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sarau CARTOLA Dezembro 2013 - Nº 01

Foi um sonho que a gente teve

DIOGO NOGUEIRA Entrevista especial com o jovem músico

MARTINHO DA VILA Sambista fala de sua carreira e planos

SEU JORGE

E sua despedida do mundo do samba Sarau | Dezembro de 2013

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SUMÁRIO ENTREVISTA Diogo Nogueira

Um dos compositores e intérpretes mais populares do país em um grande papo com a Sarau.

SHOWS E RODAS Programação de Dezembro

Dudu Nobre, Samba no Trem em Friburgo, Luiz Melodia, Tributo a Vinícius e muito mais.

MARTINHO DA VILA Aos 74 anos, Martinho da Vila está a todo vapor. O cantor reservou um espaço na agenda cheia para falar de música e planos futuros.

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ACORDES Artesãos atrás da perfeição

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CAPA Cartola

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Lineu Bravo, Samuel Carvalho e Luiz Couto, luthiers que conquistam músicos do mundo todo.

“Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve e que entrou para a História”


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SEU JORGE

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ACORDES

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PIXINGUINHA

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LANÇAMENTOS Sarau recomenda

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CRÍTICA “Elis, A Musical”

Seu Jorge fala sobre futuros trabalhos e marca uma breve despedida do samba após lançar o CD “Músicas para Churrasco Vol. I”

João Bosco conta sobre completar 60 anos; Inscrições para a Escola Portátil de Música; Lançamentos e sites de música.

Há 40 anos morria Pixinguinha, um dos maiores músicos da nossa história. Levou suas últimas duas décadas na fl auta, no restaurante Gouveia

Alcione, Amélia Rabello, e novidades em CD, DVD e livros sobre o melhor do choro e samba.

Nosso colunista foi ao novo musical sobre Elis Regina e nos conta o que achou.


EQUIPE

EDITORA Kátia Simões

ARTE Michele Simas

REDATORA Aline Amaram

PUBLICIDADE Ana Paula Duarte

REPÓRTER Alessandro Vieira

COLABORADOR Marcelo Marcos

REVISTA SARAU

REDATORA-CHEFE Aline Amaran

EDITOR E DIRETOR

REPÓRTERES Adriana Fonseca,

Alessandro Van Donidio e Carla Sá

RESPONSÁVEL

Fernanda Tombeline, Alessandro Vieira ESTAGIÁRIOS Roberto Valverde, Carlos Drumond, Elisa Reis e Thiago Santanna COLABORADORES Amanda Borges, Pedro Henrique, Dulla Guedes, Ricardo Borges, Gisele Reis, Carlos Santana, Marcelo Marcos, Renata Lonnar

EQUIPE DE PUBLICIDADE

Aydano Roriz DIRETOR EXECUTIVO

Luís Siqueira REDAÇÃO DIRETOR Ivan Zupperino EDITORA Kátia Simões DIRETOR EXECUTIVO

Pedro Vanill DIRETORA DE ARTE

Michele Simas DESIGNERS Gabriela Caldas, Da-

niel Huanchicay e Marcelo Ribeiro

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PUBLICIDADE DIRETORA DE PUBLICIDADE

Ana Paula Duarte

COORDENADORES

Mário Alexandre, Daniel Carlos, Ale Charles, Catarina Batista, Petrúquio, Lee Honner, Alex tito, Durval Reall ATENDIMENTO AO ASSINANTE Disponível de segunda à sexta-feira, das 08:00 às 21:00hs, sábado, das 08:00 às 15:00 hs www. editoraesdi.com/sarau Rio de Janeiro: 21 3364-0052 e-mail: revistasarau@edesdi.com


EDITORIAL

Bem-vindo ao samba! E

mbora compartilhe a tese de que o samba era, desde seus primórdios, um mediador simbólico entre camadas sociais e raciais distintas, é complexo não admitir que os primeiros encontros entre sambistas, que aconteciam nas casas das Tias Baianas, foram frequentadas, em sua maioria, por descendentes de africanos. Convém relembrar também que o Rio de Janeiro, como a capital da República, no início do século XX, era referência para a importação e circulação da ideologia capitalista-industrial para todo o território nacional. Assim, as primeiras rodas de sambas

realizadas nas casas das Tias podem ser entendidas como espaços de lazer e de sociabilidade para sujeitos - negros em sua maioria - cujas rotinas urbanas eram perpassadas pelo trabalho, pelo lar, pelo botequim e pelas perseguições policiais. As rodas de samba, além de proporcionarem momentos de sociabilidade, eram cenários também para a solução de rixas amorosas, posto haver entre os sambistas agressões em decorrência da disputa pela mesma mulher. Ademais, havia confrontos entre os sambistas para se eleger o mais talentoso na improvisação de versos.

Ivan Zupperino

DIRETOR DA REDAÇÃO

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SARAU ENTREVISTA

diogo nogueira Por Tom Cardoso Fotos: Ricardo Fasanelo

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cantor João Nogueira (19412000), um dos maiores sambistas da história do Brasil, sonhava em ver o filho Diogo jogando no Flamengo, seu time de coração. João achava que o garoto levava jeito. O filho era forte, voluntarioso e, definitivamente, não herdara a preguiça do pai, o “chinelinho” do Politheama, lendário time de várzea fundado e comandado por Chico Buarque. Diogo, porém, não vingou como jogador. Passou pelos juvenis do Vasco e do Fluminense e, após se transferir para o Cruzeiro de Porto Alegre, sofreu uma contusão no joelho e acabou dispensado do time gaúcho. Na época (2005), a mãe de Diogo passava por dificuldades financeiras e o recém-aposentado futebolista, longe de levar uma vida de Tufão, teve que se virar. Diogo se virou e explodiu. Provou, em poucos meses, que não tinha o menor cacoete como atacante. Seu talento era outro. E estava impregnado em seu DNA: o de cantor. Foi tudo muito rápido. Ao participar como um dos convidados do show de 40 anos da cantora Beth

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Carvalho, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Diogo chamou a atenção dos executivos da gravadora EMI, que enxergaram ali um talento a ser explorado. Afinal, ninguém pode ser filho de João Nogueira impunemente. Hoje é um dos intérpretes mais populares do País – seus últimos discos ultrapassaram as 100 mil cópias vendidas, marca expressiva para os dias de hoje. O público do cantor é composto, na sua maioria, por mulheres, o que já fez com que ele vivesse dias de Wando (morto em fevereiro, que ficou famoso por colecionar calcinhas jogadas pelas fãs durantes os shows). Ele já chegou a perdeu a conta de quantas vezes foi atingido no palco por calcinhas voadoras, mas, ao contrário do folclórico cantor brega, não as guardou – doou todas as peças para o sortudo assistente de palco. Diogo não joga na defesa. Em entrevista à Sarau, concedida em um raro momento de folga, o cantor fez questão de responder a todas as perguntas de forma objetiva, sem rodeios. Um grande papo.


O cantor diz que a promiscuidade na escolha do samba-enredo das escolas cariocas ĂŠ inaceitĂĄvel


SARAU ENTREVISTA Sambistas como Bezerra da Silva, Dicró e Moreira da Silva sempre foram associados à malandragem. E o sambista de hoje? Ele não perdeu um pouco dessa malandragem? Você está tendo uma visão preconceituosa do sambista. Onde está escrito que todo sambista tem que ser, necessariamente, malandro? O sambista era discriminado nas décadas de 40, 50. Depois disso, surgiram músicos como meu pai, Beth Carvalho, Martinho da Vila, que não tinham nada de malandros. Os sambistas dessa geração não tinham problemas com a polícia. O problema era outro. Qual? A geração do meu pai sofreu muito com a entrada pra valer da música americana no Brasil, a partir da década de 80. Ninguém queria mais ouvir samba. Muitas boates e casas de shows foram fechadas. Foi uma época difícil para eles. Quando havia um brasileiro fazendo sucesso, era sempre um roqueiro. Depois veio a música sertaneja, com as duplas. Só conquistamos o nosso espaço novamente em meados da década de 90. Quando comecei a cantar sambas, na Lapa, o ambiente era outro: o samba já havia voltado a fazer sucesso entre a garotada. João Nogueira fundou, em 1979, o Clube do Samba, que era uma espécie de ponto de resistência do samba no Rio. Você ainda não havia nascido, mas certamente soube pelos seus pais que o Clube do Samba quase o arruinou financeiramente… Sim, claro. Foi um processo muito difícil para ele. Os funcionários do clube montaram uma gangue e processaram meu pai. Ele perdeu tudo. O Ministério do Trabalho impediu até mesmo que ele recebesse direitos autorais pela execução de suas músicas durante 25 anos. Ele ficou arrasado. O Clube do Samba era uma casa de shows muito importante da época, muito mais que um reduto do samba. 12

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Diogo Nogueira na turnê de seu novo CD, Mais Amor

"meu público é feminino" Cantor também comenta o que o levou a cortar seus dreadlocks No Programa do Jô desta segunda, 02/12,, no Dia Nacional do Samba, o apresentador Jô Soares entrevistou Diogo Nogueira, que acaba de lançar o seu 5º disco, intitulado Mais amor. “Hoje quase 70% do meu público é feminino, por isso resolvi fazer uma homenagem a todas elas”. Durante o programa, Diogo também comentou o que o levou a deixar os dreadlocks e voltar a usar o cabelo raspado. “O pessoal disse

nas redes sociais que eu tinha conseguido ficar feio. Foi um absurdo a quantidade de gente reclamando e pedindo para eu cortar o cabelo”, contou exclusivamente a Jô. Segundo Diogo, fazer os dreads em sua cabeça não foi fácil, mas mesmo assim ele não teve como não voltar ao visual antigo. “Foi trabalhoso e dói bastante. Quando a moça terminou, parecia que eu tinha feito plástica”, brincou.


DIOGO NOGUEIRA Caetano Veloso e Gilberto Gil cantaram lá. Meu pai não era um cara ligado em grana. O que o deixou deprimido foi ficar sem um espaço para cantar e receber os amigos. As comparações com o seu pai já chegaram a incomodar? Ser comparado a um dos maiores intérpretes da música brasileira nunca vai me incomodar. Procuro fazer meu próprio trabalho. Não fico preocupado se vai ficar parecido com o do meu pai. Se ficar, ótimo, sinal que estou chegando lá. Meu pai, por exemplo, tinha o maior orgulho quando o comparavam ao pai dele, meu avô. Seu avô também era músico? Sim. Era amigo do Pixinguinha. Um grande violonista e cantor de serestas. Morreu quando meu pai tinha 11 anos. Você vem de uma família de músicos, mas o seu sonho era ser jogador de futebol. Comecei na base do CFZ, o clube do Zico. Joguei nos times juvenis do Vasco, do Fluminense, até virar profissional e tentar a sorte no Cruzeiro de Porto Alegre. Eu já tinha 23 anos e precisava tomar uma decisão na minha vida. Ou vivia do futebol ou tentava fazer outra coisa. Eu tinha perdido meu pai, e minha mãe, que tinha ficado no Rio, estava passando por dificuldades financeiras. Estava fazendo pré-temporada para jogar o Campeonato Gaúcho e acabei, durante o treino, sofrendo uma grave contusão no joelho. Encerrei prematuramente minha carreira. Nem tentou operar e voltar? O Cruzeiro de Porto Alegre não quis nem saber: rescindiu meu contrato. Eu tive de voltar para o Rio de Janeiro para ajudar minha mãe. Em que posição você jogava? Eu era atacante. Teria uma vaga no atual time do Flamengo? O time não está bem no Brasileiro… Olha, rapaz, com o joelho inteiro, voando, eu tinha vaga, sim. No Flamengo do Zico, do Júnior e do Leandro, não. Não ficaria nem no banco. Mas nesse

time aí… Eu fico vendo os jogos do Flamengo (Diogo é rubro-negro) pela televisão e pensando: “Porra, esses caras não jogam nada. Eu podia estar aí” (risos). Você ainda joga? Sim. Toda quarta-feira eu vou à academia fazer reforço muscular. Tenho o meu time, o Trem da Alegria. Não e fácil ganhar da gente, não. O time é uma mistura de ex-atletas, jogadores desempregados e metidos a boleiros. Já enfrentou o Politheama, o time do Chico Buarque? Não. Eu joguei algumas vezes no próprio Politheama, quando era garoto. Meu pai era o centroavante – mais fácil falar que ele era o “banheirista” do time. Não voltava nunca para marcar. Ficava ali, parado, encostado no goleiro, sem fazer nada (risos). Depois de encerrar a carreira de jogador, você foi fazer o quê? Eu estava meio perdido. Não sabia se retomava os estudos, se operava para voltar a jogar. Enquanto não me decidia, comecei a cantar em rodas de samba para me divertir. As pessoas sempre diziam que eu tinha uma voz “A geração bonita. Pediam para eu dar canja em alguns do meu pai shows. Até que fui consofreu com vidado para participar de shows da Beth Cara entrada valho e da Alcione. Coda música mecei a fazer shows no teatro Rival, no Rio, e americana nos Sescs, em São Paua partir dos lo. Gravei meu primeiro disco, que vendeu anos 80. 100 mil cópias. Ninguém É verdade que, se dependesse de você, queria mais só usaria bermuda, ouvir samba.” camisa e chinelo? É estranho, você está sempre na “estica”. Em casa eu fico bem à vontade, normalmente só de sunga. Agora, se sair de casa com pouca roupa, eu estou ferrado. Porque meu público é 70% feminino. Sarau | Dezembro de 2013

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DIOGO NOGUEIRA Você ainda joga? Sim. Toda quarta-feira eu vou à academia fazer reforço muscular. Tenho o meu time, o Trem da Alegria. Não e fácil ganhar da gente, não. O time é uma mistura de ex-atletas, jogadores desempregados e metidos a boleiros. Já enfrentou o Politheama, o time do Chico Buarque? Não. Eu joguei algumas vezes no próprio Politheama, quando era garoto. Meu pai era o centroavante – mais fácil falar que ele era o “banheirista” do time. Não voltava nunca para marcar. Ficava ali, parado, encostado no goleiro, sem fazer nada (risos). Você fez show no Complexo do Alemão para o príncipe Harry. Como foi a experiência? Tem acompanhado o processo de revitalização do Rio?

mou seu baseadinho alguma vez na vida. Você não fumou? O entrevistado é você. Hoje eu bebo minha cervejinha, gosto de um bom vinho… Você compôs seguidas vezes o samba-enredo da Portela. Qual é a sua opinião sobre os atuais desfiles de escola de samba? Para os puristas, o Carnaval perdeu faz tempo sua identidade. Para os realistas, a festa ganhou em profissionalismo e força econômica. Eu ganhei, como compositor, quatro carnavais seguidos. E eram sambas com uma linha mais tradicional. Deixei de fazer, pois cada vez mais os enredos têm que ter algum tipo de ligação com os patrocinadores. É uma promiscuidade inaceitável. E pelo jeito nada vai mudar. Não querem mudar, não vão mudar. A

“Ganhei, como compositor, quatro carnavais seguidos. Deixei de fazer, porque cada vez mais os enredos têm que ter algum tipo de ligação com patrocinadores...” Foi uma experiência maravilhosa cantar no Alemão. O Rio de Janeiro, realmente, está mudando. O Complexo do Alemão estava todo em obras. A violência diminuiu e tenho fé que a cidade irá passar por uma grande transformação até sediar a Olimpíada, em 2016. Não acho que esse processo de revitalização seja de “mentirinha”, como ouço muita gente dizer. O Rio já é outra cidade. Qual é sua posição em relação à liberalização das drogas? É contra ou a favor? Eu sou a favor da liberalização. Mas é preciso ser feita com calma, de forma organizada, com cautela. Você já usou drogas? Fumava maconha quando era adolescente; hoje não fumo mais. Mas não tenho o menor problema em dizer que gostava de maconha. Todo mundo já fu14

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tendência é ficar ainda pior. Como foi cantar no Teatro Karl Marx, em Cuba? Foi maravilhoso. O teatro é lindo. Gravei um DVD inteirinho ali. O povo cubano é muito parecido com o brasileiro, muito alegre, com um talento para música impressionante. Mas não tem a mesma liberdade. Pois é, mas isso está mudando. A gente sente uma energia diferente ali, um cheiro de mudança. Quais são seus futuros projetos? Eu lancei um songbook (Sambabook) com a obra do meu pai. E vou fazer também um do Martinho (da Vila). Provavelmente vou entrar em estúdio em breve para lançar um disco só de canções inéditas de minha autoria. As músicas vão surgindo aos poucos. Nada na minha vida é planejado.


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agenda de shows dezembro/2013

mais informações no site www.revistasarau.com.br

segunda

terça

quarta

Chorinho na Feira de Rua R. General Glicério Laranjeiras

Arlindo Cruz SESC Rio

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Casuarina Feira de Yabás Praça Paulo Portela, Oswaldo Cruz

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quinta

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Feijoada do Bola Preta com Arruda e Mangueira R. do Lavradio

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Roberto Serrão Roda de Samba Cobal do Humaitá

16 Choro na Praça Sesi Cultural

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Cinebloco Trilhas sonoras clássicas em ritmos brasileiros. Pedra do Sal

24 Shows daVirada Praia de Copacabana

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sexta

s��bado

domingo Seu Jorge - Beer Experience Estação Leopoldina (01) Circo Voador (08)

29 Neguinho da BeijaFlor e Dudu Nobre Galeria Musical da Velha Guarda da Portela

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01 Dona Ivone e convidados Teatro Rival

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Dudu Nobre Quadra Caprichosos de Pilares

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Ronaldo do Bandolim e Fernando Leitzke Salsa e Cebolinha

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Leila Pinheiro Teatro Tom Jobim

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João Donato Escola Portátil de Música

Marina Íris Carioca da Gema

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05 Sarau | Dezembro de 2013

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SHOWS E RODAS

dia nacional do samba

SESC NOVA FRIBURGO SESC de Nova Friburgo promove shows e rodas em homenagem ao Dia Nacional do Samba (Foto: divulgação)

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Quem gosta de samba não pode ficar de fora da programação que o SESC Nova Friburgo preparou para as próximas semanas. Apresentações, palestras e oficinas a preços populares e gratuitos estão entre as atividades que se iniciam no dia 27 de novembro e terminam no dia 12 de dezembro. A programação será aberta pelo mestre do samba Wilson Moreira com um show no dia 27 de novembro, às 20 horas, em companhia do grupo friburguense Quem não Dança Segura a Criança. Carioca, nascido e criado no bairro de Realengo, Wilson começou a compor nos anos 50.

Filha do compositor Donga - autor do primeiro samba “Pelo Telefone”, a historiadora e professora Lígia Santos ministra a palestra “História do Samba no Brasil”, no dia 4 de dezembro, às 16 horas. No mesmo dia, às 17 horas, será realizada a oficina de pandeiro com Ivan Milanez. Criado entre Silas de Oliveira, Mano Décio, Dona Ivone Lara, Campolino, Darci do Jongo, entre outros, Ivan Milanez não lembra direito quando começou a tocar: “Na fila para pegar água, ainda bem pequeno, a gente ficava batucando nas latas de marmelada e quando via tinha perdido o lugar na fila. Mi-


SHOWS E RODAS nha avó contava que eu batucava até na parede enquanto dormia”. Para fechar a sexta-feira com chave de ouro, às 20 horas, tem apresentação da Velha Guarda do Império Serrano, tendo na linha de frente o diretor da ala de compositores e baterista Wilson das Neves e o líder de honra do grupo, Zé Luiz. Os outros integrantes são: Ivan Milanez, Cizinho (sobrinho de Mano Décio), Toninho Fuleiro (filho do genial Mestre Fuleiro), Fabrício, Aloísio Machado, Capoeira da Cuíca, Silvio e as pastoras Lindomar, Balbina e Nina, todos eles baluartes da história de uma escola cuja característica principal é a tradição. Já no sábado, dia 5 de dezembro, às 13 horas, Renatinho Partideiro coordena a oficina de improvisação e partido alto. Considerado um dos maiores improvisadores do samba carioca, Renatinho é versador e integrante do

grupo Partideiros do Cacique. Duas horas depois, o Samba no Trem sobe a Serra junto com Marquinhos de Oswaldo Cruz, um dos idealizadores do projeto. O trem, que sai às 15 horas da Praça do Suspiro, roda pela cidade e convida os grupos de samba a participarem dessa festa a caminho do Sesc Nova Friburgo, onde acontecerá uma grande roda de samba. As atividades se encerram no dia 12 de dezembro com uma oficina de percussão ministrada por Rocyr Abbud, às 16 horas. Membro da Velha Guarda da Portela, onde atua como intérprete também, Noca classificou seus sambas em concursos e teve músicas interpretadas por MPB-4, Eliana Pittman, Alcione, Maria Bethânia e outros, totalizando mais de 300 composições gravadas, entre elas “Capital do Samba”, “Isto Tem que Acabar”, “Aos Pés do Altar” e “Virada”.

- Projeto Samba no Trem Dia: 5 de dezembro Horário: 15 horas Preço: gratuito Local e capacidade: O trem possui 100 lugares, sai da Praça do Suspiro às 15h, passeia ao redor da cidade até o fim da tarde e convida os sambistas da cidade para roda de samba com Marquinhos de Oswaldo Cruz no jardim do Sesc Nova Friburgo, que possui 500 lugares. Classificação: livre Sesc Nova Friburgo Av. Presidente Costa e Silva, 231 – Duas Pedras Telefone: (22) 2543-5000

Além de diversos shows, o Samba no Trem oferece um passeio turístico gratuito pela cidade de Nova Friburgo

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SHOWS E RODAS

chorinho no forte

LUIZINHO 7 CORDAS Um dos maiores violonistas de sete cordas do Brasil, Luizinho 7 Cordas vai receber nesta sexta-feira os amigos Danilo Brito, Vitor Lopes, Bombarda, João Poleto, Ricardo Valverde, Marquinhos Mendonça, Agnaldo, Xô e Zé Roberto para um sarau de chorinho, um dos gêneros mais antigos da música instrumental brasileira, no Forte de Copacabana. No repertório, clássicos de Pixinguinha, Jacob do Bandolim,

Nelson Cavaquinho, Sivuca, Severino Araújo e Anacleto de Medeiros. A programação será aberta pelo mestre do samba Wilson Moreira com um show no dia 4 de Dezembro e terminam no dia 12 de Dezembro Luizinho 7 Cordas começou a tocar com seis anos de idade, mas foi após sua parceria com Evandro do Bandolim que o músico consolidou a fama de violonista.

- Luizinho 7 Cordas e convidados Dia: 4 de dezembro Horário: 21 horas Preço: gratuito Local: Café Colombo Café Colombo Forte de Copacabana

Luizinho 7 Cordas começou a tocar com seis anos, após a parceria com Evandro do Bandolim ele ganhou a fama.

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SHOWS E RODAS

Roda composta por alunos e professores do Conservatório Brasileiro de Música

roda de choro faz homenagem a VINICIUS DE MORAIS O espetáculo Especial Vinícius marca a edição desta quinta-feira (17) da tradicional Roda de Choro, que acontece a partir das 17h, no Morro da Conceição. Sob a direção dos professores e músicos Julião Boêmio (cavaquinho) e Lucas Melo (violão 7 cordas), os alunos do Conservatório de MPB abrem o show, dentro da semana em homenagem ao centenário de nascimento de Vinicius de Moraes (19 de outubro de 1913 - 9 de julho de 1980). A Roda de Choro especial integra os festejos de 20 anos do Conservatório completados em 7 de outubro passado, marcando a posição dessa verdadeira instituição da cidade, que dá continuidade à missão de valorizar a produção musical local. A apresentação é um tributo ao “poetinha”, 22

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como era chamado o diplomata, dramaturgo, jornalista, poeta, compositor e um dos nomes mais importantes da nossa música. A abertura das manifestações em torno de Vinicius aconteceu no programa Domingo Onze e Meia, com o espetáculo Alunos de Canto Popular do Conservatório de MPB interpretam Vinicius, no último domingo. Durante a roda de choro, flautas, bandolins, cavaquinhos e violões compõem o conjunto de instrumentos que garantem momentos de virtuosismo e descontração. Não existe uma formação específica, e os músicos que vão chegando se juntam à roda. Uma das figuras centrais do choro foi o carioca Joaquim Antônio Calado (1848 – 1880) considerado um dps pioreiros desse estilo tão tradicional.

O choro serviu de inspiração a compositores eruditos brasileiros, que tem no Ciclo dos Chorosuma de suas mais importantes criações. Também a música erudita inspirou os chorões, como o flautista Altamiro Carrilho, que gravou discos chamados Clássicos em Choro, nos quais toca música clássica com sotaque de choro.

- Roda de Choro Especial Vinícius de Morais Dia: 17 de dezembro Horário: 17 horas Preço: gratuito Local: Morro da Conceição


SHOWS E RODAS

dudu nobre encontra a caprichosos de pilares O cantor fará show em duas semanas do mês em feijoada da escola de samba de Pilares (Foto: divulgação)

Durante duas sextas-feiras seguidas, a partir das 14h, Pilares estará em festa. É que rola mais uma edição da feijoada da Caprichosos que recebe, o cantor Dudu nobre que promete não deixar a galera da zona ficar parada. O músico vai apresentar canções como “Quer saber da minha vida, vai na macumba”, samba composto em parceria com Nei Lopes em homenagem aos paparazzi e que esteve na trilha sonora da novela “Insensato Coração”, além de seus sucessos tradicionais como: “Tempo de Dom-Dom”, “Goiabada Cascão” ,“A Grande Família” entre outros. Acompanhado do grupo Raiz da Flor, Dudu Nobre cantará seus sucessos e sambas que marcaram época na escola. A tarde também contará com a participação de show de passistas e da bateria Não Existe Mais Quente.

Quem abre os trabalhos é o Grupo Pegada Brasileira. Logo em seguida tem o Grupo Samba LadiKasa. No evento ainda tem os segmentos da azul e branca com a bateria de mestre Alexandre e o intérprete Thiago Brito cantando sambas antológicos da caprichosos de Pilares. Nascido no Rio em 1973, João Eduardo de Salles Nobre, o Dudu Nobre, é um dos artistas mais respeitados da música popular brasileira. A bateria de mestre Alexandre e o intérprete Thiago Brito vão encerrar a festa em grande estilo com sambas antológicos da escola.

- Feijoada Caprichosos de Pilares com Dudu Nobre Dias: 13 e 20 de dezembro de 2013 Horário: 14 horas Preços: pista - $10 / Camarote - $300 (com balde de cerveja) Ingressos à venda na escola Local: Quadra da Caprichosos de Pilares Classificação: Livre Mais informações: (21) 3822-6246

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SHOWS E RODAS

estação melodia no imperator “Eu sei que não sou majestade. Não tenho, nem quero coroa. Eu quero é cantar na cidade”. Estes versos de O Rei do Samba (Miguel Lima/ Arino Nunes) talvez funcionem como uma síntese da atual fase de Luiz Melodia: em seu primeiro trabalho essencialmente como intérprete - o álbum Estação Melodia - ele busca, sem firulas ou intervenções modernosas, potencializar os sentidos da palavra cantada, em um mergulho estético e temático no samba dos anos 30, 40 e 50. O show Estação Melodia ratifica o intérprete de vários recursos e matizes, acompanhado por Renato Piau no violão, Alessandro Cardozo no cavaquinho, Charles Costa no violão 07 cordas, Humberto Araújo no Sax, Alexandre Romanazzi no Flauta e Silvério Pontes no Trompete.

- Luiz Melodia em show “Estação Melodia” Dia: 06 de dezembro de 2013 Horário: 21 horas Preços: Plateia sentada - $50 (inteira) e $25 (meia) / Pista - $40 (inteira) e $20 (meia). Ingressos à venda na bilheteria do Imperator e no site ingresso.com Local: Imperator Classificação: 16 anos Imperator - Centro Cultural João Nogueira Rua Dias da Cruz, 170 - Méier www.imperator.art.br Telefones: (21) 2596-1090 (21) 2597-3897

instrumental carioca Nossa já consagrada Roda de Choro no foyer está em nova temporada, com homenagens diversas aos grandes autores do choro brasileiro. Quem comanda a roda de sábado é o grupo Instrumental Carioca. Com apresentações realizadas no circuito musical da UERJ, em casas de show na Lapa como o Lapa 40°. Centro Cultural O Gabiente, Bar Cosmopolita e no Centro Cultural Calouste Gulbenkian Instrumental Carioca é releitura original de clássicos instrumentais. Para os admiradores do que há de melhor no gênero. 24

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O grupo apresenta uma viagem musical com o que há de melhor do cancioneiro instrumental. Jóias como: Receita de samba; Cochichando; Brasileirinho; Doce de coco; Acariciando; Lamento; entre outras. - Roda de Choro com Instrumental Carioca Dia: 07 de dezembro Horário: 19 horas Preço: gratuito Local: Imperator


SHOWS E RODAS

rio scenarium

Segundo o jornal londrino The Guardian, considerado o mais importante da Grã-Bretanha - foi eleito o melhor no British Press Awards - colocou o Rio Scenarium como um dos 10 melhores bares do mundo. Na lista figuram ainda o parisiense Chez Georges e o argentino OJ´s. O Rio Scenarium oferece samba a semana toda para os fãs de dança de salão. A partir do segundo dia útil, a programação da cidade esquenta. Na Lapa, além do Carioca da Gema, Vaca Atolada, Rio 40º, Rio Scenarium e Sacrilégio abrem espaço para o sambinha. O cuidado em identificar os pontos no fenômeno possibilita uma melhor visão dos índices pretendidos.

Na saúde, o Trapiche Gamboa recebe o grupo Razões Africanas, com samba e outros ritmos como jongo, coco e maracatu. O samba de gafieira domina os salões do Scenarium de terça a sábado. O dia internacional do happy hour é seguido de samba no Carioca da Gema, Vaca Atolada, Rio Scenarium, Sacrilégio, Trapiche Gamboa e Brazooka. Os grupos que se apresentam variam conforme a programação da semana. No Trapiche, quinta é dia de Rodrigo Carvalho com o grupo Manga Rosa até 21h. Nando do Cavaco e o grupo Sambistas a Bordo recordam os clássicos dos chorinhos de antigamente e can-

tam sambas de Noel Rosa, Cartola, Martinho da Vila, Benito di Paula, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Clara Nunes, Dorival Caymmi, Moreira da Silva, entre outros.

- Samba de Gafieira no Rio Scenarium Dia: de 17 a 24 de dezembro Horário: 19 horas Preço: $30 Rio Scenarium Rua do Lavradio, 20- Centro Antigo Telefone: (21) 3147-9005

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MARTINHO DA VILA Às vésperas do show para a festa de 90 anos do PCdoB, o cantor reservou um espaço na agenda cheia para falar de música e seus planos futuros. Julia Cavalcanti | Fotos: Hassan Jorge

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MARTINHO DA VILA

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eliz da vida. É esta a impressão que Martinho da Vila passa para quem o encontra. Dia e noite, o sorriso que lhe é característico está lá, estampado no rosto. Do alto de seus 74 anos, completados no último dia 12 de fevereiro, Martinho tem motivos de sobra para estar de bem com a vida. Em sete décadas e meia, o menino nascido em Duas Barras, no interior do Rio, construiu uma carreira artística invejável e uma história de vida marcada por superações e uma enorme capacidade de fazer amigos, tocar projetos e produzir arte. E de fazer filhos também. Filhos talentosos, diga-se. De seus oito filhos, seis seguiram carreira artística. “Só o Preto e a Alegria é que não. O Preto (17 anos) fica na dele. A Alegria é ainda nova, tem 12 anos”, explica Martinho da Vila. Nesta mesma toada, ele publicou, em 2007, o romance Vermelho 17..., resgatando e atualizando uma série de memórias de sua infância. O personagem protagonista do livro é um adolescente carioca chamado Vermelho de Assis Barreto, filho do barbeiro comunista Gerônimo, que batizou o filho com o nome da sua cor preferida, por torcer pelo América e também pela associação à ideologia do socialismo. No ano passado, Martinho reuniu cinco de seus filhos artistas em estúdio para gravar o mais recente disco de sua carreira e um DVD, projeto que recebeu um título bem apropriado: “Lambendo a Cria”. E parece que ele pegou gosto nesta parceria familiar. Quando recebeu a equipe de Princípios para esta matéria, Martinho estava em São Paulo, justamente se apresentando ao lado da filha Maíra numa sequência de shows no Sesc Vila Mariana. Foi para falar um pouco mais sobre esta sua proximidade com a política que Princípios buscou um espacinho na concorrida agenda do cantor para uma conversa.

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Vida intensa Lembramos a Martinho que além dos oito filhos, de quatro casamentos, e sete netos, ele já colocou no mundo quase 50 discos (incluídos aí as parcerias e os projetos especiais) totalizando mil canções gravadas, além de 11 livros, diversos sambas-enredo, outros tantos projetos culturais, uma produtora. Perguntado sobre o que ainda falta fazer na vida, Martinho desconversa: “Não sei o que é, mas falta muita coisa. Quando a pessoa acha que já fez tudo o que tinha que fazer na vida, já pode até morrer. Mas eu não estou a fim”, ri Martinho. Ele realmente não é muito fã de projetos arrastados, de longo prazo. Como seu colega Zeca Pagodinho, Martinho também gosta de “deixar a vida me levar”. E a vida o levará, agora em março, até Paris. “No dia 16 de março um livro meu, Romance Fluminense, do qual foi feita uma versão para o francês, será lançado no Salão do Livro de Paris. Vou lá fazer o lançamento”, contou Martinho. Escrevendo, Martinho revela sua faceta politizada que já era evidente desde os tempos dos festivais, quan-


MARTINHO DA VILA

“Não sei o que é, mas falta muita coisa. Quando a pessoa acha que já fez tudo o que tinha que fazer na vida, já pode até morrer. Mas eu não estou a fim”

Martinho da Vila num momento descontraído em sua Escola ensaia para show que fará para a festa de 90 anos do PCdoB.

do ainda era sargento do Exército e iniciou pra valer sua carreira artística. Vamos Brincar de Política?, lançado em 1986, é o título de seu primeiro livro, escrito para a coleção “Quem canta, conta”. É dedicado ao público juvenil e leva o leitor a imaginar situações políticas do dia-a-dia, a partir de experiências vividas pelo próprio Martinho e sua família. Nesta mesma toada, ele publicou, em 2007, o romance Vermelho 17..., resgatando e atualizando uma série de memórias de sua infância. O personagem protagonista do livro é um adolescente carioca chamado Vermelho de Assis Barreto, filho do barbeiro comunista Gerônimo, que batizou o filho com o nome da sua cor preferida, por torcer pelo América e também pela associação à ideologia do socialismo.

Vila Isabel e Angola Martinho da Vila nasceu Martinho José Ferreira. O “da Vila” ele incorporou ao nome depois que se tornou, ao lado de Noel Rosa, uma das grandes personalidades da escola de samba Vila Isabel, sua grande paixão. Quando conversamos com Martinho, no dia 4 de fevereiro, faltavam poucas semanas para a Vila entrar na avenida com um enredo que tem tudo a ver com Martinho. “Samba de lá que eu sambo de cá - O Canto Livre de Angola”, uma homenagem ao país africano com o qual Martinho da Vila tem relações muito próximas. Ele explica que a língua portuguesa foi um fator importante para sua aproximação com a África. “O português é uma língua bastante falada, mas não é uma língua muito forte. Agora, a importância da língua foi acontecendo, você faz um negócio aqui, fizeram um filme (Línguas), me chamaram, eu fiz uma participação, aí eu pensei em fazer um disco. A música africana não entrava no Brasil, não entra com facilidade. Então eu fiz alguns projetos nesse sentido, trouxe cantor lírico, trouxe o projeto Kizomba, e as coisas foram acontecendo. Depois eu vi que poucas pessoas sabiam sobre os países da lusofonia, países africanos de língua portuguesa. Aí eu fiz um trabalho neste sentido, fiz um disco. Mas não com objetivo político em si, era puramente artístico. Mas a gente acaba ficando envolvido”, diz.

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martinho da vila

"É uma festa e como gênero de música é qualquer samba com a linguagem e temas do cotidiano"

Segundo Martinho, é desta experiência que nasce o enredo da Vila Isabel no carnaval de 2012. “Esse enredo é baseado nesse lance, O primeiro evento que fiz aqui foi o Canto Livre de Angola. Foi fantástico. O enredo foi baseado nesse evento. Eu falei que seria legal fazer um tema sobre Angola, sobre o país. Eu já tinha feito uma vez sobre Kizomba, sobre a África de maneira geral, mais político inclusive. Eles acharam legal fazer o canto livre, eu achei ótimo também... Até andaram falando que a idéia foi do Lula, mas não foi do lula nada”, relata Martinho, rindo, é claro. Ele realmente não é muito fã de projetos arrastados, de longo prazo. Como seu colega Zeca Pagodinho, Martinho também gosta de “deixar a vida me levar”. E a vida o levará, agora em março, até Paris. “No dia 16 de março um livro meu, Romance Fluminense, do qual foi feita uma versão para o francês, será lançado no Salão do Livro de Paris. Vou lá fazer o lançamento”, contou Martinho. Na letra do samba-enredo da Vila, há uma frase que cita o cantor: ”Viva o povo de Angola e o negro rei Martinho”. É uma homenagem, mas ainda não do tamanho que a escola espera fazer para ele. “Eles planejam fazer

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um enredo sobre mim há um tempo. Queriam fazer em 2011. Eu disse que não. Era centenário do Noel, pegava mal não falar do Noel. Agora já estão propondo pro ano que vem. Ser enredo é uma honraria, legal, mas tem que pensar o momento bom de fazer isso. Tem coisa boa que faz no momento errado e aquilo não acontece. Então tem que pensar bem, mas se resolverem fazer, ficarei bem feliz”, diz Martinho, disfarçando a modéstia. Na conversa com Princípios, ele confessou que esperava que a Vila Isabel ganhasse o carnaval desse ano. Não deu. A Unidos da Tijuca levou o título. A Vila ficou com um honroso terceiro lugar, atrás do Salgueiro. Em compensação, a escola de Martinho levou a melhor na entrega dos Estandartes de Ouro, premiação promovida pelo jornal O Globo, em parceria com a Prefeitura do Rio e considerada uma espécie de “Oscar” do Carnaval. Em sua 41ª edição, a premiação contemplou a Vila Isabel com seis troféus, incluindocanta o de melhor escola de samba de 2012. “Estou feliz da vida”, disse o cantor ao receber o prêmio.


Martinho canta um samba de sua autoria durante entrevista para descontrair

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artesãos por trás do bojo perfeito Luthiers conquistam a confiança dos maiores músicos do mundo Lucas Nobile

Lineu Bravo O luthier fez violões de Chico Buarque, Guinga, Alessandro Penezzi e Rogério Caetano.

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ACORDES

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crendice popular prega que bater três vezes na madeira espanta o azar. Para os luthiers - fabricantes de instrumentos de cordas - o gesto carrega um significado muito mais amplo. Bater na madeira, para eles, não representa apenas sorte, é sinônimo de conhecimento das verdadeiras obras de arte que eles produzirão. Um trabalho que não aparece aos olhos do público, mas que faz uma diferença vital para os músicos. A intimidade com os jacarandás baianos (utilizado do pouco que restou nos estoques dos ateliês devido à proibição imposta pelo Ibama) e indiano, com o pinho, o cedro, o ébano e outros tipos de madeira é resultado de um ofício que exige níveis extremos de perfeccionismo e paciência. Os luthiers, como Sérgio Abreu, Lineu Bravo, Luiz Couto e Sérgio Abreu, que já

Samuel Carvalho O luthier leva cerca de um ano e meio para entregar um violão.

produziram os instrumentos para os maiores violonistas do País, cuidam da matéria-prima de seus instrumentos como se ela fosse um filho recémnascido. Chegam a esperar anos para poder trabalhar em madeiras que ficam conservadas em ambientes com a umidade relativa do ar controlada. É algo inerente ao material, que só melhora com o tempo. “Uma madeira e um violão novo nunca terão a mesma sonoridade de um instrumento de dez anos”, diz Samuel Carvalho. “Eu tenho um violão de 1920 com a umidade relativa do ar controlada que continua se desenvolvendo. Os tampos que eu uso para construir meus violões têm mais 40 anos de corte”, comenta Sérgio Abreu sobre madeiras. A maioria dos luthiers de ponta tem profundos conhecimentos musicais, o que lhe permite entender com clareza

e traduzir em sons as demandas feitas pelos músicos. Seria praticamente impossível um leigo compreender as exigências de agudos, médios, graves, harmônicos e sustain (tempo de sustentação e duração de uma nota). Caso mais emblemático em termos de afinidade com o universo musical é o de Sérgio Abreu, de 61 anos. Um dos luthiers mais respeitados de todo o País, sendo considerado um dos maiores violonistas eruditos do mundo, de 1963 a 1981, ano em que abandonou os recitais para se dedicar à construção de instrumentos. “Eu sempre procuro construir um violão que eu gostaria de tocar se eu ainda fosse concertista profissional. Eu faço todos os meus instrumentos com o mesmo cuidado que eu usava para estudar na época em que eu me apresentava em concertos eruditos”, diz Abreu.

Luiz Couto Alves “Um bom luthier precisa buscar desesperadamente a perfeição em sua arte”.

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ESPECIAL

CARTOLA FOI UM SONHO QUE A GENTE TEVE Fundador da Mangueira, autor de alguns dos mais belos sambas da mĂşsica brasileira. A face conhecida do grande compositor esconde o homem reservado, que adorava a poesia de Bilac, encantava Villa-Lobos, ensinou e aprendeu com Noel Rosa Por Elisabeth Martins

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CARTOLA

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frase de Nelson Sargento, afirmando que “Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve”, talvez corasse o reservado e tímido Angenor de Oliveira, que passou para a história da MPB como Cartola por causa do chapéu-coco que o pedreiro usava para livrar-se do cimento no cabelo. Aliás, curiosidade sobre seu nome é que se chamava Agenor até o dia em que teve de tirar papéis para o casamento e descobriu o “N” a mais em sua certidão, obra de um escrevente criativo. Para, em suas próprias palavras, não ter de mudar toda a papelada, acabou assumindo o novo nome. As histórias curiosas do jovem nascido no Catete, em 1908, que na sua juventude dizia ser o “pretinho mais bem-vestido de Laranjeiras”, bairro de classe média para o qual se mudou ainda criança, não param aí. Poucos sabem, mas Cartola nasceu no início do século num bairro de classe média por ser neto do cozinheiro do senador Nilo Peçanha, que se tornaria depois presidente e levaria seu avô para o Palácio do Catete. O pai, que era primo da mãe, veio de Campos para se casar e na hora de assinar os documentos teve de confessar à frente do juiz que era analfabeto. Segundo a amiga e biógrafa de Cartola, Marí-

lia Barboza, nesse momento declarou que nunca mais passaria tal vexame na frente de outra pessoa. Matriculou-se no Liceu de Artes e Ofícios, aprendeu português, francês

“O compositor passou para a História da MPB como Cartola por causa do chapéu-coco de pedreiro que usava”.

e música, e tomou gosto pela poesia. Paixões que passou para o filho, que com ele aprendeu os rudimentos de violão e tomou gosto por poetas que o acompanharam pela vida. Com a morte do avô, os pais não conseguem manter o padrão de vida e a família acaba se mudando para perto do morro da Mangueira, onde o compositor começa

Repleta de momentos difíceis, a vida de Agenor de Oliveira era descrita pelo próprio como “um filme de mocinho”: “Acabei vencendo quase no final”, dizia ele

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O Zicartola foi criado em 5 de setembro de 1963 quando seu primeiro contrato foi assinado pelos sócios Eugênio Agostini Netto, seus primos Renato e Fábio Agostini Xavier e Dona Zica.

a escrever sua história mais conhecida. Aos 17 anos, ele rompe com o pai, que foi embora da Mangueira e com quem só voltou a se encontrar muitos anos depois. Mas o gosto pela poesia permaneceu. Marília lembra que Cartola tinha um desejo imenso de aprender e lia Olavo Bilac, Guerra Junqueira, Carlos Drummond de Andrade e autores como Padre Vieira. E essa curiosidade também esteve presente num encontro decisivo para a música brasileira, o de Cartola com Noel Rosa, que ia para sua casa no morro. Segundo a biógrafa, Noel pegou a malandragem do ritmo e a melodia do samba do criador da Mangueira. Cartola conversava e observava as letras do Noel e passou também a falar do cotidiano, estilo do compositor de Vila Isabel. Dessa época, final dos anos 1920 e começo dos anos 1930, há dois fatos marcantes na vida de Cartola. A primeira gravação de um samba seu, “Que Infeliz Sorte”, compra-

do por Mário Reis, mas gravado por Francisco Alves. E o primeiro samba com que a Mangueira desfilou, “Chega de Demanda”. Há ainda o encontro com outro personagem essencial da música brasileira, Pixinguinha. Embora nunca tenham composto juntos, eram amigos. E o principal assunto entre eles nada tinha a ver com música, mas sim com o fato de que os dois não podiam ter filhos e haviam adotado crianças. Admiravam-se como compositores, mas a diferença entre o samba-canção de Cartola e o choro de Pixinguinha provavelmente não permitiu a parceria. Mas os dois gênios da MPB estiveram juntos em outro momento, mais precisamente em 1940, quando foram levados por Villa-Lobos para mostrar suas músicas para um dos mais famosos maestros do mundo à época, Leopold Stokowski. Nesse encontro, a bordo do navio SS Uruguai, ancorado no porto do Rio, foram gravadas dezenas de fai

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Foto à esq: Nelson Cavaquinho, Cartola e Mário. À esquerda, Ismael Silva. Foto à dir: Nelson Cavaquinho e Cartola tiveram momentos históricos

xas, das quais 16 acabaram lançadas nos Estados Unidos no álbum duplo Brazilian Native Music. Cartola compareceu nessa seleção com “Quem Me Vê Sorrindo”, entoada por ele e algumas pastoras da Mangueira. Provavelmente, o primeiro registro de uma música sua, com sua voz. No Brasil, isso só viria a acontecer em 1968. Antes, na fase áurea do rádio, vendeu sambas que acabaram gravados por Francisco Alves, Mário Reis, Carmen Miranda, entre outros. Cabe destacar que Cartola, diferentemente de outros compositores, vendia os direitos comerciais de disco, mas fazia questão que seu nome permanecesse. Segundo Marília Barboza, a novidade que interessou a essas estrelas do rádio é que Cartola fazia um samba diferente do maxixe de compositores como Donga. “Havia cansaço de todo mundo em gravar músicas como ‘Pelo Telefone’. Cartola aparece com um samba diferente, que vinha da tradição dos negros bantos, que só apareceram depois da abolição e começaram a botar letra profana no batuque da macumba. Isso era novidade”, afirma. Passada essa fase, em meados dos anos 1940, quase se vai

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embora a carreira de Angenor. Depois de ter vendido vários sambas, ganhado pouco dinheiro e nunca gravado um disco, Cartola enfrenta uma série de problemas pessoais, como a morte da primeira mulher. Desentende-se com o pessoal da Mangueira, vai morar em outro bairro e fica “sumido” por quase uma década. Chegaram a dizer que estava morto. E quase, porque nesse período enfrentou uma meningite, foi lavar carros e “tomar conta de um pré-

“Cartola aparece com um samba diferente, que vinha da tradição dos negros bantos. Isso era novidade”


CARTOLA

dio”. Acabou “redescoberto”, em 1956, quando foi tomar café num bar e encontrou com o jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que lhe perguntou se não era o grande Cartola. Com a confirmação, Sérgio prometeu tirá-lo daquela vida, o levou para algumas rádios. Cartola voltou a ser visto e reconhecido, embora sem ainda ganhar dinheiro suficiente para viver com sua música. Pouco depois, voltou a trabalhar como contínuo. O estudioso e autor do Dicionário Houaiss de Música Popular Brasileira, Ricardo Cravo Albin, diz que Cartola foi durante quarenta anos o maior desperdício da música popular, ficou alijado da carreira por conta de uma série de preconceitos. “Pelo fato de morar em morro, ter empregos apequenados ante a visão da aristocracia, viver nos botequins da cidade, ele não teve carreira como Noel, Ary Barroso, Lamartine Babo, Dorival Caymmi, que são seus contemporâneos,” analisa. Nos início dos anos 1960, fato marcante é a abertura do restaurante Zicartola, na Rua da Carioca, no Centro do Rio, com sua segunda mulher, Zica. Ela comandava a co-

zinha; Cartola, as músicas. Foi um espaço para a sociedade brasileira ver e rever músicos como Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Zé Ketti, também esquecidos, e jovens iniciantes como Paulinho da Viola e Elton Medeiros, que viria a se tornar parceiro de Angenor. Paulinho, ao recordar esse tempo, emociona-se. “Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Nelson Cavaquinho, essas pessoas não morrem, é o que eu sinto do fundo da alma. Não estou falando da morte física, é claro.” Ele lembra que já conhecia Cartola de nome e de algumas músicas quando o compositor Hermínio Bello de Carvalho o convidou para ir ao Zicartola. “Na época, não era interessado em composição, queria ser músico, acompanhar outros artistas. “Cartola, Zé Ketti e Elton Medeiros é que me influenciaram e incentivaram a compor. Eles me estimularam e deram muita força”, relata. E o mestre deve ter gostado do que se transformou a criatura, pois sempre que questionado referia-se a Paulinho como seu descendente, aquele cuja música mais se assemelharia à sua. “Com certeza tenho a influência dele, porque minha admiração era muito grande. Isso é algo do fundo do meu

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coração, que falei hoje com um amigo. Eu me acho com muita honra um vassalo de Pixinguinha, Cartola, Roberto Silva, Ciro Monteiro… A gente fica teorizando, bota um acorde aqui e ali, mas isso é uma continuação. Sinto-me orgulhoso de fazer parte da linhagem dessas pessoas.” O Zicartola faliu pelo fato de seus donos serem muito melhores para cozinhar e compor músicas do que para administrar finanças. Cartola voltou a ser gravado por alguns cantores, participou em 1968 do antológico disco Fala Mangueira (sua primeira gravação no Brasil), junto com Odete Amaral, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça. Mas sua estreia com voz e composições próprias só seria registrada em 1974, já com 65 anos de idade, pela gravadora Discos Marcos Pereira (veja discografia abaixo). Marília Barboza diz que quando o disco, que se chama Cartola, foi lançado, “assustou os pesquisadores, os críticos

Foto à dir. Cartola desfilando pela Estação Primeira de Mangueira. Foto abaixo. No carro que homenageava Cartola e Dona Zica, Beth Carvalho acena para o público ao lado do jornalista Sérgio Cabral

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O ilustre mangueirense Cartola anunciou que não iria desfilar pela Mangueira porque não agüentava correr. “Isto não é carnaval, é parada militar”, protestava contra a obrigatoriedade de desfilar em 80 minutos.

e o público em geral com doze faixas que eram excelentes”. O Nelson Sargento ficou com algumas de memória, mas além dessas novas, nos discos há várias composições maravilhosas que são pouco divulgadas.” Hoje, 30 anos depois, suas músicas ainda podem ser ouvidas nas gravações de cantoras consagradas como Elis Regina, Nara Leão, Zé Ketti e Nelson Sargento, Paulinho da Viola, e sua influência é reconhecida em artistas que resgatam o samba, como as bandas Imperial e Republicana, Casuarina e uma série de novos cantores e cantoras. Paulinho até hoje trata Cartola com deferência e exemplifica como é difícil cantar algumas músicas suas. Os que estavam ali presentes, os diretores, o pessoal da técnica, todos ficaram assim sem ter o que falar, comoveu todo mundo. Fiquei tão tocado que não conseguia cantar essa música, me emocionava sempre que tentava, e só consegui cantar e gravar há pouco tempo.” A obra de Cartola, hoje, é divulgada, mas para quem conviveu com ele o personagem era muito maior. Como disse Nelson Sargento, Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve. “Só um Peito vazio descobre que O mun-

“Num dado momento ele tomou a frente e disse que queria cantar um samba novo. Aquilo não estava no roteiro, não sabiamos o que fazer...” do é um moinho/ E quando isso Acontece a Alegria vai embora/ E as Cordas de aço de um violão solam baixinho/ Uma canção que se chama Disfarça e chora,/ Eu confesso que Tive sim, um Amor proibido/Vai amigo e diz-lhe o quanto eu tenho sofrido/ Mas tudo se ajustará numa linda Alvorada/ O sol nascerá, Pouco importa depois/ Se estamos juntos Nós dois/ O nosso amor brilhará numa noite tão linda/ As Rosas não falam, mas podem enfeitar/ A grande Festa da vinda”.

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Bate outra vez Com esperanças o meu coração Pois já vai terminando o verão enfim Volto ao jardim Com a certeza que devo chorar Pois bem sei que não queres voltar para mim Queixo-me às rosas, mas que bobagem As rosas não falam Simplesmente as rosas exalam O perfume que roubam de ti Devias vir Para ver os meus olhos tristonhos E, quem sabe, sonhavas meus sonhos por fim AS ROSAS NÃO FALAM, CARTOLA

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"VOU DEIXAR O CAVAQUINHO DESCANSAR" Seu Jorge fala sobre futuros trabalhos e marca uma breve despedida do samba Pedro Antunes | Fotos: Rui Mendes

Recentemente, o cantor lançou novo álbum “Músicas para Churrasco Vol.1” e compôs abertura da novela Salve Jorge


SEU JORGE

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eu Jorge está atrasado. Uma hora depois do horário marcado, nesta terça-feira, 6, a equipe de reportagem da Sarau entra em uma redonda sala com cheiro de cinzeiro onde ele concede as entrevistas, para divulgar seu CD e DVD ao vivo Músicas Para Churrasco Vol. 1 Ao Vivo. O músico nos recebe com o sorriso branco aberto. “Você quer uma cervejinha?”, pergunta ele ao voltar a se esparramar em uma das muitas cadeiras que circulavam a mesa no centro da sala, logo depois das apresentações. “Não quer, mesmo? Pô, vai recusar minha cerveja artesanal... Tem suco aqui também. E salgadinhos?” O jeitão malandro carioca e a fala mansa já indicam que Jorge Mario da Silva não liga muito para horários. Sobre o motivo do atraso, uma gravação com Dudu Nobre, para o próximo álbum do sambista, ele conta com uma empolgação quase infantil: “Tá bom pra caralho! Samba, muito samba. Eu acabei com tudo lá”, diz ele, antes de cantar “E Eles Verão a Deus”, um samba-enredo da Unidos da Ponte, com aquele vozeirão característico: “Hoje a natureza canta / A musa se encanta / E vem pra festejar / E vem sorrir que a vida é bela”. O DVD e CD ao vivo, com lançamento previsto para o dia 21 deste mês, marcam a despedida (pelo menos por um tempo), do Jorge sambista. Músico acostumado a ir para direções difusas (basta lembrar o experimental Seu Jorge e Almaz, antecessor do popular Músicas Para Churrasco Vol. 1), ele agora pretende “colocar o cavaquinho descansar”. É também a despedida de Pretinho da Serrinha do grupo que acompanha Seu Jorge, que parte agora em projeto próprio com o Trio Preto +1. “Perdi um cavaquinhista, mas ganhei um artista”, brinca Jorge. “Sempre achei o choro do cavaquinho tão bonito, prático e maravilhoso. Mas ele era totalmente colocado de lado, discriminado. O técnico de som vê um cavaquinho e já diz: ‘lá vem um pagodeiro’”, diz o músico. O samba, intrínseco na sua formação, ganhou espaço com o último disco, feito exatamente para criar uma aproximação maior com as camadas mais populares. “Eu me apoiei muito nesse instrumento. Porque por mais igual que eu seja, em formação, ao Belo, ao Exaltasamba e ao Revelação, sou diferente.”

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No palco, Jorge parece atuar como o faz nos cinemas. É uma espécie de novo Tony Tornado, mais um showman

E, por ser esta uma breve despedida, o clima do registro não poderia ser outro, que não festivo. “E era o dia da Consciência Negra”, relembra o músico. O show gravado foi realizado em 20 de novembro de 2011, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. “Queria gravar em Madureira”, confessa o músico, mas a estrutura do bairro não comportaria a quantidade de gente presente. O encontro dessas canções com o subúrbio carioca entrara em ebulição naquela noite. Músicas Para Churrasco foi feito intencionalmente para isso, com causos e personagens suburbanos, como “A Doida”, “Meu Parceiro”, “Véia”, “Vizinha”, “Amiga da Minha Mulher”, todos eles facilmente reconhecíveis – personagens e histórias comuns para qualquer um de nós. No palco, Jorge parece atuar como o faz nos cinemas. É uma espécie de novo Tony Tornado (mais baixo, obviamente), mais um showman – com divertidos passinhos de dança – e anfitrião para os convidados, não apenas um cantor. Ao fundo, a excelente banda também relembra os animados shows de gospel, com o quarteto de metal balançando cheio de ginga ao sabor da música. “Eu quis reencontrar essa identidade negroide da música brasileira que tem passado despercebida e ficou nas mãos das batidas eletrônicas, como no hip-hop e no funk carioca. Tocar esse tipo de som, de maneira mais analógica ou eletroacústica, foi um grande desafio. Acho que deu certo”, diz. Os convidados também entram e dão força ao espetáculo, cantando ora músicas próprias, ora de Seu Jorge. Como bom anfitrião, Jorge os deixa à vontade – tem até cerveja e uma mesa de boteco no palco para Zeca Pagodinho cantar “Bagaço da Laranja” e “Deixa a Vida Me Levar”. Há participações de Alexandre Pires, Caetano Veloso, Trio Preto+1, Sandra de Sá e Racionais MC’s. “Era uma festa aberta para o público e todas essas pessoas são amadas pelo povão”, diz Jorge, antes de dizer que tentou chamar Ivete Sangalo para participar da gravação, mas foi impossível encaixar a data na agenda. “Aquela ga-


lera que está no DVD gosta do Caetano, mas não pode vê-lo. Não por dinheiro, não, meu irmão, mas por um complexo de inferioridade que é embutido neles. O cara vai falar: ‘Eu não tenho roupa para ir’. É a mesma coisa com a curiosidade de ir ver uma pintura do [Claude] Monet, o cara já ouviu falar, mas vai dizer que vão reparar no sapato que estiver usando, na camisa, entende? Quando um artista dessa grandeza, como Caetano, vai até o público, as pessoas ficam daquele jeito.” O clima festivo do show só some quando os paulistanos Racionais MC’s surgem no palco para cantar “Diário de um Detento” e “Negro Drama”. Questionado sobre o motivo para incluir a turma de rappers, Jorge dá nos ombros e não busca justificativas rebuscadas. mas não pode vê-lo. ‘Eu não tenho roupa para ir". É direto: “Eles são a minha referência. Os Racionais são tudo o que eu queria ser e não fui”, conta. ”Entendo a dureza que é, como é importante para eles manterem a posição deles, mas algumas coisas estão mudando. Como era o Dia da Consciência Negra, não tinha como falhar. Era de graça, não tinha como falhar, entendeu?”

“Vamos começar a trabalhar com o charme, aquela ideia de baile de charme com R&B. As pistas estão ali.” As pistas para o próximo trabalho de Seu Jorge estão na décima faixa de Músicas Para Churrasco Vol. 1, de 2011, “Quem Não Quer Sou Eu”, que foge do caráter animadodo samba de todo o resto do disco e parte para um soul suingado dos anos 80. “Vamos começar a trabalhar com o charme, aquela ideia de baile de charme, com R&B. As pistas estão ali”, diz. “Mas quero algo bastante brasileiro, diz ele, gesticulando como uma daquelas cantoras divas norte-americanas. “Estou ficando mais velho e o público também”, brinca Jorge. Ele se despede, agarra o copo suado de cerveja, acendendo outro cigarro na sala fechada para se preparar calmamente para a próxima entrevista. O relógio já passou das 20h30, e ele tem uma longa jornada pela frente. E Seu Jorge ainda está atrasado. Sarau | Dezembro de 2013

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JOÃO BOSCO

"ADORARIA IR A UM BAILE FUNK" O cantor e compositor faz 60 anos, lança o primeiro DVD, fala da retomada da parceria com Aldir Blanc e confessa que a queda de cabelos já lhe tirou o sono Por Marcela Viana | Foto: André Korg

No lugar do banquinho, uma varanda e um violão. Sentado no parapeito da sacada que oferece vista para a verde mata carioca, João Bosco sorri. Está à vontade em sua espaçosa casa no alto da Gávea. Está, sobretudo, confortável dentro dos 60 anos, 33 de profissão. A data tem importância histórica e João resolveu celebrá-la com o lançamento do primeiro DVD. João Bosco ao Vivo – Obrigado, Gente! apresenta sambas da década de 70 e sucessos românticos dos anos 80 e 90. O cantor e compositor mineiro tem fôlego para mais. Lançará até o fim do ano um disco em que retomará a parceria com Aldir Blanc após 20 anos de afastamento. São 60 anos de idade e 33 de carreira. Datas são importantes? Não sou ligado em datas. Não sei o aniversário de ninguém da minha família. Passo vexames. Sei que é meio chato, mas acontece. Alguém precisou avisá-lo dos seus 60 anos? Esse negócio de 60 anos é uma idade diferente. Até os 50 a gente entende. Depois, fica meio pensativo... Pensa em quê? (Pensa) Tenho feito shows de duas horas de duração e não me sinto cansado. A idade me fez tomar mais cuidados. Por exemplo: adoro sol, mas não vou à praia ao meio-dia. Já fiz muito isso quando era jovem.

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Comete alguma imprudência? Ah, gosto de cometer imprudências no caminho dos birinights (risos). Não posso cometê-las com freqüência em função do trabalho, mas quando tiro férias, enfio o pé na jaca. Enfio mesmo – e adoro. Eu diria que o trabalho é o responsável pela minha disciplina e pela boa saúde que tenho. Em seu novo trabalho, a faixa inclui o som de uma bateria que caracteriza a violência urbana no Brasil. Como essa violência se reflete na sua vida? Impus certos limites à minha liberdade. O espaço em que trafego se tornou limitado. Por isso, talvez não sinta medo. Como já fui a muitos lugares, me conformo em não poder mais ir. Mas e a juventude? Como é que você vai convencê-la de que seus espaços são limitados pela violência? E seus filhos? Não convenço. Não posso impor limites a eles. Eles vão nas bocadas, onde o bicho está pegando. Estão na idade de fazer isso. Só me resta me apegar aos meus santos e a meus orixás. Onde o medo lhe impede de ir? Adoraria ir a um baile funk, a redutos de funqueiros. Tomar um birinight, observar as pessoas, o astral. Encontrei o DJ Marlboro e disse que gostaria de conhecer um baile funk. Me convidou pra ir a um show no Canecão, mas tem que ser na bocada.


O cantor e compositor mineiro tem fôlego para mais. Lançará até o fim do ano

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ESCOLA PORTÁTIL DE MÚSICA

A escola é coordenada pelos músicos Mauricio Carrilho, Pedro Aragão e Luciana Rabello. A tradicional família Carrilho, de músicos instrumentais, também está presente

chamadas abertas para cursos da escola portátil de música Criada por músicos de choro em 2000, a Escola Portátil de Música vem protagonizando uma história de crescimento e sucesso. O que começou com cerca de cinqüenta alunos na Sala Funarte, hoje em dia possui, no campus da Uni-Rio na Urca, cerca de 1100 alunos de flauta, clarinete, saxofone, trompete, trombone, tuba, bombardi54

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no, contrabaixo, violão, cavaquinho, bandolim, pandeiro, percussão, piano, canto e canto coral - Sem falar das aulas de teoria musicais, harmonia, apreciação musical etc. A formação oferecida pela EPM é completa, dando ao aluno formado a possibilidade de trabalhar dentro de qualquer estilo musical, não apenas o choro.

A Escola Portátil é uma iniciativa do Instituto Casa do Choro, que promove também, anualmente, o Festival Nacional de Choro. Desta forma, transforma-se em um ambiente propício à troca de informações sobre o que acontece em todo o Brasil em relação ao choro, e a projetos que utilizem a música como veículo. Dessa troca de


ESCOLA PORTÁTIL DE MÚSICA informações resultam iniciativas em todo o país e até no exterior, que evidenciam o potencial do Festival. Desta forma, transforma-se em um ambiente propício à troca de informações sobre o que acontece em todo o Brasil em relação ao choro, e a projetos que utilizem a música como veículo. Dessa troca de informações resultam iniciativas em todo o país e até no exterior, que evidenciam todo o potencial do Festival. Aberta a todos os interessados, com resultados de amplo alcance social, comprometida com a disseminação de uma das maiores riquezas da cultura brasileira, a Escola Portátil de Música é uma iniciativa do Instituto Casa do Choro com patrocínio da Petrobrás.

A EPM cobra uma da taxa de inscrição de R$ 25,00 (para cada instrumento escolhido) e uma taxa semestral. Os alunos novos devem pagar a taxa de inscrição e comparecer ao teste de nivelamento no dia 1/2/2014. A lista dos aprovados será divulgada neste site, e estes alunos estarão aptos a pagar a semestralidade e garantir sua vaga na Escola Portátil de Música no 1º semestre de 2014. A formação oferecida pela EPM é completa, dando ao aluno formado a possibilidade de trabalhar com qualquer estilo, não apenas o choro o que abrange desde música erudita, camerata, além de música de câmara, samba, MPB, música folcórica e principalmente de raiz brasileira.

A taxa de semestralidade é de R$300,00, e dá direito a: • • • •

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aula de instrumento aula de Apreciação Musical hora de ensaio do Bandão hora de Roda de Choro

As aulas acontecem aos sábados na Urca, de 8:30h às 13:30h, Duração das aulas: 50 minutos. As inscrições podem ser feitas pelo site da escola: www.escolaportatil.com.br

EPM conta atualmente com 35 professores e mais de 1100 alunos

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ACORDES

samba e choro na internet Discografia completa de Ernesto Nazareth na Internet

Site disponibiliza sambas antigos para download gratuito

Nelson Cavaquinho em documentário raro no Youtube

Alexandre Dias

Juliana Gonçalves

Camila Garófalo

Ernesto Nazareth é o primeiro compositor do mundo a ter sua discografia inteiramente disponibilizada na internet. Já está disponível uma extensa tabela catalogando cerca de 2.500 gravações de músicas de Nazareth feitas desde 1902 até hoje, em todo o mundo. Gravações feitas no séc. XX pela lendária Casa Edison, a explosão que foi sua música em 1914 nos EUA e Paris, o período de transição na década de 1940 com influências americanas, os primeiros LPs antológicos na década de 1950, sua grande redescoberta pela pianista Eudóxia de Barros em 1963 e Arthur Moreira Lima em 1975. www.ernestonazareth150anos.com.br

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”. E quem deseja encontrar clássicos do ritmo para download pode recorrer ao site “Receita de Samba”. com alguns dos primeiros regionais, passando por gravações do próprio. A página reúne álbuns de nomes como Adoniram Barbosa, Clara Nunes, Nelson Cavaquinho, Cartola e Noel Rosa. Na página é possível encontrar gravações em 78 rpm, além de documentários, entrevistas, cifras, letras de músicas e, também, história dos sambas e dos sambistas. Existe ainda uma seção dedicada a sambas-enredo. www.receitadesamba.com.br

“Sei que amanhã quando eu morrer os meus amigos vão dizer que eu tinha um bom coração”. Com a voz rouca e rasgada, Nelson Cavaquinho se consagrou sagrado no samba. Em um mini-documentário raro encontrado na internet, encontramos também as profundezas de Nelson. Sempre em busca de aliviar seus “Ais”. Se não pudemos dar as flores em vida, nos resta orar e relembrar seus versos: “Depois que eu me chamar saudade não preciso de vaidade, quero preces e nada mais” O documentário está disponível por tempo ilimitado no Youtube, podendo ser visto através do link: www.youtube.com/V91QvAqeAEo

Ernesto Nazareth é o primeiro compositor a ter sua discografia de graça na internet

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Cena dodocumentário de Nelson Cavaquinho, disponível no Youtube


ACORDES

Livro pode ser adquirido na Livraria Cultura. Foto: Divulgação

livro resgata a história do choro no brasil “Chorando na garoa - Memórias musicais de São Paulo” contextualiza a chegada do choro no país José Francisco Neto

Para resgatar a história do choro no Brasil, o professor universitário e mestre em políticas de educação, José de Almeida Amaral, lança o livro “Chorando na garoa – memórias musicais de São Paulo”. A publicação pode ser reservada com antecedência nas Livrarias Cultura. O choro é considerado a primeira música popular urbana típica do país, com origem no Rio de Janeiro, em meados do século XIX. Ainda hoje é executado tanto por grupos tradicionais, por músicos de outras origens. “Se trata de um livro sobre música, sobre cultura brasileira, mas que aplica as bases da análise e política, porque a arte brota desse chão, das relações sociais”, explica o autor.

Na primeira parte do livro, discussão com base bibliográfica sobre o cenário socioeconômico do país ao longo do século XIX. A reforma urbana, a vinda de novos instrumentos e músicas estrangeiras e a abolição do tráfico de escravos no Brasil deram início ao surgimento do choro, já que possibilitou a emergência de novas classes sociais. Daí em diante, o gênero deu origem aos seus principais personagens. Em seguida, José de Almeida discorre o texto sobre a cidade de São Paulo, a partir de suas manifestações musicais que influenciaram e caracterizaram o choro paulista em meados do século. Depois disso, faz um levantamento cuidadoso dos nomes históricos do choro local.

Chorando na Garoa José de Almeida Amaral Jr. Editora Livronovo

Na segunda parte do livro, o professor entrevistou 42 músicos das rodas de choro em diversos pontos da cidade de São Paulo. O objetivo dessas entrevistas, foi coletar depoimentos sobre a vida, carreira e aspectos diferenciais do choro paulista em relação a outros locais onde esse gênero se manifesta. Entre os entrevistados estão os renomados músicos brasileiros Izaías Bueno de Almeida, Laércio de Freitas, Toninho Carrasqueira, Milton Mori, entre outros. O livro ainda conta com o prefácio de Fernando Faro. “O choro é um bom exemplo de expressão cultural que o Estado deveria colocar seus olhos e estimular a prática e o estudo, por ser um patrimônio brasileiro”, argumenta. Sarau | Dezembro de 2013

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PIXINGUINHA

GÊNIO POPULAR Há 40 anos morria Pixinguinha, um dos maiores músicos da nossa história. Levou suas últimas duas décadas na flauta, no restaurante Gouveia Por Washington Vieira

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Nascido em 23 de abril de 1897, Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, aprendeu a tocar flauta com o pai e jรก se apresentava aos 14 anos. Sarau | Dezembro de 2013

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pixinguinha

E

le chegava como se fosse um cliente comum, às vezes ainda pela manhã, noutras já no meio da tarde, e se acomodava na mesa preferida, ao lado de uma parede com blocos de vidro, num cantinho mais reservado do restaurante Gouveia, no centro do Rio de Janeiro, que até hoje é um endereço popular, sem qualquer sofisticação. Quase sempre comparecia de terno e gravata, apesar do forte calor carioca. Podia chegar sozinho, mas não demoraria a ficar rodeado de amigos, entre os muitos que arrebanhou em uma carreira sem paralelo na música brasileira, os companheiros mais frequentes eram os músicos Donga e João da Baiana. Nem precisava fazer o primeiro pedido. Os garçons logo traziam seu uísque, que nos bons tempos ele gostava de tomar puro, mas passou a misturar com água mineral à medida que a saúde foi dando sinais de fragilidade. Puxava conversa com quem estivesse por perto, ouvia e contava histórias ponteadas por boas risadas, e de vez em quando pedia um papel em branco para anotar uma ideia de melodia. Algumas dessas partituras ainda decoram as paredes do singelo restaurante instalado em uma sobreloja da Avenida Rio Branco, que hoje resiste servindo bandejão no almoço, mas conserva o subtítulo “Escritório do Pixinguinha”. Era assim que o autor de “Carinhoso”, “Lamento”, “Rosa”, “Um a Zero” e tantos outros choros, maxixes, sambas e valsas geniais costumava passar as tardes nas duas décadas anteriores à sua morte, em 17 de fevereiro de 1973, a dois meses de completar 76 anos. “Além de compositor brilhante, um dos maiores que o Brasil já produziu, Pixinguinha era uma figura humana extraordinária, que nunca fez um inimigo na vida. Tive o privilégio de me reunir com ele várias vezes no Gouvêia e até de visitá-lo em sua casa no bairro de olaria”, conta o pesquisador musical Ricardo Cravo Albin sobre o compositor que há exatos 40 anos saiu de cena para virar uma das mais cultuadas lendas da MPB. “seu petisco predileto para acompanhar o uísque eram cubinhos de

Em 1922 Os Oito Batutas realizaram a primeira turnê de um grupo negro e de música popular ao exterior.

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“Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido; escreva depressa: Pixinguinha.” Ari Vasconcelos


queijo”, lembra Albin, “mas também mandava vir um filé no palito ou uma calabresa acebolada para enganar a fome. O codinome, conforme o próprio Pixinguinha revelou em depoimento ao museu da imagem e do som (MIS) em 1966, foi a ele atribuído em um dia de festa na casa de seus pais. “todos se reuniam na mesa de baixo, larga e grande, abarrotada daquelas comidas, frios, carne assada etc. (...) fui devagarinho e tirei aqueles panos de cima da comida e apanhei um pedaço de carne assada para provar. Meu irmão chegou naquele instante e me surpreendeu: ‘sai, carne assada! sai, carne assada!’ fiquei com esse apelido durante muito tempo, mas depois sumiu”, relatou Pixinguinha, que também era fã da mãe-benta, do bolo de milho e de outros quitutes preparados com desvelo por dona Raimunda, sua mãe, e depois reproduzidos minuciosamente por Beti, sua companheira por mais de 50 anos. Na mesma entrevista ao MIS, o compositor contou que sua avó africana o chamava de Pizinguim, nome que depois se misturou com Bexiguinha (por ele ter contraído varíola) e acabou evoluindo para o definitivo Pixinguinha. O cantor e radialista almirante descobriu que Pizinguim significa “menino bom” num dialeto africano, e sugeriu

que esta deveria ser a origem do nome. Como a avó africana de Pixinguinha, falecida há muito tempo, nunca foi consultada sobre a razão de chamar o neto de Pizinguim, as duas interpretações permanecem válidas até porque se encaixam perfeitamente no perfil desse mestre da MPB, tão conhecido pela bondade quanto pelo apetite. Nascido em 23 de abril de 1897 numa família de músicos, Alfredo da Rocha Vianna filho, o Pixinguinha, aprendeu a tocar flauta com o pai e já se apresentava nos cabarés da Lapa aos 14 anos, levado pelo irmão mais velho, Otávio Vianna, o china. Naquela mesma época, ainda usando calças curtas, substituiu numa emergência o flautista da orquestra que se apresentava no cine Rio Branco, vivíamos o tempo do cinema mudo e acabou tomando o lugar do titular quando este tentou voltar, por pressão dos demais músicos, embasbacados com os improvisos daquele garoto atrevido. “Eu não obedecia à partitura porque era do choro e tinha um bom ouvido. Sua evolução musical foi impressionante. Em 1913, aos 16 anos, formou o trio caxangá, ao lado dos violonistas Donga e João Pernambuco. No ano seguinte, editou pela primeira vez uma composição de sua autoria, “dominante”, o crédito foi dado pela casa editora Carlos Wehrs a “Pizindim”. Nesse mesmo ano, gravou um disco com o choro “sofres Porque Queres” e a valsa “rosa”, que também virariam clássicos. Em 1918, a convite do dono do elegante cine Palais, articulou a criação do conjunto oito Batutas, arrebanhando uma legião de admiradores. Os arranjos que fazia para o seu conjunto e outras orquestras eram revolucionários, comparados ao quadradíssimo do que vigorava então. “Pixinguinha foi o grande criador do arranjo musical brasileiro”, assevera o crítico Sérgio Cabral, autor do livro Pixinguinha, Vida e Obra, lançado em 1977. Tirava o pijama, colocava um terno e subia com um buquê de flores para ver Beti. Depois, descia para o seu quarto e continuava o próprio tratamento. Beti morreu em junho daquele ano, sem saber do infarto do marido. Pixinguinha se foi sete meses depois, abatido por novo infarto, quando se preparava para batizar mais um filho de amigos na igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Faltavam duas semanas para o Carnaval, que naquele ano não foi tão alegre quanto os outros.

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LANÇAMENTOS

UM DISCO FELIZ EM MEIO À DOR DA PERDA Alcione lança disco que privilegia os sambas e homenageia Emílio Santiago

Por Ricardo Schott Foto: Alex Mendes

Alcione volta a privilegiar o samba no repertório, ainda se recupera da morte do amigo Emilio Santiago

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felicidade que salta do título e das músicas do novo disco de Alcione, ‘Eterna Alegria’, é uma conquista que vem após uma imensa perda. A cantora, voltando a privilegiar o samba no repertório, ainda se recupera da morte do amigo Emilio Santiago, em março. E o homenageia com ‘Magia do Palco’, de Altay Veloso, no álbum. “Minha glicose foi a 42, minha pressão a 28. Ainda não consigo nem ouvir os discos dele”, entristece-se a cantora. “Nos conhece-


ALCIONE - ETERNA ALEGRIA mos quando cantávamos na noite com Djavan e Leci Brandão, e ficamos amigos. Não podia arrumar um namorado que ele já queria saber quem era. Perguntava: ‘Quem é esse bofe, Alcione? Isso presta?’”. O novo álbum de inéditas da cantora Alcione, “Eterna Alegria”, nasceu de uma conversa com a irmã, produtora, e diretora dos seus shows, Solange Nazareth:- “Conversamos, e surgiu a ideia de fazer um trabalho mais alegre. O Brasil é um país que tem uma festa, um pagode em cada esquina, e o brasileiro é conhecido pelo bom humor e por sua eterna alegria. Mas é tanta coisa ruim estampada, diariamente, pelos veículos de comunicação...Este também foi um dos motivos que nos levaram a optar pela gravação de um disco com mais sambas e norteado pela alegria”, diz Alcione.

E a Alcione está de volta ao Samba? Não, de volta não porque jamais deixou de registrar, em todos os álbuns, o gênero musical que a projetou. No entanto, em “Eterna Alegria”, a artista privilegiou o estilo que é considerado quase como um “cartão-postal” de nosso país. E a intérprete fez questão de diversificar ao gravar sambas das mais variadas tendências: “São sambas de várias vertentes. Os lentos e românticos não faltam, mas tem muito pagode e sambas pra galera se acabar de dançar”, antecipa a Marrom. Produzido por Jorge Cardoso, que também compõe o time de arranjadores formado por José Américo, Ivan Paulo, Julinho Teixeira, Paulo Calazans e Alexandre Menezes (da Banda do Sol, grupo que acompanha Alcione), o CD traz 15 sambas inéditos e uma faixa-bônus que já está na boca

eterna alegria

do povo: “Amor Surreal”, de Carlos Colla e Michael Sullivan, o tema da personagem de Solange Badim, a “Delzuíte” na novela “Salve Jorge”. Os destaques são muitos num álbum que traz uma inédita parceria, na música “Ê, ê”, entre Djavan e Zeca Pagodinho. Novidade inusitada é a canção “Pontos Finais” por Ana Carolina, Chiara Chivelo e Dudu Falcão. A faixa que titula o novo trabalho de Alcione, do compositor Júlio Alves em parceria com Carlos Jr, Ramirez será a primeira música de trabalho e sairá em versão single nos próximos dias. No álbum, sambas e pagodes dolentes, samba-rock, samba-jazz, e de tantos e tantos matizes escritos por bambas. Destaque também para a composição “Magia do Palco”, de Altay Veloso, gravada em homenagem ao querido amigo Emílio Santiago.

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Gravadora: Biscoito Fino

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Nome da faixa Eterna Alegria Ê, ê Bate Palma Aê Produto Brasileiro Sentença Pontos Finais Por Ser Mulher A Dona Sou Eu Sem Palavras Direitos Iguais Difícil de Aturar Conversa Fiada Chapéu de Couro Ogum Chorou Magia do Palco Amor Surreal

Autor Carlos Jr, Ramirez, Alex Almeida Djavan, Zeca Pagodinho Paulinho Carvalho, Cacá Franklin Xande de Pilares, Gilson Bernini Serginho Meriti, Claudemir Ana Carolina, Dudu Falcão Jorge Aragão Paulinho Resende, Nenéo Francis Hime, Thiago Amud Sereno, André Renato Max Vianna, Fred Camacho Julio Alves, Carlos Jr, Ramirez Papete, Manoel Pacífico Arlindo Cruz Altay Velloso Carlos Colla, Mihail Plopschi

Editora Music Pub. | Som Livre Luanda | ZP (Universal) Som Livre Universal MGB Deck Disk Armazem (Sony) Nowa Prod. Sony ATV NossaMusica | UBC Warner Chappell Universal Som Livre DP | Amar Universal Warner Chappell EMI | Matrix (Sony)

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LANÇAMENTOS

a delicadeza que vem desses sons A

melia Rabello é uma cantora de timbre especial, apurados recursos técnicos e repertório marcadamente brasileiro, com samba, choro, modinha e toada, na tradição da música carioca herdada de Elizeth Cardoso, Ciro Monteiro, e Cartola. Qualidades como essas foram atestadas por nomes da MPB como Paulo César Pinheiro, Raphael Rabello, Paulinho da Viola e Caetano Veloso, que compôs “Samba para Amelia”, dedicado à intérprete. O repertório traz inéditas de compositores veteranos, entre eles Radamés Gnattali, Ataulfo Alves, Baden Powell, Moacyr Luz e Roque Ferreira. Há também duas obras dos jovens compositores Ana Rabello e Julião Pinheiro, seus sobrinhos. “É um disco fora do seu tempo aos ouvidos dos mais desavisados, mas se mantém atual pois fala da solidão, tão comum nesses dias tecnológicos. Aviso que esse disco veio para remexer nos assuntos do coração”, diz Amelia.

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Camerata Brasilis

Alexandra Nicolas

Sambô

Camerata Brasilis - Acari Records •••

Festejos – Acari Records ••••

Estação Sambô (Ao Vivo) – Som Livre ••

Grupo de choro carioca integrado por nove músicos. Maria Souto (flautas e sax tenor), Aline Gonçalves (flautas e clarinete), Vitor Macedo (clarinete), Luis Barcelos (bandolim), Pedro Aune (contrabaixo), Gabriel Leite (percussão) Marcos Tannuri (cavaquinho), Glauber Seixas e João Gabriel Souto (violão 7 cordas). O grupo é considerado uma pequena orquestra popular de câmara e declaradamente inspirado no conjunto de choro Camerata Carioca. O grupo lançou o primeiro disco pela Acari com patrocínio do Programa Petrobras Cultural”

No repertório, músicas de Paulo Cesar Pinheiro com diversos parceiros, em homenagem às mulheres do povo do nosso país. Da passista das escolas de samba do Rio às morenas de Cabedelo da Paraíba, essas mulheres são cantadas por Alexandra com uma emoção ímpar. “Alexandra queria fazer um disco louvando as mulheres brasileiras, trabalhadoras e festeiras, do sertão e do litoral, da roça e do subúrbio, da capital e do interior. Ofereci os meus guardados, onde ela mergulhou por um bom tempo.” (Paulo César Pinheiro).

Misturando o samba aos mais diversos estilos, como pop, rock e MPB, o grupo Sambô está chegando às lojas com o seu segundo trabalho: “Estação Sambô (Ao Vivo)”. Este trabalho conta com as participações especiais de Sidney Magal (em “Proud Mary”), Di Ferrero, do NX Zero (em “Os Cegos do Castelo”), e Péricles (em “Sentimento que Dói” e “Deixa”). Um grupo de músicos estudiosos, irreverentes, comprometidos, divertidos e, principalmente, autênticos, que traz em suas produções as diversas culturas do Brasil.

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Músicos participantes Afonso Machado, Ana Rabello Pinheiro, João Lyra, Julião Rabello, Luciana Rabello, Magno Júlio, Marcelo Bernardes, Marcus Thadeu dos Santos e Pedro Aune.

descrição das faixas do cd

Amelia Rabello - A delicadeza que vem desses sons Gravadora: Acari Records •••• Ano: 2013

1. Santa Voz (com Baden Powell e Paulo César Pinheiro) - Samba com personalidade, na linha melódica do Baden, que é muito singular. Agora o samba é gravado com a letra original.

5. Descuido (com Julião Pinheiro) É uma valsa contemporânea, violonística na tradição das valsas brasileiras. Julião Rabello é discípulo musical de Dino 7 Cordas.

9. Estigma (com Paulo César Pinheiro) - Geralmente tocado nas rodas com uma levada regional, mas no disco acabou ficando numa versão piano e voz, com andamento mais livre.

2. Seu Ataulfo (com Radamés Gnattali e Paulo César Pinheiro) - Existe uma gravação instrumental do Radamés, porém, contava apenas com a primeira parte da melodia.

6. Tanta Despedida (de Moacyr Luz) - Foi feito especialmente para a Amelia Rabello. De Moa, a cantora já havia gravado ‘Saravá Brasil” que deu nome ao disco que vendeu no Japão.

10. Velhos Chorões (com Luciana Rabello) - Um clássico nas rodas de choro do mundo. Também nasceu instrumental e foi gravado no disco solo da cavaquinista, há 11 anos.

3. Tempo Perdido (samba de Ataulfo Alves) - Só tem dois registros antigos: da Carmem Miranda e do próprio compositor. Amelia gosta muito desse samba desde a infância.

7. Chave da Porta (com Luís Moura) - É um samba-canção impressionista que bebeu direto na fonte do ilustríssimo Tom Jobim.

11. Alma Vazia (de Roque Ferreira) O compositor baiano é conhecido pelos seus sambas de roda, mas eis uma chance de ouvir um samba urbano, com influência de Ataulfo Alves.

4. Pela Noite (de Luís Moura e Paulo César Pinheiro) - Uma saga de dois compositores que narram as aventuras de um boêmio na Lapa antiga. Série que está na oitava canção.

8. Velho Ninho (com Cristovão Bastos e Paulo César Pinheiro) - Samba inédito da dupla, fala da solidão contemporânea. É um samba dolente, estilo que está meio esquecido.

12. Gota de Mágoa (com Ana Rabello) - Mais um samba com influência nítida de Mauro Duarte. Ana é afilhada de Amelia e herdeira da escola de cavaquinho da mãe, Luciana.

No tempo de Noel Rosa

Nas Rodas do Choro (DVD) Gravadora Biscoito Fino •••

Carnaval Brasileiro

Este filme é um documentário que passeia pelo universo das rodas de choro tendo como interesse principal o processo de aprendizado deste gênero tipicamente brasileiro. E nessa roda, participam grandes nomes do samba e choro como Luciana Rabello, Odette Ernest Dias, Joel Nascimento, Mauricio Carrilho, Paulo César Pinheiro, Zé da Velha, Silvério Pontes, Nilze Carvalho, Trio Madeira Brasil, Marco César, Bozó 7 cordas.

Este livro de História do Brasil da Ediouro Singular aborda a história do carnaval desde seu surgimento, na Idade Média, até o advento da Internet, passando pela organização da festa nas principais cidades do país. Traça um amplo e surpreendente painel da cultura brasileira e contém muitas informações inéditas e análises capazes de agradar tanto ao estudioso de história do Brasil mais compenetrado quanto o folião mais animado.

Almirante - Editora Sonora

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Cinqüenta anos depois da publicação original, surge nova edição de No Tempo de Noel Rosa, escrita por seu parceiro musical e amigo, Almirante. O intuito dessa edição revisada é aproximar o leitor do universo pelas linhas do autor. O vocabulário da época foi respeitado, o que também auxilia na viagem ao tempo de Noel. E, como se não bastasse, o livro documenta com propriedade o nascimento do samba no Rio, com muitas histórias testemunhadas.

Felipe Ferreira - Ediouro •••

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CRÍTICA

elis - a musical Por Arthur Xexéo Foto: Alex Mendes

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ão há espetáculo recente, pelo menos entre os que se classificam como superprodução, que tenha uma produção tão caprichada quanto a de “Elis, a musical”, o espetáculo dirigido por Dennis Carvalho, em cartaz no Rio, no Teatro Casa Grande. Virou lugar comum dizer que os musicais brasileiros já atingiram o nível dos espetáculos de Nova York e de Londres. Não é verdade. Não atingiram nem mesmo o nível do que se realiza no Canadá ou na Alemanha. Alguns problemas já foram realmente superados, como a existência de elencos capacitados para cantar e dançar e a equalização do som, que não faz mais o espectador se torcer para entender o que está sendo cantado no palco. Mas ainda há uma longa trilha a percorrer. É verdade. Com “Elis, o musical”, esta trilha começa a ser percorrida. A luz mágica de Maneco Quindaré e a cenografia aparentemente simples mas altamente sofisti-

cada de Marcos Fleiksman dão credibilidade a uma série de cenários como o Beco das Garrafas, um auditório de TV, um estúdio de gravação e o que mais foi exigido no texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade. Um espetáculo como este precisa de uma protagonista irresistível. E “Elis, a musical” tem. Laila Garin é uma estrela. Na sua carreira, Laila tem um estilo que a aproxima mais de Gal ou Marisa Monte. No palco do Casa Grande, ela sofre uma transformação. Cantora excepcional (consegue ficar mais parecida com Elis nos graves), ótima atriz, dela é exigido mais do que se pode exigir de qualquer boa atriz. E ela responde. O público delira. Mas a grande surpresa do elenco é Felipe Camargo. Divertido, discreto, sem jogar para a

plateia, ele compõe um Ronaldo Bôscoli irrepreensível e, melhor de tudo, que canta muito bem. “Elis, a musical” tem momentos emocionantes, Elis e Jair Rodrigues faziam nos tempos de “O fino da bossa”. Há também cenas constrangedoras, como aquela em que, num salão de cabeleireiros, o coro canta “Alô marciano”. É incompreensível também a seleção de canções, fora de contexto num espetáculo cronológico. Há muito altos e poucos baixos. Na hora de analisar o custo-benefício, “Elis, a musical” é imperdível. Sobrou emoção que se espalhou até pelas calçadas da Avenida Afrânio de Mello Franco. E já há uma marca que ninguém tira desta produção: “Elis, a musical” tem melhor título de musical brasileiro de todos os tempos.

Laila Garin, brilhante no papel de Elis Regina, levando o público ao delírio

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