprido, escuro. Minhas bochechas rosadas, quentes. Meus olhos verdes. Um pouco mais velha. Um pouco mais sábia. Toquei de leve o vidro, desenhando minha silhueta. Eu era bonita, como mamãe sempre dissera. Desejei ter acreditado nela. Desejei poder dizer a eles novamente o quanto eram importantes para mim. O quanto sempre foram. E mais do que tudo, desejei ter sabido o quanto eu era sortuda por tê-los perto de mim, antes de qualquer coisa. Por ter vivido. Por ter amado. Por ter sido amada. O que mais uma garota poderia querer? — Anjo — ouvi Patrick sussurrar. Naquele momento, soube que era a hora. E, finalmente, eu estava pronta. ~ 383 ~


Então, uma sensação tomou conta do meu peito — não a dor terrível que sentira ao morrer, mas um calor amigável, de pura luz, percorrendo meu corpo, suavizando a cicatriz do meu coração partido. A cicatriz das lágrimas pela traição que Jacob e Sadie nunca desejaram realizar. Agora eu sabia disso. Caí de joelhos e tudo em volta de mim naquele quarto começou a ceder, girar e se afastar da tristeza. Um turbilhão de ar me ergueu suavemente e eu olhei para baixo. Eu começava a desaparecer. A voz de Patrick soou em volta de mim. Segure a minha mão. Segurei. Então, no meu último momento na Terra, meus olhos se concentraram e assentaram nas últimas linhas do poema do meu avô — frases que sempre foram especiais, mas que eu nunca tinha realmente compreendido até agora. E, apesar de saber todas de cor, li em voz alta. Em meio à felicidade e ao desespero Na tristeza ou na alegria No prazer ou na dor: Faça o que é certo e você ficará em paz. Na vida, não existe presente maior que paz, A não ser amor. Que você sempre tenha amor.

~ 384 ~


As Letras, Os Artistas, Os Álbuns...

• love is a piano dropped – ANI DIFRANCO, LITTLE PLASTIC CASTLE, RIGHTEOUS BABE RECORDS, 1998. • don’t you (forget about me) – SIMPLE MINDS, THE BREAKFAST CLUB: ORIGINAL MOTION PICTURE SOUNDTRACK, A&M, 1985. • i will remember you – SARAH MCLACHLAN, MIRRORBALL, ARISTA RECORDS, 1999. • take another little piece of my heart now, baby – BIG BROTHER & THE HOLDING COMPANY, CHEAP THRILLS, COLUMBIA RECORDS, 1968. • the cheese stands alone – THE FARMER IN THE DELL, THE ROUD FOLK SONG INDEX, #6306. • excuse me while I kiss the sky – THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE, ARE YOU EXPERIENCED, TRACK RECORDS, 1967. • the long and winding road – THE BEATLES, LET IT BE, APPLE RECORDS, 1970. • ooh heaven is a place on earth – BELINDA CARLISLE, HEAVEN ON EARTH, MCA RECORDS, 1987. • your love is better than ice cream – SARAH MCLACHLAN, MIRRORBALL, ARISTA RECORDS, 1999.

~ 385 ~


• only the good die young – BILLY JOEL, THE STRANGER, COLUMBIA RECORDS, 1977. • i was walking with a ghost – TEGAN AND SARA, SO JEALOUS, SANCTUARY RECORDS, 2005. • yeah I’m free, free fallin’ – TOM PETTY, FULL MOON FEVER, MCA RECORDS, 1989. • send me an angel – REAL LIFE, HEARTLAND, CURB RECORDS, 1983. • it’s in his kiss – BETTY EVERETT, YOU’RE NO GOOD, VEE-JAY RECORDS, 1964. • it must have been love – ROXETTE, PRETTY WOMAN: ORIGINAL MOTION PICTURE SOUNDTRACK, CAPITOL RECORDS, 1990. • time after time – CYNDI LAUPER, SHE’S SO UNUSUAL, EPIC RECORDS, 1984. • r-e-s-p-e-c-t, finds out what it means to me – ARETHA FRANKLIN, I NEVER LOVED A MAN THE WAY I LOVE YOU, ATLANTIC RECORDS, 1967. • nothing compares 2 u – SINÉAD O’CONNOR, I DO NOT WANT WHAT I HAVEN’T GOT, CHRYSALIS RECORDS, 1980. • you ain’t nothing but a hound dog – ELVIS PRESLEY, DON’T BE CRUEL, RCA RECORDS, 1956. • total eclipse of the heart – BONNIE TYLER, FASTER THAN THE SPEED OF NIGHT, COLUMBIA RECORDS, 1983. • living on a prayer – BON JOVI, SLIPPERY WHEN WET, MERCURY RECORDS, 1986. ~ 386 ~


• harvest moon – NEIL YOUNG, HARVEST MOON, REPRISE RECORDS, 1992. • shot through the heart, and you’re to blame – BON JOVI, BON JOVI, MERCURY RECORDS, 1984. • 16 candles make a lovely light – THE CRESTS, COED RECORDS, 1958. • every breath you take – THE POLICE, SYNCHRONICITY, A&M RECORDS, 1983. • what becomes of the broken hearted? – JIMMY RUFFIN, JIMMY RUFFIN SINGS TOP TEN, SOUL RECORDS, 1966. • 1, 2, 3, 4, tell me that you love me more – FIEST, THE REMINDER, CHERRYTREE RECORDS, 2007. • every time I see you falling, I get down on my knees and pray – NEW ORDER, BROTHERHOOD, FACTORY RECORDS, 1986. • hey, hey, you, you, I don’t like your boyfriend – AVRIL LAVIGNE, THE BEST DAMN THING, RCA RECORDS, 2007. • losing my religion – R.E.M, OUT OF TIME, WARNER BROS. RECORDS, 1991. • permanently black and blue, permanently blue, for you – CHAIRLIFT, DOES YOU INSPIRE YOU, KANINE RECORDS, 2008. • you oughta know – ALANIS MORISSETTE, JAGGED LITTLE PILL, MAVERICK RECORDS, 1995. • cry me a river – JUSTIN TIMBERLAKE, CRY ME A RIVER, JIVE RECORDS, 2002. ~ 387 ~


• don’t dream it’s over – CROWDED HOUSE, CROWDED HOUSE, CAPITOL RECORDS, 1986. • in the arms of an angel – SARAH MACHLACHLAN, SURFACING, ARISTA RECORDS, 1998. • california dreamin’ – THE MAMAS & THE PAPAS, IF YOU CAN BELIEVE YOUR EYES AND EARS, DUNHILL RECORDS, 1965. • enjoy the silence – DEPECHE MODE, VIOLATOR, MUTE RECORDS, 1990. • just like a prayer – MADONNA, LIKE A PRAYER, SIRE RECORDS, 1989. • you must be my lucky star – MADONNA, MADONNA, SIRE RECORDS, 1983. • to die by your side, is such a heavenly way to die – THE SMITHS, THE QUEEN IS DEAD, WEA RECORDS, 1992. • the climb – MILEY CYRUS, HANNAH MONTANA: THE MOVIE, WALT DISNEY RECORDS, 2009. • who will save your soul if you won’t save your own? – JEWEL, PIECES OF YOU, ATLANTIC RECORDS, 1996. • always something there to remind me – NAKED EYES, BURNING BRIDGES, EMI, 1983. • listen to your heart, before you tell him good-bye – ROXETTE, LOOK SHARP, EMI, 1989. • since u been gone – KELLY CLARKSON, BREAKAWAY, RCA RECORDS, 2004. ~ 388 ~


• hit me with your best shot – PAT BENATAR, CRIMES OF PASSION, CHRYSALIS RECORDS, 1980. • what a girl wants – CHRISTINA AGUILERA, CHRISTINA AGUILERA, RCA RECORDS, 1999. • let us die young, let us live forever – ALPHAVILLE, FOREVER YOUNG, WEA, 1984. • wake me up inside – EVANESCENCE, FALLEN, WIND-UP RECORDS, 2003. • we belong to the light, we belong to the thunder – PAT BENATAR, TROPICO, CHRYSALIS RECORDS, 1984. • somewhere over the rainbow – JUDY GARLAND, THE WIZARD OF OZ, MGM, 1939. • how to save a life – THE FRAY, HOW TO SAVE A LIFE, EPIC RECORDS, 2005. • all you need is love – THE BEATLES, MAGICAL MYSTERY TOUR, CAPITOL RECORDS, 1967. • may you always have love – DO POEMA “TO MY MOUSE” DE FRANCIS R. MILLER (também conhecido como PAPA, MY GRANDFATHER), 1998.

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Esta obra foi formatada pelo grupo de MV, de forma a propiciar ao leitor o acesso à obra, incentivando-o à aquisição da obra literária física ou em formato ebook. O grupo é ausente de qualquer forma de obtenção de lucro, direto ou indireto. O Grupo tem como meta a formatação de ebooks achados na internet, apenas para melhor visualização em tela, ausentes qualquer forma de obtenção de lucro, direto ou indireto. No intuito de preservar os direitos autorais e contratuais de autores e editoras, o grupos, sem prévio aviso e quando julgar necessário poderá cancelar o acesso e retirar o link de download do livro cuja publicação for veiculada por editoras brasileiras. O leitor e usuário ficam cientes de que o download da presente obra destina-se tão somente ao uso pessoal e privado, e que deverá abster-se da postagem ou hospedagem do mesmo em qualquer rede social, blog, sites e, bem como abster-se de tornar público ou noticiar o trabalho do grupo, sem a prévia e expressa autorização do mesmo. O leitor e usuário, ao acessar a obra disponibilizada, também responderão individualmente pela correta e lícita utilização da mesma, eximindo-se os grupos citados no começo de qualquer parceria, coautoria ou coparticipação em eventual delito cometido por aquele que, por ato ou omissão, tentar ou concretamente utilizar da presente obra literária para obtenção de lucro direto ou indireto, nos termos do art. 184 do código penal e lei 9.610/1998.

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