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E-DIALOGUE cmis

Conference Mondiale Instituts Seculiers

Nr 5 ano 2010

SUMÁRIO Carta do Presidente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Vida da Igreja: . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A ostentação do sudário Jornada das vocações

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Vida da CMIS:. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Conselho Executivo Como aderir à CMIS

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Vida dos Institutos:. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Figlie della Regina degli Apostoli Oblatas Diocesanas Missionari della regalità Oblatas franciscanas COMI Khristusa Krola Misioneras apostolicas de La caridad Volontarie della carità Missionarie della regalità Oblatos diocesanos Sacerdoti missionari della regalità CIIS Integração de informação Comis

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Testemunhos:. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Viagem Missionário em Roraima O peso das palavras Tocarei a harpa de dez cordas Carta de Serra Leão

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Spigolando: . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Comunicação urgente Finalmente estamos em condições de permitir o acesso ao nosso site. A página web foi renovada. Agora temos necessidade da colaboração de vocês: pedimos que acessem o endereço cmis-int.org e verifiquem as informações dos seus institutos ali presentes. Se for necessário integrá-las ou corrigi-las, pedimos que nos comuniquem com urgência no endereço: cmisroma@tin.it Obrigado

Carta d Presidente TEMPO DE CRISE, TEMPO DE FÉ Chegamos a este novo número de e-dialogue, o número 5, em um momento difícil, sim vivemos tempos difíceis. A perspectiva mundial de crise econômica e moral continua a ser sentida e são muitos os sofrimentos das pessoas e das famílias em nossos países. Parece que está ainda distante no horizonte o retorno à normalidade. Ao mesmo tempo, no interior da Igreja, mesmo estando no tempo pascal, parece que se tenha prolongado uma via crucis de paixão, pelo terrível escândalo dos abusos sexuais, que toca a todos nós como membros de uma Igreja de santos e pecadores. Qual deveria ser a nossa resposta como consagrados seculares? Em primeiro lugar uma profunda reflexão, em todos os níveis. Uma reflexão que deve ser iluminada pela luz da fé no Senhor. Uma reflexão e uma fé que nos fazem compreender que a fragilidade e a inclinação ao pecado são um dado permanente no homem. Que temos um tesouro em um vaso de argila. E todo ser humano é assim: criado e escolhido por Deus, porém fraco e pecador. Uma reflexão que não se esconde em uma simples lamentação, ma que declare, com palavras de fé, o que exprimiu com vigor o Papa Bento XVI na carta aos católicos da Irlanda: “creio firmemente no poder curador do seu amor de sacrifício”. Em segundo lugar a nossa palavra não deve ser diversa daquela da Igreja, na pessoa do Santo Padre: vigiar para que não aconteça; bloquear o mal com prontidão, exagerar na caridade e na misericórdia em relação às vítimas. Mas a maior resposta que podemos dar é nossa santidade de vida. É a melhor resposta à crise do mundo e aos escândalos na Igreja... A nossa missão no mundo coloca-nos em um lugar privilegiado para testemunhar esta santidade de vida. Que a nossa via seja uma manifestação da expressão paulina: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20).

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Vida da Igreja EXPOSIÇÃO DO SUDÁRIO Na primavera de 2010, depois de 10 anos da ostentação do Jubileu, o Sudário será novamente exposto na catedral de Turim a partir de 10 de abril até 23 de maio. Em 2010, pela primeira vez, será possível ver diretamente o Sudário depois dos trabalhos para a conservação, aos quais foi submetido em 2002. A decoração do percurso de introdução será nova e mais rica de informações de preparação para visão do Lençol que, entre outras coisas esta conterá uma área de pré-leitura e proporá imagens inéditas de altíssima resolução. Para visitar o Sudário é necessário fazer reservas dirigindo-se a um call Center telefônico (numero gratuito 008000SINDONE ou 0114399901 para quem liga de celular). Nos dias da exposição será também colocado a disposição um serviço de reserva “imediata” (para visitas em jornada) em um centro de acolhimento montado na Praça Castello, nas vizinhanças do Duomo. Uma atenção máxima será reservada para as exigências de pessoas doentes, com deficiência, religiosos e peregrinos diocesanos. A exposição do Santo Sudário será acompanhada por iniciativas eclesiais e culturais, encontros que nos próximos meses serão definidos pela comissão organizadora. Durante a exposição, domingo 2 de maio, o Santo Padre Bento XVI estará em Turim e celebrará a Missa em Praça São Carlos.

JORNADA DAS VOCAÇÕES Em 25 de abril de 2010 – IV DOMINGO DE PASQUA – foi celebrada a jornada das vocações. Como de costume, o Santo Padre confiou uma mensagem, da qual reportamos alguns trechos.

l Tema: O testemunho suscita vocações. (...) Já no Antigo Testamento os profetas eram conscientes de serem chamados com a própria existência a testemunhar o que anunciavam, prontos para enfrentar até mesmo a incompreensão, a rejeição, a perseguição. A missão confiada a eles por Deus os envolvia completamente, como um “fogo ardente” no coração, que não se pode conter (cf. Jr 20,9), e por isso eram dispostos a entregar ao Senhor não somente a voz, mas todo elemento da própria existência. Na plenitude dos tempos, será Jesus, o enviado do Pai (cf. Jo 5,36), que testemunhará com sua missão o amor de Deus por todos os homens, sem distinção, com particular atenção aos últimos, aos pecadores, aos marginalizados e aos pobres. Ele é a suma testemunha de Deus e do seu desejo pela salvação de todos. No alvorecer dos novos tempos, João Batista, com uma vida inteiramente consumida em preparar a estrada para Cristo, testemunho que no Filho de Maria de Nazaré se realizam as promessas de Deus. Quando o E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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vê vindo ao rio Jordão, onde estava batizando, o indica aos seus discípulos como o “cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). O seu testemunho é tão fecundo que dois dos seus discípulos “ouvindo-o falar assim, seguiram Jesus” (Jo 1,37). (...) Elemento fundamental e reconhecível de qualquer vocação sacerdotal e à consagração é a amizade com Cristo. Jesus vivia em constante união com o Pai e é isto que suscitava nos discípulos o desejo de viver a mesma experiência, aprendendo d’Ele a comunhão e o diálogo incessante com Deus. Se o sacerdote é o “homem de Deus”, que pertence a Deus e que ajuda a conhecê-lo e a amá-lo, não pode deixar de cultivar uma profunda intimidade com Ele, permanecer no seu amor, dando espaço para a escuta da sua Palavra. A oração é o primeiro testemunho que suscita vocações. Como o apóstolo Andréia, que comunica ao irmão que conheceu o Mestre, do mesmo modo quem deseja ser discípulo e testemunha de Cristo deve têlo “visto” pessoalmente, deve tê-lo conhecido, deve ter aprendido a amar-lo e estar com Ele. (...) Cada presbítero, cada consagrado e cada consagrada, fiel a própria vocação, transmitem a alegria de servir Cristo e convidam todos os cristãos a responder ao universal chamado à santidade. Portanto, para promover as vocações específicas ao ministério sacerdotal e à vida consagrada, para tornar mais forte e incisivo o anúncio vocacional, é indispensável o exemplo de todos que já afirmaram o próprio “sim” a Deus e ao projeto de vida que Ele possui para cada um. O testemunho pessoal, feito de escolhas existenciais e concretas, encorajará os jovens a tomar decisões que, a sua vez, geram compromissos, que investem no próprio futuro. Para ajudá-los é necessária a arte do encontro e do diálogo, capaz de iluminar e acompanhá-los, através daquele modelo de existência vivida como vocação. Bento XVI

Vida da CMIS Nos dias 18-21 de março, foi realizada a reunião do conselho executivo da conferência mundial, na sede de casa La Salle. A agenda dos trabalhos foi muito intensa... O presidente depois de um amplo relatório sobre o trabalho realizado, convidou os conselheiros para aprofundar alguns temas, como: A reforma dos Estatutos da CMIS; A preparação da próxima assembléia geral e a preparação de um congresso de estudo que o precederá; A criação de uma nova revista de aprofundamento; A atualização da página Web que está vendo a luz e a qual os conselheiros puderam ver a realização em pré-estréia. Sobre o tema dos Estatutos, foi realizado um encontro interessante com o Pe. Paciolla, subsecretário da congregação além de especialista em direito canônico que ofereceu contribuições de leitura da norma e das suas interpretações em relação ao caminho de organismos como a CMIS que ele definiu como organismos de comunhão e não de governo. Sobre o tema da criação de uma nova revista, a presidência da CMIS predispôs um aprofundamento do conselho executivo com alguns especialistas e professores, o qual resultou muito interessante, criando estímulos e perspectivas para continuar a ser líder no caminho de formação dos institutos.

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Sobre o capítulo congresso foi decidido dar vida a uma comissão organizadora que colaborará com Ewa Kusz e deverá definir nos detalhes o tema e o método de trabalho, recolhendo sugestões oferecidas pelos conselheiros. Em relação à assembléia, o conselho decidiu que será celebrada em Assis, local sugestivo e cheio de espiritualidade, será precedida pelo congresso. A data fixada é a de 23-29 de julho de 2012. Começamos a preparar-nos desde agora com a oração e com as reflexões sobre os temas que paulatinamente se apresentarão.

l Para aderir à CMIS Consideramos importante recordar algumas notícias relativas à adesão à CMIS por parte dos Institutos Seculares de direito diocesano e pontifício. Primeira adesão: Pedido escrito da/do responsável geral do Instituto com a aceitação dos Estatutos da CMIS (art. 3 dos Estatutos). Pagamento da quota de adesão (estabelecida pelo Conselho Executivo, cf. art. 15 dos Estatutos). Ao pedido devem ser anexos: Uma cópia do decreto de ereção do instituto por parte da autoridade competente (Bispo Diocesano ou Santa Sé). Uma breve apresentação do Instituto, indicando as coordenadas de referimento, a saber, a sede – a difusão – o número de membros – a composição do conselho – o nome e o endereço da pessoa à qual enviar a correspondência – endereço e-mail – página web – língua preferida para as comunicações. A data da última assembléia eletiva celebrada. O importo da quota a ser pago será indicado ao/à responsável geral depois do pedido de inscrição. Renovar a adesão: Pedido de renovação indicando o número de membros Pagamento da quota de adesão para o ano em curso. Não pagar a quota equivale a não aderir, salvo uma eventual dispensa por parte do Conselho Executivo.

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Vida dos Institutos l Figlie della Regina degli Apostoli (FRA) - Itália Sábado e domingo, 10-11 de abril de 2010, em três sedes diferentes na ITÁLIA, foram organizadas jornadas de orientação vocacional. O tema do encontro foi “ENCONTRAMOS O MESSIAS”, foi determinado pelo tema da jornada mundial das vocações de 2010. Cada jornada será seguida por um encontro de revisão temático em datas diversas, segundo a sede de referimento. As sedes dos três encontros são: Affi (Vr); Florença; Palermo.

l Oblatas Diocensanas – Argentina Mudança de Responsável. Buenos Aires, o Instituto secular das oblatas diocesanas, reunido em assembléia geral ordinária, renovou o próprio órgão de direção para o período a partir de fevereiro de 2010 a fevereiro de 2013. A responsável geral eleita foi Rosa Estela Giachetti, enquanto Matilde Germanovich foi eleita vice-responsável e encarregada pela formação. Como responsável pela missão foi eleita Margarita Carrizo e, como responsável pela administração e pobreza, foi eleito Maria Isabel Iannizzotto. A todas desejamos um fecundo mandato.

l Missionari della Regalità – Itália Organiza um Tempo de Busca, ou seja, uma proposta para quem deseja refletir sobre a própria vocação. Para tal fim, propõe um curso de orientação para uma escolha de vida. Em outras palavras, uma ocasião para conhecer uma particular forma de vida consagrada, na qual se é chamado a viver como leigos na própria família e no exercício do próprio trabalho, presentes com coração novo e espírito novo, em cada ambiente e nas situações mais diferentes da vida. O curso será realizado em três encontros, realizados em fins-de-semana: 1-3 de outubro de 2010 – o tema Uma proposta de vida Janeiro de 2011 – o Chamado Março de 2011 – as Bem-Aventuranças

l Oblatas Franciscanas – México Nos dias de 28 a 31 de março celebrou a assembléia geral.

l COMI . Itália No dia 12 de março CI. Retornou a Kinshasa, acompanhada. Com Antonietta e aas outras duas dali continuará a conduzir uma missão difícil, em um país cujas necessidades materiais e E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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espirituais dos mais pobres são sempre enormes. Em seguida, também Giovanni B., Auxiliar das COMI, partiu para Kinshasa. Andreina e Giovanni voltaram para Itália no fim de março. CALL

l Khristusa Króia – Polônia Apresenta uma pergunta aberta: “Vocês sabem que é possível servir a Deus como pessoa consagrada do mundo?” Se você está procurando compreender este modo de vida e gostaria de doar-se a Jesus permanecendo leigo consagrado, o convidamos ao encontro de ORAÇÃO durante o qual se rezará juntos para conhecer a vocação específica. Data da reunião: Início – 19 de junho de 2010 (sábado), 09h30min. Fim – 20 de junho de 2010 (Domingo), 13h00min. Local: Centro “Emmaus” Estarão presentes: Dr. Peter Walkiewicz e membros do Instituto Secular Khistusa Króla.

l Misioneras Apostolicas De La Caridad – Espanha Acompanhadas pela oração de tantas pessoas amigas, felizmente celebraram a própria assembléia eletiva no período de 21 a 28 de fevereiro de 2010. Foi eleita Mercedes Morantinos Torres, depois de um acurado trabalho e uma longa reflexão sobre o carisma e a vida do Instituto Secular.

l Volontarie della carità – Itália Em vista da preparação para a próxima “assembléia”, sábado 17 de abril, foi realizado em S. Donà um encontro de zona do Instituto, ao interno da formação permanente programada para cada ano, com a participação de Voluntárias e Associados. “Naturalmente – comenta a vice-presidente do Instituto – este encontro teve uma direção particular: refletir sobre os problemas do Instituto. O encontro foi muito participado e intenso, com um tempo que nunca basta, muito alegre, como sempre quando se encontra em família”. De 31 de julho a 5 de agosto de 2010 em Camposampiero, na província de Pádua, se realizará a Assembléia Geral eletiva do Instituto Secular Volontarie della Carità. Terá como tema: “Redescobri as próprias raízes para responder aos desafios do homem de hoje”. Será precedida pelo curso anual de exercícios espirituais reservados aos membros do Instituto, associados e voluntários.

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l Missionarie della regalità – Itália O Instituto vive este ano um momento particular com a Assembléia das duas Zonas, Itália e USA, e com a Assembléia Geral que se realizará em Verna de 21 a 27 de agosto. É um evento que na vida do Instituto verifica-se somente uma vez a cada vinte anos, quando coincidem o fim dos diversos mandados das Zonas (4 anos) e do Conselho Central (5 anos). Consideramos este um evento de graça extraordinário porque a maior parte das Missionárias do Instituto se envolvem juntas na projetação do futuro. A Assembléia é, de fato, o momento mais significativo da verificação e da projetação no interior da comunidade fraterna à luz do carisma do Instituto. É a Palavra de Deus que nos acompanha e ainda uma vez nos leva a colher os desafios da história, do mundo e da Igreja de hoje, abrindo o coração à missão e repensando a estrutura e a vida do Instituto à luz das Palavras do Senhor: “Duc in altrum”. Será o tema da Missão, coração do nosso carisma, que unificará os caminhos da assembléia e nos guiará na novidade do Espírito, conscientes que o carisma não é um fóssil, mas um organismo vivo, capaz sempre de novos e criativos desenvolvimentos.

l Oblatos diocesanos – Argentina Nos dias 5-6 de junho, no centro Padre Elizalde, na cidade de Resistencia, o Instituto promove um encontro de formação para novos membros.

l Sacerdoti Missionari della Regalità – Itália A comissão Formação Permanente apresenta alguns materiais de lavoro sobre “a virtude da fé nas relações de vida do sacerdote”, que podem ser utilizadas nos encontros mensais de grupo de 2010. Sobre os seguintes temas: 1)

“Fé sem esperança: padre angustiado?”

2)

“Vida sem fé: padre funcionário?”

3)

“Fé sem vida: padre intimista?”

4)

“Palavra sem fé: padre speaker?”

5)

“Fé sem profecia: padre míope”

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“Fé sem risco: padre solitário?”

Como é possível deduzir dos títulos, os textos são muito estimulantes porque iniciam com uma pergunta que toca a realidade concreta do padre e o convida a interrogar-se sobre o seu serviço ministerial, sobre suas escolhas pastorais, sobre a linguagem da comunicação da fé, sobre sua relação com o mundo e com a história.

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l CIIS – Conferência Italiana Institutos Seculares Será realizada em Sassone (Roma) a assembléia geral eletiva nos dias 8 e 9 de maio, sobre o tema “NÓS CIDADÃOS DO MUNDO Inculturação-Discernimento-Formação”. Será prevista, pela manhã do dia 8, uma palestra de Giorgio Mazzola, com o título: “Com o mundo no coração, o caminho dos Institutos Seculares”.

l Curso de Formadores Nos dias 4-6 de junho o Instituto de Maria Bambina realiza um curso para formadores com o tema: “o formador acompanha para acolher, viver e reavivar o dom do chamado”.

l KKIS – Conferência polonesa dos Institutos Seculares Foi realizado em Czerna em 27/04/2010 a reunião do Conselho Executivo. Foram programados: Curso para formadores – com a duração de 2 anos, realizar-se-á em 4 fins-de-semana. Serão privilegiados temas da formação humana. Um Simpósio para o outono de 2011 sobre o tema da secularidade. Partindo da espiritualidade da encarnação. Cuidar de um Database de psicólogos que possam ser úteis aos institutos seculares para diagnoses e terapias, ou até mesmo formativos. Tentar obter da parte da Conferência Episcopal Polonesa, especialmente ao conselho para leigos e para pastoral.

l COMIS – Conferência Mexicana dos Institutos Seculares Comunicamos que na última assembléia da COMIS também Maricela Zarate passou a fazer parte do novo conselho juntamente a Cristina Ventura, vice-presidente – Laura de Leon, secretária – Irma de la Garza Quintanilla – Ana Maria Maria Quiles – Yolanda Escobar.

TESTEMUNHOS Viagem missionária a Roraima Ultimamente o Estado brasileiro de Roraima fez falar muito de sé nos jornais e nos meios de comunicação por ocasião do reconhecimento da Terra Indiana Raposa-Serra do Solda, por parte da Corte Suprema Federal. Um debate coligado a estas importantes questões, entre as quais a internacionalização da Amazônia – o pulmão verde da humanidade – a soberania nacional, o direito dos índios de viver em paz nos seus territórios ancestrais1. Tais discussões evidenciaram os conflitos existentes há muito tempo entre grandes produtores agrícolas e os E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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povos indianos, entre a ação política regional e a da igreja católica, que muitas vezes é criticada e até mesmo perseguida, porque defende os direitos de quem não possui voz: os índios, os pequenos produtores rurais e os trabalhadores das cidades. Roraima encontra-se no norte do Brasil, em plena floresta amazônica e é como um grande mosaico de culturas e de diversas etnias, formadas através de um processo histórico que teve no início do século XVIII. Hoje este território hospeda, além dos seus cidadãos autônomos, também muitos migrantes e filhos de migrantes provenientes de vários estados do Brasil, sobretudo das regiões do nordeste e do sul. Como um imenso mosaico é também a natureza que forma o cenário de Roraima: bosques, montanhas, florestas virgens, lagos e longos cursos d’água como o imponente Rio Branco, rio das águas que atravessa todo o Estado para tornar-se um dos principais afluentes do Rio Negro. Esta grande festa das diversidades, que a fauna e a flora nos apresentam, muitas vezes, é sufocada por interesses individuais e egoístas, que chegam não somente a ferir o ambiente, mas também a negar aos seres humanos em sua originalidade, cultura e, até mesmo, na sua própria existência. Às vezes é mais fácil acolher e admirar a variedade da natureza que acolher e admirar a diversidade do homem. Também eu sou originária de Roraima do qual parti há mais ou menos oitos anos para seguir minha vocação como missionária secular scalabriniana. Neste período pude realizar em minha vida alguns passos de êxodo, caminhando, migrante com os migrantes, no seguimento de Jesus na vida consagrada, com os votos de pobreza, castidade e obediência, que pronunciei em 2005, em Solothurn, em Suíça. Naquele dia recebi o meu primeiro convite missionário, que hoje mi chama a viver em São Paulo, no Centro Internacional de Formação para jovens Scalabrini. No Centro Internacional partilhamos a sede e a busca dos jovens, que possuem tantos recursos e expectativas, mas que, muitas vezes, são oprimidos pela difícil busca de um trabalho e desorientados pelo movimento frenético e fragmentados da cidade. Como em um laboratório, tentamos viver o acolhimento das diversidades, partindo da experiência que antes de tudo é Deus a acolher e amar cada um de nós, doando sentido à nossa existência. Nestes anos pude eu tive a oportunidade de encontrar imigrantes e refugiados na Casa do Migrante dos missionários Scalabrianiani, e também através do serviço de um curso de português. E outra ocasião para viver a colaboração com os missionários foi a presença do instituto Cristoforo Colombo, onde ensinei religião para as crianças que estavam naquela casa, os quais provinham de famílias em dificuldades de bairros pobres. Estes jovens traziam consigo tantas feridas e sofrimentos, mas são cheios de vida e de desejo de amor. É um grande dom e uma grande responsabilidade poder cultivar neles a confiança e a esperança em Deus e nos outros para que possam construir o próprio futuro. Depois do diploma em Língua Portuguesa, iniciei, há dois anos, um máster no campo das comunicações sociais. A tese a qual estou trabalhando intitula-se: “Os povos indígenas no discurso dos meios de comunicação social” e prende em consideração a difícil realidade dos índios de Roraima. Desde o tempo da colonização até hoje eles permaneceram homens sem E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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voz e sem direto à terra. O ponto de vista deles não tem espaço na comunicação, o que conhecemos deles nos vem transmitido por outros: pelos políticos, pelos grandes latifundiários e pelos mass-media. É uma condição que é própria também de outras minorias que levam consigo diversidades, entre as quais os imigrantes, cuja imagem é muitas vezes construída pelos meios de comunicação em base a interesses políticos e econômicos. A região amazônica, onde nasci e cresci, e a megalópole de São Paulo, onde fui enviada como missionária, são dois contextos muitos diferentes, mas ambos atravessados por realidades contrastantes e dolorosas. Realidades que pedem respostas coerentes com a fé cristã: a opção a favos dos menos favorecidos e de quem não possui diretos, a verdade de viver o evangelho nas situações de injustiça social e a escolha da fraternidade com todos. Seguir a própria vocação de consagração a Deus não significa distanciar-se da realidade histórica ou tornar-se indiferentes, mas significa deixar que o protagonista da minha e nossa estória seja o próprio Deus Pai. Ele deseja realizar, também através de nós, o seu reino de justiça e de paz. Aderindo ao seu projeto de amor, posso entregar a Ele a minha vida. O meu povo, toda a humanidade, e as situações de injustiça que necessitam de uma resposta evangélica radical. A oferta total de mim mesma e do mundo a Ele abre a possibilidade de participar do indomável movimento de amor que recebemos a cada dia na Eucaristia, um movimento de transformação que pode penetrar em todos os lugares e dar uma nova luz às ações e aos acontecimentos de cada dia. Durante estes anos de caminho missionário, pude contemplar muitos sinais da presença de Deus. Um destes foi a viagem que, juntamente a outros quatro missionários, realizei recentemente em Roraima, por ocasião de um grande congresso juvenil organizado pela diocese. Na espiritualidade do êxodo, partilhando a experiência viva dos migrantes, nunca se retorna ao próprio lugar de origem como era antes. E é exatamente isto o que vivi. A minha viagem em casa não era mais um fato individual, mas um convite comunitário. E também o acolhimento da minha família e da igreja local alargou-se a toda minha comunidade: uma expressão do grande amor de Deus que nos une, além das origens de sangue e culturas, para que nos tornemos a sua família divina na diversidade de nossos dons. Encontramos uma igreja viva, jovem e ativa, que, mesmo com os desafios e as contradições, caminha testemunhando uma dimensão missionária a 360°, seja na capital que nas pequenas cidades dispersas no vastíssimo território de Roraima. Também isto é fruto da presença de Deus que conduz a história do seu povo: a diocese acolheu numerosos missionários proveniente de diversas partes do mundo e do Brasil, disponíveis para colaborar com a igreja local. A minha visita em Roraima me fez recordar um encontro tido há alguns anos com o bispo da diocese, Dom Roque Paloschi, que mi marcou profundamente. Enquanto o bispo me falava sobre os missionários que estavam presentes na diocese e do trabalho que estavam realizando, acrescentou: “Filha, a nossa terra já acolheu muitos missionários e missionárias que deram e continuam a dar a vida pelo reino de Deus. Você é nossa pequena resposta que afirma que dar da nossa pobreza. Siga a estrada que Deus indicou, a qual chamou você. Mas lembre-se sempre de buscar a santidade, é isto o que Deus deseja de nós”.

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Acolhi estas sábias palavras como um verdadeiro e próprio ínvio missionário, com a mesma alegria profunda que me tinha feito deixar Roraima para caminhar, não somente com o meu povo, mas com todos os povos e, com o coração universal, acolher a dor e as esperanças do mundo na certeza que é Ele, Jesus Cristo, o Senhor da história de cada homem. Ele é mais do que nunca presente com o seu Santo Espírito, amor criativo de Deus, que deseja formar de todos os povos uma única família, unidade na diversidade, e pede a nossa disponibilidade a cada dia. Elisangela De: Sulle strade dell’esodo, n. 1 –

l O peso das parolas Recolhemos em Basilea o testemunho de uma amiga suíça, Anne Claire, que trabalha como voluntária no Serviço pastoral ecumênico para os pedidos onde estejam presentes também nós missionárias. Com simplicidade contou-nos o que aconteceu durante um encontro informativo, organizado pelas autoridades cidadãs, no seu bairro. A população da zona foi convidada para receber informações sobre a abertura de um novo centro de acolhimento para estrangeiros que pediram asilo político na Suíça. Cheguei um pouco atrasada, com o debate já iniciado. Algumas vozes estavam criticando a hipótese de abrir em nosso bairro um novo Centro para os pedintes de asilo, muito vizinho a um pré-existente. Depois destes comentários, criou-se logo um clima de hostilidade contra os refugiados: as observações das autoridades cidadãs reforçavam-se e encorajavam-se mutuamente. Os representantes das autoridades cidadãs, assim como os responsáveis pela polícia, tomaram o tempo para explicar com calma, tato e muita paciência porque era necessária outra estrutura de acolhimento em nosso bairro. No entanto, era necessária uma maior clareza: alguns interpretavam erroneamente a proposta das autoridades para utilizar guardas de segurança privadas (“Securitas”) para controlar o redor das duas casas como prova do perigo representado pelos refugiados. A argumentação das autoridades desenvolvia-se ao invés ao redor do objetivo de “tranqüilizar a população e diminuir o medo”! A atmosfera na sala parecia desenvolver-se de maneira muito desagradável e contrária aos pedintes de asilo, até que uma pessoa – também ela um pouco ansiosa e preocupada – conseguiu apresentar-se e dirigir-se aos participantes perguntando a eles quem já tivesse passado concretamente por experiências concretas negativas com os refugiados e de que gênero tinham sido. A parte do público contrária ao Centro, inicialmente muito rumorosa, reduziu-se no final a duas pessoas: uma senhora que se lamentava pelo “mal-estar de já ter recebido pedidos de casamento por parte de refugiados, passando diante da casa deles”. Outra defendia que tinha sido “incomodada pelo rumor de uma família de pedintes de asilo que moravam perto dela”. Mas, pouco a pouco, também as vozes que contavam encontros serenos com pessoas estrangeiras se fizeram forte, partilhas enriquecedoras e, às vezes, até mesmo amizades! Outros se declaravam curiosos em saber “como entrar em contato com E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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pedintes de asilo” e “como fazer para conhecê-los”. Alguns lançaram a idéia de organizar algo juntamente com eles por ocasião da tradicional festa de bairro no outono. A mesma pessoa que tinha perguntado o que concretamente se deveria temer dos refugiados propôs um novo encontro da população com as autoridades e a polícia alguns meses depois da abertura da casa de acolhimento: uma ocasião para fazer um julgamento e para constatar que a convivência não é tão terrível como se tinha temido e para tentar resolver juntos eventuais problemas. A idéia foi aprovada por todos e o encontro terminou com uma atmosfera muito mais aberta e agradável daquela inicial. As vozes fortes e agressivas do início não se ouviam mais: paulatinamente se silenciaram, talvez percebendo que não tinha a maioria da própria parte. Foi uma experiência forte, a saber, ver o peso que podem ter palavras e testemunhos positivos contra o medo, a xenofobia e a agressividade que deriva de tudo isto. Certamente esta influência positiva depende de cada um e exorta cada voz a manifestar-se! É ali, no início, quando a agressividade é ainda no estado das palavras, que se pode (e se deve) intervir; depois se torna muito difícil e muitas vezes até perigoso. Devemos esperar que entre a população local e os pedintes de asilo nasçam possibilidades e ocasiões para verdadeiros encontros: serão estes, tenho certeza, que ajudarão a diminuir os medos. Por Felicina 1 Para aprofundar o tema do processo de reconhecimento da terra indígena Raposa-Serra do Sol, conf.: www.socioambiental.org/ins/raposa; www.survival.it/notizie/4357

De: Sulle strade dell’esodo n° 4, dezembro de 2009.

l Tocarei a harpa de dez cordas Tocarei a harpa de dez cordas depois de dez, vinte, trinta anos ou mais de consagração! É importante descobrir a nossa alma canora como consagradas: cada consagrado canta, toca e dança, agradece o Senhor pelos anos de vida, descobre a cada dia o dom da vocação, um grande dom. Todos os nossos anos, todos os eventos devem novamente ressoar como uns cantos de louvor mesmo se existem algumas cordas desafinadas, os pequenos e os grandes desprazeres, as provas, as desilusões, que com a graça de Deus podemos afinar. Elas não devem nos atolar, não devem fazer com que percamos a alegria. Muitas vezes, ao invés, com o passar dos anos encontramo-nos a louvar a Deus exatamente por estas coisas e não por outras que para nós são difíceis, nos empobrecem. Da leitura quotidiana da Palavra de Deus sabemos bem que a verdadeira postura bíblica é a alegria, a exultação: uma postura profunda, autêntica como a de nosso pai e mestre D. Bosco. Onde podemos colher esta alegria, certamente não de nós mesmos, mas da fé em Deus que nos doa na oração paciente e vigilante. Esta alegria é o segredo profundo da vida consagrada, é o sinal que nossa relação com Deus, com as mediações no Instituto e com o próximo é correta. Certamente o canto no início de nosso caminho de consagração é fácil, mas paulatinamente o fôlego para cantar se torna pouco e devemos pedir ao Senhor a mesma graça que fez cantar Maria com entusiasmo, seja no nascimento de Jesus quando Simeão E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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profetizou-lhe a espada, seja quando Jesus foi embora de casa, seja quanto estava sob a cruz. Exatamente por esta graça Maria nunca perdeu a convicção do seu primeiro “sim” e nunca pensou que tinha errado quando não conseguia compreender a vontade do Pai. Maria deve ser o nosso modelo sempre: devemos olhar para ele para colher a força e a coragem e para aprender a fé e humildade da oração. O Pai deseja que todo o nosso ser vibre por Ele no canto e na alegria e nos espera sempre, como aquele pai esperava o filho que se tinha distanciado e nos acolhe e nos ajuda sempre. A nossa alegria, recomendada por D. Bosco, se fundamenta neste amor proveniente do Pai e na consciência que Cristo, que nós seguimos, cantou antes da Paixão, venceu o pecado e a morte abandonando-se ao Pai. Certamente ao canto do Salmo 118 acrescentou-se a angústia que se transformada em um grito: “Passe longe de mim este cálice, mas não como quero eu, mas como queres tu!” (Mt 26,39). É sempre a mesma alma de Jesus que canta. O que pode amedrontar-nos e enfraquecer nosso canto de louvor ao Senhor?Deus prepara minhas mãos para a batalha (cf. Sal 144) da fé, do sacrifício, da dedicação; nada ofuscará a alegria do canto se o Senhor é comigo! Esta alegria que nos é dada pela confiança no Senhor não é somente um bem nosso, que nos faz superar as dificuldades, as provas com serenidade, mas é também a nossa missão. Aqueles que vivem ao nosso redor, nossa família, nossos colegas, nossas irmãs do Grupo esperam algo de nós; podemos ajudá-los, sobretudo com o testemunho da serenidade da alma bíblica, ou podemos desiludi-los com nossa desconfiança, com o nosso mau humor. Especialmente neste mundo onde reina a luta, a violência, a incredulidade e a indiferença, nós consagradas devemos tocar todas as cordas da harpa para dar esperança que vem de DEUS. No Grupo, para quem possui qualquer ano a mais, é exatamente o testemunho de serenidade, de alegria mesmo com os achaques e as dificuldades, o testemunho da segurança que nos sentimos no lugar justo, aquele que deseja o Senhor para nosso bem e para o dos outros, dá esperança às irmãs, especialmente às mais jovens que encontram as primeiras dificuldades nesta aventura maravilhosa. Não censuremos o canto entusiástico delas, mas nos devemos unir ao seu agradecimento ao Senhor pelo dom da vocação, vivendo-o cada dia com a mesma maravilha que Maria exprime no Magnificat pelas grandes coisas que Deus realiza em nós cada dia. Seremos assim fiéis ao nosso “sim” e ajudaremos as irmãs a viver com fidelidade o próprio “sim” e certamente o nosso canto fará aproximar outros jovens que desejarão descobrir a fonte desta alegria e colhê-la. Dora De: Crescere n. 2, Abri de 2010.

l Carta da Serra Leão Enquanto ainda esta em Serra Leão, no ano passado, Renato escreveu esta carta para a quaresma. Dado o quadro a tintas vivíssimas que apresenta e que é ainda tragicamente atual, os seus primeiros votos de boa quaresma valem certamente ainda para este ano. E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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Caros/as Amigos/as, Quando pela manhã vou ao trabalho, dez minutos a pé, devo atravessar um pedaço desta periferia, são casas simples com teto em lameira zincadas, tijolos de argila, recobertas com um pouco de cimento; dois, três pequenos locais no interior, 2x3 metros, 3x4 metros, não mais do que isso. Privacy Realmente, a vida se desenvolve na estrada, pela manhã quando saio, 07h30min, alguém está indo para os campos, outros se estão lavando, isto é, puxando água do poço, depois a colocam dentro dos baldes, as crianças se lavam assim, como a natura os fez, nenhuma vergonha, pelo contrário, saúdam contentes com manchas de sabão espalhadas no corpo; os outros/outras cujos físicos são já consolidadas, ou vão para construções separadas, meio chuveiro e meio banheiro, com um balde, outros cobrindo com uma grande toalha as partes estratégicas e com vários contorcionismos se lavam onde estão. E, como sempre inacreditável, das pequenas casas saem pessoas bem vestidas, limpas, belos jovens. Emprestam-se pedaços de carvão já vermelhos para facilitar o acendimento de um fogareiro, no qual aquecem um tipo de porridge ante de ir para escola ou para o trabalho. Ma Europa se fala de privacy, mas aqui a vida é na estrada, natural a exposição até mesmo dos corpos. Cada família é o que é, não pode esconder nada, não existe modo de estar da parte. As casas são pequenas e não adaptas para proteger do calor, o alimento se prepara do lado de fora, nos fogareiros, no sábado o cuidado corporal é mais prolongado. Às vezes eu fico envergonhado ao atravessar fisicamente a vida deles, parece-me uma violação da privacy deles, mas eu estou na estrada e a vida deles é na estrada. Até certo nível de riqueza. Creio que entre famílias da mesma condição, exista também certa obrigação de não fechar-se; seria um romper com os vizinhos, porém quanto mais se avança na vida social menos se possui vida pública. As casas se circundam de muros e depois de aramefarpado. Escondem-se. Nos bairros ricos de muitas cidades africanas se deveriam falar de fortes muitos mais do que de casas, às vezes são inteiros bairros fortificados com o acesso muito regulamentado e submetido às autorizações. Quando o nível de vida é escandalosamente diferente se deve proteger; vive-se na mesma cidade, em casas e bairros fortificados; se a diferença é escandalosamente diferente entre as nações se fecham as fronteiras. Claudicando? Não. Somente uma sandália. Quando caminho, busco observar a realidade e observar como me olham, já faço parte da paisagem, mas sou sempre um que está melhor do que outros, branco. Um dia encontro uma jovenzinha que, vista de longe, mancava, um vestidinho azul bordado de vermelho que deveria ser elegante, agora é somente pouco limpo, alguns buracos aqui e ali, cobria com dificuldade os joelhos, na cabeça uma panelinha com tampa; como mancava, devia manter com uma mão a panelinha, o vestido era levantado de uma parte, possuía um olhar triste, vejo que observa com insistência os meus pés, meus sapatos para passear no verão, quéchua, no estilho antigos romanos, compradas em Decatlon, Praça Castello, Milão. Então, também abaixo o olhar aos seus pés, não mancava, mas calçava somente em um pé uma velha E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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alpercata que se arrasta em meio ao pó; poderia caminhar com os pés descalços, seria melhor, mas talvez esta única sandalhinha seja para ela importante, é uma riqueza. Sorri e saudei-a, tenho vergonha por minhas quéchuas (já gastas); mas... as palavras muitas vezes não servem, registro dentro de mim este pequeno fato. Gostaríamos de preparar um encontro cultural para quem acaba de chegar, mas que serve se alguém não tem os olhos para ver. Desnutrição? Bem vestida, celular, bela, bolsa de certo valor, olhar seguro de sé um pouco arrogante, maquiada com atenção, 20 anos? Criança desnutrida, mal vestida em braço. Acontece, e não é um caso único, que temos que tomar conta de crianças acompanhadas por pessoas bem vestidas, com um mínimo de entradas. Um celular custa pelo menos 50 dólares e com estes se come por muito tempo aqui. O pai? A avó? As tias? A famosa família alargada africana onde está? Não tem razão neste País, nem para as famílias nem para as comunidades locais, nem para o governo que neste País exista a desnutrição. As guerras, a entrada dos modelos de vida europeus, uma sociedade em transição provocam também estas absurdidades; nós tomamos cuidados gratuitamente e temos a impressão, às vezes, de sermos um incômodo modo de escapar dos genitores, jovens mulheres, inteiras famílias, que estão perdendo algumas prioridades. Pelo momento começamos a renovar um pavilhão de 36 metros, onde cuidamos das crianças desnutridas seriamente, com algumas complicações médicas, pelo momento é uma estrutura semi-permanente e a transformaremos em permanente. É necessário terminar antes de maio quando começam as chuvas e, segundo o calendário, se atinge o máximo de desnutridos. E dizem que na África não são pontuais. Natal de 2008, nômades O meu Natal foi um pouco movimentado, alguns dias antes, no País confinante de Guines Conakry, aconteceu um golpe de estado. Morto o Presidente a vida, os militares tomaram o poder, algumas confusões e Médicos sem fronteiras (MSF) que evacuaram as famílias. A minha S. Missa de Natal, que aqui dura três horas, foi interrompida duas vezes por telefonemas feitas e recebidas saindo da Igreja, para seguir a viagem e a passagem na fronteira de 12 pessoas. Um grande alívio quando no final estavam fora do país; no final o bom Jesus terá desculpado a minha falta de educação, terá compreendido porque também ele nasceu fora de casa e, muito cedo, teve que fugir para o exterior. Febre amarela, 191.000 vacinações em 5 dias Alguns dias antes do Natal foi evidenciado, com certeza, que pelo menos uma pessoa era morta de febre amarela. Segundo as regras internacionais é suficiente o seguro acertamento de um decesso para fazer partir a obrigação de uma vacinação de massa, neste caso em meio milhão de pessoas.

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Entre controles, reenvio, dúvidas, problemas organizativos, atrasos aéreos, bloqueio na fronteira de um caminhão proveniente de Burkina Faso, discussões com a ASL, o Ministério da Sanidade com uma cadeia de frio encontrada no local, com muitos meios encontrados ou comparados no lugar, carros alugados, em cinco dias, MSF vacinou a sua parte de 191.000 pessoas. Sim, centro e noventa e um mil! No domingo pela manhã, dia da vacinação, encontro uma mãe com três crianças orgulhosos que me mostram o folhinho amarelo de comprovação da vacinação e agradecem; na saída da S. Missa, uma anciã desconhecida agradece, outro senhor agradece, não faz receber agradecimentos. Também desta vez, e não é a primeira, a feliz surpresa de constatar como nossos amigos de pele negra, sobre os quais existem tantos preconceitos, nestas situações mudam decididamente velocidade e fazem coisas que parecem impossíveis antes, e tudo com competência. Foi também uma belíssima e cansativa experiência comunitária de todo o pessoal; cada um em sua parte e fora de sua parte trabalhou muito. Às seis da manhã era necessário preparar os 35 times que deveriam descer em campo com as vacinas, diluentes em Box térmicos, seringas, desinfetantes, algodão, vacinas e fichas de registrarão, carimbos e registros. Às 6 da manhã todos estavam ali em uma corrente de montagem para fazer partir caminhonetes, caminhões com tudo o que servia para a jornada. Um pouco de fôlego e novamente em caminho, queimar com uma regular procedimento os restos dos dias anteriores, depois preencher os freezer e preparar os blocos de gelo para o dia seguinte, assegurando-se que os geradores elétricos e toda a corrente de frio fosse eficiente, com o perigo de tornar algumas vacinas inativas e somente supor de proteger as pessoas. A Água Este um País com três mil milímetros de chuvas ao ano, todos na estação das chuvas; é uma enorme quantidade: Milão tem somente 1200 milímetros ao ano; no subsolo existe água, mas depois de três meses de seca alguns poços, pouco profundos, começa a faltar a faltar a água e as filas se alongam onde existe ainda água. Os poços são cyber café locais, os mais velozes são aqueles onde são instaladas pompas a mão, os mais lentos são aqueles que possuem somente um balde com uma simples corda amarrada, com uma abertura que não protege que a água se suje. Quanto mais são mal feitos, mais as pessoas têm tempo para falar, socializar. Pensar positivo. Mas se todo o exotismo, o tradicional modo de viver, terminasse e todos tivessem a água em casa, seria melhor. E aqui, debaixo da terra, a água tem sempre, na estação das chuvas a água é acima do terreno e muitos terrenos se tornam pântanos, não existem colheitas e chegam os desnutridos. Se usassem abundantemente a pompa dando água a todos, os pântanos não se formariam, a água estaria debaixo da terra, etc. Na cidade existem pontos de água onde a fila existe de dia e de noite, talvez também a torneira seja inútil, tanto deve estar sempre aberto. Tempo de balança, de números Todos os anos este é um tempo de balanço para a sede central, para os doadores que E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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querem saber como gastamos o dinheiro; neste momento se encontra aqui Carlo Ciavoni, jornalista do “Venerdì” de República, enviado/convidado por MSF Itália. É tempo de horas ao computador, mas é também hora de olhar para trás e ver se me cansei por algo ou não. Eu estou em contato com os doentes; infelizmente os números não substituem a proximidade física, mas ajudam; eis alguns exemplos: 418.000 consultas, 18.000 a mais do que 2007, nos primeiros dois meses de 2009 estamos a 35.000 ao mês, mas são os meses mais calmos. 182.000 casos de doença tratados por voluntários locais instruídos e formados para seguir a malária; repete-se aqui, com poucas variações, o que já foi experimentado em Ciad. A malária é “the first killer”, a primeira causa de mortalidade para vencê-la é importante, estar o mais vizinho possível aos doentes, sem barreiras de distância, gastos, ignorâncias e medos. 7-000 admissões em pediatria, 200 leitos sempre ocupados no h0ospital, 9.000 transfusões, mesmo com as consolidadas e antigas resistências e rejeições. O 40% dos partos que seguimos são perigosos, deveriam ser feitos em sala operatória, chegam tarde, no limite da sobrevivência. Temos um time de quatro pessoas dedicadas a estatísticas, no início parecia-me uma exageração, mas depois compreendi a utilidade; por exemplo, compreender de quais estruturas de base chegam os casos mais complicados permite descobrir porque ali e não em outro lugar não exista uma adequada resposta ou permite de descobrir se existe uma negligência de base. Os números servem. Se nas fichas de consulta se conta quantas vacinações são regularmente deitas pelo Governo, se descobre assim como no nosso caso, que existem buracos nas vacinações das crianças com relativas conseqüências. Em pouco tempo, com estatísticas à mão, gentilmente, mas claramente se alçará o problema como se diz, nas oportunas sedes, Governo, UNICEF, OMS e se não existem reações MSF fará algo no lugar de quem deveria; muitas vezes a única ameaça ativa novamente os mecanismos e elimina as preguiças, as inconsciências, as ... corrupções. A estatística sobre a taxa de mortalidade média da população vai avante por três anos e na zona onde operamos a situação é decididamente melhorada, muito diferente do resto do País. Rezar Na casa, que confina com a nossa, existe uma pobre família, a mais pobre, a mais mísera casa ao redor, situada em cima de um pequeno relevo; saio de manhã e olho para cima e está o pai de família, sentado com penas cruzadas em uma esteira, cabeça coberta, veste um longo e velho hábito velho, com o Corão na mão, o rosário entre os dedos, dobra o corpo em direção de Meca, que neste caso e o muro de nossa casa. Todas as manhãs, enquanto os seus quatro filhos, 2-10 anos mal vestidos jogam ao redor, se lavam, enquanto a mulher prepara o fogo ou remexe algo em uma panela, ele reza sem presta atenção ao que o circunda, com um seu ritmo interno, é li, é em outro lugar. Olho para ele e penso a minha oração, normalmente à parte, não pública, confusa que não consegue separar-se da realidade e concentrar-se no Único; nunca consigo separar-me, entregar-me; a minha oração é sempre um tipo de negociação, regular-me com o tempo, com o que tenho que fazer, uma continuada intercessão de pensamentos, entre o lido na E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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Palavra, sugerido por um comento, e as sugestões pessoais, as incumbências, as tarefas, os rancores, as paixões... Oração pública, Islã, Cristãos Aqui como em Ciad é normal ver pessoas que rezam em público também durante o trabalho, onde estão, às vezes olhando para Leste se encontram a rezar com a garagem diante, ou a um muro, não importa, rezam em público, nas horas previstas onde se encontram. Recordo-me o passeio cheio de pessoas ajoelhadas na Rua Jenner com o tráfico da circonvallazione milanesa em meio metro. Mateus 6, 1-15: “e quando rezarem não façam como os hipócritas os quais tem prazer em rezar em pé nas sinagogas ou nos ângulos das praças para serem vistos pelos homens... mas tu quando rezares entra em teu quarto, fecha a porta e reza teu Pai que é no segredo...”. Dois versículos depois desta norma sobre como rezar, Jesus confia aos apóstolos o Pai Nosso que o esquema obrigatório de cada oração. Não creio que sejam hipócritas estas desconhecidas pessoas ou colegas de trabalho que vejo rezar em público, pelo contrário, leva a uma reflexão sobre a total ausência de oração pública dos cristãos; recordo-me o esforço em AEM para reunir os cristãos pelo menos nos tempos fortes do ano litúrgico. São presenças secretas? Somente no próprio quarto? A cada tempo uma resposta adequada. Em três meses deverei estar em casa, depois de outro ano fora, distante de casa, outro ano que o Senhor me presenteia. Boa quaresma e, sobretudo Boa Páscoa. De: Comunicar – Partilhar n. 372, 2010.

SPIGOLANDO Quarta-feira, 24 de março de 2010, 30° aniversário do martírio de Mons. Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, nós o recordamos. Os pobres como local teológico. Bispo Romero, ajuda-nos a compreender que os pobres são o lugar teológico onde Deus se manifesta e a sarça que não se consuma da qual Ele nos fala. Homilia de D. Tonino Bello Caríssimos irmãos e irmãs, Estamos reunidos nesta estupenda Basílica dos Doze Apóstolos em Roma para celebrar não o exploit dos homens, mas o exploit de Deus. Recordar um mártir, de fato, significa individuar o ponto do qual a Palavra se enche tanto a ponto de causar uma cheia de sangue. Que é sempre o sangue de Cristo: o do mártir é como um sacramento. E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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Oscar Romero, portanto, é somente a fenda da diga. As inumeráveis testemunhas que deram a vida por Cristo e que agora recordamos nesta liturgia pascal, são somente a fenda da qual Deus da Aliança faz regar sobre a terra os rios de sua fidelidade. Ao Deus dos mártires, portanto, mais do que mártires de Deus, glória, honra e bênção. Se, porém, o sangue dos mártires é sacramento do sangue de Cristo, será lícito para nós hoje deter-nos em reverente contemplação diante deste sangue. Assim como em uma postura de adoração e contemplação nos deteremos daqui a pouco diante do cálice eucarístico do sangue de Cristo provocado, também este, pela Palavra. Que se torna assim densa e eficaz na celebração dos sacramentos, a serem realizado o que anuncia. Eis então o tema gerador da nossa reflexão: o martírio de Romero como fruto da Palavra. Iremos descompor o tema em três momentos, sublinhando como a Palavra de Deus que construiu no santo bispo salvadorenho a espiritualidade do êxodo, a espiritualidade do dedo apontado, a espiritualidade do servo sofredor. Espiritualidade do xodo xodo de onde? Do esconderijo de uma fé asseguradora, intimista, sem tremores. Quando li que a conversão espiritual de Romero aconteceu exatamente dez anos atrás, quando em março de 1977 quando foi assassinado, com outros dois companheiros de fé, padre Rutilio Grande (um padre que tinha escolhido agir pela redenção de um mundo marcado pela miséria e pelo sofrimento), me veio logo em mente um livro de Von Balthazar: “Cordula, ou seja, o caso sério”. Cordula era uma jovenzinha da qual se fala na lenda das onze mil virgens. Escapada da morte, como viu que todas as suas companheiras eram todas mortas por causa de Cristo, saiu do esconderijo no qual se tinha escondido por medo, e se ofereceu voluntariamente à espada do carnífice. E mesmo assim, Cordula (autêntica ou legendária a sua figura, não importa), parece-me o arquétipo de Romero. O qual, compreendamos bem, não é que fosse medroso, mas certamente era prudente. Era um professor da fé, não um confessor. Era um daqueles que percebiam nos documentos de Medelin e de Puebla um atentado à ortodoxia do Vaticano II. Não simpatizava certamente com a teologia da libertação. Eram tão suspeitoso em relação aqueles padres que tomavam o peso dos problemas de injustiça e de opressão vividos pelo seu povo, que a sua nomina a arcebispo de San Salvador em fevereiro de 1977 foi saudada com entusiasmo por todos os quadros do poder constituído. Um mês depois, o caminho de Damasco. Quando, sob as rajadas das armas caiu padre Rutilio, em última análise foi ele que caiu sob o impacto da Palavra de Deus e, como para Paulo, “improvisamente o envolveu uma luz do céu”. Talvez a determinar a sua passagem decidida da solidariedade com o poder à forte

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oposição foi próprio a telefonada do presidente Molina que, considerando de fazer-lhe uma coisa agradável, lhe anunciou em primeira mão o desfecho do assassinato de padre Rutilio. Os seus olhos e os seus ouvidos se abriram e intuiu toda a portada das palavras do xodo: “Observei a miséria do meu povo... ouvi o seu grito... e desci para liberá-lo”. Os três anos de luta que seguiram, até sua morte, foram ligados por estas ressonâncias bíblicas. Basta ler as suas homilias para perceber como, na raiz de sua mudança, esteja a Palavra de Deus e não a mania de quem se serve dos opressos para emergir e encontrar consensos. Daquele momento ele começou a viver não perigosamente, a ponto que se procurou a morte com sua insistência, mesmo se plena de tensões morais. Mas fielmente elaborando suas escolhas com os mesmos ritmos de Deus, fiel a Aliança que tem compaixão pelos seus pobres. É momento de terminar com as não generosas especulações que fazem de Romero um herói, mas não um mártir; que apresentam este homem como carregado pela ideologia, mas não pelo Espírito Santo; e que, das quatro virtudes cardeais, lhe acreditam somente a justiça, mas não a prudência, lhe reconhecem a fortaleza, mas não a temperança! Espiritualidade do dedo apontado Mas a Palavra de Deus, além da espiritualidade do xodo, construiu no santo bispo salvadorenho a espiritualidade que, recolhendo a inspiração de um apólogo, poderíamos chamar do dedo apontado. Foi o mesmo Romero a contar-lo, na homilia do funeral do padre Navarro, outro padre morto em maio de 1977: “Narra-se que uma caravana, guiada por um beduíno do deserto era desesperada pela sede e buscava água nas miragens do deserto. E a guia dizia a eles: Não ali, aqui. E assim várias vezes, até que um da Caravana, perdendo a calma, pegou uma pistola e atirou na guia que, agonizante, estendia ainda a mão para dizer: não ali, aqui. E assim morreu, indicando a estrada”. Existe neste apólogo a manifestação de uma consciência profética que em Romero tinha já tomado corpo e que, a cada dia, se tornava sempre mais clara. “Assim disse o Senhor: grita com toda voz, não tenha timidez. Como uma tromba, alça a voz. Declara ao meu povo os seus delitos, à casa de Jacó os seus pecados”. Romero percebeu que existem potências antitéticas à salvação proposta por Cristo e se opôs com resolução com as posturas típicas que marcam o estilo dos primeiros mártires cristãos: a parresia, a kauchesis e a esperança. Parresia é o estilo de quem, em pé, com a face alta, fala abertamente e co plena liberdade de linguagem do seu encontro com Deus, cuja Palavra se sente já irrevogavelmente consagrado. Kauchesis é o orgulho que alguém possui da cruz de Cristo. É o gloriar-se dele, de sua pessoa, de seu único senhorio, que se torna fundamento das próprias escolhas pessoais. Esperança é a postura de quem, enquanto se adensam as tribulações sobre sé, não deixa apagar o canto na própria boca. E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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Bastará ler as homilias de Romero para perceber como estas três dimensões deram fundamento a sua existência teológica. Falar com coragem e com face exposta revela, às suas costas, o “maior eu” ao qual se abandonou, mesmo se não faltam os tremores de medo. “É normal que nos tremam os joelhos – dizia muitas vezes – mas pelo menos que nos tremem no lugar onde devemos estar”. É parresia também isto. Em maio de 1979, durante sua permanência em Roma, veio próprio nesta igreja dos Santos Apóstolos e, na cripta onde se veneram as tumbas dos apóstolos Filipe e Tiago, pediu a Deus a coragem de morrer, se necessário, como morreram as testemunhas da fé. Um mês antes de sua morte, no caderno dos exercícios espirituais, escreveu: “O Núncio de Costa Rica mi colocou em guarda de um perigo iminente próprio nesta semana... As circunstâncias imprevistas serão enfrentadas com a graça de Deus. Jesus Cristo ajudou os mártires e, se será necessário, o sentirei muito próximo quando lhe entregarei o meu último respiro. Mas, mais do que o último instante de vida, conta dar a Ele toda a vida e viver para Ele... Aceito com fé a minha sorte, não importa quanto seja difícil. Quero dar-lhe uma intenção, como gostaria, para a paz do meu país e para o crescimento da nossa igreja... Porque o coração de Cristo saberá dar-lhe o destino que deseja. Basta, para mim, para ser feliz e confiante, saber com certeza que nele está a minha vida e a minha morte; que, não obstante os meus pecados, nele depositei minha confiança e não ficarei desiludido, e outros prosseguirão com mais sabedoria e santidade o trabalho pela igreja e pela pátria”. Esplêndido! É a kauchesis É o “nos autem gloriari opotet in cruce Domini nostri Jesu Christi!” E, por fim, a esperança: horizonte global desta espiritualidade que chamamos “do dedo apontado” e que leva o beduíno moribundo a indicar ainda, para caravana perdida, as estradas que deve percorrer. Talvez ano exista nenhuma palavra tão freqüente no vocabulário de Romero como esperança. Saibam que foi a última palavra que ele pronunciou naquele domingo de 24 de março de 1980, às 18h25min, na igreja do hospital da Divina Providência, enquanto celebrava o ofertório: “Neste cálice o vinho se torna sangue que foi o preço da salvação. Possa este sacrifício dar-nos a coragem de oferecer o nosso sangue pela justiça e a paz do nosso povo. Este momento de oração nos encontra firmemente unidos na fé e na esperança”. Um tiro de fuzil o introduziu na ceia do Senhor. Espiritualidade do servo sofredor A inspirar as escolhas de Romero não foram certamente a leitura dos textos marxistas e nem mesmo as transcrições em chave ideológica de qualquer expoente da teologia da libertação, e nem mesmo a ambígua sugestão de reconquistar novos espaços sociais da parte da Igreja, redescobrindo as necessidades dos pobres e utilizando com intuito instrumental os sofrimentos dos oprimidos. Foi, ao invés, as assíduas meditações sobre o servo sofredor de Jahweh. Quanta dor e quanta ternura, quanta paixão e quanta coragem, quanta raiva e quanta oração, quanta denúncia e quanta paciência vibram nas palavras deste “bispo feito povo”! E-DIÁLOGUE • Nr 5 ano 2010

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“Encontramos os cidadãos sem terra e sem trabalho estável, sem água, sem luz e sem escolas. Temos encontrado os operários privados de direitos sindicais, despedidos pelas fábricas quanto reclamam e completamente a mercê dos frios cálculos da economia. Encontramos os habitantes das favelas, cuja miséria supera toda imaginação, com o insulto permanente dos palácios vizinhos. Neste mundo desumano, a igreja da minha arquidiocese, sacramento atual do servo sofredor de Jahweh, buscou encarnar-se”. Manifesta-se, deste modo, na visão pastoral de Romero, com toda a limpidez dos contornos bíblicos e com toda a exortação ao empenho de “companhia” e de “consolação”, a categoria dos pobres, que se tornam o princípio arquitetônico de toda renovação social. “O mundo dos pobres é a chave para compreender a fé cristã... Os pobres aos os que nos dizem o que é a “polis”, a cidade, e o que significa para a Igreja viver realmente no mundo... Tudo isto não somente nos distancia da nossa fé, mas nos leva ao mundo dos pobres como ao nosso verdadeiro lugar!...” Seria necessário ler por completo o discurso pronunciado por Romero na universidade de Lovranio, antes que lhe fosse dado o diploma honoris causa, para compreender quanto sabor de evangelho existe sempre nas palavras deste santo bispo salvadorenho: “A esperança que pregamos aos pobres, a pregamos para restituir a eles dignidade e para encorajá-los a serem eles mesmos autores do próprio destino. Em uma palavra, a Igreja não somente se colocou da parte do pobre, mas fez dele o destinatário de sua missão, para que, como disse Puebla, Deus toma a defesa deles e os ama... As maiorias pobres do nosso país são oprimidas e reprimidas quotidianamente pelas estruturas econômicas e políticas. Em nosso meio continuam a serem verdadeiras as terríveis palavras dos profetas de Israel. Existem entre nós os que vendem o justo por um dinheiro e o pobre por um paio de sandálias; os que acumulam violência e saqueiam nos seus Palácios; os que esmagam os pobres; os que acumulam casas e acrescentam campos até ocupar todo o terreno... Estes textos dos profetas Amós e Isaias não são vozes distantes de muitos séculos... São realidades quotidianas, cuja intensa crueldade vivemos dia-a-dia... A vivemos quando chegam a nós mães e esposas de prisioneiros e de desaparecidos, quando aparecem cadáveres desfigurados em cemitérios clandestinos, quando são mortos pessoas que lutam pela justiça e pela paz! Nós cremos com o apóstolo João que Jesus é a Palavra de vida e que, onde está a vida, se manifesta Deus. Onde o pobre começa a viver, onde o pobre começa a liberar-se, onde os homens são capazes de sentar-se ao redor de uma mesa para partilhar o que possuem, ali é presente o Deus da Vida”. Existe nestas palavras não somente a consciência que o Evangelho não é uma metódica de emancipação, mas também o convencimento que a pobreza e o sofrimento não são somente um objeto a ser eliminados, mas sim uma realidade da qual tomar o peso como o servo sofredor de Jahweh. Eis as coordenadas que desfrutaram o martírio de Oscar Arnulfo Romero, cuja origem, como a todas as origens sacramentais, está na Palavra. E agora permite que diante do sinal sacramental do sangue deste mártir exprima uma oração que dê significado ao silêncio adorador que reservaremos em poucos instantes ao sinal sacramental do sangue de Cristo.

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Nós invocamos você Nós invocamos você, bispo dos pobres, intrépido seguidor da justiça, mártir da paz: obtém para nós do Senhor o dom de colocar a sua Palavra ao primeiro lugar e ajuda-nos a intuir a radicalidade desta Palavra e a sustentar a potência, mesmo quando esta nos transcende. Livra-nos da tentação de mitigar-la por medo dos potentes, de domesticar-la por atenção a quem comanda, de enfraquecer-la por temor que nos envolva. Não permita que em nossos lábios a Palavra de Deus se polua com os detritos das ideologias. Mas dá-nos uma mão para que possamos corajosamente encarná-la no quotidiano, na pequena realidade pessoal e comunitária, e produza assim história de salvação. Ajuda-nos a compreender que os pobres são o lugar teológico onde Deus se manifesta e a sarça ardente e que não se consuma da qual ele nos fala. Reze bispo Romero, para que a Igreja de Cristo, por amor deles, não se cale. Implora o Espírito para que lhe conceda tanta parresia a ponto de fazê-la depor, finalmente, as sutilezas da linguagem medida e fazê-la dizer, com face descoberta, que a corsa às armas é imoral, que a produção e o comércio dos instrumentos de morte dão um crime, que os escudos espaciais são um ultraje à miséria dos povos exterminados pela fome, que a crescente militarização do território é a distorção mais bárbara da vocação natural do ambiente. Reze, bispo Romero, para que Pedro que quis bem a você e que dois meses antes da sua morte encorajou você a ir em frente, passe por todos os lugares da terra Pelegrino de paz e continue audazmente a confirmar os irmãos na fé, na esperança, na caridade e na defesa dos direitos humanos onde esses sejam ameaçados. Reze, bispo Romero, para que todos os bispos da terra se façam banditores da justiça e operadores de paz, e assumam a não-violência como critério hermenêutico do próprio empenho pastoral, saibam que a segurança carnal e a prudência do espírito não são grandezas comensuráveis entre elas. Reze, bispo Romero, por todos os povos do terceiro e do quarto mundo, oprimidos pelo débito. Facilite, com sua imploração a Deus, a remissão destes desumanos jugos de escravidão. Enche de ternura o coração dos faraós. Acelera os tempos nos quais uma nova ordem econômica internacional livre o mundo de todos os aspirantes ao rolo de Deus. E, por fim, bispo Romero, reza por nós aqui presentes, para que o Senhor nos dê o privilégio de fazer-nos próximos, como você, para todos aqueles que vivem com esforço. E se o sofrimento pelo Reino massacrará nossa carne, faça que os estigmas, deixados pelos pregos de nossas mãos crucificadas, sejam fendas através das quais possamos ver desde agora céus novos e terras novas. * Homilia pronunciada por D. Tonino Bello na Basílica dos Santos Apóstolos em Roma, em 23 de março de 1987, no sétimo aniversário do martírio de Oscar Romero.

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