santos in loco
Foi aqui que tudo começou, em Santos, na Avenida Dom Carlos I, há muitos anos, quando o Raúl era uma criança e morava em frente à Sociedade Guilherme Cossoul. Fomos rebuscar as suas memórias, até aos primeiros passos como actor e à sua vida neste bairro. T e x t o / t e x t ISA B E L L INDI M · f o t o g r a f i a / p h o t o g r a p h y e v el y n k a h n
O pai tinha uma oficina/loja de vassouras, escovas e pincéis, “uma pequena fabriqueta”, como diz Raúl. Chamava-se Vassouraria da Esperança, e ao contrário do que se possa pensar, não era na Rua da Esperança, também em Santos, mas sim na Avenida Dom Carlos I, mesmo em frente à Sociedade Guilherme Cossoul. Obra do destino. Não foi preciso muito tempo para o Raúl se sentir atraído por aquele meio cultural. A aproximação foi gradual, e começou com os bailes. “Aos onze anos fui trabalhar com o meu pai como operário, fazia escovas”, conta, “quando tinha catorze anos comecei a ir para a Guilherme Cossoul ao domingo à tarde, ao baile. A malta ia para lá ver as miúdas, e fomos ficando...” O espaço era inicialmente para receber música, fundado por admiradores do maestro Guilherme Cossoul, mas foi o teatro que lhe deu mais vida. No entanto, passaram por ali algumas orquestras, e os ditos bailes, que faziam daquele espaço um núcleo de convívio para a juventude do bairro. Havia também um grupo de teatro dramático. “Eu adorava, mas era muito fraquinho”, recorda Raúl, “ o director era conservador, defendia o velho teatro amador.” Aos poucos, o novo teatro amador foi-se aproximando, pela mão dos actores José Vilhena e Jacinto Ramos. Foram tempos de agitação. Raúl era principalmente um espectador. “Havia assembleias gerais excelentes, onde quem brilhava era um homem que negociava em batatas, tinha um armazém na Rua do Poço dos
Negros. Tratavam-no por Pinheiro da Batata. Um tribuno raro, com uma eloquência enormíssima. Queria um teatro a sério, não queria ser director, mas acarinhava a sociedade, dava dinheiro. Era o sócio número um, agora sou eu.” A casa dos pais era ao lado da loja, por isso as visitas à Guilherme Cossoul repetiam-se. O novo grupo dramático saiu vencedor e criava-se ali “uma fúria cultural”, como diz Raúl. “Começámos todos a ler”, especifica, “a discutir coisas das quais não tinhamos a menor ideia. Não sei se a minha vida não se transformou ali. O meu pai não tinha livros em casa, por isso eu ia para lá ler. Fui directamente para O Crime do Padre Amaro, do Eça, não passei pela literatura juvenil. Foi o primeiro livro que li, pensava que era um policial. E iam lá muitos poetas. O Possidónio Muralha, por exemplo, que uma vez jogou ping-pong comigo, eu ia desmaiando, adorava os versos dele.” A Guilherme Cossoul gozava de uma posição de prestígio, concentravam-se ali intelectuais e interessados pelo teatro. O grupo de José Vilhena e Jacinto Ramos ganhava estatuto e o público afluía. Raúl continuava um entusiasta de todas as actividades. “Era um pouco gago”, conta, “adorava teatro, mas não tinha como... Ia aos ensaios, sabia as peças de cor, mas não participava. Até que um dia o Jacinto Ramos me disse que tinha faltado um dos actores e perguntou se eu podia fazer o papel, que era pequeno, apenas duas falas. Respondi ‘Mas eu
santos con vida · 7