santos in loco
sou gago!’, e ele disse-me ‘Um gajo quando canta não gagueja, também não vais gaguejar’, e eu lá fui, para a minha estreia, numa peça de Alves Redol. Gaguejei tanto que as pessoas riram imenso. E aquilo era um drama! Fez um sucesso, tive imenso tempo no palco por causa do gaguejar. Ficou resolvido que eu era um cómico.” Era o ano de 1947, e logo a seguir Raúl participou noutra peça, desta vez de Tchekov. Para exercitar as falas, começou a ler o jornal uma hora por dia, muito devagar. Foi assim que se treinou para o futuro. “Mas ainda sou gago”, diz, “aliás, vivo disso!” O salto para o teatro não foi imediato. “O meu sonho era ser médico”, conta, “tinha uma fantasia desde pequeno, por gostar muito do nosso médico, que vivia ali ao pé, o Américo de Assunção. Era coxo, chamava-lhe doutor coxinho. Dava por ele quando subia as escadas, toc-toc toc-toc.” Mas, “como era hábito naquela altura”, conta Raúl, “os pais tinham aquela frase genial para os filhos ‘O menino não tem quereres!’, por isso, tive que ir para uma escola comercial tirar um curso, que detestei. Ele queria dar-me a herança da pequena fábrica, achava que seria minha, e tinha alguma razão...”. Depois de tirar o curso, esteve como empregado no escri8 · santos con vida
tório duma loja de ferragens na Rua da Boavista durante dois anos. “Um horror”, lembra, “acho que fiz um bom lugar, porque tinha brio profissional, mas não gostei.” A seguir, já com 19 anos, o pai criou uma fábrica de escovas dentro da penitenciária de Lisboa, com uma loja em frente. Durante algum tempo, Raúl trabalhou com os presos, experiência de que tem boas memórias. Entretanto, mantinha-se perto do palco. “O meu pai ia comigo ao teatro, gostava muito, finalmente convenceu-se, tinha eu 21 anos. Chorou, disse que era uma vida instável, mas se era o destino, que fosse...” E foi. Directamente para o Maxime, onde José Vilhena já se tinha instalado. Apesar de ter participado apenas em duas peças na Guilherme Cossoul, a ligação a esta sociedade manteve-se sempre. Para Raúl Solnado “era, e continua a ser, uma instituição muito importante, um local de grande convívio.” Na altura em que se estreou no palco, foi com os melhores e mais eloquentes. “Era uma coisa muito séria”, lembra, “a Guilherme Cossoul não ganhou o primeiro prémio de teatro amador porque os actores eram considerados profissionais.” O público nas peças era fundamentalmente formado por outros actores, críticos e intelectuais. Dos actores que ali passaram, Raúl recorda muitos nomes. Entre eles, Varela Silva, que vivia por cima da loja do pai, e Gigi, que para ele foi o melhor. “Era um actor raro”, conta, “com uma voz linda, um operário que passava a vida a ler, muito modesto. Um dia apareceu no Villaret e disse-me que queria trabalhar comigo.” Durante muitos anos, Raúl teve uma vida de actor intensa, com várias sessões por semana no teatro de revista, a maior parte das vezes como protagonista, e depois na televisão. Da longa e muito preenchida carreira de actor e humorista, Raúl Solnado tem muitas histórias para contar, parte delas da Guilherme Cossoul e do bairro onde viveu na infância e juventude. Nunca deixou de estar ligado a esta instituição , onde ainda hoje dá aulas de teatro. Ainda hoje, sente que ali foi o seu ponto de partida. “Às vezes”, conta, “quando estou cansado, ou quando está pouco trânsito, gosto de entrar no carro e andar pela cidade, sem destino, e vou sempre acabar ali. É curioso, e é natural, aquele momento foi muito forte para mim.”•