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CAPA UNIVERSO B&C É CARNAVAL

CONTEMPORÂNEO ARAQUÉM ALCÂNTARA O OLHAR QUE REVELA O BRASIL

BRASIL NO MUNDO RONALDO FRAGA MODA GENUINAMENTE BRASILEIRA


CARTA AO LEITOR

O Carnaval é uma das mais instigantes manifestações do talento e criatividade do brasileiro. Uma junção de profissionais das mais variadas áreas compõem um espetáculo de qualidade ímpar. Quem nunca se emocionou com a paradinha da bateria, provocando sobressaltos de início e uma satisfação ao perceber que aquela manobra arriscada foi executada com ousada maestria? Como ficar inerte à percepção de que materiais insólitos e geralmente baratos criam efeitos luxuosos e de aparência cara, em magnífico contrasenso? Que ser humano, imbuído de sensibilidade, não percebe o esforço coletivo em prol de um bem comum, e não percebe que a arte é a ferramenta mais democraticamente acessível ao ser humano, independentemente de sua condição social, credo ou raça? E é isto que queremos mostrar nesta edição, uma valorização da criatividade como força transformadora, seja expressa através do talento inconteste de Araquém Alcântara, grande fotógrafo de olhar preciso e precioso, seja por via das mãos do multidisciplinar Ronaldo Fraga e suas roupas cheias de significado e história, ou então pela grande salada sonora do DJ Zé Pedro, tão saborosa quanto a culinária praticada no Dona Onça, restaurante estrategicamente colocado sob o mais icônico dos prédios de São Paulo, o edifício Copan. Tudo sob o olhar da grande mestra Janete Costa, a prova de que popular e erudito não apenas convivem em perfeita harmonia como são frutos de uma mesma árvore, cada qual com seu sabor, mas complementares e indissociáveis. Evoé Momo!

Wair de Paula Eduardo Machado

NOSSOS ENDEREÇOS: SÃO PAULO • AV. BRASIL, 1823 - JARDIM AMÉRICA - TEL.: 11 3894-7000. DE SEGUNDA A SÁBADO, DAS 10H ÀS 20H - DOMINGOS E FERIADOS, DAS 14H ÀS 18H. RIO DE JANEIRO • AV. AYRTON SENNA, 2150 - BLOCO K- CASASHOPPING - BARRA DA TIJUCA - TEL.: 21 3325-7667. SEGUNDAS, DAS 12H ÀS 22H. DOMINGOS, DAS 15H ÀS 21H.

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Making Of MARÇO 2011 | 3


Índice 28

Universo B&C Carnaval. A data traduz em festa o espírito brasileiro.

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Bússola O mais antigo hotel de Veneza ainda recebe a aristocracia do mundo em ambiente 5 estrelas.

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À Mesa Dona Onça. A gastronomia do interior paulista desponta na capital.

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Janete Costa deixou um legado na arquitetura brasileira.

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Confissões

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Decorando o Carnaval pernambucano.

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Brasil no Mundo Ronaldo Fraga costura histórias e tradições brasileiras em suas coleções.

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Especial O País se divide pelas tradições e se mistura na folia do Carnaval.

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The Look of Home Tendências, ambientes e pequenos detalhes.

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2

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Perfil

Roberto Migotto no topo da arquitetura nacional.

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Contemporâneo Araquém Alcântara. O Homem que enxerga a natureza.

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72

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2

Refúgio Internacional Por trás das Máscaras, o sangue carnavalesco de Veneza.

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Trilha sonora DJ Zé Pedro. Uma enciclopédia de MPB.

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Refúgio Nacional Sola da Ponte. Refúgio de luxo no centro histórico mineiro.

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Leitura Carnaval no Fogo, de Ruy Castro. A obra dos anos 90 está mais atual do que nunca.

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Na rede Os sites que os criativos da Revista B&C selecionaram.

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COLABORADORES Expediente Diretoria Artefacto Beach&Country Albino Bacchi Fundador Artefacto Bráulio Bacchi Diretor-Executivo Artefacto Paulo Bacchi CEO Internacional Artefacto Pedro Torres Superintendente Wair de Paula Diretor de Criação Eduardo Machado Diretor de Marca e Relacionamento Projeto Editorial

Rua Artur de Azevedo, 560 - Pinheiros - SP - 05404-001 Tel.: (55 11) 2182-9500 - www.j3p.com.br

Fabio Pereira Diretor de Criação Cesar Rodrigues Projeto Gráfico Direção de Arte

Wair de Paula Diretor de Criação

Chico Volponi Coordenador de Custom Publishing Jamile Kobuti Assistente de Arte Helder Lange Tiso e Luciana Fagundes Revisão Ana Luiza Vaccarin Arte Final Giuliano Pereira Diretor Responsável Pamela Gerard Gerente de Contas Tatiana Volpe Supervisora de Contas Helena Montanarini Redação e Edição Felipe Petroni Filizola Jornalista Nelson Aguilar Fotógrafo Diego Makul Publicidade diegomakul@portalartefacto.com.br

Eduardo Machado Diretor de Marca e Relacionamento

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Executivas de conta Ana Conde Cindy Vega Clarice Mattiello Elisangela Lara Viviane Bruno Colaboradores Adilson Rocchi, Ailton Alves, Carlos Zaluski, Edison Garcia, Fabio Augusto, Fabio Novaes, Marilia Teixeira, Meire Silva, Miriam Perdigão, Mônica Galvani, Nabi Neves, Rejane Zaverucha, Ricardo Amaral, Tânia Rodrigues, Carla Dutra (Neiva Assessoria) ERRATA: “O anúncio da Mercedes-Benz do Brasil Ltda. foi publicado erroneamente na 5ª Edição da Revista B&C, veiculada no mês de novembro de 2010.”

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UNIVERSO B&C

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Carnaval Então é

A data traduz em festa o espírito brasileiro Por helena montanarini Fotos divulgação

O

Carnaval brasileiro, em todos os seus formatos, é incontestavelmente famoso por todo o mundo. Anualmente, perto do fim do verão do hemisfério Sul, milhões de pessoas saem de suas cidades, estados, países e continentes para conferir de perto a maior festa popular do Brasil. A festa de plumas, brilhos, abadás, máscaras e fantasias influenciou diversos artistas no século XX. Emiliano Di Cavalcanti, por exemplo, sucumbiu por completo à temática carnavalesca nas suas obras surrealistas. Nosso emblemático arquiteto, Oscar Niemeyer, se deixou levar pela malemolência do samba. Declaradamente apaixonado pelo Rio de Janeiro e pelo Carnaval, Niemeyer não esconde que as sinuosas curvas presentes em suas obras são inspiradas nas curvas das passistas das escolas de samba. Não é de se estranhar que o belo projeto da Praça da Apoteose, onde culminam os desfiles de escolas de samba, é de autoria do arquiteto. Aos 103 anos de idade, Niemeyer se comprometeu a realizar a reforma de um antigo projeto seu, a Marquês de Sapucaí, palco do

grande espetáculo carioca. O sambódromo irá abrigar mais 15 mil lugares (além dos 60 mil já existentes) e a reforma faz parte do projeto de adaptação da cidade para as Olimpíadas de 2016. A relação com o Carnaval é tão grande que Oscar Niemeyer compôs o samba “Tranquilo com a Vida”, em uma tentativa de driblar o ócio durante a recuperação de uma cirurgia. Seria injustiça não considerar também obra de arte os próprios desfiles. Majestosos, consomem o trabalho de um ano entre a criação do enredo à confecção de fantasias, construção de carros alegóricos e ensaios. E, se a ideia é impressionar, dois carnavalescos contemporâneos despontaram com esse intuito. Nas décadas de 1980 e 1990, o artista plástico Joãozinho Trinta, responsável pelos anos de ouro das escolas BeijaFlor e da Viradouro, usou sua genialidade criando desfiles luxuosos para temas ousados. Paulo Barros, por outro lado, é aclamado como responsável pela reinvenção do Carnaval moderno, se apropriando de materiais alternativos e de efeito, e teatralizando as alegorias com coreografias e alas ensaiadas. MARÇO 2011 | 9


UNIVERSO B&C

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Baco e Dionísio

O Samba

As primeiras manifestações carnavalescas datam de cerca de 6 mil anos atrás, no Egito, em festas de culto a deuses e para agradecer às boas colheitas, pintando os rostos, cantando, dançando e bebendo. Os romanos tinham o Carnaval como uma festa pagã, em homenagem a Baco e Dionísio. No auge da hegemonia, a Igreja Católica tentou conter os excessos do povo, reduzindo as festividades a um período que antecede à Quaresma, onde todos receberiam a punição da abstinência dos prazeres e, assim, a redenção dos pecados cometidos. A abstinência por quarenta dias de atos pecaminosos tornou as festividades que antecedem à Quaresma em motivo de festejo e exageros. O Carnaval tornou-se símbolo de libertação, farra, libertinagem e despedida da fartura. Melhor que isso era ter a devida permissão religiosa para os atos. Ao longo dos séculos, essa relação com a religião foi se perdendo junto às vozes dos foliões durante as festas, nos cantos repletos de confete dos bailes em clubes, nas penas caídas de fantasias, no fundo de garrafas de bebidas.

A relativa jovialidade da nação brasileira frente à milenar história europeia nos priva de tradições seculares de Carnaval. Por aqui, a data é fruto de uma enorme miscelânea de influências e estímulos. As festividades foram trazidas pelos portugueses, em 1641, no formato de jogos e brincadeiras dadas nessa época por todo o velho continente. Com a chegada da família real portuguesa no início do século XIX surgem os primeiros bailes de Carnaval, embalados por temas da nossa nação colonizadora. Décadas mais tarde, grupos de foliões conhecidos como “Bloco do Zé Pereira” começaram a aparecer pelas ruas, tocando bumbos e tambores no sábado de Carnaval. Nasciam então os blocos de rua, que conquistam tantos seguidores até hoje. No começo do século XX surgiram os primeiros bailes de máscaras, com influência veneziana, criando a vontade dos foliões de se enfeitar e fantasiar. Os bailes serviam para demarcar as classes sociais: enquanto a elite se divertia nos bailes de luxuosos clubes e hotéis, os menos abastados farreavam nos blocos de rua.

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A carência por um gênero musical adequado para as festividades deu espaço para o sucesso de Chiquinha Gonzaga. A maestrina compôs a marchinha “Ó Abre Alas” para o cordão Rosas de Ouro, em 1899, e seu sucesso foi instantâneo. Logo tornou-se a primeira-dama do Carnaval e sua música invadiu bailes e blocos por décadas a seguir. Fundamentais para o desenvolvimento do Carnaval como é conhecido hoje, os ritmos africanos apareceram com a primeira escola de samba, em 1928, a carioca Deixa Falar. Com um ritmo mais rápido e notas mais longas, o samba foi criado para seduzir a multidão que seguia a escola. O corso tomou forma de desfile e o surgimento de novas escolas trouxe a competição entre elas. O primeiro concurso entre escolas de samba foi promovido em 1932 pelo jornal o Mundo Esportivo do Rio de Janeiro. A grande repercussão fez com que, no ano seguinte, o jornal O Globo assumisse o controle da competição. Já era fato: o Carnaval havia se tornado uma grande paixão popular. Não demorou muito à Prefeitura do Rio de Janeiro ir à frente das organizações dos desfiles, evoluindo até o grande espetáculo que milhares de espectadores assistem de camarote na Marquês de Sapucaí

1. Bacchus - 1640, obra do belga Peter Paul Rubens. 2. Gravura, O Carnaval na idade média, de 1884, autor desconhecido. 3. A Batalha entre o Carnaval e a Quaresma de Pieter Brueghel, 1559. 4. Carnaval no Copacabana Palace. na década de 1930, foto reprodução. 5. No Carnaval de 1935, um dos blocos da época. 6. Os Oito Batutas em sua formação original: Jacob Palmieri, Donga, José Alves Lima, Nélson Alves, Raúl Palmieri, Luiz Pinto da Silva, China e Pixinguinha. 7. Chiquinha Gonzaga. Em sua última foto, em seu aniversário de 85 anos.

às vésperas de toda Quaresma. Na última década, os blocos voltaram a tomar força apoiados pela nova geração de boêmios. Foliões de seus vinte e poucos anos que procuravam resgatar o Carnaval das histórias que seus pais tanto repetem nos almoços de domingos. Aos poucos os blocos foram crescendo em número e tamanho. Hoje, os bloquinhos de nome engraçado divertem os milhares que se dividem para seguir em coro, transbordando as principais avenidas do Rio de Janeiro. M A R Ç O 2 0 1 1 | 11


UNIVERSO B&C

Os Bailes e o Copa Os luxuosos bailes que reinavam nos anos 50 e 60 foram perdendo a força para os desfiles, até sua total decadência no final dos anos 80. Com uma história glamurosa de quem já abrigou estrelas de Hollywood até a nobreza europeia, o hotel Copacabana Palace voltou a investir em seus bailes de gala na década de 1990, quando foi comprado pela Orient-Express. Desde 1993, o baile de carnaval do Copacabana Palace transforma o Salão Nobre e o nababesco Golden Room numa requintada aglomeração de fantasias elaboradas, máscaras minuciosamente trabalhadas e trajes de gala. Tudo acompanhado de orquestra, jantar dançante e concurso de fantasias, onde os mais empenhados em seus adornos são devidamente reconhecidos e premiados. Não falta nada. Impossível não ser transportado para os anos em que o “Copa”, hoje um patrimônio histórico tombado, era o ponto de encontro da alta sociedade carioca. Os bailes de Carnaval não encantam apenas os saudosistas. No ano passado, os empresários Luiz Calainho, Alexandre Accioly e Ricardo Amaral fecha12 | M A R Ç O 2 0 1 1

ram uma parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro para recriar os lendários bailes de carnaval, a fim de restabelecer o “Tripé Carnavalesco” composto pelos desfiles, bailes e blocos. Para os empresários, os bailes sofreram uma “grande vulgarização” e acreditam que após o carnaval de rua ter retomado seu sucesso, é a vez de recuperar a imagem e a tradição dos bailes de Carnaval. Seguindo essa mesma linha de pensamento, Rodrigo Penna criou o “Bailinho”, festa que já completou três anos de existência. O ator e DJ, cansado das festas blasés resolveu criar sua própria festa, onde lembrasse os antigos bailes de clube que frequentava quando criança. Uma festa alegre e com boa música, onde todos estivessem com um único intuito: diversão. A festa virou o xodó das celebridades e conquistou um público cativo, fazendo com que se expandisse para esporádicas edições em outras cidades como Brasília e São Paulo. Segundo Rodrigo, uma festa é boa quando tem “Dionísio pertinho, rindo com a gente”, fazendo uma alusão ao deus bastardo, um dos símbolos do Carnaval.


O Copa e sua luxuosa produção para os bailes de Carnaval

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UNIVERSO B&C

A influência tropical de Carmem Miranda (à esq.) apareceu na coleção Primavera/ Verão da italiana Prada

Yes, Nós Temos Bananas Folclórico rosto brasileiro como representante do Carnaval e Tropicalismo brasileiro para o mundo, Carmem Miranda nasceu, ironicamente, na Europa. Radicada no Brasil, a atriz e cantora teve o auge de sua carreira artística entre as décadas de 1930 e 1950. Vestida em roupas estampadas e com o indefectível chapéu de cachos de bananas, foi apelidada de Ditadora Risonha do Samba, ao levar o ritmo do nosso Carnaval para Hollywood e fazer o mundo conhecer o joie de vivre do Brasil. As referências estéticas da Pequena Notável voltam em 2011 como tendências de moda. O último desfile da italiana Prada, em setembro, com as propostas do verão deste ano trouxe bananas e abacaxis estampados em saias, blusas e vestidos, fazendo forte alusão à Carmem Miranda. As altíssimas sandálias plataformas usadas pela artista eram o complemento para as roupas desenhadas pela estilista, que buscou retratar o luxuoso e tropical estilo de vida das mulheres latino-americanas. Para a campanha publicitária, a marca também se apropriou da imagem da francesa Josephine Baker, artista de cabaré que vestia cachos de bananas no lugar de saias. É a hora e vez de celebrar a vida nos trópicos.

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A vida acontece em cima dele

ameseutapete.com.br

PATROCĂ?NIO

PARCERIA


BÚSSOLA

Por trás das

Máscaras O SANGUE CARNAVALESCO DE VENEZA Por Helena Montanarini Fotos divulgação


BÚSSOLA

Símbolo do Carnaval veneziano, as máscaras aparecem nas ruas até hoje.

H

á séculos, a chegada de Pierrôs, Arlequins e Colombinas na Praça de São Marcos, em Veneza, simbolizava o início das comemorações que antecediam à Quaresma. O Carnaval veneziano é considerado precursor de todas as diferentes versões da festa ao redor do mundo. Desde o século XI existem registros de festejos carnavalescos na Itália que chegavam a perdurar por até seis meses, culminando na Quaresma, período em que os cristãos abdicam da carne. Por isso, cunhou-se o termo Carnevale, do latim “adeus à carne”. Inevitável fazermos uma alusão à entrega aos “prazeres da carne”, símbolo do Carnaval. Na Idade Média, durante o período de Carnaval, predominavam os jogos e disfarces. Porém, a regulamentação religiosa do Entrudo pelo Papa Paulo II no século XV fortaleceu o tradicional baile de máscaras veneziano durante o Carnaval, abraçado com força pela população no século seguinte por conta da forte influência da Commedia dell’Arte. O gênero teatral eternizado pelas capciosas obras de Moliére baseava-se nas comédias de improviso, quase sempre representadas nas ruas, em que o roteiro mudava a cada

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apresentação, ainda que sempre se utilizando dos mesmo três personagens principais: o Arlequim, o Pierrô e a Colombina. Para identificar esses personagens, a importância das máscaras e trajes típicos na Commedia dell’Arte era extrema, para o reconhecimento do espectador.

Fantasia Mascarada As máscaras carnavalescas venezianas são um espetáculo à parte. Ainda hoje, por toda a cidade, espalham-se oficinas de artesãos, os mascherari, que produzem máscaras de todos os tipos e para todos os bolsos. Porém, os mais conservadores concordam que uma legítima máscara deve ser branca, ou banhada por metal prateado ou dourado. As máscaras mais procuradas pelos foliões são a Bauta, Moretta e a Larva. A Bauta é facilmente reconhecida pelo longo nariz caricato, e é a mais usada, pois cobre apenas metade do rosto, permitindo falar, comer, beber e foliar. A Moretta é uma máscara oval, é usada apenas por mulheres, por ser composta de belos e delicados traços, além de pinturas que imitam maquiagem. Já a Larva (ou Volto) é aquele tradicional rosto


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BÚSSOLA

branco usado com uma capa negra com capuz. O curioso é que essas máscaras sempre apresentam feições sérias, quase melancólicas, antagônicas ao que se acredita ser o espírito carnavalesco. Mas essa sobriedade das máscaras representa o real espírito carnavalesco de Veneza, mostrando a insignificância do “parecer” diante do “ser”. Essas máscaras estão intrinsecamente ligadas ao espírito de anonimato característico dos festejos. Na Idade Média, a lei em Veneza para o Carnaval sugeria igualdade a todos, e por isso qualquer peripécia passava despercebida pelos labirintos da misteriosa cidade. O abuso do uso das máscaras para praticar leviandades era tanto que o governo restringiu seu uso no século XVI, liberando-as apenas durante o período do Carnaval, como modo de controlar a violência na cidade.

Herança Nobre O Carnaval veneziano em muito difere das festas populares que conhecemos aqui no Brasil. A celebração é uma herança de uma elite intelectualizada e hedônica. Os nobres saíam às ruas para festejar junto à plebe, devidamente protegidos pelo anonimato das máscaras. Por esse motivo, os trajes usados no Carnaval de Veneza são até hoje extremamente luxuosos e repletos de adornos, um resgate da nobreza dos séculos XVI a XVIII. Por quase dois séculos, no entanto, essa forte tradição foi interrompida. Ao ser invadida e tomada pelas tropas de Napoleão, Veneza viu seus festejos carnavalescos proíbidos pelo novo governante. Felizmente, esse recesso teve seu fim em 1979, quando a população da cidade voltou a ser encorajada pelo Estado a resgatar as tradições do imortal Carnaval mascarado. 20 | M A R Ç O 2 0 1 1

O Carnaval de Veneza hoje A influência carnavalesca na arquitetura da cidade chega a ser inebriante. As fachadas altamente trabalhadas, o design burlesco e as cores vibrantes compõem o Carnaval que não abandona Veneza nas outras épocas do ano. Cada beco e cada corredor apertado parece ser a morada de um Arlequim que miraculosamente sobreviveu aos séculos. E são por esses corredores emaranhados que uma multidão de mais de cem mil pessoas percorrem para chegar às cinco praças onde os foliões festejam durante os dez dias de Carnaval, desafiando o inverno europeu. Os venezianos saem impecavelmente vestidos, se exibindo com gosto e posando orgulhosamente para cada lente fotográfica que passa por eles. E para quem duvida que seja possível traçar grandes comparativos entre o Carnaval que temos em terras tupiniquins e o Carnaval veneziano, são realizados desfiles pelas ruas de Veneza pelas famosas Compagnie della Calza, entre elas, os Antigos e os Ardentes. Se as ruas são tomadas pelo povo e pelos turistas, a alta sociedade encontra refúgio em festas nas portentosas mansões e majestosos castelos à beira do Gran Canale, ou ainda nos salões dos luxuosos hotéis de Veneza, onde não falta champagne e orquestras inebriando todos os convidados com óperas de Verdi e Vivaldi. O mais louvável do Carnaval de Veneza é que ele não apresenta qualquer forte organização por trás dele, sendo apenas um fruto da vontade da população de manter viva a tradição secular do Carnaval. É uma festa de pessoas para as pessoas, uma homenagem à liberdade de expressão e de espírito, em que todos podem libertar seus devaneios e se livrar do reconhecimento que os perseguem no restante do ano.


BÚSSOLA

C

Mardi Gras

idade fundada pela francesa Companhia das Índias em 1718, Nova Orleans, nos Estados Unidos, recebeu diretamente vasta cultura da França e sua herança católica europeia. E se do latim chegamos ao nome Carnaval, os franceses chamaram o Entrudo de Mardi Gras, ou Terça-Feira Gorda. O termo refere-se à comilança e exageiros que antecedem à Quaresma. Assim, a Fat Tuesday nada mais é do que o Carnaval de Nova Orleans. Seu início oficial é em 6 de janeiro, no Dia de Reis, porém a folia ocorre durante os doze dias que precedem a Terça-Feira Gorda. Comemorado desde 1766, o Mardi Gras possui diversas similaridades com o Carnaval brasileiro e veneziano. Fantasias, máscaras e mais de 60 desfiles que decoram a cidade com luzes brilhantes e confeitos. Bem menos comedido e clássico do que o Carnaval de Veneza, porém deveras semelhante às festividades que ocorrem por todo Brasil. Festas e bailes ocorrem em plena rua e a palavra que

“ O Mardi Gras não deixa de ser uma interpretação libertária do Carnaval veneziano.”

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reina é “libertinagem”. Homens e mulheres enchem seus bolsos com colares de contas coloridas e presenteiam esses colares àqueles (mais precisamente “àquelas”) que levantarem a blusa, criando assim uma pequena competição entre os foliões. Universitários americanos em busca de festa são destaques entre os quatro milhões de turistas que visitam Nova Orleans para o Fat Tuesday. O evento deixa meio bilhão de dólares anualmente para os cofres municipais, e foi essencial para a reconstrução da cidade após os estragos causados pelo furacão Katrina, em 2005. Por trás da organização do Mardi Gras estão os Krewes, clubes sociais com fins não lucrativos, que homenageiam deuses gregos em seus nomes. Ou seja, o Mardi Gras não tem nenhum compromisso concreto com uma ideologia específica, já que tem um fundamento religioso, um comportamento pagão e um apreço pela mitologia grega. Mas, se observarmos bem de perto, pode-se perceber que o Mardi Gras não deixa de ser uma versão mais descarada e libertária, ainda que menos glamorosa, do Carnevale di Venezia. Cena da festa no final do século XIX, quando a tradição já atraia multidões.


À MESA

Para Comer, Beber e Amar A gastronomia do interior paulista desponta no Dona Onça.

Por Felipe Filizola

H

á anos, o centro de São Paulo passa por um processo de revitalização. Baseado na reforma e construção de centros culturais e organização dos estabelecimentos, algumas boas novidades surgiram em uma área esquecida por muito tempo. Entre as revelações, está o bar Dona Onça, empreendimento da chef Janaína Rueda com Julio César Toledo Piza e Sissi Spitaletti. A moderna arquitetura do edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, abriga o bar com capacidade para 80 pessoas, decorado com painéis de fotos das grandes cidades boêmias do mundo que foram visitadas pela onça, como Londres, Paris e Nova Iorque. O Copan é um dos edifícios de maior estrutura de concreto armado do país, de 32 andares. Com projeto elaborado durante o IV Centenário de São Paulo, o prédio tornouse, por sua magnitude, um dos pontos turísticos da cidade.

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Fotos Mauro Holanda

Bar de comida Mesmo incrustado nessa relíquia urbana, o que brilha mesmo são as comidas. O cardápio foi elaborado de modo a resgatar a tradição culinária do interior paulista, resultando em petiscos e pratos que refletem a colonização do estado por imigrantes de diversos países. Entre as entradas, se destacam os canapés e porções de bolinho de espinafre, almôndegas “à moda da antiga” e o quase esquecido coquetel de camarão, famoso na década de 1990. A influência italiana na gastronomia paulistana aparece nas opções de massas, preparadas por Jefferson Rueda, marido de Janaína e chef do restaurante Pomodori, no Itaim Bibi. Também estão entre as sugestões de pratos principais receitas de culinária afetiva, como aquelas que costumávamos comer na casa de nossos avós.


A Chef Janaína Rueda à frente do salão do Dona Onça, que marca a revitalização do centro de SP com gastronomia do interior paulista.


À MESA

Frango à milanesa com creme de milho, rabada com polenta e estrogonofe de filé fazem salivar até os mais saciados clientes. Para o verão, a chef criou um menu especial, como a Salada Secreta de filet-mignon, rúcula e lascas de parmesão. O nome se deve à receita do molho, que Janaína não compartilha com ninguém. Para os apreciadores de frutos do mar, Rueda criou uma Cazuela à moda espanhola, sopa típica dos países sul-americanos colonizados pela Espanha que lembra um cozido de diversos ingredientes. Como não seria uma refeição completa sem sobremesa, e a dúvida na hora de escolher a chave de ouro para fechar o menu é constante, o Trio Elétrico é uma das desserts mais pedidas. Combinação de quindim, pudim e brigadeiro mole, o prato não decepciona. Além dele, outras estrelas são a Banana Split e o Merengue da Onça.

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Bar de bebida Com intenção de popularizar o vinho, a casa possui tintos e brancos em taça no lugar do tradicional chopp. Para isso, foi necessário criar um sistema de acondicionamento da bebida que a deixasse também na temperatura ideal. Na adega climatizada para mais de 800 garrafas, rótulos do Velho e Novo Mundo se misturam para oferecer ao cliente a perfeita hamonização com os pratos. O bar ainda conta com a presença do sommelier Wilton Ferreira, também apaixonado pela alquimia entre vinho e gastronomia. Mas se engana quem pensa que apenas de vinho vive o bar. Na carta de bebidas, destacam-se cervejas de garrafa e drinks clássicos, como whysky sour. O bar oferece também drinks autorais, como o shot Leite de Onça, bebida oficial do lugar. Enfim, o local perfeito para reviver o centro paulistano.


Com intenção de popularizar o vinho, a casa possui tintos e brancos em taça no lugar

do tradicional chopp.


À MESA

Estrogonofe de carne (Para 2 pessoas)

Ingredientes  • 250 g de filé mignon em tiras  • 1 cebola cortada em pedaços pequenos  • 1 colher de molho inglês  • 1 colher de mostarda dijon  • 1 pitada de páprica doce  • 1 colher de azeite  • flor de sal  • pimenta do reino  • creme de leite fresco  • 3 colheres de conhaque  •1 pote de champignon cortados em 4 pedaços  Preparo  1. Em uma frigideira, dourar bem o filé com a cebola, o azeite e flor de sal  2. Acrescente o conhaque e deixe flambar  3. Coloque a mostarda dijon, o molho inglês, os champignons, a páprica, a pimenta do reino e o creme de leite fresco e deixe ferver 4. Sirva com arroz branco e chips de mandioquinha Serviço: Avenida Ipiranga, 200, lojas 27/29, Tel.: (11) 3257-2016. Horário de funcionamento: segunda a quarta das 12h às 23h, quinta a sábado, das 13h às 24h, e aos domingos, das 12h às 17h. Cartões de Crédito e Débito: Redecard, Visa e Amex. Capacidade: 80 pessoas. Vinho em taça R$8. Acesso a deficientes. Ar-condicionado.

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Foto: MARCELO CORREA

DNA

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Janete Costa A lição da valorização da cultural brasileira Por Felipe Filizola Foto divulgação

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anete Costa deixou um legado na arquitetura brasileira. Nascida no interior de Pernambuco e falecida aos 76 anos em 2008, a arquiteta, diplomada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Rio de Janeiro na década de 60, teve sua carreira marcada pela divulgação da arte popular e do artesanato brasileiro, além de desenvolver importantes projetos de arquitetura e design de produtos. A preocupação com a inserção no mercado de trabalho de artistas populares apareceu durante sua vida, idealizando que a arte, design e arquitetura brasileiras expressassem identidades culturais locais. Foi casada com seu professor e também arquiteto Acácio Gil Borsoi, com quem manteve por anos escritório de arquitetura em Recife.

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DNA

Obras Um de seus últimos projetos, o hotel Marabá, funciona como canal de informação cultural, como desejava Janete.

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Seus projetos de residenciais, edifícios públicos, cinemas, auditórios e teatros, hotéis, prédios comerciais, restaurantes e lojas visavam a inclusão social e a geração de renda para artesãos e artistas populares. A sua atuação em projetos de interiores resultou em design de produtos, de colchas à luminárias e cadeiras, se aproveitando de materiais variados como madeira, metais, fibras e mármores. Para executar os produtos, recorria a cooperativas de trabalhadores e comunidades, criando a “escola Janete”, que unia cultura erudita e popular em pé de igualdade. As soluções encontradas pela arquiteta preenchia

todos os requisitos de padrão internacional de qualidade, porém resultavam em espaços com personalidade e expressão cultural brasileira. Destacou-se também como Consultura de Arquitetura de Interiores em restaurações de sítios históricos, como o Teatro de São Luís do Maranhão, o Palácio dos Leões, também no Maranhão, o Solar do Jambeiro e a Igreja São Lourenço dos Índios, estes últimos em Niterói. Realizou viagens para países orientais, a convite do governo chinês, e para a Europa, a fim de especializar-se, em 1979, e recebeu por três vezes a Premiação Anual do Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB - em 1969, 1970 e 1972. 


“Janete

destacou-se pelo

compromisso com a identidade do Brasil.”

No Rio de Janeiro o paisagista integra a natureza ao seu projeto.

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DNA

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“O artesanato aquece e embeleza os ambientes, não se trata de alternativa barata.”

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DNA

Janete ainda jovem estudando as melhores soluções para seus projetos.

A paixão A valorização da arte popular brasileira e do artesanato foi a forma encontrada por Janete Costa para dar à arquitetura aquilo que se convencionou chamar de função social. Por mais de 40 anos, estudou e pesquisou o artesanato do Brasil, e procurou incorporá-lo em todos os seus projetos. Disse, certa vez, em entrevista que “...o artesanato aquece e embeleza os ambientes, não se trata apenas de alternativa barata”. Para a disseminação de técnicas e ideias, montou e curou exposições ao longo de sua vida por diversas capitais brasileiras e fora do País. Entre as de maior destque, podemos citar: Artesanato como um caminho (SP, 1985), Viva o Povo Brasileiro (RJ, 1992), Arte Popular Brasileira (RJ, 1995), Pernambuco – Arte

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Popular e Artesanato (RJ, 2001), Arte Popular Brasileira e Arte Popular dos Estados, Carreu du Temple (Paris, 2005), Que Chita Bacana (SP, 2005), Somos – Criação Popular Brasileira (RS, 2006) e do Tamanho do Brasil (SP, 2007). Segundo Janete, o artesanato precisava sair dos limites regionais e atingir um preço que assegurasse ao artesão uma melhor qualidade de vida, necessitando este trabalho de assistência técnica e a organização através de cooperativas. Costa defendia ainda um projeto de desenvolvimento técnico no qual o artesanato tradicional pudesse evoluir, sem perder as suas raízes. Brasileira com B maiúsculo, fez sua parte para melhorar o Brasil. Deixou um legado e, certamente, saudades.


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CONFISSÕES

Decorando

com fantasia

o Carnaval

pernambucano Por felipe filizola Fotos divulgação

O

arquiteto Carlos Augusto Lira, diplomado pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco, em 1971, com diversos cursos de especialização e extensão, é profissional conhecido nacional e internacionalmente. Há dez anos, seu escritório desenvolve o projeto cenográfico do Carnaval de Recife junto a Joana Lira, filha de Carlos, artista plástica e designer gráfica, além de também ser responsável pelo projeto funcional e cenográfico da Fenearte, a maior feira de artesanato da América Latina. Além de arquiteto, Lira é colecionador de arte sacra e arte popular – brasileira e africana. B&C: Como surgiu o envolvimento com o Carnaval? CL: Foi bastante curioso. Em 2001, assumiu um novo Prefeito e um novo Secretário da Cultura aqui em Recife. Na primeira semana no cargo, me ligaram e marcaram uma reunião. Achei estranho ser convidado para decorar o Carnaval, pois para mim não se tratava de um projeto de arquitetura, e sim uma intervenção urbana. Foi um desafio, pois não tinha as plantas nem acesso aos arquivos, então levantei um time de 12 pessoas para mapear e fazer o levantamento. Minha filha, que é designer gráfica, veio de São Paulo ajudar. Tínhamos pouco tempo, pois o Carnaval era em fevereiro.

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B&C: Como você vê a evolução do trabalho nesses 11 anos? CL: Acumulei muita experiência nesses anos. Comecei usando material reciclável, pois acreditava que deveria transmitir uma mensagem social. Mas não poderia ter “lixo” usado como enfeites. A decoração precisava ser luxuosa, com efeito de dia, de noite, no sol e na chuva. O trabalho de desenvolvimento passou para outra esfera. Com os anos, desenvolvemos um trabalho social junto a comunidades, nas quais uma colheria o material, outra o beneficiaria e por fim uma terceira o transformaria na decoração. O importante é transformar o material em peças que tenham design e requinte. E dá muito mais trabalho do que utilizar um material “pronto”, mas o resultado é gratificante. Nesse período, a Prefeitura também passou a incentivar ações sociais, inclusive durante o Carnaval, na Boa Viagem, Magalhães e Casa Forte, entre outras. Recife é o Carnaval mais democrático do mundo, não só pela folia, mas pela inclusão social. B&C: A cada ano, a obra de um artista é homenageada, como a de Tereza Costa Rego para 2011 e Vicente do Rego Monteiro em 2010. Como é feita a homenagem? CL: Sempre houve a homenagem a dois compositores de frevo, um vivo e um do passado. Este ano homenagearemos o maestro Duda além de Tereza Costa Rego. O artista dá uma linha


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CONFISSÕES

Um dos temas do Carnaval Multicultural-Recife 2011.

a ser seguida na hora de criar a decoração. No caso de Tereza, suas obras são sensuais, mas estáticas. Utilizamos essa referência como base, mas exploramos também outros elementos de sua obra, como os tamanduás, gatos e o Homem da Meia Noite. O Homem é típico do Carnaval de Olinda, mas a artista mora na costa do Amparo, mesmo lugar onde habita o personagem durante os dias de folia, então era inevitável utilizar essa referência. B&C: Seu trabalho com o Carnaval começou no final da revitalização do Recife Antigo, que vinha sido feita desde os anos 70. Há, na hora de projetar a cenografia, uma preocupação em valorizar a arquitetura local? CL: O Carnaval aqui é muito maior do que o bairro de Recife Antigo, então nossa preocupação e cuidado se estende à toda cidade. Ao bolar a decoração, buscamos criar peças que participem do cenário sem interferir nele. Também há uma grande fiscalização da Prefeitura, do órgão que cuida do patrimônio histórico e do próprio CREA. Não podemos prender nada em pontes, postes, prédios e pisos, com o risco de se embargar a montagem. A nossa proposta é revestir a cidade para a folia, valorizando-a e nunca a escondendo. B&C: O que mais te atrai no Carnaval recifense? Costuma ficar na cidade para os dias de folia? CL: A diversidade do Carnaval recifense é incrível. São oito polos centralizados com shows, além dos 9 pólos que ficam fora do centro da cidade. Cada um guarda sua identidade,

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que eu procuro respeitar quando crio a decoração. Tem o polo Fantasia, que assim como nos Carnavais antigos, as pessoas ainda vão fantasiadas. Tem o polo Mangue, que faz referência ao Manguebeat de Chico Science e o polo Afro, que resgata as tradições do maracatu. Me agrada ver como, apesar de tão diferentes pela música e pelas pessoas, os polos se integram uns com os outros. Gosto também do ritual dos Tambores Silenciosos, quando tudo se apaga e os participantes pedem, falando e cantado em português e yorubá, proteção aos ancestrais para o período de Carnaval. Passo o Carnaval na cidade todos os anos. Já passava a data em Recife antes de trabalhar nele, e agora devo prestigiar aqueles que estão prestigiando também o meu trabalho. B&C: Você coleciona arte sacra e popular... CL: A paixão começou nos anos 70. Vinha de uma família simples, então apenas admirava a estética de esculturas sacras em lugares públicos. Quando comecei a trabalhar, tive a oportunidade de adquirir peças. Gosto muito dos imaginários dos santos de roca, santos antigos e populares, de terracota e mais simples. Eles têm uma sofisticação profunda, diferente de santos enfeitados com tintas douradas. O Brasil é muito rico nesse aspecto artístico, principalmente o Nordeste. Temos o Mestre Expedito do Piauí, a beleza do Bumba Meu Boi no Maranhão, a tradição pernambucana de peças em barro e madeira. Meus dois filhos moram em São Paulo, mas eu acredito mesmo que o passado e o futuro do Brasil estão no Nordeste. Aqui, nossa história é contada com paixão e sedimentação.


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BRASIL NO MUNDO

do brasil e pelo brasil Ronaldo Fraga costura histórias e tradições brasileiras em suas emocionantes coleções.

Por Helena Montanarini Foto divulgação

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O Universo de Athos BulcĂŁo nos croquis e passarela do inverno 2011.

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BRASIL NO MUNDO

N

ão há como falar em moda brasileira sem destacar Ronaldo Fraga. O estilista mineiro ficou conhecido pelo seu trabalho original, carregado de referências do País. Suas coleções trazem humor, ousadia e crítica social a temas e ícones genuinamente brasileiros, sem transformá-los em caricatura. Antropólogo nato, sua inerente sensibilidade propõe o olhar com afinco a traços nacionais esquecidos pelo povo, como os bordados pernambucanos que estrelaram sua coleção de Verão 2011. Guimarães Rosa, Nara Leão e Carlos Drummond de Andrade já foram homenageados com temas de coleções que contam verdadeiras histórias. Seus performáticos desfiles no São Paulo Fashion Week atraem olhares atentos, encantados e emocionados dos espectadores.

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Detalhe da estampa de uma saia da coleção de inverno 2011

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BRASIL NO MUNDO

Carreira Em seu blog pessoal, Ronaldo diz que “nunca desejou sua carreira, não teve mãe costureira ou irmãs provando vestidos em casa e nunca brincou de boneca. Começou pelo simples fato de saber desenhar. Trezentos anos depois, continua ilustrando personagens para suas histórias: o que muitos chamam de moda”. Nesses “trezentos anos”, muita coisa aconteceu. Fraga formou-se em estilismo na UFMG, Belo Horizonte, fez pós-graduação na Parson’s School de Nova Iorque e estudou Millinery (arte de fazer chapéus) na Saint Martins School de Londres. O retorno ao Brasil aconteceu em 1996, quando integrou o time de estilistas a desfilar no Phytoervas Fashion. Em meio à tendência minimalista, sóbria e nipônica da segunda parte da década de 1990 e da supervalorização das culturas internacionais, Ronaldo surpreendeu a todos com a colorida e alegre coleção “Eu Amo Coração de Galinha”, sucesso instantâneo de crítica. No mesmo evento, um ano depois, uma coleção sobre o artista Arthur Bispo do Rosário lhe conferiu o prêmio de estilista revelação de 1997, o que o impulsionou a abrir sua marca própria. Entre 1998 e 2001, Fraga desfilou suas histórias na Casa de Criadores até entrar no line-up oficial de estilistas do São Paulo Fashion Week. Completando 10 anos e 20 coleções na semana de moda brasileira, este gênio criativo já nos emocionou com uma linda coleção em homenagem à memória de Zuzu Angel, valorizou a moda de cunho social ao apresentar roupas bordadas por presidiários e retratar o artesanato do Vale do Jequitinhonha e resgatou o Tropicalismo com a coleção “São Zé”, referenciando o cantor Tom Zé. A coleção “Turista Nacional” do Verão 2011 é uma alusão ao trabalho de Mário de Andrade, que, segundo o olhar crítico de Fraga, “procurou traçar as coordenadas

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de uma Cultura Nacional através da Cultura Popular, memórias de ofício, música e culinária”. A retratação vem em forma de um projeto desenvolvido junto a um grupo de bordadeiras da cidade de Passira, no Agreste Pernambucano. Aqui, a cultura pernambucana vem costurada, estampada e bordada em linho, seda, bases de algodão e jacquards imitando renda, e sempre valorizando o trabalho feito à mão.

O Velho Chico A pesquisa para uma coleção sobre o Rio São Francisco, em 2008, gerou tanta riqueza de materiais que acabou virando uma exposição, num riquíssimo e singular legado. “Rio São Francisco navegado por Ronaldo Fraga: cultura popular, história, moda” costura uma expedição de dois meses às margens do Rio, com instalações plásticas de arte contemporânea divididas em dez ambientes interligados por um percurso que remete ao interior de um barco a vapor, passando pelas lendas, religiosidades, cheiros e sabores, músicas e costumes das cidades ribeirinhas, entre outros símbolos e características que são únicas ao São Francisco. “A diversidade de costumes e crenças; a multiplicidade de raças, que vão dos índios aos negros e brancos; o encanto das lendas, que são mágicas e ao mesmo tempo assustadoras; a poesia musical das cores, tudo no Rio São Francisco encanta e impressiona”, afirma Ronaldo. A coleção apresentada por Ronaldo Fraga no São Paulo Fashion Week também compõe a mostra acrescentada de peças exclusivas. Lançada em Belo Horizonte em 2010, a partir deste ano a exposição passará por São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Recife, Maceió, Aracaju, Curitiba e Porto Alegre. Mais uma maneira de se emocionar com a bela obra desse artista.


O humor aparece com grafismos do artista brasiliense Athos Bulcão, referenciado na criação do estilista

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BRASIL NO MUNDO

B&C: Você retrata elementos da cultura brasileira na hora de criar uma coleção, como a história dos azulejos coloniais para o Verão 2011. Como o Carnaval já influenciou o seu trabalho? RF: O Carnaval sem dúvida alguma é a festa mais solar da cultura brasileira. E muito em função disso, tem influenciado desde sempre outras manifestações no Brasil como a música, as artes plásticas e a moda, claro. Na coleção de verão, “TURISTA APRENDIZ”, o foco da pesquisa era ofícios de bordado na cultura pernambucana em vias de extinção. Como falar de cultura pernambucana sem falar do Carnaval? Na coleção “DISNEYLANDIA” em que pesquiso a iconografia da América Latina, também ilustrei o Brasil com uma imagem de confetes de carnaval. O desfile “QUEM MATOU ZUZU ANGEL” de 2001, falava evidentemente da denúncia da estilista Zuzu Angel contra a ditadura militar e ironicamente, na trilha, usei marchinhas de carnaval gravadas pela banda do Canecão em 1969. B&C: Como é feita a decisão pelo tema de cada coleção? Como foi o processo criativo para o Inverno 2011? RF: A moda é o meu instrumento de comunicação, denúncia e afeto com o meu tempo, sendo assim, tudo que me provoca ou me indigna já são motivos para se tornarem objetos de pesquisa para uma coleção de moda. Claro que procuro escolher temas que de uma forma ou de outra tragam algo “caro” ao nosso tempo. Nesse caso, os valores à que me refiro são outros. Para o inverno de 2011, pesquisei o universo de Athos Bulcão, o artista que aproximou a arte da arquitetura. Conhecido pelos azulejos de Brasília, na verdade ele fez muito mais. Difícil imaginar Brasília sem as obras de Niemeyer? Mais difícil ainda para mim seria imaginá-la sem a alegria e a sofisticação da arte de Athos Bulcão. B&C: Apesar de sempre atuais, retratando aquele determinado momento, suas roupas se encaixam em um perfil atemporal. Como traduzir uma tendência quando existe uma relação tão forte com um determinado tema? RF: Com a democratização da informação, a forma de “ler” as tendências mudou. Hoje, o comprimento ou a cor propostos por um lançamento em Paris são imediatamente queimados com o acesso massivo à internet. Hoje, a moda e o consumo desta exigem mais de nós. O buraco está muitíssimo mais embaixo. Agora é a vez das macrotendências, ou seja, aquilo que vá direcionar não só a moda, mas a arquitetura, a literatura, o cinema, a culinária. Sendo assim, a tendência da vez pode ser “a busca pelo afeto perdido”. Cabe a nós fazermos a nossa leitura particular deste desejo.

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Ao lado, Mergulhando fundo no modernismo de Brasília, Ronaldo desvenda os azulejos da cidade e da colaboração de Athos Bulcão para Niemeyer para o inverno desde ano.


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só ESPECIAL

alegria O PAÍS SE DIVIDE PELAS TRADIÇÕES E SE MISTURA NA FOLIA. Por Felipe Filizola Fotos divulgação

Se o Brasil é conhecido por sua pluralidade de culturas e tradições, não seria diferente na hora de comemorar a data mais esperada do ano: o Carnaval. Cada região e estado do Brasil tem costumes e formatos típicos para festejar o feriado que encerra, ainda que não oficialmente, o verão. Blocos de ruas, desfiles de escolas, bailes de gala ou trios-elétricos. É a festa mais democrática do País: há opções de diversão para todos os gostos, bolsos e idades.

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a


ESPECIAL

R io de Janeiro e S ã o Paulo O Carnaval Globetrotter!

Talvez a mais emblemática festa brasileira, o Carnaval carioca, é destino internacional para os que buscam folia. A tradição histórica com a data, oficializada pelo governo da cidade em 1930, atrai turistas dos quatro cantos do globo para ver os consagrados desfiles de escolas de samba, com suas coloridas alegorias de plumas e carros alegóricos dignos de produções hollywoodianas rumando à Marquês de Sapucaí projetada por Oscar Niemeyer. A Passarela Professor Darcy Ribeiro, o Sambódromo carioca, ganha vida com música e alegria nas noites de festa, quando uma escola seguida de outra preenche o lugar com suas alas até o amanhecer seguinte. As noites mais disputadas, para desfilar ou assitir, são as de domingo e segunda-feira, quando desfilam as escolas que tiveram mais pontos nos anos anteriores, chamadas de Grupo Especial. Na competição das escolas entram quesitos como enredo, adereços e alegorias,

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evolução e harmonia do desfile, e desempenho da bateria. Fora os desfiles, ainda há opções para foliões em busca de carnaval de rua, seguindo trios-elétricos pela orla marítima da cidade. O Carnaval em São Paulo em pouco difere do Carnaval carioca, ainda que tenha menor visibilidade e sua história seja mais recente. Os desfiles das escolas mais consagradas acontecem nas noites de sexta-feira e sábado no Sambódromo do Anhembi, também projetado por Oscar Niemeyer. As catorze escolas do Grupo Especial paulistano transformam as duas primeiras noites do feriado em um show que pode ser assistido das arquibancadas ou dos badalados camarotes à beira da avenida. Apesar de grande parte dos paulistas aproveitarem o feriado prolongado para descansar (ou festejar) longe da cidade, a tradição dos bailes de carnaval em clubes se mantém viva, muito procurada pelo clima familiar e nostálgico.


Plumas e franjas enfeitam fantasias de efeito, desenhadas para encher a avenida de cor e movimento.


ESPECIAL

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Fotos: Fernando Eleutério

R eci f e e O linda O Pernambuco é uma festa!

Recife

acolhe, segundo o Guiness Book, o maior bloco de carnaval do mundo, o Galo da Madrugada. O ritmo do frevo contagia os carros alegóricos e quase 30 trios-elétricos que festejam ao longo do Entrudo os dias que antecedem à Quaresma. A quantidade de foliões ultrapassa a população local, chegando a 2 milhões de pessoas seguindo o bloco entre o Forte das Cinco Pontas e a Avenida Guararapes. É considerado o mais democrático do mundo, já que o programa é gratuito, requerendo apenas vontade, alegria e muita disposição para aguentar os dias de folia. A revitalização do bairro de Recife Antigo fez com que o Carnaval na cidade se tornasse multifacetado, oferecendo opções de desfiles de agremiações carnavalescas e apresentações de cantores e conjuntos musicais em palanques específicos. A poucos quilômetros de Recife, Olinda recebe seus foliões de maneira própria. Bonecos gigantes circulam pela cidade entre os mais de 500 blocos de rua e 1 milhão de pessoas. Os Bonecos de Olinda, com mais de dois metros de altura, coloridos e de fácil localização, são geralmente feitos de pano, madeira e papel. A tradição surgiu em 1939, com o Homem da Meia-Noite, um boneco de mais de 3 metros de altura. Ele foi o pioneiro em uma tradição que começou como uma grande brincadeira dos artistas plásticos Anacleto e Bernadino da Silva. Em 1969, acharam que o Homem da Meia-Noite estava muito sozinho e criaram uma companheira para ele, a Mulher do Dia. A história diz que os dois se cruzaram pela primeira vez em uma oficina de conserto e fizeram o Menino da Tarde. O símbolo do Carnaval de Pernambuco se multiplicou e hoje a festa conta com diversos personagens. Até boneco do presidente americano Barack Obama já foi feito. M A R Ç O 2 0 1 1 | 55


ESPECIAL

O tradicional bloco “Filhos de Gandhi” ensaia pelas ruas do centro o caminho a ser percorrido durante os dias de folia.

S alvador A terra do Axé!

Carnaval

na capital baiana traz outro recorde brasileiro para a data. A folia soteropolitana é tida como a maior manifestação popular de qualquer natureza no mundo, com cerca de 2,7 milhões de foliões em seis dias de festa! Divididos em 3 circuitos pela cidade, os trios-elétricos começam a festa já na quinta-feira antes do início do Carnaval e só se desligam no “encontro de trios” na praça Castro Alves na Quarta-Feira de Cinzas. Criado em Salvador por Dodô e Osmar em 1950, o primeiro trio-elétrico era um velho Ford 1929 em cima do qual saíram tocando seus paus elétricos com som amplificado por alto-falantes. Percursores do axé baiano, o nome dos artistas batiza hoje dois dos circuitos oficiais pelos quais passam os maiores nomes da música baiana contemporânea, como Ivete Sangalo, Chiclete com Banana e Asa de Águia. O circuito mais tradicional é o do centro histórico, 56 | M A R Ç O 2 0 1 1

mas a mega proporção a que chegou o Carnaval de Salvador faz com que os blocos mais populares percorram do Farol da Barra a Ondina, com avenidas mais largas e banhadas pela orla. Som oficial de Salvador o ano inteiro, a palavra Axé é uma saudação religiosa usada no candomblé e na umbanda, que significa energia positiva. O ritmo nasceu também com Dodô e Osmar ao tocarem o frevo pernambucano com guitarras elétricas. A consolidação do estilo veio nos anos 80, com o cantor, compositor e multi-instrumentista Luiz Caldas, conhecido até hoje como “O Rei do Axé”. A partir dele, surgiu uma geração de cantores e bandas como Margareth Menezes, Daniela Mercury, banda Cheiro de Amor e Banda Eva. A febre do Axé dos anos 90 passou, mas a cada ano a Bahia recebe ainda mais convidados para transmitir sua energia carnavalesca.


The Look of Home TENDÊNCIAS, AMBIENTES E PEQUENOS DETALHES QUE FAZEM TODA DIFERENÇA NA SUA DECORAÇÃO.


PERFIL

Roberto Migotto Competência e determinação levaram o profissional ao topo da arquitetura nacional.

Por Felipe Filizola Fotos Nelson Aguilar e divulgação

“F

onte de energia”. É assim que Roberto Migotto traduz sua relação com o trabalho. Em mais de 25 anos de carreira, o arquiteto nascido em Taubaté e radicado em São Paulo chegou ao hall dos mais estrelados profissionais do Brasil. Conquistou seu espaço com competência e determinação, além de muita dedicação, em uma época que a arquitetura era considerada uma profissão elitizada. Estudou na Universidade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, com João Armentano, com quem abriu o primeiro escritório no começo da carreira. Em 1990, resolveu seguir voo solo e, três anos depois, teve o esforço reconhecido com a sua primeira participação na Casa Cor de São Paulo. Ainda que defina a qualidade como marca registrada de seus projetos, o traço atemporal com conceito e sem modismos é sua assinatura. Transitando entre o estilo clássico e contemporâneo, seus ambientes de bom gosto respeitam as vontades dos clientes. “Um bom profissional tem que saber ouvir para poder interpretar, principalmente quando é ele quem vai realizar o sonho de morar bem das pessoas”, afima categórico.

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Apaixonado por Carnaval, Migotto posou para a B&C ao lado do carro alegórico da Rosas de Ouro.

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PERFIL


Referências e paixões As inúmeras viagens que faz ao redor do mundo são fontes inesgotáveis de novas referências que Migotto afirma filtrar pelo seu próprio senso estético, que também absorve referências de filmes, livros, comidas, bebidas e arte. As imponentes criações podem ser conferidas em projetos de fazendas, residências, restaurantes, hotéis ou boutiques. Nas horas vagas, Migotto ainda alimenta sua paixão pelo Carnaval. Veterano frequentador da Escola de Samba Rosas de Ouro e amigo da presidente da Escola, não costuma perder nenhum ensaio, além de estar sempre presente na Avenida durante os desfiles.

Clássicos ou Contemporâneos, os projetos de Migotto transpiram elegância e atemporalidade.


PERFIL

Migotto recebeu a B&C no seu recém-inaugurado escritório, na Vila Nova Conceição. Em um prédio de tons sóbrios pontuado por pontos de cor amarela, destaca-se a prancheta com régua T para seus desenhos à mão, método favorito para projetar espaços. B&C: Como reconhecer a assinatura Roberto Migotto? RM: Normalmente o cliente procura arquitetos de quem já conhece o trabalho e tem identificação. No meu caso, acredito que cada projeto é o fruto de um relacionamento entre arquiteto e cliente, e o resultado final deve seguir a cara dos dois. Os meus projetos têm em comum a mistura do moderno e contemporâneo com a busca por formas clássicas e atemporais. Como eu faço tanto arquitetura como design de interiores, os projetos são pensados para adequar o desejo do cliente com o seu estilo de vida, casando a forma e a função de cada cômodo, pensando na integração dos cômodos, layout de funcionalidade e usabilidade. Olhando meus projetos dos anos 90 até hoje, vejo que eles seguem a mesma linha, apesar da notada evolução. Isso significa que encontrei o ponto de equilíbrio, o meu estilo.

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Os recentes projetos do arquiteto refletem seu vasto referencial.

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PERFIL

B&C: Você trocou Taubaté por São Paulo recém-saído da faculdade. Qual a sua relação com a cidade? RM: Eu amo São Paulo, é uma cidade maravilhosa e a que eu escolhi para construir minha carreira. Urbanisticamente, a cidade é complicada, mas é natural em uma megalópole de mais de 15 milhões de habitantes. A arquitetura pode aos poucos trazer melhoria, mas melhorar o urbanismo é um trabalho de várias frentes. A sensação que eu tenho quando estou no meu apartamento é de morar no interior, pois vejo a região da Paulista do outro lado do parque. Cada um deve fazer o que pode para melhorar a cidade. Eu trabalho a poucos quarteirões da minha casa, e tento vir trabalhar de bicicleta. É um luxo poder se desprender do carro. Me encantam as belezas escondidas da cidade, como os antigos prédios do centro e o Mercadão. O problema foi o crescimento desordenado que mascarou esses prédios. Se pegarmos a região da Berrini, com prédios construídos na mesma época e pensados, vemos que existe uma linha entre a arquitetura dos prédios; tem cara de primeiro mundo.

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Os croquis em 3D antecipam os sofisticados espaços concebidos.

B&C: Você participou do Extreme Makeover Social no final de 2010. Como foi essa participação? RM: A Cristiana Arcangeli me convidou para o projeto e eu comecei a pesquisar os programas que eram feitos no exterior. Aqui ia ser inviável fazer o programa em uma semana pela burocracia, mas aceitei de imediato, pois era um modo de levar o bem viver para quem eu nunca imaginei. O trabalho em Parelheiros era a reforma de uma creche, que passou a atender 120 crianças (antes a creche atendia 50 crianças). Fomos atrás de materiais ecologicamente corretos. É muito gratificante ver o resultado e a felicidade das crianças atendidas, e isso reflete em uma sensação de bem-estar. Talvez essa seja uma das frentes, inclusive, do projeto urbanístico que São Paulo precisa. Seria bom ver governos e empresários apoiando mais, já que a iniciativa não pode partir apenas dos profissionais de arquitetura.

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PERFIL

B&C: Mudando de assunto, você tem uma forte relação com o Carnaval... RM: Sou completamente fascinado pelo Carnaval. É a minha paixão desde criança. Amo ouvir sambasenredo, estudar cada tema e escola. Em 1985, estava fazendo um projeto no Rio e assisti ao desfile Ziriguidum 2001 da Mocidade Independente de Padre Miguel. Aquilo me marcou muito, aquele brilho das naves espaciais ao nascer do sol ficou marcado em minha cabeça. Em 1987, assisti ao desfile Tupinicópolis da mesma escola, que retratava o que seria uma metrópole indígena, tema atual até hoje. B&C: E como isso reflete no seu trabalho? RM: Acredito que a influência não é direta, mas se vemos alguns grandes carnavalescos, eles conseguem transformar aquele exagero em uma coisa esteticamente leve, gostosa de ser apreciada. Eles primam pelo acabamento e concepção de uma festa tão efêmera, e isso é inspirador. Para mim, o Renato Lage é um exemplo de bom gosto, com carros suspensos, o modo de sustentar grandes estruturas, ou mesmo carros vazados, com transparência... Além dele, temos a Rosa Magalhães e o Paulo Barros, que sabem manter a harmonia estética mesmo com o ambiente “over”. A construção me fascina.

Apaixonado por Carnaval, Migotto recebeu a B&C no barracão da Rosas de Ouro.

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CONTEMPORÂNEO

Araquém

Alcântara O homem que enxerga a natureza


Por Felipe Filizola Fotos NARAQUÉM ALCÂNTARA

C

om o lançamento de duas novas obras no final de 2010, Araquém Alcântara voltou a destacar seu premiado e reluzente trabalho. Referência quando o assunto é fotografia, seus 40 anos de carreira revelaram fotos que registram, como nunca antes visto, a fauna, a flora e o povo brasileiro. Precursor da fotografia de natureza no País, é considerado um dos mais importantes fotógrafos da atualidade. Seu olhar e a luz de suas obras explicam o porquê. Araquém é uma daquelas pessoas que realmente enxergam o objeto observado, capturando a essência do que é retratado. O primeiro ensaio feito pelo paulista Araquém foi sobre urubus. Desde então, seu engajamento social e ambiental permeiam os autorais retratos. Com vasto domínio técnico e cuidado extremo com os menores detalhes, Alcântara capta por meio de lentes cenas exuberantes e carregadas de denúncias, enquadrando tanto o deslumbre quanto a destruição. Nos 42 livros publicados e quase 60 exposições individuais, o que se vê é uma compilação de emoções. A expressão de suas fotos fez com que fosse o primeiro fotógrafo brasileiro a produzir uma edição de colecionadores para a National Geografic, que resultou no trabalho Bichos do Brasil.

TerraBrasil O maior destaque de sua produção é, sem dúvidas, o livro TerraBrasil, lançado originalmente em 1998 e com 11 edições. O maior best-seller da área de fotografia do Brasil já ultrapassou a marca dos 82 mil exemplares e foi relançado, totalmente renovado, em dezembro de 2010 com cerca de 50% de novas imagens. A obra foi o primeiro registro visual de to-

dos os parques nacionais brasileiros, fruto de uma viagem de 300 mil quilômetros que resultaram em mais de 30 mil imagens produzidas. A edição deste vasto acervo levou três anos para o lançamento do primeiro exemplar. Se a imagem de capa, com sua onça-pintada olhando calmamente em direção da câmera, já é suficiente para intrigar o leitor, a impressionante foto do mítico boto-cor-de-rosa da Amazônia ou o esplendor de um pássaro pronto para alçar voo torna o livro em referência não só para fotógrafos, mas também para viajantes e ambientalistas. A nova edição apresenta, além dos parques nacionais brasileiros, os ecossistemas do País. A viagem que consumiu 11 anos, sendo seis meses ininterruptos na Amazônia, continua sendo um feito ousado, mesmo hoje, tanto tempo depois. Por explorar lugares nunca antes aventurados, Alcântara se viu em situações inesperadas e até perigosas. Foi sequestrado por índios caiapós menkragnotire no rio Curuá (PA) interessados em entender o que fazia ali o homem urbano e seu maquinário. O problema foi resolvido com o pagamento de um resgate de R$ 800 e 150 litros de gasolina. “Os índios estavam em pé de guerra porque tinham perdido sua grande fonte de sustento fácil: a comissão de dez por cento dada pelos garimpeiros de rio e de terra e pelos madeireiros de mogno. Eram índios bandidos, que não plantam, não caçam e não pescam mais. Estávamos atravessando o rio, próximo a suas terras, justamente alguns dias depois de uma blitz da Polícia Federal, Ibama e FUNAI. E isso, infelizmente, só acontece uma vez em cinco anos”, relatou certa vez em uma entrevista. As andanças permitiram que Araquém acompanhasse a degradação ambiental de muitas partes do País.

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Ibicoara, BA | Cachoeira da Fumacinha


CONTEMPORÂNEO

“Sou um fotógrafo viajante e esse livro demonstra minha maturidade profissional. É uma obra com o máximo de informação e com o mínimo de palavras.”

Ele lamenta a atual situação do Vale do Jequitinhonha (MG) e a crescente desertificação no Piauí - com destaque para as voçorocas do município de Gilbués, arrasado pela mineração. “Não resta mais nada das araucárias e, na caatinga, estão destruindo a mata seca. Também temo a savanização da Amazônia, já prevista pelos cientistas”, diz. Mas lhe dá esperança o exemplo da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, criada pelo biólogo José Márcio Ayres, com o intuito de proteger o macaco uacari-branco. Nesse tipo de unidade, a população do local não é expulsa e pode usar os recursos naturais de maneira equilibrada.

Novo livro Se TerraBrasil continua a emocionar seus leitores, o fotógrafo lança outra seleção de trabalhos no livro Araquém Alcântara: Fotografias. A curadoria de Eder Chiodetto resumiu duas mil imagens em uma história de 82 fotos apresentadas no livro, que, ao contrário das outras publicações do fotógrafo, não conta com um tema definido. O trabalho de documentação sistemática da natureza mostra, em preto e branco,

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o efeito da luz e seus reflexos para compor deslumbrantes paisagens. “Sou um fotógrafo viajante e esse livro demonstra minha maturidade profissional. É uma obra com o máximo de informação e com o mínimo de palavras”, resume. Nessa sequência de imagens - sem nenhuma legenda, a não ser a indicação do local onde a foto foi feita -, é fácil imaginar várias histórias enquanto o dia avança nos registros. Há fotografias do homem trabalhando no campo e laçando bois no Pará, da pesca no rio Amazonas, de uma partida de golfe em São Paulo, de uma paisagem idílica no Rio Grande do Norte e também de uma menina brincando com um bicho preguiça, no Acre, e assim por diante. “Todas as minhas obras têm uma carga política e social muito grande. Faço um trabalho de denúncia. Nesse livro, excepcionalmente, isso não acontece. Foquei em fazer um trabalho limpo, despojado, com técnicas modernas de impressão e excelente qualidade de papel”, explica Alcântara. “Tive uma sensação de libertação, porque, depois de mais de 25 anos de carreira, me sentia engessado num nicho como fotógrafo de natureza”.


Barcelos, AM | Boto-cor-de-rosa

Barcelos, AM | SumaĂşma no Rio Negro

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DESTINOS

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DESTINOS

Manacapuru, Amazonas

Cruzeiro do Sul, Acre

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Cachoeira do Arari, Pará

carga política

“Todas as minhas obras têm uma e social muito grande. Faço um trabalho de

denúncia.”

A conclusão desses dois livros impulsiona Araquém a novos projetos. Para o final de 2011, prevê um livro sobre cheiros e sabores da Amazônia, feito em parceria com o chef Alex Atala. E outro acerca de cachaças, em conjunto com o sommelier Manoel Beato, e que deve incluir um curioso estudo de Gilberto Freyre sobre a bebida nacional. Até 2012 devem ocorrer comemorações pelos 40 anos de carreira do fotógrafo. Há projetos de uma exposição e de novas publicações. Araquém tem vontade de produzir uma trilogia sobre o Brasil contemporâneo, além de um estudo – “numa linha euclidiana” – sobre a terra, o homem e a extinção, tendo os rios da Amazônia como personagens-chave.

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REFÚGIO INTERNACIONAL

Luna Hotel Baglioni O mais antigo hotel de Veneza ainda recebe a aristocracia do mundo em ambiente 5 estrelas. Por felipe filizola

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Fotos divulgação


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REFÚGIO INTERNACIONAL

Relíquias de século decoram os clássicos e luxuosos ambientes do hotel.

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e Veneza atrai milhões de visitantes anualmente para conhecer seus canais e história, os mais exigentes viajantes têm um destino certo na cidade: o Luna Hotel Baglioni. Incrustado na Praça de São Marcos, o hotel é uma sala de estar em meio a boutiques de moda e galerias de arte no coração de uma cidade que revela beleza e elegância em cada detalhe. Se por um estranho acontecimento um visitante pudesse viver nos últimos mil anos no local, teria conhecido ali grandes personalidades que construíram a história da humanidade. O hotel está construído em um espaço de importância histórica e cultural. É o mais antigo hotel da cidade, que abrigou, no século XII, cavaleiros reais antes de partirem para as Cruzadas. Ao mesmo tempo que seu passado ainda vive no estabelecimento, os confortos do mundo atual foram inseridos de maneira discreta no hotel para o bem-estar dos clientes, com uma reforma 90 | M A R Ç O 2 0 1 1

acabada em 2009. O tratamento personalizado se assegura em alcançar as expectativas e desejos de seus hóspedes.

Charme Veneziano A entrada principal, a poucos metros da Praça de São Marcos, conta com um píer privado e um deck para gôndolas. O ambiente arquitetônico da cidade continua dentro do lobby principal e nos 104 quartos e 15 suítes, cujas janelas emolduram vistas para os Jardins Reais, a Basílica de São Marcos e a ilha San Giorgio Maggiore. Relíquias de móveis, pinturas, espelhos e objetos acumulados nos séculos de existência do local permanecem intactos e decoram o interior do Luna, assim como os lustres de Murano e o vermelho piso de mármore Verona. A alusão ao Carnaval veneziano aparece em estátuas vestidas com roupas do século XVIII.


REFÚGIO INTERNACIONAL


Lustres de Murano, afrescos nos tetos e doca privada para gôndolas transformam a hospedagem no Luna Baglioni em uma experiência única.

Muito procurado para festas e coquetéis, o hotel disponibiliza uma verdadeira experiência veneziana no Caffé Baglioni, decorado com mesas de mármore, objetos de Murano e situado em uma das laterais do lobby, com uma varanda em anexo que permite aos seus clientes apreciarem a bela vista dos canais. O hotel ainda reserva o salão de baile Marco Polo para grandes festas, uma verdadeira joia dentro da construção. No teto, afrescos do século XVIII pintados em estilo Rococó representam as Quatro Estações, em alusão à alegria da vida na terra. Neste espaço reside até hoje o famoso e mais concorrido baile de máscaras durante o Carnaval da cidade.

Comida Made In Italy O restaurante Canova, famoso ponto de encontro em Veneza e vencedor dos prestigiosos prêmios italianos de gastronomia “Foguer D’Oro” e “Gambero Rosso”, completa a coleção de atrativos do Luna Baglioni. Seu ambiente preciosamente decorado é o palco perfeito para as receitas do chef Cosimo Giampaolo e sua equipe, que valorizam ingredientes “Made in Italy” e propõe uma viagem à culinária italiana. Com capacidade para 70 pessoas, as janelas do local dão vista para a Calle dell’Ascensione através das cortinas feitas da lendária renda produzida na cidade. O nome do restaurante homenageia as obras do pintor Antonio Canova, muitas delas expostas no local.

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REFÚGIO INTERNACIONAL

“O luxuoso serviço já atraiu ilustres hóspedes, como Dalai Lama, Frank Sinatra e Elton John.”

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O Luna e as estrelas Antigo abrigo dos cavaleiros das Cruzadas Religiosas no século XII, o prédio onde reside o Luna Baglioni se mantém intacto por fora desde sua construção, quando ganhou o nome de Osteria della Luna. Com o fim e insucesso das Cruzadas, o local passou a servir de residência para membros do clero e senado até voltar, em 1574, a ser um hotel. Com a importância de Veneza como principal porta da Europa para o Oriente durante séculos, o hotel ganhou igual importância graças à sua localização e imponente arquitetura. Se no passado, reis, rainhas e imperadores marcaram a ocupação de seus quartos, hoje, o Luna Baglioni serviu nas últimas décadas como casa temporária para personalidades globais, como os atores Sean Connery, Michael Douglas e John Travolta, e músicos como Frank Sinatra e Elton John. Por lá, também passaram os importantes Dalai Lama e Nelson Mandela à procura do serviço 5 estrelas. Desde 2001, o serviço impecável do Luna fez com que ele se tornasse parte do seleto circuito de hotéis luxuosos Leading Hotels of the World. Em 2004 e 2005, foi escolhido pela associação de turismo italiano como melhor hotel do país, prêmio concedido também pela revista Conde Nast Traveller no mesmo ano. Nada mais justo para um hotel que se preocupa com o acolhimento e satisfação dos seus hóspedes com serviço de luxo ao estilo Italiano.


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Juke-Box do Brasil O DJ Zé Pedro é uma enciclopédia de MPB

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á duas décadas colocando para dançar as mais animadas pistas do Brasil, o DJ Zé Pedro é autoridade quando o assunto é música brasileira. Sua carreira, que começou no então Resumo da Ópera no Rio de Janeiro, evoluiu para outros clubs de São Paulo, entre eles o B.A.S.E, Kashmir e Gitana, até chegar no Royal Club, onde mantém residência aos sábados desde 2006. Ainda que conhecido pela diversidade de estilos musicais ao montar o seu playlist, Zé Pedro pode ser considerado uma das maiores autoridades do país quando o assunto é música popular brasileira. A paixão vem da infância, quando tinha como hobby garimpar novos intérpretes e compositores. A brincadeira virou trabalho sério. Seu vasto conhecimento musical e a coleção de cerca de quatro mil vinis o levou a escrever o livro “Meus Discos e Nada Mais”, onde conta histórias de sua vida como DJ tendo a música como linhaguia, comentando sobre os 155 discos da música brasileira que mais influenciaram sua carreira. Na época do lançamento, chegou a declarar: “A ideia de fazer este livro era inevitável porque a música brasileira é o meu próprio alimento. Quando não é doce de leite, é a própria música brasileira. As grandes emoções que eu vivi na minha vida foram com esses cantores. Não foram namoros nem casamentos, a grande emoção da minha vida foi poder escutar esses discos”. O texto

Por Felipe Filizola Fotos divulgação

de abertura é sobre Maria Bethânia, a quem o livro é dedicado. Sendo um dos mais requisitados DJs do Brasil, ele também produz remixes e trilhas sonoras para desfiles de moda, como para a Rosa Chá e a Iódice em Nova Iorque, e para o evento Brasil 40 Graus promovido pela loja Selfridges em Londres, com o intuito de apresentar marcas brasileiras para os consumidores britânicos. Fora das pistas, o DJ também participou dos programas Superpop e do extinto É Show, comandado por Adriane Galisteu – amiga e confidente pessoal. Zé também já apresentou o programa MPB Para Dançar na rádio MPB FM do Rio de Janeiro, no qual além de tocar seus remixes, recebia cantores e compositores para entrevistas. Primeiro dos 3 discos de sua autoria, “Música para Dançar”, lançado em 2002, remixa clássicos da música brasileira, apresentando versões para pistas de canções de Milton Nascimento e Elis Regina. Mostrando estar sempre de olho em novos talentos da música, em 2005, lançou o CD “Quero Dizer a Que Vim” junto do DJ e produtor Gui Boratto, atualmente um dos maiores destaques da música eletrônica nacional no mercado mundial pela aclamada música “Beautiful Life” e o álbum Chromophobia. “Quero Dizer...” traz remixes de Djavan, Marina Lima e Gal Costa, atualizando clássicos. Lançado em 2009, “Essa Moça Tá Diferente”, seu N O V E M B R O 2 0 1 0 | 97


TRILHA SONORA

último álbum, faz uma homenagem em forma de remixes às grandes vozes femininas do Brasil, entre elas Marisa Monte, Alcione, Cássia Eller e Maysa. O álbum lhe rendeu uma indicação no 21º Prêmio da Música Brasileira na categoria Música Eletrônica em 2010. Com todo esse repertório cultural, nada mais natural que a revista B&C procurasse o artista para sugerir, nesta edição especial sobre Brasil e Carnaval, um playlist com as melhores músicas para celebrar o feriado mais animado e esperado do País. Assim como a comissão de frente das escolas de samba, Zé Pedro surpreende aqueles que estão assistindo suas performances nas pick-ups, seja com uma ótima e inesperada música, ou seja, com os aparatos com os quais costuma divertir seus convidados, entre eles bolas e brinquedos fluorescentes, ou buzinas em lata. B&C: A música brasileira tem uma diversidade tão grande quanto o seu povo. Qual a principal característica que une todos os estilos existentes no País? Você tem algum favorito? ZP: Não existe nada em comum entre os ritmos brasileiros de cada estado desse imenso País. Em cada capital que eu chego para me apresentar, procuro por informações de 98 | N O V E M B R O 2 0 1 0

artistas locais e fico sempre impressionado com a quantidade de músicos que fazem um grande sucesso em sua terra natal e são completos desconhecidos nas outras cidades do Brasil. A percussão, por exemplo, que é a característica rítmica principal da música brasileira, em cada estado aparece de um jeito. Os tambores de Minas Gerais são completamente diferentes dos tamborins do Rio de Janeiro, e por aí vai. A música que vem da Bahia, desde Caetano Veloso passando pelo carnaval de Carlinhos Brown, sempre foi a que mais me interessou por sua alegria contagiante e personalidade.  B&C: Na hora de fazer um remix, o que conta mais? A melodia original da canção, a necessidade de um ritmo específico para encaixar nos seus sets, ou, quem sabe, até a letra da música? Como é feita a seleção? ZP: Sou um pioneiro solitário nessa história de remixar a música brasileira. Os DJs, em geral, ainda têm um enorme preconceito em tocar a nossa música em qualquer formato. Sempre fui um apaixonado pela MPB e quando consegui ter meu trabalho observado  pela mídia e pelo grande público, imediatamente comecei a produzir remixes que trouxessem, para a pista e para um público mais jovem, clássicos como


Maria Bethânia, Elizeth Cardoso e Nara Leão. Tenho sempre o cuidado de manter a letra e a harmonia originais da canção, respeitando as intenções desse ou daquele artista. A escolha dessas músicas é sempre sentimental e intuitiva, lembranças de uma criança apaixonada pela música brasileira. B&C: Você trabalhou com o Gui Boratto em 2005, o que foi uma verdadeira revelação sua. Você se considera um caçatalentos? Pode apontar o nome de alguns artistas novos a quem devemos prestar atenção? ZP: O Gui Boratto hoje é um orgulho para os DJs no Brasil por seu trabalho extremamente original e bem feito. Quando fui até ele e o convidei para produzir o meu segundo disco, ele se mostrou cheio de ideias e, acima de tudo, um apaixonado pelo projeto de remixar a MPB. Nesse meu terceiro disco chamado “Essa Moça Tá Diferente”, tno qual só aparecem remixes de cantoras brasileiras, chamei o produtor André Torquato que também tem um trabalho muito interessante de música eletrônica. Juntos, fomos indicados ao prêmio de  melhor disco de música eletrônica de 2010. Estou sempre atento aos DJs e produtores que aparecem no mercado, mas infelizmente poucos se interessam por música brasileira.

“Sou um pioneiro solitário nessa história de remixar a música brasileira. Os DJs, em geral, ainda têm um enorme preconceito em tocar a nossa música em qualquer formato.”

B&C: Você tem 3 CDs lançados, um livro, trabalhou em TV, rádio e fez trilhas para eventos. Existe algum outro caminho que tem vontade de explorar e levar seu vasto conhecimento? ZP: Acabo de abrir uma gravadora chamada Jóia Moderna, que terá em seu casting apenas cantoras que estejam fora do mercado ou que queiram começar sua trajetória. Inicialmente, agora em fevereiro, sairão quatro lançamentos: Zezé Motta cantando Jards Macalé e Luiz Melodia; Cida Moreira interpretando de Amy Winehouse a Chico Buarque; um com quatorze cantoras interpretando o compositor Taiguara e uma cantora paulista chamada Silvia Maria, que não gravava um disco há exatos trinta anos. Espero, com esse projeto, iluminar a história da nossa música, tão diferente e tão rica. N O V E M B R O 2 0 1 0 | 99


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Playlist de Remixes

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Marisa Monte Infinito Particular (Infinity Mix)

Amelinha Frevo Mulher (Eletro Mix)

Alcione Sufoco (Samba House Mix)

Rita Ribeiro Cavaleiro de Aruanda (Saravah Mix)

Maysa Canto de Ossanha (Afro Mix)

Maria Alcina Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua (Funk Mix)

Beth Carvalho Vou festejar (Alegria Mix)

Mart’nália Cabide (Nêga Mix)

Clara Nunes Morena de Angola (Tribal Mix)

Elis Regina Vou Deitar e Rolar (House Mix)


REFÚGIO NACIONAL

Solar da ponte Refúgio de luxo no centro histórico mineiro.

Por Felipe Filizola

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FotoS DIVULGAÇÃO

ituada na rota do ouro mineira e com um dos centros históricos da arte barroca mais bem preservados do Brasil, Tiradentes foi proclamada, na metade do século XX, patrimônio histórico nacional tendo suas casas, lampiões, igrejas, monumentos e demais partes recuperadas. A importância turística da cidade ganhou ainda o presente do casal John e Anna Maria Parsons, que transformaram a estrutura abandonada de um casarão colonial no refúgio Solar da Ponte. Desde os anos 70, a pousada recebe com beleza e conforto turistas que visitam o estado em busca da história da colonização brasileira. Situado no centro histórico de Tiradentes, o Solar sempre esteve comprometido com a preservação da cidade e com seu entorno natural e contexto histórico-cultural, oferecendo aos hóspedes um ambiente de encanto, recriando a tradição mineira de receber bem.

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A bela vista de Tiradentes pode ser apreciada da pousada. Na pĂĄgina ao lado, a sala de leitura e lareira do Solar da Ponte.

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REFÚGIO NACIONAL

Elegante, a decoração clássica da pousada é coerente com o clima da cidade, valorizando móveis de época e o artesanato local.

VALORIZANDO TRADIÇÕES Destacando-se dentre as tradicionais construções de Tiradentes, com vista para a praça principal e para a ponte, a pousada guarda belezas em seu interior de decoração clássica e móveis antigos compondo as diversas salas. Mobiliado com elegância, o Solar possui uma decoração coerente com a cidade, valorizando o artesanato regional, principalmente em objetos feitos em madeira, pedra-sabão, latão, folha de flandres, tecelagem, prata e estanho. Os 18 quartos seguem o mesmo padrão, com camas altas, ótimo enxoval, roupões e aquecedores de toalhas. Alguns ainda contam com vista para o belo jardim interno da pousada. Hóspedes e visitantes da cidade podem desfrutar da gastronomia local, refletidas no café da manhã servido com receitas

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típicas de Minas Gerais. Por conta da origem inglesa de seu fundador, a fartura gastronômica se repete ao pôr do sol, no chá da tarde. No almoço e jantar, aparecem no cardápio receitas de gastronomia mineira, típicas do Ciclo do Ouro do século XVIII. Apelidada de dieta do tropeiro, uma das mais ricas e originais culinárias do País, aparece em pratos de carnes e grãos cozidos sem pressa. A área social ainda conta com sala de leitura com lareira e livros raros, além de varandas, jardins, piscina e sauna. O agradável ambiente, sua estrutura e bom serviço renderam ao local a inclusão entre os “101 Best Hotels of the Word” da revista inglesa Tatler em 2005, além do importante selo turístico Condé-Nast Johansens, em 2006.


“Desde os anos 70, a pousada recebe com beleza e conforto turistas que visitam o estado em busca da história da colonização brasileira.”

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REFÚGIO NACIONAL

As ruas de pedra de tiradentes

EXPLORANDO A REGIÃO Antiga São José do Rio das Mortes, a cidade de Tiradentes é uma das Vilas do Ouro assentada durante o século XVIII. Criada no auge do período da mineração, a cidade preserva, do seu passado colonial, monumentos religiosos e civis, tombados como bens culturais do Brasil. Opções de passeios turísticos não faltam para quem se interessar em explorar a região. O centro histórico, que pode ser percorrido a pé, possui joias da arquitetura colonial, como as igrejas, exemplares do barroco mineiro. Os adeptos de cavalgadas ainda contam com essa opção em passeios organizados na Mata Atlântica preservada, com sua flora e fauna. É possível seguir pelas trilhas dos antigos tropeiros ou caminhos históricos abertos pelos primeiros desbravadores. 106 | M A R Ç O 2 0 1 1

Para uma aventura de outrora, o passeio de Maria Fumaça até a vizinha São João Del Rei proporciona ao viajante do trem belas paisagens e um percurso dentro de uma locomotiva original em bitola estreita em perfeito funcionamento, como nos áureos tempos do Ciclo do Ouro. A região ainda é muito procurada pelo seu carnaval de rua. Na cidade que respira historicidade e memória em suas ruas de pedra, a alegria dos foliões fica por conta do som de bandas que eternizam as músicas carnavalescas e dos desfiles de blocos, lembrando o antigo carnaval de rua animado ao tom das marchinhas. Enfim, uma ótima época para conhecer a história nacional e se divertir, juntando cultura e folia e o conforto de noites bem dormidas no Solar da Ponte.


LEITURA

Carnaval no fogo A OBRA DOS ANOS 90 ESTÁ MAIS ATUAL QUE NUNCA Por felipe filizola Fotos divulgação


Ruy Castro não

nasceu no Rio de Janeiro, mas deveria ser considerado mais carioca “da gema” do que muitos outros nascidos e vividos na capital fluminense. Natural da mineira Caratinga, o jornalista e autor escreveu sua história como profundo conhecedor do Rio, transformando em linhas e parágrafos a história da Cidade Maravilhosa. Sua primeira obra publicada, Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova – reconstitui a trajetória do estilo musical numa narrativa romantizada, porém baseada em fatos reais. Também de forma romantizada, Castro escreveu biografias de Carmem Miranda, Nelson Rodrigues e Garrincha. Se o seu estilo de escrita é um traço autoral, um tema em suas publicações une suas obras: o Rio de Janeiro. O amor pela cidade se reflete na obra “Carnaval no Fogo – Crônica de uma Cidade Excitante Demais”. A obra faz parte da série “O Escritor e a Cidade”, que retrata o espírito do estilo de vida de outras urbes. Entre as obras estão “Paris, Os Passeios de Um Flâneur”, de Edmund White e “Florença, Um caso Delicado”, de David Leavitt. Completamente adequada, então, a opção do autor para o desenvolvimento de tal obra.

Sex-appeal e violência Verdadeira biografia da antiga capital brasileira, Ruy Castro nos presenteia com uma explicação em ordem cronológica de como a cidade se formou, partindo do batismo da cidade em 1502 pelo navegador italiano Américo Vespúcio e chegando, no prólogo, ao fechamento do comércio de Ipanema por ordens dadas pelo tráfico, ignorado pelo povo ávido por diversão carnavalesca que seguiu festejando atrás de blocos. O autor discorre, nesses 500 anos de história e 256 páginas de papel Pólen Soft, sobre a relação entre sexo e violência que marca a história guanabarina. Se por um lado, o conflito violento aparece desde a escravidão até o domínio do tráfico, o sexo também tem sua importância na formação do caráter da

cidade, seja pela tradição do Carnaval, pela sua encosta litorânea ou seu clima tropical. Apesar do título, “Carnaval no Fogo” não é um livro sobre o famoso Carnaval da cidade, mas um retrato da vibrante atmosfera carioca, onde há sempre uma excitação no ar. Por ele, ficamos sabendo que, enquanto os poetas flertavam com jovens da sociedade nos cafés, durante a Belle Époque, eclodiam revoltas que quase destruíram a cidade; que as calçadas com desenhos de ondas em Copacabana, famosas pela sua sensualidade, foram batizadas com sangue; e que, mais de cem anos antes das garotas de Ipanema, já as garotas da rua do Ouvidor tinham adotado o chic francês para nunca mais o largar.

O Rio encanta Como qualquer apaixonado, o objeto retratado tem seus defeitos vistos como benefícios, ou então diminuídos frente às inúmeras qualidades listadas. Nada que desmereça, no entanto, essa longa crônica que comenta os personagens e sua história, ilustrada com o traço livre de Felipe Jardim e idealizada por Raul Loureiro. Se a pesquisa teórica que consumiu dois anos para completar a obra não foi suficiente para a conclusão do livro, Castro aventurou-se pelas ruas da cidade em busca de fatos que completassem a história. Segundo o autor, as ruas são o “habitat natural do carioca”, e não poderiam ser deixadas em segundo plano. As ruas do Rio, onde as índias recepcionaram os portugueses e onde desembarcaram os africanos e franceses, vivenciaram a formação dos costumes brasileiros e criaram o lifestyle carioca, admirado pelo resto do mundo atualmente. Ainda que 20 anos separem o lançamento do livro da presente data, o tema é mais que atual, enquanto o mundo se volta ao Rio de Janeiro buscando inspiração em seu modo de vida. Capa por duas vezes no último ano da aclamada revista inglesa Wallpaper, e referência de moda para grandes marcas internacionais como a italiana Prada e a sueca ACNE, a cidade revelada por Ruy Castro em suas obras ainda tem muito para ensinar ao mundo.

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NA REDE

On-line Não é fácil aproveitar todas as possibilidades da rede, o mundo está on-line. Por isso os criativos da agência de propaganda J3P selecionaram alguns links interessantes que abrirão novas portas para sua navegação.

www.filemagazine.com “Site dedicado à fotografia, mais propriamente a fotografias inesperadas. As postadas, de alguma forma, mostram sua beleza de maneira diferenciada, com ângulos alternativos, observações não convencionais, interpretações originais, deixando de lado todos os clichês. Após uma rigorosa análise, o público apreciador do site pode ter sua própria foto postada. O material é, sem dúvida, rico e selecionado.” Rodrigo Pereira, Diretor de Arte

www.thecoolhunter.net

www.notcot.org

“O site celebra a criatividade, inovação e originalidade em todas as suas manifestações, tornando-se uma referência mundial de cultura, leitura e design. Hoje conta com mais de 1 milhão de leitores únicos mensais, que se conectam em busca de estilos e tendências. A visita vale a pena para observar/antecipar as tendências em todos os seus aspectos, através de matérias inteligentes, surpreendentes, com muito requinte e sofisticação.” Rodolpho Rivolta, Novos Negócios

“Site para oxigenar suas ideias, e cheio de referências estéticas e também divertido. Um excelente guia do que há de mais novo em arquitetura, street fashion, design e artes gráficas.” Cesar Rodrigues, Designer

www.fromupnorth.com

www.zeutch.com

www.grooveshark.com

“Site de referências bem bacanas, com conteúdo atualizado semanalmente, sempre traz inspirações dos mais diversos segmentos dentro da arte, como advertising, clothing, 3D, packaging, print, entre outros. Vale a pena conferir” Felipe Previtalli, Diretor de Arte

“É um site que agrega referências e tendências de diversas áreas: arquitetura, moda, arte, design, comunicação etc. Tudo que é vanguarda ganha destaque no Zeutch. Vale o acesso para ficar por dentro do que acontece de mais cool no mundo todo.” Rafael Carrieri, Redator

“Neste site é possível ouvir suas músicas preferidas e criar playlists totalmente on-line. O site ainda permite que você adicione amigos e indica músicas de estilos parecidos aos que você está ouvindo. Não é necessário baixar nenhum programa, só dar play e ouvir.” Claudio Tarandach, Redator

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