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Edição 3 Revista artístico-acadêmica. Novembro 2012

Lande Onawale, o renascer de um escritor e o nascimento de um eu-enunciador textual negro.

“O candomblé sempre me encantou por sua beleza, por seu tesouro de ritos e mitos fascinantes.” Entrevista com Ordep Serra

As angústias do homem moderno em meio ao caos cotidiano. Conto

As cores quentes da nossa herança na Moda Negrife

As cinzas não caem à toa no café.

Baile Black Boombastic – A festa que só tem gente bonita, dos seus black-powers aos carapinhas.

“eu não sou uma pessoa acadêmica nem tenho tendências para tal.” Ondjaki


EXPEDIENTE Editor Chefe - Davi Nunes Diretor de edição – Inussa Gomes Coordenador de edição – Marcio Costa Supervisor de edição – Pardal do Jaguaripe Revisão – Pardal do Jaguaripe Projeto Gráfico – Lina Mendes Diagramação – Lina Mendes

Colaboradores: Textos: Alan de Barros: poeta, licenciado em filosofia pela UFBA, mestrando em educação e contemporaneidade pela UNEB, atualmente vem atuando como cineasta na direção geral dos curtas - Abismos de Flores (Fic), Autocontradição Performativa (Fic), Barbárie Sonora (Doc). Biba Barreto: capoeirista (Grupo Ginga – Mestre Itapoan), graduada em Educação Física (UNIME), graduando em Pedagogia (UNEB), bolsista CNPq (Iniciação Científica). Daiane Santos: bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Hélio Rocha (2008). Mestranda em Políticas Públicas, Gestão Social do Conhecimento e Desenvolvimento Regional pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) – 2012. Jurandir Rita: nasceu na cidade de Maragogipe. Participou do Caruru dos Sete Poetas (2008) como poeta convidado, colaborou em publicações alternativas (Caos, Poesia com cachaça, etc.) e no Reverso (2007), jornal laboratório do curso de Jornalismo da UFRB. Paulo Monteiro: 27 anos, solteiro, de Monte Santos/BA. Estagiário no Laboratório de Informática da UNEB- Universidade do Estado da Bahia. Sid Summers: Estudante de Ciências Contábeis da UNEB, tem dois livros publicados por demanda: “Ratos com Asas” pela editora Clube de Autores e “Prazer, Sid!” pela AgBooks. Verusca Cristina: 21 anos, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia. Ilustrações: Cajila Caã (Crônica): graduanda em Design pela Universidade do Estado da Bahia; Daniel Santana (Conto; Pimenta nos olhos; Caiu na Rede é Texto; Chapoetico): ilustrador, graduando em Design pela Escola de Belas Artes – UFBA. Ênio Saldanha (Entornos; Teatro-Entrevista, Conta Fundo): graduando em Design pela Universidade do Estado da Bahia. Fotografias: Fernando Maltez (Artigo): 31 anos, diretor de arte. Graduado e profissional em Publicidade e Propaganda. A fotografia sempre foi presente no seu dia-a-dia e hoje, além de hobby, trabalha como fotógrafo profissional. O cotidiano urbano o atrai e é onde tenta se inserir nesse contexto, mostrando o que muitas vezes passa despercebido pelos olhos da rotina. Lana Mendes (Nu Circuito): fotógrafa, graduanda em Comunicação e Produção Cultural pela Universidade Federal da Bahia. Michel Assis (Fotografia): fotógrafo, natural de Salvador, mora atualmente em Camaçari. Teve seus trabalhos publicados na revista espanhola Mambo. Dedica boa parte do seu tempo para aprimorar a sua paixão pela arte, para trazer ao público uma maneira especial de ver a essência das coisas. Su Lopes (Fotografia e Artigo): filha do caos; estudante de Filosofia, por escolha, vocação, ou alguma trama desconhecida. Bolsista do PIBID- Filosofia UFBA.

FICHA CATALOGRÁFICA Revista Artístico Acadêmico Cinza no Café. ano 2, n.3, nov-jan2012- Salvador BA Eduneb. Universidade do Estado da Bahia. Trimestral ISSN: 1. Arte — Periódicos. 2. Literatura— Periódicos. 3. Cultura — Periódicos. I. Universidade do Estado da Bahia CDD- 700


CINZAS NO CAFÉ Ano 02 Novembro 2012 Editorial Um modelar afro-baiano dá o tom das palavras tracejadas no contínuo azeviche das páginas arroladas nesta terceira edição da revista Cinzas no café. Um eu enunciador que se quer e se manifesta como um ruflar de tambor negro se apresenta para o leitor com toda magia e ginga textual. Os ensaios, artigos, contos, entrevistas, crônicas, poesias, ilustrações e fotografias trazem o sol que queima a criar ficções, expressões sensíveis de arte e ciência, que brilham como ônix imperiosa, emergindo outra literatura, menos pálida, sem as amarras eurocêntricas de expressão humana secularmente estabelecidas. DAVI NUNES EDITOR CHEFE

CONTO (Bosta Sofisticada) - As angústias do homem moderno em meio ao caos cotidiano. 8

CRÔNICA (Nota sobre: Universidade e Apocalipse Zumbi) 11 ENTREVISTA (Ondjaki) – “eu não sou uma pessoa acadêmica nem tenho tendências para tal.” 19

ARTIGO (A relação entre a “baianidade nagô” e o samba) – ...e o samba nasceu na Bahia. 24

QUE FIGURA (Ordep Serra) – “O candomblé sempre me encantou por sua beleza, por seu tesouro de ritos e mitos fascinantes.” 30

ENTORNOS (Narandiba em negrito) – Do cheiro de quilombo à constituição periférica contemporânea. 35 CHÁPOÉTICO Poesias urbanas e concretas. 38

CATA(E)VENTOS (Baile Black Boombastic) – A festa que só tem gente bonita, dos seus black-powers aos carapinhas. 43

CINZAS INDICA! ((Lande Onawale) – O renascer de um escritor e o nascimento de um eu-enunciador textual negro. 11

FOTOGRAFIA (olhares sobre o cotidiano afro-baiano) 7 (Su Lopes) 18 (Michel Assis)

CAIU NA REDE É TEXTO (Liberdade de Exposição) – As redes sociais como palanque político. 22

NU CIRCUITO (Moda Negrife) – As cores quentes da nossa herança. 27

Teatro entrevista Falas reais com ficcionalização teatral: No palco das Cinzas Ordep Serra, Ondjaki e Lande. 32

FOTOGRAFIA (olhares sobre o cotidiano afro-baiano) 37 (Michel Assis) PIMENTA NOS OLHOS (Na boa, véi! Isso é ranço da miséria ideológica) – A inserção do negro nos espaços de poder da sociedade. 40


Apresentação A Revista Cinzas no Café surge da necessidade de uma expressão artístico-acadêmica dentro do ambiente universitário, buscando dessa forma ser uma nova possibilidade de manifestação estudantil. A revista emerge de maneira original, propondo um espaço de confluência entre as expressões artísticas e científicas, a qual os estudantes terão a possibilidade de publicar os seus trabalhos. Na verdade, Cinzas no Café busca equilibrar essas duas formas de criação do conhecimento, ambas importantes para construção do caráter e/ou da personalidade desta revista. Logo, surge num momento em que o corpo discente universitário se encontra ansioso por um veículo que o possibilite a ser sujeitos do seu próprio processo criativo.


revistacinzasnocafe@hotmail.com - facebook.com/revistacinzasnocafe


CONTO

Bosta Sofisticada

Me chamo Will, Will Cagliostro. Estou numa fila longa, atendimento médico público, por que hoje não estou disposto a trabalhar. Tenho um subemprego asqueroso na periferia. Que se fodam os que dependem de mim. Vão se passar horas até que eu seja atendido. Merecida folga extra... Com sorte, se minha interpretação teatral de dor for bem sucedida, eu consiga mais uns dias longe do meu algoz diário, calvário que me mantêm precariamente vivo. Sou insistente como todo miserável. Chegando minha vez... Entrego documentos e assino papeis. Sento na rota semicircular de um dos ventiladores de parede para ser alcançado com um frequencia regular das suas rajadas mornas de vento que amenizam a sensação do mormaço. Fecho os olhos acomodado o melhor possível na cadeira de estofamento exposto. Não espirro. Felizmente a cadeira é inabitável até para os ácaros.

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Por Sidney Fortes Summers

O ambiente é hostil não somente para os ácaros. Entretanto, com o tempo aprendemos a ser duros por necessidade. Talvez por isso, mais do que pela louca racionalidade humana, nos tornamos a espécie dominante do planeta. Desenvolvemos singularmente a capacidade de não ouvir e da indiferença, uma couraça de calos que envolvem o corpo e que se projeta para além dele, transcendendo limites interiores e exteriores. Somos deformados... Me conforto no prazer gratuito dos boquetes de minha putas imaginárias.

ca aceitam por nenhuma parte do meu corpo na boca. Principalmente meus bagos ou pau. Não se eu não usar a força. Caralho, não se passaram nem 30 minutos. Tic, tac! Tic, tac! Tic, tac! Os ponteiros do relógio se movem ritmados embalados pelo tédio coletivo. Batidas cardíacas precisas em um mecanismo morto. Na sala de espera abafada entra uma mulher. Ela é alta demais e isso não me atrai, mas estou pronto para uma exceção mais uma vez. Sua anca larga delineada por sua calça excessivamente apertada desperta os sentidos dos homens enclausurados voluntariamente no vão frontal da clinica. Longa espera, tão ampla e longa quanto o desespero humano. Fichas esgotadas, não há mais vagas para o atendimento. Todos lamentamos sua partida pois compartilhávamos a certeza de que ela era o doce saber da cura, o remédio para a humanidade.

Nunca gozo com boquetes. Nem na minha imaginação. Já fui agraciado com as caricias bucais de muito alta qualidade, boquetes performáticos, boquetes profissionais do qual já me deram a medida exata da minha caceta através da profundidade alcançada na garganta. Obstinado em meus sonhos, não desistiria tão facilmente. Tenho fetiche por lésbicas. Se virgens, melhor. Mas elas nun- Recordo-me dos meus


CONTO amigos, pessoas próximas e presentes em minha vida. Uma ex-mulher desequilibrada, mais louca que o comum, ofertou-me o aluguel de um apartamento a minha escolha para que eu não tivesse mais contato com eles. Eu poderia aceitar a proposta e fazer uma festa de boas vindas com eles para ela. Entretanto, eu estaria pondo em risco a vida deles. Minha morte era certa... Inútil pensar na morte agora.

Estava me tornando grave, um falso doente tão enfermo quanto o doente imaginário de Molliere. A espera deixa todos aparentemente mais pensativos. Circunspeção forçada. Fruição estética do silêncio.

adversário imaginário, o rival vencedor que sequer existia. Amigo íntimo do fracasso, o ébrio era seu companheiro inseparável. Focando a atenção nas conversas alheias ouvi alguém comentar a prisão do chinês comunista que fabricava coxiO silêncio ambiente é nhas com carne humaquebrado pelos ruídos na, outro culpava o novo cacofônicos de um bêba- hormônio do peixe pelo do disparatado que discu- crescimento do número te política solitariamente. de homossexuais no seu Ele gestilucava, prague- bairro, ele afirmava com java e gritava para seu absoluta certeza que o tal

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CONTO hormônio Omega 3 era uma criação dos ateus contra a igreja. Era uma espera longa que mal havia começado e que já era insuportável para todos, uma tortura psicológica, o inferno sartriano, um antídoto contra falsos necessitados. Ao mesmo tempo tudo era perfeito. A beleza do universo está na falta de sentido de todos seus componentes, no caos inerente a todas as coisas. Desorganização entrópica que tende incondicionalmente ao inanimado. Histórias absurdas de uma realidade paralela... Ao meu lado um homem torto, Quasimodo pós-moderno, me diz que estava ali por conta de mais uma surra exagerada e sem motivo que levara da policia. Contou-me da primeira vez que ganhara cicatrizes por contar a verdade, respondeu à pergunta do policial “o que tem nos bolsos?”. “Duas cebolas e um pé de coentro”. Ele havia acabado de voltar da feira livre vizinha. Dessa vez perguntaram onde ficava a boca, ele respondeu que ficava logo abaixo do nariz. O homem mal podia ficar de pé. Nada respondi e ele permaneceu imóvel e sorridente, intocado pela náusea. Até que ponto aquilo era mentira ou verdade, não sei. Por mim, tanto faz... Pos-

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sibilidades. Em algum lugar do mundo o mendicante revoltado exige óbolos com a certeza que seus emolumentos nunca devem ser fruto de qualquer tipo de esforço. Ele não percebe o quão é ridículo ou vergonhoso. Ele não somente aceita tal situação caricata como ainda se nega a engendrar mudanças. A minha glande é rosa e as veias do meu pau são calibrosas e pulsantes. Conspícuos pelos pubianos fulvos. Não me atrase em meus caminhos. Foda-se.

Em outro lugar do mundo, sei que existe gente como eu, oriunda do mesmo planeta, que compreende o que está dito e o que não está dito em cada fragmento de discurso atrofiado ou gesto feito ou ainda não feito por mim. Irmã astral incestuosa, cúmplice em pecados secretos. Somos absoluto amor intenso e autodestrutivo, absolvidos amalgamados, anulados e faiscantes em diferenças semelhantes, queimamos e ardemos forte em alguma manifestação de enérgia transcendenExistem doentes mentais tal e pura. Força que nos das mais diversas espé- alimenta para além dos cies e discutir com eles é alimentos e nos move em sempre perda de tempo. sintonia por bares, cafés, Os idiotas se multiplicam cinemas e estradas. Inpelo mundo e o mais sau- finitas convergências no dável a fazer é evitá-los espaço infinito. Universo c todas as forças. Mais de super-corda. cedo ouvi a história de um homem que não se Meu nome é Will, sou o satisfazia sexualmente Will Cagliostro e isso não com mulheres ou outro significa ou vale nada. homem que não ele pró- Sou mais um factotvm, prio. Não era um narcisis- grânulo insignificante, ta. Era sensível apenas ao folha seca que vagueia intoque da sua mão direi- certa pelo espaço, expulta, nem com a esquerda so do lar por ventanias, conseguia muita coisa. um aborto mal sucedido, No banheiro coletivo do minha morada é a temseu trabalho ele era visto pestade... Posso ser tudo, diariamente nas primei- qualquer bosta sofisticaras horas da manhã, pés da, mas permaneço aqui, apontando para o céu, mofando nessa sala de enquanto, encostado na espera. parede abaixo do chuveiro, trabalhava duro em si mesmo, no seu membro enrijecido. Em completude, um homem auto-suficiente.


CINZAS INDICA!

lande Onawale

Por e-mail deu-se a entrevista permeada de um lirismo, de uma eu enunciador que se quer e se manifesta negro, da Cinzas no Café com o bancário, graduado em história, poeta, contista, compositor e educador baiano, Lande Onawale. Lande teve seus primeiros poemas publicados no início da década de 90, no Jornal Nacional do Movimento Negro Unificado (MNU). Notabilizou-se pelos brilhantes poemas e contos publicados em diversas ontologias: Quilombos de palavras (BA), Terras de Palavras(RJ) Black Notebooks (EUA), Cadernos Negros (SP) entre outras. As suas publicações individuais são os livros: O Vento (poemas), Kalunga (poemas) e Sete:

diásporas íntimas (contos). Lande, a infância, para grande parte dos escritores, é um berço de inspiração. Na sua infância em Salvador se encontra os elementos que o construíram como escritor?

Por Davi Nunes

contenham uma dose de poesia que eu julgue capaz de tocar, instigar, estimular o leitor presente.

Sabemos que a branquitude, o embranquecimeto dificultam aos negros o empoderamento de uma identidade afro-brasileira, mas no caso da sua Penso que sim, mas como literatura... quando foi algo inevitável, uma ins- que surgiu, em seu texto, piração não exatamente um eu enunciador que se consciente. Já se disse quer negro ou ele sempre que a pessoa é, aos 80 existiu? anos, o que já era aos 8... Sendo uma fase onde Num país racista como o se consolidam aspectos Brasil, o desenvolvimento fundamentais da nossa de uma Consciência Neafetividade e cognição, gra figura-se como um fatalmente é um mina- renascimento. Mal saido douro de emoções pra da adolescência, com 19, toda vida. Por outro lado, 20 anos a partir da minha há também uma atitude, aproximação do Moviessa, sim, consciente de mento Negro, é que meu resgatar situações que olhar sobre uma boa par-

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CINZAS INDICA! te da existência humana começa a mudar – e a literatura, consequentemente, acompanha essa mudança.

meus próprios sentimentos, sobre as idiossincrasias do mundo e do ser humano. Depois, quando ‘renasço’, é que passo a achar que a literatura que Como foi o processo de faço pode ajudar no commudança do nome de bate ao racismo e ao preorigem colonialista para conceito racial. a apropriação identitária do nome africano, consti- Como se dá a relação de tuindo a família Onawale? sobrevivência e criação literária do escritor neFoi algo, digamos, natu- gro? ral pra mim, óbvio. Uma necessidade de ir mais A busca do ganha-pão fundo - além do pré-no- imponderável dificulta me - no questionamento o aprofundamento em de uma herança mais que gêneros mais extensos colonialista, escravocra- como o romance, que exita. Quantas áfricas cabem em seu coração? A mítica, a moderna ou ela toda em sua grandiosidade cultural, linguística e continental? Repito o que já disse a socióloga Vilma Reis: queremos todas as Áfricas, inclusive a mítica! A elite brasileira é tão racista e atrasada quanto um republicano americano de cem anos; sua obra literária, além de ser uma expressão estética, surge para a superação desse racismo? A minha necessidade de expressão literária surge com objetivos menos pretenciosos... Em algum momento – e sabe-se lá por que – veio essa vontade de escrever sobre

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dições inadequadas para a criação. Sete: diásporas íntimas seu livro de contos, que desponta poderosos personagens e signos afro-brasileiros, através de uma escrita enxuta e madura, foi inspirado na divindade afro-brasileira Esù, como foi o processo de escrita e de reverência ao orixá?

Em verdade, ainda não fiz um livro conceitual, digo, criado a partir de um conceito. ‘O Vento’, “Kalunga...’, ‘Sete...” todos foram ‘montados’ e, talvez, haja algum mérito na edição, pois busquei Sem dúvida, a uma coesão entre forma labuta diária é e conteúdo. Assim, não um dificultador houve uma inspiração ‘diao processo cria- reta’ em iNzila/Exú, mas privilegiei textos onde tivo de algo mais estivessem presentes aspectos essenciais descomplexo se iNkisi, dessa energia. ge maior tempo disponí- Sete (ou Se7e rsrs), aqui, não é um numeral, mas vel à escrita? um conceito – talvez até Sem dúvida, a labuta di- um substantivo...próprio. ária é um dificultador ao processo criativo de algo A torre de marfim dos mais complexo, como um clássicos já lhe seduziu, romance, mas eu acre- ou os tambores poétidito muito na disciplina, cos dos quilombos foram como meio de solucio- sempre os instrumentos nar ou amenizar o drama da sua inspiração? dessa equação – embora eu seja um indisciplina- Já, sim. Por sedução, ou do...Outro dia, inclusive, por imposição. Somos ouvi Cuti dizendo que, quase todos um tanto ao menos em respeito à corrompidos pelo racisvida conturbada de Lima mo, pelo eurocentrismo, Barreto, devíamos nos né? A pesquisa da Profª constranger ao ficar re- Drª Dalcastagné, constaclamando de certas con- ta que quase 100% dos


CINZAS INDICA! autores e personagens da literatura brasileira contemporânea são brancos! Se pensarmos que essa realidade é reproduzida pelos meios de manutenção da cultura e da educação – escola, universidade, teatro, ciname, televisão...pô, quase que não há como escapar... mas há o tambor, né? “Tem um tambor, tem um tambor, tem um tambor... tem um tambor, dentro do peito tem um tambor” grita Carlos Assumpção. Aí você entende quando falo em renascimento. Fui aprender já grande a usar a caneta como ‘agdavi’... Qual a importância dos cadernos negros para a literatura brasileira e para você já que tem trabalhos publicados neles? O Cadernos é uma das antologias regulares mais longevas das Américas – senão a mais. Só por isso, já é revestida de enorme significado para a literatura brasileira. Contudo, o Quilombhoje com o Cadernos Negros e outras iniciativas trazem para a cena literária nacional, essa voz negra silenciada, de que nos fala Dalcastagné. De algum modo, penso que nosso texto vem (inter)ferindo a idéia hegemônica (e eurocêntrica) do que se concebe secularmente como literatura, como ‘boa’ literatura. Para mim, a publicação foi crucial por, pelo menos, duas razões:

onde primeiro publiquei, em livro, e onde começo a lidar pra valer com a crítica – o processo de seleção dos textos previa que autores, teóricos e leitores, pseudoidetificados, avaliariam todos os textos. O mercado editorial para os escritores negros e temas afro-brasileiros ainda é muito fechado? O mercado editorial para autores e temas proscritos é muito fechado, e nós, negros, bem como nossa vida fazemos parte da “lista branca”, dos assuntos tabus – sobretudo quando enuciados

Somos quase todos um tanto corrompidos pelo racismo, pelo eurocentrismo, né? por nós mesmos. Evidentemente, a sociedade se transforma, a luta pelo reconhecimento da nossa humanidade avança e, fatalmente, vemos luzes no que se pensava ser o fim do túnel. Eu tenho, ainda, uma confiança muito grande no poder da literatura de tocar as pessoas, de seduzí-las, encantá-las, cativa-las dentro de um desejo de liberdade de imaginação e expressão. Por fim, que lição você deixa para os escritores

que se iniciam na escrita de uma literatura mais ensolarada, buscando expressar os sentimentos azeviches presos na alma? Não chamaria de lição, mas de confissão: descobri que o grande sol vai dentro de cada um de nós. Não devemos temê-lo, porque o medo é, como sabemos, o avesso da realização. O racismo nos interdita a nós mesmos e, como consequência, ficamos proibidos, desautorizados a emitir uma voz que soe autônoma, a proferir nossas verdades sobre o que quer que seja. Nesse sentido, ser um escritor ou escritora é o que a sociedade racista menos espera de um(a) negro(a), escrever seria quase nosso avesso, pois que mais fazemos nós ficcionistas senão inventar mundos e verdades? Agora imagine se dissermos que o mundo é negro, então...Ah, não! Essa não! Assim já é demais! Rsrs Eu não temo escrever sobre mim/nós, sobre “feridas que ainda estão abertas e sendo mexidas”, como já disse a escritora Toni Morrison... Ao contrário do que dizem alguns autores e críticos, a minha luta não me limita, a minha luta me liberta! Dentro de cada peito negro está toda a humanidade, dentro de cada suspiro, cada riso, cada grito.

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CRÔNICA

Nota sobre: Universidade e Apocalipse Zumbi ∞ “você tem pernas perfeitas, não é? Levante, ande e siga em frente” (Edward Elric) Por Biba Barreto Precisamente hoje, nesse dia, em um domingo amanhecido fiquei na dúvida se acordei com inspiração ou a inspiração me acordou. Na realidade essas duas ideias são gostosas de pensar. Nesse momento me encontro “no aqui e no agora” escrevendo essa “nota” algumas linhas para lembrar/ recordar sobre o que é viver na Universidade e como ela pode ser parecida com um Apocalipse Zumbi (ApZ). Já vi/ouvi por aí, que existem muitas possibilidades (em um cenário na literatura apocalíptica zumbi – “ou não”) de se tornar um zumbi: Seja por vírus (O famoso “T-vírus” de Resident Evil), seja por radiação (ah... não me lembro de nenhum exemplo por agora) seja por infecção (quando somos mordidos, arranhados ou acontecimentos parecidos) seja ouvindo “Thriller” de Michael Jackson (É uma brincadeira nesse caso

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[?]), mas também dizem “as más línguas” (?), que há uma possibilidade de virar Zumbi ingressando na Universidade. Quanto mais caminharmos em direção a “iluminação” da academia (titulação) mais as características de Zumbis aparecem: Ficar acordado durante a noite terminando aquele artigo cujo título é: “A História sem fim” - É um passo muito importante para entranhar essa nova maneira de ser zumbificada. Quem sabe o Ministério da Saúde em breve lançará a campanha: “O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: Beber café todos os minutos do dia poderá provocar sintomas de zumbificação e seus males serão crônicos degenerativos” - ou quem sabe ficar tão, mais tão alienado/a em “produzir” (não importa o compromisso e a qualidade com a Educação e as pessoas) para alimen-

tar o monstro maior da academia (e seus autores/professores/percussores), talvez esse seja o pior tipo de infecção, a mais avassaladora e que se propaga em uma proporção grande e com rapidez absurda. No entanto, não é sobre “virar Zumbi” que quero descrever, e sim a respeito de como a sobrevivência a essa infecção é muito parecida com o caminhar na graduação (equivalem também aos mestrados, doutores...). As histórias sobre esse acontecimento zumbi (muitas pessoas “torcem” para isso acontecer, provavelmente seriam os primeiros a morrerem) são sempre variadas, no entanto, geralmente iniciam-se com uma gigantesca confusão e/ou um acidente catastrófico, o personagem principal (insira seu nome aqui: ________________) fica totalmente desnorteado, ou pode está desacordado e despertar em


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CRÔNICA um ambiente novo ou por mudar radicalmente e rapidamente (quase de maneira imediata) seu modo de agir/pensar. Os personagens se encontram em um cenário totalmente novo, estranho aos seus olhos, que fazem ressoar em sua alma. Reparem se esse início não parece com o ingressar em uma Universidade: (...) E finalmente passamos no vestibular após um ano (ou bem mais) de estudos (des)necessários para nossa vida, acordamos cedo e animados para irmos ao nosso primeiro dia de aula, afinal o “Universo”, a Universidade nos aguarda. Para nossa primeira surpresa-estranha o cenário é novo (igual a ApZ), por mais que existam cadeiras, mesas e quadros quase idênticos aos anos escolares, o ar desse novo ambiente é estranho, o caminho para chegar é diferente, começamos a nos sentir perdidos (mesmo que por alguns estantes). No ApZ a prioridade é encontrar pessoas para tentar entender o que está ocorrendo e se possível encontrar pessoas, que conhecemos. No nosso primeiro dia, tentamos encontrar alguém para nos direcionar, nos mostrar as coisas, realmente nos ajudar ou só conversar (não é por acaso que somos chamados de calouros – “recrutas” -).

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Após alguns dias o personagem, que vive na destruição zumbi, já reconhece algumas dificuldades e imagina/realiza o que terá que fazer para SOBREVIVER – essa é a sua prioridade – Elaborar estratégias, recolher recursos (alimentos, remédios, armas), reunir o maior número de pessoas para continuar superando as mais diversas eventualidades. Com o passar das Unidades fazemos as mesmas coisas, já sabemos as estratégias dos professores para nos “morderem” e elaboramos as nossas, armazenemos a maior quantidade de café possível em nossa dispensa, e já criamos a nossa “panelinha” de trabalhos (Já sabemos o que cada um faz e NÃO FAZ na equipe) e continuamos a estudar. Contra os Zumbis tudo é válido, inclusive machucar, ferir ou até mesmo matar um “companheiro” ou “companheira” nossa para continuarmos vivos, além do mais os personagens precisam prestar muita atenção e possuir certos cuidados com quem irão se alinhar para compartilhar suas ideias, seus recursos e a sua vida. E agora pensem: Quem nunca tomou uma verdadeira rasteira em algum momento da graduação ou na pós? Por algum colega que apostaríamos tudo e na hora que realmente

precisamos do apoio dele, o mesmo nos “deixa morrer” ou “mata”? Por vezes dói, mas precisamos continuar caminhando entre as disciplinas. Existe um tipo de infecção, vírus, doença (como queiram chamar) na Universidade que surge com os movimentos (independente qual seja). Alguns dos seus companheiros de grupo “se contaminam” com alguns projetos que nem eles sabem quais são! Simplesmente e cegamente começam a disseminar “suas ideias” pelos quatros ventos dos corredores. Há também quem se venda em troca de proteção, um status mais seguro entre os demais “sobreviventes”, qualquer artifício é válido (mentir, roubar, trapacear); Igualmente como se vive no ApZ: Se necessário muitos permitem que injetem o “próprio vírus”, que desumaniza as pessoas e as transformam em caricaturas que nunca foram. Na Universidade a brutalidade é silenciosa e astuciosa, às vezes quando nos dando conta – “O verdadeiro caindo em si” – já estamos encurralados em um canto, mas não devemos nos entregar facilmente (nunca) aos “mortos-vivos”. No entanto, a maior dor é a da perda... Um grupo que começa com 40/50 estudantes (ou sobrevi-


CRÔNICA

ventes) muitos são deixados ao longo do caminho, muitos são sacrificados, muitos param não porque querem, mas por precisarem. Seja porque necessitarem trabalhar para sustentar a família, porque não possuem condições de continuar indo, seja porque viraram pais ou mães, sejam pelas mais diversas responsabilidades/adversidades (muitos são os resultados de uma equação injusta do “nosso” sistema, no qual hoje somos submetidos). É difícil ver essas pessoas morrerem no

passar das disciplinas, nas mazelas do caminho dos semestres, nos sentimos impotentes, mas precisamos continuar caminhando... Sabem por que? Pois, AINDA não podemos ajudar o suficiente para que esses elementos (evasão e perdas das mais distintas) aconteçam e se pararmos também nada terá valido esses sacrifícios dos nossos amigos/ amigas (até mesmo dos contaminados que ainda continuam perambulando entre as salas da Universidade) Todos nós carregamos em nossa es-

sência e alma a esperança das mudanças e da humanidade (sem exceção). Aos que sobreviveram e sobrevivem ao Apocalipse Zumbi da Universidade não parem! Levantem e andem! E se for contaminar alguém, contamine com as ações e esperanças de um mundo melhor.

REFERÊNCIAS: Anime Fullmetal Alchemist: Brotherhood – 3º Episódio Histórias de vida – E de todos nós Histórias de Zumbis – Jogos, HQ’s, Filmes.

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ENTREVISTA

Ondjaki Por Davi Nunes

Numa dessas tentativas fortuitas, no facebook, A Cinzas no café conseguiu a entrevista com o escritor Angolano, nascido em Luanda, Ndalu de Almeida, mais conhecido como Ondjaki. Seus livros vêm sendo publicados em várias línguas, ganhando crescentes premiações, mas notadamente, no Brasil, o prêmio Jabuti,

em 2008, com o Romance AvóDezanove e o segredo do soviético. Sua escrita

aprender a ler os medos, aprender a ler as armadilhas do Ego. E ler. perpassa por vários gêneros literários: poesia,

contos, teatro e romance. Além disso, suas prosas e estórias são costuradas por um lirismo vibrante, constituindo uma escrita com grande beleza poética. Ondjaki o passado, as lembranças da sua infância em Luanda lhe serve como um local poético que lhe deixa sensível à

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ENTREVISTA escrita?

suas histórias ficcionais?

Penso que o passado é um desses lugares ao qual poderemos ser sensíveis. Certamente existem outros, e são diferentes de escritor para escritor. O passado são vários lugares, várias portas e janelas, membros infinitos de um labirinto que influencia a escrita, os afectos, as decisões literárias e até o futuro.

Não sei. Não acho que trabalhe com estórias “advindas da oralidade em Luanda”; acho que há certas estórias que comportam, devido ao seu conteúdo ou estilo, elementos da oralidade urbana de Luanda. Ou de Angola. O mais interessante é conseguir perder a fronteira entre a história e as estórias. Entre uma estória e pedaços da História. Isso é bonito em Angola: nem sempre

Quando foi que você percebeu que era bom em criar, imaginar histórias e colocá-las no código linguístico, transformá-las em literaturas? Não sei dizer ao certo... Não acho que seja fácil dar um tempo ou lugar exacto para o momento em que se decide começar a escrever. Até porque a escrita, às vezes, é muito anterior ao acto de registrar coisas em papel. A dada altura, entendi que fazia sentido, para mim, além dos livros, ler também a realidade. Absorvê-la para depois a devolver em escrita, em poesia, em memória inventada. Mas tudo isto, na realidade, são discursos mais ou menos racionais que fazemos sobre algo que talvez não seja tão racional.

Não acho que seja fácil dar um tempo ou lugar exacto para o momento em que se decide começar a escrever. a ficção é o outro lado da realidade. Muitas vezes convivem, irmanam-se, ultrapassam-se todos os dias, ao ponto de perdermos a noção de qual seria qual, ou qual é o nosso papel neste “palco humano”. No fundo, somos todos um pouco actores. Até Deus.

Penso que a vida acadêmica me ajudou na minha vida pessoal. Sempre se aprende um pouco na universidade. E sempre se cresce um pouco, com os livros que se lê e as pessoas com quem nos cruzamos, sejam alunos ou professores. Penso, sinceramente, que foi isso que andei a fazer durante anos na universidade, seja na licenciatura, seja no doutoramento: andei a cruzar-me com um grupo interessante de pessoas e de livros. Mas eu não sou uma pessoa acadêmica nem tenho tendências para tal. Gosto de dar aulas, mas já no campo da escrita inventiva, da literatura comentada pela óptica da minha sensibilidade. Isto é: sou mais a pessoa do pátio da universidade, com cigarros e conversa, do que aquele aluno da sala de aula... Quais são os escritores que lhe influenciaram, tanto os africanos quantos os Brasileiros e qual o da sua estima e admiração na atualidade?

São diversos. Sobretudo são livros, não são os autores. Todo o livro que me faz sonhar e ou crescer, é Você se formou em socio- um bom livro para mim. logia, em Portugal, a vida Estimo esses autores, acadêmica ajudou na sua que me desafiam, que me formação de escritor, ou fazem repensar o mundo As estórias advindas da os trabalhos acadêmicos ou a minha pessoa. oralidade em Luanda retardavam o seu procesmoldam a construção das so de escrita literária? Agualusa afirmou que é

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ENTREVISTA

na maneira como o texto respira que se percebe, se ele vai ser um conto, um romance ou uma poesia. Como você identifica isso na construção de seu texto? Isso vai-se revelando. Ou abruptamente, logo de início, ou logo de seguida. O texto e as palavras também falam conosco, também nos ajudam a seguir um caminho ou se recusam a colaborar com ele. O tempo vai dando mais treino e sensibilidade. E vamos ficando amigos, nós e os textos, nós e as palavras. Ou amigos ou amante ou inimigos. Todas essas “tensões” servem para escrever... O sentimento de nostalgia, de saudade contribuem para você entrar em seu estado de inspiração e escrita?

problemas da vida semÀs vezes, sim. Essa porta pre com humor, tirando que e abre para a escri- alegria de onde só podeta, esse momento que às ria tirar tristeza? vezes não conseguimos explicar, feliz ou infeliz- Sim. Ou talvez seja o povo mente, continua a ser um brasileiro que se assememistério para mim. O “pa- lha ao angolano... ratrasmente”, como diria o grande Odorico, é sem- Por fim, o que você aconpre um lugar de mistério, selharia para os que se como um templo talvez iniciam na escrita literásagrado onde fosse muito ria? delicado entrar. Um lugar que às vezes nos recebe Ler. Cruzar o pensamende braços abertos e, ou- to com o sentir, exercitar, tras, com cuspidelas de viver, aprender a ler os fogo. É preciso estar pre- medos, aprender a ler as parado para o abraço ou armadilhas do Ego. E ler. para o fogo. Respeitando E depois esquecer tudo a literatura, sendo coe- isto, e recomeçar do varente com a arte de es- zio. E voltar a ler. É um crever, vamos aprenden- caminho cíclico de aprendo a lidar com o “templo”. dizagens que não tem fim. No fim, será bom se E com o tempo. formos abençoados com O povo angolano se as- o dom de alguma humilsemelha com o brasileiro dade. Mas é raro. Muito na maneira de encarar os raro.

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CAIU NA REDE É TEXTO

Liberdade de Exposição Por Marcio Costa Devo iniciar esta edição do Caiu na rede é texto agradecendo a todos aqueles que fizeram uso deliberado de seus perfis em redes sociais para a ampliação da campanha política de inúmeros candidatos à cargos públicos. Vocês, junto aos que se posicionaram contra esse ato, proporcionaram valiosos momentos de entretenimento a mim, e a tantos outros, com suas discussões acaloradas e pausadamente argumentadas. Durante esses meses de campanha, houve aqueles que defenderam o não-uso das redes sociais para fins políticos, com base de que este não seria o lugar para se discutir essas questões, mas o massacre daqueles que usaram, e abusaram, de suas atualizações para promover, ou despromover, algum indivíduo, grupo ou partido político, foi inevitável. Fujo, aqui, ao árduo labor de tentar contextualizar um pensamento que possa ser base de algum argumento, capaz de julgar se a atitude de utilizar o meio social digital em prol de potencializar alguma campanha política, deve ser vista como algo repreensível, ou não. Digo repreensível, pois foi com tal atitude que nos depa-

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ramos em nossos constantes passeios lá pelas bandas largas do ambiente sócio digital, neste período de efervescência política. Aqueles que não queriam se deparar, em suas atualizações, com nada relacionado à políti-

ca, agiam como a pesada mão da justiça, condenando quem expunha sua visão/opinião/obsessão políticas. Daí a pergunta: devemos mesmo sublimar a liberdade de expressão/exposição em um meio digital


CAIU NA REDE É TEXTO

público? Quem ali está, fica suscetível a se deparar com os mais diversos tipos de visões e opiniões, uma vez que não se pode controlar todo o conteúdo que se encontra na internet, muito mais em uma rede social. São os

agradecer o favor de não serem bloqueados. Por que, ao invés de escolher a opção (possível e muito simples) de não receber mais atualizações de algum usuário, estes, que acham que o conteúdo deve adequar-se aos seus gostos pessoais, preferem dividir com sua lista de amigos, grupos, páginas, etc., sua insatisfação com alguma publicação que não os agrada? É essa liberdade que gera inúmeras discussões acerca de qual seria a forma “correta” de se utilizar as redes sociais. Mas, correta segundo quem, ou para quem? Estamos, a todo o momento, afirmando a nossa necessidade de sermos vistos e ouvidos em nossos meios sociais, então, partindo dessa precisão, transplantamos para a nossa world wide web o anseio de uma visualização massiva. Como antes disse, ao aceitarmos o termo de utilização (o qual ninguém lê) de alguma rede social, ficamos suscetíveis à supróprios usuários quem perexposição alheia, seja escolhem aqueles que ela sobre questões polítiserão seus amiguinhos cas ou sobre o funcionanesse mundo tecnodigi- mento da flora intestinal tal, contudo, parece que de alguém. Só temos que aqueles perfis que preen- ter em mente que, utilichem sua lista de conta- zando-me da sabedoria tos estão ali com o fardo de Randy Newman,“it’s a do indesejado e devem jungle out there”.

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ARTIGO

A RELAÇÃO ENTRE A “BAIANIDADE NAGÔ” E O SAMBA Por Daiane Nascimento Santos Os negros africanos “trazidos” ao Brasil vieram de Angola, Congo, Moçambique, Nigéria e antigo Daomé, atual Benin. Os Bantos foram os primeiros a chegarem aos trópicos brasileiros, e vieram da Costa Ocidental africana, ao norte do Equador, o chamado ciclo da Guiné, que correspondem a Angola e Congo, também chamada de África Central. O continente africano representa uma realidade bastante complexa e multifacetada, por isso, para explicar o significado atribuído ao termo Banto, Pessoa de Castro (2010) afirma: “Banto é

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um termo criado no final do século XIX pelo linguístico Bleek, e não se caracteriza em língua ou etnia, mas sim uma denominação para o grupo de 500 línguas faladas na África Subequatorial”. Autores clássicos de obras que buscam a identidade nacional do povo brasileiro com relação ao contingente negro africano sobre a nossa cultura e sociedade, como Nina Rodrigues e Gilberto Freyre, se caracterizam como “[...] defensores da pureza nagô em detrimento das manifestações mistas dos bantos [...]”,

como nos apresenta Oliveira (2007, p. 26). O autor ainda afirma que:

[...] a valorização da identidade jêjê-nagô foi criada em detrimento de uma identidade banto, posto que a primeira foi tomada como a “legítima” e “autêntica” identidade negra, uma vez que mantinha-se mais “pura” frente aos valores civilizatórios africanos, enquanto que a identidade dos bantos ficou relegada ao discurso de inferioridade étnica, posto que mais “misturada” seria também menos africana e menos legítima da “cultura negra”. (OLIVEIRA, 2007, p. 33)


ARTIGO

Sobre isto, Oliveira ques- assunto, o que corrobora tiona: no enfoque depreciativo quais são os fatores que da mestiçagem brasileira. contribuíram para que, A partir do século XVIII, apesar da diversidade de enquanto os traficantes etnias, línguas, origens, de escravos de outras rereligiões, enfim, da diver- giões brasileiras permasidade cultural reinante neciam nas rotas de Anentre os escravos afri- gola e Congo, houve uma canos no Brasil, prevale- alteração no contingente cesse a cultura de uma negro da população baiadentre as muitas etnias na, pois a Bahia passou a africanas que aqui apor- enviar os tumbeiros para taram? (OLIVEIRA, 2007, Costa da Mina e, em sep. 35) guida, para o Golfo do Benin. Sobre as etnias que A constituição da valori- formaram o contingente zação do africano “puro” negro brasileiro, apreem detrimento ao mesti- sento: ço brasileiro é reafirma- a] bantos – denominação da pela preferência dos de um tronco linguístinagôs em relação aos co que caracterizava um bantos, abordada nos es- grupo de pessoas que tudos clássicos sobre o tinham como atributo a

produção de objetos de cerâmica, a prática da agricultura e a criação de gado. Eles dominavam a técnica da metalúrgica, inclusive conferiam valor sagrado ao ferro. Foram os primeiros a serem trazidos como mercadoria para a colônia brasileira. b] jêjês – grupo do Golfo de Benin que trouxeram os voduns. c] nagôs - grupo de língua Yorubá que trouxeram os Orixás e os Orikis (canções dos Orixás). d] haussás - grupo “trazido” em menor quantidade. No século XIV, envolvidos pela maré islâmica na África, aprenderam a ler e escrever em árabe, e, ao chegarem ao Bra-

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ARTIGO sil no século XIX, foram chamados de malês. Para este grupo, o islamismo organizou-se em crença eficaz, a respeito do desconhecimento dos senhores brancos, na organização das insurreições, na qual a Revolta dos Malês, em 1835, é a mais conhecida e difundida na historiografia oficial. Estes termos étnicos são contemporâneos na história da própria África, inclusive alguns deles não fizeram parte da história colonial brasileira. Contudo, Reis e Gomes elucidam:

[...] em muitos sentidos, essas designações étnicas eram criações coloniais porque não reconheciam diferenças políticas, culturais e religiosas na África. [...] A formação de novas identidades e “comunidades imaginárias” de acordo com rótulos coloniais foi um processo complexo e incompleto que teve lugar no Brasil (REIS;GOMES, 1996, p. 378). Importante salientar que etnia é uma palavra que foi usada pela primeira vez em 1935 num Congresso em Amsterdã, em substituição à palavra raça, e está diretamente relacionada à língua, como assevera Pessoa de Castro (2010): “a língua substância o espaço identitário de um povo”. Por conseguinte, não temos uma etnia brasileira,

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à exceção dos índios, isto porque a língua portuguesa é falada em outros países. No Brasil podemos identificar a etnicidade, conceito político-ideológico marcado por pragmáticas diferenciadas de uma mesma língua, afinal a língua portuguesa é apontada por usos diferenciados nos países em que se instituiu como língua oficial e que foi introduzida pelas práticas culturais. Munanga (2003, p.14) afirma que “não existe uma única cultura branca e uma única cultura negra e que regionalmente podemos distinguir diversas culturas no Brasil”. Sem relegar as heranças jêjê e nagô na cultura afrobaiana, se faz necessário anunciar também a herança banto na constituição da nossa cultura. No português brasileiro, de acordo com as formulações da etnolinguista Pessoa de Castro (2010), a vocalização, que é o uso contínuo de vogais nas sílabas, construídas com uma consoante(c) e uma vogal(v) – (cv), se dá devido à semelhança do português arcaico com o sistema vocálico do grupo banto, mais especificamente o Quimbundo, o que caracteriza a presença da língua africana - do tronco linguístico banto na nossa língua. Portanto, importante na discussão

acerca da força da cultura jêjê e nagô na Bahia. Partindo da língua, pode-se mencionar uma palavra do grupo banto que foi apropriada pela língua portuguesa e que deu origem a um ritmo característico da cultura brasileira: samba. A origem dela vem de: Kusamba que significa orar, rezar, como uma celebração rítmica e dançante para os deuses. Entretanto, os colonizadores não percebiam que se tratava de uma celebração religiosa, o que pode explicar a sustentação dos cultos e da cultura africana no Brasil, mais especificamente na Bahia. Já o semba era o movimento da umbigada que foi inserido nessas celebrações. Como a inserção dos negros africanos escravizados se deu inicialmente na Bahia, consolidando o sistema escravagista no país entre os séculos XVI e XIX, podemos assegurar que o samba “nasceu” aqui, contudo trazido pelos bantos (Pessoa de Castro, 2010). REFERÊNCIAS: Freyre, Gilberto. Casa-grande e Senzala. 51. ed. SP: global, 2006. Munanga, Kabengele. uma abordagem conceitual das noções de raca, racismo, identidade e etnia. palestra proferida no 3º seminário nacional relações raciais e educação. rio de janeiro: 2003. Nina rodrigues, Raymundo. Os Africanos no Brasil. Salvador: Madras, 2008. Oliveira, Eduardo David de. A ancestralidade na encruzilhada. Curitiba: editora gráfica Popular, 2007. Pessoa de Castro, Yeda. A influência das línguas africanas no português brasileiro. Salvador: centro de estudos afro-orientais/UFBA, 1990. ______, Yeda. correspondência pessoal. Salvador: UNEB, Curso de línguas africanas, março e junho de 2010. Reis, João José; Gomes, Flávio dos Santos (org.). Liberdade por um fio: História dos quilombos no Brasil. SP: Companhia das Letras, 1996.


NU CIRCUITO

Madá Negrif Por Inussa Gomes

O cenário feminino da moda soteropolitana tem uma forte representante, com trabalhos que se caracterizam pelos seus traçados coloridos nas peças e, sobretudo, com o olhar afinado para as tendências que fazem parte do cotidiano das mulhe-

res afro-brasileiras. Madá é uma mulher que acima de tudo corre atrás. Filha de costureira, é alguém que cresceu em meio a tecidos, modelagens, fitas métricas, alfinetes, máquinas e foi aprendendo que existia um universo além das

roupas que via nas vitrines. Ela é formada em Estilismo e Produção de Moda pelo SENAC, tendo ganhado, nesta instituição, o concurso em homenagem aos 40 anos da minissaia. O nome Negrif surgiu de

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NU CIRCUITO uma história que se deu do continente africano para o Brasil. Segundo a estilista, um africano que veio ao país à estudo, comprou os seus pro-

dutos e na saída lhe disse que eram muito bons e que precisava de um nome: Negrif. Ela adorou. A tendência é produzir, direcionando apenas

para o conceito Afro. Isto é justamente o que vem a identificar as peças que podem ser encontradas no Salão Negrif.

O estilo Afro vem fazendo um look diferente no mercado: “tecidos africanos são símbolos incompreensíveis para quem não conhece a arte africana”

Madá é a Negrif e leva o seu rosto na expressão gráfica como a própria marca.

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NU CIRCUITO

As ilustrações dos tecidos africanos mostram uma imagem onde o homem não é o centro do Universo.

Negrif aborda nas suas roupas os significados, linguagens e códigos da cultura afro.

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QUE FIGURA

Ordep Serra Entrevistador – Inussa Gomes e Marcio Costa

Tenho a cidade do Salvador e o Recôncavo baiano como constantes objetos: de inspiração, em sua produção artística e de estudos, em sua produção acadêmica e envolvendo os vários aspectos artísticos, culturais e sociais, relacionados a essas regiões, Ordep Serra, escritor premiado, vencedor do prêmio de melhor livro do ano no Prêmio Nacional Academia de Letras da Bahia/Brasken, lá em 2008, com o livro “Sete Portas”, o qual, na época, Antônio Torres julgou como “um livro de contos do peso de um Amarcord de Fellini”, falou, via e-mail, um pouco sobre o seu processo de escrita. Cinzas - Sabe-se que as reminiscências da infân-

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cia de um autor contam muito para sua formação enquanto escritor. Qual a importância de sua infância em Cachoeira para a concepção da inspiração de sua escrita?

Não me preocupo em fixar fronteiras, não me interesso por elas. Ordep - Estou sempre revivendo minha infância em Cachoeira. Posso dizer que minha cidade natal se converteu no meu personagem mais importante, pelo menos nos contos.

Mas eu a tomo como uma síntese do Recôncavo... E por vezes a transformo em outra cidade, que pode estar em diferentes lugares do mundo. Meu interesse de antropólogo pela região se explica facilmente: nunca deixei de me interessar por meu povo, por minha terra. No “Sete Portas” misturei memória e imaginação, mas é claro que minha infância está muito presente neste livro. Transformada, claro: exposta ao impacto do presente e até do futuro. Devo dizer que minha infância cachoeirana está sempre mudando e por vezes se passa em outros locais, em outros tempos. Minha Cachoeira se derrama pelo mundo afora.


QUE FIGURA sempre me encantou por sua beleza, por seu tesouro de ritos e mitos fascinantes. Minha ligação com este mundo é muito forte e na minha literatura isso se manifesta do modo mais espontâneo: tenho sempre comigo os encantados, que me tocam com sua música divina. A escrita literária em que me empenho parte dessa músiOrdep - O candomblé ca, que é a de minha ori-

gem negra. Mas minha origem não me aprisiona, antes me dá liberdade de frequentar diferentes espaços. Minha negritude é multicor.

crítica toda especial e se desenvolvem de forma argumentativa. Isso tende a diferenciá-los da ficção, pelo menos em princípio. Ainda assim, tudo se interpenetra, pois, como bem disse Geertz, estamos na época dos blurred genres. Não me preocupo em fixar fronteiras, não me interesso por elas. As fusões são mais interessantes. Além disso, gosto da variedade.

Nunca me preocupei em saber se um estudo em que me empenho deve ser classificado como antropologia, sociologia ou história, por exemplo. Alguns dos meus escritos literários eu mesmo não sei se podem classificar-se como contos, novelas ou poemas. Isso não me importa. Prefiro mesmo a mistura, frequento os limbos com prazer.

Cinzas - A religiosidade afro-brasileira é característica recorrente de sua produção, seja representada em alguma obra literária, seja tema de algum de seus estudos. Como essa sua relação com o candomblé se manifesta, principalmente, em seu processo de escrita literária?

Ordep - Não procuro estabelecer distância entre minha prosa ensaística e a literária. A diferença dos gêneros pode, por si, criar distâncias, pelo menos na superfície; mas no meu caso elas não são forçadas, não partem de um propósito de separação. O ensaio pode ser, também, uma forma de poesia. Os estudos envolvem uma exigência

Cinzas - Sendo um autor de obras literárias e ensaísticas, o senhor acredita que uma forma de escrita pode complementar a outra? Ou deve-se manter uma distância entre ambas?

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Teatro entrevista

Ao fim de um seminário sobre Literatura afro-baiana, na cidade do Salvador, em que foi discutida a importância do emergir textual negro nas obras dos escritores contemporâneos, tanto os africanos quanto os afro-brasileiros, Ondjaki, Lande e Ordep Serra foram convidados pelo Entrevistador Cinzas, com seu gingado soteropolitano, a irem ao Pelourinho para ouvir o som dos tambores enquanto conversam, molhando as palavras aos goles da cerveja gelada em um início de noite boemia. Todos estão sentados em uma mesa posta ao lado de

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fora do Bar do Carmo, enquanto observam o passar dos que apressam o passo e se aglomeram ao pé da escadaria da Igreja de Santa Bárbara, ao som do Ijexá.

ORDEP (com o semblante reflexivo de um babalorixá): Minha ligação com este mundo é muito forte e na minha literatura isso se manifesta do modo mais espontâneo...

ORDEP (ouvindo o som do Ijexá): O candomblé sempre me encantou por sua beleza, por seu tesouro de ritos e mitos fascinantes.

ENTREVISTADOR CINZAS (enchendo o copo de Ondjaki com cerveja): Ondjaki, para você, o passado é um local de inspiração?

ENTREVISTADOR CINZAS (virando de uma só vez um copinho de cravinho): Essa sua ligação com o candomblé também é bem visível em sua produção escrita, não?

ONDJAKI (distraído com o passar de uma bela moça passível de literatura): Penso que o passado é um desses lugares ao qual poderemos ser sensíveis. Certamente existem outros, e são diferentes de


escritor para escritor. O passado são vários lugares, várias portas e janelas, membros infinitos de um labirinto que influencia a escrita, os afectos, as decisões literárias e até o futuro. ENTREVISTADOR CINZAS (pedindo um cigarro ao atendente do bar): E você, Lande, vê a infância como lugar de retorno à criação?

80 anos, o que já era aos 8... Sendo uma fase onde se consolidam aspectos fundamentais da nossa afetividade e cognição, fatalmente é um minadouro de emoções pra toda vida. Por outro lado, há também uma atitude, essa, sim, consciente de resgatar situações que contenham uma dose de poesia que eu julgue capaz de tocar, instigar, estimular o leitor presente.

LANDE (lembrando de seu tempo de menino em Salvador): Penso que sim, mas como algo inevitável, uma inspiração não exatamente consciente. Já se disse que a pessoa é, aos

ORDEP (se identificando com a traquinagem de um menino descalço): Estou sempre revivendo minha infância em Cachoeira. Posso dizer que minha cidade natal se

converteu no meu personagem mais importante, pelo menos nos contos. Mas eu a tomo como uma síntese do Recôncavo... E por vezes a transformo em outra cidade, que pode estar em diferentes lugares do mundo. ENTREVISTADOR CINZAS (negando o cigarro a um “sacizeiro”) Lande, como se afirma a identidade negra em um país como o Brasil? LANDE (observando enquanto um comerciante branco nega um copo d’água a um catador de latinha): Num país racista como o Brasil, o desen-

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Teatro entrevista volvimento de uma Consciência Negra figura-se como um renascimento. Mal saído da adolescência, com 19, 20 anos a partir da minha aproximação do Movimento Negro, é que meu olhar sobre uma boa parte da existência humana começa a mudar – e a literatura, consequentemente, acompanha essa mudança.

gos, nós e os textos, nós e as palavras. Ou amigos ou amante ou inimigos. Todas essas “tensões” servem para escrever...

LANDE (colocando o copo com firmeza sobre a mesa): De algum modo, penso que nosso texto vem (inter)ferindo a idéia hegemônica (e eurocêntrica) do que se concebe secularmente como liteORDEP (batendo o pé ao ratura, como ‘boa’ literasom de um atabaque): tura. Para mim, a publiMinha negritude é multi- cação foi crucial por, pelo cor. menos, duas razões: onde primeiro publiquei, em liENTREVISTADOR CINZAS vro, e onde começo a lidar (direcionando o olhar a pra valer com a crítica. uma mesa de estudantes de intercâmbio de Ango- ORDEP (em tom afirmatila): O povo angolano se vo): Não me preocupo em assemelha muito ao bra- fixar fronteiras, não me sileiro... interesso por elas. As fusões são mais interessanONDJAKI (rindo vendo um tes. Além disso, gosto da típico “nego do Pelô” cor- variedade [...]. Alguns dos tejando uma europeia): meus escritos literários Ou talvez seja o povo bra- eu mesmo não sei se posileiro que se assemelha dem classificar-se como ao angolano... contos, novelas ou poemas. Isso não me imporENTREVISTADOR CINZAS ta. Prefiro mesmo a mis(jogando fora o cigarro já tura, frequento os limbos quase no final): E o pro- com prazer. cesso de escrita de vocês... ENTREVISTADOR CINZAS (vendo o “sacizeiro” de ONDJAKI (retomando sua antes fumando a bituseriedade lírica comum): ca do cigarro ainda aceO texto e as palavras so que jogara no chão): também falam conosco, Deem alguma recomentambém nos ajudam a dação aos novos escritoseguir um caminho ou se res. recusam a colaborar com ele. O tempo vai dando LANDE (profético): desmais treino e sensibilida- cobrir que o grande sol de. E vamos ficando ami- vai dentro de cada um de

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nós. Não devemos temê-lo, porque o medo é, como sabemos, o avesso da realização. ONDJAKI (aconselhando como um griot africano): Ler. Cruzar o pensamento com o sentir, exercitar, viver, aprender a ler os medos, aprender a ler as armadilhas do Ego. E ler. E depois esquecer tudo isto, e recomeçar do vazio. E voltar a ler. É um caminho cíclico de aprendizagens que não tem fim. No fim, será bom se formos abençoados com o dom de alguma humildade. ENTREVISTADOR CINZAS (olha as horas em seu celular sem crédito): Teria uma aula neste mesmo horário, mas o Pelourinho me segura... ONDJAKI (sorri timidamente): Sou mais a pessoa do pátio da universidade, com cigarros e conversa, do que aquele aluno da sala de aula... O som dos atabaques vão aumentando e começam a abafar o som das vozes dos entrevistados, os quais se veem atraídos até aquela escadaria que ecoa toda a beleza do povo baiano. O Entrevistador Cinzas pega outro cigarro ao pagar a conta e inicia mais uma aventura na noite com os grandes escritores, Ondjaki, Lande e Ordep Serra.


ENTORNOS

Narandiba em negrito Por Davi Nunes

A Minha avó, Maria Alexandrina e a Xanda, preta velha, conhecedora das folhas da antiga Narandiba, In memoriam. Estórias sempre deveriam ser grafadas numa estética escritural em negrito. Essa fonte tem o ensolarado civilizatório, a queimar a palidez fantasmagórica e clássica do papel em branco, explicitando e criando outras civilizações: quilombos, tribos, guetos, favelas, que transpassam sua cultura e costumes no boca-a-boca atemporal da oralidade. Uma anti-episte-

me clássica surge vivaz, “barulhenta” ressoante como som de tambor, a tecer e construir, neste breve ensaio, conhecimentos sobre o bairro Narandiba, localizado no Cabula, centro geográfico da cidade do Salvador-Ba. Narandiba é uma palavra de origem tupi-guarani: [narã(laranja) + diba ( lugar)], ou seja, significa literalmente “lugar com muita laranja”. O Cabula, até a metade do século passado, se caracterizava como local que possuía muitas fazendas de

laranjas, responsáveis por abastecer, com este produto, grande parte da cidade do Salvador. Dessa herança cítrica e agrária está à origem do nome do subdistrito, Narandiba. Com a modelação moderna do bairro: a construção da Avenida Edgar Santos, do Hospital Geral Roberto Santos, do hospital psiquiátrico Juliano Moreira, entre outras obras, que incentivou a vinda de um grande contingente populacional do interior do Estado - foram-se as laranjas, ficou-se o belo nome indígena. Narandiba é toda delimi-

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ENTORNOS tada por marcos institucionais: o monumento ao médico e primeiro reitor da Universidade Federal da Bahia-UFBA, Edgar Santos (1884-1962) conhecido por todos os moradores do bairro como “cabeção”, localizado na encruzilhada entre Cabula, Narandiba e Saboeiro, onde as oferendas a Exu, orixá da comunicação, da fertilidade, são ofertadas para abrir o canal de comunicação e pedir a benção a todos os ancestrais, que na escravatura, foram quilombos do Cabula. Outra instituição importante é o hospital, que leva a nomeação do médico, professor e político, Roberto Santos, hospital que trata das enfermidades dos soteropolitanos, como dos baianos de vários outros municípios; além disso, outro estabelecimento tradicional no bairro é o hospital psiquiátrico que leva o nome do primeiro professor universitário negro no Brasil, um brilhante intelectual, percursor da psiquiatria brasileira, Juliano Moreira (1873-1932). A ocupação do território do bairro, com a densidade demográfica que se encontra na atualidade, começou há pouco tempo, na década de 90, se comparado com outros subdistritos do Cabula. Nesta época, o morro que fica abaixo do Hospital Geral Roberto Santos

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foi sendo ocupado, como as margens direita e esquerda da Avenida Edgar Santos, constituindo, não sem a opressão do estado, os intra-bairros, denominados pejorativamente de “invasões”, que foram formando guetos, os quais possuem uma dinâmica permeada de trocas solidárias, traços reminiscentes de quilombo; a construir costumes, hábitos e culturas, formando outro modelo civilizatório menos empalidecido, mais negrito.

bula, para se banhar nele. Boa parte do território nessa região era revestido de água doce, e, com a modernização periférica do bairro, tudo foi virando asfalto, pista, esgoto.

Outro aspecto de Narandiba é o forte comércio de bens e serviços (formais e informais), que dinamizam o cotidiano da comunidade. Mercadinhos, mini-shoppings, padarias, pequenas empresas, além da poderosa multinacional brasileira, a Odebrecht, que se enSegundo estórias conta- contra instalada no subdas pelos moradores mais distrito. A mata atlântica antigos, principalmente a foi quase completamente negra Xanda, que residia destruída, a natureza já na Rua Edgar Medrado não oferta os frutos, que Junior, em depoimen- até a década de 80, se to anterior a sua morte, conseguia com facilidade. este ano, ao remontar a Tudo agora se possui e se Narandiba anterior a essa consome pelo intermédio constituição contempo- do “Deus visível”, o capirânea e urbana de um tal. bairro da periferia, falou sobre a beleza da região: No interior dos intra-bairdos rios, fontes de água e ros se encontra ainda, em cachoeira; da abundancia Narandiba, resquícios da de frutas, de pescados constituição antiga do e de caças. Disse ainda, bairro. Na mata restante através da sua sabedo- se sente o cheiro de quiria oral de preta velha, lombo; nas casas de laje, que no local onde hoje é telhas e blocos vermeuma praça, a “Rótula do lhos, todos olham ainJuliano”, lugar de recrea- da a vida um dos outros; ção, shows de pagode, de compartilham os medos, hip-hop, jogos de futsal e as estórias, as violências basquete; um espaço de cotidianas; resistem, com entretenimento coletivo coragem, às interpeles da dos moradores da comu- vida; constroem costunidade, mas que em épo- mes, hábitos e culturas, cas remotas foi um rio em um modo civilizatório em que o povo saía do Beiru, cor negrita. e de outros locais do Ca-


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Modernos demais Casos, lances, bolos-doidos. Brevidade. Não há tempo para gaguejar, engasgar, mastigar. Engula o outro! Coma a outra! Rapidez. É, piva: perdeu a sua vez! O próximo, por favor, porque a fila corre na escada rolante. Agora não! Não tenho tempo, você também não. Já deu a hora. Vou-me embora! Mas pra onde vou não sou nem conhecida do mordomo porque lá não é Pasárgada. Pra onde vou? Sigo partida nessa partida. Vou partir a mil, a mim, a ti, os nós de nós. Vou vazar, curvar o beco, abrir o gás, cair fora. Agora! Em boa hora? Com quem? Pra lugar Nenhum. Vamos embora, vumbora, bora, bó! Bó no mesmo caminho, mas de almas separadas. Bora pra um mesmo canto sem cânticos, com vísceras. Vamos embora apresentar fora dos palcos a nossa representação de nós mesmos. Diante de mim, um outro tão (mal) vestido, velado. Véus, elmos, capas, coletes à prova de toques, alma à prova de alma. Figurino da moda (?). Comprei também, vesti também, embrulho pra presente! Vamos em boa hora com nossos corações desalinhados, mas escorrendo volúpia por entre as pernas e com olhos flamejantes. Por Verusca Cristina

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CAPOEIRA

ÁGUA-FORTE PARA SALVADOR A cidade é um cavalo sem cabrestos! Desossou o que restou de caçador de borboletas em mim. Desprecavido tornei-me peixe adormecido no ritmo. O horror rói os meus olhos: um camundongo delira no asfalto. Brota-se, então, carnudas pétalas nos olhos de quem o ver. A boca desnutri-se paralítica, pois a fome é um cão violento. Por Jurandi Rita

Ê capoeira! No melaço de cana, Na cana um melaço, Na roda de samba, Num jogo de perna e de braço. Um branquelo na roda Sambando feito mulata, Vibrante ao som de cordas, Queimante feito fumaça. Na favela Pageu, Aruak, Jê, Canudos, Guerra, guerreiro, No sotaque do mestiço, Capiba, capora, Capoeiragem. Um menino jogando capoeira, Uma cabocla, uma rendeira, No Raso da Catarina Virgulino Ferreira. No som do birimbau Mestre Bimba Cortando em miúdos o vento. Um negro bem aguerrido Dando murro em ponta de Faca, facão, Gulha, punhal, navalha, Na Matadeira. Ê capoeira! Ê camarada! Ê bagaceira! Cabocla mulata. Por Paulo Monteiro

vicio de linguagem Minha língua em tua vagina toda tarde Por Alan de Barros

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PIMENTA NOS OLHOS

Na boa, véi! Isso é ranço da miséria ideológica. Por Pardal do Jaguaripe

Acomodado numa das poltronas reservadas, na primeira fila do já lotado salão nobre da universidade, João sente que olhares de censura o fuzilam pelas costas. Movido por um instinto de defesa aguçado, vira-se e constata quão incômoda é a sua presença naquele ambiente, já que os olhos da plateia se esbugalham ainda mais escandalizados, quando percebem os traços grossos de sua face negra como as noites sem luar. Voltando-se novamente para frente, percebe de soslaio que uma distinta senhora, sentada à sua direita, mede-o da cabeça aos pés com a indiscrição acintosa dos alcoviteiros. Com o intuito de amainar aquela situação nada confortável, ele a encara com uma lua nova entre os lábios, abrindo a possibilidade para um contato mais amistoso. Contudo, a reação imediata da respeitável senhora é a de estreitar a bolsa contra o próprio corpo, escondendo o colar de madrepérolas que ostenta sobre o busto pálido e pelancudo. Diante de tal gesto descabido, só se confirma o

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que ele já desconfiava. autoridade do recinto: Aquela hostilidade gene- – Agora, para compor a ralizada é mais um caso mesa, convidamos a Vosde... sa Excelência, Senhor Ministro João da Silva dos Porém, antes de concluir Santos. o fatídico raciocínio, vê-se obrigado a desviar a Para o espanto geral da atenção para a esquerda, plateia e palidez cadapor causa de um tapinha vérica do tipo caucasiaindelicado que recebe no no engravatado, João ombro. levanta calmamente da poltrona, revelando os – Bora levantando daí ne- longos dreadlocks pengão! Ó... Não sabe ler não, didos sobre a face talhaé? Rosna em seu ouvido, da pelos traços fortes de um tipo caucasiano ar- sua ancestralidade afrirogante e engravatado, cana. Logo, um crescente apontando ostensiva- “Óooo!” de pasmo em dó mente o aviso que indi- maior ecoa por todos os ca “reservado” na parte cantos do recinto, dianposterior da poltrona te daquele “espetáculo em que aquele João-Nin- escabroso”, para usar as guém teve a audácia de palavras da distinta sese sentar. nhora das madrepérolas no momento em que conSem dar tempo para uma templava, horrorizada, o resposta à altura dessa negro mais importante afronta tão indecorosa, que já tinha visto em toda o tipo caucasiano engra- sua vida. vatado se dirige para o palco, traçando todos os Talvez, o tom ficcional passos da etiqueta re- da narrativa acima poscomendada, iniciando a sa induzir o leitor a crer solenidade na condição que essa cena tenha-se de mestre de cerimônia. passado em alguma tePassadas as ladainhas ini- lenovela das oito, marcaciais, comuns às soleni- da pela sordidez de seus dades mais pomposas, eis personagens e pelos fique o tipo caucasiano en- nais clichês de cunho mogravatado convoca para ralizante. Porém, essa é a subir ao palco, a maior realidade diária de mui-


PIMENTA NOS OLHOS

tos “Joões-(que uma parte conservadora da sociedade brasileira insiste em enxergar na eterna condição de)-Ninguéns”.

influentes na conjuntura social brasileira. Diante desse panorama histórico promissor, infelizmente, ainda se configura como regra a lógica reacionária Isso se torna ainda mais de que quanto mais alta evidente com o crescente é a posição ocupada pelo ingresso dos indivíduos negro, mais preconceito negros e afrodescenden- ele sofre. Na esteira destes nos espaços de poder, sa equação diretamente quando passam a ocu- proporcional, os setores par, cada vez mais, posi- mais conservadores da ções decisivas e cargos sociedade brasileira ain-

da lançam mão do velho e eficiente mito da democracia racial para encobrir o apartheid real e simbólico que, silencioso, opera sorrateiramente em prol da manutenção daquele país do final do século XIX, conhecido por ter sido o último do mundo a sair do modo de produção escravista. Mas, como “quem fala

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PIMENTA NOS OLHOS bem macio, acaba ouvindo alto”, para citar o grande sambista baiano, Ederaldo Gentil; o discurso hipócrita e aveludado de que vivemos em “um país miscigenado e sem preconceito racial” (cuja finalidade é a de perpetuar a perversa exclusão étnica que se opera desde os tempos da escravidão)

recebeu um duro golpe com a implantação do sistema de cotas raciais nas universidades públicas.

negadas à grande parcela afrodescendente da população brasileira para serem doadas àqueles que se valiam do nepotismo, dos processos seletivos fraudulentos e do clientelismo para assegurar os seus privilégios hereditários.

que cotas sempre existiram em nosso país, só que, antes, eram destinadas aos filhos da Casa Grande e, agora, passaram a ser reservadas aos filhos da Senzala. Daí, a importância de serem necessariamente raciais. Desse modo, através das cotas, os negros e afrodescendentes terão a

Logo,

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pode-se

afirmar

didas antidemocráticas. Porém, os mesmos não percebem que tal discurso reacionário é tão infundado quanto um castelo de cartas ao sabor das De imediato, surgem os brisas. Afinal, o que as codefensores da democra- tas raciais corrigem, são cia excludente entoando, justamente as discrepânraivosos, o discurso da cias históricas no campo meritocracia para rotular das oportunidades, já que as cotas raciais como me- as mesmas sempre foram

oportunidade de se inserirem, aos poucos, nos espaços de poder da sociedade brasileira, pois, só assim se conseguirá eliminar das (in)consciências, o ranço da miséria ideológica que se revela das mais explícitas às mais discretas formas de preconceito racial.


CATA(E)VENTOS

BAILE BLACK BOOMBASTIC DE SALVADOR Por Inussa Gomes

Salvador da Bahia, coração do Brasil. Cidade abençoada por todos os Santos onde “porra” tem sete sentidos e de um povo alegre e feliz, portadores de axé. Uma das

únicas do mundo com duas cidades em uma só, baixa e alta, e ainda com elevador e tudo para transportar. Onde o povo mora no Uruguai e trabalha todos os dias

em Roma. Do Pelourinho, onde batuque e reza se beijam e Jesus tem o seu próprio terreiro, e onde a rua é a academia patenteada na formação dos artistas.

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CATA(E)VENTOS Black Boombastic de Salvador, nome inspirado no sucesso musical do artista Shaggy, durante a década de 1990. A ideia surge de uma grande confraternização entre Afro Jhow e seus amigos para comemorar mais uma edição de seu aniversário, ocorrido em junho de 2012 e apresentando, em primeira mão, o seu novo trabalho musical com uma incrível mistura de ritmos.

Afro Jhow busca parceria com o Sankofa Africanbar, através de uma agradável estrutura rústica, permitindo que o cenário faça parte do conteúdo de sua festa com pista de dança, lounds, áreas para fumantes e decoração que refletem a sua inspiração musical. Destaque também para a localização, mais que acessível ao público, em um Pelourinho que já é propício à festa.

A partir da ideia de reunir amigos, o Rapper Afro Jhow divide o palco com artistas, como: Mr. Armengue, Coscarque (seu parceiro em algumas produções), Léo Souza, Fábio Jahgun (compadre de Afro Jhow que, vivendo na Califórnia-USA, desenvolve um trabalho inovador de reggae), Dj Leandro (curador do projeto Vitrola 71), Dj Kiko ( músico do projeto), dentre outros.

Fica então a expectativa que, pagando apenas R$ 10,00, o público se agitará no verão de Salvador com edições quinzenais no já consagrado Baile Black Boombastic. A primeira edição foi um grande sucesso em Salvador se tornando uma festa que se consolida cada vez mais. A explosão nas redes sociais inevitavelmente faz Afro Jhow pensar nas próximas edições da festa, acreditando que deve manter a presença de convidados, colaborando com a difusão de novas produções para a cena musical em Salvador.

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Nesta nova edição do Baile BlackBoombastic, Afro Jhow apresenta novo projeto intitulado Afro Jhow - Misturando Ritmos e Emoções -, consolidando sucessos, como: I Love My Hair, Me Leva Pro Céu, Dendê de Oya e Eu sou Quilombo. O show destaca-se por um estilo altamente dançante e um repertório diversificado, composto por: Hip Hop, Zouk, Samba Reggae, Semba, Soul, Raga Mur-

fing e Dance Hall. Fica então a expectativa que, pagando apenas R$ 10,00, o público se agitará no verão de Salvador com edições quinzenais no já consagrado Baile Black Boombastic.


Cinzas no Café  

revista cinzas apresenta a 3 edição

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