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Novembro | 2012 | nº 01 | R$ 5,00

A arte intervindo na cidade

Como o grafite ganhou o mundo e fugiu do preconceito (p.15)

Palhaços Espaguete e Ferrugem levam sua explosão de cores pelo estado (p.21)

Entrevista: O desafio que é interpretar Gonzaga (p.9)


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Expediente Conselho editorial Aline Rodrigues, Daísa Alves, Gabriele Tavares, Luiz Philipe Barros, Nadjara Martins Editora Nadjara Martins Coordenação de Produção Gabriele Tavares Projeto gráfico Nadjara Martins Direção de arte Gabriele Tavares Produção Editorial Aline Rodriges

Revisão Aline Rodrigues Charge Luiz Philipe Barros Chefia de reportagem Daísa Alves Reportagem Aline Rodrigues, Gabriele Tavares, Luiz Philipe Barros, Nadjara Martins Colaboradores Felipe Araújo,Karoline Rodrigues, Robledo Milani (Papo de Cinema), Ítalo Albano e Nathália Aires Acesso Publicações Ltda. @acesseumaideia Acesso é poder e poder é informação. Todos os direitos desta edição reservados à Editora Acesso. Av. Senador Salgado Filho, 3000 | Campus Universitário. Lagoa Nova | 59.078-970 | Natal/RN | Brasil acesso.rar@gmail.com | www.acesseumaideia.blogspot.com | Telefone: 84 8703-1804 04


Editorial Pegue um bocadinho de cultura da terra. Acrescente uma pitada de elementos urbanos. Tempere com prosa e poesia. Manteiga do sertão a gosto. Pronto, tá feito o Baião. O resultado é esse aí: Vish mesmo! Essa não deve ser a primeira nem a última vez que você ouviu falar da cultura nordestina, especificamente da potiguar. Duvido muito, no entanto, que você a tenha visto florescer e respirar,

viva, como nas páginas desta revista. Isso porque nós não buscamos apenas retratar a cultura desta terra. Nós afundamos nela - e com os dois pés, sim senhor. Isso tudo para trazer para você, caro leitor um pouco da aquarela que é ser verdadeiramente nordestino, papa-jerimum. O que é ser desta terra de sol e calor durante 233 dias por ano; interior de solo rachado; banho de cuia; xique-xique com farofa. Mas que não é só isso, também. O estadoelefante do Brasil foi base-aérea

norte-americana, exportador de mão de obra para São Paulo e boa parte do país, e aonde chegou primeiro o chiclete, o jeans, as botas. O nordeste é uma fusão de elementos, de influências, de outras terras desse Brasil varonil e

dos confins de além mar. E é isso que nós, da Vish!, reservamos para você nesta primeira edição. Do circo de bairro à efervescência cultural da Ribeira. Do grafite de Mãe Luiza às histórias do Rei do Baião. Qual delas vai ser a primeira? Respire fundo e passe a página... Boa leitura! Nadjara Martins | Editora VISH! 05


Agora é minha vez! Ao Rei do Baião, com carinho Luiz Gonzaga foi, é, e continuará sendo, em essência, brilhante. Cada uma de suas canções sabe bem o que transbordar, o carinho pela moça da Cintura Fina, o respeito a Januário, a Saudade de Helena. Mas se havia algo que deixava até Sabiá com inveja era quando o saudoso Rei do Baião dispunha-se a falar do seu sertão. A Asa Branca que bateu asas há quarenta e sete anos, ainda não voltou, e teve sorte, pois se aqui estivesse, enfrentaria seca igual ou pior do que a que obrigou-a a partir. Não teve Pedido a São João que desse jeito e Luiz se foi sem ver o fim do sofrimento do seu povo. No entanto, teve tempo suficiente de pregar aos sete ventos a situação caótica em que se encontrava o sertão nordestino sem deixar de lado as rimas que o glorificavam. Graças a ele não há uma só pessoa que desconheça quão belo é o Luar do Sertão ou que não saiba o que faz as meninas enjoarem da boneca. Não haveria designação melhor do que a que ele conquistou e viverá pra sempre, nas canções e nos corações, o eterno Rei do Baião. - Que não fique dúvida, eu me orgulho, e muito, de ser nordestina! Karoline Rodrigues Natal/RN

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Quantos Contos Por Daisa Alves

Demaquilante As luzes apagaram, o publico se foi. Agora só em seu camarim o palhaço visualiza sua imagem no espelho. As cores de sempre decoram seu rosto: branco total, vermelho bocal, preto escuro em seu olho. O algodão será seu auxilio para retirar a maquiagem, para retirar sua alegria, retirar sua história rida. O Palhaço começa a se recordar dos primeiros passos no circo... Primeiro mesmo, ele nasceu nele. Seu pai era trapezista e sua mãe bailarina. Seu sonho era seguir os passos paternos, mas nunca “deu jeito pra coisa”. Tentou de tudo; trapézio, malabaris, mágica, pirofagia. Como era muito engraçada a maneira desastrosa em que executava os movimentos, lhe deram a função de O Palhaço. Palhaço era sua marca de derrota. As sobrancelhas e os olhos já foram levados pelo algodão. O vigor de sua juventude em seu esforço natural de levar as gargalhadas também.

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O Gonzaguinha de Júlio Andrade

Nascido em Porto Alegre em

1979, Júlio Andrade – ou Julinho, como é conhecido pelos amigos – é um dos atores nacionais de maior expressão no atual cinema brasileiro. Depois de uma série de pequenos papéis em produções feitas no Rio Grande do Sul, como O Homem que Copiava (2003), de Jorge Furtado, se destacou em todo o país como protagonista de dois longas que, Cão sem Dono (2007), dos paulistas Beto Brant e Renato Ciasca, e Hotel Atlântico (2009), baseado no romance do autor João Gilberto Noll. Agora, no entanto, Julinho se desliga de vez das origens sulistas em seu maior desafio já enfrentado na tela grande: dar vida ao músico Gonzaguinha, ídolos de multidões e falecido em 1991. O resultado pode ser conferido no elogiado Gonzaga: De Pai pra Filho, de Breno Silveira, a grande aposta de bilheteria do cinema nacional em 2012. E foi sobre esse trabalho que o artista conversou com exclusividade com o Papo de Cinema! Confira! 08

Como foi o processo de transformação do Júlio Andrade em Gonzaguinha?

Ah, isso começou há muito tempo. Tenho uma história de amor com o Gonzaguinha, ele é o meu ídolo maior na música nacional, desde muito pequeno o admiro pra caramba. Por causa dele fui ser, antes de mais nada, músico, pra depois virar ator. Quando fiquei sabendo que essa história seria contada, mais de cinco anos atrás, decidi correr atrás de todo mundo pedindo para entrar para o elenco, porque era um filme que eu precisava fazer. Falei com produtores, outros atores, agentes, amigos, até que cheguei aos ouvi-


dos do pessoal da Conspiração Filmes, responsável pelo projeto. Daí me chamaram para um teste, pois ninguém me conhecia. Fui lá, fantasiado de Gonzaguinha, bem anos 80, com o espírito e a coragem. E agora estou aqui.

importava. Fui procurar por esse pai, por essa história, do mesmo modo que o Gonzaguinha fez com sua própria vida. As expectativa são as melhores possíveis.

O Breno Silveira tem fama de ser um cinComo foram as fil- easta de muita emoção. magens no sertão? Isso transparece durante as filmagens? O Breno sabia muito bem o que queria, e por isso que, quando me Nossa, muito. O Breno foi um viu, teve certeza de que eu era o amigo que ganhei nessa avenGonzaguinha que ele procurava. tura, é alguém que guardarei para Quando estou fazendo um filme, sempre. Ele é genial, sensível, um mergulho nele sem olhar para trás. grande companheiro. Foi marCostumo fazer uma analogia, avilhoso estar ao lado dele nesse como se fazer um filme fosse como processo. Ele sabe bem o que seguir numa viagem. A gente quer, e isso fica evidente, oferesempre sai transformado. Fo- cendo segurança e tranquilidade mos para o sertão, para a cidade para todo mundo da equipe, seja onde o Gonzaga nasceu, fui para no elenco ou na técnica. Ele fez Juazeiro, na Bahia, filmamos no com esse filme algumas cenas sol, no calor, na noite, onde e mágicas, que vão entrar para a como foi preciso. Eu estava mui- história do cinema nacional. E to feliz em estar lá, isso era o que era uma produção grande, com

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dinheiro, tinha estrutura, tudo funcionava. O Breno tem um carinho todo especial com os atores, ele entende o processo de atuação. Foi tudo muito especial. Quais as expectativas em relação ao lançamento de “Gonzaga: de Pai para filho”?

com um potencial enorme. Estamos esperando por um acolhimento muito caloroso da crítica, do público também. Acho que será muito bacana. É um filme que fala do Brasil, que promove um resgate de dois ícones da nossa música. Aí está sua importância maior, e todo mundo que for vê-lo perceberá isso.

As expectativa são as melhores possíveis. Esse processo de pré-lançamento está sendo muito bom. Todo mundo tem recebido o filme com muita emoção, esse é um filme diferente, grande,

Entrevista realizada pelo crítico de cinema Roberto Milani em 17 de outubro de 2012 ao site Papo de Cinema.

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Ainda na Ribeira... Por Luiz Philipe Barros

Na iminência de uma Copa

do Mundo, o recorte desse momento da história de Natal nos leva a uma questão que intriga parte da população: Onde está a cena cultural da cidade? Não é o bairro mais estruturado da cidade, não é o mais rico, não é o mais limpo, nem ao menos o mais seguro para receber os viajantes trazidos pela Copa do Mundo. Mas, sem dúvidas, em cada viela estreita e beco centenário da Ribeira estão marcadas as pegadas históricas da infância natalense e, nos olhos dos moradores que ainda vivem no lugar, o brilho dos anos cintilantes da boemia potiguar. A Ribeira foi o segundo bairro da cidade. O lugar foi o berço das mais importantes personalidades natalenses, como o expresidente Café Filho, nascido na casa de número 22, da Rua Quinze de Novembro, onde hoje funciona um aconchegante

museu de fachada branca e vizinhança pacata, que leva seu nome. A Ribeira também foi palco da história do artista plástico Newton Navarro e do historiador Luís da Câmara Cascudo. Cascudo nasceu na Rua das Virgens, numa imponente construção de muros amarelos, no alto da imensa ladeira, que liga a Cidade Alta à “Cidade Baixa”(antigo nome da Ribeira). O casarão onde Cascudo cresceu, hoje, funciona como um espaço de exposição que nos oferta a oportunidade única de conhecer um pedacinho do mundo muito particular do mestre da cultura potiguar. Em sua obra História da Cidade de Natal, Cascudo retrata com delicadeza a origem do nome do bairro: “Ribeira porque a praça Augusto Severo era uma campina alagada pelas marés do Potengi. As águas lavavam os pés dos morros. Onde está o Teatro Alberto Maranhão, tomava-se banho salgado em fins do século XIX. O português julgava estar vendo uma ribeira. O terreno era quase todo ensopado, pantanoso, enlodado. Apenas 11


alguns trechos ficavam a descoberto nas marés altas de janeiro”.

Um pensamento comum entre grande parte dos próprios natalenses é: “Natal só tem praias, Com a construção do Porto de não tem cultura!” A ideia equivoNatal, e a instalação da sede da cada, se deve ao desconheciAdministração Provincial, con- mento da verdadeira realidade solidou-se o centro de comércio cultural da cidade pela falta de na região. Aos poucos, o bairro difusão dessas informações. A foi crescendo com a construção cultura local não merece um lude prédios tradicionais como o gar de destaque apenas durante Teatro Carlos Gomes (hoje Teatro Alberto Maranhão), o Cine Polytheama (primeiro cinema de Natal), a Antiga Escola Doméstica de Natal, o Grupo Escolar Augusto Severo, o Colégio Salesiano São José, a Estação Rodoviária de Natal (hoje transformada em museu), e a Estação da Great Western. Apesar disso, apenas uma parcela da população natalense tem conhecimento das atividades culturais desenvolvidas no bairro. O fulgor do universo da Ribeira ainda é ofuscado pelo precon ceito contra o lugar. Devido à iluminação precária de algumas regiões e os crescentes índices de criminalidade, muitas pessoas têm receio de visitar o bairro e acabam ignorando a cena a Copa, ou voltada apenas para cultural de Natal, o que tam- a atividade turística. O mais imbém afeta o turismo da região. portante é que os próprios natalenses conheçam e valorizem a 12


sua cultura que, mesmo estando bastante esquecida, principalmente devido ao abandono dos órgãos públicos, é muito rica e diversificada. Dar visibilidade ao que já existe

Na busca de solucionar o problema da falta de visibilidade das atividades desenvolvidas no bairro, a Casa da Ribeira e o Cen-

tro Cultural DoSol prepararam um banquete de arte, cultura e história e começaram a servi-lo a partir da primeira edição do Circuito Cultural da Ribeira, re alizado no dia 8 de março de Dar visibilidade ao que já existe Na busca de solucionar o problema da falta de visibilidade das atividades desenvolvidas no bairro, a Casa da Ribeira e o Centro Cultural Do Sol prepararam um banquete de arte, cultura e história e começaram a servi-lo a partir da primeira edição do Circuito Cultural da Ribeira, realizado no dia 8 de março de 2011, durante as festividades do Carnaval. O circuito tem o apoio da lei estadual de incentivo à cultura, Lei Câmara Cascudo, e consiste na ocupação do bairro com eventos culturais acontecendo simultaneamente, em diversos pontos. As atrações são gratuitas para o público, promovendo uma grande circulação de pessoas pelas ruas da região para que elas observem os prédios e tenham consciência do valor histórico do lugar. Henrique Fontes, diretor artístico e educacional da Casa da Ribeira, um dos idealizadores e coorganizador do Circuito, afirma que “o evento está se 13


mostrando eficaz. Além de ser um espaço de valorização do bairro e de educação patrimonial, fez as pessoas começarem a entender qual a importância de um bairro histórico na cidade”.

paço tomado pelas exposições de artes plásticas e apresentações musicais de jazz. Foram apenas algumas das incontáveis possibilidades oferecidas pelo Circuito.

Espaço Gira Dança foi o ponto de partida dessa aventura, com o espetáculo A Cura, a emoção de uma apresentação de dança em cadeira de rodas. No largo da badalada Rua Chile, de onde foi dada a partida do cortejo de batucada e afoxé, os grupos de jovens roqueiros, pagodeiros, indies e os coloridos do pop, agrupados em frente aos galpões de shows relacionados à sua arte, dividiam o espaço com mesas e carrinhos de lanche, convivendo pacifica- Satisfeito com os resultados mente em um ambiente prepara- que vem conquistando, Henrique do para acolher a diversidade. Fontes conta que as expectativas para as próximas edições Numa rua paralela, ecoavam risa- são boas, porém gostaria de das de adultos e crianças, que contar com mais apoio do poder desfrutavam atentos uma ap- público. “Eu particularmente resentação dos palhaços Piruá tenho ficado feliz com o que e Pepita em um espetáculo de tem acontecido. Obviamente, teatro infantil. Um pouco mais à a vontade é que o poder públifrente, adeptos movimento un- co comece a chegar mais junto, derground ocupavam um dos in- porque ainda temos o problema úmeros becos do bairro, e ao som estrutural da Ribeira, que fica do heavy metal acompanhavam de nítido na carência de iluminação, longe o vai-e-vem das pessoas que na limpeza, e na preservação visitavam o Buraco da Catita, es- dos espaços”, destaca. 14


“O grafite não pode perder a rua e a rua não pode perder o grafite” Por Aline Rodrigues, Gabriele Tavares, Ítalo Albano, Nadjara Martins e Nathalia Aires creem que o nascimento desse estilo tenha ocorrido durante o Império Romano, despontando como arte moderna no início da década de 1970, em Nova York.

Concentração

para manter o traço. Aos poucos vai colorindo a parede, o asfalto e o cinza que normalmente fazem parte da paisagem urbana. Atrelado diretamente ao estilo de música Hip Hop, que nasceu nos Estados Unidos, o grafite é um tipo de arte caracterizada, principalmente, por ser uma intervenção urbana. Sua origem diverge de acordo com a fonte consultada. Alguns acreditam que surgiu na pré-história, com as primeiras pinturas rupestres, enquanto outros

Entre tantas divergências, uma coisa é certa: o grafite existe para demonstrar, por meio dos desenhos com spray de tinta, o látex ou o próprio grafite a realidade das ruas, a desigualdade social e o preconceito vivido pelos grupos que vivem nas periferias. Forma de expressão, protesto e educação. Em um bate papo com a equipe da Vish!, o grafiteiro Miguel Carcará, 30, coordenador da Central Única das Favelas (CUFA) de Natal e artista há 15 anos, conta que o estilo das ruas nem sempre foi benquisto, sendo confundido com vandalismo. Hoje em dia, porém, tem ganhado mais visibilidade nacional e internacionalmente, tendo inclusive nomes brasileiros entre os melhores do mundo, como os gêmeos Gustavo e Otávio 15


Pandolfo, conhecidos por criar um estilo próprio e que ganha destaque em diversas exposições. Na capital potiguar o grafite só veio a se consolidar no início da década de 1990, crescendo em conjunto com outra arte que começava a despontar nas ruas, como protesto em forma de música: o rap. Juntos incomodaram, e hoje chegam a ser apresentados como qualquer outra expressão artística em galerias. No entanto, Carcará acredita que, mesmo com o reconhecimento, é essencial que as duas expressões permaneçam como forma de protesto urbano. “O grafite não pode sair da rua, nem a rua pode perder o grafite. O grafite é a voz de protesto que vem do mundo”, declara o grafiteiro.

zona norte da cidade, Carcará deu início a um projeto para ministrar oficinas de grafitagem em escolas estaduais. O objetivo é estimular nas crianças e adolescentes o interesse pela atividade, além de proporcionar um caminho alternativo àqueles que convivem diariamente com drogas, violência e outros problemas sociais. O projeto, que começou neste ano, é uma das atividades desenvolvidas pelo programa federal Mais Educação, que traz atividades alternativas para crianças durante um segundo período na escola.

Carcará, paraibano de nascença, conta que a vontade de grafitar nasceu naturalmente, com incentivo de alguns amigos mais velhos que já trabalhavam com cultura urbana. Hoje, 15 anos mais tarde, reconhece que a expressão artística é essencial para o desenvolvimento das cri- “Quero levar o grafite para a esanças, e tenta implantar isso em cola porque lá a criança se sente Natal. No bairro da Redinha, igual a todo mundo”, explica 16


Miguel. “Ela pode se expressar livremente, se adaptar, mesmo as coisas continuem do mesmo jeito quando voltar para casa”.

grafiteiro. “Ainda há uma confusão ideológica entre o grafite e a pichação. As duas são uma forma de grito, mas a pichação aos poucos foi se vinculando às gangues e grupos ilegais, sendo condenada pela justiça”, explica.

Além do projeto, o grafite também é profissão. Carcará realiza trabalhos independentes que chegam a render até R$150 ao dia. Garante que o grafite não é uma arte barata – o custo de produção varia e tem chegado a R$15 por lata de spray em Natal -, mas que é possível sobreviver da arte e dos serviços extras, podendo até sustentar uma família com quatro membros de forma tranquila, como a dele. Segundo Miguel, uma boa produção utiliza no mínimo dez latas. A arte, no entanto, pode durar até dois anos e a maioria das pessoas se sente feliz ao receber grafitei- A pichação, que também surros para ilustrar suas paredes. giu em 1980 no Brasil, teve seu ápice no período da ditadura Procuro fazer sempre algo volta- militar. “Diretas já” era uma das do para informar as pessoas e frases mais grafitadas na época. sou mais adepto ao grafite ur- Porém, foi se tornando cada vez bano, das ruas mesmo. Gosto mais vinculada à ilegalidade. Para de despertar a consciência com evitar confusão entre as duas frases e desenhos que retratem o expressões, Carcará já particcotidiano e a desigualdade social ipou de debates com a imprensa que existe. Tento educar as pes- e Polícia Militar com a finalidade soas de alguma forma”, declarou de esclarecer essa diferença. Miguel. Mas essa arte ainda sofre preconceito em Natal, explica o

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Arte para educar O grafite em Natal, ainda de forma tímida e pouco reconhecido, pode ser observado em diversas praças e prédios públicos da cidade. Parque das Dunas, Ribeira e Cidade Alta são alguns pontos onde podemos encontrar painéis. No entanto, segundo Carcará, ainda é preciso crescer. Para isso, o grafiteiro teve a ideia de tornar o protesto uma forma de educação e arte. Levou para as salas de aula. Há seis anos, Carcará mantém duas turmas, cada uma com 70 alunos, em duas escolas estaduais do bairro da Redinha, na zona norte da ci18

dade. “Eu sempre fui a fazer de usar o rap como postura, protesto, educação e reivindicação”. As crianças são encaminhadas através do projeto Mais Educação, que oferece oficinas e programas durante um segundo tempo escolar. De iniciativa federal, mas ainda implantada em poucas escolas do RN, o projeto é voltado para crianças carentes, principalmente para aquelas envolvidas com problemas pessoais. “O tempo que as crianças passam com a gente é válido. A escola é o principal é o principal ponto deles, oferece uma educação diferente das ruas”, comenta Carcará.


tradicionais, como a embolada e o repente, também pode virar forma de protesto. O projeto “Carcará na Viagem”, idealizado pelo grafiteiro Miguel Carcará há cinco anos, coloca em prática uma mistura que impressiona por nunca ter sido pensada antes. Rap, embolada e repente. Por que não? “Foi uma identificação muito forte saber que eu também podia brincar com a rima daquele jeito”, comenta Miguel. O primeiro CD, lançado em 2007, se expandiu, garantindo prêmios em festivais como MPBeco e Assembleia Cultural, participação O projeto começou aos poucos, no Festival MADA (Música da por iniciativa própria e bancada Alma), em Natal, e shows em cipelo próprio grafiteiro. Somente dades por todo o país. em 2010 ganhou o apoio federal. Mas a educação – a forma Apesar de gostar da música, o de transferir informação – sem- grafiteiro explica que o projeto pre esteve presente no trabalho nasceu mesmo como uma resdo grafiteiro, desde os primeiros posta aos rumos que o rap estava desenhos. “A minha característi- tomando. “O rap tem muitas vertca de trabalho é essa. Enviar uma entes hoje em dia. A nossa música mensagem com vários sentidos. nasceu como gripo de protesto, Sempre quero mostrar que as cobrança de políticas públicas, ruas não são só um lugar de vio- para falar de coisa séria. Hoje, lência, mas de felicidade também”. qualquer um fala m... , coloca uma base de rap e ganha a internet. É uma coisa que a gente não pode Uma mistura viajante controlar”, se indigna Carcará. A sonoridade dos versos nordestinos, através dos ritmos

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Como um cogumelo que brota na paisagem A história, as dificuldades e o encanto de um circo que não precisa de muito para arrancar sorrisos

É cheiro de pipoca quentinha

na manteiga, maçã caramelada, bala de goma colorida e sorriso de criança pintado no rosto. Os olhinhos brilham de entusiasmo, empurrões e trombadas, mães que gritam o nome dos filhos que se perderam no espaço pequeno,

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crianças que caem e levantam o tempo inteiro, sobem, descem e correm nas arquibancadas. Durante o curto intervalo, uma dúzia de crianças invadem o picadeiro e por um segundo sentem-se artistas do espetáculo, sob os olhares da plateia atônita. É esse conjunto de despretensa des-


organização e alegria que caracteriza o charme do circo Grock. Como todo pequeno circo, não apresenta grandes espaços, picadeiro onde possam desfilar elefantes, globo da morte ou espetáculos que caracterizam os circos mais conhecidos. Mas ainda assim chama a atenção do público. Dentro da tenda, o ambiente se transforma por completo. O picadeiro é iluminado de cima para baixo dando ênfase e destaque ao espetáculo. As arquibancadas azuis acomodam até 450 pessoas. O espetáculo conta com malabarismo, mágica e a participação de dois palhaços - Espaguete e Ferrugem. A interação com a plateia faz com que todos se sintam parte desse mundo mágico. O circo Grock consegue provar que até mesmo na simplicidade pode haver diversão. Percebemos isso ao observar os olhares das crianças e adultos que a cada domingo se encantam com a magia do universo circense. O circo surge com uma mistura de olhares, risos e alegria, explodindo na paisagem como um cogumelo. 21


As

melhores

idéias

em

um

Acesso.RAR @acesseumaideia Av. Senador Salgado Filho, 3000 | Campus Universitário acesso.rar@gmail.com | www.acesseumaideia.blogspot.com | 84 8703-1804

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