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ConVida Baixa & Chiado / 2008 (nº 10)

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os chás e os batidos da encantadora Pastelaria Ferrari, com os seus bolos de chantilly e bules de prata. Não mais as contas que escolhíamos com igual gulodice na mais antiga loja de capital, a Casa Batalha desde 1635 acoitando-se sob os seus imponentes arcos de pedra. Não mais aquele mundo bizarro e faiscante ao entrar na Antiga Casa José Alexandre, sortido máximo de artigos de ménage. Não mais o Jerónimo Martins, antigo fornecedor da Casa Real, que dos têxteis às perfumarias tanto congregava. Não mais o Martins & Costa, charcutaria finíssima da capital. Não mais a Custódio Cardoso Pereira e o sedutor verniz dos seus instrumentos musicais, nem a Valentim de Carvalho onde ardeu nessa manhã todo o arquivo histórico em papel da mais antiga editora discográfica portuguesa. E claro, não mais o mágico Grandella, o primeiro grande e imenso armazém de Lisboa, todo em madeira, das escadarias aos balcões, e aquela secção de brinquedos que fez despertar a concupiscência

Eram 10h00 quando o fogo trepa pela Garrett acima, até à Rua Ivens, ao mesmo tempo que desce a Rua Nova do Almada. Treme-se pelo Grémio Literário que já não está longe, teme-se no Museu do Chiado e retiram-se já os quadros. infantil de várias gerações diante do universo inteiro em miniatura (para matar saudades, resta-nos o “Pai Tirano”, esse brilhante filme que dele fez cenário em 1941). Ao lado, os rivais Grandes Armazéns do Chiado, desde 1905 estratégicamente localizados no desembocar da Rua Garrett, com a sua grandiosa escadaria e, outrora, a igualmente soberba oferta. Na verdade, na véspera do incêndio ambos os grandes armazéns de glorioso apenas tinham a sua decadência, nas mãos de um obscuro dono da rede de lojas “Pagapouco”. Eram, assim, o mais visível símbolo de uma zona antiga e nobre mas também envelhecida e cada dia um pouco mais encardida. Em 15 horas, arderam 18 edifícios da zona comercial mais nobre da cidade e cerca de 2.000 pessoas terão perdido os postos de trabalho num incêndio cujas imagens deram a volta ao mundo. Mas as catástrofes são também momentos excepcionais de oportunidade. Nomeado de imediato, ao arquitecto Siza Vieira coube a delicada equação de resolver a memória de um passado desaparecido para um futuro por adivinhar. Optou por respeitar a tipologia pombalina exterior e adaptar os interiores ao comércio contemporâneo, dignificando a zona e conseguindo assim atrair lojas como a Fnac, a Zara ou a Cartier, pólos comerciais essenciais à revitalização económica do Chiado. Vinte anos depois, recuperou o seu lugar incontestado: é a mais elitista, cosmopolita, charmosa e vibrante área comercial de Lisboa. E hoje, olhando para trás, compreendemos que o que perdeu o Chiado foi também provavelmente o que o salvou.• Fotografias in Armazéns do Chiado 100 anos.

14 · baix a & chiado con vida


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