baixa & chiado in loco
Um coração
em chamas O dia de 25 de Agosto de 1988 nunca chegou a amanhecer no Chiado. Escuro era o céu, de um cinzento plúmbeo, obstruído por uma nuvem densa de fumo que não deixava entrever o sol. Pó, fuligem e faúlhas dançavam no ar, abrasador e sufocante, diante das janelas pombalinas que irrompiam em chamas. Quem assim o viu, não esquece. E mesmo vinte anos passados, o coração aperta-se ainda ao lembrar essa manhã trágica em que Lisboa viu desaparecer uma parte da sua vida. T e x t o / T e x t c ata r i n a p o r ta s
E
ra noite ainda quando, entre as 03h00 e as 04h00 o incêndio deflagrou nos Armázens Grandella, na Rua do Carmo. Muitos aqui passavam de dia mas poucos aí dormiam de noite e isso explicará porque só às 05h19 o Batalhão de Sapadores Bombeiros foi alertado. Poucos minutos depois, as primeiras viaturas de socorro começaram a chegar. Pela frente, o fogo e um conjunto temível de aliados: um edificado centenário e degradado, abundante em madeira, recheado de garrafas de gás, o vento de feição e, claro, o recente e controverso arranjo de esplanadas de pedra subindo rua acima e impedindo a fácil manobra das viaturas. Às 07h20 acontece o primeiro susto, quando as chamas atravessam a rua passando para o quarteirão fronteiro, apenas dez minutos depois mais outro, quando as labaredas galgam a Rua Garrett, alcançando a Eduardo Martins. São apenas 08h30 quando o Grandella e os Armazéns do Chiado se começam a desmoronar. Ao Chiado, acorrem corporações de bombeiros de toda a Lisboa e arredores, seriam 48 ao todo nes-
sa manhã, mais de mil homens combatendo um incêndio como jamais haviam visto na sua capital. Com esforço e dramatismo, muita impotência e alguma desorganização também. E incredulidade absoluta face às chamas que espreitam com uma violência exasperante por todos os cantos. A seu lado, muitos empregados das lojas ameaçadas desesperam, alguns agem. Da Escola Veiga Beirão, um bombeiro saí abraçado a um globo terrestre. Nas Escadinhas de São Francisco, um funcionário pressuroso desafia o fogo para resgatar a caixa registadora. Eram 10h00 quando o fogo trepa pela Garrett acima, até à Rua Ivens, ao mesmo tempo que desce a Rua Nova do Almada. Treme-se pelo Grémio Literário que já não está longe, teme-se no Museu do Chiado e retiram-se já os quadros. Finalmente, às 11h00 os bombeiros anunciam o controlo do incêndio e os lisboetas, amontoados no topo da Garrett ou em casa, colados aos televisores, suspiram de alívio. E choram a perda. Numa manhã, assim se foram algumas das mais históricas e carismáticas lojas de Lisboa. Não mais baix a & chiado con vida · 13