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agradecer e abraçar

uma maneira de sentir e viver o câncer cris gil


abracei o mar na lua cheia, abracei abracei o mar escolhi melhor os pensamentos, pensei abracei o mar é festa no céu, é lua cheia, sonhei abracei o mar e na hora marcada dona alvorada chegou para se banhar e nada pediu, cantou pro mar e nada pediu conversou com o mar e nada pediu e o dia sorriu... uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema, presentes eu fui levar e nada pedi entreguei ao mar e nada pedi me molhei no mar e nada pedi só agradeci... agradecer e abraçar (gerônimo/ vevé calazans)


Dedicado a todos os guerreiros e guerreiras com os quais cruzei nos hospitais, salas de tratamento, sessões de terapia e pelos caminhos da vida. Obrigada por estarem comigo neste percurso e fazerem com que meu aprendizado fosse rico, sincero e regado a muito amor e esperança. Não desistam nunca! Agradeço a toda minha família, base da minha vida, e aos meus amigos, portos seguros, que nunca deixaram meu barco perder seu rumo. Amo vocês!


a agendinha lilás Tudo o que virá escrito nas próximas páginas surgiram das minhas memórias, mas também de anotações cuidadosamente feitas numa certa agendinha lilás, que me foi presenteada em Barcelona, pelo meu querido amigo Juarez, quando esteve por lá para me visitar, em 2010. Naquela época, mal saberia o que viria a acontecer e o quanto aquela agendinha (linda e prática) seria minha mais fiel companheira durante o ano de 2011. Nela anotei cada passo, cada exame, cada consulta. Todas as sessões de quimio, todas as cirurgias, todas as sessões de radioterapia, minhas sessões de terapia e as viagens que fiz naquele ano. Estão meu início na cromoterapia e também trechos de livros e de coisas que li naquela época. Quando resolvi escrever a minha história, contei todo o tempo com a ajuda desta minha agenda que guardarei pela vida inteira, tal como uma adolescente com seu diário. Mais do que anotações práticas, é a minha história. São os meus medos, os meus passos. Revendo tudo isso, virando cada página, um filme intenso (mas com final feliz) passou pela minha cabeça. É bom escrever, é bom estar aqui. Obrigada aos queridos velhos amigos Juarez Guimarães Dias e Gera Lopes e ao novo (mas não menos importante) amigo Felipe Senna, grandes incentivadores para que eu colocasse tudo no papel (Aí está, meninos!). Logo na primeira palavra que escrevi, decidi criar uma regra: não seguir regras. Eu sempre me perguntava como poderia retribuir tudo o que recebi durante o ano de 2011. Acho que esta pode ser uma boa resposta. Espero que aproveitem e leiam com o coração, que foi meu grande guia durante o tempo que escrevi.

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abrindo a agenda Começando a escrever essas primeiras palavras, me vem à cabeça a razão de colocar no papel a minha história: a vontade de trazer pra fora aquilo que ainda lateja dentro de mim? A ideia de – quem sabe – alguém que esteja fazendo o mesmo caminho leia isso e possa pensar que, sim, é possível (e necessário) ter esperança? O desejo (agora mais consciente) de um dia mostrar isso ao filho que, espero eu, terei? Uma forma de agradecer ao Universo e às pessoas que me levaram pela mão e que fizeram com que esse ano fosse, acima de tudo, de aprendizado? É, acho que um pouquinho disso tudo. Não tenho nenhuma pretensão de ser exemplo para ninguém. Sempre insisto nisso porque acredito que cada um faz o seu próprio caminho. Cada um tem seu tempo, seu aprendizado, sua visão. Sua maneira de sentir e viver o câncer. Sim, eu tive câncer. Em nenhum momento, durante um ano e meio de tratamento, escondi ou reneguei isso. O primeiro passo é, sim, a aceitação. O “pé no freio” e o difícil caminho de transformar o medo em vitória. Por alguma razão isso aconteceu e – diferentemente da questão com a qual abro esse texto – talvez não seja tão importante conhecê-la. Nesse caso, o caminho em si é mais significativo do que o propulsor inicial. E assim aconteceu... Essa história começa em Barcelona, cidade onde vivia desde 2004. Estávamos no ano de 2010, outono. Eu tinha me separado há poucos meses (depois de cinco anos de relacionamento) e nesse momento alugava um quarto, em um apartamento no Borne, de uma querida amiga catalã, Lorena (que me foi apresentada por uma grande amiga, a Ju Spadano). Apesar de não querer entrar aqui na questão do fim do meu casamento, posso sim dizer que vivia, naquele momento, um turbilhão de emoções. Tristeza (sim, ninguém se casa pensando

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que algum dia vai se separar... A máxima do poetinha, “que seja feliz enquanto dure”, às vezes é difícil de ser compreendida na prática), decepção e muita dúvida e incerteza. Passei os meses de setembro e outubro “no ar” e, embora recebesse um imenso carinho dos amigos que tinha em Barcelona, me sentia perdida. Viria o momento em que eu teria que retomar de verdade a minha vida, e o “como” e “onde” estavam latejando dentro de mim. Depois de um tempo, resolvi relaxar. Entregar ao Universo. Me mover, claro, mas sabendo que a resposta de que rumo tomar viria.

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E ela veio numa manhã de outubro. Era domingo, estava sozinha em casa. Abri os olhos e, meio sonolenta, “ouvi” uma voz me dizendo: “Volta pro Brasil”. É meio irônico, porque inconscientemente eu tinha um certo medo de quando esse dia chegasse. Mas ele veio num domingo de sol e depois de ficar um tempo na cama com essa “vozinha” retumbando na minha cabeça, me levantei, acendi um incenso, fiz uma prece e senti uma paz enorme dentro de mim. Sim, o momento tinha chegado, era o melhor a se fazer. Liguei para minha família e comuniquei minha decisão. Capricorniana que sou, logo fui organizando a minha volta. Decidi então retornar em dezembro (ainda tinha um importante projeto que queria realizar em Barcelona naquele mês), passando o Natal em Lisboa, na casa do querido Juarez e em companhia dos “queridos amigos” Anne, Thi, Ed, Rebecca, Cris e Lenira. Eu precisava disso. Cruzar o oceano “na tora”, depois de quase sete anos vivendo fora e fechando um ciclo, seria muito pra mim. Precisava me preparar para essa volta e essa parada em Lisboa foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Decisão tomada, passagem comprada, dediquei o mês de novembro a me despedir da cidade que me abrigou durante todo esse tempo e onde vivi tantas coisas. Me despedi das pessoas, dos “meus lugares” e de alguma maneira da vida que eu levava ali. Era o momento de fechar esse ciclo e, apesar de sentir uma nostalgia antecipada, eu estava segura da minha decisão.


O Natal em Lisboa foi ótimo e aliviou a despedida de Barcelona. Fiquei lá por três dias, suficientes para começar a “mudar o chip” mas, claro, sentindo aquele friozinho na barriga. Como vai ser tudo daqui pra frente? A capricorniana surgia outra vez e, antes mesmo de chegar no Brasil, já ficava “punhetando” na cabeça opções de recomeço. Mal sabia eu que já estava “tudo escrito” e eu não poderia imaginar o que aconteceria a partir de então. Comecei o ano de 2011 já no Brasil. Meu aniversário (6 de janeiro) foi comemorado bem tranquilamente, em casa, com poucos amigos. Eu estava bem, mas essa volta é dura e, por mais que o corpo tenha voltado, parte de mim ainda estava cruzando o Oceano. Passei todo o mês de janeiro revendo amigos, estudando possibilidades de trabalho, mandando currículos. Resolvi então visitar uma querida amiga baiana, Nem, em Salvador, cidade que eu ainda não conhecia e tinha muita vontade de visitar, no início de fevereiro. Organizei tudo para estar lá no dia 2, dia da festa de Yemanjá... Precisava pedir as bênçãos à “Mainha”. Dias antes da minha primeira (e esperada) visita a Salvador, fui passar creme hidratante no meu corpo, depois do banho, como sempre. Ao tocar meu seio esquerdo senti uma pequena bolinha interna, logo abaixo do mamilo. Toquei então todo o seio e o direito também. A “pequena bolinha interna” estava ali, mas não me assustou em um primeiro momento. Pensei: “Deve ser algo passageiro, desses nódulos que saem na gente fruto de momentos difíceis, stress, cansaço...”. Afinal, os últimos meses tinham sido intensos e eu acabara de tomar a decisão de recomeçar. “Tudo bem. Quando eu voltar de Salvador – se essa bolinha continuar aí – vou ao médico.” E assim parti rumo à capital baiana, disposta a me reenergizar e pedir “a todos os santos” proteção, luz, orientação para meus próximos passos nesse regresso. Minha amiga Nem se mostrou uma excelente anfitriã e até hoje é uma das responsáveis pela ligação que tenho com

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aquela terra. Logo de chegada fui parar no Pelourinho, provei abará, ouvi música boa. No dia seguinte, madrugamos para levar nossas oferendas a Yemanjá e me deparei com um Rio Vermelho “forrado” de branco e azul. Gente de todos os credos, cores, classes. Todos lá, com seu balaio na mão, sua fé no coração e o desejo e agradecimentos na ponta da língua. É tudo mágico. Realmente impressionante. Me lembro de estar na festa (que dura o dia inteiro) e receber uma ligação de um dos lugares onde eu havia enviado currículo. “Oba!” – pensei – “Já vai pintar trabalho na área!”. Me chamavam para uma entrevista, que marquei para meu regresso a BH na semana seguinte.

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E os dias que vieram foram deliciosamente aproveitados: boa comida, novos amigos, novas paisagens, fotos, risadas e aquela simpatia baiana me circulando o tempo inteiro. Fui à Igreja do Bonfim também. Apesar de não ser católica (por ser bem crítica às práticas dessa igreja, a respeito, como qualquer religião), me emocionei muitíssimo. As milhares de fitinhas do Bonfim penduradas na grade externa da Igreja davam uma ideia do misticismo, da fé e – porque não – do folclore que envolvia o lugar. Entrei, orei, tirei fotos e visitei a salinha das oferendas, depositadas ali por fieis do mundo inteiro, em gratidão à graça obtida. Fiquei ali lendo os relatos, vendo as fotos e imaginando cada uma daquelas pessoas, e pensando no quanto a fé (independente de religião) pode, sim, ajudar. Senti uma energia boa, revigorante, algo que não se explica, se sente. A Igreja do Bonfim ficou marcada em mim e é sempre visita obrigatória nas minhas idas a Salvador. Depois, soube que o Senhor do Bonfim é Oxalá no candomblé, a quem (mesmo sem ser praticante) reverencio todas as sextas-feiras, vestindo branco. Uma semana depois da minha chegada (e ouvindo vários “Ah, você não vai ficar pro carnaval?”), peguei o avião de volta, mais morena, mais alegre, mais tranquila e mais agradecida. Tudo isso sem que eu soubesse que o Universo tinha, assim, me preparado para a grande batalha da minha vida...


Alguns dias depois do meu retorno a BH, a tal “pequena bolinha” se tornava mais palpável. O alerta finalmente saltou, já que eu venho de uma família historicamente afetada pelo câncer. Minha mãe tinha tido câncer de mama há dez anos, minha tia-avó paterna havia morrido dessa doença, outra tia – materna – havia sofrido câncer no estômago. Não havia como fugir. Por mais que não fosse nada (e eu até aquele primeiro momento ainda imaginava que realmente não fosse), era preciso ir ao médico. Eu não queria assustar e nem preocupar a minha família (“Vai que não é nada, né?”), e resolvi então marcar uma consulta com a minha ginecologista, Dra. Gisele. Ela continuou sendo minha ginecologista mesmo quando eu morava fora e eu sempre me consultava com ela quando vinha ao Brasil. Mas, sinceramente, fui por desencargo de consciência. Havia já feito inúmeras mamografias (quase anuais) e nunca tinham detectado nada. Se bem que já havia uns dois anos que eu não fazia um exame assim... A minha experiência na Espanha, nesse sentido, foi até meio desgastante. Por incrível que pareça (e digo isso como experiência meramente pessoal) fui super mal atendida quase todas as vezes que me consultei por lá. O sistema de saúde na Espanha, em alguns aspectos, pode ser muito comparado com o do Brasil. Óbvio que não chega ao cúmulo de pessoas morrendo nas portas dos postos de saúde esperando atendimento, mas me lembro que demorei quase sete meses para conseguir minha primeira consulta com uma ginecologista (que, aliás, nem pude escolher). E lá fui eu, disposta a fazer meu controle também do outro lado do Oceano. Cheguei ao CAP SALUT (são postos de saúde de Barcelona, onde cada bairro tem um, e você é designado a ele segundo seu endereço) no horário marcado e esperei quase meia hora a mais. Até aí, normal. Entrei e uma médica de meia idade me recebeu. Fez perguntas, eu respondi. Comentei dos meus antecedentes familiares de pacientes de câncer e da minha vontade de fazer uma mamografia (na época, tinha 33 anos, fumava e tomava pílula – até onde eu sabia, minhas condições eram um prato cheio para o câncer se instalar). Calmamente, ela respondeu: “Ah, fica

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tranquila... daqui a uns três anos você faz!”. Fiquei perplexa, ainda mais quando ela não me pediu nenhum exame, não me olhou, nem me tocou. Nada. Me encheu de folhetos explicativos (como fazer o autoexame, como detectar isso, como ver aquilo), e me disse para voltar no ano seguinte. Fiquei pasma e revoltada. Como assim?! Ela não tinha nenhum histórico médico meu e fez todo o relatório baseado nas informações que eu passei. Hello!!! Fui pra casa puta de raiva, disposta a tentar de novo e marcar uma nova consulta com outra médica.

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E, meses depois, lá estava eu de novo e a cena se repetia (embora a segunda médica tenha sido mais simpática e a consulta tenha demorado mais que os 10 minutos da anterior). Perplexa novamente (volto a repetir: essa foi uma experiência PESSOAL. Sei de relatos de amigos meus que foram super bem tratados no sistema público de saúde de lá), voltei pra casa e relatei tudo ao meu (atual) ex-marido. Como eu estava trabalhando e tinha certa estabilidade financeira, resolvemos que eu faria uma Mútua (ou plano de saúde, como se diz aqui no Brasil), numa tentativa de ter um bom atendimento e – finalmente conseguir fazer uma mamografia (Gente, será que é pedir muito???). E assim foi, outra consulta com outra ginecologista, agora pelo plano. Mais cuidadosa, me pediu os exames básicos. Comentei sobre minha vontade de fazer a mamografia, ela sugeriu fazer uma ultrassonografia... Ok, você venceu! “Melhor isso do que nada”, pensei. Fui fazer o ultrassom com outro médico indicado por ela. Bastaram duas voltinhas com o aparelhinho pela mama em 2 minutos para que ele soltasse um “Está tudo bem”, me mandasse vestir minha roupa e pronto. “Cadê a foto do exame para eu levar pra minha médica?”, perguntei. “Ah, não precisa não. Diz pra ela que olhei, está tudo bem, qualquer coisa ela me liga.” Diante da minha cara (realmente era meio surreal aquilo), ele escreveu um mini relatório num papel e me deu para que eu levasse pra ela. E aqui acaba minha experiência com ginecologistas em Barcelona. Para outras pessoas pode dar certo. Pra mim, não.


Voltando à Dra. Gisele e à minha consulta para descobrir o que era aquela “bolinha”... Consegui uma consulta somente em dez dias, dizendo à secretária que era urgente. Na manhã marcada, eu estava lá com uns 20 minutos de antecedência. O tempo passa, a leitura da revista de fofoca acaba e nada da doutora aparecer. Vendo o atraso (a sala de espera foi ficando pequena), a secretária – nervosa – começou a ligar para a médica para saber notícias. Nada. Recados na caixa postal, SMS, só ficou faltando sinais de fumaça ou código Morse. A Dra. não apareceu e não apareceria. Ficou presa em uma cirurgia e não chegaria tão cedo. A secretária, sem graça, tentava melhorar as coisas, me oferecendo um horário para outro dia. “Não precisa mais. Não quero!”, e a capricorniana certinha e avessa aos imprevistos e intempéries da vida apareceu em primeiro plano, dona de si – e (novamente) puta da vida! E agora? Não conhecia outra ginecologista e sinceramente não queria me consultar com qualquer médico que não me conhecesse. Hoje, escrevendo isso (e revivendo tudo aquilo) percebi que a “mãozinha” do Universo outra vez me carregava no colo. Nada é por acaso. Nada meeeeeesmo!!!!

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Recém-chegada a BH e sem contato com outros médicos, não teve jeito. Resolvi então abrir o verbo para uma das minhas irmãs, contar o que estava acontecendo e pedir que ela conseguisse uma consulta com o Dr. Marco Antonio, conhecido da família há tempos, mastologista da minha mãe e hoje um dos anjos da minha vida. Minha irmã, apreensiva, conseguiu uma consulta de urgência para o dia seguinte, me prometendo não contar nada ainda para minha mãe. Não queria pânico, nem sofrimentos vãos. Talvez não fosse nada, né? No dia seguinte, fui para minha consulta, sozinha. Depois de olhar minha mama, apalpar o tal caroço e me fazer uma série de perguntas, Dr. Marco Antônio me pede uma mamografia, que eu faria por ali perto. Pede urgência e faz um primeiro ultra-som (segundo ele, para orientar a médica que me examinaria). Com tanto zelo, comecei a pensar que a tal “bolinha” pudesse realmente ser alguma coisa a mais que um simples caroço inofensivo. 18

Era princípio de fevereiro, 2011, e logo viriam dias e mais dias de uma batelada de exames que, conforme iam sendo pedidos, me davam a certeza de algo que eu começava a pressentir: eu estava doente. É importante, neste momento, dizer do apoio incondicional que tive da minha irmã Carla, que financiou todos os exames que tive que fazer. Como tinha voltado há pouco para o Brasil, ainda não tinha um plano de saúde e só nos restava fazer as consultas em particular para ir adiantando o processo e acabar com tanta agonia... Os dias foram passando e, entre um reencontro e outro com algum amigo, entre uma entrevista e outra de trabalho (voltei distribuindo currículos, gritando aos quatro ventos que estava louca para trabalhar, o que era verdade), ia ocupando meu tempo. Me deparava cada vez mais com a possibilidade da minha vida tomar, de um dia pra outro, um rumo diferente daquele que eu tinha traçado na minha cabeça quando subi no avião e cruzei o Oceano de volta. Meus amigos me


animavam – e contavam mil casos de amigas que tinham passado pelo mesmo susto e que logo constataram não terem nada –, mas a verdade é que aquilo tudo começava aos poucos a ter mais sentido pra mim. Mais sentido não, talvez... mais verdade. A coisa ia se concretizando na minha frente, todos os caminhos me levavam a crer que realmente alguma coisa muito importante aconteceria na minha vida. A minha certeza (pessoal) veio quando meu mastologista pediu que eu fizesse uma pulsão, com a cara mais séria que alguém poderia ter. Me explicou que, sim, foram detectadas microcalcificaçoes na minha mamografia e que por isso mesmo seria necessário esse exame mais minucioso, uma espécie de biópsia (retiram um pedaço do tecido do tal caroço para ser analisado no laboratório) para averiguar se o nódulo era benigno ou maligno. No dia marcado, lá estava eu, acompanhada pela Carla. Mamãe ainda continuava alheia a tudo o que acontecia. Coisa difícil pra mim que, desde o meu retorno, voltei a morar com ela. Chegar em casa e fingir que não havia nada era, muitas vezes, difícil. Mas resolvi seguir com esse silêncio, pelo menos até termos certeza do que eu tinha. Fiz o procedimento, que começa com uma anestesia local, tentando adivinhar pelas feições do meu mastologista e da outra médica que o auxiliava, alguma pista do que estava acontecendo. É lógico que eles já sabiam. É lógico que não consegui decifrar isso. Os médicos, nesses momentos, são os melhores atores do mundo (pelos menos os meus), não deixando transparecer nenhuma vírgula antes do resultado final. E ele – o resultado final – demorou eternos 15 dias para sair. O diagnóstico viria num 25 de fevereiro, às 9h da manha. Na noite anterior, saí com alguns amigos que diziam em coro que não era nada e que tudo não passaria de um susto. E veio o primeiro “Dia D”, o dia do resultado. Pedi à minha amiga Grá para ir comigo e resolvemos caminhar até o médico (acho que para espantar o nervosismo). Me lembro muito daquela manhã. O humor

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da Grá tava ótimo, rimos muito pelo caminho, paramos para tomar um café com pão de queijo e em 20 minutos estávamos na ante-sala do consultório do Dr. Marco Antonio.

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A porta se abriu, ele me chamou. Entramos, sentamos. O envelope com o diganóstico nas mãos dele. Ele abriu, leu rapidamente, levantou a cabeça, olhou pra mim. Antes mesmo dele dizer alguma coisa, já disse: É, tô doente, né, doutor? Ele: “É, Cristina, deu positivo”. Daí pra frente juro que não me recordo muito do que ocorreu nessa hora. Lembro que comecei a chorar, que comecei a tentar perguntar coisas práticas (como se alguém que recebesse uma notícia dessas pudesse ter alguma reação lógica no momento do susto), lembro que a Grá, também nervosa, tentava entender aquilo tudo. Lembro-me do médico me explicando os procedimentos, providências, passos, mas tudo agora ecoa na minha cabeça como palavras sem nexo. Naquele momento nada mais tinha sentido, a não ser o fato que eu encararia dali em diante: eu tinha câncer. Saímos do consultório, eu e Grá nos abraçamos, ainda no elevador, chorando muito. Eu não conseguia pensar e, por mais que no fundo essa notícia já tivesse “ecoando” dentro de mim, não deixava de ser um choque. Chegamos à porta do prédio, a Grá me abraçou de novo e disse: “Vai ficar tudo bem, Cris, vai ficar tudo bem.”. Mal sabe a Grá e mal saberia eu que isso seria verdade. Mal sabe a Grá a importância que ela adquiriu na minha vida a partir daquele momento, maior ainda do que ela já tinha. Ter essa grande amiga do lado e mais perto durante esse período foi outro grande presente do Universo. Do consultório, resolvi ir para a casa dela. Queria ficar tranquila, chorar, não pensar, me deixar cair no sofá, me entregar um pouco àquele turbilhão de emoções que chegavam pertinho de mim: medo, apreensão, pânico. O que vai acontecer? Como? Terei forças? E, o mais importante: qual seria a razão disso tudo?


E aí comecei a perceber que realmente não estaria sozinha nessa. O telefone começou a tocar e a Grá dava a notícia aos amigos mais próximos. Minha irmã Carla passou por lá, o Dê (que inclusive se mobilizou com o Preto para que eu pudesse fazer os primeiros exames sem problemas), Anne, Thi (que me colocou em contato com a Carminha, sua mãe, que trabalhava no SUS e prontamente se dispôs a me orientar e ajudar em todas essas questões burocráticas). A sensação era estranha, a ficha caía cada vez que pensava e chorava. Queria me esvaziar desse sentimento ruim e assim fiquei o dia todo. Acho que pela primeira vez na minha vida me permiti chorar, sofrer, não bancar a durona. Lembro que nesse dia logo apareceram Janine, Nanda que, junto com a Grá e Júlia, tentavam me animar, relembrando casos nossos, engraçados, pitorescos, inesquecíveis. Elas ali e eu no sofá, às vezes alheia àquilo tudo. Mas essa presença foi fundamental para que eu começasse outro aprendizado: as pessoas estariam na minha vida, os amigos e família, e eu só deveria permitir que eles me ajudassem. Às vezes é tão difícil a gente baixar a guarda e simplesmente nos deixar cuidar, não é verdade? Que bobeira isso! E eu começava a vislumbrar o quanto esse receber seria fundamental para que eu me mantivesse de pé. Próximos passos? Conseguir uma consulta com uma mastologista do SUS (eu ainda continuava sem plano de saúde), o que foi logo providenciado pela querida Carminha, que me conseguiu uma consulta com a Dra Érika (“coincidentemente” indicada também por outro médico, um oncologista com quem fui me consultar, também indicado por alguém...). Porque nessa hora é assim: a gente fica meio sem rumo, meio indo a vários médicos, sem saber o que fazer... Paralelo a isso, veio o momento de contar tudo para minha mãe, com a ajuda das minhas irmãs. E ela, guerreira, acabou me surpreendendo e reagindo melhor do que eu esperava (ainda que saiba o quanto sofreu com tudo isso). Me lembro que ela colocou minha cabeça no seu colo e disse: “Fique tranquila, Cris. Você cuidou de mim, agora é minha vez de cuidar de você”...

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Importante dizer aqui também que tive que abdicar de um trabalho... Aquela entrevista que fiz logo quando voltei de Salvador foi ótima e uma empresa de eventos culturais queria me contratar para um projeto que duraria inicialmente seis meses. Aí abri o jogo: liguei para a dona da produtora, expliquei o que estava acontecendo, agradeci muitíssimo a oportunidade e declinei da proposta. Era o momento de parar tudo e cuidar de mim.

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Fui então para minha primeira consulta com a Dra Érika, mastologista do SUS. Super simpática, me atendeu super bem, estudou com cuidado todos meus exames e me explicou a extensão do nódulo. A lesão estava muito próxima do mamilo esquerdo e o mais prudente seria a retirada total da mama, além do que chamam de “esvaziamento axilar” (que, no fundo – e acho que até meio como defesa – nunca quis muito entender o que era). Eu estava muito prática nesse momento. “O que tem que ser feito, doutora?”, era uma das frases que eu mais usava. Acho que é um pouco por aí. A doença estava lá, não adiantava eu fingir outra coisa, não adiantava fugir, nem brincar de escondeesconde com a realidade. Desde então (e com muita sinceridade) resolvi mesmo lutar (contra a doença e a meu favor). Acho que é o melhor que alguém pode fazer por si mesmo e as pessoas ficariam incrivelmente surpresas se descobrissem a força que elas têm, o poder que todos temos nas mãos: lutar por nós mesmos acho que é, hoje, uma das grandes dádivas e ensinamentos que podemos levar pra vida. Comecei então a ser atendida pela doutora, que imediatamente me recomendou uma consulta com o cirurgião plástico que faria a reconstrução da minha mama, na mesma cirurgia da retirada. Como ainda estava sendo atendida via SUS, pimba!, eis que me deparo com uma lista de espera de dois meses (!) para uma cirurgia com este médico, o único que operava pelo serviço público de saúde no hospital onde eu faria todo o meu tratamento. “Putz, esperar dois meses por começar a fazer algo? Como assim????????”


Daí surgiram algumas possibilidades. Voltei a me consultar com o Dr. Marco Antônio, que me passou um orçamento caso eu optasse por fazer uma cirurgia particular (aí sim, com possibilidade imediata!). Era muita grana e eu, sem nenhuma reserva financeira, fiquei meio perdida. Queria começar logo com isso, mas não queria ter que sacrificar minha família ou amigos (que prontamente se ofereceram para fazer uma “vacona” para ajudar a custear a cirurgia). No meio disso tudo, veio o carnaval. Como não resolveria nada antes, resolvi ir com os queridos Ju e Ed para a Lapinha, um povoadozinho cercado de montanhas, cachoeiras, e sem cobertura de celular, nem internet. Tudo o que eu precisava naquele momento: curtir esse carnaval com amigos que amo, isolada, cercada de natureza, perdendo a noção do tempo. Foi uma delícia e juntei energias para voltar para BH e continuar a minha saga. No meio de uma chuvona, ainda voltei a tempo de ver a minha mãe desfilando na avenida, em uma escola de samba da cidade. Momento family muito bom! Voltando a BH, continuei resolvendo questões burocráticas como transferir de novo meu título de eleitor para BH (quando fui morar em Barcelona transferi pra lá), algo tão inusitado (mas necessário) para quem estava no olho do furacão. Pois, sem isso, não conseguiria resolver minha pendência médica para fazer tudo pelo sistema público de saúde. Tema resolvido e alguns exames depois (perdi a conta de quantos fiz nessa época) comecei a fazer os pré-operatórios, mesmo sem saber ainda quando me operariam. Raio X, ressonância magnética, eletro, ultra-som... um sem fim de exames: meus dias se resumiam entre idas e vindas a clínicas e laboratórios. O apoio financeiro da minha família continuava fundamental já que, para agilizar todo o processo, fiz quase tudo em clínicas particulares. Já estávamos em março, quase um mês depois do meu diagnóstico e eu ainda não tinha certeza do que aconteceria. Cirurgia? Tratamento? Eu continuava fazendo tudo o que os médicos pediam, mas no fundo sentia uma imensa insegurança e dúvidas por onde ir.

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Para aliviar esse momento, me trazer confiança e ainda mais ânimo, minha amiga-irmã Clara (outro anjo que o Universo colocou na minha vida) veio do Rio passar o fim de semana comigo. Nos conhecemos em Barcelona e desde então ela fez – e continua fazendo – parte dos momentos mais importantes da minha vida. Apesar de não estarmos fisicamente tão perto, ela sempre esteve comigo. Clara resolveu alugar um carro e fomos passar o sábado em Ouro Preto, cidade que adoro (e que ela ainda não conhecia). Se juntaram a nós Grá e Janine e rimos durante as quase duas horas de viagem até nosso destino. O dia estava lindo, caloroso. Muitas fotos e caminhadas depois, voltamos pra BH e acabou acontecendo um super encontro de alguns dos meus melhores amigos (apelidados – não por acaso – de “queridos amigos”), em um bar da cidade. Foi muito, muito bom. O encontro, o carinho, as risadas (inevitável não rir quando tenho por perto Ju, Ed, Grá, Polli e Thi). A partir de então eu já falava abertamente sobre o que estava passando comigo e sentia alívio cada vez que isso acontecia. Porque acho que é muito bom falar, ainda mais com pessoas em quem confiamos. O estigma e o peso da palavra CÂNCER, acho, são criados no fundo pelo próprio paciente. Respeito quem tem suas reservas, mas aconselho falar, falar, falar até esgotar a fala. Com isso, o conforto e a segurança se tornam mais reais, mais palpáveis. Não é vergonhoso, não é castigo, não é penoso. Difícil, sim, mas penoso não. E as pessoas mais próximas a mim foram, do jeito delas, me fazendo acreditar nisso cada vez mais. E a força aumentava... Clara se foi e 15 dias depois recebi outra visita igualmente especial: Valnice, mais conhecida como Nem, minha querida amiga baiana da porra, com um astral enorme e uma incansável disposição pra tudo! Com Nem bati perna pela cidade, visitamos amigos dela, mandei ver num churrasco e resolvi cortar meu cabelo – já prevendo o que aconteceria a partir dali. Nem me acompanhou ao salão e registrou tudo em fotos (como sempre, rs). Me animava, me fazia rir. Eu me sentia bem, de verdade, mesmo depois do espanto da minha cabelereira, diante da minha grande disposição de cortar o grande cabelo que eu


cativava durante toda a minha vida. Ela: “Mas tem certeza mesmo que você quer cortar curto?” E quando perguntou o motivo, respondi com sinceridade: “Estou antecipando uma coisa que vai acontecer dentro de pouco tempo”, explicando em seguida o que estava acontecendo comigo. A partir de então, a mulher me olhava com uma cara grande de pena, tentava me animar, falando de Jesus e dos poderes que Ele teria sobre nossas vidas... Eu, com um sorriso sincero, agradecia e me olhava no espelho. Era uma das primeiras mudanças físicas que aconteciam comigo, mas não sentia pena. Um pouco de medo, pena não. Cabelo cresce... Logo que Nem foi embora, deixando pra trás saudade e muita energia boa, marcaram a minha primeira ida oficial ao hospital onde eu faria meu tratamento. (No meio de toda a confusão, meus médicos acabaram decidindo iniciar meu tratamento quimioterápico e, só depois, fazer a cirurgia. Penso que primeiramente foi uma decisão prática, já que faria tudo pelo sistema público de saúde e o tal cirurgião plástico não teria data disponível tão cedo. Mal sabia eu o quanto sofreria por esta decisão...). Essa primeira visita é chamada de “Pré QT”, ou seja, pré-quimioterapia. O paciente é recebido por todos os profissionais que o acompanharão no tratamento e é onde se recebe informações sobre como vai ser todo o processo. É ótimo que isso aconteça, porque muitas vezes a falta de informação faz a gente imaginar as coisas piores do que são. Fui recebida inicialmente pela Renata, Enfermeira-supervisora do setor de Oncologia, que me explicou coisas sobre a medicação, efeitos, cuidados. Depois da nossa conversa, ela me levou aonde tudo acontece: a sala de tratamento. Era a primeira vez que eu pisava nesse lugar que seria meu pavor e ao mesmo tempo meu sopro de vida nos meses que viriam. Entrar ali e ver pessoas sentadas em grandes e confortáveis poltronas, com o olhar perdido (ou grudado na TV), foi talvez o primeiro “sacode” que tive. Era a realidade nua e crua. Era o que eu enfrentaria, era o que me salvaria. Renata foi super atenciosa e

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me mostrou tudo com cuidado, incluindo a sala (esterilizada e fechada) onde meu remédio seria preparado (cada medicação é preparada no momento da aplicação no paciente, segundo a dose e tipo de remédio indicado pelo médico). Logo depois, fui atendida pela Nutricionista que (novamente com folhetos) me explicou alguns cuidados a tomar (nada de verduras ou legumes crus sem a devida esterilização!), e algumas dicas para enfrentar o mal estar causado pela medicação (Ops! Acho que não teria como fugir disso). Depois falei com o Fisioterapeuta, que estaria à disposição caso necessitasse de alguma atenção especial para os meus braços, por exemplo, que sofreriam um pouco ao receber a medicação, com a Assistente social (que também se colocou à disposição para qualquer coisa, explicando os direitos que teria como paciente de câncer) e, por último, com a Gilmara, a Psicóloga do ambulatório de Oncologia responsável por mim. Gilmara era atenciosa, falava baixo, tranquilamente. Num primeiro momento, pensei “Afe, essa pessoa precisa de uma sacudida pra reagir” (Eita mania besta de achar que todo mundo tem que ser "elétrico" como a gente), mas com o decorrer do tratamento percebi que ela me ajudaria muito exatamente por toda essa calma. Terminada a pré-QT (acho que passei ali umas 3 horas), fui para casa cheia de panfletos e, ainda que estivesse meio apreensiva, estava mais consciente de tudo o que ia acontecer (ou pelo menos me sentia assim). Era uma segunda-feira, 4 de abril. Segundo o planejado, realizaria minha primeira sessão de quimioterapia três dias depois, na quintafeira. Resolvi então começar a me preparar de verdade. Queria estar tranquila e não me sentir sozinha. Daí tive a ideia de escrever aos meus amigos (que seriam fundamental nisso tudo), e pedir a cada um que me mandasse uma música, que eu incluiria no que chamei de “Playlist VIDA”. Colocaria todas estas músicas no meu MP3 e passaria as sessões escutando cada uma. Fiquei imensamente feliz e grata pelo pronto atendimento dessas pessoas lindas que fazem parte da minha vida. De perto ou de longe vinham chegando músicas, muitas, de todos os estilos: de ópera à MPB, passando pela música


baiana, mantras indianos, canções francesas, americanas, enfim, havia de tudo. Tão diferentes estilos, mas com uma positividade e uma energia incríveis. Ao todo, meu playlist continha 90 músicas, que foram minhas companheiras durante os meses de tratamento. Mais uma coisa a agradecer! Estar sentada ali e escutar cada uma, sabendo de quem vinha, era trazer os amigos todos para perto. Lá pela quarta ou quinta sessão, aliás, uma das enfermeiras que sempre me atendia finalmente perguntou o que eu escutava sempre. Comentei e ela achou a ideia sensacional, me trazendo na sessão seguinte uma música de presente.

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playlist “vida” as canções que vieram em forma de amor e amizade…

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A Estrada Cidade Negra A Minha Menina Mutantes A Vida Convida Chandra Lacombe Acelerae Ivete Sangalo Agna Jauperi Agradecer e Abraçar Fabiana Cozza Águas de Março interpretada por Anna Herrero Aint No Mountain High Enough Marvin Gaye Ajai Alai Mirabai Ceiba Ânima Milton Nascimento Anywhere Enya Aqui e Agora Gilberto Gil Axé Odo Maria Bethânia e Ivete Sangalo Bahiana com H Boa Sorte (Good Luck) Ben Harper e Vanessa da Mata Camiranga Camiranga Canção X Ângela Maria Canto de Ossanha Fabiana Cozza Casa Aberta Milton Nascimento Chrisanthemuns Udiyana Bandha Conselho Almir Guineto Conselho versão Jorge Aragão Continuando Jehro Cristina Tim Maia Déjalo Pasar Vivian Amarante Dice Finley Quaye Doces Recordações Fabiana Cozza Don’t Give Up On Me Joe Cocker Don’t Worry, Be Happy Bob McFerrin Don’t Worry, Be Happy Mart’nália Ebony and Ivory Paul McCartney e Stevie Wonder


Ela Faz Cinema Chico Buarque Estrada do Sol Tom Jobim Estrada do Sol Fernanda Takai Eu Vivo a Sorrir Adriana Calcanhotto Fascinação Elis Regina Feeling Good Nina Simone Flores Astrais Secos & Molhados Hay Quien Precisa Coro Exaudi I gotta Feeling Black Eyed Peas Incensa Fabiana Cozza It’s Now or Never Elvis Presley Je Veux ZAZ La Belle de Jour Alceu Valença La Canción es Urgente Mercedes Sosa La robe et l'échelle Francis Cabrel Lakmé Dessay Le Cygne Blanc Francis Cabrel Let’s Straighten It Out Etta James Mestre-Sala Fabiana Cozza Mi Morena Josh Groban Miedo Lenine e Julieta Venegas Miel et Cendres Dhafer Youssef Minas Milton Nascimento Música de abertura do show do Ilê Aiyê, gravado ao vivo em Marseille, 2010 O Que É, O Que É Gonzaguinha O Que Será (À Flor da Pele) Milton Nascimento e Chico Buarque Ocean Mirabai Ceiba Om Mani Padme Hung Ani Choying Drolma Onde a Dor Não Tem Razão Tereza Cristina Orinoco Flow Enya Paciência Lenine

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Por Enquanto Cássia Eller Pout-pourri Samba de Roda Mariene de Castro Pra God Rádio Casual Quadrinha, O Mundo é Grande Maria Bethânia Quien Fuera Schola Chantorum Coralina Religar Léo Cavalcanti Samba da Bênção Bebel Gilberto Saudação para Iemanjá Fabiana Cozza Saudosa Bahia Almaz e Seu Jorge Sete Desejos Alceu Valença She Evis Costello Si aujourd'hui Maurane Somewhere Over the Rainbow/What a Wonderful World Norah Jones Sonhei que Viajava com Você Itamar Assumpção Stand Up Geoffrey Chambers Strange Angels Laurie Anderson Tempo Rei Gilberto Gil Tesoura do Desejo Alceu Valença Three Litle Birds Gilberto Gil Valsinha Chico Buarque Venha Até São Paulo Itamar Assumpção Vilarejo Marisa Monte Voy a pasarmelo bien What a Wonderful World Louis Armstrong You Body is a Wonderland John Mayers You Only Live Once The Strokes Your Song Ewan McGregor (Trilha Sonora do filme “Moulin Rouge”)


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Os dois dias que vieram a seguir eram de apreensão e ansiedade. As horas não passavam, ao mesmo tempo queria que passassem ainda mais devagar. Nesse meio tempo, antes de começar a quimio, entrei em contato com um grupo que seria fundamental durante meu processo: o Grupo de Pscicooncologia da Associação Médico Espírita de MG, um grupo de pacientes com câncer que é atendido por psicólogos voluntários, em terapias em grupo e individuais. Este foi, durante todo o período, uma das bases importantes que me manteve de pé, me deu energia, me fez mais humana para entender muito do que estava acontecendo comigo. Todos ali eram bem recebidos, independente de credo, classe social, status. Todos ali são tratados igualmente, porque, no final das contas, estávamos sim no mesmo barco. Vivi com este grupo momentos emocionantes, perdas, alegrias. Compartilhamos vitórias e dificuldades e sempre vou ser grata a tudo que vivi ali e a todas as pessoas que proporcionaram esse meu crescimento. A base de tudo era o amor e foi lá que aprendi ainda mais o que quer dizer “amar ao próximo”.


Quarta-feira, 6 de abril de 2011, véspera da minha primeira sessão de quimio. A noite ia ser longa (como não ficar nervosa nessas horas?), mas tentei me acalmar. Ouvi as músicas dos meus amigos, meditei, rezei. Pedi proteção e força, me preparei para o que viria no dia seguinte... e que na última hora... não veio... Cheguei ao Ambulatório de Oncologia na hora marcada, com todos os exames nas mãos (são necessários exames de sangue a cada sessão de quimio), em companhia do meu irmão que vivia fora de BH e tinha vindo especialmente para me acompanhar naquele primeiro dia. Sentei na sala de espera, esperei que minha médica me chamasse (sempre temos que passar pelo consultório, que nos encaminha para o tratamento em seguida). Entrei, mostrei os exames, tiraram minha pressão, ouviram meus batimentos cardíacos. Ok, tudo estava pronto para começar. Sim? Pois não! Depois da consulta, ainda na sala da minha médica, recebo a notícia (através da coordenadora do setor) que meu tratamento AINDA não tinha sido autorizado pelo SUS. “Como assim????”, perguntei. “Só pode ser brincadeira.” E ela: “Cristina, pedimos desculpas, mas não podemos começar o tratamento hoje. Cada sessão de quimioterapia custa em torno de R$ 5.000,00 e o hospital não nos deixa atender ninguém sem a devida autorização do SUS”. Surreal. Não acreditava que estava ouvindo aquilo. Parecia uma brincadeira de muito mau gosto e disse “Como vocês podem fazer isso? Eu liguei ontem, disseram que estava tudo ok! Vocês não imaginam como tive que me preparar para estar hoje aqui”. Ela: “Sim, imagino”. Eu: “NÃO, QUEM TEM CÂNCER AQUI SOU EU!”, chorei e muito. Meu irmão, nervoso, discutia com todos, tentando descobrir o que estava acontecendo e, mais além, tentando conseguir uma maneira de me atenderem. No meio daquele caos, vi que não ia adiantar e pedi que fôssemos embora. Este dia entrou definitivamente como um dos mais dolorosos da minha vida. Doeu chegar ali e não receber o tratamento QUE EU TINHA DIREITO por uma SIMPLES questão burocrática. Doeu (e ainda dói) quando penso em quantas pessoas passavam pelo mesmo que eu, muitas delas sem conhecimentos suficientes para

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brigar e exigir o que qualquer cidadão deveria receber sem nenhuma ressalva: atendimento médico gratuito de qualidade (o que no Brasil, sabemos, é uma utopia). Saí de lá como se tivesse levado uma porrada, triste e decepcionada. Meu irmão foi pra casa, mas resolvi visitar a Grá (outra vez, esta casarefúgio), para chorar bastante e desabafar. Minha revolta não era só pelo fato de não ter podido ser atendida (o que já era bastante), mas pela falta de cuidado e profissionalismo das pessoas que, teoricamente, deveriam tratar disso de uma maneira mais sensata e ao mesmo tempo mais humana. Saí sem nenhuma previsão de quando começaria o tratamento, sem informação, nada. Estava no zero outra vez e isso me deixou extremamente frustrada (importante pontuar que depois que comecei o tratamento fui extremamente bem cuidada por toda a equipe). 34

Comecei a ligar para o hospital todos os dias, esperando uma resposta favorável. Eu me sentia uma grávida prestes a parir a qualquer momento. Tinha que estar sempre pronta para sair correndo assim que a autorização fosse liberada. Mas... ninguém me informava nada. Passaram-se 15 (e longos) dias e veio a Semana Santa. Não conseguiria descrever aqui a apreensão da minha família, a impotência e o sentimento de angústia, especialmente da minha mãe, que me confessou dias depois que não conseguia dormir, nem comer e que tinha ido ao hospital algumas vezes brigar e tentar resolver a situação (sem que eu soubesse). A convite da Grá (e em companhia também da divertida Rejane) resolvi então ir a São Paulo passar a Semana Santa, espairecer, renovar as energias. Muitas risadas no aconchego do lar do Robert, o que foi ótimo! Na volta, logo depois do Domingo de Páscoa, encontrei outra pessoa que seria (e ainda é) um dos anjos na minha vida: Kátia, cromoterapeuta, taróloga e – hoje e sempre – grande amiga. Kátia


foi outro pilar importante no meu tratamento. Me recebeu com amor, carinho, atenção e semanalmente me acolhia em sua casa para uma sessão de cromoterapia, reiki, um café, uma conversa, um floral. Através dela conheci outros anjos igualmente cheios de amor e com quem (que maravilha!) convivo até hoje: Felipe, Tânia, Alessandra, Elisângela, Graça, Zezé e tantos outros que passaram ou passam por ali. É um grupo de amigos que se cuida, se energiza, aprende junto. Agradeço ao Universo por ter conhecido estas pessoas e poder aprender com elas todos os dias (continuo frequentando a casa da Kátia semanalmente...). De volta ao lar, a notícia: finalmente tinham liberado meu tratamento e eu começaria na quinta-feira, 28 de abril. Nova apreensão, pois o medo de me preparar de novo para nada era grande, mas enfim... O jeito era confiar. Isso veio como alívio para minha mãe e para mim também... 28 de abril, 9 horas. Minha primeira sessão de Quimioterapia. Cheguei ao hospital em companhia de alguém que não me lembro (estava tão nervosa que não percebia ninguém além de mim mesma). Exames de sangue ok, pressão ok, batimentos cardíacos ok, playlist ok. Passei pela minha médica, pelo setor administrativo (onde confirmam a autorização e geram o documento para a preparação da medicação) e entrei na Sala de Tratamento. Estava nervosa e ansiosa. Queria começar e acabar com aquilo rápido. Queria ir pra minha casa e ficar quietinha. Fui recebida pela Renata que abriu um sorriso e me pediu para escolher uma poltrona: “Tanto faz”, pensei. Me sentei e as quatro horas seguintes foram (para minha surpresa) muito mais tranquilas do que poderia imaginar. Não me lembro de quantas pessoas estavam na sala, nem o que passava na TV, nem qual enfermeira veio fazer a pulsão (a agulhada para introdução do soro e, posteriormente, da medicação). Só sei que minhas veias se comportaram direitinho e meu corpo também; tanto que, quando me perguntaram se queria almoçar, respondi toda animada: “Sim, até que tô com fome”. Comi um pouco de arroz, feijão e alguma carne (Ai, se eu soubesse a consequência disso!!!).

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Primeiro, injetaram-me o soro, cuja aplicação durou uns 20 minutos. Segundo a enfermeira, servia para limpar a veia e prepará-la para o remédio. Logo depois, outra bolsa de soro, já com o medicamento inicial. Sentia o líquido entrando na veia e esfriando todo o seu caminho. Foi o primeiro incômodo que senti, mas nada que não pudesse resolver colocando uma blusa de frio sobre o braço. Em seguida, o temível "remédio vermelho", verdadeiro temor de todo paciente de quimio. Ele vem numa seringa enorme e é tão forte que a enfermeira é quem aplica, cuidadosamente (e com luvas, óculos e roupas especiais), na mesma via do soro, beeeeeeeem lentamente. É considerado um terror porque é o principal responsável pelas contraindicações do tratamento: náuseas, vômitos, queda de cabelo e, muitas vezes, febre e diarreia. Como para mim era tudo novo, resolvi aceitá-lo numa boa (na cabeça, o lema, “o que me faz mal é o que me cura”). Relaxei e aumentei o volume da música. Por último, outra bolsa com outro remédio (num total de três distintos), que terminava o ciclo do dia. Ao todo, a sessão durou umas quatro horas. Aceitei o tal almoço (servido ali mesmo, no meio da aplicação), e fui embora. Sentia-me super cansada, queria me deitar, mas não sentia nada do que imaginava que fosse ser. Cheguei em casa e minha mãe já me esperava com carinho, a cama pronta e toda a sua disposição para que me sentisse o melhor possível. Me lembro que me deitei e me sentia relativamente bem, conversando, contando como foi tudo... No final da tarde, toda a tranquilidade e bem estar foram dar um passeio... Comecei a me sentir mal e só me lembro de ter parado de vomitar já no meio da madrugada (em algum momento, acabei me sentando no chão do banheiro, com a cabeça perto do vaso sanitário, para facilitar o processo). Foi uma noite longa e chata. Bem chata. Eu, que detestava vomitar até para aliviar o mal estar de uma bebedeira, tava lá, vomitando todo o almoço e, no final, nem eu mais sabia o quê. Passei a noite em claro, dormi pouco e senti que um caminhão tinha me atropelado. Não tinha forças para falar, nem para fazer mais nada. O único impulso que me fazia sair da cama era a vontade de vomitar.


No dia seguinte, ainda com mal estar, mas sem vômitos, ensaiei comer alguma fruta, biscoito e beber a “Santa Água de Coco”, minha inseparável companheira durante meses. Amigos telefonavam, mandavam mensagens, mas não tinha força – nem vontade – de falar com ninguém. Fiquei assim por uns três dias e no quarto já comecei a me sentir melhor (geralmente demorava quase uma semana para me recuperar depois de uma sessão de quimio).

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Quase uma semana depois da primeira sessão de quimio vivi uma das experiências mais incríveis da minha vida. Fui a um Centro Espírita (levada pela Kátia), me consultei e agendei uma cirurgia espiritual. Não tinha a mínima idéia de como seria isso... mas pediram que eu fosse pra casa e no horário marcado por eles (no dia seguinte, às 21h) que eu me deitasse e tentasse dormir. Fiz tudo como me pediram. Tomei um banho e me deitei. “Mas ainda são 21h!!! Nuuunca durmo a essa hora”, pensei quando me deitava. Mas o sono veio profundo desde o início. Lembro-me de ter “acordado” de madrugada, sonolenta, e sentir pessoas perto de mim. Claro que isso tudo é muito pessoal e gira em torno do que cada um acredita, por isso conto o que vivi. Quando acordei – acreditem ou não – já na manhã seguinte, sentia meus seios inchados (!), sensíveis (!) e uma certa limitação de movimentos, como se realmente tivesse passado por alguma cirurgia. Incrível! Podem acreditar que assim foi. Fiz então tudo o que eles pediram no “pósoperatório”: fiquei quieta, em casa, por mais uns três ou quatro dias, vigiando meus movimentos e me cuidando. Óbvio que, nessa hora, nosso lado mais reticente e racional acaba querendo “ver para crer”, mas o que vivi e senti naquela noite foi realmente impressionante... Depois de um Dia das Mães em família, resolvi partir na semana seguinte para a casa da minha amiga Clara, no Rio. Precisava respirar um pouco e me preparar para a segunda sessão de quimio. A primeira parte do tratamento foi estruturada em quatro sessões, com intervalo de 21 dias entre elas. Parecia muito tempo para descansar (especialmente no final), mas quando começava a ficar bem, já se aproximava a sessão seguinte. A paciência passou a ser outra aliada e professora, nesse meu caminho de tentar entender as coisas. Era sábado, 14 de maio. Fui para o Rio, para espanto de muita gente... “Como assim, vai viajar, gente?! Mas ela não está fazendo tratamento?”. E aí há outra questão tão levantada por aqueles que não sabem direito como é viver um câncer: a errônea ideia de que é preciso viver essa espécie de luto e deixar de fazer tudo, completamente tudo o que


fazia antes. É claro que existiam limitações, é claro que eu não fiz nada sem conhecimento dos meus médicos... Mas acredito também que boa parte da recuperação vem da força de se tentar levar uma vida relativamente comum – e nisso meus médicos e terapeutas me apoiaram muito – saindo de casa, vendo os amigos, passeando. Não poderia trabalhar, claro, mas sim respirar novos ares, me sentar à beira da praia, sentir o cheiro da maresia e, novamente, pedir luz e proteção à “Mainha”. Clara vive com os pais, os queridos Vera e Zé, que são uns amores. Sempre brinco que são minha família carioca. Eles viajaram para a Europa logo no dia seguinte à minha chegada e fiquei sozinha com a Clara que tentava, mesmo trabalhando, estar comigo o maior tempo possível. Conto tão detalhadamente essa viagem ao Rio (logo viriam outras tantas), porque foi ali, naqueles dias, que tive outra constatação realmente física dos efeitos da medicação: os meus cabelos começaram a cair. E muito. Era até meio constrangedor: por aonde eu ia, deixava vestígios pelo caminho... A casa da Clara ficou puro cabelo! Não vou mentir: por mais que eu esperasse que isso acontecesse e estivesse levando o assunto de forma relativamente tranquila, se olhar no espelho e ver grandes falhas e enxergar seu couro cabeludo não são acontecimentos confortáveis pra ninguém. Minha amiga me animava, me levava a passear e me encheu de lenços lindos para que eu pudesse ir disfarçando aquele aspecto meio estranho. Fiquei no Rio por cinco dias. No último, quando acordei, o que restava de cabelo virou uma “bola” na minha cabeça. Fui tomar banho e tentar desembaraçar aquele emaranhado todo (Tolinha!), e não teve jeito. Rindo, pedi a Clara que pegasse uma tesoura e cortasse ainda mais curto... fazer o quê? Voltei para BH, fui para minha terapia no grupo e, no dia seguinte, 19 de maio, fiz minha segunda sessão de quimio.

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Minha segunda sessão de quimio foi um pouco mais difícil. Por mais que já soubesse o que aconteceria, o receio (e a lembrança) de passar mal fizeram com que eu tivesse que mentalizar muito antes de entrar na sala de tratamento. De cara recusei o almoço (acho que fiquei uns seis meses sem comer arroz e feijão, me lembrando da primeira sessão), e desatei a beber somente água e comer um pouco de fruta que minha mãe carinhosamente tinha preparado para mim. Desta vez, já fui acompanhada pela Grá, que me fazia rir e me distrair durante as quatro horas em que estive ali. Continuava conectada no meu MP3 – de certa forma me isolava de tudo ao meu redor. Queria novamente acabar com aquilo e ir correndo pra casa me deitar. Outra vez, vômitos, passei muito mal. Chegando em casa, cama arrumada e muita água de coco para tentar repor o que eu perdia. Mas já sabia como era. Não tinha outra: era ter paciência e descansar.

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Quatro dias depois daquela sessão, resolvi raspar de vez o cabelo (ou o que ainda restava dele), para acabar com o incômodo de rastro capilar pela casa... Meu amigo Ju tinha uma dessas maquininhas de barbearia e a Grá foi a responsável por surecar meu cabelo. E assim foi. Fiquei carequinha. Um primeiro estranhamento, mas no final senti alívio. Ufaaaaaa... Logo depois comecei a minha terapia individual com uma das psicólogas do grupo de Psicooncologia, a dedicada Eliane. Todo o período de terapia foi importantíssimo pra mim. Cheguei fechada ao grupo, calada, e hoje vejo o quanto cresci, me abri e comecei a ver a vida de outra maneira. Nossos encontros eram semanais e sempre ia acompanhada pela minha mãe (os familiares também formavam um grupo, à parte, e recebiam também esse apoio). Foi lá que descobri um remédio que me ajudaria a enfrentar melhor as duas sessões seguintes, o Vonal, que fez com que meu mal estar diminuísse bastante. Amigos vinham me visitar, até participei de um encontro com meus “queridos amigos”, um almoço delícia em comemoração aos 15 anos


de fundação do grupo de teatro do qual tínhamos participado – e onde todos se conheceram. Era a primeira vez que alguns deles me viram careca, mas (acreditem ou não) me sentia incrivelmente linda... Exame de sangue ok e rumo à terceira sessão! Minhas veias continuavam a se portar direitinho e não tive nenhum problema quanto a isso durante o tratamento. Meus exames também sempre estavam super bem. Não tive baixa de plaquetas, nem anemia, nada. Posso dizer que – tirando o inevitável mal estar – até que tive um tratamento tranquilo, ainda que começasse a me sentir mais inchada e pesada. Importante contar aqui sobre os encontros “Mastercard” (rs) com os queridos Gera, Ju e Ed, jantares "VIP" que fazíamos na casa dos dois últimos entre uma sessão e outra. Naquele momento, era um dos poucos acontecimentos sociais do qual participava, e vocês, meninos, não imaginam como foi importante pra mim! As consultas com meu Mastologista e minha Oncologista continuavam e eles se alegravam ao ver como eu reagia a tudo. Não é fácil, é verdade. Mas tinha que ter forças para fazer daquilo tudo o menos sofrido possível. Continuei indo ao teatro, na medida do possível, saindo para jantar com amigos, quando não estava enjoada, e tentando ter uma vida ao menos sociável. Não aguentaria passar por tudo fechada dentro de casa. E saía quase sempre sem lenços na cabeça. Os olhares (especialmente das crianças) eram inevitáveis, e as caras de pesar das pessoas, também. Mas não me importava. Depois da terceira sessão, recebi o convite dos queridos Jackie e Wagner para trabalhar na produção de um festival de dança aqui em BH. Inicialmente, iria acompanhar dois bailarinos espanhóis como receptivo, mas acabei me envolvendo e botando a mão na

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massa. Nunca vou esquecer essa oportunidade que eles me deram, respeitando meus limites e me apoiando muitíssimo nesta volta ao trabalho (estávamos em junho e eu levava seis meses sem trabalhar). Sentir-me útil outra vez foi uma injeção de ânimo que, na reta final da primeira parte do tratamento, foi fundamental para eu continuar enfrentando tudo com garra e determinação. O festival foi ótimo, logo depois engatei em outra produção, também coordenado por essa dupla que admiro tanto. 30 de junho de 2011, rumo à quarta e última sessão da primeira fase, ainda utilizando o tal remédio vermelho como um dos pilares. Já me sentia mais forte e, com a ajuda do Vonal, já pude retomar meu trabalho no festival três dias depois da sessão...

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21 dias depois, começou o que viria a ser meu segundo ciclo de tratamento. A medicação era muito mais branda, os incômodos infinitamente menores. O único porém é que agora tomava a medicação semanalmente, sempre às quintas-feiras, e seriam (Afeeeee) 12 sessões no total! Sim, três meses indo ao hospital toda semana! Quero fazer agora um agradecimento especial ao meu Tio Nelson, irmão do meu pai, que um dia ligou para minha mãe dizendo: “Sélia, eu estava pensando em uma maneira de ajudar vocês nisso... e queria oferecer à Cristina ser minha dependente no meu plano de saúde”. Minha mãe se emocionou muitíssimo e eu fiquei muito mais tranquila em saber que tinha mais um apoio e respaldo em tudo que ainda teria que acontecer. Eu estava no meio do caminho. Cansada, fisicamente mais inchada, mais fraca, mas agradecendo pelos resultados. Meu ultrassom demonstrou que o nódulo diminuía, ou seja, o tratamento estava sendo um sucesso! Na segunda fase, comecei a mudar minha maneira de enxergar onde eu estava e as pessoas que dividiam comigo a sala de tratamento no hospital. Já não me escondia atrás do meu MP3 e comecei a


sorrir e conversar com aqueles que viriam a ser meus companheiros durante os próximos meses. No início, recebi muito apoio de vários pacientes que estavam ali. E, depois, sentia (e tinha força e um ânimo verdadeiro) que tinha que retribuir. Conheci grandes pessoas, muitos deles já idosos, alguns com uma energia e vitalidade incríveis, outros desanimados e que não reagiam tão bem ao tratamento. Era uma verdadeira lição de humildade. Vi, durante aqueles meses, gente vindo do interior, que viajava horas numa van, fazia o tratamento e logo teria que viajar outras tantas até chegar em casa. Continuei fazendo o tratamento pelo SUS e penso que foi uma das coisas mais importantes que poderiam ter acontecido. Convivi com gente humilde, mas com o coração enorme. Gente que me mostrava todos os dias que, na realidade, somos todos iguais. Não interessa o que eu tenho e sim o que eu sou. Não interessa o que estudei, mas sim o que eu aprendi. Muitos deles mal sabiam escrever, mas tinham uma sabedoria sem fim e um olhar tão amoroso, que era impossível não me abrir e permitir que, finalmente, a troca – tão importante nas nossas vidas e tão ignorada muitas vezes – acontecesse. Continuei pegando alguns trabalhos na medida do possível (ainda para espanto – feliz – dos meus médicos), e fui tentando viver esses três meses da melhor forma possível. Voltei a fazer uma batelada de exames de controle para monitoramento do módulo. Sim, ele havia diminuído muito. E daí ouvi de um dos meus médicos aquela frase que viria a ser o meu lema desde então: “Cris, parabéns! Você merece uma estrelinha de ouro. Você está brilhando!!!”. Em agosto, ainda voltei a Salvador com a Grá para a casa da querida Nem (outra vez recebida como uma rainha!) e em companhia da Binha, sempre presente nas minhas visitas à cidade. Retornei à Igreja do Bonfim e prometi voltar em breve, já totalmente curada, para agradecer. Já disse e repito: não posso me considerar católica,

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porque não estou de acordo com essa religião. Mas a Igreja do Bonfim representava pra mim o polo de boas energias que eu vinha recebendo, de todos os lados. Uma vez, uma amiga me ligou para saber notícias e me contou que a sogra dela (uma senhorinha que eu tinha visto rapidamente apenas uma vez), estava rezando por mim. Como ficar alheia a tudo isso e não agradecer a Deus tudo de bom que estava acontecendo? Meu tratamento era um sucesso e eu tinha que agradecer!

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Minha última sessão de quimioterapia aconteceu no dia 11 de outubro de 2011. Seis meses depois da minha primeira entrada na sala de tratamento, eu me despedia de todos distribuindo alfajores, doces de chocolate feitos pela minha mãe, e animando a todos os pacientes que ainda continuariam a seguirem com força, fé e determinação. Eu estava feliz, realizada. Sentia-me vitoriosa. Como alguém pode se sentir assim, depois de seis meses recebendo uma medicação detonadora nas veias, perdendo todos os fios de cabelo do corpo (neste ponto já não tinha mesmo nenhum fio, nem sombrancelhas, nem cílios, nada), estando super inchada (efeito da cortisona)? Pois sim, me sentia feliz. Tinha vencido uma primeira e importante batalha, estava orgulhosa de mim. Alguns dias depois da última sessão, embarquei rumo à Barcelona, onde estive por 15 dias para resolver algumas questões burocráticas pendentes. Estava bem, mas fisicamente (digo, visualmente) estranha: sem cabelos, inchada, com olheiras... Confesso que algumas vezes me olhava no espelho e me sentia insegura. Era como se não fosse eu. E acho que, no fundo, até isso veio destacar ainda mais toda a transformação interna pela qual eu estava passando. Estava "trocando de casca". Voltei àquele mesmo quarto no Borne, na casa da Lorena, onde eu havia morado antes de voltar ao Brasil que, como sempre, me recebeu imensamente bem. Era incrível estar ali de novo e me senti querida


e amada por todos os amigos que lá havia deixado. Fui aos meus lugares preferidos, encontrei pessoas importantes pra mim. Algumas delas (sem maldade) tentavam dissimular a estranheza de me verem assim, tão doente, mas não me incomodava. Acho que cada um tem uma maneira de ver, sentir e reagir quando sabe que alguém que se ama tem câncer. Não posso cobrar dessas pessoas a mesma lucidez que eu, fazendo o tratamento, pude ter. Vivi momentos intensos durante estes 15 dias, mas saí de lá sabendo que um dia voltaria e os laços que havia plantado por lá continuariam por muito tempo...

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Voltei a BH no dia 31 de outubro. No dia seguinte já começaria uma batelada de exames pré-operatórios e consultas com o cirurgião plástico que faria a reconstrução da minha mama. Fui para Barcelona com uma tarefa dada pelo meu Mastologista: decidir se retiraria somente a mama esquerda (a que originou o nódulo) ou as duas (a direita, no início do tratamento, também apresentou alguma microcalcificação, que desapareceu durante a quimio). Voltei decidida a retirar tudo o que fosse preciso. Não queria abrir nenhuma possiblidade de reincidência e acho mesmo que foi o melhor que poderia ter feito.

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A minha cirurgia foi marcada para 8 de novembro. No dia anterior, fui ao hospital levar a papelada, autorizações e fazer minha ficha. No dia designado, acordei cedo, tomei um banho, mentalizei e pedi, outra vez, que os meus anjos, santos e guias estivessem perto de mim. Meu Mastologista e meu Cirurgião Plástico (aliás, outra pessoa super astral) já tinham me explicado como seria tudo: anestesia geral, na primeira parte o mastologista retiraria minhas mamas e faria o esvaziamento axial esquerdo e, na sequencia, viria o cirurgião plástico e colocaria a prótese, fazendo a reconstrução. Tudo numa mesma cirurgia que, no final, durou cerca de 9 horas!!!! Outra vez, estive na companhia e recebi o carinho incondicional da minha mãe (imagino o nervosismo dela durante este tempo todo...). Acordei na sala de pós-operatório. Quando perguntei as horas vi o tempo que tinha se passado na mesa de cirurgia. Sentia-me bem, ainda não havia dor, só um incômodo que, pelo tipo de cirurgia que acabara de fazer, não era nada. Pouco tempo depois de abrir os olhos, fizeram as últimas verificações no meu batimento cardíaco, mediram a pressão, etc. Estava tudo bem e era hora de voltar para o quarto, aonde cheguei ainda meio sonolenta. Passei a primeira noite bem e, por sorte ou “ajuda” dos deuses, quase não senti dor. Quando o incômodo aumentava, antecipando a dor que viria, era o horário da próxima medicação. Então a enfermeira vinha com os comprimidinhos mágicos e tranquilizadores, rs. Minha mãe passou a primeira noite comigo


(acho que ela não permitiria que fosse diferente). Na manhã seguinte pude ter uma melhor noção de como eu estava: super enfaixada, com curativos e (isso sim era incômodo) um dreno ligado a uma das mamas, com um saquinho chatinho dependurado, que teria que levar para todos os lados. Aos poucos, fui sentindo melhor meu corpo, já me sentando mais na cama, me alimentando normalmente. No meio do dia, ensaiei os primeiros passos no corredor, para orgulho do meu médico (que tinha recomendado que o fizesse assim que possível, aos poucos). Recebi as visitas da minha tia Fátima, meus amigos Thi, Ju, Anne e Dê. Minha irmã Carla e minha mãe se revezavam nos cuidados (ir ao banheiro sempre era meio novela). Mas em geral eu me sentia muito bem!!! Na segunda e última noite que eu passaria no hospital, minha amiga Kátia me fez companhia. Pedi à minha mãe que fosse para casa descansar, afinal, no dia seguinte já teria alta, voltaria para casa e viriam dias e mais dias de recuperação. E assim foi. Dois dias depois da cirurgia fui para casa. Era bom estar de volta, mas viriam dias em que a palavra paciência (outra vez) seria um exercício fundamental para não desanimar. Depois de uma semana, fui ao médico retirar o dreno e, pela primeira vez, refazer os curativos e ver como tinha ficado tudo...

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O pós-operatório foi outro período chato de todo o processo, não vou negar. Contei muito com a ajuda das minhas irmãs, especialmente Celinha, que vinha todos os dias me ajudar no banho e curativos. A Grá também esteve lá, novamente presente, me ajudando em alguns desses momentos. Um mês dormindo olhando para o teto (o que para mim já era difícil), com todo o cuidado do mundo para que a cicatrização fosse a mais perfeita e melhor possível...

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Um mês depois, comecei a fazer fisioterapia por recomendação do meu Mastologista, para retomar os movimentos normais dos braços, especialmente o do esquerdo que tinha sofrido uma intervenção maior. Aí conheci outro anjo: a Dra. Claudia, Fisioterapeuta, uma profissional incrivelmente humana. Comecei a frequentar a clínica diariamente e aproveitava para fazer o trajeto a pé (eu gastava de 15 a 20 minutos caminhando) para fazer algum exercício. A Dra. Claudia me recebeu super bem. Além dos exercícios, fiz drenagem (aplicado por ela mesma) e, durante aquele tempo (30 minutos), conversávamos muito sobre a vida, sobre a morte, sobre como encarar tudo... Dessa forma, passei a aceitar ainda mais meu novo corpo: apesar de estar com silicone nos dois seios eu havia perdido o mamilo esquerdo na cirurgia (que só viria a ser reconstituído depois). Assim, quer se queira ou não, estava visivelmente diferente. Me lembro da primeira vez que olhei para os meus seios sem curativos pensei: “Pareço um Frankstein”. Mas, depois, agradeci muito... Frankstein ou não, eu não tinha saído da cirurgia mutilada como muitas mulheres. E aproveitava para agradecer cada estranhamento que o silicone pudesse me dar... Paralelamente aos cuidados com a minha cicatrização, havia também a preparação para a terceira fase do tratamento: a radioterapia. Para quem não sabe, a radioterapia (incidência de uma espécie de laser direcionado a uma parte do corpo) pode ser até mais agressiva que a quimio. Mas como é interno, os efeitos não são tão visíveis... Novos exames e lá fui eu, alternando os dias entre as sessões de radioterapia (que duravam cinco minutinhos), fisioterapia e drenagem. Ia me


recuperando bem, o que me dava mais ânimo para continuar confiante. Já estávamos em dezembro e o ano de 2011 quase chegava ao fim. Comecei também, nessa época, a tomar um medicamento que vai me acompanhar por cinco anos (espero que não sejam longos). O Tamoxefeno é uma espécie de anti-hormônio inibidor de reincidências. Tomá-lo cada dia pode ser automático ou pode ser a lembrança de tudo o que ficou pra trás. Dependendo do meu humor do dia (rs), tenho uma visão ou outra... Também voltei a frequentar a terapia do grupo de Psciooncologia, em grupo e individual e, aos poucos, retomando alguma vida social. Assim começaram as festas de Natal... Uma das mais emocionantes para mim foi o “Natal do Peru”, festa natalina que promovemos todos os anos entre os “queridos amigos”. Aquele ano para mim tinha sido especial e aproveitei a oportunidade de tê-los juntos para agradecer a cada um por tudo: pela presença do meu lado, pelo carinho, pelas orações, pensamentos, telefonemas, visitas, mensagens, pelo amor e atenção. Emocionada, mas feliz, fiz o que a gente às vezes esquece e deixa passar: declarei meu amor a cada um ali presente. Amor e gratidão. Logo, veio o Natal em família. Foi muito bom tê-la comigo e, logo depois, aconteceu minha viagem ao Rio onde fui passar o reveillón com a Clara, o Ed e o Ju (que estava com sua família também pela capital carioca). Foram dias deliciosos: eu me cuidava bastante porque, em função da radioterapia, ainda não poderia tomar sol. No dia 31 estávamos nós na praia de Copacabana, de roupa branca, pés na areia e flores para Yemanjá, para festejar o ano novo que estava chegando. À meia noite, em meio a uma chuva de fogos de artifício e brindes com amigos (e até desconhecidos), chorei e muito. Estava acabando um ano que ficará marcado pra sempre em mim e na minha história

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e eu tinha chegado até ali vitoriosa. Agradeci muito. O caminho não havia ainda chegado ao final, mas estrelinhas de ouro brilhavam em mim em cada etapa vencida e isso me deixava imensamente feliz... Chegou o ano de 2012. Engraçado como me olhava no espelho e sentia que já não era aquela Cris que tinha voltado de Barcelona pouco mais de um ano antes. Meu cabelo voltava a crescer e eu ia retomando a vida...

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Pela primeira vez quis comemorar meu aniversário de verdade, reunindo todas aquelas pessoas que tinham me apoiado, me ajudado, torcido por mim. Queria comemorar com minha família e amigos. Foi lindo! Acabei batizando a comemoração de “37.1 – PARA CELEBRAR A VIDA” (37 anos de vida e um de renascimento), contei com a ajuda de todos para organizar: o Gera emprestou o salão do prédio, o Denis fez o layout do convite, a Grá, Janine e Clara (que veio do Rio pra comemoração) com a montagem de tudo, minha mãe e Celinha nas comidinhas, o Marinho que levou o som, a querida Kátia com o bolo... E foi uma festa linda!!!!! Com exceção de alguns amigos que estavam de viagem, não faltou ninguém. Senti-me lisonjeada e afortunada. Todos estavam ali, celebrando a vida comigo, eram o maior presente que eu poderia receber. Me diverti muitíssimo e acho que todo mundo que estava por ali também... A radioterapia continuava e a fisioterapia também. Cuidava-me bastante, especialmente da pele que, com a incidência do laser diariamente, corre o risco de sofrer queimaduras. Seguia à risca o conselho médico de usar bastante hidratante e de passar também uma pomada francesa muito boa para isso (que me foi presenteada pela querida Carol Braga). Minha pele resistia bem e todos os exames de rotina continuavam ok. Recebi então uma proposta de trabalho (na produção de um camarote no Carnaval de Salvador) e não queria perder a oportunidade. Estava


há alguns meses parada e queria me sentir útil novamente! Para aceitá-lo, teria que remanejar minhas sessões de radio. Marquei uma consulta com meu Radioterapeuta, expliquei o que estava acontecendo e perguntei se havia alguma possibilidade de antecipar as sessões que faltavam e eu pudesse viajar. Depois de me examinar, fazer cálculos, meu médico resolveu subir um pouquinho a dose nas sessões que faltariam, cumprindo assim o tratamento, para encerrá-lo no prazo de que eu necessitaria. Lembro que ele olhou pra mim e disse: “Cristina, tá na hora de você retomar sua vida, mesmo. Ok, daremos um jeito e você poderá viajar.” E assim foi. Dois dias depois da última sessão de radioterapia, embarquei para quase um mês em Salvador, novamente sendo recebida pela querida Nem. Trabalhei muito, conheci novas pessoas (algumas com as quais trabalhei e mantenho contato até hoje, como os queridos Felipe e Marie), e vivi esse furacão de carnaval na capital baiana. Quem diria, um ano antes (e pensei muito nisso quando, novamente, estive na festa de Yemanjá no dia 2 de fevereiro), que eu passaria por tudo que passei e estaria ali novamente? Recuperandome super bem e com uma nova visão do mundo e da vida que, acredito, não conseguiria de outra maneira. Salvador foi como um respiro, um novo sopro de ânimo. Estava trabalhando, novamente na ativa e profissionalmente subindo outro degrauzinho nesse caminho que escolhi pra mim. Estava em um lugar especial, com boas energias e cercada por gente boa. Sentia-me como se estivesse em casa. O que mais eu poderia querer? Terminado o trabalho, ainda pude curtir a cidade, onde passei momentos deliciosos com outra amiga baiana, Sílvia, pessoa linda e que me ensinou a sorrir com a alma. Incrível como o Universo vai colocando as pessoas certas nos momentos certos da nossa vida, não é? Ainda em Salvador, recebo uma ligação e o convite para uma entrevista de um novo trabalho que eu começaria logo quando voltasse para

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BH. Tudo acontecia muito rápido, vinha como um turbilhão de energias, de acontecimentos e de muita, muita luz. Novamente, teria que agradecer. O novo trabalho era em um grande festival de teatro da cidade, que me proporcionou encontros importantíssimos para minha vida (e espero que sejam eternos), além de me permitir voltar a atuar profissionalmente na cidade. Revi amigos queridos, conheci outros tantos. Foi outro trabalho especial e, novamente, tudo vinha no tempo certo. Paralelamente, continuava minhas consultas e o acompanhamento médico, de três em três meses, e ainda seguia no grupo terapêutico de apoio.

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Já estávamos em agosto de 2012 e viria então a última parte física do tratamento: uma última cirurgia estética, reparadora, para reconstrução do mamilo esquerdo, retirado na cirurgia de mastectomia. Confesso que, daquela vez, policiei-me bastante para não me queixar, não esquecer o quanto tinha sido afortunada até aquele momento. Tudo estava bem, ganhava estrelinhas de ouro em cada retorno ao médico, profissionalmente minha vida estava agitada desde fevereiro, quando recebi o ok médico para voltar à ativa. Mas, na véspera da cirurgia, me veio um cansaço e um desânimo enorme. Apelei para a cromoterapia e novamente minha amiga Kátia que, com palavras de ânimo e uma boa energizada, me trouxe a confiança de volta. Mesmo assim, eu estava ansiosa e com vontade de acabar logo com aquilo tudo... Fui para o hospital com minha mãe e Carla. A cirurgia, marcada para as 13h, só começou quase às 16h. Fiquei num mau humor danado por isso (ansiedade e jejum desde a noite anterior definitivamente não eram um fator animador pra esse momento). E não é por acaso que isso acontece. A gente às vezes quer as coisas da nossa maneira, no nosso tempo. E nos cobramos muito por isso, talvez de uma maneira egoísta e desesperadora, como se fôssemos os únicos seres do mundo e tivéssemos que ter uma atenção especial... Não é assim? Pois é... Toda aquela espera e o fato de estar de novo numa mesa de


cirurgia fizeram-me refletir de novo. Obriguei-me a respirar fundo e a novamente pensar positivamente. E lá fui eu... Quatro horas depois, estava de volta ao quarto, onde minha mãe me esperava, aliviada. A cirurgia foi mais simples que a anterior, mas igualmente inspirava cuidados na recuperação. E além de tudo teria que ter mais cuidado ainda, já que havia uma viagem marcada para Barcelona (outra vez), um mês depois, também a trabalho (é, parece mentira, mas acho que nunca trabalhei tanto e em coisas que realmente me davam prazer). Estava outra vez em casa, outra vez exercitando a paciência... quieta, recolhida, tentando driblar o enorme tempo vago que eu tinha... outra vez sendo cuidada e paparicada pela minha mãe, incansável. Quando já estava um pouco melhor, voltei à terapia e tive a notícia de que receberia alta do grupo, que eu estava frequentando há pouco mais de um ano. Na hora, senti medo. Muito medo. Afinal, era a constatação de que as coisas realmente estavam voltando ao normal e, por incrível que pareça, isso me assustava um pouco (conversei muito sobre isso com minha terapeuta). Quando você está doente, parece que o mundo se volta para você e – graças a Deus – tive sempre muita gente por perto. Mas agora isso começava a mudar... Claro, era normal! Por outro lado, é como romper com o estigma de centro de Universo no qual acabamos caindo. Somos humanos (imperfeitos) e ter humildade era necessário, mas nem sempre de forma tão automática, confesso. A saída do grupo que foi tão importante na minha vida foi quase como voltar a amadurecer. Sentia-me uma adolescente virando mulher, novamente consciente dos atos e com a responsabilidade de tomar sozinha as decisões e as rédeas da vida. Apesar do medo, apesar de não saber o que aconteceria dali pra frente, me sentia bem. Saía do casulo, borboleta. A vida estava ali na minha frente. Era preciso voar. Minha despedida do grupo foi muito intensa e linda. Junto comigo também receberam alta outras duas pacientes e, portanto, preparamos algumas coisinhas para as pessoas ali presentes. Minha mãe me acompanhou e foi importante tê-la ali, afinal de contas foi

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por insistência dela que resolvi participar do grupo. Hoje penso que talvez não visse tudo como vi, sem ele. Era o primeiro fechamento de um importante ciclo. Agradeci a cada uma daquelas pessoas pelo aprendizado de vida que me deram. Sempre levarei todas no coração. Em setembro de 2012 embarcava para Barcelona para dois meses de trabalho, encontros, amigos, vivências e tocadas com o Mandacaru. Voltava a convite de duas pessoas que amo muito e que, mesmo de longe, foram muito presentes: Christian e Carlos, diretores do festival, amigos queridos que me ofereceram trabalho, atenção e o aconchego de um lar delicioso. Foram dias muito, muito bons. Eu voltava à cidade onde tudo havia começado. Cidade onde aquela Cristina, triste, deprimida e sem rumo, tomava uma das decisões mais importantes da sua vida: voltar ao ninho, ainda sem saber por quê. 62


fechando a agenda Hoje, passados quase dois anos desde o dia em que senti o nódulo pela primeira vez, posso dizer que não sou a mesma pessoa. Olho a vida de uma outra maneira, luto e me vigio todos os dias para não voltar a ser aquela pessoa que sorria (mas por dentro levava tanto ressentimento e amargura), e que se fixava em coisas que (hoje vejo) eram desnecessárias. É engraçado porque, ao ver fotos minhas, tiradas antes do câncer, quase não me reconheço. A olhos vistos esta mudança talvez não seja reconhecida de cara mas, sinceramente, não me preocupo. O que busco, sim, é estar tranquila comigo mesma, é fazer as coisas como acredito que devam ser feitas, é voltar para mim mesma e me amar como nunca. Talvez essa mudança de atitude possa soar meio egoísta, mas acredito que sendo uma pessoa melhor e mais verdadeira comigo mesma, também serei melhor com as pessoas que me cercam. Hoje já não me preocupam tanto as opiniões que as pessoas possam ter de

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mim (não me interpretem mal). Às vezes nos preocupamos tanto em cumprir um papel desejável que acabamos nos esquecendo de nós mesmos, da nossa essência. Penso que esse foi o maior legado que o câncer me deixou: olhar para dentro de mim, me questionar e, como resultado deste embate, tornar-me realmente uma pessoa inteira. A minha relação com o trabalho também mudou. Hoje me vejo mais humana e menos robótica. Sempre me cobrei muito, capricorniana que sou, e não aceitava nada que não fosse disciplinadamente perfeito. Continuo buscando executar bons trabalhos, claro, mas vendo tudo de uma maneira mais leve e tentando me divertir em cada novo projeto. Afinal, é pecado fazer o que se gosta, se divertindo e ganhando dinheiro com isso?

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É óbvio que ainda estou a anos-luz de ser uma pessoa perfeita, quem sou eu! Ainda estou engatinhando e vez ou outra ainda me esbarro com aquela antiga Cristina. Mas pelo menos agora tenho uma consciência maior disso e, quando é possível, tento remediar. O câncer é uma doença solitária, por mais que tenha recebido todo este abençoado apoio. E até nisso ele é eficaz. Nos meses de recuperação, quando passava dias e dias em casa, sem muito o que fazer, não havia nada senão me confrontar comigo mesma. É loucura dizer isso, mas acho que nunca me despertaria se não fosse assim. Hoje me olho no espelho, me reconheço mulher e amo cada pedaço do meu corpo. Sinto-me livre e aberta, busco não ter amarras. Acredito que tenha chegado a hora de viver a minha vida como realmente quero. Isso, claro, com respeito, atenção e amor àqueles que me rodeiam. Respeito a opinião dos outros mas, diferentemente de antes, não me obrigo a estar de acordo.


Hoje, quase dois anos após o meu diagnóstico, termino aqui esse relato que, como disse no início, não sei onde vai parar. Escrevo pra mim, escrevo pro mundo. Há uma semana fiz exames de rotina (continuo fazendo controles de três em três meses) e minha saúde vai bem! Resta só uma lutazinha contra os efeitos dos remédios (para isso estou fazendo alguns exames) e nada mais... Perto do que vivi, do que passei e de quanto cresci, não será nada. Entrego, confio, aceito, agradeço... Não sei como e onde vou estar no próximo ano, nos próximos cinco ou dez anos. Acredito que a liberdade do futuro me deixou mais leve e pronta para entregar meu amor ao mundo...

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Em tempo: quando estava finalizando a escrita dessas memórias, recebi a notícia, dada pelo meu cirurgião plástico, que seria necessária uma nova cirurgia estética, em um dos seios. Ao mesmo tempo, vou lutando contra os efeitos dos remédios e a uma dúvida ainda não confirmada de pré-menopausa (sim, aos – quase – 38 anos!). Enfim... às vezes tenho a impressão que isso não vai acabar nunca, mas talvez exatamente por isso não deixe de caminhar. Obrigada a você que chegou até aqui lendo tudo. Viva e ame a vida, ame a você mesmo e ame aqueles que te amam. Não se ressinta, não se magoe, não perca tempo com coisas inúteis. Consiga tempo para você, sempre. Não faça nada que não queira, não se mate por um trabalho que não lhe dá prazer, não ganhe dinheiro sendo infeliz. Saúde é felicidade, é amor, é família, são os amigos. E agradeço muito por, agora, ter aprendido isso. Muito amor – e vida – para vocês!


Para a produção desse livro, contei com a colaboração e generosidade dos queridos amigos (a quem agradeço de coração): Revisão: Juarez Guimarães Dias Capa: Clara Mendes, Denilson Cardoso Design editorial: Solo C.D.C. por Denilson Cardoso Fotos: Matheus Soriedem Ilustração: Marina Rocha Belo Horizonte, novembro de 2012


Projeto realizado com recursos próprios. Distribuição gratuita. Para reprodução, favor entrar em contato com a autora: cg@cristinagil.net Impresso em dezembro de 2012.


Agradecer e abraçar - Uma maneira de viver o câncer  

Livro auto-biográfico de Cris Gil, produtora cultural, diagnosticada de câncer em 2011. O livro relata a trajetória da autora e como venceu...