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ConVida Bairro Alto & Príncipe Real / 2011 (nº 15)

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JARDIM PRÍNCIPE REAL DO

JA R D I M F RA NÇ A B O R G E S

Quiosques, feiras, flores, estátuas, segredos, e árvores centenárias fazem o cenário mas não um jardim. É preciso as personagens entrarem em palco, por isso saia de casa e traga o livro, o piquenique, a família e os amigos, e venha viver este espaço, o Jardim do Príncipe Real é seu. TEXTO / TEXT MAM I PE R E I RA · F OTOG RAFIAS/ PHOTOG RAPHY R ICAR DO POLÓN IO

M

alandro que é malandro muda de esquina” ouviu-se gritar por aqui, mas apesar de ter estado em obras, o Jardim do Príncipe Real (chamado realmente França Borges como o jornalista republicano) contínua no mesmo sítio. Este oásis alfacinha rejuvenesceu mas mantém a sua essência, digamos, real. Lá estão os velhotes a jogar à batota pelas mesas, os gritos da criançada que escorrega e baloiça até se cansar, os casais de namorados que se escondem na sombra do cipreste centenário (árvore que pudesse falar se engasgava no que já viu). Lá está o pintor que não se cansa de espalhar tinta até acertar na cor certa da tela e os arrumadores que inventam espaços e roubam emprego aos parquímetros. Desde 1860, altura em que se decidiu alcatifar de relva este largo, que o Jardim se ocupou de ir criando uma fauna humana muito sui generis que se espalha a gosto. É fácil encontrar jovens artistas a discutir folcloricamente a Ideia e o Conceito, agarrados a uma Orchata no Quiosque do Refresco (jóia urbana de 1900), de onde se pode levar a passear um galão quente num copo de cartão ou aquecer logo a alma com um copinho de Ginginha. Se nos aventurarmos pelas árvores podemos encontrar a Esplanada do Jardim, restaurante romântico, onde os poetas vão tentar encontrar a rima e as amigas, ao sabor de um chá para esquentar a fofoca. Aqui almoça-se e janta-se cozinha de autor e olha-se, nostalgicamente, lá para fora se estiver a chover. Mas para sentir o verdadeiro espírito bairrista temos que escolher o Quiosque do Oliveira, à esquerda. Aqui ficam os

compadres em animadas cavaqueiras, os taxistas encostados ao balcão a contar as últimas e alguns turistas encadeados com a luz lisboeta a comprar postais. Se no quiosque da direita se bebe a limonada perfumada aqui bebe-se a bica amada. Também não podia faltar o quiosque dos jornais, ali mesmo ao lado, para se ir buscar a revista da palavra cruzada. Aos fins-de-semana o jardim ganha outra vida. Aos sábados de manhã tendas brotam como cogumelos para vender frutas e hortaliças, actividade bastante medieval que faz as delícias de quem por lá passar, é tudo biológico e colorido, trocam-se dicas e abrem-se apetites até às 14h. Uma vez por mês conseguimos apanhar também uma feira de antiguidades e novidades, com original artesanato urbano a fazer companhia ao bric-a-brac do tempo da monarquia, animações de rua e até workshops. Mas há mais, por entre árvores exóticas e estátuas, o Príncipe Real esconde um segredo bem guardado. Siga o nosso mapa do tesouro… Ao pé do lago central vai encontrar umas escadas que descem pelo solo adentro… Se conseguir passar pelo guardião (só tem que pagar E2,50) e entrar pela porta, vai ter uma surpresa. Aqui fica o Reservatório da Patriarcal com o seu lago subterrâneo que até aos anos 40 abastecia a cidade. Nos dias que correm (como água) o reservatório faz parte do Museu da Água e alberga exposições e outros eventos. É um espaço altamente cenográfico que promete fotografias para pôr no álbum, mas não conte a ninguém.• CON VIDA BAIRRO ALTO & PRÍNCIPE REAL

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