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© 2012 Antônio Carlos Cintra do Amaral Edição e produção Edições Jogo de Amarelinha Projeto gráfico e diagramação Alexandre Calderero Lamonato Capa Cristiane Takeda Foto capa Ana Paula Hirama Revisão Claudia Maietta

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Amaral, Antônio Carlos Cintra do O Coronel de Amendoeira / Antônio Carlos Cintra do Amaral — São Paulo: Edições Jogo de Amarelinha, 2012 ISBN 978-85-99188-16-0 1. Amaral, Antônio Carlos Cintra do, 1932 2. Romance brasileiro I. Título.

CDD-869.93 Índice para catálogo sistemático: 1. Romances: Literatura brasileira 869.93

Impressão Digital Page ISBN 978-85-99188-16-0 Todos os direitos reservados ao autor - 2012 Edições Jogo de Amarelinha www.jogodeamarelinha.com.br amarelinha@jogodeamarelinha.com.br Tel.: 11 3255 6523 Antônio Carlos Cintra do Amaral www.cintradoamaral.com.br www.celc.com.br cintradoamaral@celc.com.br 1a edição 1a impressão


Não poderia deixar de agradecer a meus filhos, bem como aos sobrinhos da família Amaral Chianca, que me estimularam após lerem os originais, em especial a Flávio e Marcelo, pelas valiosas observações que fizeram, e a Leonardo Chianca, pela dedicação e entusiasmo ao editar meus livros não jurídicos.


Prólogo Durante os cinco anos que passei na faculdade, um de meus melhores amigos – companheiro de estudos e de “peladas” de futebol – era um aluno nascido no alto sertão do Nordeste. Nas horas vagas, conversávamos muito sobre o sertão. Ele costumava contar histórias que me fascinavam, a mim que nascera no litoral mas que tivera oportunidade de, ainda estudante, percorrer quase todas as cidades do Estado, atrelado a uma campanha política em que me engajara no início da década de 1950. A história que se segue foi contada por esse colega, que me afirmou ser verdadeira. Acreditei em tudo que me contou, porque de palavra de sertanejo não se duvidava, pelo menos naquela época do “fio do bigode”, e anotei todos os detalhes. Agora, décadas após, decidi organizar as anotações e publicar a história. Tomei o cuidado de mencionar os personagens com nomes fictícios e mudar os nomes das cidades, especialmente o da cidade-título. O leitor pode estar certo de que não existe a cidade de Amendoeira no Nordeste brasileiro, se bem que certa vez passei lá uma semana de férias...


1. Andavam lado a lado. O moço e o velho. Devagar, como se nenhum dos dois quisesse chegar. Não trocavam uma só palavra. Imersos em seus pensamentos, imaginavam até que ponto deveria ir a lealdade entre filho e pai. Caminhavam juntos, para um desenlace que só um deles sabia qual seria. Passo a passo, aproximavam-se do destino. Ao longe, ouviu-se o apito de uma locomotiva... A história começa e termina aqui.


2. Teodorico Raposo nasceu na década de 1880, filho do coronel Onofre Raposo e de sua mulher, D. Marieta, no povoado de Timbi, que na época era distrito de Cavaleiro e que se tornou distrito de Amendoeira quando esta se separou e passou a ter status de município. Casou-se muito moço, ainda na década de 1900, com Dorotéa, filha do fazendeiro João Pedrosa, moça que conheceu quando ela estava noiva, de casamento marcado, com um jovem médico que clinicava na região. Foi paixão à primeira vista, e Dorotéa rompeu o noivado às vésperas do casamento. O escândalo foi grande e teria sido maior se em jogo não estivesse o filho de um coronel, em competição amorosa com um simples médico de interior.


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Alguns historiadores chegam a dizer que foi o amor entre Teodorico e Dorotéa que inspirou a letra de uma música antiga, que ainda hoje é cantada nas festas de São João em toda a região: Com a filha de João, Antonio ia se casar, mas Pedro fugiu com a noiva, na hora de ir para o altar! Há quem diga, porém, que a música é bem mais antiga. Poucos meses após o casamento, Dorotéa ficou grávida. Gravidez difícil, problemática, de alto risco, que não chegou ao nono mês. Ficou no oitavo, quando nasceu João Pedro. Teodorico ganhou um filho e perdeu a mulher. Dorotéa não resistiu. Viúvo, Teodorico jamais casou de novo, mesmo quando faleceu o coronel Onofre, que lhe transmitiu o título honorífico, mas nada desprezível, de coronel Raposo. Diziam as más línguas, porém, que viúvo ficou Teodorico, mas aberta continuou sua fábrica, voltada agora para a produção de filhos naturais e adulterinos. Legítimo, só João Pedro, de quem o coronel, por força das circunstâncias, foi pai e mãe ao mesmo tempo. Este, por sua vez, casou com a filha sem graça do coronel Policarpo Ramalho, que lhe deu dois filhos, Teodorico Neto e Eládio. As mesmas más línguas comentavam que a fábrica de João Pedro não apenas fechou, mas foi desmontada... 2


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Na metade do século XX, quando se passa esta história, a família Raposo era composta do coronel Teodorico, o filho João Pedro e os netos Teodorico Neto e Eládio. E a nora, D. Mariinha, que passava tão desapercebida que era como se não fosse da família. Este era o núcleo de poder da família Raposo. Mas o clã era bem mais numeroso. Teodorico, terceiro filho e herdeiro político do coronel Onofre, tinha cinco irmãs e três irmãos. As irmãs tinham, todas, nomes que começavam com a letra “S”: Sebastiana, Severina, Salustiana, Suzana e Solange. Os irmãos, com a letra “T”: Teodoro, Teodomiro e Tiago. Comentava-se que com a idade o coronel Onofre passara a apurar seu bom gosto, pelo menos no que se referia à escolha dos nomes de filhas e filhos... Em Amendoeira, permaneceram as três irmãs mais velhas, Sebastiana, Severina e Salustiana. Todas casadas, com maridos sertanejos bem estabelecidos. Os demais debandaram para a Capital, salvo Teodoro e Tiago, que se aventuraram a ir mais longe, rumando para São Paulo. Teodoro tornou-se próspero empresário de transporte de cargas e Tiago balconista em uma loja de departamentos. Com exceção de Suzana e Tiago, todos estavam casados, com filhos. Se Teodorico, pelo menos oficialmente, tinha apenas um filho, seus sobrinhos já eram mais de trinta. Nos fins de ano, a família costumava reunir-se em Amendoeira para as festas de Natal e Ano-Novo. Nem sempre, porém, se conseguia a adesão de todos. Mas quando o motivo da ausência era falta de dinheiro, deixa estar que o coronel Teodorico cuidava de dar um jeito.


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2 O coronel Teodorico era um homem moreno, de quase um metro e noventa, corpulento, de cabelos e bigode brancos, cuja figura majestosa, por si só, inspirava respeito e temor, não bastasse a posição de comando que ocupava na comunidade. Quando falava, sua voz de barítono ecoava longe. Era dessas pessoas que não conseguiam falar baixo. Seu filho, João Pedro, quase tão alto quanto o pai, era esguio, reservado e jamais erguia a voz. Isso quando falava, o que era raro. Gostava de ler e passava horas fechado em um mundo só seu, de difícil acesso aos outros. Sua esposa, D. Mariinha, era baixa, rechonchudinha, alva, de cabelos pretos, apagada, mais calada ainda que o marido. Teodorico Neto e Eládio misturavam os tipos físicos do pai e da mãe. Não tinham ultrapassado o metro e oitenta, mas eram robustos e bem-apessoados. Eládio, ainda adolescente, talvez chegasse perto da altura do pai quando terminasse de crescer. A influência do coronel tinha como base Amendoeira, mas estendia-se às cidades ao redor, sobretudo Cavaleiro. Ele firmava seu poder na persuasão e no assistencialismo. Era raro usar a força. Só vez ou outra é que se notava que ele não estava para brincadeiras. Foi em uma dessas vezes que Olavinho, jovem sobrinho do farmacêutico da cidade, seu Olavo, desapareceu. Olavinho mal tinha ingressado na casa dos vinte. Morava na Capital com os pais. Costumava passar as férias de fim de ano com o tio, em Amendoeira. Em uma dessa férias começou a namorar Silvana, filha de


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Salustiana, moça de dezoito anos, bonita e extrovertida demais para os padrões locais. Em um fim de ano, começaram a namorar. No ano seguinte, continuaram namorando, cada vez mais apaixonados. Comentava-se na cidade que o namoro dos dois estava tórrido demais. Eles chegavam a ignorar a opinião pública, tendo sido surpreendidos, mais de uma vez, abraçados em plena rua, o que provocava a indignação das beatas da cidade, ao mesmo tempo que alimentava os mexericos. Foi na segunda visita de Olavinho a Amendoeira, na qualidade de namorado de Silvana, que apareceu Gercino. Gercino era um caixeiro-viajante que estivera cerca de três ou quatro vezes em Amendoeira, sempre de passagem. Nunca se soube de onde vinha nem para onde ia. Carregava uma maleta enorme, dura, cheia de quinquilharias. Alojava-se em uma pequena hospedaria, situada na praça em frente à igreja, e passava os dias a percorrer a cidade e conversar no terraço, sentado em uma cadeira de balanço. Era esquisito: ele terminava não vendendo nada. Nem empenho tinha em fazê-lo. Ficava três ou quatro dias e ia embora. Os moradores de Amendoeira não eram tolos. Perceberam que durante as visitas de Gercino sempre sumia alguém da cidade. Mas como os que sumiam não tinham maior projeção na comunidade, evitavam buscar explicação para tal coincidência. E os amigos e parentes do desaparecido não se atreviam a fazê-lo. Mal Gercino tinha depositado sua maleta na hospedaria, já corria na cidade a notícia de sua chegada, e a especulação sobre quem sumiria dessa vez.


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Foi dois dias após a chegada de Gercino que Olavinho saiu da casa do tio, de manhã cedo, para visitar um primo que morava fora da cidade. Horas depois o cavalo de Olavinho estava de volta. Sem Olavinho. Seu Olavo procurou o filho, que informou que há dias não via o primo. Organizaram uma equipe e vararam a noite em busca de Olavinho. Em vão. Ele jamais reapareceu. No dia seguinte, Gercino pagou a conta na hospedaria, pôs a maleta no Ford 1929 em que viajava, e voltou para o lugar de onde viera... Silvana ficou inconsolável. Solidário na dor, o coronel Teodorico pagou-lhe passagem para visitar o tio Teodoro, em São Paulo. Lá, ela afogaria suas mágoas e esqueceria Olavinho. A família Raposo deu seu diagnóstico: Olavinho fugira com alguma moça de Cavaleiro e devia estar passeando com ela na Capital. O padre Olinto foi o primeiro a concordar com os Raposo. Contou que na última vez que estivera na Capital vira um casal jovem passeando, de mãos dadas, por uma das ruas do centro. E ele era capaz de jurar que o rapaz era Olavinho. A grande maioria aceitou a explicação, sobretudo depois que o padre Olinto contou sua história. Os mais céticos, porém, a consideraram muito fantasiosa e duvidaram de sua veracidade. Sobretudo depois que o padre Olinto contou sua história... Silvana fora passar uma temporada na casa do tio. Voltou a Amendoeira para as festas de fim de ano, cinco anos após. Acompanhada de um filho de cerca de cinco anos, que muita gente achou parecido com Olavinho, embora ninguém se atrevesse a fazer essa observação.


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E a vida corria, mansa e tranquila, para a famĂ­lia Raposo...


3. Teodorico Raposo Neto. Rapaz guapo, de vinte e um anos, trabalhador, cobiçado por todas as moças casadoiras de Amendoeira, cidade pequena, situada no interior do nada, longe de tudo, inclusive da Capital. Teodorico, como o nome dizia, era neto do coronel Teodorico Raposo, que corporificava a lei, a ordem e o progresso, na cidade e adjacências. O governador – fosse ele quem fosse – quando se deslocava para a região fazia questão de visitá-lo para almoçarem ou jantarem juntos e quase sempre dormir em sua fazenda. Era lá, na imensidão do terraço da casa, que o coronel Teodorico brindava aos que o procuravam, com sabedoria e generosidade, dando verdadeiras aulas práticas sobre como se deveria exercer o poder em uma região árida, áspera, habitada por um povo bom, mas analfabeto e ignorante.


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Teodorico Neto não tinha semelhança com o avô. Salvo – algumas pessoas mais velhas afirmavam – uma parecença física que ainda se notava nas fotografias antigas, desbotadas, do coronel quando moço. O sonho de Teodorico Neto não era mandar e ser obedecido, governar a vontade dos outros ou exercer qualquer tipo de poder, exceto o de seduzir as moças pelos textos de sua poesia. Teodorico Neto não era apenas poeta, mas também compositor e sanfoneiro. Seu sonho era tornar-se uma figura tão popular quanto o famoso “Rei do Baião”. Imaginava suas apresentações em todo o estado, quiçá no Nordeste e no país. Se havia um rei, por que não poderia ele tornar-se príncipe? Enquanto Eládio, seu irmão, três anos mais moço do que ele, estudava com afinco para cursar direito na Capital, Teodorico parou ao concluir o ginásio. Daí em diante, preparou-se para ser o artista que gostaria de ser. O coronel Teodorico adorava o neto mais velho. Dizem que os opostos se atraem. Os dois Teodoricos nada tinham em comum. O coronel não gostava de música nem de baião, e muito menos de poesia. Mas era fã do “Rei” e dava-se às mil maravilhas com o neto. Diziam alguns que Teodorico Neto era o Teodorico que o coronel gostaria de ser. Mas isso era visto com reservas, porque ninguém era capaz de imaginar o coronel Teodorico, em um palanque, vestido a caráter, tocando sanfona e cantando “Asa branca”. Foi com a poesia, a sanfona e cantando baião que Teodorico Neto conquistou Ritinha. Rita de Cássia Almeida, de dezessete anos, faceira, que ele considerava a moça mais formosa de todo o Nordeste, quiçá do estado, quiçá do país e do mundo.


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2 No início, Teodorico gostava muito do seu nome. Isso quando criança, até a adolescência. Mas ao chegar à idade de refletir o que queria da vida, passou a considerá-lo um fardo a carregar. Ele era paparicado como o neto favorito do coronel Teodorico, aquele que levava o nome do avô. Mas em um dado momento passou a perceber que o nome lhe fora dado por um pai que, por incapacidade ou inapetência, não pretendia assumir a sucessão dos Raposo, e tinha a esperança de que o filho o fizesse em seu lugar. Para ele, porém, o pai não havia sido o único responsável. Também o avô – consciente de que o filho puxara a sua mulher, D. Dorotéa – influíra na escolha do nome do neto, já imaginando um futuro coronel Teodorico Raposo Neto, que viesse a sucedê-lo. Aos quinze anos, Teodorico já compunha canções e escrevia poesias. Dizem que era dele a música, famosa no sertão, que animava as festinhas de rua e os forrós em recintos fechados: “Sinhazinha, moça bela, filha de um fazendeiro. Encontrei-a na capela, casando com um violeiro. Rapaz de pouca idade, cheio de animação, que com ela na cidade foi tocar seu violão. Lero, lero-lin, lero, lero-lin, lero, lero-lin,


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Lero, lero-lin, lero, lero-lin, lero, lero-lin Mas um dia o lero partiu, e Sinhazinha nunca mais o viu!” Mas essa era uma das lendas que se contavam no sertão. Ele bem que gostaria de tê-la composto. Assim como gostaria de compor outras músicas que se tornassem conhecidas e cantadas nas festas da região. Como aquele coco, que era o seu favorito: “Esta nêga é o coco de estambiro, biro-biro, Esta nêga é o coco de estambiro, biro-á, Esta nêga é o coco de estambiro, biro-biro, Esta nêga é o coco de estambiro, biro-á. Ói o coco peneruê, Ói o coco peneruá. Roda a volante puxavante a manivela Meu mano carrega ela e bota azeite pra mancá. Tenho uma faca, uma pistola, uma riúna, Quando o cabra se arripuna, Bole em baixo, o tiro, pá! Ói o coco peneruê, Ói o coco peneruá.” Adorava seus pais, assim como seu avô. Mas preferiria chamar-se Antonio, José ou qualquer outro nome que não lhe atribuísse a responsabilidade, implícita, de perpetuar os coronéis Raposo, de Amendoeira. Teodorico, porém, era de boa índole. Seu objetivo era ser feliz. E felicidade, para ele, era compor e cantar músicas, escrever poesias e amar Ritinha.


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2 Ritinha era a paixão não apenas de Teodorico Neto, mas da maioria dos rapazes de Amendoeira abaixo dos trinta anos. Seu pai, Antonio Almeida, falecido quando ela ainda era criança, havia sido o farmacêutico da cidade. Muito benquisto, atendia a todos, ricos ou pobres. Diagnosticava seus males, indicava a medicação a ser seguida e chegava a distribuir remédios entre os mais necessitados. Quando não os obtinha de representantes dos laboratórios da Capital, pagava do próprio bolso. A mãe, Dinorá, era diretora do grupo escolar, educadora respeitada em toda a região. Diziam mesmo que era comum seu nome ser citado na Capital, como exemplo de dedicação ao desenvolvimento do ensino no sertão. O casal tivera duas filhas. A mais velha, Dulce, ingressara na Ordem das Carmelitas Descalças, onde passou a servir a Deus. Constava que se entendia direto com Nossa Senhora, se bem que isso nunca foi comprovado, já que ninguém a via ou conversava com ela, recolhida à clausura como vivia. Já Ritinha era o oposto. Desde cedo lançava aos mancebos seu charme irresistível, e seu sonho era casar com um homem rico e poderoso que lhe abrisse as portas para uma vida de luxo e prazer. Aos quinze anos, havia quem dissesse que sua virgindade se fora com Demóstenes, filho do doutor Otelo, médico da cidade. O pai do rapaz apressou-se a mandar o filho estudar na Capital.


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Se Ritinha, aos quinze anos de idade, era ou não virgem, ninguém sabia. Mas todos, ou quase todos, afirmavam que não era mais. E com isso Ritinha passou a integrar o rol das chamadas moças “malfaladas”. Mas Teodorico Neto, à frente do seu tempo, pouco se importava com essas tolices. 2 Nos últimos tempos, dizia-se que Ritinha estava de caso com um homem mais velho, provavelmente casado ou viúvo. Alguém, de Cavaleiro, contou a alguém, de Amendoeira, que contou a outros alguéns, que os amantes costumavam encontrar-se em uma casinha em Cavaleiro, à beira do riacho que passava fora da cidade, se é que se podia chamar de riacho um curso d’água que ficava, durante quase todo o ano, sem água. Dizia-se que o homem era abastado e estava apaixonado pela moça. Mas que não se sabia mais sobre o caso porque os dois mantinham-se muito discretos. Dizia-se, ainda, que Ritinha tinha confidenciado a Marilda, sua melhor amiga, que também ela se sentia feliz. E que Marilda aconselhara: “Isto não dará certo, Ritinha! Vá procurar um rapaz de sua idade! Por que não Teodorico?”

Daí o namoro de Ritinha com Teodorico. Marilda, em reconhecimento, foi convidada para madrinha dos dois casamentos, o civil e o religioso. 2 Ritinha estava eufórica. Os preparativos tomavam-lhe todo o tempo. O grande dia estava chegando. Às vezes,


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surgia-lhe uma dúvida, que ela de pronto afastava. Gostava de Teodorico Neto, sentia por ele atração física. Gostava de sua permanente alegria. Das músicas que compunha para ela, dos versos que lhe dedicava. Não escondia que estava deslumbrada com o fato de tornar-se uma Raposo, respeitada na cidade e na região. Talvez um dia convencesse Teodorico a ir para a Capital, quem sabe? Viajar, conhecer novas cidades, ir ao sul, gozar a vida. Mas, no íntimo, sabia que não estava apaixonada por Teodorico. Com o tempo, porém, tinha certeza de que esse inconveniente seria superado. Quinze dias antes do casamento, Ritinha estava experimentando o vestido de noiva quando um menino lhe entregou um envelope. Continha um bilhete datilografado, sem assinatura: Leviana, falsa, irá casar-se apenas por interesse. Mais cedo ou mais tarde será castigada. Ritinha estava lendo o bilhete quando apareceu Marilda. “O que é esse papel que você tem na mão?” ­Uma carta anônima. Deve ser de algum louco. “ Um monte de bobagens”.

E rasgou o bilhete em pedacinhos, jogando-os na cesta de papéis. Volúvel como era, cinco minutos após havia esquecido o assunto. Voltara a preocupar-se apenas com o casamento e a festança que estava programada para o dia em que ela se tornaria Rita de Cássia Almeida Raposo, casada com o neto do famoso, rico e poderoso coronel Teodorico Raposo.


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2 O namoro foi curto, como curto foi o noivado. O casamento, realizado em um sábado, foi precedido de todas as pompas compatíveis com o evento. Corria o mês de maio de 1951. Não foi um acontecimento qualquer, mas o casamento do neto do coronel de Amendoeira. Após o ato civil, presenciado apenas pela família, que lotou e superlotou a casa da mãe da noiva, com muita gente se resignando a ficar espalhada pela calçada, sem vista para o que ocorria lá dentro, os noivos rumaram para a igreja, onde o padre Olinto aproveitou para discursar durante quase duas horas sobre a indissolubilidade do nó matrimonial. O governador se fez representar pelo secretário da segurança, o que honrou o coronel Teodorico, por um lado porque a cerimônia contou com a presença de um representante de sua excelência, por outro porque o representante foi nada mais nada menos do que o chefe da polícia estadual. À noite, os convidados à recepção ficaram maravilhados com o espetáculo proporcionado pelo bumba meu boi e com o show do “Rei do Baião”, que compareceu apenas pelo prazer de colaborar com a festa de casamento do neto de um de seus melhores amigos. Ninguém percebeu, na multidão, um homem moreno, franzino, queimado pelo sol, que vez ou outra aparecia na região com sua mala dura, cheia de quinquilharias... 2 Casados, Teodorico Neto e Ritinha se retiraram para Cavaleiro. Lá existia uma pousada confortável, onde teriam o sossego necessário para curtir a noite de núpcias.


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Os convidados recolheram-se para repousar no resto da madrugada do domingo, dia em que se prenunciava a continuação da festa do anterior. Mas o prenúncio era falso. Antes do meio-dia, Zecão, amigo de infância de Teodorico Neto, chegou esbaforido, saltou do cavalo na praça da igreja e gritou, alto e bom som: “Mataram Teodorico e Ritinha!”

Curto foi o namoro, curto foi o noivado. Mais curto ainda foi o casamento... 2 Pouco após a chegada de Zecão, reuniu-se uma multidão na praça da igreja. O sentimento era de revolta e incredulidade. Pequenos grupos se formaram para comentar o assunto. Duas eram as indagações formuladas: quem e por quê. Ou, como os autores de livros policiais sugerem, por que e quem. Revelado o motivo, fica mais fácil descobrir o criminoso. Alguém disse que vira Demóstenes, filho do doutor Otelo e ex-namorado de Ritinha, andando a esmo pela cidade na hora do casamento. Bastou essa informação para que pelo menos uma dezena de populares corresse à casa do doutor Otelo, em busca de Demóstenes. O médico os recebeu à porta. Demóstenes? Há anos que fora para a Capital e nunca mais dera notícias à família, que sequer sabia onde ele estava no momento. O grupo voltou desenxabido, porque a maioria de seus integrantes sabia muito bem disso. Não era segredo para ninguém que Demóstenes jamais voltara a Amendoeira.


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À vista dessa movimentação, dois ou três rapazes, ex-namorados de Ritinha, apressaram-se, por via das dúvidas, a sair da cidade antes que o furor popular se voltasse contra eles. Circulou também pela praça a opinião de que o criminoso teria sido o homem maduro, residente em Cavaleiro, de quem Ritinha havia sido amante. Mas essa não pegou, ou porque não se conhecesse sua identidade ou por ser inacreditável que Ritinha, com tantos rapazes à disposição, fosse engraçar-se por um homem bem mais velho do que ela. Mas o povo só se acalmou quando o coronel Teodorico, ciente da possibilidade de uma perturbação da ordem e consciente de suas responsabilidades, subiu as escadas da igreja e de lá de cima proferiu seu discurso. Disse ele: “Povo de Amendoeira! Ninguém aqui está mais abalado do que os Raposo, por este infausto acontecimento. Eu, meu filho, minha nora e meu neto Eládio. Mas nesta cidade costuma-se respeitar a lei e a ordem. O assassino de Teodorico, meu querido neto Teodorico, e de sua mulher, Ritinha, será descoberto e punido. Dou-lhes minha palavra. Se quiserem colaborar, voltem para suas casas!”

E ordenou: “Andem! Logo!”

E desceu, majestoso, enquanto a multidão, obediente, se dispersava, cada qual indo para sua casa. Sorte que Amendoeira era cidade de uma família só. Outras cidades da região abrigavam duas famílias rivais e


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nelas o poder era disputado palmo a palmo. Era impossível evitar conflitos, que se arrastavam, muitas vezes, durante décadas, com mortes violentas registradas nos dois lados. 2 A família Raposo reuniu-se com alguns amigos mais chegados no salão da casa do coronel Teodorico, onde seria realizado o velório. Comentou-se, na cidade, a dignidade triste e enlutada do coronel Teodorico, de João Pedro e D. Mariinha, e de Eládio, o jovem neto remanescente do coronel. O padre Olinto, sempre presente com seu metro e meio de altura, compareceu para benzer o salão. Se alguém pintasse o retrato do padre Olinto, o quadro não seria autêntico se em suas mãos não tivesse um pote com água benta. Estava pronto para benzer, fosse lá quem ou o quê. Era o que fazia naquele momento. Quando os caixões, com os corpos de Teodorico Neto e Ritinha, chegaram à casa do coronel, o salão já estava abençoado, a aguardente e as cervejas providenciadas, a comida em preparo e o padre Olinto – que apreciava tomar seus tragos – “calibrado”. Tudo pronto para o início do velório. 2 Teodorico Neto e Ritinha permaneceram unidos desde o casamento até o final do velório. Foram separados pelo enterro. O corpo de Teodorico foi transportado para Timbi e alojado no jazigo da família, junto aos restos mortais de sua avó, a digníssima D. Dorotéa. Ritinha foi enterrada no cemitério de Amendoeira.


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Ainda não era noite, no domingo, quando começou a espalhar-se pela cidade o boato de que Ritinha havia morrido virgem. O casamento não chegara a consumar-se. Por volta das oito da noite, já havia uma multidão em frente à casa do coronel. Todos queriam ver o corpo daquela que precisara morrer para fazer calar a maledicência das invejosas. Às pressas, foi organizada uma fila, que se estendeu por mais de quilômetro e continuou até a saída dos caixões para os cemitérios. Ritinha, a leviana em vida, transformara-se em Ritinha, a santa, morta. Já na manhã da segunda-feira, estourou a notícia. Ritinha, a santa, operara o primeiro milagre. Zefinha, filha do ferreiro Argemiro, que há quinze dias estava de cama com febre, chegando a ser desenganada pelo médico, acordara na segunda sem febre, levantara-se da cama e estava na fila, a postos para agradecer à santa milagrosa. As pessoas abriram alas para ceder um lugar a Zefinha, a fim de que ela exercesse seu ato de fé religiosa. O padre Olinto ficou entusiasmado. E naquele mesmo dia fez circular a notícia de que iria propor a beatificação de Ritinha pelo Vaticano. Várias pessoas o procuraram para perguntar se isso seria possível, em face do direito canônico. A resposta era sempre a mesma: “Não sei nem quero saber agora. Depois a gente vê.”

Durante muito tempo, a população de Amendoeira comentou que nunca se realizara, na cidade, um velório com tanta gente e tão bem organizado. E, sobretudo, tão animado...


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2 Embora o crime tivesse sido praticado em cidade vizinha, o coronel Teodorico conseguiu trazer a investigação para Amendoeira e designou para comandá-la o delegado Paixão, pessoa de sua inteira confiança. Paixão tinha chegado à pousada no domingo, pouco antes do almoço. Conversou com todos os que lá estavam, os proprietários e os três empregados presentes: o gerente, o porteiro e a faxineira. Soube que os recém-casados haviam chegado por volta das três horas e recolheram-se desde logo a seus quartos. A pousada tinha sido reservada por três dias pelo coronel Teodorico, portanto, Teodorico Neto e Ritinha eram os únicos hóspedes no momento. Cerca das dez da manhã, o gerente ouviu ruídos partidos do quarto do casal e a seguir tiros e gritos de angústia. Correu e procurou os proprietários, que moravam ao lado, e os três dirigiram-se ao local de onde partiram os ruídos e gritos. Perceberam, desde logo, que estes haviam cessado. Hesitaram, mas decidiram forçar a porta, o que não precisaram fazer porque ela estava apenas encostada. Encontraram Teodorico Neto e Ritinha mortos, deitados de costas na cama, nus. O sangue lhes escorria dos ferimentos à bala. Paixão tomou todas as providências que constavam do seu manual de procedimentos. Coletou as evidências, mas sabia que de nada adiantaria. Nem na cidade nem na região existiam os recursos tecnológicos de que já começavam a dispor as polícias das principais capitais. Utilizou os métodos tradicionais. Concentrou sua


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atenção nas pessoas, e como cismou com o gerente submeteu-o a rigoroso interrogatório, chegando mesmo à violência. Mas não obteve nenhum resultado. Ninguém havia visto nenhum estranho ou conseguiu apontar-lhe qualquer indício que lhe pudesse ser útil. Voltou a Amendoeira e prosseguiu a investigação. O coronel Teodorico lhe pegava no pé, exigindo resultados que não apareciam. 2 Passaram-se dois meses e nada. Até que um dia entrou na delegacia um indivíduo comum, de cerca de quarenta anos, meio calvo, que insistiu em falar com o delegado. A princípio, o guarda de plantão não queria permitir, mas terminou cedendo diante da insistência. O indivíduo entrou na sala de Paixão e apresentou-se. Seu nome era Jacinto Moraes, mas era chamado de Caduca. Paixão reconheceu-o como alguém que costumava beber demais e vez ou outra era acolhido na cadeia municipal para curar a ressaca. Mas era inofensivo. Jamais houvera queixa contra ele. Convidou-o a sentar, o que Caduca aceitou sem objeção. Antes que Paixão lhe perguntasse o que queria, foi logo dizendo: “Delegado, fui eu que matei o casal.”

Paixão não entendeu o que Caduca lhe estava a dizer. “Casal? Que casal?” “Teodorico e Ritinha.”

Paixão tomou um susto daqueles. A investigação andava


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devagar, quase parando. Ele não conseguia uma única pista. E de repente aparece um bêbado, que sempre fora considerado inofensivo, e com a maior simplicidade confessava ser autor de um homicídio duplo. Não acreditou em Caduca, mas seu dever era, pelo menos, tomar seu depoimento. Chamou o guarda, que acumulava sua função com a de escrivão, e formalizou o depoimento do réu confesso. Caduca confessou que jamais gostara de Teodorico Neto e que nutria uma paixão escondida pela moça. Chegou, certa vez, a abrir seu coração com ela e recebeu, como resposta, uma sonora gargalhada. No dia do casamento, bebeu desde a manhã. Emendou pela madrugada do domingo. Na manhã do domingo, não resistiu e foi atrás dos dois para matá-los. Soube que os noivinhos tinham ido para uma pousada, na cidade vizinha. Procurou-os lá, armado de um facão, arrombou a porta do quarto e esfaqueou os dois. Estava devorado pela paixão e pelo ódio, admitiu dramaticamente Caduca. Paixão, sereno, indagou: “Era um facão de cozinha ou uma peixeira?”

Caduca, perplexo, perguntou se isso era relevante. Paixão esclareceu que sim. Caduca hesitou, pensou e terminou dizendo que era uma peixeira. Paixão teve vontade de expulsar da sala o pobre-diabo, que não sabia distinguir uma peixeira de um revólver. Mas a pressão do coronel Teodorico, à busca de resultados, estava se tornando insuportável. Por esse motivo, decidiu alojar Caduca na cela que ele tão bem conhecia e saiu à procura do coronel Teodorico, para aconselhar-se.


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Encontrou o coronel de saída, mas conseguiu que o ouvisse quando lhe disse que alguém se declarara culpado pela morte de Teodorico e Ritinha. O coronel ouviu o relato de Paixão e ficou pensativo. Mandou chamar seu filho João Pedro e pediu a Paixão para repetir-lhe a história de Caduca. Acrescentou que concordava com Paixão quanto à inocência do pretenso assassino, mas que o assassinato de seu neto exigia uma solução rápida, sob pena de abalo de sua reputação e consequentes prejuízos nas próximas eleições e no seu prestígio junto às autoridades do estado. Perguntou o que João Pedro pensava, certo de que este não pensava nada, e se pensasse não diria. Para sua surpresa, João Pedro fez um brilhante apanhado da situação e concluiu que seria preferível para todos – exceto, é claro, para Caduca – que este fosse considerado culpado. Pelo menos por enquanto. Isso aplacaria o clamor popular e permitiria que Paixão continuasse a tentar solucionar o caso. O coronel Teodorico, à vista da tão surpreendente quanto concatenada exposição de seu filho, determinou a Paixão que indiciasse Caduca pelo duplo homicídio. E assim foi feito. Paixão prosseguiu na investigação, embora a esta altura sem o mesmo ímpeto inicial, já que não mais tinha o coronel Teodorico nos seus calcanhares. Faltava apenas ajustar a versão de Caduca aos fatos... Enquanto isso, Caduca passava os dias chorando pela morte de Ritinha, sua adorada Ritinha, a mais formosa entre as mulheres que já vira. E a tentar lembrar o que fizera entre a manhã de sábado, quando começara a beber, e a de domingo, quando acordara, ressacado, na cela a que fora recolhido no sábado à noite.


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2 O coronel Teodorico mostrou bondade e senso de justiça, ao contratar um advogado da Capital para defender Caduca. O advogado orientou Caduca a declarar-se culpado e buscou demonstrar que o crime havia sido cometido em um acesso de paixão irrefreável. Era a velha máxima “Se não for minha, não será de ninguém”. O júri ouviu os depoimentos das testemunhas e a leitura das provas, sem qualquer interesse. Concentrou-se e bastou-se na leitura da confissão. Caduca foi orientado por seu advogado a alterar os fatos confessados. Em vez de peixeira, revólver. Onde o conseguira? Não lembrava. Que fim dera a ele? Atirara-o no açude, em Cavaleiro. O que fizera no domingo pela manhã? Não lembrava. Mas acompanhou seu julgamento também sem interesse. Passou o tempo todo a recordar Ritinha. Vez ou outra tentava lembrar o que fizera na cela da cadeia no domingo pela manhã... O júri foi rápido. No mesmo dia, por unanimidade, julgou Caduca culpado do duplo homicídio. O juiz o condenou à pena mínima, levando em conta os bons antecedentes e a evidente debilidade psicológica do réu. Terminado o julgamento, dois policiais algemaram o condenado, para reconduzi-lo à cadeia, de onde sairia nos próximos dias para o presídio na Capital. Ao sair do Fórum, ouviram-se dois tiros de fuzil, que atingiram Caduca em cheio. 2


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A investigação sobre o assassinato de Caduca durou quinze dias. Foram tomadas algumas providências burocráticas e chegou-se à conclusão de que o autor era desconhecido. A versão extraoficial, partida dos adversários do coronel Teodorico, foi a de que tinha sido uma vingança pela morte do neto. O coronel veio a público para deixar claro que nada tinha a ver com o caso e que jamais iria mandar matar um deficiente mental. Caduca merecia sua compaixão, nunca seu ódio pela confessada morte do neto. De resto, ele não era vingativo, já que a morte de alguém, fosse quem fosse, não faria retornar à vida o neto preferido, aquele que levava seu nome. Não demorou para que o assunto fosse esquecido. Caduca não tinha família nem amigos. No máximo, inspirava piedade e compaixão. Em uma terra em que não eram raras as mortes violentas de pessoas importantes, quer por motivo político, quer passional, um Caduca a mais ou a menos era desimportante. Para a maior parte da população, Caduca já estava morto antes de morrer. Tratava-se de uma dessas pessoas cuja morte é a oficialização do óbvio. Apenas uma pessoa na cidade preocupou-se com o assunto: Eládio, filho de João Pedro, neto do coronel Teodorico e irmão de Teodorico Neto. Ele buscou reunir as peças e não precisou de grande esforço para verificar que Caduca confessara, de início, que matara o casal com uma peixeira, e que só depois, assistido por seu advogado, é que mencionara o revólver. E tinha um álibi indestrutível, já que passara a manhã de domingo curtindo uma ressaca na cadeia.


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Foi fácil, a partir daí, concluir que seu irmão Teodorico Neto, a quem era muito ligado, não fora morto por Caduca. E Eládio jurou, a si próprio, que depois de formado voltaria a Amendoeira para, como promotor de justiça, descobrir quem matara Teodorico Neto, a fim de aplicar-lhe o castigo merecido.


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Eles se encontraram onde haviam combinado pelo telefone: no posto de gasolina que ficava na saída da cidade, em direção a Cavaleiro. O matador entrou no carro e aboletou-se no assento dianteiro, ao lado do motorista. Percorreram alguns quilômetros até o motorista desviar o veículo para fora da estrada e logo após pará-lo em uma pequena clareira, um lugar deserto, embaixo de uma árvore copada. Permaneceram em silêncio, até que o motorista iniciou a conversa: “Por que o rapaz?” “Ele reagiu e era muito forte. Na luta, era ele ou eu. E o tempo era curto, porque a moça passou a gritar como uma louca.” “Por que a moça?” “Quando recebo por um contrato, cumpro minha obrigação tal como ajustado. Ou então devolvo o que me foi pago.” “E Caduca?” “Era mais seguro para todos que ele levasse a culpa. Aliás, acho que eu bem que merecia uma bonificação pela morte de Caduca.”

O motorista ficou em silêncio. Acendeu um cigarro, levou-o à boca e deu uma vagarosa tragada. Repôs o maço no bolso. Quando retirou a mão empunhava uma pistola. Apontou-a para seu passageiro e disparou. O matador morreu sem entender o que havia acontecido.


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O motorista saltou do carro, contornou-o, abriu a porta do outro lado, puxou o corpo para fora, arrastou-o até uma moita próxima, apontou a pistola e disparou mais três vezes. Esvaziou-lhe os bolsos, tirou-lhe o revólver e a cartucheira e voltou para o veículo. Passou cerca de cinco minutos a fumar e pensar. Deu a partida no motor e voltou para Amendoeira. Dias após, a polícia, alertada pelo morador de um casebre nas redondezas, descobriu um corpo já em decomposição. Ninguém o reconheceu, seus bolsos estavam vazios. O corpo foi enterrado como indigente.


4. Eládio fez vestibular e ingressou na faculdade de direito da Capital. E foi morar com a tia, irmã de sua mãe. Conhecia a Capital das férias que lá costumava passar. Adorava o mar e as praias, mas dessa vez esperava por ele o estudo e a adaptação a uma cidade muito maior do que aquela em que nascera e crescera. A princípio, estranhou o ambiente universitário, diferente de tudo que conhecera antes. Mas, simpático, bom atleta e sobretudo estudioso como era, cedo ganhou a amizade do círculo de colegas com os quais passou a conviver. Logo nos primeiros meses foi convidado para uma festa em casa de uma colega. Era um aniversário, e a festa estava bastante concorrida. Já de madrugada, após muita bebida ter rolado, foi apresentado pela colega como uma


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figura extraordinária. Foi apresentado como neto de um dos mais famosos coronéis do interior, Teodorico Raposo, de Amendoeira. Eládio estava acostumado a ser paparicado por ser neto do coronel Teodorico. Foi com surpresa que se viu submetido a um verdadeiro interrogatório. “É verdade que seu avô costuma mandar matar seus inimigos? E o harém dele, dizem que tem mais de vinte mulheres? São jovens e bonitas? O governador costuma ir lá para participar das orgias?”

Eládio ficou perplexo. Não sabia o que responder. Houve perguntas mais escabrosas e ele conseguiu manter-se firme enquanto pôde. Mas terminou desistindo e, sem sequer despedir-se da anfitriã, escapuliu escondido, pulando o muro da casa. Foi a primeira vez que Eládio percebeu que não era das melhores a imagem de um coronel do interior, o que o deixou angustiado, preocupado com os anos que viriam. Mas seus amigos – e ele conseguiu fazê-los às dúzias – não tinham qualquer preconceito. Ou – quem sabe? – não conseguiam vê-lo como membro de tradicional família do coronelismo do interior. Os episódios constrangedores se tornaram cada vez mais raros. Nas férias, voltava para seu lar, seu habitat, o sertão no qual nascera e do qual jamais se desligaria emocionalmente. 2 A vida de estudante de direito na Capital, em uma realidade distinta daquela a que estava acostumado, operara em Eládio uma transformação acentuada.


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Estudou Direito Penal com afinco, já que seu objetivo continuava o mesmo, mas passou a interessar-se também por outros assuntos. Descobriu o Direito Constitucional e a Filosofia e a Sociologia jurídicas. Abriu sua cabeça para ideias que não conhecia, de autores dos quais jamais ouvira falar. Foi seduzido pelas ideias libertárias que se espalhavam pelo mundo, que acabava de sair de uma guerra contra o totalitarismo nazifascista. Ideias que encontravam solo fértil em um país que tinha estado, até há poucos anos, subjugado por um regime ditatorial. Participou do movimento “O petróleo é nosso”, pela criação da Petrobrás. Vibrou com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda. Aplaudiu as medidas trabalhistas progressistas de um Getúlio Vargas revigorado, e ao mesmo tempo enfraquecido. Aplaudiu, de pé, a política desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, que buscava avançar cinquenta anos em cinco. Viveu o clima otimista da época. Tomou conhecimento das ideias socialistas e democráticas dos pensadores ingleses, que o seduziram com seus ensaios e livros de filosofia política. Chegou a ser convidado a ingressar no Partido Socialista Brasileiro. Mas a política partidária não o atraía. E seu objetivo continuava o mesmo, com a obsessão peculiar ao sertanejo de boa cepa que era. Vindo de uma região em que a democracia nada mais era que uma abstração, ele passou a conviver com um círculo de estudantes, professores e intelectuais que acreditavam na retomada dos ideais da Revolução Francesa do século XVIII. Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ideias a respeito das


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quais jamais ouvira falar em sua terra, em que um homem, apenas um, era pai, padrinho e condutor de todo o povo sofrido e desrespeitado. Povo constituído de homens e mulheres fortes, resistentes às dificuldades da vida, sobretudo ao clima árido e seco da região, mas cuja vontade de nada valia diante da força e prepotência do seu chefe. Em seus momentos de reflexão, Eládio começou a perceber que não era apenas um Raposo, neto do coronel Teodorico. Até então, havia para ele uma linha divisória, de um lado os Raposo, que mandavam, e do outro as demais pessoas, que obedeciam. Agora, percebia que não era bem assim. Ele continuava sendo um Raposo, mas era mais do que isso. Era um sertanejo de Amendoeira, conectado com o país e com um mundo do qual jamais ouvira falar. Cada vez que Eládio retornava a Amendoeira, o que ocorria pelo menos em suas férias de fim de ano, notava uma mudança. Pequena, mas perceptível. Não na cidade, que continuava a ser igual ao que era na sua infância, mas em sua relação com ela... 2 Eládio costumava dizer que dois episódios o marcaram nas aulas da faculdade. O primeiro ocorreu em uma prova de direito civil, já no quarto ano, disciplina que constava do currículo desde o segundo, com o mesmo professor. Em vez de pedir dissertações sobre temas escolhidos, como era o mais comum, o professor formulou dez questões, solicitando respostas sucintas. Eládio, como bom aluno que era, respondeu a nove. Empacou na décima.


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Era proibido consultar o código. E Eládio era um perfeccionista. Garantida a nota nove, passou a ter a ambição de conseguir o dez. Não se conteve e tentou abrir o código. Calhou de nesse exato momento o professor passar a seu lado e ver Eládio abrindo o código. Não hesitou e tomou sua prova. Quinze dias após, trouxe as provas corrigidas e apregoou as notas obtidas pelos alunos. Quando chegou a vez de Eládio, chamou-o à mesa, e diante de todos os alunos contou o que ocorrera. A seguir, exibiu sua prova e indagou se ele já abrira o código antes de ser flagrado no final. Eládio respondeu, com sinceridade: “Não.” “E por que abriu o código?”,

indagou o professor. “Porque queria tirar dez”, respondeu Eládio mais uma vez com sinceridade. O professor mostrou-lhe que na sua prova a nota estava assinalada a lápis, com a interrogação: nove ou zero? E perguntou: “Qual nota você daria à sua prova?”

Eládio não titubeou: “Nove.”

E foi a nota que obteve. Uma outra lição foi-lhe proporcionada pelo professor de direito constitucional, disciplina em que ele obteve nota final dez. O professor, assim como a maioria dos demais,


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costumava anunciar as notas em aula. Após dar as notas de quase todos, indagou quem era o aluno chamado Zeferino. Levantou-se um homem, de porte avantajado, já com cerca de trinta, trinta e cinco anos, e anunciou: “Eu.”

O professor mostrou-lhe sua prova e disse: “Suas duas dissertações são cópias fiéis de meu livro. Assim, a conclusão inevitável é a de que o senhor copiou meu livro. Usou uma ‘fila’. Por conseguinte, merece zero. Mas, antes, concedo-lhe o direito de defesa. Por que suas dissertações são cópias fiéis de meu livro?”

A resposta deixou todos espantados: “Porque memorizei seu livro, professor.”

E a seguir repetiu as dissertações que fizera, inclusive os pontos, vírgulas e pontos e vírgulas. O professor pensou um pouco e decidiu: “Entre zero e dez, dou-lhe dez. O senhor revelou excelente memória, excepcional mesmo, mas não é isso que quero de meus alunos. Quando propus os temas, queria saber o que os senhores pensam sobre eles, e não o que eu penso. A rigor, o senhor mereceria zero, porque não pensa nada. Quero que meus alunos raciocinem, tenham ideias próprias. Mas parece que não consegui transmitir-lhes essa expectativa. Assim, a culpa não foi sua, e sim minha. Seria injusto puni-lo por um erro cometido por mim.”

E mais não disse, nem precisava ser-lhe perguntado...


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2 Na metade do curso, Eládio conheceu Isabela. Tinham a mesma idade, ambos universitários. Só que ela estudava arquitetura. Eládio apaixonou-se de imediato por Isabela, e cedo estavam de namoro firme e sério. Iam ao cinema e sentavam-se lado a lado, de mãos dadas. Passeavam, juntos, à beira-mar, contemplando a imensidão do oceano e imaginando o futuro que se abria a dois jovens bonitos, inteligentes, cultos para a idade, prestes a concluir curso de nível superior em uma região que primava pela pobreza, analfabetismo, alto índice de mortalidade infantil e subdesenvolvimento econômico. Mas o importante, mesmo, é que estavam apaixonados. Eládio e Isabela colaram grau no mesmo mês. Eládio antes. Isabela poucos dias após. Na festa de formatura de Isabela, Eládio chamou-a para um canto e propôs-lhe casamento. Isabela hesitou por um minuto e sua resposta foi desconcertante: “Depende.” “Depende do quê?”

Isabela explicou: “Depende de onde você pretende radicar-se.”

Em um primeiro momento, Eládio não entendeu. Mas Isabela foi mais explícita: “Você sempre me disse que pretende voltar para Amendoeira. Continua com essa ideia?” “Claro! Foi uma promessa que fiz a mim mesmo.” “E eu? Irei acompanhá-lo?”


43 “Claro! Seremos felizes aqui, lá ou em qualquer outro lugar.” “Mas Eládio, você é de lá, entende que tem uma missão a cumprir. E eu?” “Você me acompanha.” “Para fazer o quê? Arquitetura no deserto?”

2 Nos dias que se seguiram, Eládio pensou em tentar convencer Isabela. Mas falar o quê? Repetir que ele não poderia ficar na Capital? Dizer-lhe que uma moça criada no litoral, portadora de um diploma universitário, iria acostumar-se ao clima e aos hábitos do sertão? Ou que ela tivesse paciência, porque a vida deles em Amendoeira seria provisória, já que daí a alguns anos, quando os filhos começassem a crescer, ele buscaria ser promovido para a Capital, a fim de proporcionar-lhes melhor nível de educação? E abandonou a ideia. Os dois continuaram a divertir-se juntos. Continuaram a ir ao cinema e a festas, a passear na praia, mas quando olhavam a imensidão do oceano sabiam, ambos, que o namoro estava por findar. Concursado e nomeado para Amendoeira, o promotor Eládio Raposo tomou o trem para o sertão. Duas cidades, distantes cerca de quinhentos quilômetros uma da outra, separadas por um século de civilização... E Eládio partiu em busca do seu destino, que não era, nem poderia ser, o destino de Isabela. 2


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Isabela era a mais nova das seis filhas de Inaldo, um graduado funcionário público estadual, e sua mulher Isolda, cuja especialidade era colocar filhas no mundo e cuidar da família. O pai chegara a concluir o colegial. A mãe, o curso normal. Classe média típica. As cinco irmãs de Isabela eram casadas. Todas haviam concluído o curso normal, nenhuma havia cursado faculdade. Casaram-se cedo. A mais velha, com dezoito anos, as demais com vinte ou vinte e um. Isabela não duvidava de que elas gostassem de seus maridos, mas estava certa de que o principal motivo que as levou ao altar foi a convicção de que, se não o fizessem logo, ficariam “no caritó”. As cinco eram “do lar” ou, pior, “de prendas domésticas”, seguindo o exemplo da mãe. A Isabela repugnava essa qualificação, e sobretudo a sujeição que ela expressava. Queria ser livre, trabalhar, romper a barreira profissional que se levantava contra as mulheres, consideradas úteis apenas quando pariam seus filhos e comandavam as serviçais nos trabalhos domésticos. Queria, em suma, ser ela própria, não “Isabela de João”, ou “Isabela de José”, ou de outro marido considerado, jurídica, social e psicologicamente, “cabeça do casal”. Para realizar essa ambição, Isabela entrou na faculdade de arquitetura. No meio do curso conheceu um estudante de direito pelo qual se sentiu atraída. E, quase sem perceber, terminou envolvida com ele. Eládio era seu nome. Rapaz inteligente, bem-apessoado, estudioso e agradável, cedo conquistou Isabela, que com o correr do tempo descobriu que ele tinha a ideia fixa de


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retornar a Amendoeira, cidade do sertão onde nascera e que considerava estar ligada a seu destino. Isabela perdeu muitas noites de sono pensando no que ocorreria quando ambos terminassem seus cursos. Eládio não escondia que tinha uma missão a cumprir. Ela, por sua vez, não tinha missão nenhuma, exceto a de ser livre e criativa, para viver uma vida diferente da que levavam sua mãe e suas irmãs. Mas no fundo acalentava uma leve esperança de que Eládio abandonasse sua ideia fixa, permanecendo na Capital depois de formado. Imaginava estar casada com ele, dois profissionais liberais atingindo o sucesso em suas carreiras, ele como advogado, ela como arquiteta. Quando Eládio lhe propôs casamento, sentiu imensa felicidade. Aliás, melhor seria dizer que teria sentido imensa felicidade se a essa altura já não estivesse convencida de que Eládio voltaria para Amendoeira. Isabela não tinha ilusões. Ao ficar claro que Eládio esperava levá-la para viver com ele no sertão, reuniu toda a coragem que tinha e respondeu que não. Não iria com ele. Ela não pretendia ser a versão aperfeiçoada de suas irmãs. Não pretendia ser “Isabela de Eládio”. Se as mulheres pouco valiam na Capital, menos ainda no sertão. Além do mais, quais as perspectivas de trabalho para uma arquiteta na região? Ela já começava a pensar em sair da Capital. Ir para o Rio de Janeiro, capital federal, centro cultural e artístico do país. A cidade onde nascera ainda era muito pequena para uma jovem arquiteta, cheia de ideias novas e criativas e com garra suficiente para realizá-las. O que iria fazer em Amendoeira? Eládio, inteligente e sensível como era, não insistiu.


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Respeitou sua decisão. E partiu para cumprir sua missão de sertanejo. Foi com tristeza que Isabela compareceu à despedida de Eládio. Beijaram-se longa e carinhosamente. Acenou em despedida, vendo o trem partir. E com ele Eládio saiu de sua vida...


5. Terminado o curso de direito, Eládio inscreveu-se no primeiro concurso que abriram para o ministério público estadual. Passou em terceiro lugar. Por sorte, a comarca de Amendoeira estava vaga. Isso facilitou ao coronel Teodorico conseguir, junto ao governador, a nomeação do neto para promotor público da cidade. Eládio tomou posse em uma sexta-feira, em solenidade muito concorrida. No sábado e domingo, houve muitas danças, comes e bebes, que lembraram as festas de seis anos atrás, quando do casamento de Teodorico Neto e Ritinha. Mas sem tragédia, só alegria. 2 Na segunda-feira, começou a trabalhar.


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Às oito da manhã estava em seu escritório. Às oito e cinco mandou chamar o delegado Paixão. Paixão sentou-se em frente a Eládio, sem saber a razão do chamado. “Paixão”, disse Eládio, “quero que você reabra o caso de Teodorico Neto e Ritinha.”

Paixão tomou um susto. Raras vezes lembrara esse caso nos últimos seis anos. De repente, a ordem vinha de quem ele jamais esperaria. Não poderia saber que o assunto tinha sido, durante todo esse tempo, obsessão de Eládio. Paixão tentou demover o promotor, que conhecera criança, pulando muro para pegar jacas nas casas da vizinhança. O caso estava encerrado havia muito tempo e o assassino já morrera, após julgado pelo júri e condenado pelo juiz, argumentou. Eládio perguntou a Paixão se ele se recusava a cumprir sua ordem. Paixão disse que não, mas não conviria a ninguém, em sua opinião, que o caso fosse reaberto. Eládio disse-lhe que se sentia aliviado, porque se Paixão se recusasse a cumprir a ordem seria preso. Paixão levou outro susto. Percebendo a determinação do promotor, passou a tratá-lo de senhor e saiu, rápido, para cumprir a ordem recebida. 2 Na manhã seguinte, quando Eládio chegou a seu escritório já encontrou Paixão a postos, com todo o processo arrumado, pronto para ser analisado. O promotor passou três dias e três noites lendo a papelada. No quarto dia, chamou Paixão a seu escritório:


49 “Delegado, como o senhor teve coragem para participar de uma farsa dessas? Caduca não matou Teodorico e Ritinha. Não matou nem poderia fazê-lo, já que estava, na hora do assassinato, curtindo ressaca na cadeia municipal. Se o senhor pensa que me pode engabelar, esqueça. Exijo saber — ouça bem, delegado – exijo saber quem matou meu irmão e minha cunhada.”

Pela primeira vez Eládio sentiu acender-se uma luz vermelha em sua cabeça. Foi quando Paixão lhe disse em resposta: “Senhor promotor, talvez seja mais prudente não procurar saber.”

Eládio calou-se durante alguns minutos. A seguir, concluiu a conversa: “Delegado, não sei se já percebeu, mas eu não sou prudente. Sou promotor de justiça, delegado.”

Paixão levantou-se, surpreendeu Eládio ao bater-lhe continência, e disse: “Sim, senhor!”

E retirou-se. 2 Eládio sabia que Ritinha, antes de noivar e casar com Teodorico Neto, era “malfalada” na cidade. Não acreditava que a moça fosse metade do que diziam ser. Mas não podia afastar a hipótese de crime passional, praticado por um ex-namorado. E procurou investigar. Uma noite, após o jantar, decidiu fazer uma visita a D.


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Diolinda. Solteira, quase sessentona, ela era considerada a maior mexeriqueira da cidade. Às oito, estava sentado na sala de visitas da casa de D. Diolinda. “Como você cresceu, menino! Está bonito! Não parece o menino que vi nascer há... quantos anos?” “Vinte e seis.” “Como o tempo passa depressa. Um dia desses eu dizia a sua mãe: Mariinha, nós estamos ficando velhas!” “Que nada, D. Diolinda, a senhora parece uma jovem. Elegante e bonita.” “Obrigada, meu filho, você é muito gentil, mas eu sei quantos anos tenho.”

Mas não revelou. Eládio preferia que a conversa não enveredasse para esse lado. Mas não encontrou jeito de cortar. “Eu disse a sua mãe. Quando a gente fica velha, percebe que a vida passa muito depressa. Agora mesmo, ao revê-lo, dá para constatar esse fato. Eládio, a vida passa depressa, mas os dias passam tão devagar!” “O importante, D. Diolinda, é conservar a memória. Enquanto a pessoa tem boa memória, continua jovem.” “Você tem razão. Nesse ponto, pode-se dizer que ainda sou jovem. Tenho excelente memória.” “Posso abusar da memória extraordinária que a senhora tem?” “Claro, meu filho.”


51 “A senhora se lembra de Ritinha, minha cunhada?”

Uma lágrima escorreu pelo rosto de D. Diolinda. Não precisou responder. Eládio continuou: “Diziam que ela foi namorada de Demóstenes, filho de doutor Otelo. É verdade?” “Foi sim, menino. Diziam também outros detalhes desse namoro, que tenho vergonha de contar. Mas eram falsos.” “A senhora tem certeza?” “Certeza, certeza, não tenho. Mas a gente percebe quando espalham uma mentira, você sabe como é.”

Eládio não sabia, mas continuou: “E o caso dela com um homem maduro, que residia em Cavaleiro?”

D. Diolinda mexeu-se na cadeira, incomodada, e Eládio pensou que ela não iria responder. Mas respondeu, e para surpresa de Eládio, da maneira mais objetiva: “Esse eu tenho certeza de que existiu.” “Quem era?” “Certeza, certeza, não tenho. Mas sempre achei que era seu Vilar, dono da loja de material de construção na cidade.”

Ainda conversaram uns dez minutos. Eládio desejou boa noite a D. Diolinda e voltou para casa. Programou uma ida a Cavaleiro na manhã seguinte. 2


52

Às nove horas estava em Cavaleiro, diante de Vilar, que aparentava quarenta e cinco anos. Tomou o cafezinho que lhe foi oferecido e foi direto ao assunto: “Estou investigando a morte de Teodorico Raposo Neto e Ritinha, sua mulher. O senhor os conhecia?” “Seu irmão, sim. Sua cunhada, não.”

Eládio atacou: “Disseram-me que ela teve um caso com o senhor. É verdade?”

Vilar tomou um susto. “Mas eu sequer a conhecia. Além do mais, sou casado.”

Eládio ficou em dúvida se Vilar estava zombando dele ou era mesmo ingênuo. “O senhor está me dizendo que um homem casado não pode ter um caso com moça solteira?”

Vilar sentiu a estocada e não respondeu. De súbito, porém, perguntou: “Isso teria ocorrido há cerca de sete, oito anos, um pouco antes da morte de seu irmão?” “Mais ou menos.” “Eu não poderia ter um caso com Ritinha nessa época.” “Por quê?” “Entre o início de 47 e final de 52, eu estava em São Paulo, trabalhando em uma empresa de construção civil. Passei seis anos sem pôr os pés em Cavaleiro, ou no Nordeste.”


53 “O senhor pode provar?” “Claro! Mas basta perguntar por aí na cidade. Pensavam até que jamais voltaria. Voltei para substituir meu pai na loja da família, quando ele faleceu.”

Eládio ouviu e deu-se por satisfeito. Despediu-se e voltou a Amendoeira. Continuava sem pistas. Mandaria Paixão confirmar o que dissera Vilar. Mas este não mentiria sobre algo tão fácil de apurar. Não pensou em investigar Demóstenes porque todos em Amendoeira sabiam que ele da Capital fora para o Rio de Janeiro, e por lá ficara. Além do mais, Ritinha não namorava tanto assim. Eram mais flertes inconsequentes, próprios de uma moça bonita, simpática e desinibida. 2 Paixão irrompeu na sala de Eládio, excitado: “Doutor Eládio. Fiquei sabendo, por um amigo meu que mora em Cavaleiro, que no dia do casamento Gercino esteve hospedado na cidade.”

Eládio estranhou tanta excitação e indagou: “Quem é Gercino?” “O senhor deve lembrar. É um famoso pistoleiro de aluguel.”

Eládio já ouvira falar de Gercino. Não lembrava onde nem quando. Estranhou a memória privilegiada do amigo de Paixão: “Como ele pode ter certeza, depois de tantos anos?” “A memória dele é extraordinária. Sabe como é, depois dos sessenta e já aposentado, a única


54 ocupação que resta é relembrar o passado. Mas para me certificar procurei o dono da hospedaria, que foi checar nos livros daquela época e estava lá: Gercino ficou hospedado durante cinco dias, em maio de 1951, no fim de semana em que Teodorico e Ritinha casaram e morreram.” “Você acha que pode ter sido ele?” “Não sei, mas é bem possível.” “E onde posso encontrar Gercino?” “Não tenho a menor ideia. Ele aparece e desaparece. Ninguém sabe de onde vem nem para onde vai.”

Eládio passou o resto da tarde pensando nessa pista. Precisava saber onde procurar aquele que era o mais famoso pistoleiro de aluguel da região. Após o jantar, dirigiu-se à casa do coronel Teodorico. Sentou-se e foi logo dizendo a que veio. “Paixão descobriu que Gercino, que o senhor deve conhecer, esteve hospedado em Cavaleiro nos dias em que Teodorico e Ritinha casaram e morreram.”

O coronel olhou para ele e perguntou: “Qual sua conclusão?” “É possível que ele tenha algo a ver com o crime. Preciso procurá-lo.” “Procure-o.” “Mas não sei onde.” “E o que tenho a ver com isso?” “O senhor sabe tudo o que se passa na região. Deve saber onde encontrar Gercino.”


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O coronel levantou-se, andou pensativo pela sala e perguntou: “Você continua ainda com essa ideia fixa de apurar os fatos?” “Claro!” “Eu sei onde encontrar Gercino. Mas por que lhe diria? Não me agrada essa sua investigação. Por que então ajudá-lo?” “E a justiça, coronel? Não vale nada para o senhor?” “Você e essa obsessão pela justiça! Aí está a diferença entre nós: você pensa em justiça, eu faço justiça.”

Mais uma pausa. Eládio aguardou. “Eládio, eu não deveria dar-lhe informações, mas abrirei uma exceção. Gercino mora em Riacho Formoso, no estado aqui ao lado. Mas soube que está aposentado.”

Foi a vez de Eládio ficar excitado. Despediu-se do avô e dirigiu-se à porta. “Você pretende ir lá?” “Sem dúvida!” “Então tome muito cuidado.” “Tomarei, meu avô, pode ficar sossegado.”

Foi uma viagem longa. De automóvel, já que se dependesse do trem levaria dois a três dias. Eládio estava cansado, quando estacionou seu carro em frente à promotoria de Riacho Formoso. Procurou o promotor da cidade, um homem bem mais velho que ele, apresentou-se e disse que gostaria de ter uma


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conversa com um morador da cidade, chamado Gercino. O promotor perguntou: “Gercino de quê?” “Não tenho a menor ideia, mas estou certo de que o senhor o conhece.” “Algum problema?” “Nenhum. Quero apenas fazer-lhe três ou quatro perguntas referentes a um fato que ocorreu há anos em Amendoeira.” “Gercino está aposentado e é dono da venda que fica na rua principal. Se quiser falar com ele, procure-o lá.”

Eládio agradeceu e ia voltando para o carro quando ouviu a advertência do promotor: “Cuidado!”

Eládio saltou do carro diante da venda. Perguntou por Gercino. Apareceu um velho de cerca de sessenta anos, de pele enrugada, curvo, andando com alguma dificuldade. Percebia-se que estava doente, talvez com mal de Parkinson, pois tremia bastante e seu rosto estava meio paradão. Não parecia homem que merecesse tantas advertências para tomar cuidado ao tratar com ele. De qualquer maneira, Eládio não queria pernoitar em Riacho Formoso, preferindo fazê-lo em uma cidade próxima, onde encontraria alojamento de melhor qualidade. Disse a Gercino que era promotor de Amendoeira e tinha vindo fazer-lhe umas poucas perguntas. Ele indicou uma pracinha que ficava em frente e convidou Eládio a sentarem-se em um dos bancos lá existentes.


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Eládio explicou o que o levou a procurá-lo. O assassinato de seu irmão e de sua cunhada, a investigação que estava promovendo e o fato de que soubera da passagem dele por Amendoeira, na época do crime. Gercino comentou: “Não lembro se estive nessa época em Cavaleiro, mas se o senhor disse que estive, estive. E as perguntas que o senhor quer fazer?” “O senhor sabe algo sobre esses assassinatos?”,

pergunta direta e objetiva de Eládio.

foi a

“Doutor, admiro sua coragem. Na verdade, o que o senhor está me perguntando é se matei seu irmão e sua cunhada. Lembro-me desse crime, doutor, mas não fui eu quem matou.”

Continuou: “Se tivesse sido eu, lhe diria. Aliás, se eu tivesse matado todos os que dizem que matei, teria matado mais do dobro do que matei.”

Eládio tomou um susto com a franqueza do velho pistoleiro, que continuou: “E agora, doutor, quais são as outras perguntas?”

Eládio olhou nos olhos de Gercino. Eram os olhos de um homem tranquilo, transparente. Sua resposta era confiável. E disse: “Mais nenhuma pergunta. Acredito que o senhor está dizendo a verdade.” “Doutor, eu sempre digo a verdade. E não costumo argumentar para provar que estou falando a verdade. Mas vou abrir uma exceção. Se tivesse sido eu, o senhor ainda hoje estaria procurando seu irmão e sua cunhada.


58 Eles teriam desaparecido da face da terra. Mas, doutor, eu jamais mataria um neto do coronel Teodorico!”

Eládio levantou-se e despediu-se. Ia entrando no carro quando Gercino falou: “Transmita minhas recomendações a sua excelência seu avô. Admiro muito o coronel Teodorico.”

Eládio voltou frustrado para Amendoeira. A investigação permanecia na estaca zero.


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As pessoas sempre acreditavam nele, porque jamais mentira. Quando lhe indagavam se tinha feito algo, respondia sim ou não. Não sabia qual era o motivo, mas nunca lhe perguntavam se tinha mandado fazer. A ele, porém, não repugnava a ideia de subempreitar a tarefa que lhe era atribuída. É verdade que uma vez ou outra isso acontecia. Não confiava em intermediários. Havia dois ou três que mereciam alguma confiança. O resto era escória. Mas, às vezes, não se sentia capaz de executar a tarefa. Nos últimos tempos, sentia que já não era o mesmo. Talvez a idade, talvez a doença, talvez ambas comprometiam sua aptidão para trabalhar naquilo que melhor sabia fazer. Nessas ocasiões, não poderia recusar o serviço. Se o fizesse, terminaria perdendo a confiança e a proteção daqueles que o prestigiavam. Isso seria ruim para ele. A solução era a subempreitada. Várias vezes metera-se em confusões, causadas pela irresponsabilidade ou trapalhadas de subempreiteiros. Isso o deixara calejado. Em casos de certa importância, preferia recusar. Lembrava um desses casos. Muito difícil, complicado, que exigiria separar o joio do trigo. Não lembrava, porém, se recusara a tarefa ou se a subempreitara. Sua memória andava pregando-lhe umas peças. Ainda bem que fizera seu pé-de-meia, capaz de deixá-lo tranquilo no tempo que lhe restava. Soubera quando se aposentar. Os dias estavam contados. Não havia muito futuro para ele nem para o tipo de profissional que fora.


6. De volta para Amendoeira, Eládio recebeu um recado de D. Diolinda. Ela queria falar-lhe. À noite, foi procurá-la. D. Diolinda indagou sobre sua investigação e ficou sabendo que nada havia de novo. Não conseguira sair do ponto de partida. “Eládio, você acredita no sobrenatural?” “Não”,

foi a resposta imediata. “Por quê?”

“Mesmo que não acredite, você poderia procurar uma senhora em Cavaleiro, que vê coisas que escapam à nossa compreensão.” “Uma vidente?” “Sim. D. Marli. Vá falar com ela. No máximo isso tomará algumas horas do seu tempo. Ouça-a. Se julgar que foi tolice procurá-la, não ficará em pior situação do que está agora.”


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D. Diolinda tanto insistiu que Eládio prometeu procurar D. Marli no dia seguinte. E foi o que fez. D. Marli era uma mulher bastante velha. Parecia ter pelo menos oitenta anos. Miúda e morena. Olhos azuis, como muitas vezes se encontra no sertão do Nordeste. Calada, convidou Eládio a sentar-se a uma mesa, defronte dela. “Eu sou...” “Sei quem é, não precisa dizer-me. E sei por que está aqui.”

Eládio ficou surpreso, mas sentou-se. Estendeu as mãos, tal como ela lhe pediu. D. Marli pegou-lhe as mãos estendidas, dirigiu-lhe um olhar fixo, como se estivesse bastante concentrada, e começou: “Seu coração não está aqui. Está muito longe. Com uma moça da Capital, que aliás já não está mais na Capital.”

Eládio assustou-se, mas ficou firme. D. Marli continuou: “Você não deveria estar aqui. Deveria estar com ela.”

Fez uma pausa. “Sua missão em Amendoeira levará você a um resultado desagradável. Mas você não é de desistir no caminho.”

Eládio não se conteve e falou: “Eu vim para saber quem matou meu irmão e minha cunhada. A senhora sabe? Se não sabe, irei embora.” “Eu sei quem matou, jovem. Mas não lhe direi. Você saberá quando chegar a hora. Vejo em seu caminho


62 dificuldades e sofrimentos, mas um dia voltará a encontrar a mulher amada. Para isso terá de sair de Amendoeira.” “Eu não sairei de Amendoeira!” “Sairá, sim. Não agora, mas daqui a algum tempo, após descobrir quem matou seu irmão. Mas não irá para a Capital. Irá para mais longe. É seu destino!”

Eládio testou: “A senhora sabe onde está Teodorico?” “Não tenho a menor ideia, meu jovem. Eu não sou médium.” “Então o que a senhora é?” “Não sei, nunca soube e jamais saberei. Mas se adiantasse dizer-lhe alguma coisa, eu lhe daria um conselho: pare sua investigação. Volte para a Capital. Mas já vivi o suficiente para saber que isso de nada adiantaria. Não me é dado alterar o destino.”

Calou-se. De repente, sempre fixando seu olhar no dele, voltou a falar: “Nada mais tenho a dizer, jovem. Dizer-lhe o que sei não alterará nada. Não o ajudará. De que adianta você saber o que sei, se isso de nada o ajudará?”

E levantou-se, estendendo-lhe a mão em despedida. 2 Quando Eládio chegou à promotoria alguns dias após, encontrou, na sala de espera, um casal de meia idade. Cumprimentou-os e entrou em sua sala. Paixão o acompanhou.


63 “Doutor Eládio, tive a ideia de procurar esse casal que mora defronte da pousada onde houve o crime em Cavaleiro. Já moravam lá na ocasião. Ele é encanador. Faz pequenos consertos e participa da instalação hidráulica de casas em construção. Têm uma história interessante a contar. O senhor quer ouvi-los?” “Mande entrar.”

Os dois entraram acompanhados de Paixão e todos se sentaram à frente de Eládio. O marido se chamava Manuel, a mulher, Joana. Tinham seis filhos, mas dois já haviam rumado para a Capital e outros dois para São Paulo. Eládio disse-lhes que gostaria de ouvir o que tinham a relatar. A mulher perguntou: “Quem começa?”

O marido foi quem respondeu: “Eu.”

E começou. Contou que no domingo em que ocorrera o crime eles se sentaram em frente a sua casa, para aproveitar o sol, que não estava tão forte como de costume, em face da brisa que soprava naquela manhã. Estranharam que a pousada, sempre movimentada aos domingos, estivesse vazia, sem ninguém entrando ou saindo. Não sabiam que lá estavam o filho e a nora do coronel Teodorico. Lá pelas dez horas... “Nove”, interrompeu Joana. “Dez, tenho certeza!” “Nove!”

Eládio cortou:


64 “Continue. Não importa a hora.” “Desculpe esse meu marido, promotor. Ele sempre confunde as horas.” “Vá em frente, Manuel”,

disse, paciente, Eládio. Vá lá! Cerca das nove horas viram um rapaz passar em frente à pousada. De início não prestaram atenção a ele. Só na terceira vez é que o olharam mais detidamente. Era alto, tinha mais de um metro e oitenta. “Era baixo, com cerca de um e sessenta.”

Mais uma vez Eládio cortou a discussão e mandou Manuel continuar. Estava trajado com discrição. Não lembrava como, mas não notara nada de especial. “Nem eu”, acrescentou Joana. Puxa, até que enfim concordavam com alguma coisa, pensou Eládio. De repente, o rapaz entrou na pousada. Causou-lhes estranheza que o fizesse não pelo portão principal, mas por um lateral, que dava para o oitão. “Que idade tinha esse rapaz?”, perguntou Eládio. “Uns trinta anos”, respondeu Manuel. “Nada disso. Tinha cerca de vinte”, discordou Joana. “Trinta!” “Vinte!”

De novo Eládio precisou intervir: “Continue.”

Logo a seguir, ouviram disparos e o rapaz saiu pelo


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portão lateral, a correr para longe da pousada. O porteiro também saiu, só que pelo portão principal, entrou na casa dos proprietários, ao lado, e voltou com eles à pousada. Tudo isso na correria. E o resto o promotor já sabia. “Como era esse rapaz? Branco, preto, alvo, moreno, louro, alourado, cabelos pretos?” “Moreno de cabelos pretos.” “Não senhor! Alvo, de cabelos alourados.” “Moreno!” “Louro!”

Joana dirigiu-se ao promotor: “Doutor, esse meu marido não presta atenção a detalhes. Parece cego. Acredite em mim. O rapaz tinha cerca de vinte anos, era baixo, alvo, de cabelos alourados.”

Eládio percebeu que não adiantava prosseguir. Pediu a Paixão para tomar os depoimentos, mas antes do casal retirar-se de sua sala não se conteve e perguntou: “Só por curiosidade: há quantos anos vocês são casados?” “Vinte e oito.” “Nada disso! Trinta e um.”

E saíram Manuel e Joana a discutir, como vinham fazendo há vinte e oito anos. Ou trinta e um? Eládio continuou sentado, a pensar. Era possível que o rapaz tivesse sido o assassino. Mas a descrição que obtivera foi bastante insatisfatória. Um rapaz baixo, alvo e de cabelos alourados. Ou, talvez, alto, moreno e de cabelos pretos.


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A única conclusão que se podia tirar era a de que se tratava de um homem moço. 2 Uma noite, na casa dos pais, onde estava morando, após o jantar João Pedro chamou o filho para uma conversa na biblioteca. Disse que Paixão estava preocupado com a reabertura do caso da morte de Teodorico Neto e Ritinha e que ele, João Pedro, concordava com o delegado. Não tinha sentido mexer em assunto já esquecido. O sofrimento da família, inclusive dele, João Pedro, havia sido muito grande. Não gostaria de revivê-lo. Eládio perguntou ao pai se havia alguma outra razão para não mexer no assunto. Ante uma resposta negativa, reafirmou que pretendia reabrir o caso. Estavam conversando quando apareceu esbaforido o Toinho Cazuza, ajudante e motorista do coronel Teodorico, dizendo que ele queria falar urgente com o neto. Eládio foi a pé até a casa do avô, que ficava próxima à dos pais. À frente da casa, estava o Ford preto do avô. Entrou e encontrou o coronel sentado em sua poltrona favorita, com fisionomia severa. Disse ao neto que sentasse a seu lado e repetiu a mesma conversa de João Pedro. Eládio perguntou se o avô lhe estava fazendo um pedido, aconselhando-o ou dando uma ordem. O avô esclareceu que era um conselho. Eládio retrucou que agradecia o conselho, mas não o seguiria.


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O avô disse-lhe, então, que era uma ordem. Eládio pensou alguns minutos e falou, dirigindo-se ao coronel: “Coronel Teodorico, se aqui estivesse seu neto, ele acataria sua ordem. Mas como quem está aqui é o promotor público da cidade, sua ordem é descabida e despropositada.”

E retirou-se, deixando o coronel Teodorico perplexo com a desobediência. 2 O coronel Teodorico quase teve um ataque de apoplexia. Como é que aquele menino, que ele viu de fraldas, tinha a ousadia de enfrentá-lo? E o respeito aos mais velhos? Aos pais e avós, que eram os responsáveis por sua vinda ao mundo e tinham muito mais experiência do que esses jovens desabusados e desrespeitosos de hoje? Aos poucos, porém, Teodorico foi voltando à calma. E pela primeira vez percebeu que estava dividido em relação ao neto. Por um lado, irritava-o sua atitude de rebeldia. Por outro, admirava-se com sua coragem de enfrentar o poderoso avô, mesmo sabendo que este jamais utilizaria métodos drásticos para retaliá-lo. Foi nessa ocasião que o coronel Teodorico teve, pela primeira vez, a percepção de que Eládio seria um excelente coronel Raposo...


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Teodorico Neto estava no altar, vestido com um terno azul-marinho e gravata prateada, aguardando a noiva, que entrou na igreja conduzida pelo coronel Teodorico. Ela estava deslumbrante, vestida de branco com grinalda. Um casal bonito, um acontecimento para não ser esquecido. Houve quem estranhasse Ritinha não ter entrado na igreja acompanhada de João Pedro. Era costume que a noiva, órfã de pai, entrasse na igreja com o futuro sogro. Será que este fora contrário ao casamento? Mas havia uma explicação plausível: a estrela do casamento era o coronel e ele fazia questão de demonstrá-lo. O coronel Teodorico manteve, durante todo o desenrolar das cerimônias, civil e religiosa, a postura de patriarca da família. Solene, empertigado, ensinava a todos como se devia comportar um verdadeiro líder da comunidade. Era ele o anfitrião. João Pedro e D. Mariinha, como sempre, pareciam ausentes. Tanto ele quanto ela comportavam-se como meros espectadores de um espetáculo igual a outro qualquer, com um alheamento emocional típico de suas personalidades apagadas. Exerciam papéis secundários na estrutura familiar e nada faziam para modificar essa situação. Faltava-lhes ímpeto, ousadia, entusiasmo. Faltava-lhes paixão! Eram dessas pessoas que não revelavam seus sentimentos, e se faziam algum esforço era para ocultá-los. Apesar disso, dava para perceber sua hostilidade a Ritinha, maior nele do que nela. Era uma palavra ou outra, solta no meio da conversa, ou um brilho que não costumava aparecer naqueles olhos


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inexpressivos, ou a maneira fria e formal com que a recebiam para almoçar ou jantar em sua casa. Pequenos detalhes, suficientes para revelar a aversão que tinham pela futura nora. João Pedro chegava, até, a alegar compromissos inadiáveis para justificar sua ausência, nas ocasiões em que Ritinha ia à sua casa para encontrar-se com o noivo. E quando isso ocorria, seu comportamento era tão desastrado que qualquer observador, por menos arguto que fosse, não tinha dificuldade para perceber que o motivo alegado não existia.


7. As notícias em Amendoeira espalhavam-se com rapidez. Logo, quase toda a população já sabia que o novo promotor havia determinado a reabertura do caso. Comentava-se, entre muros, que o coronel Teodorico não gostara nada dessa decisão do neto, de reabrir uma chaga que a família carregava havia mais de cinco anos. Comentava-se, mais, que era uma questão de tempo o confronto aberto entre o neto e o avô, que não costumava suportar quando lhe contrariavam a vontade. O coronel convocou uma reunião familiar no salão de sua casa. Quando o filho e o neto chegaram, sem maiores formalidades ele foi direto ao assunto. Exibiu uma carta do governador, em que sua excelência informava ao dileto amigo que soubera da existência de desencontros de opinião entre ele e o neto promotor, e que, para o bem da população, a investigação sobre o assassinato de Teodorico


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Neto e Ritinha deveria ser conduzida por alguém de fora de Amendoeira. À vista disso, designara seu assessor especial, doutor Juvenal Machado, para assumir os trabalhos. Podia estar certo o coronel que essa decisão não significava interferência nas funções do neto, que ele respeitava como se fosse o avô. Dirigindo-se a Eládio, disse o coronel Teodorico: “Viu no que deu decidir sem me consultar?”

Eládio reagiu, afirmando que o governador desmoralizara sua autoridade de promotor de justiça. Que o doutor Juvenal tinha sido contemporâneo seu na faculdade, que os dois se davam muito bem, mas que ele não iria transferir suas atribuições legais a um assessor cuja missão era intervir em Amendoeira para abafar o caso. O coronel Teodorico surpreendeu-se com a reação do neto. Pensou um pouco e de repente, deixando Eládio estupefato, concordou: “Essa sua decisão de reabrir o caso foi uma estupidez, mas você tem razão. Se aceitar a interferência do governador ficará desmoralizado. E a mim também não agrada a vinda de um almofadinha da Capital para intrometer-se nos assuntos de Amendoeira.”

João Pedro assistia a tudo como mero figurante, o que aliás sempre fora. O coronel andou pelo salão, abriu a gaveta de sua mesa, tirou um charuto, cortou-lhe a ponta e acendeu-o com um fósforo. Após algumas baforadas, continuou: “Você disse que se dá bem com o doutor Juvenal, é isso?”


72 “Certo!” “Ele deverá chegar aqui na sexta-feira à noite e assumirá suas funções na segunda. Você poderá convidá-lo para almoçar no sábado. Leve-o àquele restaurante de Cavaleiro onde servem uma excelente carne de sol com farofa. Converse com ele. Demova-o da ideia de assumir a investigação. Use sua lábia de bacharel.” “Digo-lhe o quê?” “Arre, diacho, Eládio! Diga-lhe qualquer coisa. Por exemplo, que o clima aqui em Amendoeira não é saudável para quem vem da Capital. Que o último estrangeiro que passou uma semana inteira na cidade não resistiu e morreu. Você ainda sabe dizer essas coisas! Ou desaprendeu na faculdade?”

2 Na sexta-feira à noite, Eládio foi à estação de trem receber o doutor Juvenal. Levou-o ao melhor hotel da cidade. Pensou em levá-lo ao outro, ou seja, o pior, mas não se sentiu à vontade para fazer isso com um amigo, ex-contemporâneo de faculdade. Deixou-o lá, acomodado, e ficou de buscá-lo no dia seguinte para irem conversar e saborear a carne de sol com farofa no restaurante de Cavaleiro. A conversa girou quase toda em torno das lembranças dos tempos de faculdade. Juvenal havia colado grau um ano antes de Eládio, mas a maioria das lembranças era comum aos dois. Quando estavam prestes a retirar-se e voltar a Amendoeira é que Eládio iniciou a conversa que lhe interessava.


73 “Juvenal”, disse ele, “você é da Capital, nasceu e cresceu à beira-mar. Não conhece minha região, muito menos Amendoeira.” “Correto, Eládio, e daí?” “Sua vinda para assumir funções que são do promotor da cidade não agradou a ninguém.” “Quer dizer, não agradou a você, não é isso?” “Não, Juvenal, não agradou a ninguém.” “Não compreendo. Se você está em rota de colisão com o coronel Teodorico, minha vinda a Amendoeira deve ser bem-vista pelo menos por ele.” “Engana-se, Juvenal. Quem ficou mais incomodado foi ele, pode crer.” “Mas isso não tem lógica!” “Tem, Juvenal, tem. A gente não aprende na faculdade, mas a lógica, como a moral, varia de acordo com o lugar e o tempo.” “Mas eu recebi cumpri-las.”

ordens

do

governador

e

irei

“Não cumpra, meu amigo. Volte para a Capital, arranje uma boa desculpa. Diga que torceu o pé, pegou uma pneumonia, qualquer coisa. Mas não fique em Amendoeira na segunda-feira. Pegue o trem cedo, de volta para a Capital. Lá, o clima é mais saudável.” “E se o coronel Teodorico reclamar ao governador?” “Não reclamará, pode ficar tranquilo. Palavra de amigo!”

Eládio deixou Juvenal no hotel e convidou-o para participar de uma partida de futebol no dia seguinte. Partida


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de confraternização entre solteiros e casados. Foi nesse momento que soube que Juvenal havia casado há poucos meses. “Então estaremos em times opostos.” “Por falar nisso, Eládio, tem tido notícias de Isabela?” “Não. Ela casou?” “Que eu saiba, não. Foi para o Rio de Janeiro. Disseram-me que está trabalhando em um bom escritório de arquitetura e tem feito muitos progressos. Você quer que eu consiga seu endereço, para escrever-lhe?” “Não, Juvenal. O que eu teria a dizer-lhe além do que já foi dito ou do que não precisava ser?”

Desejou boa noite ao amigo e saiu, pensativo e nostálgico. Na segunda-feira, às nove da manhã, quando o doutor Juvenal deveria estar assumindo o comando das investigações, um rapaz moço, bem-apessoado, sentado em uma poltrona da primeira classe, estava viajando de volta para a Capital. Satisfeito por ter reencontrado o amigo Eládio e aliviado por haver torcido o tornozelo no futebol que jogara na véspera... 2 O governador era um homem inteligente e educado. Fingiu acreditar na contusão do doutor Juvenal e reconheceu que cometera três erros: tentara intervir em um assunto que dizia respeito apenas aos Raposo; enviara, para proceder a essa intervenção, um jovem, recém-formado, contemporâneo e amigo do promotor cujas funções deveria assumir; e, por último, escolhera alguém que


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nascera e crescera no litoral, sem conhecimento direto das peculiaridades do sertão. Mas como continuava preocupado com o que ocorria em Amendoeira, convocou outro assessor, o doutor Teobaldo. Teobaldo era homem de quase sessenta anos. Não conhecia Eládio, do qual não fora contemporâneo na faculdade. Era sertanejo, de uma cidade oitenta quilômetros acima de Amendoeira. E conhecia o coronel Teodorico, a cuja fazenda costumava ir quando seu pai, amigo do coronel, ia a Amendoeira para tratar de negócios e de política. Mesmo assim, o governador tomou a precaução de designar o doutor Teobaldo como observador governamental, evitando que sua designação fosse entendida, de alguma maneira, como intervenção nos assuntos internos de Amendoeira. Dias antes da chegada de Teobaldo a Amendoeira, já corria a notícia de sua designação. Alguns habitantes o conheciam da região, mas preferiram não ir à sua chegada. Decidiram aguardar a reação do coronel Teodorico. Quando Teobaldo desceu do trem, encontrou apenas duas pessoas: Eládio e, para surpresa geral, o coronel. Em pessoa. Maior foi a surpresa quando se soube que Teobaldo havia sido convidado pelo coronel para hospedar-se em sua casa. “Um observador governamental não pode ficar hospedado em hotel”, proclamou o coronel Teodorico. E Teobaldo seguiu de mala e cuia para a casa do coronel. Teobaldo era um homem alto, moreno, parecido com o coronel Teodorico, só que mais moço, sem bigode e de cabelos apenas grisalhos. Charmoso, conversador, falando alto como bom sertanejo que era, logo iniciou o exercício de suas funções de observador governamental. Acordava cedo, comia


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tapioca de coco, queijo de coalho e requeijão do sertão, macaxeira, inhame e fruta-pão com manteiga, tudo acompanhado de uma enorme xícara com leite fresquinho, tirado ao pé da vaca. Mais um caneco de café puro e uma boa conversa no terraço e Teobaldo estava apto a iniciar sua observação. Saía cavalgando pelos arredores da cidade. De vez em quando apeava para conversar com um agricultor ou um vaqueiro e usufruía a sensação de liberdade que tinha quando voltava a seu habitat, longe da praia, do mar e da badalação da Capital. Voltava à hora do almoço. A cavalgada abria-lhe o apetite e ele se esbaldava comendo farofa, “carne-de-sol”, carne de bode, rabada e buchada, dependendo do cardápio do dia. Bastante manteiga de garrafa com baião de dois e, de sobremesa, quitutes como canjica, “pé-de-moleque”, pamonha, tapioca molhada, “pão-de-ló” e doces caseiros dos mais variados tipos. No fim, um licor, quase sempre de jenipapo ou de jabuticaba. À tarde, uma sesta no quintal, em uma rede armada entre duas árvores. Em seguida, andava pelas ruas da cidade, conversando com Deus e o mundo. Dava para perceber que se sentia em casa. À noite, uma ceia, menos lauta que o almoço, após o que se dirigia ao principal boteco da cidade, onde tomava suas cachaças e deitava conversa fora até a hora de dormir. Era espantosa sua capacidade de repetir a rotina diária. No dia seguinte, era sempre a mesma coisa, sem alteração, pelo menos substancial. Quase todos os fins de semana, costumava tomar um


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carro emprestado e ia à sua cidade, onde encontrava parentes e amigos. Mas nas segundas, após o almoço, estava de volta, pronto para o cumprimento do dever. Conversava muito com o coronel Teodorico sobre acontecimentos antigos de que ele, Teobaldo, chegara a participar, ou que lhe foram contados por seu pai, mais velho que o coronel. Mas o ponto alto de suas conversas era no boteco, ao deliciar os presentes com histórias sobre Lampião e Maria Bonita, quando eles e seus seguidores percorriam a região e costumavam pernoitar na fazenda do seu pai, de quem eram amigos. Teobaldo, embora maduro, era vistoso. Despertava a atenção de moças solteiras e senhoras casadas, que costumavam desfilar em frente à casa do coronel Teodorico nos finais de tarde, buscando atrair-lhe a atenção. Mas ele, cujo estado civil jamais se soube qual era, mantinha distância. Às vezes, quando inquirido no boteco por alguém mais afoito, respondia: “Você pensa que sou besta?”

Besta ou não, duas vezes por semana aboletava-se em um carro de aluguel e dirigia-se a Cavaleiro. Lá – soube-se depois – encontrava-se com uma moça prendada, muito bonita, que atendia pelo nome de Nely, cuja magnanimidade era conhecida e reconhecida em Cavaleiro e adjacências. Nessas noites, voltava de madrugada para Amendoeira. Às vezes, nem voltava; só no dia seguinte. Toda semana enviava um relatório ao governador, tranquilizando sua excelência ao dizer-lhe que Amendoeira estava em paz, os Raposo mais unidos que nunca, e ele, Teobaldo, fazendo de tudo para manter a paz vigente.


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Ao fim de três meses, correu pela cidade a notícia de que o governador chamara Teobaldo de volta para a Capital, dando por finda sua missão. Em uma terça-feira, às seis da manhã, o doutor Teobaldo dirigiu-se à estação para tomar o trem que o levaria de volta à Capital. Lá, compareceram o coronel Teodorico, João Pedro, Eládio, Paixão e quase toda a população da cidade, inclusive D. Mariinha, que quase nunca saía de casa. A comoção era grande, e maior ficou quando todos viram Nely aparecer, ela que nunca ia a Amendoeira, mas foi para despedir-se do seu querido Teobaldo. Beijaram-se como se sua relação não tivesse sido curta e tempestuosa. E segundo alguns que estavam perto do casal, ela sussurrou ao ouvido do seu Baldinho que ele tinha sido o homem de sua vida. E lá se foi Teobaldo, com alguns quilos a mais... O coronel Teodorico telegrafou ao governador tecendo os maiores elogios à atuação de Teobaldo e agradecendo a feliz ideia de enviá-lo a Amendoeira como observador governamental. Esperava que o êxito de sua missão fosse reconhecido por sua excelência, o que seria de inteira justiça. No dia seguinte, a vida continuou em Amendoeira, tal e qual Teobaldo a havia encontrado quando chegara...


8. Mal Teobaldo retornou à Capital, o coronel Teodorico recebeu uma carta do governador. Nela, sua excelência expressava satisfação pelas notícias que recebera, agradecia a acolhida que fora dispensada a seu observador e, sabendo que o coronel estaria na Capital na próxima semana, convidava-o para um jantar íntimo no Palácio do Governo, com ele, a primeira dama e seus filhos. Seria motivo de satisfação para toda a família. Teodorico não tinha programado ida nenhuma à Capital, mas entendeu o recado: o governador continuava preocupado e queria conversar com ele. Aproveitou o portador, que era Xavier, o deputado estadual por Amendoeira e região, e respondeu que aceitava o honroso convite. Pensou que seria uma oportunidade de consultar seu velho clínico na Capital e fazer alguns exames de saúde que já estavam atrasados.


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No dia e hora marcados, o coronel estava na ala residencial do Palácio do Governo, a postos para o jantar. Ele conhecia a família, que já se hospedara em sua fazenda em Amendoeira. Sentiu-se meio desconfortável, porque era a primeira vez que comparecia à ala residencial do Palácio. Conhecia os dois primeiros andares, onde funcionavam algumas secretarias de estado e o gabinete do governador. Mas jamais fora ao terceiro, onde o governador residia com a família. O jantar transcorreu muito bem. O coronel Teodorico não gostava do que foi servido. Sopa de creme de ervilha, maionese de camarão e filé com arroz e batatas fritas. Preferia comida em que pudesse derramar pimenta malagueta, preparada a capricho, dessas de tirar o fôlego de quem não está acostumado a comê-la. Mas era um homem educado. Havia aprendido com seus pais, que haviam aprendido com seus avós, e assim por diante, a comportar-se em qualquer situação. É claro que preferiria comer uma buchada de bode ou uma carne de sol com farofa, mas serviu-se da sopa, da maionese, do filé com arroz e fritas e do “bolo-derolo”, como se fossem seus pratos prediletos. Após o jantar, o governador levou-o ao gostoso terraço, que dava para os jardins bem cuidados do Palácio e de onde se via, ao longe, os contornos do rio já se encontrando com o mar. Serviu-se do charuto que lhe foi oferecido e aguardou. “Teodorico, meu caro amigo, estou preocupado”, começou o governador. E continuou: “Você é o esteio de nosso partido na região de Amendoeira,


81 Cavaleiro e cidades mais próximas. Como foi seu pai, e os demais coronéis Raposo. Mas nós todos teremos de atender, um dia, ao chamado divino. Quando chegar meu dia, não haverá problema. Ou o governador já será outro, eleito para o cargo, ou serei substituído pelo vice-governador, que por sua vez será substituído por outro governador. Mas – permita-me a franqueza – quando você desaparecer não haverá eleição para substituí-lo. Quem o substituirá?” “Não sei, excelência.” “Será seu filho, João Pedro, o novo coronel Raposo?” “Não, governador. Ele não tem as características necessárias.” “E seu neto, o promotor público?” “É um rebelde. Sabe como é, governador, ele veio estudar na Capital, foi intoxicado pelo ambiente atual de liberdade e democracia, passou a considerar o coronelismo superado no Nordeste.” “Ele tem as características para a sucessão?” “Ter, tem, mas não quer.” “E você não poderá obrigá-lo a aceitar?”

Teodorico olhou com espanto para o governador. Como ele poderia obrigar Eládio a sucedê-lo como coronel de Amendoeira? Ele reconhecia que havia errado ao deixar Eládio estudar direito na Capital. Poderia tê-lo impedido de sair do sertão, atribuindo-lhe tarefas em Amendoeira, desde os dezoito anos. Se tivesse agido assim, Eládio teria desenvolvido suas qualidades de liderança dentro da realidade do sertão. E hoje o coronel já lhe poderia delegar


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algumas de suas funções, preparando a sucessão que viria a ocorrer. Mas limitou-se a responder: “Não, excelência. Não posso obrigá-lo.” “Então tente convencê-lo.” “Não é fácil. O rapaz é teimoso como uma mula!”

O governador ficou pensativo. Depois de alguns minutos, voltou a falar: “Teodorico, você poderá tentar convencê-lo, pelo menos tentar. Mas, pelo que percebo, terá de romper a barreira que existe entre vocês. Tente, meu amigo, tente! Não gostaria de ver Amendoeira entregue a aventureiros e oportunistas.” “Está bem, governador, tentarei. Vamos ver o que consigo.”

Nova pausa e o governador arrematou: “Teodorico, você gosta muito do seu povo, e em especial de sua família. Você é muito humano, e eu o admiro por isso. Você respeita seu filho tal como ele é. Admirava o pendor artístico do neto mais velho. E agora admira a resistência, a coragem e a personalidade forte do neto mais moço. Você sairá daqui com uma missão, atribuída não apenas por mim, mas pelo nosso partido: convença seu neto a sucedê-lo no coronelato!”

Teodorico despediu-se e voltou para o hotel onde estava hospedado. No dia seguinte, retornou a Amendoeira, com uma missão a cumprir. Talvez estivesse velho demais, mas não acreditou que pudesse fazê-lo.


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2 A conversa com o governador viera em uma hora imprópria para o coronel. Os exames médicos a que se submetera não foram satisfatórios. O clínico lhe dissera que seu coração começava a dar sinais de cansaço e que a pressão arterial estava muito alta. Para piorar, o nível de glicose no sangue havia subido muito, desde os últimos exames, realizados há três ou quatro anos. O governador havia tocado em um ponto sensível, que o vinha atormentando havia algum tempo. Ele não preparara sua sucessão... 2 Após a saída do coronel Teodorico, o governador voltou ao terraço e à contemplação dos jardins e do rio ao longe. Serviu-se de um cálice de vinho do Porto e ficou a pensar na visita que recebera. Era amigo do coronel desde que se elegera deputado federal havia cerca de doze anos. Fora bem votado em Amendoeira, por indicação do partido, que costumava dividir o estado em zonas eleitorais, a fim de evitar o desperdício de votos. Desde essa época, só tivera motivos para fortalecer sua amizade e admiração pelo coronel. Leal, honesto e, sobretudo, humano. Não fazia da violência sua arma, mas era duro e inflexível em seus princípios. Notara que o coronel não estava como das outras vezes em que se encontraram. Talvez menos vigoroso, talvez mais desalentado. Não sabia como definir a sensação que teve. Mas o coronel Teodorico que estivera no jantar no Palácio não lhe parecia estar bem.


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Esperava que não fosse problema de saúde. Gostaria de ver o coronel viver ainda muitos anos. Sobretudo, é claro, pela amizade que os unia. Mas, político que era, não conseguia deixar de pensar em sua importância nos embates eleitorais do seu partido. Por todos os motivos, gostaria de vê-lo atuante no próximo ano, quando seria escolhido o novo governador. Era muito importante para sua carreira política que ele, atual governador, conseguisse eleger seu sucessor.


9. Foi nessa altura dos acontecimentos que Eládio sentiu necessidade de ouvir alguém mais velho, experiente, que pudesse aconselhá-lo. Lembrou-se de imediato do seu padrinho de batismo, coronel Orozimbo, de Verde Vale, nome estapafúrdio para uma cidade situada em uma região árida como o sertão nordestino. Ele nunca mais havia procurado seu padrinho, mas sabia que seria bem recebido, como sempre fora. Pegou seu carro e dirigiu os cento e tantos quilômetros que separavam Amendoeira de Verde Vale. Como esperava, foi muito bem recebido pelo padrinho coronel. Hospedou-se em sua fazenda onde ficou alojado como visitante de honra. Puseram a conversa em dia e só na manhã seguinte Orozimbo indagou a razão da visita do afilhado.


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Eládio contou-lhe tudo o que estava acontecendo. O coronel Orozimbo já sabia que os Raposo se estavam desentendendo, mas não conhecia os detalhes. Ouviu com atenção o relato do afilhado. “E eu, em que posso ajudar, meu afilhado? O que você quer de mim? Interferência junto a meu amigo, seu avô?” “Não, meu padrinho. Quero conselho de alguém que admiro e que tem muito mais experiência de vida do que eu.”

Orozimbo que já beirava os oitenta e cinco anos, mas conservava uma lucidez invejável, perguntou: “Quando você iniciou sua investigação imaginou que não iria encontrar resistência?” “Sim. Esperava que meu pai e meu avô me apoiassem.” “Eládio, às vezes você revela uma maturidade maior do que seria de se esperar de um jovem de sua idade. Mas é inevitável que vez ou outra você seja o que é: alguém de vinte e seis para vinte e sete anos, idealista, culto, formado na Capital, mas imaturo como jovem inexperiente que é. A morte de Teodorico Neto e Ritinha ocorreu há muito tempo. Os mortos devem permanecer sepultados. Nesta região, ninguém gosta de ressuscitar o passado, salvo aqueles que alimentam ideias de vingança. E seu avô e seu pai não são vingativos.”

Fez uma pausa e continuou: “É fácil imaginar os motivos da reação do meu amigo


87 Teodorico e de seu filho. Se você não fosse um Raposo já teria sido expulso da cidade. No mínimo! Não sei se você veio aqui em busca de um conselho. Se veio, é fácil aconselhá-lo. Pare a investigação. Seu avô e seu pai têm razão.”

Eládio ouviu e retrucou: “Mas meu padrinho, eu me formei em direito, fiz um juramento. Não posso ignorá-lo.” “Você já imaginou que seu avô e seu pai tenham alguma razão pessoal contra a reabertura do caso?” “Já perguntei isso a meu pai.” “E o que ele respondeu?” “Que não.” “E você acreditou?” “Eu sempre acredito em meu pai.”

O coronel Orozimbo levantou-se, foi ao aparador, pegou uma garrafa de aguardente, encheu dois copos e ofereceu um ao afilhado. “Eu não bebo, meu padrinho.” “É um de seus defeitos. Você é muito certinho. Não bebe, não fuma, não joga. Segue a lei à risca. Pelo menos gosta de mulher?” “Meu padrinho!” “Ainda bem. Mas beber um pouco também faz bem. Você não irá consertar o mundo, pode crer.”

Ficaram calados, os dois. Até que o coronel Orozimbo rompeu o silêncio: “Está bem, você terá o conselho que veio pedir. Faça


88 o que sua consciência lhe ordenar. Mas, por favor, Eládio, depois não lamente. Se você for em frente, depois não diga que se soubesse o que iria acontecer não tomaria esse caminho.” “Quer dizer que o senhor espera problemas?” “Não sei, não sei. Mas pelo que você contou, não será impossível. Talvez, problemas graves.”

Nova interrupção, até que o coronel Orozimbo continuasse: “Olha para mim, Eládio!”

Eládio olhou. “Olhos nos olhos!”

Eladio olhou. “Você irá em frente, não é?” “Irei, meu padrinho.” “Você está só! Não esqueça!”

Eládio levou o resto do dia percorrendo a fazenda acompanhado do coronel Orozimbo e rememorando as férias que ali passara quando menino. No dia seguinte, de manhãzinha, voltou para Amendoeira.


10. O delegado Paixão passou a colher depoimentos sobre o assassinato de Teodorico e Ritinha. Algumas pessoas por ele procuradas haviam falecido. Outras estavam doentes ou com problemas de memória. Eládio trabalhava como jamais trabalhara antes, movido pela obsessão de descobrir a verdade. Suas relações com o pai e o avô passaram a ser formais. Às vezes, nas reuniões familiares, ele imaginava que sua família o via como um monstro. E isso o animava a prosseguir, porque como poderia ser um monstro alguém que buscava apenas saber a verdade sobre o assassinato de Teodorico Neto? O pai, João Pedro, falava com ele o mínimo possível. Eram dois estranhos dentro da casa. O avô tentou, sem êxito, removê-lo da comarca. Quanto maior a resistência,


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maior sua obstinação. Era como se devesse pelo menos isso ao irmão. Certa noite, quase ao anoitecer, entregaram-lhe um envelope a ele dirigido, sobrescrito com letra feminina. Não reconheceu a letra nem seria esperável que o fizesse. Abriu o envelope e leu um bilhete, de poucas linhas. Dizia apenas: “Pergunte a seu pai por Godoberto.” Não tinha assinatura. Chegou a pensar em rasgá-lo, mas se conteve. E passou o resto da noite, e a madrugada, a pensar quem seria esse Godoberto. Teria ele relação com a morte de Teodorico? Eládio não era homem de hesitações. Avaliou a situação e no dia seguinte, cedo, sentou-se à mesa com o pai para o café da manhã e colocou o envelope em frente a João Pedro. “O que é isso?” “Algo que recebi ontem.” “O que tem a ver comigo?” “Leia-o.”

O pai abriu o envelope, leu o bilhete e olhou inquisitivo para Eládio: “Quem é Godoberto?” “Não sei. O senhor sabe?” “Não tenho a menor ideia.”

Eládio calou-se, terminou de tomar seu café, levantou-se e foi trabalhar. Quem seria Godoberto?


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No dia seguinte recebeu novo envelope, com a mesma caligrafia. Dizia o bilhete anônimo nele contido: “Desculpe. Não é Godoberto, e sim Godofredo.” A essa altura, Eládio começou a pensar que estavam brincando com ele. Rasgou o bilhete e jogou-o fora. O inquérito continuou. Paixão dava o máximo de si. Parecia que tinha recobrado o ânimo com a participação de Eládio. Um dia entrou no escritório do promotor com cara de quem estava intrigado com alguma coisa. Antes que lhe fosse perguntado o que era, exibiu uma carta, que recebera na época do assassinato, contendo a solicitação de procurar um certo Godofredo, que desaparecera havia cerca de dez dias, sem deixar vestígios. A carta era de sua companheira. Eládio não atinou para o valor desse documento. Precisou Paixão dizer-lhe que isso havia ocorrido cerca de dois meses após a morte de Teodorico e Ritinha, e que Godofredo jamais reaparecera. Eládio estava prestes a ignorar a informação, quando se lembrou do bilhete anônimo. “Desculpe. Não é Godoberto, e sim Godofredo.” Perguntou a Paixão: “Quem era a companheira dele?” “Não assinou a carta nem disse o nome. Depois de todos estes anos não temos como descobrir.”

No dia seguinte, indagou ao pai, de chofre, quem era Godofredo. João Pedro, transtornado, indagou o porquê da pergunta. O filho respondeu-lhe que não era nada


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especial, mas que o nome havia aparecido na documentação do inquérito na época. Terminaram o café, pai e filho ambos perturbados... 2 Na tarde do mesmo dia, o coronel convocou seu filho, João Pedro, e o delegado Paixão para uma reunião em sua casa às sete da manhã do dia seguinte. Recebidos os visitantes, o coronel abriu a reunião com o seguinte discurso: “Senhores. Desde a fundação de Amendoeira, a família Raposo manda e desmanda na cidade. Às vezes, nossa autoridade tem sido questionada por subversivos e arrivistas, mas sem causar maiores preocupações. Em nossa farmácia dispomos de medicamentos que silenciam esses desordeiros. Quando a desordem é muita, o remédio é drástico. Vocês sabem muito bem. Mas essas ameaças são fáceis de combater, porque são externas. Agora, pela primeira vez, a autoridade dos Raposo, corporificada em mim, que há décadas exerço a chefia da família, está sendo questionada de dentro, por um Raposo, meu único neto restante. O caso assume maior gravidade porque está fora de cogitação usarmos os remédios severos de que dispomos.”

Fez uma pausa e continuou: “A investigação sobre a morte de Teodorico Neto e Ritinha não é problema. Dela resultará a confirmação de que eles foram assassinados por Caduca – que Deus se apiede de sua alma – e isso terminará


93 por convencer o cabeça-dura do meu neto. O mal que está sendo causado é a exposição, a todos na cidade, do fato de que o clã Raposo está rachado, e de que minhas ordens estão sendo desrespeitadas.”

Paixão olhou para o coronel e só viu sinceridade em tudo que dizia, inclusive na conclusão sobre a culpabilidade de Caduca. De tanto repetir que ele havia sido o assassino, o coronel convenceu a todos, inclusive a si mesmo. Continuou o coronel: “Neste momento histórico para Amendoeira, julguei necessário convocá-los para que me dessem ideias sobre como lidar com esse delicado problema.”

O silêncio foi total. Nem João Pedro nem Paixão tinham sido treinados para assessorar o coronel, que nunca lhes cobrava ideias, e sim a mais completa e rigorosa obediência. Decorrido algum tempo, o coronel insistiu, primeiro com João Pedro e depois com Paixão. Mas se o objetivo daquela reunião fora mesmo o de obter ideias, fracassara. Percebendo que daqueles dois nada conseguiria arrancar, o coronel dirigiu-se a Paixão: “Delegado, o senhor fica incumbido de amansar o promotor público e convencê-lo de que seu esforço, embora louvável, será inútil e que o único resultado será o enfraquecimento da autoridade na nossa Amendoeira.”

Paixão sabia que essa seria uma missão impossível. Mas não hesitou na resposta: “Sim, senhor coronel!”

Dispersada a reunião, Paixão encaminhou-se à delegacia,


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pensando como iria colocar o guizo no pescoço do leão. Além do mais, ele estava abalado em suas emoções. De um lado, sua obediência cega ao coronel Raposo. Do outro, sua crescente admiração pelo jovem promotor. 2 Enquanto isso, Eládio notava que muita gente na cidade estava a evitá-lo. Percebia que vez ou outra alguém, que vinha em direção contrária à sua, atravessava a rua sem qualquer motivo que não fosse, é óbvio, o de não se encontrarem. Isso ocorria até com parentes próximos, como João Ramalho, primo por parte de sua mãe e amigo de infância. Uma tarde, andavam os dois em direções opostas, mas do mesmo lado, quando o primo atravessou a rua e entrou em uma travessa. Eládio decidiu pregar-lhe um susto. Acelerou o passo e começou a segui-lo, gritando por ele: “João! João!” E João nada. Quase corria, na tentativa de manter distância de Eládio, que finalmente o alcançou e agarrou-lhe o braço, obrigando-o a parar. “Está fugindo de mim, João?” “De onde você veio, Eládio, que não o vi?” “Mas estou gritando há tempo por você.” “Não ouvi.” “Aonde vai com tanta pressa?”

João Ramalho, desnorteado, não conseguiu responder. E Eládio, que tinha mais o que fazer, deixou-o ir em frente, rumo a lugar nenhum, e voltou para seu caminho original em direção à promotoria. Um dia, foi a Cavaleiro tratar de assuntos pessoais.


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Voltou à noitinha, já escuro. Dirigia pela estrada quando viu, atravessado, um objeto que impedia sua passagem. Parou o carro, desceu e foi verificar o que era, para desobstruir o caminho. Não chegou a saber. Sentiu uma pancada na cabeça e desmaiou. Acordou em um dos poucos quartos individuais do hospital de Cavaleiro. A seu lado, a mãe, o pai e o avô, todos aflitos. Aliviados quando o viram abrir os olhos, disseram-lhe que fora socorrido por alguém de Cavaleiro, que retornava de Amendoeira e estranhara seu carro parado na estrada, sem ninguém dentro. Saltara e dera com ele estirado, inconsciente, no mato à beira da estrada. “E o objeto no meio do caminho?”

Pensaram, assustados, que a pancada lhe havia afetado a cabeça. Que objeto era esse? Eládio explicou-lhes, e soube que o senhor que o ajudara não mencionara nenhum obstáculo na estrada. Após alguns dias, Eládio voltou para Amendoeira, restabelecido. 2 Paixão já estava investigando o atentado. Ficara sabendo que Assuero, que costumava trabalhar com sua carroça na cidade fazendo transporte de objetos e mercadorias, saíra às pressas de Amendoeira, na boleia de um caminhão que passava em direção à Capital. Sua mulher disse a Paixão que ele lhe deixara um pouco de dinheiro e prometera mandar mais quando começasse a trabalhar na Capital. O casal não tinha filhos e a mulher prestava serviços domésticos a alguns clientes habituais.


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O coronel Teodorico, convencido de que o autor do atentado havia sido Assuero, telegrafou ao secretário da segurança pedindo para localizá-lo. Mas sabia que seria difícil, porque era provável que o dito cujo já estivesse em Brasília, trabalhando como peão na construção da nova capital federal. Perspicaz, o coronel imaginou o que se passara. Assuero era pessoa de sua inteira confiança, a quem o coronel costumava atribuir tarefas especiais. Fiel, deve ter entendido mal a situação. Vendo o confronto aberto entre ele e o neto, passou por sua cabeça que Eládio era inimigo do coronel Teodorico, por quem tinha verdadeira veneração. E para cortar o mal-entendido antes que surgissem problemas mais sérios, o coronel fez publicar no jornalzinho de Amendoeira, que circulava na região aos domingos – jornal que era de sua propriedade – uma nota dizendo que lamentava o atentado sofrido pelo neto promotor e qualquer agressão contra este seria recebida como agressão contra ele, coronel, que tudo faria para identificar e punir com rigor seus autores. E terminava ameaçando quem pretendesse dividir os Raposo. A nota foi tão incisiva que amedrontou todos e mudou alguns comportamentos. Na primeira vez que Eládio cruzou com João Ramalho depois da publicação, este, que andava no lado oposto da rua, atravessou-a e dirigiu-se ao primo, risonho. Deu-lhe um abraço apertado, abraço de irmão, como fez questão de enfatizar, e confidenciou que o último encontro entre eles tinha sido providencial. Procurara o médico, que lhe retirara uma tonelada de cera dos ouvidos, restabelecendo-lhe a audição.


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João Ramalho contou essa história no boteco onde se reunia todas as noites com alguns amigos. Um deles, que já passara do limite alcoólico, não se conteve: “Oh, Ramalho! Deixa de conversa! O médico foi o coronel Teodorico, a receita que o curou foi a nota publicada no jornal de domingo e sua doença não era cera nos ouvidos, e sim covardia.”

Não fosse a turma do “deixa disso”, os dois se teriam engalfinhado para valer. Separaram-se brigados para sempre, ou seja, até a noite seguinte, quando, no mesmo boteco, reuniram-se para beber as mesmas bebidas e conversar as mesmas conversas inconsequentes... 2 Assuero, porém, não foi para a Capital, e muito menos para Brasília. Saltou do caminhão em uma cidade movimentada do agreste e usou o dinheiro que levara para instalar-se na cidade e passar a trabalhar. O objetivo não tinha sido matar o promotor, mas dar-lhe um susto para que ele ficasse sossegado. Reconhecia que falhara ao exagerar na força com que dera a pancada. Mas se ficasse fora uns seis meses, poderia voltar para Amendoeira. O assunto já teria sido esquecido. Lá para o terceiro ou quarto mês, Assuero estava, em uma tarde de sábado, tomando seus tragos em um boteco, quando entrou um jovem desconhecido. Após umas boas talagadas, disse que estava iniciando sua profissão de vendedor. Nunca tinha ido ao interior daquele estado, mas seu pai, que estava aposentado, lhe ensinara tudo que deveria aprender sobre a profissão e a região onde fora conhecido.


98 “Como era o nome do seu pai?”,

boteco.

indagou o dono do

“Gercino.”

O nome era familiar a Assuero, mas não lembrou onde o tinha ouvido. O ambiente era de camaradagem, e logo o estranho estava à vontade no grupo. Assuero perguntou-lhe quais as mercadorias que estava vendendo. “Várias”, respondeu o estranho. “Inclusive este revólver, se vocês se interessarem.”

E puxou, debaixo do paletó surrado que usava, um revólver niquelado, de cabo de madeira. Acrescentou: “Calibre 38.”

O susto foi geral, mas os olhos límpidos e a cara de menino do jovem tranquilizaram os medrosos. Alguém perguntou se o revólver era de verdade. Todos riram com a pergunta. O jovem, imperturbável, respondeu que sim, e indagou se eles gostariam de ver uma demonstração no quintal atrás do boteco. Foram todos para lá. Um dos presentes pegou uma lata, colocou-a em cima de um pedaço de tronco de árvore e incitou o jovem: “Vamos ver. Atire!”

Assuero estava ao lado do atirador. Avaliou o tamanho da lata, a distância em que se encontravam do alvo, e pensou que seria difícil atingi-la. Só se o revólver fosse mesmo bom e o atirador excelente.


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O rapaz mirou na lata. Súbito, desviou o revólver e atirou no peito de Assuero. O atirador guardou o revólver, percorreu o boteco, atravessou a rua, entrou em um Ford 1929 estacionado em frente, com uma maleta dura jogada no assento traseiro, deu a partida e sumiu. O delegado da cidade, tomando conhecimento de que Assuero era de Amendoeira, telegrafou para o delegado Paixão comunicando o fato. Paixão mostrou o telegrama ao coronel Teodorico, que determinou a ida do carro fúnebre para buscar o corpo de Assuero. A família enterrou-o em Amendoeira, tudo por conta do coronel, que compareceu ao enterro. Como o crime ocorreu em outra cidade, o delegado de Amendoeira não interferiu na investigação, que terminou com a conclusão de que ele resultara de briga de botequim e havia sido praticado por autor desconhecido. E o atentado a Eládio foi esquecido...


11. Na delegacia, Paixão encontrou recado de Eládio, para que o procurasse com urgência. Entrou na sala do promotor dez minutos após. Convidado para sentar, aguardou o que viria. Já havia esquecido a missão de que fora encarregado pelo coronel Raposo. “Delegado, o senhor me falou, há poucos dias, em um tal de Godofredo, desaparecido mais ou menos na época do assassinato de Teodorico e Ritinha. Quero que o encontre ou pelo menos descubra o que aconteceu com ele. É sua tarefa prioritária.” “Mas senhor promotor, como irei conseguir isso, seis anos após a ocorrência?” “Nos documentos que me mostrou havia fotografia do desaparecido. Amplie, tire várias cópias e distribua pela cidade, pedindo informações.”


101 “Mas senhor promotor, aqui em Amendoeira não há possibilidade de ampliar uma fotografia e as duas gráficas existentes estão abarrotadas de serviço.”

O promotor ficou vermelho e respondeu com rispidez: “Delegado, o senhor ainda não percebeu que Amendoei­ra não é a única cidade do país? Tome o trem, vá a Cavaleiro. Se não adiantar, siga em frente, vá até a Capital. Se não resolver, tome um avião e vá até o Rio de Janeiro ou São Paulo.” “Está bem, está bem. Não precisa zangar-se. Para quando quer a fotografia afixada?” “Para ontem”,

disparou o promotor. E a fotografia de Godofredo, ampliada e reproduzida em Cavaleiro, foi afixada, na semana seguinte, nos principais pontos de Amendoeira. Restava esperar. Como sempre, houve várias informações, todas falsas. Algumas sequer mereceram ser investigadas. Mas um dia... “Senhor delegado: Como o senhor sabe, há mais de dez anos sou dono do posto na saída de Amendoeira para Cavaleiro. Lembro que há cerca de seis anos vi o jovem cuja fotografia foi distribuída. Esteve aqui no bar de meu posto, em uma noite de pouco movimento. Seu comportamento me pareceu estranho, não sei por quê. Parecia que estava esperando alguém. Algum tempo depois, parou um automóvel, o motorista buzinou, ele pagou as despesas, entrou no carro e saiu em direção a Cavaleiro.


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Se desejar, poderei ir até aí para conversarmos. Atenciosamente, Carmelo Guimarães” O delegado Paixão levou a carta ao promotor. Este a leu e perguntou: “Você conhece esse cidadão?” “Sim.” “Merece confiança?” “Sim.” “Vá buscá-lo.” “Agora?” “Por que não?”

Meia hora depois, os dois, Paixão e Carmelo, estavam instalados na sala do promotor. Carmelo repetiu a história, acrescentando mais detalhes. “Por que o senhor se lembra tão bem de Godofredo, que esteve há cerca de seis anos em seu posto?” “Não sei. Há fatos que ficam em nossa memória sem que saibamos o porquê.”

A resposta foi convincente. Mais convincente do que se ele tivesse tentado encontrar uma explicação racional. “Como era o automóvel em que ele entrou?” “Um Ford preto de 1946.” “Viu a placa?” “Não.” “Viu o motorista?”


103 “Vi, mas estava escuro. Seria impossível descrevê-lo.”

Eládio encerrou a reunião, mandou tomar o depoimento de Carmelo por escrito e agradeceu sua colaboração. Carmelo fitou Eládio nos olhos e despediu-se: “Boa noite, jovem! Para o senhor e todos nós.”

2 Durante o jantar, Eládio disse ao pai que gostaria de conversar com ele naquela noite. Tomando um licor de jenipapo, tradição nos jantares da família, dirigiram-se à biblioteca. Eládio relatou a João Pedro a conversa que tivera com Carmelo. João Pedro ouviu em silêncio. No final do relato, perguntou: “E aí? Qual a conclusão que tirou?” “Nenhuma. Mas há algo que me perturba.” “O que é?” “O carro que Carmelo diz que Godofredo pegou era um Ford preto.” “O que significa isso?” “Talvez muito, talvez nada...”,

respondeu reticente. João Pedro encarou o filho, pegou um charuto na caixa e acendeu-o. Não ofereceu a Eládio, porque sabia que ele não fumava. Ficaram calados, um em frente ao outro. Passou-se quase meia hora. O silêncio foi quebrado pelo filho: “Pretendo identificar o proprietário do carro e investigar sua relação com Godofredo.”


104 “E o que irá adiantar? Quase todos em Amendoeira têm Ford 46, preto.” “Quase todos em Amendoeira é quase ninguém. São poucos os que têm carro aqui.” “Você irá começar pelo seu avô. Ele tem um Ford 46, preto.”

Eládio ficou calado. João Pedro continuou: “Segundo sua lógica, o assassino tinha um Ford 46, preto. Mas ele poderia ter tomado o carro emprestado. Até mesmo do seu avô.”

Quando voltou a falar, Eládio comentou: “Meu avô cometeu um erro ao trazer-me para a promotoria de Amendoeira.” “Se você reconhece isto é porque ainda há tempo de consertar o erro cometido.” “Não mais. Há erros que são irreparáveis.”

João Pedro concordou com o filho: “Certo. Há erros irreparáveis. Ninguém melhor do que eu para sabê-lo.”

Eládio ficou pensativo e a seguir afirmou, provocativo: “O senhor sabe qual será o desfecho desse caso!”

João Pedro reagiu. Sua voz soou mais cansada do que zangada, quando disse: “Não sei, você não sabe, ninguém sabe. Você é moço, pensa que tudo acontece de acordo com um plano. Com o tempo, verá que não é bem assim. Quando muito, você sabe o que fará. Mas nunca saberá o que


105 os outros farão. Como promotor de justiça, poderá processar os outros, obter sua condenação, trancafiálos em uma penitenciária, mas não tem o poder de privar ninguém da liberdade de decidir o que fazer.”

Eládio ouviu aquele breve discurso, mas não prestou atenção. Também, se tivesse prestado não teria mudado nada... 2 O ambiente na casa dos pais era opressivo. Marido e mulher não se comunicavam. Habitavam a mesma casa, mas viviam em mundos apartados. Tomavam o café da manhã cada qual em sua hora. Mas obedeciam ao ritual de almoçar e jantar juntos. O pai observava o costume de usar paletó e gravata, desde a manhã até a noite. Sentava-se em uma das cabeceiras, enquanto a mãe ocupava a outra. Eládio ficava no meio da mesa comprida e vazia. As refeições transcorriam em silêncio absoluto. Só em emergências alguém ousava falar. Nem em emergências chegavam a manter uma conversa, um diálogo. A mãe fazia questão de rezar antes de começarem a comer. Após o sinal da cruz, dava graças a Deus pelo pão que lhes era oferecido e recitava pelo menos o padre-nosso. Às vezes, uma ave-maria, raramente um credo ou uma salve-rainha. Pai e filho esperavam, pacientes, que o fervor religioso de D. Mariinha fosse aplacado. Era nessas horas que Eládio melhor observava como o pai havia envelhecido. João Pedro sempre fora silencioso, pacato, desprovido de emoções. Mas decaíra bastante. Parecia ter bem mais do que a idade que tinha. Dava a Eládio a impressão de


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um homem derrotado, desses que desistem de viver. À noite, após o jantar, cada um ia para seu lado. O filho saía para dar uma caminhada, após o que se trancava no quarto para ler e estudar, antes de dormir. O pai recolhia-se a sua biblioteca, onde lia e ouvia seus discos de música clássica, tocados em uma vitrola movida a corda. A mãe fazia tricô, após o que se dirigia ao quarto para rezar, diante de seu oratório. Marido e mulher dormiam em quartos separados havia muitos anos, tanto é que Eládio não se lembrava do tempo em que dormiam juntos, se é que esse tempo existira. Vez ou outra, Eládio pegava seu carro e ia passar o fim de semana em uma cidade próxima, maior e mais movimentada que Amendoeira. Lá, ele se sentia livre, não só porque se afastava da casa dos pais, mas sobretudo porque não era reconhecido como autoridade. Era visto como um jovem que buscava diversão. Quando Teodorico era vivo, havia mais alegria em casa. Seus pais nunca foram alegres, mas Teodorico agitava o ambiente. Costumava convidar os amigos para uma buchada de bode, regada a cerveja e animada com muita música e cantoria. Mas esse tempo passara. Nunca mais seria. 2 Vez ou outra Tião Ramalho, irmão mais velho de D. Mariinha, aparecia para jantar. Era o único a fazê-lo. As reuniões de família eram todas realizadas na casa ou na fazenda do coronel Teodorico. Tião trabalhava com o cunhado. Auxiliava-o na administração dos negócios do coronel. Era solteirão,


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bem-humorado e exímio contador de anedotas. Quando Teodorico Neto era vivo, costumava divertir os jovens Raposo com piadas que lhes provocavam gargalhadas. Às vezes, contava essas piadas à mesa, apesar do olhar de recriminação da irmã e do sorriso forçado do cunhado. Tião era inteligente e perspicaz. Comentava-se que era uma pena que tivesse abandonado os estudos ao concluir o curso primário. Tinha aversão à leitura, ao contrário do cunhado, que costumava dizer, sem ironia, que ele jamais havia lido um livro na vida. Tião admitia, com a ressalva de que sabia de cor as histórias que lhe contavam para dormir, quando criança. Aos trinta e poucos anos começou a namorar Magnólia, filha de um comerciante em Cavaleiro. Dois anos após, apareceu de aliança na mão direita. O noivado durou dezoito anos. O casamento encruou. No começo, um ou outro provocava Tião: “Como é, quando tira a noiva do caritó?” Cedo, porém, ninguém mais se atreveu. Tião era bonachão, bem-humorado, mas forte e estourado. Depois de três ou quatro surras aplicadas nos mais ousados, ninguém mais ousou. Vinte anos após o início do namoro, Magnólia morreu. No sertão, havia quatro causas de morte: acidente, homicídio, mal súbito e longa enfermidade. Magnólia morreu de longa enfermidade. Tião passou a ser o único solteiro-viúvo de Amendoeira. Não foram poucas as moças que deram em cima dele, apesar do risco de passarem mais vinte anos no caritó. Mas Tião resistiu a todas. Magnólia havia sido – dizia – o único amor de sua vida. E continuaria a ser.


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Dizem que amor e ódio são duas faces de uma mesma moeda. Ele não acreditava nisso, que sempre lhe pareceu uma tolice. Mas a vida mostrou-lhe que estava enganado. Amou como nunca. Mas foi breve. Passou do amor ao ódio. Bruscamente. Logo percebeu o erro que estava cometendo. Havia duas moedas, e não uma só. Na outra, havia amor dos dois lados. Um amor de outro tipo, sem paixão, mas amor. Aplacou o ódio. De nada adiantou. O ódio, quando liberado, passa a ter vida própria. Tentou recuar, mas era tarde demais...


12. Na manhã seguinte, avisaram Eládio que um auxiliar do coronel Teodorico tinha um recado para ele. O avô – enfatizou o mensageiro – pedia – nova ênfase – ao neto – mais ênfase – que fosse a sua casa. Quando? Agora. Eládio interrompeu o que fazia e dirigiu-se à casa do avô, onde não entrava já havia algum tempo. O avô recebeu-o na biblioteca e, objetivo como era, logo iniciou a conversa: “Devo chamá-lo de promotor ou de meu neto?” “Eu estou aqui na qualidade de seu neto, e não de promotor. Como promotor, não viria.”

O coronel foi até a janela, contemplou, pensativo, o movimento na praça em frente, e começou: “Quando você nasceu, Amendoeira não tinha luz


110 elétrica. Passou a ter há menos de dez anos. Isso foi conquistado pelos Raposo. O povo era e continua pobre, mas seria mais desassistido se não fossem os Raposo. Eu tenho mais de cem afilhados. Busco dar assistência a todos. Não tenho vida boa, como muitos imaginam. São setenta e cinco anos de idade, Eládio, mas pareço ter mais de noventa. É esta terra árida, sem chuva, somente sol, sol e sol.”

Continuou: “O dinheiro que veio e continua vindo para a região seria suficiente para desenvolvê-la. Mas fica no bolso dos burocratas, empresários e políticos desonestos. Os coronéis são vítimas privilegiadas dessa situação. Privilegiados, sim, mas também vítimas. Minha terra é Amendoeira. Quando saio é para Cavaleiro. Raras vezes vou à Capital. Ao contrário desses burocratas, empresários e políticos, não conheço a Europa. Nem mesmo os estados do sul. Quando me encontro com um desses indivíduos, a conversa gira em torno de hotéis, cafés, avenidas e praças de Paris, Londres, Veneza, Roma... Sequer conheço os nomes citados.”

Passou alguns minutos em silêncio. Se Eládio fosse mais observador, notaria que o avô estava tendo dificuldade para respirar. “Mas eu não pedi para você vir aqui ouvir meu discurso em defesa do coronelismo. Pedi para você vir a fim de fazer-lhe um pedido. Um só. Pare!” “Parar o que, meu avô?” “Essa investigação idiota.”


111 “Não posso. Teodorico Neto era meu irmão mais velho. Devo-lhe pelo menos isso.” “Ele era meu neto. Para ser franco, meu neto preferido. Ele era filho de seu pai. Mas nenhum de nós dois quer que você continue. É um apelo que faço a meu único neto, não ao promotor de justiça. Pare!” “Só pararei quando conseguir a condenação de quem o matou.” “Quem o matou já morreu. Dou-lhe a palavra de honra de um Raposo.”

Eládio fitou o avô, olhos nos olhos, e concluiu: “Nesse caso, buscarei obter a condenação de quem mandou matá-lo.”

Levantou-se, despediu-se e voltou ao trabalho. Deixou o avô baqueado em sua poltrona. 2 O coronel Teodorico não dormiu nessa noite. Pegou uma garrafa de vinho na adega, levou-a para a sala, sentou em sua poltrona favorita e passou a refletir. Ele era coronel do sertão, filho, neto, bisneto e trineto de coronéis. O poder passava de pai a filho, cada qual amoldando seu exercício a novas épocas. Quando João Pedro nasceu, apregoou com orgulho que nascera o futuro coronel Raposo. Mas seu único filho foi uma decepção. Puxara a sua mãe, Dorotéa, que Deus a tivesse sob sua guarda. Manso, pacífico, voltado para os assuntos do espírito, João Pedro crescera sem indicar, em nenhum momento, que seria o novo coronel de Amendoeira, quando Teodorico partisse para nova jornada.


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Não havia decisão importante a tomar que João Pedro não consultasse o pai, que gostaria – ao contrário do pensamento da maioria – que o filho tomasse sozinho suas próprias decisões. Não demorou para desistir de fazer João Pedro seu sucessor. Quando este lhe deu dois netos homens, não escondeu sua satisfação. Um deles seria o seu sucessor. Os dois cresceram. O coronel adorava Teodorico Neto. Mas sabia que também não seria ele o futuro coronel Raposo. Seus interesses eram outros. Logo, compreendeu que seu sucessor não seria o neto mais velho. Suas esperanças se voltaram, então, para o mais moço, Eládio. Quando este decidira cursar direito na Capital, chegara a entusiasmar-se. Já imaginava um coronel Raposo bacharel. Seria a primeira vez. Um aperfeiçoamento da estirpe. Mas quando Eládio voltara para Amendoeira, percebeu que ele havia sido envenenado, na faculdade, pelo preconceito contra os coronéis do sertão. Eládio mudara, enquanto Amendoeira permanecera a mesma. Na Capital, tinha-se uma ideia falsa do que era um coronel do sertão. Dizia-se que os coronéis eram culpados pelo atraso da região. Mas como dissera há pouco a Eládio, quanto dinheiro, destinado ao combate às secas, havia ficado no litoral, nos bolsos de intermediários? Dizia-se, ainda, que os coronéis eram escravocratas. Mentira! Eram humanos! Um coronel chamava os moradores da cidade pelo nome, por mais humildes que fossem. Poder-se-ia dizer o mesmo dos políticos, dos burocratas e dos empresários do litoral?


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O coronel Teodorico ficou deprimido com a conversa que tivera naquele dia com Eládio. Ele sempre havia obedecido a seu pai, que sempre obedeceu a seu avô, que sempre obedeceu a seu bisavô, que sempre obedeceu a seu trisavô. E aquele que Teodorico esperava fosse seu sucessor era um rebelde. Sintonizado, talvez, com os novos tempos, mas de qualquer maneira um rebelde. Certa vez, logo após o retorno de Eládio como promotor de justiça, estavam o coronel Teodorico, o filho e o neto sentados no terraço da fazenda, em uma tarde de domingo, após uma buchada, quando apareceu Ernesto Boiadeiro, que morava na redondeza. Apeou-se do jegue que montava, pediu a bênção ao coronel e foi direto ao assunto: “Padrinho, vim pedir seu conselho.”

O coronel aguardou o que viria. Ernesto contou que Zeca do Forró queria comprar as quatro vacas dele e oferecera um bom preço por elas. O que o coronel achava? Deveria vender? O coronel ficou irritado e respondeu, autoritário e ríspido: “Tira isso da cabeça, Ernesto! Diz a Zeca que nada feito. Por dinheiro nenhum!”

Ernesto agradeceu, pediu de novo a bênção ao coronel, montou no jegue e foi embora. Eládio comentou, provocativo: “Ainda chegará o dia em que Ernesto decidirá sozinho o que fazer de suas vacas.”

O coronel respondeu, calmo: “É possível que chegue esse dia. Se chegar, será depois


114 de minha morte, mas enquanto eu viver a decisão será tomada por mim.”

E continuou: “Você percebeu que Ernesto queria vender as vacas? E depois, o que faria? Gastaria o dinheiro todo em pouco tempo. Grande parte iria para a bebida. Você conhece Ernesto Boiadeiro, Eládio?” “Não.” “Sabe quantos são na família dele?” “Não.” “São dez, Eládio. Ele, a mulher e oito filhos. Sabe como eles sobrevivem?” “Da lavoura?” “Em parte, quando a seca não acaba com ela. Mas a maior parte vem das vacas. Isso quando a seca e a doença não as matam. O leite que elas produzem alimenta toda a família. Quando sobra alguma coisa, ele vende o excedente para arranjar alguns trocados. Se ele vendesse as vacas, ficaria dependendo apenas do dinheiro dos biscates que faz na cidade. Morreriam de fome, Eládio. Você não conhece ninguém, mas eu conheço todos os boiadeiros que sobrevivem na região. Muitos são meus afilhados, como é o caso de Ernesto Boiadeiro. Quando eu morrer, Deus terá, sozinho, de prover suas necessidades. Enquanto isso, faço questão de ajudar.”

Eládio ficou calado. Mas o coronel sabia que naquela cabeça dura só penetravam ideias e ideais fora da realidade cruel de Amendoeira e da região.


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2 Teodorico ficou mais triste e deprimido com essas reflexões. A garrafa de vinho estava vazia, o sol já tinha nascido e havia muito a fazer, antes que Deus o levasse. O coronel de Amendoeira levantou-se e foi cuidar de cumprir os deveres que a comunidade atribuía a seu líder... No meio da tarde, Eládio recebeu a notícia que o atingiu em cheio: seu avô havia tido um derrame cerebral e havia sido internado no hospital de Cavaleiro, em estado grave. Foi ao hospital de imediato e soube que o paciente, caso escapasse com vida, teria sequelas. Mas o coronel Teodorico Raposo não resistiu. Morreu pouco depois, no final da tarde de uma sexta-feira.


13. O velório do coronel Teodorico foi dos mais concorridos. Compareceram as maiores autoridades do estado, inclusive o governador, viajando nos dois pequenos aviões do governo. Eládio estava acabrunhado. Gostava muito do avô. E julgava-se, pelo menos em parte, culpado por sua morte repentina. Como o coronel Teodorico era viúvo, as estrelas do velório foram o filho e o neto. Levaram Eládio para conhecer o governador. Circunspecto, este apresentou-lhe as convencionais condolências. E acrescentou: “Seu avô devia estar orgulhoso de vê-lo como promotor de justiça em Amendoeira.”


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Eládio ousou discordar: “Não. Ele andava arrependido.”

descontente,

e

até

mesmo

O governador insistiu: “Não é qualquer coronel de interior que tem um neto promotor de justiça. Sobretudo na cidade em que exerce influência.”

Eládio ficou aliviado quando o governador foi levado por um grupo de bajuladores para outro local da sala. O governador, porém, ficou preocupado com a resposta. O coronel Teodorico havia enchido sua paciência para obter a nomeação do neto para Amendoeira. E vinha esse desnaturado dizer-lhe que o coronel não ficara satisfeito. Pelo contrário, estaria arrependido. Chamou seu secretário de justiça e pediu-lhe para tentar entender o promotor. Contou-lhe a conversa que tiveram. O secretário procurou Eládio e indagou-lhe, para puxar conversa: “Como é, as cadeias da cidade estão cheias?”

Eládio respondeu, mais uma vez, com a verdade: “Na cidade, doutor, só existe uma cadeia, que no momento está vazia.” “Você precisa de reforço de policiamento para abastecê-la?” “Por quê? Não há criminosos na cidade.”

O secretário voltou à presença do governador e deu seu diagnóstico: “O rapaz não gira bem!”


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Um velho, de cerca de oitenta anos, amparado em uma bengala, aproximou-se de Eládio. Era o senador Salustiano. “É sempre com muita honra e alegria que venho a Amoreira”, disse-lhe o senador.

Um assessor, que estava a seu lado, esclareceu em voz alta para que o senador, surdo, pudesse ouvi-lo: “Amendoeira, senador, e o motivo é de tristeza, e não de alegria. Estamos em um velório.”

O senador não se perturbou: “Jovem, fui colega de ginásio do seu avô na Capital.”

Eládio não resistiu: “Meu avô nunca estudou na Capital, senador.” “Mas deveria ter estudado, meu jovem.”

O deputado Xavier, que as más línguas diziam ser um dos vários filhos adulterinos do coronel, indagava aos prantos: “Como iremos sobreviver sem o coronel?”

O prefeito, Aristófanes, aproveitou a ocasião para fazer lobby, junto aos deputados estaduais presentes, em favor de um projeto que iria beneficiar a região, sobretudo Amendoeira. Aguardente e cerveja eram servidos à vontade, junto com petiscos saborosos. Ao governador e demais autoridades, foi servido vinho francês. Baixinho, magro e elétrico, padre Olinto saltitava pela sala, tomando vinho e espargindo água benta nos presentes. A certa altura, passou a espargir vinho e tomar água benta. Mas essa confusão não durou muito, porque logo o sacristão conseguiu levá-lo para casa.


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2 O coronel Teodorico queria ser enterrado onde nascera. Timbi era um distrito de Amendoeira. Possuía os requisitos necessários para ser chamado de povoado. Tinha uma rua larga, uma praça e uma igreja na praça. Atrás da igreja, um pequeno cemitério, onde se situava o jazigo da família Raposo. De Amendoeira a Timbi, vinte minutos de uma estrada tortuosa. Quando chovia, só se chegava lá de jipe ou charrete. Automóvel, nem pensar. Mas não chovia na região havia meses. Estava uma seca danada, o que, aliás, costumava acontecer de verão a inverno. O enterro foi marcado para as quatro da tarde. Uma breve cerimônia religiosa na igreja de Timbi, seguida do depósito do caixão no jazigo da família. Às três e meia em ponto, o cortejo partiu de Amendoeira. Os automóveis eram poucos. Importados, já que ainda não haviam chegado ao sertão os primeiros Volkswagen fabricados no país. Alguns, particulares, outros, oficiais e de aluguel, todos iam à frente do cortejo, logo atrás do carro fúnebre. A seguir, as “sopas”, nome que se dava aos micro‑ônibus no interior do Nordeste. Por último, os caminhões, conduzindo os populares que iam dar adeus ao coronel no cemitério. Em Timbi, já estavam, desde a manhã, dezenas de automóveis, “sopas” e caminhões, com moradores de cidades próximas a Amendoeira, em especial de Cavaleiro, localizadas na área de influência do coronel. Mal se passaram dez minutos, o carro fúnebre saiu da estrada e embicou em uma árvore. Quebrara a barra da direção.


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Constatada a impossibilidade de resolver-se o problema no local, um dos acompanhantes do cortejo mudou de rumo e voltou para Amendoeira à busca de um carro sobressalente. Passaram-se horas antes que surgisse a solução. Enfim, lá pelas seis da noite, já escuro, apareceu um carroção, puxado por um par de fogosos cavalos. Amendoeira tinha dois carros fúnebres, mas o outro estava em conserto. O caixão foi transportado para o carroção e o cortejo recomeçou. Dois comentários correram de imediato entre os presentes. O primeiro, de que isso era prova cabal do amor do coronel por Amendoeira, da qual não queria separar-se. O outro, de que ele não se incomodaria em ter seu corpo conduzido por uma carroça puxada por dois cavalos, já que nunca se entusiasmara por essas modernidades tecnológicas. Ao chegar ao cemitério, o cortejo deparou-se com outra dificuldade. O portão, de ferro maciço, estava trancado a quatro cadeados. O jeito era procurar o encarregado. Descobriram que o encarregado não morava em Timbi, e sim em Amendoeira. Tomaram nota do endereço e desta vez foi uma comissão, composta do prefeito, do promotor e do delegado, a fim de evitar possível resistência por parte do cidadão, em face do adiantado da hora. Mesmo esse aparato não impediu a oposição do encarregado do cemitério, que não viu com bons olhos a perspectiva de voltar a Timbi, em uma noite de sábado, para enterrar um defunto retardatário. Aproveitando a rara oportunidade que lhe proporcionavam


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para emitir sua opinião sem medo de represália, o encarregado, que se chamava Dimas, esconjurou as autoridades em geral, que só o procuravam quando necessário, e, como jamais gostara do coronel Teodorico, acusou-o de impontualidade e desrespeito aos direitos alheios. O prefeito informou-o que o próprio governador estava esperando à porta do cemitério, vexado para despedir-se de seu grande amigo e voltar à Capital. Dimas respondeu que tudo que dissera sobre as autoridades em geral valia, em dobro, em relação ao governador. Ele que ficasse vexado. O delegado Paixão perdeu a paciência e ameaçou Dimas de prisão. Mas este, consciente da força que detinha no momento, retrucou que nesse caso o coronel dormiria ao relento, porque nem morto entregaria as chaves do cemitério. Foi Eládio quem resolveu o impasse. Dirigindo-se a Dimas disse que a legislação trabalhista assegurava o pagamento de hora extra, que nos sábados esse adicional era maior que nos demais dias, e que tratando-se de enterro noturno seria justo acrescentar uma gratificação substancial para compensar o incômodo causado pela impontualidade do defunto. “Quanto?”, foi só o que perguntou Dimas. Eládio mencionou uma importância que pelos padrões normais seria considerada exagerada. “Adiantado?”

Eládio sacou a carteira, contou o dinheiro e entregou-o a Dimas. Este pediu que esquecessem tudo que havia dito antes, porque ele já estava indo buscar as chaves do cemitério. E esnobou:


122 “E a chave do jazigo? Vocês têm?”

Não tinham. Nem sabiam que o jazigo tinha chave. “Está bem. Tenho cópia. Irei levá-la.”

E, com expressão maliciosa, acrescentou: “E não cobrarei adicional. Mas digam ao coronel Teodorico que da próxima vez ou ele comparecerá na hora combinada ou não será atendido.”

Eram mais de nove da noite quando conseguiram alojar o coronel no jazigo da família. A cerimônia religiosa já havia sido cancelada, porque o padre Olinto ainda não se recuperara da carraspana que tomara no velório. A essa altura, muitos estavam preocupados com o que diriam em casa, ao chegar, após as dez da noite, de um enterro marcado para as quatro da tarde.


123 “Há muito, muito tempo, que você não se confessa, meu filho. Você, que sempre foi de um catolicismo exemplar, sumiu da Igreja. De repente. O que houve?” “Padre, tenho um pecado grave a confessar.” “Por isso que andou desaparecido?” “Principalmente.” “Então fale, meu filho, fale.”

Ele contou tudo. Nos mínimos detalhes. O padre Olinto ficou lívido. Não se conteve, pediu licença por alguns minutos e foi à sacristia, onde tomou umas doses de aguardente, tirada de uma garrafa que guardava para emergências. E essa era uma emergência das brabas. Voltou ao confessionário alguns minutos após, revigorado. Perguntou se havia mais alguma coisa a confessar. Não havia. Deu a absolvição, em nome de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, prescreveu uma dura penitência e voltou para a sacristia, ainda aturdido com o que ouvira. A garrafa de que se servira ainda tinha uns três ou quatro dedos de líquido incolor. Meia hora depois, estava vazia. O padre Olinto deitou-se no divã, que tinha na sacristia para suas habituais sestas, e dormiu.


14. Alguns dias após, João Pedro entregou a Eládio um envelope lacrado, a ele endereçado com a letra do coronel. “O que é isso?”, indagou Eládio. “Meu pai deixou para entregar-lhe após sua morte.” “Do que se trata?” “Não tenho a mínima ideia”,

respondeu-lhe o pai. Eládio levou o envelope para o quarto e antes de dormir decidiu abri-lo e ver seu conteúdo. Era uma carta, dirigida pelo avô a “meu querido neto Eládio”. Era surpreendente como o coronel escrevia bem. Ele estudara apenas até a conclusão do ginasial, quando passara a trabalhar com o pai, que já o preparava para ser


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seu sucessor no coronelato. Mas Teodorico era um leitor ávido. Tinha em sua casa livros de boa qualidade. Encomendara na Capital coleções importantes, como as de José de Alencar, Machado de Assis, Eça de Queirós, Dostoievski, Tolstói e os Clássicos Jackson, selecionados e publicados no Brasil, no início da década de 1950, pela W.M. Jackson. E lia todos, pois, como costumava dizer, não havia sentido em comprar um livro para exibi-lo na prateleira da estante. Mais: após a leitura, fazia um resumo do livro e só então o colocava na estante, junto com o resumo. Eládio recordava-se de ver o avô, à noite, sentado à mesa da sala, lendo e escrevendo à luz de um candeeiro especial, comprado na Capital. Já há alguns anos havia chegado a Amendoeira a luz elétrica. Mas o candeeiro continuava a exercer papel importante na região, porque a luz era cortada cedo e faltava com frequência. Eládio costumava tomar emprestados os livros do avô. Era curioso ler o livro e depois o resumo feito pelo avô. Raramente esse resumo coincidia com o que ele faria, o que demonstrava que o mesmo livro tem vários significados, dependendo de quem o lê. Sempre lera, também, os livros do pai, mas este, ao contrário do avô, não se concentrava em nada, e suas leituras não obedeciam a um critério, como as do coronel Teodorico. Na carta, o avô contava sua consulta com o médico na Capital e dizia que tinha a sensação de que seus dias na terra estavam chegando ao fim. Queixava-se da obstinação de Eládio com a apuração do assassinato do irmão, seu querido neto Teodorico. E escrevia:


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“Você tem entrado em choque comigo, mais do que eu desejaria. Mas isso se deve ao fato de que somos iguais. Ambos temos personalidade forte. Nós somos iguais, Eládio! Sei que não pretende ser o novo coronel de Amendoeira. Mas tenho certeza de que está cometendo um erro. Ninguém melhor que você para suceder-me no coronelato. Você tem carisma e liderança. Sensibilidade para os problemas da região e de seus habitantes. Se seu pai me frustrou, se seu irmão mais velho não tinha vocação, você tem as características necessárias a um coronel do sertão. Só lhe falta um pouco de maturidade, que conseguirá com o tempo. Você será melhor do que eu, Eládio. Tem força, persistência, liderança e sensibilidade. E cultura, da qual sou carente. Eu fui um coronel do meu tempo, você será do seu. Mais avançado, mais moderno, mais atualizado, sintonizado com os novos tempos. Não deixe Amendoeira ser dominada pelos oportunistas, que não entendem o pobre povo desta cidade e da região. Assuma suas responsabilidades! Nós nascemos aqui, Eládio! Não vivemos na Capital nem no sul do país, muito menos na Inglaterra. Vivemos no sertão do Nordeste.” Escrevia, mais, que Eládio tinha uma visão distorcida dos coronéis do sertão. Por exemplo: dizia-se na Capital que os coronéis tinham interesse em que o povo continuasse analfabeto e ignorante, e que por isso não cuidavam da educação. Mas como educar, se não havia dinheiro para construir e manter escolas, pagar professores, comprar material escolar


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e assegurar a merenda? A prefeitura não tinha dinheiro, o governo do estado também não. O auxílio federal, quando chegava ao Nordeste, era para a zona da mata. Açúcar e álcool, sobretudo açúcar. Era só o que interessava. Quando vinha algum dinheiro para combate às secas, boa parte dele ficava no litoral. Agora, estavam criando um órgão especial para planejar e promover o desenvolvimento do Nordeste, chamado de Sudene. “Queira Deus que dê certo!” Mesmo, porém, que houvesse escolas aparelhadas, com professores competentes e devotados, como convencer um pai a levar os filhos para estudar, quando ele precisava de sua ajuda no roçado ou em outra atividade essencial à sobrevivência da família? Será que Eládio pensava que ele não se importava com aqueles que rumavam para a Capital e para São Paulo, ou para Brasília a fim de ajudar na construção da nova capital federal? Eram trabalhadores honestos, que partiam para a cidade grande em busca de algo que não passava de miragem. Muitos deles voltavam, ou porque não suportavam a saudade de sua terra e de sua família ou porque – o que era a maioria – não conseguiam o que pretendiam. Ao voltarem, passavam a carregar o estigma da derrota. Era como se todos apontassem o dedo para cada um deles e dissessem, em coro: este fracassou! E voltavam a tentar, a fracassar, a retornar ao sertão, a tentar de novo, e assim por diante. “Só nos livros, Eládio, é que os personagens dizem que o importante é tentar. O importante é vencer, e isso para muita gente é impossível.”


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Diziam, ainda, que os coronéis estimulavam a ignorância para tirar proveito eleitoral. Mas o que querem esses críticos? Não cabe aos coronéis resolver problemas sobre os quais não têm controle. Cabe-lhes ajudar a minimizar esses problemas. E uma das maneiras de conseguir esse objetivo é eleger um deputado que tenha afinidade com a região. Já imaginou se o governador fosse um adversário, e não um amigo do coronel Teodorico como é? Seria pior, muito pior. “Quando eu morrer, quem ajudará esse povo, Eládio? Quem evitará que Ernesto Boiadeiro se afunde ao vender suas vacas a Zeca do Forró, e termine na miséria total, aqui ou na cidade grande?” Mas o coronel Teodorico não queria continuar a dizer ao neto o que ele enxergaria se olhasse para a região como ela é, e não como os livros dizem que deveria ser. E terminava: “Você é meu sucessor, Eládio! Não me decepcione! De lá de cima acompanharei sua trajetória. Espero vê-lo como o coronel Eládio Raposo, de Amendoeira. É seu destino! Deixei esta carta com seu pai, meu querido filho João Pedro. Ela não é apenas uma carta. É meu testamento. Rogo-lhe, Eládio: seja o novo coronel de Amendoeira! O abraço do avô que lhe quer muito bem. Teodorico” Eládio passou a noite em claro. A carta-testamento do coronel Teodorico, que ele não esperava, deixou-o desconcertado...


15. Foi na mesma época que Eládio recebeu carta de Isabela. Quando se despediram na Capital, ele pensou que jamais voltaria a ter notícias suas. Foi com emoção que recebeu sua carta. Notou que fora expedida do Rio de Janeiro. Levoua para casa onde, na paz de seu quarto, à noite, leu o que Isabela lhe escrevera. Ela havia ido morar no Rio com um tio que tinha apartamento no começo da Av. Nossa Senhora de Copacabana, no Leme. Partira à busca de maiores oportunidades de trabalho e desenvolvimento profissional. Sentia saudades de seus pais e irmãs, mas estava deslumbrada com a capital federal. Copacabana era linda! O ambiente de cidade cosmopolita, a facilidade de transportar-se de um bairro para outro, nos ônibus e modernos micro-ônibus, o centro


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charmoso, com a Confeitaria Colombo, a Avenida Rio Branco, a Cinelândia, o Tabuleiro da Baiana, o Congresso Nacional e a Lapa, tudo para ela era novidade. Transformara-se sua visão do mundo. A cidade, onde nascera e vivera até então, parecia-lhe agora uma província. Reconhecia que as praias do Nordeste eram mais aconchegantes e de certo modo mais bonitas. Mas Copacabana era uma maravilha, sobretudo para uma arquiteta como ela. Por indicação do tio, conseguira emprego no escritório de renomado arquiteto. Mas não sabia se era isso o que queria. De qualquer maneira, precisava subir degraus antes que pudesse pensar em seu escritório de arquitetura, que sempre fora seu sonho. Por intermédio desse arquiteto, convidaram-na a organizar uma página sobre arquitetura e urbanismo em um dos jornais da cidade. E ela, que viera havia tão pouco tempo para o Rio, já estava em uma posição que lhe permitira alugar um apartamento pequeno, no Flamengo, perto do Largo do Machado, onde passara a morar. Nos fins de semana, costumava ir aos cinemas da Cinelândia, do Flamengo e de Copacabana. Passeava no Jardim Botânico ou ia ao Corcovado. Ainda não se animara a conhecer o Pão de Açúcar, porque não tivera coragem de subir no bondinho. Mas já pegara a barca para Niterói e Paquetá e não se divertira mais porque não viera ao Rio a passeio, e sim para trabalhar. Chegara, até, a pegar o ônibus prateado para São Paulo, onde se hospedara com uma ex-colega de faculdade, que resolvera enfrentar o desafio da pauliceia. Não gostara de São Paulo. Era uma cidade cinzenta, garoenta, sem a alegria


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do Rio de Janeiro e de seu povo. O carioca era extrovertido, bem-humorado, em cinco minutos de conversa dois estranhos tinham a impressão de que se conheciam desde crianças. O paulista, não. Só falava com ela quando necessário, e até orientação que solicitava na rua, nas bancas de jornal e a policiais, lhe era fornecida com parcimônia, às vezes mesmo com má vontade. Mas sua amiga lhe disse que não era uma cidade ruim para viver e era excelente para trabalhar. Todo esse movimento não afastou Eládio da cabeça de Isabela. Como teria sido bom se tivessem casado e permanecido na Capital! Ele, advogado; ela, arquiteta. Com ele, as dificuldades provincianas da Capital teriam sido suportáveis, e ela não teria ido para o Rio. Disse que ainda tinha esperança de que ele decidisse abandonar o sertão e fosse para o Rio. Ouvira dizer que as perspectivas de trabalho para um jovem advogado, inteligente e estudioso como ele, eram excelentes, embora não se soubesse como ficaria o Rio de Janeiro quando a capital fosse transferida para Brasília. Mas não tinha dúvida de que continuaria a ser a cidade bela, cosmopolita e excitante que sempre fora. Dizendo-se ansiosa, pedia notícias sobre o que Eládio estava fazendo em Amendoeira. Era possível, até, que tivesse arranjado uma namorada. Quem sabe já casara? Mas ficasse ele certo de que ela não o esquecera. Levara a memória dele no fundo do coração. E terminava com uma frase que era ao mesmo tempo um chamado e uma promessa:


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“Venha para cá, meu querido! Juntos, construiremos nosso futuro.” Eládio, com os olhos marejados, guardou a carta com muito carinho. O que dizer a Isabela, se não sabia o que dizer a si próprio? Como poderia falar-lhe sobre suas atividades em Amendoeira, se às vezes não sabia ao certo o que estava fazendo? As certezas de que estava imbuído, quando viera como promotor público para Amendoeira, tinham sido substituí­ das por dúvidas, que sequer se sentia apto para expressar. No dia seguinte, respondeu a Isabela por telegrama: “Minha querida Isabela vg eu também não a esqueço pt Receba o beijo carinhoso de Eládio.”


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No mesmo dia em que Eládio lia a carta de Isabela, esta passeava na praia de Copacabana. Sentada em um banco, recordava os momentos agradáveis que passaram juntos, em outra praia e outros tempos, com sonhos que não se realizaram. Costumavam contemplar o mar, às vezes conversando, às vezes em silêncio. A visão do mar fascinava não só Isabela, nascida e criada no litoral, mas também Eládio. Gostavam de apreciar o horizonte, imaginando qual seria o destino dos navios que passavam ao longe, com passageiros e tripulantes que não conheciam, e jamais conheceriam. Lembrava-se em particular de uma tarde em que Eládio lhe dissera que gostaria de morar à beira-mar. “E por que não?”, perguntara ela. “Porque dei minha palavra de que retornaria a Amendoeira.” “Deu a palavra a quem?” “A mim mesmo”, respondera ele. “Para fazer o quê?” “Justiça!”

Isabela jamais compreendeu como alguém poderia prender-se a uma palavra dada a si próprio. Mas foi nessa ocasião, diante da convicção da resposta, que percebeu que Eládio voltaria sozinho para Amendoeira... Isabela levantou-se do banco onde estivera sentada, tomou um ônibus e voltou para a solidão do seu apartamento.


16. A morte e a carta do avô abalaram Eládio. Talvez por isso, ele começou a questionar-se, ao mesmo tempo que passou a questionar a situação em que se metera. Durante os anos que passara estudando na Capital, acreditara que quando voltasse e manifestasse sua firme intenção de esclarecer os fatos receberia todo o apoio do pai e do avô. Essa expectativa era falsa, não se confirmara. Nem o avô nem o pai estavam interessados em descobrir o criminoso. Por quê? Não tinha dúvida sobre o amor que nutriam por Teodorico Neto. Seu avô chegava a ter pelo neto mais velho uma verdadeira adoração. Eládio não duvidava de que o avô gostava mais de Teodorico do que dele. O pai sempre manifestara uma certa predileção por Eládio, mas também gostava muito do filho mais velho. Como se explicava essa resistência dos dois?


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Quem era Godofredo? A menção ao nome dele desconcertara seu pai. Que papel tinha desempenhado esse indivíduo na tragédia? Por que a menção ao Ford preto também tinha abalado seu pai? Quase todos os poucos automóveis que existiam na cidade eram Fords pretos. Seu pai era uma das raras exceções. Tinha um jipe Willys, que segundo ele dava maior liberdade para enfrentar as quebradas do sertão, andando fora da estrada quando necessário. Era certo que seu pai sabia algo sobre o crime que não estava disposto a revelar. Mas o quê? Chegara a imaginar que Godofredo era alguém poderoso, envolvido com a tragédia, e que o pai, assim como o avô, não queriam confrontar. Mas essa hipótese era desarrazoada. Talvez seu pai pudesse ter um receio desse tipo. Mas o avô? Este não receava nada, esmagava quem tinha a ousadia de enfrentá-lo. Sempre foi assim e estava velho demais para mudar. Em uma de suas reflexões mais pessimistas, chegara a imaginar que a resistência se devia a um terrível segredo. Será que Teodorico Neto matara Ritinha e se suicidara a seguir? Mas por que o faria? Por ter descoberto que Ritinha não era mais virgem? Talvez esse fosse motivo para um recém-casado matar sua mulher na noite de núpcias, naqueles rincões do país. Mas Teodorico? Ele pouco se importava com o que considerava tolices medievais. Não conseguia imaginar o irmão tomando tal atitude. Além do mais, conhecendo Teodorico como conhecia, tinha certeza de que se Ritinha era virgem quando começaram a namorar, já não o era mais na noite de núpcias... Talvez o pai e o avô não quisessem admitir que o júri havia cometido uma injustiça ao condenar Caduca. Mas


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esse seria motivo suficiente para que buscassem impedir a descoberta do verdadeiro assassino do filho e neto? Eládio partira da certeza de que tinha uma missão a cumprir. A esta altura, porém, não tinha mais certeza de nada. Só dúvidas. E não conseguia raciocinar com clareza, a fim de montar o quebra-cabeça à sua frente. Pensou em Isabela. Imaginou a vida que estava levando no Rio de Janeiro. Gostaria de tê-la a seu lado, não apenas porque a amava, mas também porque precisava ter com quem conversar e tentar pôr ordem em suas ideias. Será que seu comportamento havia precipitado a morte do avô? Será que agira bem ao enfrentar a resistência do pai e do avô para reabrir um caso sepultado há anos? Jovem, no vigor de seus vinte e seis para vinte e sete anos, Eládio sentia-se cansado. E, sobretudo, solitário... 2 Eládio sentiu que precisava falar com alguém. Compartilhar suas dúvidas e reflexões, ouvir a opinião de alguém mais vivido do que ele, com mais experiência e compreensão do ser humano. Não se sentia à vontade para falar com o pai. Gostaria de conversar outra vez com seu padrinho, o coronel Orozimbo, em Verde Vale, mas ele tivera um derrame cerebral e não conseguia falar. Decidiu procurar o padre Olinto. Encontrou-o na sacristia, participando da pintura do local, que estava a ser feita por um pintor já velho e alquebrado, trepado em uma escada. Após breves palavras de cortesia, Eládio disse a que tinha vindo. Padre Olinto apontou uma mesa retangular, de


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jacarandá maciço, situada em um canto que já havia sido pintado, e disse a Eládio para sentar. Em seguida, acomodou-se na cadeira em frente e disse, apressado: “Pode falar, meu filho.”

Eládio contemplou padre Olinto, que já passara dos setenta. Não percebera antes, mas já se notavam em seu rosto sinais da devastação do tempo. Percebeu rugas e bolsões sob os olhos, que escapavam ao observador quando o padre andava, lépido como se fosse um rapazinho, com seu metro e meio ou pouco mais de altura. Seu cabelo, de grisalho já passara para branco, e os fios que conservava no alto da cabeça se tornavam cada vez mais raros. Eládio expôs as dúvidas que tinha. Falou com a maior franqueza. Conseguiu dar ordem à sua exposição, apesar de interrompido com frequência pelo padre: “Oh, menino! Você não sabe pegar no pincel? Cuidado para não cair da escada!”

Padre Olinto dividia sua atenção entre o problema de Eládio e a pintura da sacristia, tratando os dois assuntos da maneira mais equânime, como se iguais fossem em importância e complexidade. Quando Eládio terminou, o padre perguntou: “E o que você quer de mim?” “A opinião de alguém mais experiente e mais vivido do que eu.”

Padre Olinto pensou e começou: “Eládio, eu acompanho sua família há cerca de cinquenta anos. Fui amigo do seu avô e sou amigo do seu pai. Vou contar-lhe uma história. Mas você tem de


138 jurar por Deus que o que eu disser agora ficará entre nós. Jura?” “Juro, padre!”

Mas nesse momento o padre pulou da cadeira e correu em direção ao pintor, aos gritos: “Você não sabe pintar! Deixe mostrar como é!”

Arrancou o velhinho da escada e tomou seu lugar. Pegou o pincel e começou a manejá-lo. “Veja como é. Aprenda!”

Foi quando a escada quebrou e o padre foi ao chão. Caiu sobre um dos braços, com um grito de dor. Eládio correu para ajudar padre Olinto. Percebeu logo que ele havia quebrado o braço esquerdo. Levantou-o com facilidade, ajudado pelo peso pluma do acidentado, pôs o fardo no ombro e carregou-o para seu carro, um Ford 46, preto. Colocou-o no assento traseiro e levou-o ao hospital. Quando padre Olinto voltou para casa, Eládio foi visitálo. Encontrou-o sozinho, lendo em sua poltrona. Aproveitou para perguntar: “Padre, aquela história que o senhor ia contar no dia em que caiu da escada...”

O padre interrompeu Eládio e falou: “Esqueça, meu filho. A queda que sofri foi um castigo divino. Não me apercebi que iria violar um segredo de confissão. Felizmente não continuei.”

E fechou-se em copas. Eládio nunca soube o que padre Olinto iria contar-lhe no dia em que quebrou o braço...


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2 Um dia, mal Eládio chegou a sua sala, Paixão pediu-lhe licença e aboletou-se na cadeira à sua frente. “Doutor Eládio, a situação está complicada.” “Que situação, Paixão?” “A da ordem pública. Tem havido muita desordem nos últimos tempos. Brigas, facadas e até tiroteios, o que nunca houve por aqui na época do coronel Teodorico. E eu só conto com um soldado para manter a ordem. Já pedi socorro a Cavaleiro, mas eles têm pouca gente e a desordem também está aumentando por lá. O que devo fazer?” “Fale com Xavier. Afinal, ele é o deputado de Amendoeira e região. Poderá conseguir reforço de policiamento.” “Ele tentou. Quando o coronel Teodorico era vivo, o deputado Xavier entrava à vontade no gabinete do secretário da segurança. Depois da morte do coronel, o deputado foi barrado pelo oficial de gabinete. Disse que ele só poderia falar com o secretário marcando audiência.” “Então marque audiência.” “Marcou, mas só para daqui a dois meses. O secretário mandou avisar que não poderia recebê-lo antes.” “E o prefeito?” “Se o deputado não conseguiu acesso ao secretário, o que o prefeito irá fazer na Capital? Não chegará sequer a falar com o oficial de gabinete. Será barrado pelo porteiro.”


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Eládio ficou calado, pensando como a morte do seu avô havia enfraquecido Amendoeira, Cavaleiro e toda a região sob influência dos Raposo. Paixão voltou a falar: “Doutor Eládio, se o senhor não considerar atrevimento de minha parte, eu gostaria de sugerir algo ao senhor.” “Sugira, Paixão, considero você um amigo. Pode falar.” “Doutor Eládio, assuma a herança política do coronel Teodorico. Seu pai não tem vocação para suceder seu avô. Desculpe-me a franqueza. Mas o senhor tem. Dará um ótimo coronel Raposo. Já imaginou: coronel Eládio Raposo, o quinto.” “Paixão, agradeço sua confiança. Talvez até eu tenha algumas qualidades necessárias a suceder meu avô no coronelato. Mas faltam-me duas, essenciais a essa sucessão: a motivação e a crença no coronelismo. Não quero ser coronel do sertão e não creio no futuro do coronelismo. Mais dia menos dia, Paixão, a democratização que assistimos na Capital chegará por aqui. O coronelismo tem seus dias contados.” “Doutor Eládio, o senhor é um otimista. Nós estamos acostumados a obedecer. A cumprir ordens. A ter nossa vida comandada. Quando o senhor pensa que isso irá mudar? Dez, vinte, cinquenta anos? Ou mais?”

Eládio teve uma ideia que, acreditava, iria reanimar Paixão: “Paixão, farei o seguinte. Irei escrever uma carta ao doutor Juvenal.”


141 “Quem é o doutor Juvenal?” “É aquele assessor do governador, que torceu o tornozelo no futebol em Amendoeira.”

Expôs os problemas na carta dirigida a seu amigo e aguardou. Um mês após chegou a resposta. Amistosa, até mesmo afetuosa, a resposta foi de alguém que tinha, por Eládio, estima e admiração. Só no último parágrafo entrou no assunto. Dizia-lhe que conversara com o governador, mas este pedia desculpas a Eládio por não poder atendê-lo. Soubesse ele, porém, que poderia contar com sua compreensão para as dificuldades que o promotor de Amendoeira enfrentava. Eládio transmitiu a resposta a Paixão, que se limitou a dizer: “Pense no que disse, doutor. Só quem pode resolver nossos problemas é o coronel Eládio Raposo.”

Eládio permaneceu calado, pensativo. As duas cartas que acabara de receber haviam mexido com sua cabeça, provocando tempestade em seus pensamentos. “Rogo-lhe, Eládio: seja o novo coronel de Amendoeira!” “Venha para cá, meu querido! Juntos, construiremos nosso futuro.” 2 A morte do coronel Teodorico havia abalado não apenas Eládio, mas muita gente, inclusive João Pedro. Na biblioteca de sua casa, João Pedro passou muitas noites em claro, imerso em seus pensamentos. Fora criado para obedecer. É possível que seu pai, ao


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determinar o que deveria fazer, tentasse ensiná-lo a comandar. Mas ou o pai não fora capaz de transmitir ou ele não conseguira assimilar esse ensinamento. Suas decisões mais importantes nunca foram tomadas por ele, mas por seu pai. Gostaria de ter ido estudar direito na Capital, mas o pai determinou que ele permanecesse em Amendoeira para cuidar dos negócios da família. Gostaria de ter casado com Estela, filha de um comerciante de Cavaleiro, mas o pai decidira que era melhor para a família uma aliança com o coronel Ramalho, mediante seu casamento com a insípida, inodora e incolor Mariinha Ramalho. E ele refugiou-se em sua biblioteca, em contato com os livros, que eram a paixão de sua vida. Viu seus dois filhos nascerem e crescerem, certo de que um deles seria o futuro coronel Raposo, o que ele, João Pedro, não queria ser. Pelo menos nessa decisão o pai não conseguiu interferir... Aliás, sequer tentou, pela convicção de que isso seria impossível. Desde que atingiu a adolescência, Teodorico Neto demonstrou a todos que não seria ele o sucessor do avô. Sua ambição era seguir os passos do “Rei do Baião”. Sua vocação era artística. A esperança do coronel Teodorico, e de João Pedro, passou a ser Eládio. Mas quando Eládio, já bacharel, retornara a Amendoeira como promotor público, ficou claro para João Pedro que ele nenhuma afinidade tinha com o coronelismo do sertão. Eládio revelou-se intransigente, obcecado pela ideia de justiça. E com isso atingiu toda a família. João Pedro tinha uma decisão a tomar, mas não aprendera a tomar decisões próprias. O pai sempre as tomara por ele.


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Gostaria de conversar com o pai. Indagar-lhe o que deveria fazer. Sabia que mesmo que não concordasse com o pai, obedeceria. Pelo menos a responsabilidade não seria sua. Cinquentão, João Pedro jamais tomara sozinho uma decisão importante. Chegara a hora de tomar a decisão mais importante de sua vida. E João Pedro não sabia o que fazer...


17. A investigação prosseguiu por mais três meses, sem chegar a lugar nenhum. Eládio sentia-se atarantado, não sabendo o que fazer. Estava prestes a mandar arquivar o processo. A conclusão seria crime praticado por autor ou autores desconhecidos. Seria uma decisão quase inócua. Caduca já havia sido executado. Não deixara parentes ou amigos que comemorassem o desfecho. O reconhecimento de sua inocência seria, assim, mero registro histórico, que não teria qualquer efeito prático. Mas seria um ato de justiça. E Eládio tinha obsessão pela justiça. Antes de tomar a decisão, porém, decidiu tirar umas férias. Foi passear no São Francisco e visitar a hidroelétrica de Paulo Afonso. Já conhecia a cachoeira, onde estivera


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menino, com seus pais e irmão. Mas ainda não vira a hidroe­létrica depois de sua construção e operação. Foi à Capital rever amigos, ir às praias, tomar banhos de mar nas águas mornas do Nordeste. Ir aos cinemas que costumava frequentar com Isabela. Rever a faculdade onde estudara. Cerca de trinta dias depois, em um domingo à noite, estava de volta a Amendoeira. Sentiu a satisfação de rever os pais, aos quais contou sua viagem e mostrou-lhes as fotografias que tirara, após o que foi dormir na cama da qual já estava com saudade. No dia seguinte, cabeça fresca, passou pela promotoria, chamou Paixão a sua sala e mandou-o preparar o documento que determinaria o arquivamento do processo. Enquanto Paixão se desincumbia de sua missão, satisfeito com a decisão, Eládio saiu a pé pela cidade, despreocupado, conversando com um e outro, todos estranhando o novo comportamento do circunspecto senhor promotor. Voltou perto do meio-dia. Paixão recebeu-o na porta. Disse-lhe que João Pedro estava havia quase uma hora esperando pelo filho, com um envelope nas mãos. Eládio estranhou. Haviam tomado café juntos pela manhã. O que o pai quereria? Abraçou-o e sentou-se em frente a ele. Aguardou. João Pedro começou: “Você sempre quis estudar direito. Era para vingar Teodorico?”


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Eládio pensou um pouco e respondeu: “Sempre pensei que sim. Hoje, não sei mais. Chegou a hora de dar um basta a esta obsessão. O senhor está vendo este papel em cima de minha mesa?” “Sim.” “É a determinação do arquivamento do processo. É um ato de justiça a Caduca. Mas é também uma libertação para mim.”

João Pedro ficou aturdido, mas continuou: “Eládio, você se lembra de que lhe disse, uma vez, que você pode saber o que fará, mas nunca saberá o que os outros farão?”

Eládio esforçou-se e conseguiu lembrar. João Pedro voltou a falar: “Você pode desencadear um processo, meu filho, mas às vezes ele sai do seu controle e você não consegue fazê-lo parar.” “Não entendi.” “Se você assinar esse documento que está aí, em cima de sua mesa, pensa que o caso da morte de Teodorico e Ritinha estará encerrado?” “Claro!” “Errado! Agora, não é mais você quem decide.” “Não entendi. E quem decide?” “Eu!”

A seguir, aparentando decisão e ao mesmo tempo cansaço, entregou-lhe o envelope que tinha em mãos e declarou, formal, a Eládio:


147 “Senhor promotor de justiça, estou aqui para confessar que encomendei o assassinato de Rita de Cássia Almeida, que foi de minha responsabilidade a morte violenta de meu filho Teodorico e que matei o pistoleiro alugado, Godofredo não sei do quê. Os detalhes estão relatados neste documento que lhe passo às mãos.”

Eládio ouviu, incrédulo, essa declaração. Quando compreendeu o que estava acontecendo, sentiu um imenso cansaço. Levantou-se, abraçou o pai em sinal de profundo respeito, de um Raposo por outro Raposo, e chamou o delegado Paixão, pedindo-lhe para colocar o pai na cadeia. Paixão ficou assombrado. Pensou que iria ter um troço. Desnorteado, pegou com delicadeza o braço de João Pedro e conduziu-o até a cela. Não lhe passou pela cabeça pedir qualquer explicação. 2 Eládio voltou para casa no fim da tarde. Devagar, sem vontade de chegar. Encontrou a casa cheia de parentes e amigos. Quando entrou, fez-se um silêncio tumular. Ninguém se dirigiu a ele, ninguém o cumprimentou, nem mesmo a distância. Abraçou e beijou sua mãe, D. Mariinha, e dirigiu-se a seu quarto. Lá, fechou porta e janelas e deitou-se na cama, exausto. Vestido como estava, sem ânimo para trocar de roupa. Percebeu, pela movimentação, que as pessoas se retiravam. Sempre em silêncio. E ele, deitado, começou a pensar. Lembrou as reuniões na casa do avô, as viagens que


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fazia com os pais, as férias na Capital, os passeios ao Velho Chico, que corria perto de Amendoeira. Sempre com seu pai. As travessuras com Teodorico Neto, que mal conseguia acompanhar. O apoio e estímulo do pai, quando lhe comunicou que pretendia cursar direito na Capital. A afeição que o pai lhe dedicava, talvez para contrabalançar a clara preferência do avô por Teodorico. E chorou. Dizem que o sertanejo é antes de tudo um forte. E é! Dizem que os fortes não choram. Mentira! Eládio era um sertanejo forte. Mas chorou. Porque o sertanejo é também sensível, apegado a sua terra e a seus familiares. Será que tinha errado, ao voltar para Amendoeira? Deveria ter atendido o apelo de Isabela para ficar na Capital e dedicar-se à advocacia? Guardara na memória o juramento que fizera ao colar grau na faculdade. Servir à justiça! Ele acreditara nisso e agira de acordo com sua crença. Mas o juramento não seria tão inútil quanto o latim em que era proferido? O que conseguira com seu retorno a Amendoeira? Ressuscitara seu irmão? Seu avô talvez vivesse mais alguns anos, não fossem os desgostos que lhe causara o neto mais moço. Seu pai estava preso. Em nome da justiça – nada mais que uma abstração – ele destruíra sua família e trouxera luto a sua cidade. Será que agira certo? Quem era ele para julgar o que deveria ser feito? Quando o pai lhe pedira para voltar atrás, quando o avô lhe implorara, a seu jeito, para parar, ele prosseguira. Por quê? Por teimosia, por arrogância, por vaidade? O que tudo isso tinha a ver com a justiça? Pior: em que isso ajudara seu irmão?


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Não teria sido desleal e injusto com seu avô, e sobretudo com seu pai? E naquele momento tomou uma decisão. Não poderia apagar o passado, era tarde para desfazer o dano que causara. Mas poderia reconstruir o futuro. Eládio decidiu pedir exoneração do cargo de promotor. Voltaria à Capital, regularizaria seus papéis junto à Ordem dos Advogados e iria defender seu pai diante do júri, em Amendoeira ou qualquer outro lugar em que fosse realizado seu julgamento. E depois? Cada decisão a seu tempo. Depois pensaria no que fazer.


18. Na manhã seguinte, Eládio, ao chegar à promotoria, abriu o envelope que o pai lhe havia entregue. Dentro, estava o seguinte relato dirigido ao promotor público de Amendoei­ra, datado e assinado por João Pedro: “Deixo claro, desde já, que os fatos aqui narrados ocorreram tal como relatados. Quanto aos atos que pratiquei, foram todos eles de minha exclusiva responsabilidade. Não pretendo justificar-me. Seria cômodo atribuir o que ocorreu a uma infância sem a presença materna, a um eventual sentimento de culpa por ter sido, embora involuntariamente, o causador da morte de minha mãe, a uma criação rígida ou a um casamento infeliz. Mas não o farei. Nenhuma dessas alegações minimizaria a torpeza de minhas atitudes, nem esconderia a enormidade dos erros que cometi.


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Repito: tudo que aconteceu foi de minha exclusiva responsabilidade. 2 Minha vida sempre foi monótona e sem emoções. Assim transcorreu até a véspera de São João de 1950. Na festa realizada nesse dia, na fazenda de meu pai, tudo se transformou. Foi quando notei uma jovem alegre, esfuziante, bonita como jamais conhecera igual. Com certeza já a vira antes, mas nessa noite me chamou a atenção. Seu nome era Rita. Ela foi a noiva da quadrilha. Acompanhei suas evoluções, sem poder afastar os olhos de sua figura. Senti que percebeu minha atenção, e vez ou outra me lançou um olhar que a imaginação me levou a considerar ao mesmo tempo malicioso e convidativo. Terminada a dança, busquei aproximar-me dela. Puxei conversa e ela correspondeu. O ponche que tomamos nos deixou ‘altos’. Talvez por isso – não sei – ganhei coragem para convidá-la a caminhar fora da casa. Caminhamos lado a lado, conversando. Aos poucos, fomos nos afastando da iluminação feérica da festa, passando para a escuridão total. Percebi que estávamos junto ao celeiro, longe da sede da fazenda. Dizem que os homens contidos, quando se expandem, são capazes das maiores loucuras. Pode ser que tenha sido o que ocorreu comigo. Perdi o controle, agarrei Ritinha e a beijei na boca, com sofreguidão.


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Ela esboçou uma reação de fuga, mas acabou retribuindo com calor o que lhe estava sendo oferecido. E eu a carreguei para o celeiro, onde em um monte de feno fiz sexo com ela, com um ardor que jamais imaginara ter. Para mim, foi uma festa mágica, a de São João daquele ano. Antes, Ritinha não existia. Sequer me lembrava dela. No final da festa, eu estava apaixonado. A diferença de idade era, pelo menos naquele momento, mera abstração. 2 Eu tinha uma casinha à beira de um riacho, já em Cavaleiro mas longe da cidade. O único acesso a ela era a cavalo. Ninguém sabia da existência dessa casa, nem mesmo meu pai. Era nela onde me refugiava, para refletir sobre a vida e pensar no vazio da existência. Levava meus livros para ler. Tentei escrever. Mas o que saía de minha pena estava longe de me satisfazer. Certa vez li que para escrever claro era necessário ter clareza nas ideias. E eu nunca as tive claras. Foi nessa casinha, à beira de um riacho tranquilo, que passamos a encontrar-nos. Amor proibido, paixão escondida, emoções e sensações mais transparentes e fortes do que a água que corria no riacho ao lado. Foram os melhores meses de minha vida. Pela primeira vez, senti emoção. Forte, inebriante, emoção que sabemos ser perigosa, mas à qual não conseguimos resistir. A razão me dizia que não haveria futuro para a ligação entre um homem de meia-idade, casado, e uma jovem vinte e poucos anos mais moça. Mas durante aqueles poucos meses de felicidade concedi, à razão, as primeiras e


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únicas férias durante todos os meus anos de vida. Em seu lugar, coloquei a paixão. Encontrávamo-nos aos sábados. Durante a semana, restava a ansiedade de que chegasse, logo, o dia do encontro. 2 Uma tarde, após termos feito amor, Ritinha de repente disparou: “Pretendo casar-me daqui a seis meses.”

Não entendi de imediato. Ritinha repetiu: “Irei casar-me dentro de seis meses.”

E acrescentou: “Em maio do próximo ano.”

Quando captei o significado do que me estava a dizer Ritinha, acusei o golpe. Levantei-me, andei no quarto de um lado para outro, sem dizer palavra. Fui à cozinha e voltei para o quarto com um copo cheio de aguardente, fabricada sob encomenda por um de meus amigos mais chegados. Bebi-a de uma só talagada. Com isso, acalmei-me. Sentei-me em uma poltrona à beira da cama e perguntei: “Por que e com quem?” “Já estou em idade. Quase dezoito anos.” “Com quem?”

Ritinha hesitou, mas respondeu com coragem: “Com Teodorico Neto.”

Não resisti e mais uma vez enchi meu copo de aguardente, que bebi de uma só talagada. Após isso, nu em pelo,


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saí da casa e fui sentar-me à beira do riacho de que tanto gostava, onde chorei como criança, até que o segundo copo de aguardente fez efeito e me derrubou. Acordei na madrugada do domingo. Levantei-me enjoa­do, tentei voltar para a casa, mas emborquei no caminho, vomitando tudo que tinha no estômago, e mais a profunda tristeza de que me achava possuído. 2 Nos seis meses que se seguiram, acompanhei os preparativos para o casamento. Toda vez que a noiva entrava em minha casa, arranjava um pretexto para sair. Duas ou três vezes ela tentou falar-me, mas fingi que não a ouvia. E aos poucos aquela paixão tresloucada foi cedendo lugar a um ódio irrefreável. Dois meses antes do casamento, procurei um amigo, especialista em assuntos sigilosos. E sem maiores explicações solicitei a indicação de um pistoleiro. O amigo não me perguntou nada. Limitou-se a dizer que a pessoa iria procurar-me no dia seguinte. Vinte e quatro horas após, andava na calçada quando um indivíduo, malvestido, emparelhou comigo e deu-me bom-dia. E antes que eu dissesse algo, acrescentou: “Eu sou aquele que o senhor procurou ontem.”

2 Marquei com o estranho um encontro para o sábado seguinte, em minha casa em Cavaleiro. Foi nesse encontro que soube que ele se chamava Godofredo. Disse-lhe quem era o alvo, acertei o preço da encomenda, paguei metade


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do combinado em dinheiro, e dei-lhe prazo de dez dias para cumprimento do contrato. Passaram-se vinte dias, e nada. Ritinha continuava em plena atividade, a tomar providências para o tão esperado casamento. Foi então que percebi o erro que estava cometendo. Arrependi-me. O ódio, do amante que fora, foi substituí­do pelo amor do pai, que continuava sendo. Gostaria de ver meu filho feliz. E tão logo compreendi isso procurei o amigo que me indicara Godofredo e pedi para transmitir ao pistoleiro que gostaria de vê-lo com a maior urgência. À tarde do mesmo dia, Godofredo caminhava a meu lado. Antes que eu falasse, foi logo se desculpando: “Cheguei a tê-la em minha mira, mas a arma engasgou. Prometo que não passará de amanhã.”

Expliquei-lhe que era sobre esse assunto que pretendia falar-lhe. Decidira desistir da encomenda. “Mas, doutor, e o resto do pagamento? Já fiz algumas despesas.”

Prevendo essa atitude, já levara um envelope preparado. Ali mesmo, andando na calçada, estendi o envelope a Godofredo e disse-lhe: “O resto do pagamento está aí. O negócio está desfeito. Adeus.”

E afastei-me de Godofredo, esperando que para sempre... 2 Quando Zecão saltou do cavalo e anunciou a morte de Teodorico e Ritinha, senti-me como tendo recebido um


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coice de mula. Fiquei não apenas abalado, mas perplexo. Por quê? Dias depois voltei ao amigo e pedi que Godofredo me esperasse no posto de gasolina na saída para Cavaleiro. Solicitei emprestado o Ford de meu cunhado Tião Ramalho, que era mais discreto e fechado que meu jipe, e dirigi‑me ao encontro. Godofredo estava à minha espera. Levei-o para uma clareira ao lado da estrada e fiz-lhe três perguntas. Ele respondeu com sua tortuosa lógica de pistoleiro alugado. Matei Godofredo ali mesmo, dentro do carro. Pensei em entregar-me à polícia. Mas para quê? Meu filho estava morto. Ritinha estava morta. O homem que os matara, também. Caduca, que nada tivera com a história, igualmente. Eu contribuíra para a morte de Caduca, quando sugeri a meu pai que fosse aceita sua confissão. Foi uma das raras ocasiões em que emiti opinião sobre questões importantes. Caduca talvez ainda estivesse vivo se eu me tivesse calado, como sempre o fizera. Minha vida estava destruída. Restava só um empurrão, que me foi dado pelo meu filho mais moço. Agora, falta apenas um detalhe. E este fica por minha conta...”


19. Eládio declarou-se impedido. O juiz da comarca designou o promotor de Cavaleiro para atuar no processo. Este pediu o desaforamento para a Capital, sob a alegação de que realizar o julgamento do filho do coronel Raposo na região iria perturbar a ordem pública. O advogado de João Pedro não se opôs ao pedido. O juiz decretou a transferência do preso para a Capital. No dia marcado, às seis da manhã, Eládio saiu de casa com João Pedro, que estava em prisão domiciliar, a fim de acompanhá-lo à Capital. Lá, ele iria entregar o pedido de exoneração e regularizar seus documentos a fim de, como advogado, defender o pai. Dali saíram a pé, acompanhados a distância, com deferente discrição, pelo sargento da guarnição de Cavaleiro designado para escoltar o preso.


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Andavam lado a lado. O velho e o moço. Devagar, como se nenhum dos dois quisesse chegar. Não trocavam uma só palavra. Imersos em seus pensamentos, imaginavam até que ponto deveria ir a lealdade entre pai e filho. Caminhavam juntos, para um desenlace que só um deles sabia qual seria. Passo a passo, aproximavam-se do destino. Ao longe, ouviu-se o apito de uma locomotiva. Na estação, viram o trem chegar, já freando para parar. De repente, o velho abraçou afetuosamente o moço, que ficou surpreso com o gesto. Em seguida, o velho voltou-se, e em três ou quatro passos atirou-se aos trilhos, diante do trem que ainda não parara...


2 O Coronel de Amendoeira foi lançado em 11 de novembro de 2012, por ocasião dos oitenta anos do autor.


O Coronel de Amendoeira  
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